sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PREFAB SPROUT TROCADO POR MIÚDOS!





















Numa qualquer estante de livros respeitante ao mundo da música pop inglesa, certamente, uma núcleo de biblioteca especializada de dimensões assinaláveis, devem ser poucos os centímetros ocupados por literatura relativa aos amados Prefab Sprout. A escassez afigura-se estranha atendendo ao volume de vendas e êxitos que a banda alcançou nos anos oitenta, e também noventa, do século passado, e a explicação talvez seja só uma - o recato que o seu mentor e líder Paddy McAloon sempre impôs à sua vida pública e privada, coartando explorações abusivas e, involuntariamente, multiplicando rumores, boatos ou mistérios. Há quem, por isso, não lhe largue o rasto... 

Nige Tassell, jornalista dito cultural e confesso fã da banda, é um desses que, discreto, foi acumulando informações e cruzamentos biográficos para tentar iluminar e aclarar as fontes do talento e das manias de McAloon, mesmo que sejam já mais de treze os anos passados sobre o último disco de originais. Mantendo a distância, sem sequer chegar à fala presencial, o resultado é "Truly Gifted Kids: a book about a band called Prefab Sprout" que a New Modern Books/Simon & Shuster edita a partir do dia hoje no Reino Unido e facilmente acessível online. 

Se uma anterior tentativa, com reduto castelhano, nos motivou um leve encolher de ombros de desilusão, a novidade agora publicada sugere uma profundidade de pesquisa assinalável e também uma liberdade criativa promissora advinda quer da experiência do autor como roadie eventual do kid e mano Martin McAloon nos recentes concertos a solo, quer como um investigador infiltrado na procura da mota mais famosa da música pop. Trocado por miúdos, tudo parece, pois, apetitoso!

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANA FRANGO ELÉTRICO, Morro Sonoro, Jardim do Morro, VNGaia, 31 de Julho de 2026

O nome de Ana Frango Elétrico têm nos últimos anos assumido protagonismo entre a nova música brasileira. Versátil, irrequieta, sempre a jogar na intervenção e no activismo, cedo largou lastro por terras lusas com o seu pop inteligente, onde o funk, a soul e a MPB se misturam de uma frescura vintage que seduz e acelera interesse intercontinental. Que o diga a Mr. Bongo, casa de discos inglesa sempre interessada na actualização retro do seu catálogo. 

Não foi por isso surpresa que a aparição gratuita no Jardim do Morro tivesse juntado jovens lusos a uma multidão de brasileiros e muitos outros estrangeiros, já de si aconselhados a ir ver o pôr do sol mais badalado da região, ali reforçado com banda sonora a condizer. Nada de exagerado, mas facilmente praticável numa onda descontraída, dançável, perfeitamente nivelada pelo caloraça bem-vinda de final de tarde a que muitos reduziram, ou multiplicaram, a temperatura aportando de casa diferentes beberagens ou outros estimulantes fumarentos. 

A receita, que tanto pode lembrar o clássico groove dos Chic como uma pérola de Rita Lee, teve nota artística muito saudada e participada, de maioria sabedora e repetente no replicar das letras de indefinição e acutilância arty qb. Para o fim, "Mulher homem bicho" e "Electric Fish" multiplicaram a jiga colectiva, mas foi o "larari larara" da incursão em "Não tem nada não / Gypsy Woman (She's Homeless)" que ganhou aos pontos. 

Para quem quiser repetir a dose, e passar uma noite em cheio, sábado, dia 8 de Agosto, no festival EsteOeste do Parque da Ponte em Braga, há mais...

sexta-feira, 31 de julho de 2026

JULIA HOLTER, MATÉRIA ESPIRITUAL!





















Imaginado como uma sequela do anterior "Something in the Room She Moves" de 2024, o novo "Materia" de Julia Holter chega no final de Agosto como mais uma demonstração de sabedoria pop(ular) - lustroso, sofisticado, transcendente, nele cabem somente sete temas, mas devem ser suficientes para impressionar! 

Do tema título, reforçando um risco instrumental e mecânico, isto é, electrónico, há três versões, mas só a segunda e a terceira estão contidas no alinhamento. Aquela que lhes deu origem sugere andar disfarçada entre as variações ou terá escuta priveligiada destinada aos palcos que, por agora, ainda não foram reservados. 

Um caso sério de inquietude e talento, Holter terá sempre porta aberta aqui da casa para continuar a texturar, espiritualmente e em harmonia, os nossos dias, qualquer um deles!


quinta-feira, 30 de julho de 2026

GEORDIE GREEP, APELO!





















