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domingo, 30 de novembro de 2014

(RE)LIDO #67





















NICK DRAKE  
PERPÉTUEL AUTOMNE - BIOGRAPHIE
de Laurent Toquet. Paris: Éditions Publibook, 2012
A edição francesa de um livro inédito sobre Nick Drake teria, à partida, fortes motivos de atracção. O músico teve uma ligação importante a França por onde andou à boleia na companhia de amigos de colégio (Verão de 1965), sendo a sua passagem por Aix-la-Provence (Verão de 1966) uma fase decisiva de inspiração, aprendizagem e crescimento da sua personalidade e, consequentemente, da sua música. Neste âmbito, diga-se desde já, este pequeno livro é uma desilusão. Ao longo de 65 páginas o autor limita-se a copiar e repetir histórias e factos banais, o que nos leva a questionar a sua pertinência e contributo. A biografia pioneira de Patrick Humphries está traduzida para francês desde 2009 e, assim, a utilidade da edição só pode ser uma: concretizar o desejo de alguém que um dia leu que Robert Smith era fã de um tal Nick Drake que ele desconhecia, partir à descoberta difícil da sua música numa França dos anos 80 e sem discos editados, ler alguns artigos de jornal e revista e, quase em auto-publicação como se depreende da editora em causa, contar a história insossa e sem qualquer rasgo de inspiração. Pretensioso, especulativo e inconsequente, até o suposto humor negro é de um mau gosto atroz. Para riscar da lista e esconder atrás da estante! Cruzes...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

(RE)LIDO #66





















NICK DRAKE - DREAMING ENGLAND
de Nathan Wiseman-Trowse. London: Reaktion Books Ltd, 2013
Incluído na interessante série Reverb da Reaktion Books, a abordagem ao culto pós-morte de Nick Drake e à sua íntima ligação à cultura inglesa alcança neste livro uma dimensão académica. O autor, professor de Música Popular na Universidade de Northmpton, esclarece desde logo ao que vem: "There are no explicit references to England, the country, or indeed Britain, the political union, anywhere in the music of Nick Drake." (p. 19). Sendo assim, a demanda na procura de sinais de uma intraduzível "Englishness" através do trabalho de Nick Drake espraia-se, principalmente, pelas líricas das suas canções, um "jogo", diga-se, muito difícil de (de)terminar... Romantismo, melancolia e até misticismo são alguns dos estados de alma que emanam da música de Drake mas nunca como neste livro se percebe quais as influências e ligações que o trovador encontrou na poesia inglesa (Keats, Blake, etc.) ou na sua cultura e tradições. No nosso caso, é o campo, a natureza, a chuva, as nuvens, as árvores, o sol ou a lua que permitem que a magia sonora se eternize e que sempre associamos à paisagem britânica, ao seu coutryside, às suas casas gradeadas, ou às suas estradas estreitas atravessadas pausadamente por automóveis vintage. Curiosamente, logo na introdução aparece uma fotografia da série "Reviver o Passado em Brideshead" de 1981 em que os personagens Charles e Sebastian, deitados sob uma árvore num bonito dia de sol, fumam um cigarro. O autor adianta que, perante este cenário, quase podemos ouvir o "River Man" a ecoar baixinho como banda sonora de um certo pastoralismo nostálgico por contraponto a um ambiente mais urbano que não se reflecte de forma tão nítida nas canções. A esta dicotomia campo/cidade o autor dedica um só capítulo da obra, por sinal o mais interessante, embora a presença de sinais citadinos seja mais ambígua e cinzenta dado até o facto de ter sido em Cambridge e Londres que a vida de Drake começou a "andar para trás". O seu regresso a Far Leys, a mansão-mãe de ambiente rural, num derradeiro fôlego para agarrar a vida haveria de ser a tentativa desesperada de não perder um passado em família rodeado de jardins, árvores e cursos de água, onde Drake continuamente se inspirou e aconchegou como facilmente se conclui da leitura agradável deste livro. Haverá, mesmo assim, algo atrás do sol que nunca vamos querer perceber...

About the farmers and the fun
And the things behind the sun
And the people round your head
Who say everything’s been said
And the movement in your brain
Sends you out into the rain

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

(RE)LIDO #61





















UP AND DOWN WITH THE ROLLING STONES
MY ROLLERCOAST RIDE WITH KEITH RICHARDS 
de Tony Sanchez. London: John Blake Editions, 2010
A fotografia da capa não engana. Olhos vidrados e cigarro na ponta dos lábios, uma imagem de marca de Keith Richards que o tempo nunca há-de apagar. Dependente e truculento, o próprio tratou de explicar-se na biografia oficial para quem, como nós, quis acreditar. Muito antes (1979), contudo, já um tal Tony Sanchez tinha posto a boca no trombone com a edição deste livro revelador da sua íntima ligação a Richards desde os anos 60 no papel principal de dealer mas onde acumulou funções de guarda-costas, intermediário, motorista, mecânico ou enfermeiro... Filho de emigrantes espanhóis, Sanchez conhecia o sub-mundo de Londres como ninguém e cedo se viu envolvido pelas taras e manias de toda a entourage dos The Rolling Stones, iniciando uma amizade com Brian Jones rapidamente permeável aos The Glimmer Twins (Richards/Jagger), tendo presenciado, supostamente, todos os altos e baixos da banda, da noite negra de Altamont à mítica estadia em rodopio no Sul de França, passando pela suposta transfusão de sangue de Richards por terras suiças para limpar vestígios inadequados ou as atribulações do célebre concerto no Hyde Park. E depois há as mulheres, qual delas a mais bonita, qual delas a mais alucinada: Bianca Jagger, Marianne Faithfull, de quem foi amante e fornecedor e Anita Pallenberg, personagem chave em toda a história e com papel decisivo nos altos e baixos dos próprios Stones. Acredite-se ou não, o certo é que a sequência e teor dos factos relatados permite-nos penetrar numa montanha-russa de acontecimentos quase irreais que o próprio Richards classificou como exagerados sem os desmentir e que, ao que parece, teve ainda capítulos censurados. Diversas vezes reimpresso e alterado, o livro continua a fazer as delícias de uma grande maioria de fãs (basta conferir os comentários na página da Amazon inglesa) e na versão aqui em destaque a história prolonga-se até 1989, ano decisivo para reunião tremida da banda. Tony Sanchez, falecido em 2000, pode ter sido ajudado pelo próprio editor John Blake a escrevê-lo, pode ter sido vagamente biografado, pode até dar nome a uma banda espanhola (Spanish Tony Sanchez, como era também conhecido) e onde o livro foi traduzido o ano passado, mas o seu nome estará para sempre gravado, para o mal e para o bem, numa aventura ainda não terminada e onde a culpa involuntária tem o nome de "Brown Sugar" ou de "Dead Flowers", vulgo papoilas...  



