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domingo, 10 de maio de 2020
(RE)VISTO #77
ONDE ESTÁ VOCÊ, JOÃO GILBERTO?
de Georges Gachot. Suiça/Alemanha/França; Imovisom, 2018
TV Cine Edition, Portugal, 7 de Maio de 2020
Não é inédita a busca individual por músicos ou artistas em retiro ou em paradeiro incerto. A total surpresa do excelente documentário "À Procura de Sugar Man" de 2012 que nos deu a conhecer a história de Sixto Rodrigues ou até a ficção notável que Nick Hornby escreveu em "Juliet Nua", novela já levada para o cinema que traça a inventada história de um tal Tucker Crowe, são exemplos de uma obsessão que sugere aspirações e manias doentias mas que reforçam o poder e a virtude da música.
Quando em 2011 o alemão Marc Fisher publicou o livro "Hobálálá - Onde Está Você, João Gilberto?" como resultado de dez anos à procura de um encontro com João Gilberto, o pai da Bossa Nova, a história parecia acabar, sem êxito, por aí. Desde que ouviu a canção com mesmo nome, lançada no disco de estreia em 1957, em casa de um amigo japonês, o brilho dos olhos não mais parou de aumentar entre viagens e estadias prolongadas no Brasil, enrolando um emaranhado detectivesco de contactos e diligências no terreno, isto é, do Rio de Janeiro a Diamantina, envolvendo proximidades cúmplices como Miucha, a esposa do próprio Gilberto, João Donato, Marcos Valle, gráficos responsáveis pelas capas originais dos discos ou até imitadores oficiais do cantor e o barbeiro particular... Tudo devidamente fotografado, filmado e documentado, incluindo estadias nos mesmos quartos de hotéis ou pensões como a que em Diamantina mantêm a casa de banho onde Gilberto ensaiou, supostamente, os seus primeiros temas e que se tornou num mito antigo que assegura que "a bossa nova começou num banheiro". Nada! Fisher nunca pôs as vistas em Gilberto e a sua misteriosa morte pouco tempo depois da publicação do livro impediu, para sempre, a concretização do sonho - ouvi-lo cantar só para si a tal "Hobálála".
Quase paralelamente e sem saber da história do esforçado e malogrado alemão, um outro apaixonado pela música brasileira tentava o mesmo desígnio - o francês Georges Gachot ao aperceber-se do livro então publicado e da morte do seu autor, contactou a família que lhe entregou fielmente a montanha documental referida. Estava, assim, traçado o guião para o filme que estreou um ano antes da morte de Gilberto mas só chegaria às salas portuguesas em Agosto 2019. As pistas perseguidas por Gachot, uma a uma, desfilam em puzzle numa narração estranha, cativante e bem humorada em alemão mesclada com o francês e o português mas o destino, cedo nos apercebemos, começa a repetir-se numa impossibilidade quase maldita e sombria que, se dizia, rodeava o mestre e a sua vida escondida. Pode não ficar-se a saber muito mais sobre o artista e a sua incomensurável obra mas o filme serve, acima de tudo, de catalisador gostoso e ternurento para um fortalecimento robusto da paixão pela sua música "até o apagar da velha chama"...
terça-feira, 5 de maio de 2020
(RE)VISTO #76
AMAZING GRACE
de Alan Elliott e Sidney Pollack. E.U.A.; Universal, 1972/2019
TV Cine Edition, Portugal, 1 de Maio de 2020
O recolhimento caseiro das últimas semanas permitiu-nos uma maior atenção aos canais disponíveis na televisão por cabo, à sua programação e, acima de tudo, à facilidade em sintonizar a qualquer hora, para frente e para trás, os seus conteúdos. Temos, assim, realizado um género de actualização cinematográfica quanto a filmes perdidos da última década a que amiúde se juntam documentários variados e surpreendentes.
É o caso deste "Amazing Grace" com a rainha da soul Aretha Franklin emitido na passada semana e do qual sabíamos da sua aura de intensidade mas que não tivemos hipótese de testar na altura da estreia em sala (Agosto de 2019). Trata-se, sem dúvida, de um documento memorável e emocionante que resume duas noites de Janeiro de 1972 em Los Angeles quando Aretha decidiu registar, em plena igreja do reverendo e amigo James Cleveland, um álbum de gospel. Na altura, a jogada parecia arrojada atendendo aos constantes hits com que atingia invariavelmente o número um dos tops mundiais, mas o regresso momentâneo às suas origens religiosas e, simultâneamente, artísticas valeria novo triunfo com a edição de um dos seus discos mais vendidos e elogiados simplesmente pela sua audição.