Revelou-se tardia a informação quanto ao concerto de dia 14 de Novembro do irrequieto Geordie Greep no RCA-Radioclube Agramonte do Campo Alegre. Esgotado, como seria natural! 

Por isso, e no sentido de repetir em sala pequena a salutar festarola de Coura do ano passado, apela-se a quem consiga desenrascar, desviar ou fazer sobrar um qualquer bilhete legal para a correria e levitação sonora, o favor de contactar por quaisquer dos meios. Gratos, desde já! 

SONDRE LERCHE, OUTONO EM POP!














São já mais de vinte os anos sobre a passagem de Sondre Lerche pelo Festival Para Gente Sentada de Santa Maria da Feira em 2005, por sinal, a única vez que o vimos ao vivo. Em Novembro próximo, a raridade terá multiplicação tripla por palcos portugueses com concertos a solo em Lisboa (dia 12), Aveiro (dia 13) e Arcos de Valdevez (dia 14, sábado). 

Há já bilhetes para o Teatro Aveirense, mas a Casa das Artes de Valdevez só costuma disponibilizar entradas na semana anterior ao evento. Aceita, contudo, reservas. 

A intensa digressão europeia prevista refere-se à promoção de "Acrobats", o décimo primeiro disco de uma colecção de elevado teor pop que terá edição oficial em Agosto. Onze canções de romantismo indisfarçável que se segue a um aditivo EP datado de Janeiro. Lá estaremos, no Outono, para dar provas de apego!


 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

JOEP BEVING, Palco das Artes, Vila Nova de Cerveira, 25 de Julho de 2026

O ciclo anual quase vintenário "Cerveira ao Piano", recuperado e promovido pelo município de Vila Nova De Cerveira, tem nos últimos anos aportado algumas surpresas. Por lá passaram já Wim Mertens (2022) ou Micah P. Hinson (2025, sim, a tocar piano), e uma das duas noites do corrente ano foi dado privilégio ao holandês Joep Beving. Não é coisa pouca! 

Artista referência do chamado neoclássico, movimento já documentado em filme, a presença no auditório minhoto motivou plateia luso-galega esgotada e, maioritariamente, a estrear-se na audição. Mesmo assim, alguns repetentes não perderam a oportunidade dourada para testar muitas das peças do novo álbum "Liminal" que a Deutsches Gramaphone editou em Março passado. 

A harmonia obtida, com fonte primordial na recente novidade discográfica, foi-se engrandecendo de forma calma, subtil, criando uma atmosfera planante, quase onírica, e que um simples e pequeno piano vertical tornou milagrosa. Ao seu comando instrumental, a enorme figura de Beving, a fazer lembrar o miúdo louro Schroeder de "Peanuts", e mesmo na descontracção de umas férias familiares pelo país, obteve forte ovação perante o liminal sonoro apresentado, jornada saborosa e, ainda assim, admirável. 

Lá para Janeiro, e já com concerto marcado no São Luís da capital (dia 6), pode ser que a viagem espiritual se volte a repetir...

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TIGRAN HAMASYAN, FIME, Auditório de Espinho, 23 de Julho 2026

A segunda visita de Tigran Hamasyan em três meses (Casa da Música, 21 de Abril) não será um acaso. A composição da sua música atinge uma profundidade e ritmo contagiadores de diversas camadas de público, o que foi facilmente comprovável no rápido esgotar do concerto espinhense e pela presença de diferentes gerações na ante-câmara que dava entrada no auditório do festival. 

Do cruzamento e confluência de géneros, onde a vivência arménia se torna outra vez evidente, se faz o novo álbum "Manifeste", uma receita envolvente de dinamismo progressivo que, ao vivo, logo fez abanar algumas das cabeças dos que, orgulhosamente, vestiam t-shirts metaleiras. Mesmo que a acústica regulada não tenha ajudado na melhor das fruições, tornou-se evidente o poderio de um baixo extravagante de doze cordas e o peso sincopado da bateria para que a intensidade nunca se tenha perdido. Mas... 

Nos seus meandros, como que flutuantes, teclas virtuosas do piano de Hamasyan e uns sussurros de canto coral tradicional foram desregulando, melodiosamente, um concerto de alta vivacidade e de destino imprevisível, acentuando que o jazz não tem limites. Ainda bem, ainda bom!

sexta-feira, 24 de julho de 2026

MERCURY REV, UM SONHO INFINITO!





















Os Mercury Rev lançaram há vinte cinco anos o seu quinto álbum de originais. Chamaram-lhe "All Is Dream", contempla enormes canções e composições que se poderão recordar, a três dimensões, já no próximo dia 2 de Outubro, sexta-feira, no resistente Hard Club. O sonho parece não ter fim... bilhetes!