terça-feira, 15 de abril de 2014

(RE)LIDO #60





















OS BEATLES NA IMPRENSA PORTUGUESA 1963 - 1972
de Abel Soares Rosa. Lisboa; Blogue Beatles Forever, 2013
Este caderno colorido que nos chegou às mãos é mais uma aventura dos "tolinhos" dos de Liverpool que insistem em arriscar a edição cá pelo canto de matéria desprezível para muitos mas saborosa para mais alguns "tolinhos" como o aqui da casa. Nota-se, pelo entusiasmo do autor, que a "coisa" não vai parar e se o "assunto" parece esgotar-se a cada nova publicação é só uma questão de esperar pela próxima surpresa. Depois dos discos, o destaque cabe agora à imprensa portuguesa e ao florescimento do "fenómeno" por esse mundo fora. O conjunto de fac-símiles aqui incluídos incide em matéria leve e dita sensacional que revistas como a "Flama", "O Século Ilustrado", "Plateia" ou a "R&T Rádio Televisão" publicaram na época e que reflectem, quase sempre, um jornalismo acrítico mas também limitado por uma censura activa. Na edição da "Flama" de 28 de Agosto de 1964 (pag. 21), por exemplo, que na capa escreve "Os Beatles: Gente que faz pensar", recolhem-se no interior um conjunto de testemunhos curiosos e, certamente, controlados de alguns jovens estudantes e profissionais e onde um tal Armando Marques Ferreira, produtor radiofónico, conclui que "como pessoas e como artistas os "Beatles" reflectem o mais lamentável sector da época que atravessamos"! O padre João Cabeçadas, por seu turno, sobre esses "meninos ingleses, que já não se distinguem das meninas", afere, entre outras suposições, que "Não podemos julgar os nossos jovens por algumas centenas de meninos e meninas que se deixam arrastar por essa nova vaga". Está dito... e escrito! A imprensa, não fugindo à regra, preferiu a insistência no fait-divers à volta das namoradas, das mulheres, dos divórcios, das férias (como as Paul McCartney no Algarve em 1968), das fortunas e até um inacreditável artigo titulado "Os Beatles Conversam Com os Mortos" (pág. 109) onde se dá conta das conversas "espíritas" dos Fab Four com Brian Epstein falecido em Agosto de 1967 ("O Século Ilustrado" de 13 de Dezembro de 1969). Maldita cocaína! Não faltam, contudo, exemplos de bons artigos, ditos "mais sérios", sobre o importante - a música - como são o caso de "Beatles: Retrocesso ou Progresso?" assinado por Rui Manuel Pedroso Neves no "Século Ilustrado" de 4 de Janeiro de 1969 e a resenha certeira "The Beatles: recapitulação necessária ou quatro cabeça uma década" da autoria de Jorge Letria na revista "Diapasão" de Janeiro de 1972 onde profeticamente se atesta: "A influência desenvolvida pelos quatro Beatles na juventude da última década, é de certeza tão importante como assumida a um nível tecnológico pelas experiências espaciais. Quem duvidar que olhe bem para trás e responda então.". Ficamos, ansiosamente, à espera de um novo volume...     

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

(RE)LIDO #59





















FIVE LEAVES LEFT
de Courtney Seiberling. California: The Antar Press, 2010
Um livro de bolso, tamanho postal, com setenta páginas tem algumas vantagens. Lê-se num ápice, leva-se para todo o lado e não ocupa muito espaço nas estantes. O tamanho da letra terá que ser obviamente pequeno, o que neste caso assume proporções microscópicas de leitura proibitiva em ambientes pouco iluminados, correndo-se ainda o risco de lhe perdermos o rasto no meio dos cobertores, nas frinchas dos sofás ou... num bolso de um casaco. Se o tamanho não importa (ups!), as capas e títulos ajudam a chamar a atenção. Courtney Seiberling parece que recebeu de prenda do namorado os três discos de Nick Drake e, claro, gastou-os até à exaustão, mordeu os lábios muitas vezes e imaginou cenários para as canções. Para o seu primeiro livro escolheu, então, o também primeiro álbum de Drake como fonte inspiradora, dando-lhe o mesmo nome e uma capa de motivos e cores indisfarçáveis. As histórias que decidiu contar são tantas como os temas do álbum, os mesmos títulos e sequência, chegando ao pormenor de separar o livro um (Lado A) do livro dois (Lado B)... Há personagens como Betty em "River Man", Mary Jane em "Thoughts of Mary Jane", um Jeremy em "Three Hours" e cada narrativa vale por si, sem implicações ou conexões, de geografia variada que pode ser Londres, Paris, Pensilvânia ou Bled (Eslováquia)! Como no disco, transpira algum sentimento de tristeza e desalento, não havendo nenhum final feliz para nenhum dos relatos e embora, como notado, não se queira (nem podia) explicar as canções, o resultado é titubeante. Ou seja, uma boa ideia impressa, ao que parece, no vale da morte californiano e onde ela, a morte, é mesmo a indesejada personagem principal. Mas essa, o próprio Drake cantou-a como ninguém!       