Mas ao registo sonoro o projecto juntou a preparação de um filme-concerto que, por embrenhadas dificuldades, foi sucessivamente protelado e que a família, renitente, acertou na autorização difícil para ver a luz raiada do dia em jeito de homenagem um ano após a sua morte. Dirigido por uma dupla de realizadores comandados por Sidney Pollack, o filme do evento transparece num colorido bonito onde a patina pura da imagem se torna imediatamente irresistível, fixando-nos tanto no ecrã que quase somos transportados para dentro do recinto - é como se, sentindo as vibrações e até uma certa informalidade do roteiro e argumento, de espectador passássemos a participante numa cerimónia onde à voz e espiritualidade de uma artista intemporal se juntou uma comunidade de cariz religioso mas ultra-dimensional. Que o diga Mick Jagger, um dos tais "participantes" que não perdeu a experiência a três dimensões... A viagem mágica tem repetições agendadas nas próximas semanas. Poderoso!
sexta-feira, 1 de maio de 2020
CHICO BUARQUE, UM ABRAÇO AMIGO!
A entrega do Prémio Camões a Chico Buarque estava agendada para Lisboa no passado 25 de Abril mas atendendo às circunstâncias a cerimónia acabou adiada até uma oportunidade mais segura. Essa impossibilidade motivou a realizadora Joana Barra Vaz a disponibilizar desde aí e até ao dia de hoje, 1 de Maio, o streaming gratuito do documentário "Meu Caro Amigo Chico" estreado em 2012 e posteriormente apresentado em vários festivais de cinema e que ainda não foi editado em qualquer DVD.
O documento a preto e branco e que não deve ser confundido com o outro filme "Chico Buarque, Meu Caro Amigo" um pouco mais antigo, é uma carta escrita com imagens de resposta à canção "Tanto Mar" que Buarque compôs em 1975 a propósito da revolução dos cravos e que traça o panorama da música portuguesa através de testemunhos de muitos artistas nacionais. Há, como deve ser, um jogo de futebol Portugal-Brasil de resultado desconhecido mas com direito a mister Sérgio Godinho ao comando do time nacional. Apressem-se e não deixem a banda passar...
segunda-feira, 23 de dezembro de 2019
(RE)VISTO #75
ENGLAND IS MINE
de Mark Gill. Reino Unido; Umbrella Entertainment, DVD, 2017
A ideia de realizar um filme biográfico sobre o jovem Steven Patrick Morrissey antes da fama que os The Smiths acarretariam é, no mínimo, um acto de coragem. A façanha a cargo do inglês Mark Gill estreou em 2017 sob fortes holofotes da imprensa internacional ou não fosse o assunto um explosivo cocktail de polémicas: proibição de uso das canções da banda, autorização e consentimento recusados (ignorados?) do próprio retratado e um argumento passível de ser credível baseado na própria autobiografia editada uns anos antes. Pondo para o lado tamanha receita de implicações prévias, diremos que, mesmo assim, o ponto de partida seria sempre intermitente e receoso.
Nos anos setenta do século passado a cidade de Manchester não era certamente o centro vibrante do planeta para um jovem emulsionado numa luta desigual entre o (seu) mundo da escrita, dos concertos e da sua reportagem e a pressão familiar para o raio do emprego e o salário. Como nervo central deste panorama de curta anatomia de personagens está o actor Jack Lowden num papel difícil mas vibrante que por si só vale o esforço do jovem realizador em concentrar nele todo o zelo e minúcia do enredo mas onde também merece menção honrosa a actriz Jessica Findley, a confidente e amiga artista Linder Sterling, uma airosa e cativante presença que ajuda e muito a incandescer o ambiente carregado.
O retrato supostamente credível vertido em livro pelo próprio Morrissey confirma-se na emersão de uma inaptidão nos relacionamentos em que uma timidez doentia dispara o travão a uma almejada afirmação artística - ser cantor numa banda e autor das letras das suas canções de forte inspiração literária. O filme joga, e bem, nessa tensão entre o sonho e a realidade, entre os impulsos ténues para pegar no microfone e o dia-a-dia dos empregos tremidos e desprezíveis como arquivista ou auxiliar num hospital até que o primeiro parceiro, o guitarrista Billy Duffy dos futuros The Cult e forte influência de um tal Johnny Marr, rompe uma prometedora experiência para gravar e tocar ao vivo em Londres.
Dilacerado pela traição, Steven submerge na tristeza, acelera na medicação e no refúgio caseiro, uma perigosa trilogia clássica de depressão que levou à perda de Ian Curtis ou Nick Drake (ainda não há filme!) mas que no caso de Morrissey se supera pela forte influência amiga de uma mãe que acredita nas virtudes e capacidades do filho. Depois, há uma campainha de casa que toca e, abrindo a porta, ali surge um motivado Johnny Marr a propor uma parceria e a oportunidade de experimentar, momento aproveitado para que a película se aproxime do fim quando a situação se inverte e é Marr a abrir a porta... O resto da história, para quem viveu os anos oitenta, é sabida de cor e soletrada em muitas canções dessa dupla maravilha que o tempo haveria, contudo, de separar até aos dias de hoje. Mesmo com imperfeições ou reparos, restou este filme honesto que lhe faz justiça e, mesmo sem querer, uma homenagem merecida.
sábado, 20 de abril de 2019
(RE)VISTO #74
GOOD VIBRATIONS
de Lisa Barros D'Sa e Glenn Lyburn, UK, DVD, 2013
Agora que o aparente clima de paz irlandesa está seriamente ameaçado pelos acontecimentos dos últimos dias, resolvemos, finalmente, ver este filme em dvd importado referente a uma promessa que envolve a memória que aqui trouxemos e que diz respeito a um encontro imediato numa loja de discos em Belfast em 1998...