JOHN HOLLENBACK "GEORGE", Assembleia do Muzeu, Braga, 18 de Julho de 2026

O recentemente inaugurado Muzeu que reabilitou o antigo Palacete Vilhena Coutinho, edifício emblemático do centro histórico de Braga, contempla no seu último piso uma sala polivalente de excelente condição e harmonia onde pode caber uma variada programação cultural. Chama-se Assembleia, talvez por corresponder a instalações anteriormente afectas ao Tribunal Judicial e nela decorre, mensalmente, o ciclo Jazz no MUZEU, com curadoria do Hot Clube de Portugal. 

Se o lema é "MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea", fará todo o sentido cruzar-lhes modernas abordagens musicais como a do baterista norte-americano John Hollenbeck e o seu projecto "George". Formado durante a pandemia e já plasmado em dois discos de originais, o quarteto arrisca um conceito de vanguarda à volta de "George", homenageando diferentes baptismos de almas com esse nome, de George Clooney, George Saunders a George Michael, passando por George Clinton ou George Floyd. 

A alguns deles se dedicaram diferentes momentos jazzísticos de forte e veemente batimento, o que não deixou de fazer vincar algumas da subtilezas das vozes e muita da vibração de um saxofone e flauta das restantes instrumentistas. Original, surpreendente, não foi, mesmo assim, fácil arrancar aplausos convictos a uma plateia bem preenchida mas, talvez, atordoada com a estranheza da audição, o que perece ter demorado a entranhar-se na proporção ideal. 

Se, ao que parece, "Georgios" tem na sua origem etimológica grega significados associados a "agricultor" ou "trabalhador da terra" e derivativos que nos conduzem a "produtor", então, nada como recomendar a continuação do bom e empenhado trabalho executado! 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

GABI HARTMANN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 18 de Julho de 2026

Tal como em anteriores edições, o festival tem por hábito programar, pelo menos, um concerto onde a aproximação ao jazz é, assim dito, duvidosa. Pode ser o neo-soul, pode ser uma electrónica adocicada, poder ser até a chanson ou a delicadeza da bossa nova. A jovem parisiense Gabi Hartmann é, pois, o perfeito exemplo deste inocente e inofensivo sacrilégio, para os mais puristas, ou uma arejada dádiva, para os mais flexíveis e descontraídos. 

Foram destes muitas das palmas para um alinhamento diverso e multilingue, onde brilhou a guitarra de Abdoulaye Kouyate e uma voz envolvente para canções de semente tropical, africana ou, como não, francesa, que, no seu efeito leve e perfumado, se mostraram e ouviram de forma prazerosa e entretida. Sem ofensas e, até atendendo ao nome de um dos patrocinadores, um fim de tarde muito smooth... fm!

segunda-feira, 20 de julho de 2026

LAKECIA BENJAMIN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 12 de Julho de 2026

Já com visitas triunfantes a palcos portugueses (Espinho e Coimbra, 2023; Braga, 2024), faltava a Lakecia Benjamin uma consagração adequada. O final de tarde no jardim matosinhense mostrou-se, a esse nível, perfeito na descontracção e informalidade de uma fruição arrebatadora desde o primeiro momento - servindo-se do seu saxofone alto, pequeno no tamanho, enorme na vibração, logo o quarteto se ligou a ele como conector de uma energia em potência acentuada. 

Foi, pois, difícil baixá-lo na intensidade, o que nem mesmo aconteceu nas pausas para fazer brilhar os outros instrumentos, às mãos de um trio de teclado, bateria e baixo em perfeita rodagem e complemento. Ao conjunto, acelerado numa tradição clássica de forte jazz, não faltaram toques de r&b, hip-hop e o bom do funk, ressaltado nas duas últimas e incendiárias peças à custa de um baixo eléctrico bamboleante. 

O aplauso colectivo que brindou o final da passagem cometa pelo coreto só confirmou a grandeza de um concerto que se esperava vigoroso e que redundou numa fonte energética de rápida absorção e firmeza. Que salutar vitamina! 

UAUU #758

quinta-feira, 16 de julho de 2026

MY NEW BAND BELIEVE, ACREDITEM!
















Tal como seria previsível, dos estilhaços dos Black Midi não faltam renascimentos sonoros de alto calibre. Se Geordie Greep se apressou a estender o seu salutar desvario em forma desconstruída de canções com "The New Sound" (2024), palpitante exercício artístico com exame aprovado em Coura o ano transacto, não lhe fica atrás o outro vocalista, Cameron Picton, que foi assumindo o colectivo My New Band Believe de forma excitante. 

