terça-feira, 1 de junho de 2021

NA ILHA DE JOSH ROUSE!






















Como muitos, Josh Rouse passou os últimos meses em confinamento obrigatório o que não é sinónimo de letargia. Improvisando a partir de vários recursos electrónicos, o tempo levou-o a vaguear por uma onda fresca e veraneante a que chamou ISLA em nove pedacinhos de brisa pop para sujar com areia branca e água morna reunidos sob o título de "The Mediterranean Gardener" e saído na Yep Records em final de Abril. Na descontra... vamos

segunda-feira, 31 de maio de 2021

(RE)VISTO #87






















ZÉ PEDRO ROCK'N' ROLL 
de Diogo Varela Silva. Portugal: Hot Chilli Films, 2019 
TVCine Edition, 28 de Maio de 2021 
O desfecho trágico e antecipado da vida de Zé Pedro, guitarrista fundador dos Xutos & Pontapés, ocorrido em 2017 veio por, si só, atestar o óbvio - a necessidade de um filme que contasse de forma simples o quão invisível mas transversal foi o papel que ele desempenhou na afirmação e diversidade do chamado rock português. O desiderato não se compadeceu com vedetismo ou arrogância mas houve desde jovem uma dose de obstinação que determinou escolhas, aprendizagens e também excessos de um mundo da música que se rodeia de perigos, traições e tentações. Zé Pedro caiu em algumas delas mas, mesmo envolto nessa teia escorregadia, acabou sempre por levar o barco para em frente cerrando os dentes, apertando amizades ou duplicando a teimosia ambiciosa. 

É nessa apego às canções, às guitarras e aos músicos/cúmplices que o documentário se agarra para fazer sobressair um personagem reconhecidamente bondoso, "porreiraço", sempre interessado numa contínua prática como forma de adaptação a correntes sonoras ou a projectos desafiantes. Desde novo, a necessidade de escrever sobre música, de a conhecer a três dimensões e em directo vinda de um palco de estádio ou de um estrado de clube fumarento, levou-o numa procura contínua pela novidade traduzida nos primeiros concertos punk por França que, de imediato, quis transpor para o nosso recanto. Fê-lo sem virtuosismos instrumentais ou malabarismos, arrebanhando parceiros a quem convenceu das virtudes do proto-projecto de banda que queria formar e da única porta para o êxito - não desistir! "Ainda vamos fazer a primeira parte dos Rolling Stones" - alguns torceram o nariz e classificaram-no de "maluco" mas a previsão haveria de confirmar-se trinta anos depois em Coimbra (2009) ao jeito de sonho que comanda a vida e sempre que um homem sonha... 

Como figura do rock 'n' roll nacional, Zé Pedro juntou três facetas complementares mas de risco distinto - como radialista convidado na Radar lisboeta a contar histórias ou a confessar influências, como dj ao lado de Miguel Quintão com o nome de Zig Zag Warriors por muitos clubes do país e que recordamos com saudade nalgumas noites imparáveis do Triplex da Invicta e como co-proprietário de um clube de rock, o mítico Johnny Guitar por onde passaram inúmeras bandas e projectos em estreia pública sem olhar a géneros ou rótulos mas de gestão difícil e, notoriamente, não vocacional atendendo à presença de uma infindável fauna nocturna de "amigos da casa". Uma loucura salutar mas, como muitas vezes durante a sua vida, a roçar o limite do bom senso e tino que o guião esquece de aflorar mais profundamente, não expondo feridas ou outras nódoas negras que comprometessem o retrato afectuoso que se determinou previamente. 

Este será, assim, um filme de amigos que serve para prestar homenagem e tributo a uma incontornável figura do rock em que o título acerta em cheio mas a que faltou um pouco mais de coragem numa abordagem de eficácia incontestável. Respira-se, no entanto, muita e eterna saudade!


sábado, 29 de maio de 2021

UAUU #599

POND, A PROVA DOS NOVES!






















Enquanto os Tame Impala não dão mais notícias e que se espera a confirmação da sua estreia primaveril no Porto em 2022, os compinchas Pond apressam-se na edição de um novo álbum, o nono, em Outubro próximo pela Spinning Top Records australiana. Tem por isso o título/número "9" e nele cabem, lógico, nove canções rápidas saídas da mestria de Nicholas Allbrook que, desta vez, pôs de lado a pop polida que nos habituamos a saborear para passar a arranhar em definitivo as camadas do funk psicadélico e do dance-punk que os dois primeiros singles confirmam na prova... dos noves. 