Para um qualquer melómano que tem no disco de vinil o objecto de desejo contínuo e nos concertos ao vivo quase um modo de vida, ora aqui está um argumento cinematográfico onde os factos verídicos nos enredam de imediato, ou seja, desde que Terry Hooley decidiu montar uma loja de discos em Belfast chamada "Good Vibrations" como forma de ganhar, melhor, levar a vida acinzentada em plenos anos setenta entre conflictos sócio-políticas e eternas tensões religiosas.
No papel principal está o actor Richard Dormer que, ao que parece, é agora famoso pela participação na série "Guerra dos Tronos", uma encarnação arrebatadora de um herói local que semeou com esse simples avanço um rastro de irreverência juvenil traduzida no lançamento de singles de bandas locais de feição pré-punk e das quais se destacariam os The Undertones e o incontornável e simbólico "Teenage Kicks", o tema preferido de John Peel e que o próprio estreou e rodou duas vezes seguidas no mesmo programa!
Está cá tudo - as roupas, os ambientes, os cabelos, os sotaques, as canções - mas vem à tona em todos os momentos uma saborosa nostalgia de tempos onde a partilha e a amizade se faziam de rádio ligado e na insistência abnegada no "do it yourself", assim mesmo, por extenso. Envolvente, mesmo com alguma exagero ficcional, há também para comprovar uma interpretação graciosa de Jodie Whiteaker no papel da esposa amada, paixão que o próprio Hooley em roda viva vai involuntariamente armadilhando. Um filme de época sem idade e uma reconstituição que inspira, expira e respira aquilo que o mundo da música tem de melhor - a paixão e as consequentes boas vibrações...
sexta-feira, 22 de março de 2019
RE(VISTO) #73

FILHOS DE JOÃO
O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO BAIANO
de Henrique Dantas, Brasil, 2009
RTP2, 20 de Março de 2019
Os Novos Baianos foram uma das referências maiores da música brasileira durante toda a década de setenta muito por culpa de uma postura irreverente onde o espírito de união funcionou, até determinada altura, como semente e luz de um movimento agora histórico.
Em tempos de ditadura militar mas onde o tropicalismo e o novo cinema foram lanças avançadas de uma contracultura de afronta, a banda começou pelo rock de forte influência norte-americana e inglesa mas um momento marcante haveria de alterar um rumo aparentemente traçado - a viver em comunidade, os jovens músicos receberam a visita de João Gilberto recentemente regressado dos E.U.A., uma presença que se tornou habitual e que gerou um influência decisiva na mudança de direcção da sonoridade onde a raiz brasileira, os seus instrumentos e conexões acabariam por vingar.
O documento, que ultrapassa largamente uma abordagem ao fenómeno musical, permite absorver o espírito de uma época onde o individualismo parecia condenado ao fracasso subjugado pelo interesse colectivo levado até ao limite e que teve no caso dos Novos Baianos uma curiosa extensão ao futebol, modalidade onde gastaram parte do dinheiro dos contratos na aquisição de bolas, equipamentos, viagens e tainadas!
Mesmo sem o testemunho da totalidade dos protagonista - Baby Consuelo, por exemplo, não deu autorização ao seu depoimento por não lhe ser paga uma verba pedida - submerge do filme uma onda descontraída e mesmo utópica que crescia na sociedade brasileira e em muitas outras onde o movimento hippie se enrolou demasiado num materialismo irresistível, condenando a banda a uma separação natural mas, mesmo assim, sofrida. Como é referido por Pepeu Gomes logo no início "Tínhamos muitas coisas ruins, mas prefiro me lembrar das boas". Nem que seja só por isso, vale bem a pena dar um pouco de atenção a um documento de interesse maior e que permite entender que estes "filhos" de João Gilberto eram realmente "bons pra caramba"...
(disponível na RTP Play durante dez dias)
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
(RE)VISTO #72
AINDA TENHO UM SONHO OU DOIS
A HISTÓRIA DOS POP DELL'ARTE
de Nuno Duarte e Nuno Galopim, RTP/Antena3, 2018
RTP2, 28 de Novembro de 2018
Mesmo fazendo parte do festival Porto/Post/Doc por onde passou no passado sábado, foi via serviço público televisivo que acabamos por ver este documento.
