sexta-feira, 25 de setembro de 2020

SUFJAN STEVENS, A ASCENSÃO!



Está já disponível para completa audição, a partir de hoje, o novo álbum "The Ascension" de Sufjan Stevens. Num primeiro teste, sobressai um fiozinho electrónico em todos os quinze temas talvez porque, desta vez, os alicerces criativos tiveram o sintetizador e uma caixa de ritmos como argamassa e, por isso, este não é um disco de "guitarra e voz" que muitos associam ao seu início de carreira. Denota-se que a essa base, composta em isolamento junto das montanhas de Catskills (Nova Iorque), se vai juntando uma grandiosidade sonora que, sem ser exagerada, nos convoca amiúde para a dança e, estranhamente, para a contemplação e reflexão traduzidas em desenhos do próprio incluídos no booklet do disco e na capa em vitral. A viagem culmina com o épico "America", um manifesto político de doze minutos que já mereceu edição em 12" de vinil . Confusos? O melhor é ouvir a ascensão...



DANIEL JOHNSTON, SAUDADES!






















No passado dia 11 de Setembro e após um ano sobre a morte de Daniel Johnston, os amigos reuniram-se, mesmo à distância, para lhe prestar um tributo carregado de saudade e carinho usando a nova página no YouTube e também o site dos estúdios Electric Lady de Greenwich Village em Nova Iorque. O evento denominado "Honey I Sure Miss You - A Tribute To The Life, Art, And Music Of Daniel Johnston" a partir de uma canção da sua autoria com o mesmo nome, recebeu a participação gratuita e imediata de um conjunto notável de artistas rendidos ao seu talento e bondade e que foram convocados por Lee Foster dos referidos estúdios a enviar uma interpretação caseira de um tema preferido. 

Na lista seleccionada de quinze versões aparecem nomes como Adam Green, Devendra Banhart, Kevin Morby, Fontaines DC, Phoebe Bridgers, o trio Tweedy a quem coube de abrir o evento e Beck com a honra de interpretar o eterno "True Love Will Find You In The End". Há ainda um inédito filme de 1991 remetido pela família do homenageado e onde Johnston interpreta "When I Met You" (ver ao minuto 43 aprox.), que nos acentua a melancolia mas nos semeia um ainda mais profundo respeito. Saudades, amigo!   

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

BLUE NOTE, A RE:INVENÇÃO!

A histórica editora Blue Note nascida em território americano há mais de oitenta anos é um daqueles casos, infelizmente cada vez mais raros, de saber envelhecer com estilo. Associada ao jazz dito tradicional e às suas modernas ramificações, a façanha da longevidade teve sempre no risco da prospecção artística e na sua efectiva utilidade, que ultrapassa continentes, géneros ou estilos, uma forma de estar.

Atenta à nova e excitante cena jazzística britânica, lançou recentemente o desafio a uma seleccionada panóplia de jovens artistas ingleses para reinventaram uma série de dezasseis clássicos incluídos em discos da própria casa editados desde os anos sessenta até aos anos dois mil, de Wayne Shorter, Herbie Hancock, Donald Byrne ou McCoy Tyner até Luduvico Navarre aka St Germain e o seu imprescindível "Tourist" (sim, é verdade, o álbum já saiu mesmo há vinte anos na Blue Note...).

O projecto recebeu o nome de Blue Note Re:imagined, tem edição em vinil azul e uma selecção de quatro 7" com metade das escolhas, eia, onde destacamos, na mesma rodela, a aditiva versão de Jorja Smith para "Rose Rouge" de St. Germain e de "Footprints" de Wayne Shorte a cargo do fundamental Ezra Collective.
     

