quinta-feira, 4 de abril de 2019

BELLE & SEBASTIAN, DE BARCO E EM FORÇA!

Ainda ontem numa roda de amigos e com a presença de um conterrâneo sabedor se anuía totalmente sobre a validade dos Belle & Sebastian, uma instituição pop escocesa com quase vinte cinco anos de consistente e inteligente actividade artística em rodagem contínua por muitos palcos do mundo e que mantêm ainda num qualquer estúdio o altar mor sagrado para a cerimónia que melhor sabem fazer - canções, muitas e boas.

A nossa adesão a esse credo irresistível tem quase o mesmo hiato temporal e bem lembramos a pena e inveja de não poder comparecer a um então inovador festival que banda organizou em 1999 com o nome de Bowlie Weekender em Camber Sands no Sussex inglês. Com uma verdadeira parada de bandas e artistas da nossa eleição (Mercury Rev, The Flaming Lips, The Divine Comedy, Cornelius, Camera Obscra, etc., etc.) o evento celebra agora vinte anos mas os B&S não se esqueceram da data avançando para uma inédita comemoração - um festival num barco de cruzeiro que sairá de Barcelona a 8 de Agosto e chegará à ilha da Sardenha quatro dias depois de muitos concertos, showcases, festas, jogataina e animação a cargo de outras tantas bandas e dos próprios B&S. O tal Boaty Weekender tem preços quase proibitivos e, assim, a tal inveja e pena ainda não é desta que acabarão por desvanecer...

Compensando danos, há sempre remédios auditivos eficazes como uma certa parelha de canções que está num disco antigo chamado "Girls in Peacetime Want To Dance" e que milagrosamente recebeu novos e vistosos videos!




quarta-feira, 3 de abril de 2019

THE DIVINE COMEDY, ESCRITÓRIO RENOVADO!





















O chefe Hannon emitiu hoje uma ordem de serviço para conhecimento obrigatório de todos os funcionários, fornecedores e clientes - os The Divine Comedy terão uma álbum novo em Junho e, como prometido há muito, será em versão dupla. O décimo segundo longa duração terá o nome de "Office Politics", contempla uma série habitual de desabafos amorosos e folgadas e animadas canções sobre tudo e sobre nada como, por exemplo, máquinas e maquinaria, da pesada à de escritório como uma simples mas (in)dispensável fotocopiadora... Essa abordagem inovadora é supostamente transcrita para o disco através de toda uma panóplia de sonoridades diferenciadas que tem nos sintetizadores a síntese, lá está, vectorial. Perceberam? Nós também não mas podem desde já escutar um primeiro e lustroso esclarecimento e até encomendar o novo produto!     

segunda-feira, 1 de abril de 2019

MIRAMAR, QUANTOS SÃO?

Ao nome Miramar quase sempre associamos mar, areia e brisa agradável. No nosso caso, é ainda sinónimo de local pacífico de retiro, descanso e, por vezes, festarola. Por isso, quando um qualquer projecto musical passa a ter o nome da localidade gaiense é impossível não lhe dar a devida atenção, o que nos dois exemplos que aqui apresentamos é inteiramente merecido e obrigatório.

O primeiro, de origem nacional, tem em Peixe (ex. Ornatos Violeta e Pluto) e Frankie Chavez um curioso exemplo da nobre virtude de se gostar simplesmente de tocar guitarra. Tocar, dedilhar, partilhar o amor pelo som de forma informal em soirées longas a que se juntou a ideia do registo de um disco. Chama-se "Miramar", obviamente, já teve apresentações ao vivo em diversas cidades como o Porto (Casa da Música) e há até um registo inteiro recentemente gravado em Íhavo disponível para visualização. Bonito seria, com toda certeza, um concerto dos Miramar em... Miramar. Isso é que era!





O segundo, de travo internacional, tem num colectivo radicado em Nova Iorque mas originário de Richmond, Virgínia, uma onda mais enérgica e dançante proveniente da América do Sul. Se num primeiro momento a fonte inspiradora teve em Porto Rico o epicentro da composição dos Miramar através de novas versões de boleros da mítica Sylvia Rexach, o que os levou até a digressões intensas e passagem pelos estúdios da NPR para o registo de um daqueles concertos a que chamamos de secretária, aproxima-se agora uma nova aragem. Desta vez é o bolero cubano que motiva a dança com a devida atenção da Daptone Records que se apressou a editar uma rodela pequena de vinil com dois dos novos temas e que são o sinal de que uma dose maior se aproxima para nos ajudar a mirar o mar... 