Se há banda portuguesa que merecia uma distinção retrospectiva em forma de filme, essa era os Pop Dell'Arte, uns mais que injustiçados ao longo de trinta e cinco anos de actividade o que sempre nos causou estranheza e, por isso mesmo, muito respeito. Sem constrangimentos quanto a rótulos, tendências ou ondas, a banda de João Peste fez sempre o que muito bem quis das suas canções e discos, promovendo uma liberdade criativa invejável e até arrojada que o filme aborda ao de leve e que talvez fosse digna de uma exploração mais profunda e intencional. A matriz adoptada, que não foge à tradicional "chapa3" - entrevista+capa de disco+actuação ao vivo - é talvez um guião ao qual não se pode (deve?) fugir mas atendendo ao vanguardismo criativo que os Pop Dell'Arte sempre evidenciaram, o filme redunda numa redutora abordagem quanto à sua sonoridade e estética tão marcantes. Certamente, como sempre, os prazos foram curtos e os orçamentos irrisórios e, assim, o trilho cronológico da viagem foi o caminho mais fácil escolhido como guião principal, sendo, a esse nível, um exemplo irrepreensível de recolha documental que vai desde os anos oitenta lisboetas até aos mais recentes pára/arranca, uma postura natural dos seus músicos que é, afinal, o modus operandi de um projecto artístico não sujeito a pressões e contra-golpes. No fundo, esta pode não ser a homenagem definitiva nem o melhor dos documentários do género realizados entre nós, mas deveria dar direito a visualização forçada para todos os que hoje se queixam que em Portugal é muito difícil fazer música, ainda e sempre, de qualidade!
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
(RE)VISTO #71
RYUICHI SAKAMOTO: async
At the Park Avenue Armory
de Stephen Nomura Schible, Boderland Media, 2018
Festival Porto/Post/Doc, Passos Manuel, 27 de Novembro de 2018
Passaram mais de vinte anos mas nunca mais esquecemos. Ryuichi Sakamoto em formato trio enchia o Coliseu do Porto no dia 13 de Julho de 1996, uma tournée mundial ainda hoje memorável que o levou a quinze países e quase quarenta espectáculos com direito a CD/DVD posterior, hoje uma raridade difícil de encontrar mas disponível virtualmente... Sobre essa passagem pelo Porto e nos diários que então escreveu, confessou elogios à sala, ao público e suspirou aqui voltar para lá registar um qualquer andamento ou peça certamente tocantes. Mesmo que ainda não tenha sido possível cumprir a promessa e no âmbito do jovem festival portuense, um documento recentemente registado durante uma perfomance nova-iorquina atraiu ali ao lado, ao Passos Manuel, uma boa plateia interessada em experimentar e absorver do seu talento e espírito. O disco "async" do ano passado é uma obra prima e uma elegia à musica sem tempo nem lugar mesmo que inicialmente pensado para uma banda sonora de um filme imaginário de Tarkovsky mas é também um manifesto de coragem quanto à luta contra a doença e o declínio artístico. O filme que estreou no Festival de Berlin confirma a abnegação mas também a beleza dos temas, das experiências e dos ambientes como que cobertos por um género de céu projectado no tecto da sala onde passam texturas a preto e branco que sinalizam muito do que (não) vemos quando fechamos os olhos para abrir a porta simplesmente à audição e à imaginação. Um filme belo que nos fragiliza maravilhosamente na sua pureza e eternidade e que, tal como aconteceu no final desta sessão certeira, não precisa de palmas ou ovações mas simplesmente de gratidão.
quarta-feira, 13 de junho de 2018
(RE)VISTO #70
A HISTÓRIA POR CONTAR DO EURODISCO,
de Oliver Monssens, Arte GEIF/Flair Production/Kaos Films, 2017
RTP2, 12 de Junho de 2018
Aquando dos anos oitenta e na crescente valorização a bandas icónicas dessa altura como os U2, os Smiths, os Waterboys, etc., etc., a sonoridade disco-sound era qualquer coisa assustadora que tinha passado ao de leve lá por casa em pequenos discos de vinil esquecidos em caixas bolorentas guardadas no sotão. Depois de assumirmos que muitas das direcções que a música tomou na década seguinte tinha inspiração variada, incluindo uma matriz disco e electrónica emergente nos anos setenta, acabamos por resgatar parte dessa herança familiar e começar a sério a sua valorização imparável que se mantêm até aos dias de hoje. As investidas no vinil passaram, então, a não deixar para trás nenhum single ou maxi-single de Giorgio Moroder, Donna Summer, Boney M, you name it, umas vezes recompensadoras outras completamente dispensáveis e cuja explosão teve origem na Europa. Para perceber esse legado a RTP2 passou ontem uma excelente introdução ao conhecimento merecido dessa vanguarda europeia num documentário que conta com a contribuição dos próprios produtores, músicos e cantores que em Paris, Munique ou Londres arriscaram um avanço tecnológico e estratégico onde um simples sintetizador acabou por ter papel fundamental na primazia do velho continente em relação à concorrência americana. Sem pretensão exaustiva (falta pelo menos isto!), são ainda ouvidos testemunhos de interessados e amantes deste fenómeno como Dimitri From Paris, François Kevorkian ou Tom Moulton que ainda hoje não dispensam os truques ou ensinamentos aplicados nessa época, um tempo onde os discos de plástico tinham efectivamente, como reafirmado no final, qualquer coisa "dentro", ou seja, verdadeiros sons ou batidas saídas de uma bateria, dos metais ou das cordas dos violinos... E isso é irrepetível e a razão principal para, continuamente insatisfeitos, continuar a acumular, para o bem e para o mal, uma imensidão destas canções em forma de sete ou doze polegadas. Para ver e rever durante os próximos sete dias. Aqui ficam dois must!