O disco foi auto-produzido pela banda, deixando para trás a habitual colaboração de Kevin Parker, o Mr. Impala que produziu todos os trabalhos anteriores. Sendo costume, ao vivo, os Pond estarem onde os Impala também estão, talvez regressem ao Parque da Cidade onde já compareceram em 2014 e 2017. Está na hora de nova prova!


sexta-feira, 28 de maio de 2021

PEARL CHARLES DE VISITA!















Agora que a retoma de concertos dá sinais de progresso, anuncia-se a visita da menina Pearl Charles para cinco concertos na península em Fevereiro do próximo ano que servirão de apresentação do disco "Magic Mirror". Um dos nossos actuais guilty pleasures estará pela Galiza e também por Portugal a 25 e 26 desse mês sem locais acertados mas, certamente, preparados para festarola. É melhor começar a lantejoular (sim, o verbo existe...)!

ACID HOUSE KINGS, O REGRESSO!

Se os reis da pop da Noruega da dinastia Kings of Convenience demoraram doze anos a regressar ao castelo, os familiares e também monarcas da vizinha Suécia da dinastia Acid House Kings demoraram um pouco menos, só dez anos. Toca a dançar!

quinta-feira, 27 de maio de 2021

DUETOS IMPROVÁVEIS #240

TODD RUNDGREN & SPARKS 
Your Fandango (Ron Mael, Russell Mael & Rundgren) 
Cleopatra Records, Abril de 2021

(RE)VISTO #86


























FRANÇOISE HARDY - La Discrète 
de Matthieu Jaubert e Emilie Valentin. França; Arte France, 2016 
Canal Arte online, Abril de 2021 
A disponibilização deste documentário à distância de um play permitiu, finalmente, a sua visualização definitiva que tínhamos falhado aquando da emissão televisiva. A nossa curiosidade maior centava-se numa óbvia procura de (mais) elementos esclarecedores quanto à mítica relação profissional (?) de Françoise Hardy com Nick Drake mas, como prevíamos, este é um episódio sem importância que continua à espera de versões credíveis e, apostamos, inéditas. A esse propósito, já alguém resumiu e bem os meandros conhecidos da suposta colaboração... 

Seja como for, estamos perante um filme de excelência que nos permite descobrir uma artista enorme que desde a juventude, nos anos sessenta, fez bater mais rápido muitos corações masculinos. Ainda nos dias de hoje não resistimos a comprar qualquer single dessa época só pelas impressivas fotografias de uma rapariga lindíssima e misteriosa a que Mick Jagger, Paco Rabanne ou um apaixonado Bob Dylan rondaram na corte, tendo este último chegado a dedicar-lhe um poema impresso na parte traseira da capa do seu álbum "Another Side" de 1964. 

A onda yé-yé de que era a jovem rainha (quem não se lembra do "Tous Les Garçons et Les Filles") haveria de esmorecer com o Maio de 1968, ano em que Hardy decidiu retirar-se dos palcos, depois de uma rara tournée britânica, por manifesta inaptidão em lidar com o público, com as câmaras de televisão ou com a imprensa. As imagens e sequências que o documento escolhe para ilustrar esta timidez e resguardo são, sem dúvida, de uma candura surpreendente que obtêm maior relevância pelas palavras da própria nesse reconhecimento sincero. 

Mas as canções não podiam, não deviam acabar. Com a cumplicidade do companheiro de sempre, Jacques Dutronc, ou ao lado de Gainsbourg, Hardy insiste na composição de forma metódica mas sempre discreta, um epíteto certeiro de como Jean Gabin a descrevia nessa época e que se manteve até ao presente. Receptiva, interessada e à vontade em pleno estúdio, gravou álbuns uns atrás dos outros como "La Question", o décimo primeiro longa-duração editado em 1971 com a ajuda decisiva do músico brasileiro Tuca, um tesouro de bossa-nova luxuosa e sensual que aconselhamos sem limitações e reservas. O disco é também um repositório confessional e lírico dos seus receios e medos resultantes da instabilidade emotiva da então relação com Dutronc e que teve num video da altura para a canção título, ao lado de uma dupla de marionetas, uma alegoria propositada. 