AINDA SOBRE A CADUCIDADE CULTURAL!

A propósito da suspensão da edição deste ano do festival Jardins Efémeros em Viseu, a opinião de Vitor Belanciano no jornal Público bate certo com a toda a nossa experiência presencial desinteressada em muitos das cidades e eventos aí referidos.

Custa perceber como é que a cultura é um direito intermitente ao sabor de mais ou menos orçamentos quando há gente motivada a "fazer acontecer", públicos atentos e funcionais e artistas a responder aos desafios de forma tão interessada e pertinente.

No que aos concertos diz respeito, algumas das chamadas segundas cidades no norte litoral como Espinho, Aveiro, Braga ou Guimarães são verdadeiros faróis que iluminam um Porto adormecido e caduco e sem um único festival de música auto-produzido de referência (excepção ao gigante Primavera Sound).

Entre o aumento exponencial do turismo, do raio da oferta gastronómica ou do suposto "aumento do gasto com a cultura" apetece gritar "acorda, Porto"! 


sábado, 30 de março de 2019

KAIA KATER DE SECRETÁRIA!

JAMES BLAKE, DOBRADINHA DO ANO!

Nunca duvidamos da capacidade indelével de James Blake criar grandes canções. Em qualquer um dos álbuns há uma ementa variada de receitas sonoras de elevado nível, uma fasquia que ao vivo tem, contudo, tendência a baixar um pouco. No último "Assume Form", disco que culmina dez anos de vida artística, paira uma perfumante ondulação sobre o amor e o compromisso que tem em duas das canções a dobradinha do ano - para ouvir juntinhas e sem reservas uma logo a seguir à outra, tal como no alinhamento original, ora aqui estão oito minutos de sonho....


quinta-feira, 28 de março de 2019

CATE LE BON É SEMPRE BOM!

Da artista galesa Cate Timothy aka Cate Le Bon só podemos esperar bondade e bom gosto. Pode ser na versão "morena" como a do disco anterior "Crab Day" e da memorável passagem pelo Parque da Cidade em 2016, pode ser na versão "duo" como a que a aproximou de Tim Presley dos White Fence em nome de uns tais DRINKS para o segundo álbum "Hippo Lite" do ano passado, pode ser na versão "loura" como a que anuncia um quinto discos de originais pela Mexican Summer no final de Maio, casa de Brooklyn onde convivem outras maravilhas como Jessica Pratt ou Connan Mockasin.

Confirmando a tendência actual, a melhor estratégia de inspiração parece ser mesmo o retiro espiritual como o que Cate experimentou sozinha ao longo de um ano inteiro no noroeste inglês, região conhecida pelos seus lagos rodeados por montanhas e onde, unicamente ao piano, compôs as dez canções de "Reward", um álbum que, mesmo assim, recebeu nas sessões de gravação contributos de Stella Mozgawa das Warpaint, do guitarrista Josh Klinghoffer dos Red Hot Chilli Peppers e ainda do amigo e conterrâneo cantautor H. Hawkline.

A habitual e reconhecível variedade sonora sobressai de imediato em "Daylight Matters", um primeiro e bom docinho de fazer crescer água na boca...


FRANKIE COSMOS, BREVES ASSOMBROS!

A menina Greta Kline, filha do actor Kevin Kline, cedo deu mostras de acreditar na ingenuidade das suas canções pop, um gosto que rapidamente se alastrou sob o rótulo de Frankie Cosmos em três álbuns já registados rodeada de amigos da mesma idade e com quem reparte alegremente palcos um pouco por todo o lado.

Chega agora o tempo de uma partilha inédita em forma de pequenas canções sentada simplesmente ao piano a que chamou "Haunted Items", colecção que a Sub-Pop tem feito sair semanalmente em formato digital. Sem alaridos, os pedacinhos são resultado de muito medo, algum compromisso e, sobretudo, um gosto muito particular pela música e consequentes amizades e a que foram consagradas algumas horas em estúdio para acabar de vez com os receios e assumir a plenitude da sua força. Tal energia poderá em breve ser testada ao vivo já que a digressão pela Europa que se aproxima terá o seu término dia 14 de Abril na ZDB lisboeta. Pena não haver uma data mais nortenha...   
     











segunda-feira, 25 de março de 2019

HEATHER WOODS BRODERICK, CONVITE A NEGRO!





