quarta-feira, 14 de março de 2018
(RE)VISTO #69

BETTY DAVIS: LA REINE DU FUNK
de Phil Cox, França, Canal Arte, Março de 2018
A história da mítica Betty Davis é ainda hoje um enigma obscuro. O seu desaparecimento após gravar vários álbuns de puro funk plenos de raiva e revolta é o resultado aparente de uma vida de alvoroço e obstinação que ganhou contornos depressivos após a relação com Miles Davis com quem tinha casado em 1968. A sua influência na música do marido é bem notória durante o chamado período eléctrico (1968-1975) da carreira do trompetista, marcando alterações na sua personalidade e até da sua forma de vestir, uma relação curta e tempestuosa mas que incluiu a produção e colaboração em discos impressionantes. A fama, essa já ninguém a podia apagar mercê das arrojadas e provocadoras actuações ao vivo, das canções sedutoras e irresistíveis e uma atitude de confronto impagável que escondia um desespero diluído em muitos fantasmas e negritudes.
Realizar um documentário sobre este percurso na procura de respostas é, sem dúvida, uma tarefa arrojada que o canal Arte, sempre atento, suportou sem receios mas que deixa algum travo a desilusão. Como primeira abordagem com o aparente beneplácito da própria artista, o documento é, mesmo assim, curioso e interessante apesar de um lirismo a mais que não retira mérito ao esforço. Seja como for, recomendável. (disponível em streaming directo até dia 5 de Abril).
domingo, 3 de dezembro de 2017
(RE)VISTO #68
GRACE JONES: BLOODLIGHT AND BAMI
de Sophie Fiennes, BBC Films, 2017
Festival Porto/Post/Doc, Teatro Rivoli, 2 de Dezembro de 2017
A mania dos documentários sobre figuras icónicas do mundo da pop tem no recente exemplo de Grace Jones um assinalável contraditório. Preparado ao longo de cinco anos, a entrevista e a narração habituais foram totalmente dispensados pela realizadora, apostando-se em contar uma história de vida simplesmente pelas imagens e diálogos. Entre concertos, caóticas sessões de estúdio, ou estadias luxuosas em suites de hotéis, é a viagem que Jones faz à Jamaica para conviver e recordar a sua infância em família junto da mãe que nos agarra pelo inesperado das situações, das paisagens e de algumas confissões polémicas de insegurança, abuso e medo. Mas Jones, em cima do palco, sempre foi uma performer incomparável quer na intensidade teatral quer nas coreografias e figurinos que usa e abusa de forma vistosa e atraente e que, ao vivo, se afigura um espectáculo intenso a todos os níveis - impossível não notar na segurança e brilhantismo da banda que suporta as suas canções. Tal como muitos artistas, atrás desta aparente fortaleza surge uma mulher vulnerável e sentimental que sempre seguiu, para o mal e para o bem, as suas ideias e vontades no mundo difícil e frágil da moda, dos filmes e da música e que uma versão disco de "La Vie En Rose" (a gravação do tema para um programa televisivo francês é no filme uma parte hilariante...) haveria de catapultar para a fama. Talvez o rosa, como confessado, tenha algumas vezes sido substituído pelo negro, uma mutação natural tendo em conta as sete vidas sem fôlego de Grace Jones que o filme, bem feito, aborda sem preconceitos ou tabus e que deverá ser um contributo decisivo para a reposição da justiça quanto à grandeza de uma artista tantas vezes desprezada.
segunda-feira, 3 de julho de 2017
(RE)VISTO #67
SGT. PEPPER'S: A REVOLUÇÃO MUSICAL
Dir. de Francis Hardly, Apple Corps. Ltd, RTP1, Portugal, 30 de Junho de 2017
A ideia de um documentário comemorativo dos cinquenta anos de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" dos The Beatles destinado a televisão generalista sugere, à primeira vista, uma insistência nos clichés e imagens que nos fomos habituando a ver ou ler em tantos outros programas e revistas da especialidade. Mas o que compositor inglês Howard Godoall se deu ao trabalho de escrever é um guião diferente e bastante inovador sobre um álbum que parece infindável de pormenores, histórias e inspirações e, por isso, a revolução musical que dá título ao documento é mesmo um desafio que se acaba por provar com bastante pertinência e sem muitos truques. Peça a peça, instrumento a instrumento, canção a canção, ficamos absortos com a sequência escorreita dos factos e informações que, de forma simples e inédita (os instrumentos tocados em separado ou as conversas de estúdio são aqui utilizados na perfeição), nos agarram desde as duas peças extra iniciais ("Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane") até esse pedaço em miniatura chamado "A Day In The Life" que, como referido, é o espelho contido de todo um disco ainda e sempre notável. Não percam a oportunidade e andem lá para trás até sexta-feira na vossa caixa de televisão ou então sigam a ligação já disponível online. Não se vão arrepender.
terça-feira, 7 de março de 2017
ZIGGY STARDUST, APARIÇÃO ÚNICA!