Absorvendo influências ou respondendo a desafios, Hardy regressaria a Inglaterra para registar no mesmo ano um disco no estúdio Sound Techniques, pertença do produtor Joe Boyd, onde compareceram uma série de músicos como Richard Thompson e para o qual estava agendado o auxílio de Nick Drake. Mesmo conhecendo a casa, os técnicos e muitos dos restantes músicos, Drake não deu nenhum passo em frente na interacção, não apresentando nenhuma canção que, supostamente, deveria ter composto para a jovem francesa apesar de se ter deslocado em silêncio ao local a muito custo. Sem nenhum original da sua lavra, o trabalho conhecido pelo título "If You Listen" viria a incluir originais de Beverly Martin, Randy Newman ou Neil Young. 

Já longe dos holofotes mediáticos, recusando convites publicitários ou no cinema, a artista manteve na música o único refúgio temperador, continuando a escolher colaborações e parcerias ao sabor da sua intuição nem sempre compreensível apesar da aura de ícone secreto e distante. Não demoraria a que fosse redescoberta por produtores, artistas ou cantores modernos em variados países como Anton Newcom dos Brian Jonestown Massacre, Bertrand Burgalat, Étienne Daho ou os Blur que a convidaram em 1995 para um dueto fantástico em francês/inglês para o tema "To The End (La Comedie)", original do álbum "Parklife" e no qual participava Laetitia Sadier dos Stereolab. A aparição serviria para confirmar que a sua influência não havia esmorecido e que a sua classe e charme se juntavam, eternamente, num estilo único de grande senhora. Um fascínio! 

(se perceberem alemão, o documentário está disponível aqui



quarta-feira, 26 de maio de 2021

(RE)LIDO #103






















LE FANTÔME DE NICK DRAKE 
de Vincent Helvéhem. França; EdiLivre, 2018 
A prosa inspirada nas vicissitudes trágicas de Nick Drake parece não ter fim. Multiplicam-se, estranhamente, as coincidências como a que situa em 2018 a saída simultânea em Espanha de um "El Fantasma de Nick Drake" já por aqui destapado e em França deste "Le Fantôme de Nick Drake"! Diferentes autores que, acertando no mesmo título, recorrem ao espectro macilento de um artista conturbado e confundido pelas agruras de um dia-a-dia cada vez mais cinzento para contar histórias bem diferentes. Se lhe juntarmos um "Espectral, de outro tempo mas tão cool: o "fantasma" de Nick Drake revelou-se há 50 anos" como cabeçalho de um artigo online do ano seguinte num site português, o melhor será pensar que a exaltação da imaginação é, afinal, demasiado traiçoeira... 

Desde a juventude, a ligação de Drake a França foi deixando rastos indeléveis. Foi como estudante em Aix-En-Provence que se iniciou uma libertação e aprendizagem artística decisiva, foi a Paris onde regressou várias vezes na tentativa de chegar à fala com Françoise Hardy ou onde esteve um bom período quase no final dos seus dias num barco de amigos em pleno Sena. Junta-se o (des)gosto pela poesia de Rimbaud e Baudelaire ou a oferta que fez a mãe do livro de Camus "Le Mythe de Sisyphe" que se diz estava pousado na mesa de cabeceira do quarto onde morreu. Não temos, é certo, boas recordações de livros franceses sobre o músico mas atendendo à importância que aquele país teve na sua curta vida, talvez esta ficção retomasse essas conexões de forma cativante para romancear situações ou acasos curiosos. 

A esse nível, a novela é bastante conservadora na simples eleição de vinte episódios biográficos iniciados com um excerto alusivo pertencente a uma letra de canção a que se acrescentam diálogos ou suposições mas que, mesmo assim, alcançam nalguns casos boas sequências narrativas. São exemplares os capítulos referentes a um simples jantar de família em que a irmã Gabrielle demora temerosa a chegar à casa natal já prevendo a precária situação do irmão, a uma caminhada sem fim de um Drake soturno e sem destino pelos campos e caminhos que bem conhece mas onde se perde e desorienta pela simples interpelação de alguém que passeia um cão ou os pensamentos suspirados da mãe Molly na cerimónia do funeral confundida pela presença de tanta gente que não conhece mas que assume como importantes para o filho desaparecido. 

Destacam-se, ainda, as leves abordagens ficcionais ao que poderiam ter sido as diferentes ajudas dos amigos músicos no regresso a um estúdio de gravação para mais canções que não as quatro finitas e que teve em "Black Eyed Dog" uma premonitória sentença. Com maior estaleca (este é o primeiro romance publicado) talvez o autor, nascido no ano em que o seu principal personagem faleceu, nos iludisse de forma mais sonhadora e nos fizesse sorrir. Não conseguiu. E pensar que Drake chegou a gravar um tradicional francês de 1784 chamado "Plaisir D'Amour"...

terça-feira, 25 de maio de 2021

NO MUNDO DE SKULLCRUSHER!