Num dia triste com o de hoje a notícia de um terceiro álbum de originais de Heather Woods Broderick sugere algum desanuviamento. Mas basta olhar a imagem da capa que acima se reproduz para perceber que os tempos para Heather comportam alguma seriedade e melancolia, um estado de alma de absorção e condensação marítima localizada na costa do Oregon junto do Pacífico Noroeste. Foi na areia de muitas das suas praias que passou em criança temporadas inteiras e foi para aí que se retirou vinda da agitada Brooklyn para se concentrar ao piano na composição pausada dos novos temas de "Invitation", a tal terceira insistência criativa a sair dia 19 de Abril.

O mote tem numa passagem literária de Thomas Moore do mesmo nome encontrada num diário escrito pela sua mãe uma inspiração inicial - o tal convite para vingar na vida ou escolher a morte lenta - mas foi sobretudo numa ocupação temporária na limpeza de casas (!) e longos passeios idílicos de paisagens magníficas que Heather construiu os novos temas espelhados pela infinita distracção de uma vida sem pausas e demasiados desafios - só nos últimos anos podemos contar colaborações efectivas em palco e estúdios com os Efterklang, Horse Feathers, Lisa Hannigan, Laura Gibson, Damien Jurado ou Sharon Van Etten - e onde os sacrifícios financeiros e emocionais acabam demasiadas vezes sem retorno.

São, por isso mesmo, tempos de exorcizar tragédias e triunfos pessoais num regresso ao local mágico de uma infância que nunca se perde, uma experiência que Heather sabe tranquilamente espalhar como ninguém em melodias levemente negras mas de um brilho que ofusca e cintila. Convite, obviamente, aceite!




SCOTT WALKER (1943-2019)













Isto das notícias tristes numa segunda-feira de manhã configura ser uma sina...
Bowie e agora Scott Walker parecem ter esperado o acabar de fim de semana para fazer saber que a sua partida não estragaria os nossos dias de descanso e paz. Caramba, sobre Walker é tão difícil verter qualquer comentário justo ou pertinente atendendo à obra composta e sonhada que não vale a pena o esforço. Quando tentamos saber mais a dúvida só veio maravilhosamente adensar-se e o melhor é mesmo ouvir sem conta a monumental canção abaixo enquanto, aos poucos, a garganta se vai apertando e o coração não pára de acelerar. Peace, walker brother!



sexta-feira, 22 de março de 2019

CALEXICO + IRON & WINE = BENDITA TRINDADE





















Passaram quase quinze anos desde que os Calexico se juntaram a Sam Beam aka Iron & Wine para registar um pequeno disco chamado "In The Reins" (2005), sete canções de excelência mas onde repousa uma daquelas "borboletas" eternas baptizada de "Sixteen, Maybe Less" que não resistimos a recordar abaixo.

A colaboração tem agora data de reencontro formal marcada para 14 de Junho, dia em que a City Slang fará o lançamento europeu de "Years To Burn", um álbum que confirma o impacto e gosto que a parceria teve em ambos os lados e que, mesmo distanciada num longo período, manteve uma chama contínua traduzida numa amizade resistente.

Registado em Nashville em Dezembro passado, o disco teve em Beam o motor inicial, compondo previamente todas as canções à espera dos retoques e contribuições da parelha de Tucson mas Joye Burns teria ainda tempo para lhe acrescentar um tema da sua autoria. Meticuloso, o disco espelha o cuidado, bom gosto e subtileza que o trio aplica na composição - ouça-se "Father Mountain" - e onde uma aparente facilidade no entendimento é, simplesmente, sinónimo de uma talentosa e infalível capacidade de construir grandes canções. O feito poderá ser comprovado e aplaudido a 19 de Julho próximo, data em que o disco será apresentado ao vivo durante o SBBR no Meco (Sesimbra). 




RE(VISTO) #73



FILHOS DE JOÃO 
O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO BAIANO
de Henrique Dantas, Brasil, 2009
RTP2, 20 de Março de 2019
Os Novos Baianos foram uma das referências maiores da música brasileira durante toda a década de setenta muito por culpa de uma postura irreverente onde o espírito de união funcionou, até determinada altura, como semente e luz de um movimento agora histórico.