Promovida pela revista "Mojo", decorre hoje um pouco por toda a Europa a projecção única do filme "Ziggy Stardust And The Spiders From Mars" dirigido por D.A. Pennebaker e que documenta o concerto de David Bowie no Hammersith Odeon de Londres no dia 3 de Julho de 1973. O registo, dito amaldiçoado pelo anúncio do próprio artista como "o último concerto que vamos fazer", marcou o "enterro" de Ziggy Stardust, personagem mítica criada um ano antes para o conceptual álbum homónimo sobre uma mensageira estrela rock extraterrestre. O serão de hoje terá ainda a estreia de um novo documentário produzido pelo magazine inglês onde o editor Phil Alexander conversa com Woody Woodmansey, baterista da banda The Spiders From Mars e autor do livro "My Life With David Bowie: Spider From Mars" agora publicado pela Sidgwick & Jackson. O evento acontece em exclusivo na sala 11 dos Cinemas UCI do Arrábida Shopping pelas 21h30.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
(RE)VISTO #66
GIMME DANGER
de Jim Jarmusch. EUA, 2016.
porto/post/doc, Teatro Rivoli, 30 de Novembro de 2016
A admiração de Jim Jarmusch por Iggy Pop e pela sua figura revolucionária do pré-punk americano conduziu-o na aventura de realizar um filme sobre o assunto. Já o tinha feito com Neil Young em 1997 com "The Year of The Horse" sem grandes deslumbramento mas com enorme competência e, por isso, mais valia não arriscar demasiado. Concentrando a narrativa no período mais febril da banda iniciado em 1969 com o primeiro disco homónimo e o derradeiro "Raw Power" de 1973 e com esse monumento chamado "Fun House" de 1970 pelo meio, Jarmusch põe literalmente Iggy Pop a falar em nome próprio sobre os altos e baixos de um trajecto intenso, rápido, demasiado rápido, dos The Stooges, uns estarolas sem freio, sem medo e no fio da navalha do rock. Um perigo instalado numa época de "paz & amor" a precisar de rompimento, agressividade e assalto a um mundo da música demasiado comodista - banda nova, bons concertos, contrato imediato, vender muitos discos e... lucro! Iggy Pop, personagem que sempre nos sugeriu inexplicavelmente alguma antipatia, cedo tentou não se amarrar a este status quo dito capitalista e a ousadia teve obviamente consequências que são relatadas naturalmente e até de forma humorística em testemunhos diversos dos próprios músicos. Contudo, o documento mesmo socorrendo-se de variadas imagens de filmes antigos, banda desenhada e punch-lines que nos fazem sorrir, acaba por no final soprar uma baforada de tristeza em que o mundo do rock é pródigo e que alia o exagero à droga e, consequentemente, à morte. Mesmo que o resultado seja, mais uma vez, de uma enorme competência, só o facto de termos o privilégio, nos tempos que correm, de assistir à projecção de tamanha aventura numa sala de cinema composta, interessada e atenta é a melhor homenagem que se pode fazer a uma banda essencial que adubou sem fertilizantes (ok, houveram alguns...) muitas das boas raízes da música moderna.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
(RE)VISTO #65
COBAIN - MONTAGE OF HECK
de Brett Morgen; Portugal, Universal/HBO, DVD, 2015
Em Abril do ano passado chegava a alguns cinemas portugueses o muito aguardado documentário sobre Kurt Cobain, um projecto demorado e de conivência familiar para vasculhar numa imensidão de material inédito como manuscritos, filmes, fotografias e até proto-canções. O resultado, se bem que esforçado, acaba numa desilusão. A intimidade anunciada - "o documentário rock mais íntimo de sempre" diz a revista Rolling Stone - por exagerada conduz-nos a uma incómoda e confrangedora posição voyeurista que chega a assustar. Há méritos, claro, na montagem de uma trama de que já sabemos o epílogo, tudo muito bem feito, tudo muito bem produzido com a ajuda da filha Frances Cobain, ela mesma uma personagem central do filme. E é precisamente aqui, aquando do seu nascimento, que as imagens de decadência doentia de Cobain e Love nos conduzem a um quase abandono que, de certeza, teria sido certo se eventualmente estivéssemos numa sala de cinema sem hipótese de carregar no botão de avanço rápido... Fica a sensação que a ambição desmesurada converteu o projecto numa enorme montanha oca e da qual só queremos descer em passo rápido para voltar a respirar normalmente esquecendo uma dor que continua sem explicação. Ufa!