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

(RE)LIDO #58





















GEORGE HARRISON 

LIVING IN THE MATERIAL WORLD 
de Olivia Harrison. New York: Abrams, 2011
Entre a infindável bibliografia sobre os Beatles antes e depois da separação e imaginando nós um corredor de estantes virtuais sobre o assunto, as publicações sobre George Harrison não ocupariam certamente muito espaço. Os restantes Fab Four sempre foram mais badalados e atraentes como fonte inspiradora de biografias, análises e pesquisas reveladoras de pormenores e episódios e muito estará eternamente por contar. A palavra "definitivo" é um epíteto proibido no que aos Beatles diz respeito, mas ao folhear este volume foto-biográfico de Harrison quase que arriscamos dizer que, sobre ele, este será "o" livro por onde se deve começar e acabar. Um arquivo pessoal de imagens da sua autoria a que se acrescentam comentários, cartas, diários e alguma memorabilia, tudo numa seleccão carinhosa e de bom gosto da sua esposa Olivia Harrison, permitem uma viagem visual convincente e abrangente sobre as suas paixões, projectos ou cumplicidades - a obsessão pela guitarra em Liverpool, os anos com os Beatles, a Índia e Shankar, o concerto percursor a favor do Bangladesh, as corridas e os bólides, passando pelos Travelling Wilbury, os Monthy Pyton ou a aposta quase mecenática na Hand Made Films, há neste volume uma riqueza tocante e até comovente que ressalta em contínuo da primeira à última página. Sobra, mesmo assim, um mistério intrínseco que, nas suas palavras, se confirma talvez intencional e sedutor: "I play a little guitar, write a few tunes, make a few movies, but none of that's really me. The real me is something else." (p.380). Algo no caminho...  

sábado, 5 de outubro de 2013

(RE)LIDO #57





















A DESUMANIZAÇÃO
de Valter Hugo Mãe. Porto: Porto Editora, 2013
Depois de lermos no "JL" e no "Ípsilon" sobre a "deusa Bjork" os Sigur Rós e outros que tal, de vermos as magníficas fotografias islandesas comentadas na "Ler" a fazerem lembrar o deslumbrante filme "Heima", já para não falar na sisma com "bocas e rabos" confirmada na "Visão", descemos pela noitinha à livraria mais próxima, tiramos um exemplar dum género de expositor exclusivo (eia!) do livro, regressamos a casa depressinha e, com banda sonora nos ouvidos que julgávamos apropriada (os últimos do Múm e dos, claro, Sigur Rós), atacamos ferozmente a novidade. Menos airoso que últimos romances, a escrita sugeriu-nos um regresso aos tempos idos das minúsculas do "nosso reino", ambientes nortenhos e cinzentos de vidas desgraçadas e soturnas, nada, mas mesmo nada, felizes e, ainda assim, quase fantásticas. É na Islândia, mas podia ser em Caxinas profunda ou em Câmara de Lobos, que a gémea Halldora, agigantada pela morte da irmã mais velha, cedo nos inquieta a alma e os pensamentos em frases curtas e secas. A tal banda sonora escolhida era por esta altura um incómodo que demoramos a perceber não fazia sentido, de efeito irritante e, zás, retirados os auscultadores, num fôlego estávamos no fim da primeira parte. Respirar fundo e... é melhor parar. O resto fica para daqui a uns dias. Apagamos a luz. Sem sono e a matutar no raio da Halldora e no Einar, não demorou dez minutos para voltarmos para a segunda parte... até ao fim. Uma parte, por sinal, mais romanceada e luminosa, de frestas mais coloridas e uma personagem marcante, a magnífica Thurid, que toca um encantado orgão.
Um passo corajoso, mais um, de um Hugo Mãe ultra-dimensional e surpreendente e de quem ficamos à espera de uma, desde já, reclamada sequela que este "Saeglópur" em imagens, vai-se lá saber porquê, nos sugere!

      

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

(RE)LIDO #56





















A MÚSICA DO ACASO
de Paul Auster. Porto: Edições Asa, 2005
Como bons austerianos entramos neste livro sem ler qualquer sinopse ou resumos, esperando como sempre que o autor nos conduzisse por caminhos e ambientes inéditos, surpreendentes e até inverosímeis. O título da obra, contudo, fazia supor um guião com ligações sonoras ou musicais o que, lá está, não é bem o caso. A tal música ocasional resume-se concretamente a uma série de cassetes de compositores clássicos tocadas ao volante de um carro em contínuo andamento, refúgio de um desolado bombeiro recém divorciado à procura do nada enquanto rebenta com uma considerável herança monetária. Uma boleia a um azarento jogador de póquer em fim de noite transforma o seu destino numa arriscada jogada de tudo ou nada que mais não é que uma desesperada fuga para frente de consequências inesperadas e quase nonsense como a construção de um enorme muro de pedra... Poderá não ser dos melhores livros do autor e é até assustador pensar no filme realizado a partir desta história, mas a metafórica visão do ser humano, os seus defeitos e virtudes agarram-nos sem dificuldade à trama e, obviamente, ao drama final que o escritor sabe como ninguém adensar e preparar. Sempre um maestro, este Auster! 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