O percurso da jovem Helen Ballentine não é muito diferente do habitual em idade ainda escolar - a ida de Nova Iorque para Los Angeles para frequentar o curso de design gráfico da University of Southern Califórnia, trabalhando como babá ou assistente numa galeria de arte para ajudar nas despesas mas sem nunca esquecer o gosto pela prática do piano e da composição. Ao projecto artístico, mesmo que rudimentar, chamou-lhe Skullcrusher e é com ele que agora a Secretly Canadian assumiu um compromisso de promoção e edição de um novo Ep em Julho próximo chamado "Storm in Summer", o segundo em menos de ano. 

Jogando, não por acaso, numa sonoridade a la Phoebe Bridges com quem, aliás, partilha o gosto pelas creepy things como esqueletos ou design gótico (já perguntaram porque é que Bridges aparece quase sempre vestida com um fato estampado com um esqueleto? Há uma resposta possível) mas as canções nada têm de agressivo ou ameaçador apesar do peso do nome. Pelo contrário, sobressai uma leveza adensada por muitas tardes, já desempregada, a ouvir Nick Drake ou electrónica ambiental, a ver filmes surrealistas como "Valerie and Her Week of Wonders" (1970) ou a ler novelas fantásticas, um mundo próprio e, por isso, idílico e misterioso a que a sonoridade de um banjo muito americano costuma emprestar maior delicadeza.  

Ao mestre inglês dedicou a canção "A Song for Nick Drake", o primeiro avanço saído em Fevereiro da referida edição de Julho mas o tema título também recebeu tratamento videográfico a preceito a que se juntou há dias uma cover de "Cloudy Shoes" do álbum "Saint Barlett" (2010) de Damien Jurado a pedido da editora e incluída na série SC25 Singles comemorativos e solidários dos vinte cinco anos da casa de discos de Indiana. A propósito, deixamos uma outra versão, mais antiga, referente a "Lift" dos Radiohead e incluída num single de Outubro de 2020.




MDOU MOCTAR DE SECRETÁRIA (CASA)!

segunda-feira, 24 de maio de 2021

(RE)VISTO #85














DAVID BOWIE - Os Últimos Cinco Anos 
de Francis Whately. Inglaterra; BBC Studios, 2017 
RTP2, Portugal, 22 de Maio de 2021 
O começo do ano de 2016 trouxe o desaparecimento inesperado de David Bowie. Sabíamos da sua doença, não da sua gravidade, mas a constante actividade artística, mesmo que subterrânea, desde o renascimento oficial em 2013, mantinha sobre ele uma névoa notável de atenção mediática. Várias hipóteses se afiguravam quanto à verdadeira intenção do acelerar de colaborações, experiências, ideias ou construções que só o cerco da morte, afinal, podia explicar na urgência mas à qual juntou talento e pertinência maturadas em silêncio e conluio a longo prazo. 

Com o selo de qualidade da BBC, o documentário estreado logo em 2017 e que passou sábado passado na RTP2, traça de forma séria e linear os últimos cinco anos de uma vida cheia, rica e mutável de personagens e papéis que uma última digressão (2003) parecia coroar de forma feliz e bondosa. Um susto cardíaco (?) em cima do palco num desses concertos, isolou Bowie ao longo de quase uma década perante interrogações de amigos músicos e fãs expectantes mas o Camaleão, mesmo hibernado, tinha ainda uma nova cor da pele protectora para vestir - um branco cru em sinal de claridade, paz e acutilância traduzida num álbum de originais surpreendente e estelar. Com "The Next Day" pontuavam-se as facetas, os rancores e vitórias de um artista pungente e interessado no que parecia ser uma derradeira reinvenção com os colaboradores de sempre - músicos e o produtor Tony Visconti - mas a que foi agregando novos habilitados nas experiências videográficos ou coreográficos para conceber as ligações modernas com as memórias e as múltiplas variantes da fama que sempre o rodeou. 