terça-feira, 15 de março de 2016
(RE)VISTO #64
SHOW ME YOUR SOUL
de Pascal Forneri, França, Arte, 2013
Canal Arte, 12 de Março de 2016
Pode um programa televisivo de música essencialmente negra, do soul clássico ao funk, do disco ou r&b ao rap, entrar de rompante pela televisão americana e deixar um rasto indelével ao longo de 35 anos? A resposta é sim, chamou-se "Soul Train", nasceu em Chicago, transferiu-se para Los Angeles em 1971 e só parou em 2006 com a Internet. A ousadia e façanha coube a Don Cornelius (1936-2012), o mentor, produtor e apresentador cool de voz barítona e radiofónica que trouxe para a televisão uma verdadeira explosão musical onde James Brown, Tina Turner, Curtis Mayfield, Supremes ou Earth Wind & Fire arrebatavam audiências ao mesmo tempo que um conjunto dedicado e imprevisível de dançarinos aparecia perante as câmaras em roupas extravagantes. É essencialmente sobre essa história glamorosa do acto de desfilar ao som de uma canção soul que este documento aborda de forma quase sociológica, entrevistando os então famosos participantes e coreógrafos da "Soul Train Line", uma imagem de marca que tornou o programa um acto religioso para a comunidade negra americana em pleno período de muita conturbação sócio-política. Os testemunhos de Bobby Womack (foto) e de outros músicos compensam a falta óbvia de impressões do próprio Cornelius que haveria de se suicidar em 2012 depois de uma vida privada tumultuosa e perigosa a que o sucesso do programa rapidamente conduziu. Os convites a artistas não negros como Elton John ou David Bowie ajudariam, ainda mais, para que "Soul Train" atingisse comunidades jovens de todas as raças e credos, um êxito massivo que o groove explosivo do disco sound haveria de tornar imparável e que, curiosamente, só definharia com a chegada do hip-hop e do rap. O advento da MTV seria a estocada final... Um excelente documentário televisivo, simples e eficaz como é habitual neste canal cultural (repete dia 19 de Março e 4 de Abril) e que não pode nem deve ser visto sem uma prévia consulta a um outro programa concebido pelo VH1 em 2010 que aqui deixamos. Obrigatório. Peace, love and soul!
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
(RE)VISTO #63
VASHTI BUNYAN - FROM HERE TO BEFORE
de Kieran Evans, CC Films, 2008
Aproveitando o facto do filme estar disponível desde Maio no Youtube e seguindo a sugestão do amigo Hugthedj, não havia como perder a oportunidade de confirmar a lenda. Para quem esteve no memorável concerto de sábado passado certamente ouviu a história de uma viagem da cidade para as montanhas numa caravana, ao lado do namorado, de um cão e um cavalo, à procura... O resto, mesmo parecendo fantasia, cabe tudo neste magnífico documento de amor pelo mundo onde vivemos e onde a música é só uma ínfima parte de uma grandiosidade sempre difícil de perceber. Depois de visto, só temos é que dar graças por termos tido a sorte de ouvir de viva voz parte substancial desta jornada em forma de canções. A procura de Vashti Bunyan, essa ainda não acabou! Sacrilégio não ver.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
(RE)VISTO #62
A CANTIGA ERA UMA ARMA
de Joaquim Vieira. Lisboa: Nanook/RTP, 2014
RTP2, Quarta-feira, 15 de Abril de 2015
Sentados no sofá a saborear uma noite de futebol em cheio após algumas aulas nocturnas e um dia pelo Ribatejo para a montagem da mostra "Abril Vinil", foi com curiosidade que ouvimos a voz do Fernando Pessa a introduzir uma série de músicos em cima de um palco em imagens cintilantes a preto e branco! Numa coincidência feliz, começava na RTP2 a transmissão do documentário dirigido e concebido por Joaquim Vieira sobre a chamada música de intervenção estreado em televisão em Maio do ano passado aquando das comemorações dos 40 anos da revolução e que, na altura, nos escapou sem desculpa. Nos últimos dias tinham-nos passado pelas mãos tantos discos e histórias que agora nos entravam pelos olhos dentro numa notável recolha documental de imagens de época a que se juntam entrevistas recentes com muitos dos principais protagonistas. Saber que o hino do PPD foi escrito por Paulo de Carvalho sem custos, que o arrojo do "Tourada" do Fernando Tordo e do Ary dos Santos foi mesmo um desafio arriscado só posteriormente detectado, que o "Somos Livres" da Ermelinda Duarte que aprendemos a cantar na sala de aula (!) foi composto para uma peça de teatro, são só alguns dos muitos factos que vimos confirmados na primeira pessoa a que se se podem juntar muitos outros pormenores que ajudam a perceber, como sempre, que não é só o acaso que faz a história. A resposta colectiva dos chamados cantautores exilados quer no estrangeiro quer no próprio país ao novo ar que se respirava, partindo em digressão por todo o lado para espalhar "a palavra" num corropio sufocante foi, certamente, responsável para que muitas das canções se transformassem em hinos que, ao jeito de "discos pedidos", eram avidamente requisitados pelo povo - lembramos bem a massiva rodagem radiofónica do "Liberdade" do Sérgio Godinho e até do "Força Força Companheiro Vasco" da Carlos Alberto Moniz e da Maria do Amparo e que, ingenuamente, muitas vezes trauteamos sem saber quer era o tal Vasco! O desabafo de José Mário Branco que fundou o GAC-Grupo de Acção Cultural, lançando discos como "A Cantiga é uma Arma" por circuitos alternativos mas cujo dinheiro solidário das vendas nunca viu o rasto, é o retrato perfeito de um país que por muitas revoluções que aconteçam e se continue a cantar que o país é uma terra da fraternidade onde o povo é quem mais ordena, será sempre uma nação adiada. Seja como for, ficaram as canções e este documento é a prova da sua eterna força bélica!