(RE)LIDO #55




















A VISITA DO BRUTAMONTES
de Jennifer Egan. Lisboa; Quetzal, 2012
A separação pouco clara entre o que pode ser um simples romance ou uma colecção de pequenes histórias que se entrecruzam de forma quase aleatória talvez tenha convencido o júri do Prémio Pulitzer de 2011 a dar uma recompensa a este livro. Não é fácil, contudo, "entrar" nesta narrativa já que a fórmula que autora aprimorou revela-se propositadamente enervante e, nalguns casos, confusa. Há, no entanto, um fio condutor que tem no universo da música o condimento irresistível para nos levar a não desistir facilmente, principalmente quando os personagens nos sugerem vidas e ambientes que parece que sempre conhecemos. Discos, bandas, canções ou concertos são o pretexto para uma diversidade de ambientes e locais onde se promovem traições, vinganças e desalentos de uma geração em declínio muito aproximada à nossa e que, está bom de ver, se auto-destruiu. Um circuito que abre e fecha no mesmo sítio, de sinuosos trilhos e facetas, onde a autora aplica diferentes doses de sátira, ternura e, claro, tragédia. Depois há, no último terço, setenta e cinco páginas de Power Point's para ler na horizontal, muitos deles sobre canções com pausas no meio e a sua respectiva duração, uma mania de um dos personagens que deve ter dado um trabalho monumental a pesquisar porque as referências e cronemetragens são mesmo reais (fomos confirmar, claro, como por exemplo o "Roxanne" dos Police entre o minuto 1:57 e 1:59). Não é que gostamos muito destes Power Point's num romance? Ah, o tal brutamontes só se descobre no fim mas basta ver como é que os brasileiros traduziram o título original para perceber de quem se trata... Todos o conhecemos!

sábado, 17 de agosto de 2013

(RE)LIDO #54





















THE CELESTIAL CAFÉ
de Stuart Murdoch. London; Pomona Books, 2011

"Funny things, songs. Have I talked to you before about how I considered them a bastard art? Nothing’s changed here. I still find them like an excuse: for a storyteller who can’t sustain his story past paragraph. For a filmmaker who gives up writing a musical after one number.
Still, there’s nothing like music for capturing an immediate emotion, or for translating an abstract surge of pleasure into something tangible. And what a thing! An everlasting tangible sensation." (p.304)

Escrever canções é para Stuart Murdoch, vocalista e mentor dos Belle & Sebastian, uma forma de vida não obsessiva ou metódica, mas uma tarefa ondulante que aporta prazer e, certamente, muita, muita emoção. A inspiração para essa “arte bastarda” não tem receita certa nem prazos de validade e, por isso, vale sobretudo a existência de um dia-dia diverso com base numa cidade, Glasgow, epicentro a partir do qual, sem aparentes tiques de estrela rock, Murdoch nos vai revelando ao jeito de diário descontínuo algumas histórias, pensamentos e confissões que surgiram entre 2002 e 2006 no blog da banda. O tal café celestial não tem nome ou morada precisa mas estende-se a muitos outras urbes europeias, americanas e até australianas para digressões com os B&S, para a gravação de discos, sessões ou entrevistas onde se revelam muitas das facetas de um músico pouco dado a exageros rock'n roll. Desportista praticante (corrida ou bicicleta), fervoroso adepto de futebol (muitas referências aos jogos informais que organiza principalmente em ambiente de festivais de verão) e do frisbee, surpreendeu-nos a sua religiosidade, a proximidade à igreja e a fé em Deus mas também a sua paixão pelo cinema, a rádio ou a música dos anos oitenta vertidas em algumas listas com os melhores filmes com Los Angeles como cenário ou de canções dadas a descobrir pela argúcia de John Peel. Funciona tudo sem fio condutor obrigatório o que nos proporciona uma leitura quase romântica e, lá está, cinematográfica de uma vida intensa e que, sem nos apercebermos, já conhecíamos pelas charmosas canções dos B&S. Esperamos que logo mais à noite o anfiteatro de Coura sirva para que Murdoch e companhia nos "projectem" sem contemplações uma película inesquecível há muito esperada. É que é em festivais como este, como se depreende do parágrafo abaixo, que a banda costuma fazer magia...  

"The summer will be good because the festivals are more like guerrilla affairs, where you turn up ready for anything. You could be playing in front of 40,0000 people who are really into it, or 1500 who don’t know who you are. There’s more time to dream to be social, more time to dream. Gigs are terrific when you’ve got something, anything else happening in your day, your life. If they are absolutely everything you have, then it’s going to drag you down eventually". (p.308) 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

(RE)LIDO #53





















100 POSTERS 134 SQUIRRELS
A Decade of Hot Dogs, Large Mammals, and Independent Rock: The Posters of Jay Ryan
New York; Akashic Books, 2010
Temos pelos posters de concertos uma atracção fatal. Roemos ainda mais as unhas enquanto não deitamos a mão a um qualquer afixado numa parede de um bar ou de uma sala de espectáculos, nervos que aumentam se o artista estiver por perto e na disposição de lhe escrever em cima uma pequena dedicatória ou rabiscar uns desenhos. Já alcançamos algumas "vitórias" saborosas, uma tradição longínqua iniciada num concerto dos Go Betweens no Porto há largos anos. Claro que nem sempre o cartaz ou a imagem que anuncia o concerto é do nosso agrado, mas vale quase sempre a intenção, ou seja, o cuidado posto pelo promotor, banda ou artista no anúncio do evento. Para o efeito convidou-se geralmente um amigo cúmplice que gosta também de música e que, ouvindo as canções, trata de se inspirar adequadamente. Criam-se, assim, laços afectivos surpreendentes o que no caso do americano Jay Ryan implicou responder a desafios lançados pelos Shellac, Interpol, Queens of The Stone Age, Low, Stereolab ou Andrew Bird, só para citar alguns nomes agora mais conhecidos pelo velho continente. Como qualquer banda em início de carreira, esta colaboração com um criador ele próprio um músico com banda (Dianogah) permitia atingir um público-alvo restrito mas desde logo atraído pelo inusitado e sempre atractivo cartaz. Acresce o gosto de Ryan por animais, presença quase obrigatória em muitas das suas produções, principalmente os esquilos que se transformaram numa imagem de marca muito própria. Das paredes de clubes locais ou esquinas das ruas de Chicago para as galerias de arte demorou pouco tempo para que a sua inconfundível arte se transformasse numa referência internacional e o seu pequeno mas já famoso estúdio “Bird Machine” um caso de sucesso que junta a tipografia tradicional, as artes gráficas, o design e a música independente. Uma receita condenada a vencer e, em tempos virtuais, a sobreviver com arrojo! 