É nela, nessa aura de glória eterna, que o documento sustenta uma circular tensão plena de imagens de um passado engrossado rapidamente num esgotamento mediático que as adições disfarçaram até ao limite - o exílio certeiro em Berlim haveria de transformar, em definitivo, a agulha rectilínea num zigue-zague de caminhos, subidas e descidas nem sempre fáceis e que o video intencional de "Where Are We Now?" traduz de forma subliminar, a primeira canção do referido "The Next Day" a ser conhecida e que é, sem dúvida, uma das suas melhores criações. Passado + presente, presente + passado são equações inseparáveis que, neste período de cinco anos, não são mesuráveis pelo calendário mas pela escolha pessoal em quem podia ajudar a conceber e concretizar o desígnio da sua consciência multiplicadora de ideias para a capa de um disco (Jonathan Barnbrook, 2013), para um musical ("Lazarus", Ivo Van Hove, 2015) ou para abordar novas composições (Maria Schneider, 2015), denotando uma constante irreverência sem olhar a preconceitos

Com "Blackstar", registado sem medo com a banda de jazz de Donny McCaslin por sugestão de Schneider, o mundo assitiria em 2016 ao último fôlego de um Bowie profético e metódico numa codificacão simbólica traduzida numa morte como que preparada para o terceiro dia depois da edição desse último álbum. Nas suas próprias palavras: 

"I'm not a Dylan. And I'm not somebody who can sit down and stoically write a clear picture of what's happening, you know. But, I can leave a very strong impression of how I feel about it.

Tocante! 

(para rever na RTP Play até dia 29 de Maio)


BOB DYLAN 80!

Parabéns, Mr. Dylan!

sábado, 22 de maio de 2021

UAUU #598

ERIKA DE CASIER, SENSACIONAL!






















Perdida no palco do Hard Club quase submerso na escuridão, a miúda Erika de Casier bem que se esforçava com o contributo de um baterista... A plateia, na tagarelice mal educada, mantinha-se maioritariamente alheia e à espera de Chaz Bear aka Toro Y Moi como se confirma no que conseguimos registar em video na altura. Passaram dois anos mas ficou-nos na memória a qualidade quase inocente das canções que faziam parte do primeiro álbum "Essentials" que não conhecíamos mas fomos ouvir na tentativa de não lhe perder o rasto. Valeu a pena o lembrete! 

Surge agora em todo o esplendor a confirmação de uma jovem artista através de um disco emotivo chamado "Sensational" saído ontem na afamada 4AD, um misto de soul e r&b refinado onde tanto submerge a delicadeza de FKA Twigs ou a atitude de Janet Jackson num género de outside groove refrescante produzido pela própria com a ajuda de Natan Zeks. 

Casier, para que conste, nasceu em Portugal de mãe belga e pai cabo-verdiano em 1999 mas aos oito anos emigrou para Ribe no sul da Dinamarca onde desenvolveu sozinha a paixão pela música, pela composição e pela liberdade criativa, deitando para as urtigas estereótipos e preconceitos bafientos. Corajoso e sensacional!



sexta-feira, 21 de maio de 2021

FITAS DE UM TEMPO #02

A presença de um bem disposto Mark Eitzel numa tarde de sábado num centro comercial teve lugar em Matosinhos já lá vão uns bons anos. Foi a primeira vez que tocou num shopping/mall e deve ter sido a última. A oportunidade surgiu aquando da passagem dos então refeitos American Music Club pela Casa da Música para apresentarem "Love Songs For Patriots" de forma sublime e que permitiu uma fugida agradável de véspera ao Fórum FNAC do Norte Shopping para algumas canções e conversa.

Apesar da informalidade, a sessão começou intensa com um Eitzel desleixado no casaco roto sentado à guitarra para quatro grandes temas - "Another Morning", "Only Love Can Set You Free", "Home" e o velhinho "Why Won't You Stay" - entre um irritante mas natural choro e palavreado de um bébé no limite do suportável. Passou-se depois à conversa com Álvaro Costa, momento de descontracção que no caso de Eitzel se afigura sempre imprevisível e perigosamente nonsense - falou-se de Mariah Carey, Dart Vader ou Cat Power, um pedido expresso da plateia muito bem composta, e brincou-se em pose para a fotografia (lá apanhamos o amigo de sempre em acção). 

Um pouco mais a sério, dimensionou-se a importância do amor e da música, da estupidez dos regimes totalitários ou da queda do ocidente entre profecias negativistas. Tempo no final do showcase para "My Pet Rat St. Michael", um até aí desconhecido tema que faria parte do erradamente subestimado álbum a solo "Candy Ass" lançado no mesmo ano, mais uma prova efectiva de resiliência duradoira. You gotta fight for it...

FAZ HOJE (16) ANOS #61






















MARK EITZEL, FNAC Norte Shopping, Matosinhos, 21 de Maio de 2005
Jornal de Notícias, por Cláudia Luís, fotografia de Artur Machado, 22 de Maio de 2005, p. 40

quinta-feira, 20 de maio de 2021