Em tempos de ditadura militar mas onde o tropicalismo e o novo cinema foram lanças avançadas de uma contracultura de afronta, a banda começou pelo rock de forte influência norte-americana e inglesa mas um momento marcante haveria de alterar um rumo aparentemente traçado - a viver em  comunidade, os jovens músicos receberam a visita de João Gilberto recentemente regressado dos E.U.A., uma presença que se tornou habitual e que gerou um influência decisiva na mudança de direcção da sonoridade onde a raiz brasileira, os seus instrumentos e conexões acabariam por vingar.

O documento, que ultrapassa largamente uma abordagem ao fenómeno musical, permite absorver o espírito de uma época onde o individualismo parecia condenado ao fracasso subjugado pelo interesse colectivo levado até ao limite e que teve no caso dos Novos Baianos uma curiosa extensão ao futebol, modalidade onde gastaram parte do dinheiro dos contratos na aquisição de bolas, equipamentos, viagens e tainadas!

Mesmo sem o testemunho da totalidade dos protagonista - Baby Consuelo, por exemplo, não deu autorização ao seu depoimento por não lhe ser paga uma verba pedida - submerge do filme uma onda descontraída e mesmo utópica que crescia na sociedade brasileira e em muitas outras onde o movimento hippie se enrolou demasiado num materialismo irresistível, condenando a banda a uma separação natural mas, mesmo assim, sofrida. Como é referido por Pepeu Gomes logo no início "Tínhamos muitas coisas ruins, mas prefiro me lembrar das boas". Nem que seja só por isso, vale bem a pena dar um pouco de atenção a um documento de interesse maior e que permite entender que estes "filhos" de João Gilberto eram realmente "bons pra caramba"...

(disponível na RTP Play durante dez dias)

quarta-feira, 20 de março de 2019

UAUU #479

WEYES BLOOD, ESTÁ-LHE NO SANGUE!





















Numa aproximação à terra lenta mas programada, vamos recebendo boas novas em forma de canções espantosas saídas da perseverança de Natalie Merig, menina que está ao comando da nave Weyes Blood desde 2011 e que tem uma nova missão prestes a ser concluída com êxito - "Titanic Rising" é o quarto álbum a sair na Sub-Pop Records no início de Abril, um diário de viagem pleno de mistérios, dúvidas e muitos, muitos encantos.

Vinda de uma galáxia notável e convenientemente nebulosa, basta ouvir a triologia já conhecida que se apresenta abaixo e para a qual Mering teve ainda a coragem de registar em imagens os temas "Everyday" e "Movies", para confirmar a notoriedade de uma composição de melancolia certeira e lentidão balançante que nos agarra e seduz de forma imediata, um álbum que se afigura de grandeza assinalável e que confirma a artista no topo de uma jovem tríade encantada onde se juntam Julia Holter e Sharon Van Etten. É caso para dizer baixinho, está-lhe no sangue... 





terça-feira, 19 de março de 2019

BILL RYDER-JONES, É DESTA!















Num mês de Junho que se adivinha, desde já, gostosamente infernal no que aos concertos ao vivo diz respeito, acresce finalmente a estreia de Bill Ryder-Jones prevista para dia 11 em Lisboa e que no dia seguinte se estende até ao Hard Club no Porto. Em versão solitária com a sua guitarra, a oportunidade servirá para despir devidamente os temas de "Yamn", grande álbum do ano passado, a que se deverão acrescentar recordações mais antigas e as indispensáveis e imprevisíveis versões... 



segunda-feira, 18 de março de 2019

DENNIS WILSON, NADA É SAGRADO!





















O mano Dennis Wilson que esteve na génese dos The Beach Boys onde assegurou a bateria gravou um maravilhoso e único álbum a solo em 1977 com o nome de "Pacific Ocean Blue", uma das tentações aqui da casa. Uma das canções que ficou de fora das sessões foi o instrumental "Holy Man" que, aquando da reedição luxuosa em 2008 comemorativa dos trinta anos, recebeu uma nova vida - Taylor Hawkins, o também baterista dos Foo Fighters, foi autorizado a escrever a letra para a canção supostamente inacabada e a que acrescentou a sua própria voz. Sem termos de comparação, o desplante gerou discórdia e algum desprezo entre os puristas mas o certo é que a poeira da polémica acabou por assentar. Até agora!

No âmbito do Record Store Day de Abril está prevista a edição em sete polegadas do tema que Hawkins gravou mas onde se juntam as contribuições de Brian May e Roger Taylor dos Queen, restos de uma banda que serve hoje para tudo e mais alguma coisa e cuja simples nomeação até assusta, brrrr... Já nada é sagrado!