sexta-feira, 2 de agosto de 2013

(RE)LIDO #52





















FELL IN LOVE WITH A BAND

THE STORY OF THE WHITE STRIPES
de Chris Handyside. Nova Iorque; St. Martin's Griffin, 2004
Vai para mais de dez que descobrimos os White Stripes. Antes, até que reparávamos nos discos pousados nos escaparates mas nunca lhes ligamos muita importância, desconfiando que a insistência no branco e vermelho das capas e respectivas vestimentas cheirava a pretensiosismo bacoco e fora de moda. Com a explosão de "Seven Nation Army" (35 milhões de visualizações no youtube desde 2008!) do álbum "Elephant" e com a multiplicidade de benções de John Peel e da MTV não resistimos a dar-lhes uma oportunidade de escuta mais séria. Resultado, ficamos siderados e, tal e qual o título do livro, apaixonados! Uma bateria e uma guitarra ao desafio, quase em desuso, soavam mais consistentes e frescas que muitas das tradicionais bandas rock e, claro, começamos desde logo a puxar o fio à meada tentando recuperar o tempo perdido. Amiúde, lá surgiam as mesmas dúvidas e enigmáticos mistérios sobre tão badalada parelha de irmãos, ou seria marido e mulher?
Esta primeira biografia da banda, escrita pouco tempo depois da explosão mediática, traça a narrativa sonora da dupla de Detroit com incursões ténues nas respectivas genealogias apostando, e bem, em tentar dar a perceber os meandros do panorama musical da cidade de final dos anos noventa, principalmente os relativos a Jack White, os seus múltiplos projectos, influências, interesses, gostos (o eterno vinil) e aspirações. Pena que autor o faça de forma tão descuidada, num inglês que nos pareceu demasiado informal o que, mesmo assim, não retira mérito ao esforço. Permite entender de forma definitiva que a genialidade da banda não era um acaso, mas resultado de uma tomada de decisões e passos em frente de maturação ponderada, defendendo direitos de autor (a criação da Third Man Records), quais as más e boas companhias promocionais (os videos do Michael Gondry ou a empatia com Conan O'Brian), tournées desnecessárias ou duetos certeiros (com o herói Dylan p.ex.). Destapam-se, por outro lado, alguns improváveis desacertos de caminho, como a sempre negada participação de Jack em "Danger! High Voltage", hit de uns tais Electric Six, os murros certeiros no vocalista dos Von Bondies (lembram-se?) ou o pré-divórcio com Meg White mesmo antes do primeiro disco (sim, eles não são mesmo irmãos). Mesmo assim, a cumplicidade da dupla nunca foi sequer beliscada como testemunhado em 2007 em Algés na única e abençoada aparição por terras lusas. Ficará por saber, no concreto, porque raio acabaram os Stripes! Uma birra passageira de Meg? Isso será assunto, certamente, para novo livro...              


sábado, 27 de julho de 2013

(RE)LIDO #51




















NEVERLAND  
THE UNREAL MICHAEL JACKSON STORY
de Simon Crump. Londres: Old Street Publishing, 2009
Ao longo da última década as notícias sobre a inacreditável vida de Michael Jackson fizeram as delícias da imprensa cor-de-rosa e não só. Um cocktail explosivo de excentricidades, bizarrias e inadequados comportamentos conduziram, na maioria das vezes, a que quase fosse esquecida a razão de ser tamanho êxito - a qualidade da voz, das canções, da maioria dos álbuns e até, vá lá, dos seus espectáculos. O estatuto de icone pop tinha uma faceta subversiva que se alimentava até à exaustão de todo este espectáculo e Jackson não soube nunca como se defender do viral e constante assédio, facilitando com as suas atitudes e incongruências a multiplicação do circo. Inspirado nele, Simon Crump escreveu um conjunto de historinhas soltas que, longe do estatuto de romance, tem por guião aqueles episódios e situações a que o rei da pop nos foi habituando: o rancho de Neverland, a Lisa Marie Presley, os animais, os fãs, as criancinhas ou os inesperados casamentos, em que assume papel principal um tal Lamar, antigo segurança de Elvis Presley, contratado anos depois para todo o serviço... O autor, que tinha já escrito um primeiro livro do género sobre o próprio Elvis com direito até a banda desenhada animada, não se fez rogado e, carregando na subversão, diverte-se a imaginar cenários em que Jackson tem, juntamente com um tal Uri, o papel de... palhaço! E, sendo assim, não há limites para linguagem, a repetição, o exagero e mesmo o obsceno. Crump não contava era com uma coincidência - o livro acabaria por sair pouco tempo depois da morte de Michael Jackson e por isso viveu, entre algumas polémicas, um êxito contido mas compreensível. Absurdo ou repelente, misterioso ou lunático, serão muitos os adjectivos para uma obra intrigante e divertida como esta mas que, penosamente, nos questiona também sobre a decadência de uma face previsível e, certamente, fragmentada de um mito.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