(RE)VISTO #78


























HITSVILLE: O NASCIMENTO DA MOTOWN 

de Benjamin Turner e Gabe Turner. E.U.A, Motown/Showtime, 2019 
TVCine Edition, Portugal, 18 de Setembro de 2020 
A incrível história da Motown valeu já algumas abordagens documentais, umas mais generalistas como a do Canal História datada de 2007 e outras em formato filme de argumento baseado em supostos factos verídicos como, por exemplo, "Dreamgirls" do ano anterior, que passou para os grandes ecrãs o musical com o mesmo nome de 1981 e onde se conta a ascensão das The Supremes e Diana Ross protagonizada pela eterna Beyoncé. Em ambos, há um personagem central chamado Berry Gordy que se tornou uma figura mítica da música norte-americana pela ousadia em criar uma editora especificamente de música soul chamada primeiro Tamla (1959) e depois Tamla Motown ou simplesmente Motown (1960). O nome associa as palavras motor e town tal como é conhecida a cidade de Chicago onde o projecto cresceu e vingou precisamente inspirado num trabalho temporário de Gordy como operário numa linha de montagem da Ford e que ele transpôs, primeiro em sonho e depois a muito custo, para fazer canções de sucesso - uma "fábrica" onde o esqueleto de um tema era transformado e polido como cintilante e potencial êxito para passar nas rádios e inundar as lojas com pequenos singles de vinil.  

Os anfitriões deste novo filme-documento, que pretendeu evocar os sessenta anos da editora discográfica, são a dupla desbravadora Berry Gordy e Smokey Robinson em diálogos e constantes provocações de animada e bem disposta conversa e desafio sobre os altos e baixos de tamanha máquina de êxitos/hinos - uma casa no centro da cidade autosuficiente de compositores, músicos, cantores, backsingers, estúdios de gravação e dotada de um sistema de distribuição eficaz e pronto para satisfazer os jovens clientes, local hoje transformado em museu e que foi o epicentro fervilhante de um dos maiores fenómenos de concentração de talento por metro quadrado da história da música para sempre baptizado de Hitsville USA. A catadupa de artistas e bandas que desfila à nossa frente quase se torna inverosímil, todos rodeados estrategicamente pelos melhores músicos, os jovens da comunidade envolvidos no jazz desde cedo em programas educativos das escolas públicas e que teve nos Funk Brothers o veio central de uma engrenagem residente e oleada, ela própria já retratada em "Standing in the Shadows of Motown" de 2002 que vimos no Fantasporto de 2004 e posteriormente editado em DVD pelo próprio festival com o nome de "Motown - Uma História".

 

De Smokey Robinson ao então jazzy Marvin Gaye logo transformado em estrela pop, a importância da harmonia vocal acabaria por constituir a pedra de toque de uma receita singradora e decisiva para encontrar, contratar e adornar novos artistas como o então miúdo de doze anos Stevie Wonder, um ultra-dotado e divertido instrumentista e vocalista rapidamente elogiado e levado ao colo ou os precoces Jackson 5 onde despontava o catraio Michael Jackson e que tiveram, mesmo assim, de prestar provas perante todos os nomes ainda não convencidos até aqui referidos e, também eles, potenciais concorrentes e competidores. Sim, perante esta "Disneylândia musical" Gordy lança um género de desafio, um campeonato de tops com os respectivos campeões traduzido em séries simultâneas de números uns, o que chegou e sobrou para remover os The Beatles do trono até aí quase inatingível e que culminou em "My Girl" dos The Temptations, tema de riff inicial marcante e de inédito arrojo artístico onde planavam uns violinos e uns metais clássicos já quase no final para que a melodia se colasse sem contemplações. Resultado: um milhão de discos vendidos! 

