sábado, 5 de novembro de 2011

WILCO + JONATHAN WILSON, Auditorio Mar de Vigo, 4 de Novembro de 2011

WILCO + JONATHAN WILSON, Auditorio Mar de Vigo, 4 de Novembro de 2011

Há um consenso generalizado sobre a excelência dos concertos dos Wilco. Descritos, quase sempre, como exemplos perfeitos de intensidade pela imprensa e pelos fãs, a fama não é um mito em si mesmo, levando ao rápido escoamento dos bilhetes nas últimas digressões pela Europa, excepção feita às duas datas portuguesas (Braga e Lisboa) de 2009 que se saldaram por plateias quase a metade da ocupação... Os Wilco são, sem dúvida, uma banda cara que gosta de espaços pequenos para apurar a sua música e a relação com os fãs e, claro, o preço das entradas dispara para números que por cá continua a fazer mossa. Lamentos à parte, tristezas continuam a não pagar dívidas! Em Espanha, pelo contrário, a banda é notoriamente um fenómeno de popularidade e consenso, com múltiplas datas ao vivo rapidamente esgotadas e dedicação venerada de uma imensidão de fanáticos à espera de uma nova oportunidade de serem surpreendidos. Em Vigo, ontem à noite, havia, contudo, algumas condicionantes que podiam causar, mesmo para repetentes, algumas incertezas, já que o novo e enorme auditório da cidade recebia um importante teste quanto as suas capacidades acústicas e de sobre-dimensão. Afinal, nada havia que temer. Ao fim da primeira meia-hora de concerto, iniciado surpreendentemente dez minutos antes da hora marcada, os medos haviam sido esquecidos e já todos se tinham rendido à grandeza da música, ou seja, ao mais importante. Apostando em “Art of Almost”, "I Might" e “Ashes of American Flags” para abrir a contenda de forma sublime, muitos perguntariam como seria possível manter o elevado nível até ao fim. A resposta foi clara. Sempre em crescendo, o alinhamento, escolhido a dedo preferencialmente entre os últimos cinco álbuns, permitiu um verdadeiro recital enciclopédico do que deve ser um concerto ao vivo: um melting-pot de emoções, dedicação, virtuosismo e, não menos importante, humildade. Os Wilco são, assim, uma banda com um único objectivo claro – melhorar sempre. O certo é que Tweedy, Cline e restantes músicos denotam um profissionalismo e entrosamento cada vez mais raro em bandas com tanta longevidade e que se transformam, aos nossos olhos e ouvidos, numa sempre fresca e delicada sonoridade que nos atropela a cada canção de forma avassaladora. Talvez o solo de “Impossible Germany” seja o exemplo perfeito desta redentora devassa emocional, como o prova a gritaria incontida de uma plateia em êxtase, arrebatada por um momento que o El Pais descreveu como "o melhor solo de guitarra do século". No único encore, a banda haveria de nos aplicar a todos alguns murros certeiros ("Dawned on me", "A Shot in the arm" ou "Heavy Metal Drummer") para que, de uma vez por todas, não restassem dúvidas quanto ao que vinham: deixar-nos maravilhosamente KO!















Como que recuperados da anestesia, lá fomos recordando, afinal, que antes dos Wilco o senhor Jonathan Wilson tinha passado pelo mesmo palco para apresentar de forma curta, mas brilhante, o seu recente álbum. Com a ajuda de um banda bem oleada e contando com a guitarra de Pat Sansone dos próprios Wilco, o músico surpreendeu muitos dos presentes com canções-maravilha como o tema título "Gentle Spirit", “Desert Raven” ou “Canyon In The Rain”, a que só faltou a escolha de “Can We Really Party Today?”, um dos nossos hinos de Outono. Um pouco mais de meia-hora serviu, assim, para fazer esgotar os discos de vinil à venda no átrio do auditório, provando a qualidade e intemporalidade da música de Jonathan Wilson, a precisar de urgente apresentação em nome próprio, se possível, no aconchego de um pequeno teatro.




+ videos no Canal Eléctrico
+ crítica no "El País/Galícia"
+ crítica no "Faro de Vigo"
+ crítica & fotos na "La Voz de Galícia"

2 comentários:

Pedrolap disse...

Sou fã dos Wilco, tendo-os visto ao vivo por 2 vezes: 14 Set 2010 em Londres no Royal Festival Hall e este concerto em Vigo.

Acho um disparate e penso não combinar com a forma de estar na musica dos Wilco alguém achar o solo do Nels Cline em Impossible Germany como "o melhor solo do século" - na música não existe o melhor nem o pior.

Gostaria ainda de referir que neste excelente texto sobre o concerto, ficou somente por referir a elevada qualidade e bom gosto de todos os músicos:
Jeff Tweedy - Vocalista/guitarrista, extraordinário quer na forma de cantar/escrever/compor tendo uma espontaneidade/oportunidade ímpar.
John Stirratt – Baixista, excelente instrumentista, “retira” do baixo uma sonoridade somente ao alcance dos muito bons. Associando a isso tem muito bom gosto.
Glenn Kotche – Definitivamente o baterista que mais gostei de ver tocar ao vivo, é uma referência, sem limites na criatividade.
Nels Cline – um verdadeiro guitarrista solo “enciclopédia” com imensas soluções. Um “louco”
Pat Sansone – multi-instrumentista, relativamente ao concerto do ano passado ganhou imensa preponderância nas “guitarras”.
Mikael Jorgensen – Teclista, excelente músico e pedra fundamental na gravação dos álbuns.

Apesar de terem tocado sobretudo o último albúm, acho que foi um setlist impar pois não é comum tocarem tantas músicas quer do A.M. (1º disco), quer do 2º Being There.

Perdoa ter me intusiasmado com esta "análise", mas ainda não "recuperei" do concerto.

JMiguel Neves disse...

Caro Pedro,
Grato pelos reparos.
Claro que a classificação do El Pais é um exagero, mas tens que concordar que o solo do "Impossible Germany" foi, + uma vez, fenomenal!
Ainda tou, como tu, em "convalescença". A "medicação", para descer à terra devagarinho, tem sido uma dose continua de álbuns dos Lambchop no iPod... Acho que resulta!
Abç