(RE)LIDO #50




















PERDIDOS NA AMÉRICA
de Joey Goebel.Lisboa: Edições ASA, 2009
"Cinco pessoas que o inconformismo une numa amizade improvável e naquela que será a banda de rock mais estranha do mundo.
O livro de bela capa em relevo e com este pequeno teaser impresso na contra-capa prometia. Sem sequer conhecer o autor, acabamos por não resistir a libertá-lo do monte ao desbarato e a atirá-lo para a cesta do hipermercado entre iogurtes magros e barritas energéticas... "Deve dar para descomprimir" pensamos na altura, mais um para empilhar ao pó em cima do guarda-vestidos à espera de uma oportunidade que acabou por chegar na passada cinzenta tarde de domingo. E então? Então, it rocks! Da tal banda chamada The Anomalies, título da obra no original americano, fazem parte, vejam bem, uma miúda de oito anos de pais ausentes e transviados, a sua babysitter de oitenta, um iraquiano emigrado à procura do perdão de um ianque que alvejou na Guerra do Golfo, uma filha boazona de um padre libertário e um idealista insistente com doze irmãos traficantes de droga! O autor, que é também compositor de canções e frontman de uns tais Dr. Layer (cujo primeiro álbum prestes a sair receberá o título de "Como Fail With Me"...) e que até já passou por uma fase punk com os seus Mullets, encarrega-se de qualificar o seu esforço como "comédia literária", sendo esta a primeira de assinalável êxito pela Europa, continente onde já fez tours literárias, não por simples livrarias ou bibliotecas, mas, claro, por clubes de rock! O guião é o de sempre - ensaiar muito para o primeiro concerto e sonhar com o êxito planetário - mas até à afirmação do seu power-pop new wave heavy metal punk rock (sic) vão-se entremeando situações bizarras, diálogos estranhos e divertidos, um misto ficcional que poderia decorrer simultaneamente em episódios ácidos de "Erva" ou "Californication". A brincar com a música, atacam-se frontalmente alguns dos tabus eternos da sociedade americana como a homossexualidade, o negócio da droga, a guerra, o desemprego ou a religião em anárquicas histórias de vida que, por isso mesmo, davam um belo filme ou uma negra série de fim de noite. Para já, é simplesmente um belo livro.                 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

(RE)LIDO #49





















NICK DRAKE - THE PINK MOON FILES

de Jason Creed. Londres; Omnibus Press, 2011
A nossa reacção à descoberta mágica da música de Nick Drake, a partir da compilação "Way to Blue" editada em 1994, foi igual à de muitos outros para sempre "afectados" - tentar obter o máximo de informações, discos, sons, fotografias, filmes, etc. que nos pudessem conduzir a uma percepção justa sobre o porquê de tamanha qualidade. Na altura, a internet dava os primeiros passos e mostrava-se como a fonte ideal e quase única para o desbravar do mistério, uma demanda virtual, mesmo assim, bastante repetitiva e reduzida a um ou dois sites exclusivamente dedicados ao músico, um deles ainda hoje disponível mas não actualizado. Outra referência obrigatória desses tempos era o nome de Jason Creed, um jovem também ele recém convertido à genialidade de Drake e que, como nós, queria compreender, absorver e espalhar a sua música tão injustamente desconhecida. Fundou, para o efeito, um simples fanzine em papel a5 de 24 páginas a que deu o nome de "Pink Moon", título do terceiro e último álbum de Drake e também de uma mítica canção a que até o miúdo Jake Bugg não resiste. Com contribuições de uma multiplicidade de fãs sempre expectantes por novidades e revelações e depois de colocar anúncios em revistas e publicações musicais solicitando a compra ou permuta de artigos de imprensa, testemunhos, gravações, etc., cedo a publicação se tornou um êxito intercontinental. Entrevistou amigos, músicos, produtores e tantos outros que privaram directamente com o músico, procurando colaborações diversas e inusitadas para que a dimensão artística fosse amplamente percebida ou esclarecida. Em 2000 e ao fim de 19 números e mais de 10.000 exemplares vendidos, Creed perdeu, sem razão aparente, o entusiasmo e o fanzine foi adiando o regresso que nunca viria a acontecer. A importância da sua dedicação valeu-lhe, dez anos depois, o convite da Omibus Press para realizar uma compilação dos preciosos artigos e que decidiu dividir em temáticas abrangentes, tal como álbuns, actuações ao vivo, livros, gravações raras, tributos, filmes ou televisão, bem como um capítulo dedicado a Tanworth-in-Arden, recanto do coutryside inglês onde Nick Drake nasceu e faleceu e um outro, por sinal bem interessante, sobre a psicologia inerente ao seu fatal destino. Creed tornou-se, desta forma, um expert conceituado na temática a que biógrafos ou realizadores acabaram por recorrer firmes da sua válida contribuição - curiosa a sua participação no documentário "A Stranger Among Us" passeando por Glasturnbury de foto de Drake na mão perguntando "Do you know this man?".
Como certamente notam, temos lido, ouvido e visto muita coisa sobre Drake, de livros a programas de rádio, tv, documentários ou filmes e, mesmo assim, quando fechamos este livro acabamos a matutar no nível de informação aprendida, verdadeiros "ficheiros secretos" finalmente resolvidos e concluídos. Haverá, no entanto, uma imensidão de "enigmas" ainda por deslindar que, certamente, o tempo acabará por resolver e muitos outros que entretanto surgirão. Aqui ficam dois não incluídos neste "arquivo": será Nick Drake aquele personagem alto de negro e longo cabelo a passear-se por um "festival" e o que raio faz o lindo "From the Morning" num spot da At&T? Miudezas... 
               