A estreia em Abril com o disco homónimo é de uma maturidade pop viciante e de progressão flutuante e misteriosa, confirmando, desde já, a presença em muitas das listas de melhores do ano a sair lá para o Natal. A "coisa", que só faz efeito ouvida de fio a pavio, terá avaliação presencial, agora confirmada, no irreverente festival Mucho Flow de/em Guimarães, no próximo dia 31 de Outubro, sábado pela noitinha. Ainda sem bilhetes diários, será pecaminoso faltar. Acreditem! 


3X20 JULHO

FLEA DE SECRETÁRIA!

NUBYA GARCIA, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 5 de Julho de 2026

Afixada a um firmamento cintilante do novo jazz, Nubya Garcia e o seu habitual trio regressaram a norte em toda a plenitude aurífica. Tal como na Casa da Música, no início do 2025, não há por aqui qualquer subterfúgio de circunstância ou esconderijo artístico - tudo emerge numa intangibilidade magnífica e elegante em que os instrumentos se auto complementam à conta de uma osmose clássica de sonoridades, mas que só sobredotados aplicam no primor da subtileza. 

Clareado, cheio, perfumado, o jardim como que se suspendeu de rumorejadas brisas ou ventanias para ajudar a plateia, sortuda, a captar e a revolver uma donativa união instrumental em que o saxofone que Garcia desempenha sem paralelo sugere, cada vez mais, uma condição fascinante de prodígio enleada a uma bateria, baixo e teclados talvez imbatíveis. Seja qual for o significado de núbia, esta é mesmo de ouro e bastante preciosa! 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

FEINER & RASK, REINVENÇÃO VIKING!

O projecto colaborativo de Thomas Feiner com Johan Ludvig Rask, que se anunciou há mais de um ano, tem agora confirmação oficial e três temas completos para escuta. Trata-se, como percebido, de variações em inglês de clássicos da folk sueca em assumido e enegrecido ambiente alternativo: 

. "The Sun Fell Softly on the Ocean" do trovador sueco Evert Taube (1890-1971), traduzida na lírica pelo seu neto, Felix Taube; 

. "Ida's Summer Song", original composto por Georg Riedel (1934-2024) e que recebeu lírica de Astrid Lindgren (1907-2002), autora de literatura infantil consagrada no país; 

. "Midsummer Song", um tradicional de 1945, teve tradução e adaptação em inglês do próprio Feiner. 

As imagens, de auto-curadoria arriscada, exploram ferramentas de animação artificial inteligentes.



CAMERON WINTER, PARA (ATÉ) QUANDO?

Vem já de 2024 um grande, surpreendente, álbum de Cameron Winter, agora conhecido líder dos Geese, que só começamos a ouvir já em 2025. Viciante, intemporal, "Heavy Metal" tornou-se, desde logo, obrigatório imaginar como seria absorvê-lo numa qualquer sala às escuras. 

Pois bem, o homem já tocou em quase todo o lado, passou por Barcelona há poucas semanas, mas não se vislumbram sequer aproximações portuguesas, agora que faltam ainda conhecer alinhamentos de alguns eventos mais que apropriados para a estreia - o Manta vimaranense, o Respira bracarense ou até o MistyFest que sugere estar sempre incompleto.

Entretanto, tem uma semana a divulgação maravilha de uma vintena de minutos da passagem pela Opera House de Sydney em Fevereiro, exemplo perfeito do que andamos a perder. Masoquistas, juntamos dois inéditos, um oficial, outro à socapa...



quarta-feira, 10 de junho de 2026

3X20 JUNHO

HERMANOS GUTIÉRREZ, OLHOS ANDINOS!





















Na sua linhagem sul americana, os Hermanos Gutiérrez aportam para um novo álbum o secular universo sonoro dos Andes peruanos, deixando para atrás o oeste americano que preencheu toda a sedutora discografia precedente. Ao comando continua Dan Auerbach, metade dos The Black Keys, que na mesa de mistura do estúdio tratou de evidenciar tantas das exuberantes nuances instrumentais de "Los Ojos Del Condor", disco com saída prevista para Setembro. 

Antes, os irmãos Alejandro e Estevan estarão em dose dupla no nosso norte do país: a 13 de Agosto, quinta-feira, em Paredes de Coura, cumprindo o concerto cancelado em 2024 e, um pouco mais de um mês depois, no muito esgotado e apropriado Teatro Sá da Bandeira, a 25 de Agosto, terça-feira.