segunda-feira, 16 de março de 2015
(RE)VISTO #61
GUITARRAS AO ALTO
de Daniel Mota. Lisboa: Centro de Inovação da RTP, 2014
RTP2, Sábado, 14 de Março de 2015
As guitarras do título deste documento pertencem a Tó Trips, metade dos Dead Combo, e a Rui Carvalho escondido no alter-ego Filho da Mãe. Embaladas, protegidas e tansportadas, elas desempenham o papel principal de uma viagem pelo Alentejo onde os músicos cuidam de as fazer soar juntas ou a solo para novos públicos, novas salas (magnífica a Adega Mayor em Campo Maior) e, acima de tudo, para novas experiências. Bonito este Alentejo de inverno, de estradas molhadas e céus cinzentos, que Henrique Amaro e Luís Oliveira da Antena3 escolheram como palco desafiante a lançar aos dois músicos para uma viagem não só sonora mas também pessoal sobre a música, a criação e a amizade. Tudo com o aconchego de uma gastronomia famosa que se reinventa a cada ano e para a qual o bom vinho ajuda no convívio, na conversa e na partilha. Um documentário simples, eficaz no guião, brilhante no conteúdo e um excelente exemplo de serviço público de um tal Centro de Inovação da RTP que, esperemos, traga à liça outros projectos idênticos. O programa está já disponível para visualização online. Não percam e guitarras ao alto, sempre!
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
(RE)VISTO #60
A REVOLUÇÃO DO ROCK RENDEZ VOUS
de Ricardo Espírito Santo. Lisboa: Terra Líquida Filmes/RTP
RTP2, Sábado, 14 de Fevereiro de 2015
Se há sala de concertos rock em Portugal a merecer um documentário, o Rock Rendez Vous de Lisboa terá de ser o eleito para essa primazia. Nunca lá fomos, não sabemos localizá-lo na capital mas, mesmo assim, é como se estivéssemos a falar de um velho amigo. Todas as semanas em plenos anos oitenta o anúncio habitual da agenda de concertos no jornal Blitz merecia da nossa parte uma atenção especial, confirmando as bandas que lá iam tocar e, pior, que não teríamos forma de ver. Os Del Amitri ou os The Sound são só dois exemplos dessa "mágoa" mas à lista infindável podiam ser acrescentados muitos outros que o Blitz fazia, ainda por cima, o favor de relatar de forma entusiasta no número seguinte. Ao longo de dez anos e sempre de "roda no ar" o RRV foi uma "sala de estar" das principais bandas portuguesas do chamado rock português, carregando para todo o sempre uma série de histórias míticas e lendárias. Muitas delas estão, obviamente, relatadas neste documento televisivo a que se quer dar "profundidade" em DVD, uma "odisseia" com cinco anos que só agora teve estreia no pequeno ecrã. Veloso, Xutos, GNR, Rádio Macau, Heróis do Mar, Pop Del'Arte, Mão Morta e muitos outros grupos fizeram parte, por direito próprio, dessa aventura inédita no panorama da música em Portugal - haver uma sala exclusivamente dedicada a concertos rock - e esse testemunho é mesmo o melhor do filme. Ouvir, na primeira pessoa, os "cromos" da "caderneta" a contar as peripécias da sua passagem pelo espaço, confrontando abertamente rivalidades, troças e cumplicidades tem uma saborosa patine imaterial e onde Rui Reininho bate a concorrência por KO! Pena o documento não ser mais profundo, denotando-se a falta de mais imagens em movimento das actuações nacionais e um pouco mais de "sal" sobre a variedade de concertos internacionais que por lá passaram. Seja como for, esta é mais uma prova de que também em Portugal há muito para contar sobre a dimensão histórica do fenómeno "rock" e da música popular. Por isso, façam o favor de pegar no comando da "box", recuar à RTP2 de sábado passado para uns curtos mas temperados quarenta e cinco minutos de puro deleite. E não se assustem com a bolinha vermelha...
Rock Rendez Vous - A Revolução do Rock from Terra Líquida Filmes on Vimeo.
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