sábado, 13 de julho de 2013

(RE)LIDO #48





















BICYCLE DIARIES
de David Byrne. London: Faber & Faber, 2009
Uma bicicleta, uma simples bicicleta, serve desde os anos 80 para que David Byrne se desloque no seu dia-a-dia pela cidade de Nova Iorque, hábito que mantém até hoje. Sempre que partia em digressão, negócios ou turismo, Byrne sentia falta da companheira e, por isso, a solução foi comprar uma dobrável que coubesse numa mala, para mal dos empregados dos vários hotéis por esse mudo fora surpreendidos com o peso a carregar até ao quarto. Desta forma estava o músico e artista habilitado a partir à descoberta das cidades por onde ia passando, de Instambul a Sidney, de Manila a Buenos Aires, passando obrigatoriamente por Londres e a própria Grande Maça. As incursões em duas rodas pelas urbes são contadas neste livro como histórias informais e ao jeito de entretenimento sobre assuntos diversos, a maioria obviamente relativos à circulação em bicicleta nesses locais, os seus constrangimentos e condicionalismos a que se vão acrescentando considerações admiráveis e aleatórias sobre design, moda, arquitectura, ambiente, tradições, racismo ou regimes políticos. Não há um roteiro prévio a abordar em cada um deles, o que transforma o livro numa constante surpresa e montanha-russa. A música está presente de forma ténue em muitas destas andanças, mas Byrne acaba por não lhe dar muita importância (há já um livro mais recente da sua autoria onde ela ganha toda a primazia), acabando por ser a sua perspicácia abrangente e terra-a-terra que nos agarra, desde logo, ao relato. Uma visão pessoal, a dar aos pedais, do que é ou podia ser um mundo mais perfeito e salutar e que pode ser ouvido na primeira pessoa através do áudio-livro disponibilizado no seu site e, aqui sim, com direito a banda sonora. Na próxima visita ao Porto prevista para o início de Setembro na companhia da menina Ann Clarck/St. Vincent, há muitos passeios encantadores que o artista e a menina deviam quase obrigatoriamente conhecer e, por isso, aqui fica o desafio e a nossa disponibilidade para os guiar pela Invicta, cidade cada vez mais enxameada de ciclistas. E agora, duas voltinhas por Nova Iorque… e longa vida para a bina, sem tombos!




sexta-feira, 19 de abril de 2013

(RE)LIDO #46




CARÍSSIMAS 40 CANÇÕES 
SÉRGIO GODINHO E AS CANÇÕES DOS OUTROS
Ilustrações de Nuno Saraiva. Lisboa: Abysmo, 2012 
As crónicas escritas para os 40 anos do jornal "Expresso" e 40 anos de carreira, passaram ainda o ano passada a livro, um objecto magnificamente ilustrado por Nuno Saraiva. Nele cabem, claro, 40 canções de eleição para Sérgio Godinho que ouvimos presencialmente e em primeira mão na Feira do Livro do Porto do ano passado e que, seguidamente, ouvimos de bom grado em cinco programas da Antena 1. Por estarem ainda disponíveis, as histórias e outras explicações podem e devem, por isso, merecer uma audição atenta. Faltava então o essencial - ler o livro! Não demora muito a desfolhar e absorver as suas 150 páginas quer pela riqueza da prosa quer pela riqueza das ilustrações bicolores que complementam o imaginário de cada um dos artistas, das suas canções ou das suas vidas, motivando a vontade de ir ouvir outra vez muitas delas. Crónica, livro, rádio: falta, notoriamente, uma última etapa - o concerto que entretanto está agendado para Maio no CCB e onde fará ao vivo versões de algumas destas suas predilecções como esta maravilha...         


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

(RE)LIDO #45





















LOWSIDE OF THE ROAD
A LIFE OF TOM WAITS
de Barney Hoskyns. Londres: Faber & Faber, 2009
O sub-título desta imensa biografia não é, certamente, inocente. Trata-se das poucas tentativas de documentar não oficialmente uma vida de Tom Waits, tarefa hercúlea onde Barney Hoskyns, aficionado que já esteve pela Invicta, aposta numa intrincada e diversificada recolha de fontes indirectas. A aventura afigura-se complicada mas notoriamente compensadora e prazenteira para um fã assumido do génio e da sua música. Sempre fugidio a vedetismos, imiscuições privadas ou entrevistas de fundo, retratar Waits resulta, mesmo assim, num exercício de fascínio e descoberta de inúmeras respostas a perguntas que sempre nos intrigaram, das mais banais aquelas de solução mais rebuscada. A vantagem ou desvantagem, dependendo do ponto de vista, é que o autor dispensa poucas páginas a contar historietas paralelas para se concentrar um pouco exageradamente no essencial: a construção das canções, as influências, as amizades importantes, os músicos, os concertos e os discos desde 1973 (Closing Time) até 2006 (Orphans). Demora tempo, assim, a percorrer tamanha dose de informação, mas acabar o livro quase ao fim de um ano de cabeceira não é sinal de aborrecimento ou enfado. É necessária concentração, fazer ligações, assentar ideias e ler devagar para perceber razões, saborear surpresas e, obviamente, este é o tipo de literatura que requer disposição... Entre tantas coisas e poucas loisas, fez-se luz sobre a rouquidão da voz, a mais que amizade com Rickie Lee Jones, a relutante faceta de actor, quem foi a tal Matilda dinamarquesa que deu origem a uma das melhores canções de sempre ou o acaso do álbum maravilha com Crystal Gale para o filme "One From the Heart" a convite de Coppola, momento muito importante pois aí conheceu Kathleen Brennam, com quem haveria de casar (1980) e mudar de vida. A carreira passa, então, a estar mais controlada, a família ganha uma importância vital e o mito cresce em inacessibilidade e ecletismo. As digressões contam-se pelos dedos e ver Waits ao vivo passa a ser uma aspiração sufocante para meio mundo. O que vale a internet abre-se para arquivos e imagens que reduzem as distâncias, aguçam a curiosidade, confirmando e revelando histórias que só Waits sabe contar (como as do Storytellers da VH1, ainda hoje maravilhosas) mas que não chegam para disfarçar o mau estar do autor por Waits (ou supostamente a própria Kathleen) ter avisado todos os amigos e músicos que as respostas às perguntas de Hoskyns tinham como destino uma biografia não autorizada! Atendendo a este e a muitos outros constrangimentos, estamos perante uma obra cujo grau de credibilidade só mesmo o próprio artista poderá confirmar.     Hoje, tempos em que tal figurão supremo da santidade rock dita moderna aparece a dar voz em episódios dos Simpsons ou que permite que Corbijn o fotografe para a posteridade para livros de luxo, vamos ficar à espera que um qualquer milagre o aproxime da nossa vista não numa televisão 3D mas sim a três dimensões realmente presenciais para lhe perguntar se ele leu efectivamente o livro... Não vamos desistir facilmente como uns maiorquinos! Estamos, claro, a brincar, tal como Waits continua a fazer como mais ninguém. 






quinta-feira, 13 de setembro de 2012

(RE)LIDO #44





















31 Canções
de Nick Hornby. Lisboa: Teorema, 2005
Na prateleira em frente à cama as pilhas de livros à espera de uma oportunidade ameaçam ruir a qualquer momento. Ao olhar bem para elas, agora que os tempos parecem mais calmos e a vontade de regressar à leitura começa a ser maior, reparamos numa lombada verde onde se destacava a letras gordas o nome de Nick Hornby. A curiosidade logo deu lugar à confirmação... Afinal era a versão portuguesa de "31 Songs" e uma anotação remetia para a compra nuns saldos de supermercado a que certamente não resistimos (uma pechincha de 3€). Imediatamente recordamos o original inglês lido há já uns anos, um género de "songbook" do autor de "Alta Fidelidade" onde se desfilam preferências musicais e histórias paralelas que nos tinham causado boa impressão. Ao desfolhar o livro, não resistimos a reler, logo a seguir à introdução, os elogios a "Thunder Road" de Bruce Springsteen e, embalados, acabamos por ir por ali fora em velocidade de cruzeiro até ao fim. No final do dia de Domingo, entusiasmados, até que nos deu vontade de pegar na caneta e escrevinhar umas notas sobre as "nossas" canções de eleição mas o que parece fácil para Hornby não está ao alcance de qualquer um. Há por aqui um aparente informalismo e desleixo na narração, onde se cruzam tristezas e alegrias, sentimentos e fobias de uma vida onde, pela música, sempre ela, se confessam intimidades ou nostalgias a partir de um solo de guitarra, de uma lírica marcante ou de uma banda sonora de uma loja de perfumes. Sem lugar para divagações estilísticas ou de géneros a coisa vai de Nelly Furtado aos The Bible, dos Beatles aos Led Zeppelin, de Rufus Wainwright a Aimee Mann, onde se misturam nitidamente alguns "guity pleasures" com canções de adoração quase religiosa. Duas delas, em video abaixo, são significativas: a primeira, a que o autor mais vezes ouviu na sua vida, a segunda a ser tocada obrigatoriamente no seu funeral...



quinta-feira, 19 de julho de 2012

(RE)LIDO #43






















ROLLING STONES 50
A PHOTOGRAPHIC EXIBITION, 2012
Uma voltinha rápida por Londres no passado fim-de-semana na companhia da chuvinha habitual permitiu algumas visitas estratégicas a duas ou três capelinhas obrigatórias do rei vinil (PhonicaSister Ray, p.ex.) e também para descobrir a Sommerset House, espaço central e multifacetado de oferta cultural onde está escondida, por assim dizer, uma pequena mas saborosa exposição fotográfica alusiva aos 50 anos dos Rolling Stones. Entramos cheios de lanço de câmara na mão, mas a segurança atenta logo nos fez uma séria recomendação quanto ao respeito pela proibição de fotografar. E filmar, questionamos em jeito de desafio, mas um sorriso matreiro serviu obviamente de resposta inequívoca! Sendo assim, lá tivemos que gastar 10 pounds na aquisição do catálogo oficial da mostra, uma obra de desenho cuidado onde se reproduzem a totalidade das imagens (76) e respectivas legendas/comentários patentes no espaço. Acresce ainda a inclusão, a página inteira, de uma série de frases subliminares que preenchem a parte superior de cada uma das paredes da galeria e que tem nas palavras de 1963 proferidas por Jagger "I Give The Stones about another two years..." um epílogo lógico e sarcástico. As fotografias, maioritariamente a preto-e-branco, estão dispostas com alguma lógica cronológica e a sua dimensão tamanho poster de excelente reprodução aumenta a vontade de levar algumas para casa, o que até é possivel para algumas bolsas... O espaço estava repleto de fãs de longa data, talvez porque no fim-de-semana o Springsteen e o Paul Simon estavam na cidade, mas a entrada gratuita, contrariamente à maioria das boas exposições nas redondezas, convidava naturalmente à visita.
Ontem, na calma do lar, acabamos por desfolhar o catálogo como deve ser e reler os saborosos comentários da vida interminável e inacreditável de uma banda histórica e cheinha de histórias para contar. Até ao fim de Agosto, se estiverem por perto, é um sacrilégio não dar lá um Jumping Jack Flash!