O controle de qualidade, mesmo sem um departamento formal, submergia democraticamente de um género de modernas brainstorms de forma a melhorar sempre o produto e a eleger os potenciais hits mesmo que duvidosos como "Track of My Tears" de Smokey Robinson & The Miracles ou "I Can't Help My Self (Sugar Pie, Honey Bunch)" dos Four Tops em que os primeiros dez segundos da canção são puro pólen à espera de abelhas. Este espírito de comunidade e liberdade foram um verdadeiro teste ao próprio Gordy apostado em expandir pela infalível máxima "criar, vender e receber", colocando o controlo nas mãos de um italiano de aspecto mafioso que forçou a irradiação dos discos pelas rádios "brancas", até aí um reduto quase proibido. Tendo os jovens como público alvo para comprar de olhos fechados o novo som, a arte da canção passa a não tem cor e as The Supremes com cinco hits consecutivos na frente das charts rebentariam a escala com "Where Did Our Love Go" e como que globalizavam a sonoridade Motown.

 

Faltava, contudo, um teste, uma quase provocação - a Motown Revue, uma competição pública ao vivo de talentos da casa de arrebatar os recintos mas as parcas condições das digressões e a flamejante rejeição e afronta por racismo ou segregação ao ponto dos artistas serem recebidos a tiro (episódios, aliás, bem retratados no referido "Dreamgirls") desperta a atenção política de Martin Luther King, atraído pelo positivismo da musica, e do efervescente fenómeno televisivo. Quando as mesmas The Supremes surgiram ainda a preto e branco no Ed Sullivan Show numa primeira de dezasseis vezes (!), o black chic não mais parou de crescer e chegou à Europa para se tornar no som favorito dos próprios Fabfour. A linha de "montagem" não estava, mesmo assim, satisfeita - "I Heard Through the Gravepine" nas versões de Gladys Night & The Pips e depois de Marvin Gaye, tornariam o tema no maior êxito de sempre da Motown... em duas versões vencedoras! 

Mas o ciclo de sucesso, de qualquer sucesso, traz atritos e problemas e o love affair de Berry Gordy com Diana Ross, a saída do trio de compositores Holland-Dozier-Holland ou a "libertação" de Stevie Wonder que o levou até ao estouro com "Superstition" levou Gordy a repensar o projecto e a testar alguma inovação à custa dos Jackson 5 em modo cartoon como série de televisão - de Detroit para Hollywood - num conglomerado de entretenimento que enfrentava a mudança e resistia às tentações políticas, mesmo que a pisar o risco da incompreensão. Contudo, o Black Power, a nefasta guerra do Vietnam e a agitação social cedo estilhaçaram esses e outros receios e Marvin Gaye chega ao impensável - "What's Going On", a canção perfeita e o disco perfeito, é mesmo sobre essa mesma agitação social e a inutilidade da guerra, um pináculo criativo que Gordy, temeroso de represálias, colocou inicialmente na prateleira. A sua força incisiva, que ainda hoje não perdeu nenhuma consistência e modernidade, prova, afinal, que as pessoas não são carros e os artistas, com vida própria, tendem a saltar, mediante as circunstâncias, para "fora da caixa", para fora da tal "linha de produção". Mesmo com a mudança para a Los Angeles na década de setenta para "aumentar as instalações e a diversidade de produtos", a Motown continuou a ser o perfeito exemplo do tal e poderoso sonho americano de unir as pessoas pela música. Que falta fazia... Ain't no mountain high!


terça-feira, 22 de setembro de 2020

FONOTECA DO PORTO, AGULHAS CALIBRADAS!

















Está marcada para sábado, dia 26 de Setembro, a abertura da Fonoteca Municipal do Porto que está instalada na Rua Pinto Bessa, em Campanhã. O projecto que foi lançado já em 2017 e que sofreu sucessivas indecisões e adiamentos, contempla o usufruto de uma colecção de mais de trinta e cinco mil discos resultantes de doações da RR-Rádio Renascença e da RDP-Radiodifusão Portuguesa, bem como de alguns particulares e outras instituições, um espólio em vinil que foi devidamente tratado e inventariado com o objectivo de permitir boas descobertas, pesquisas ou, simplesmente, alguns momentos de prazer ao longo de uma hora (limite de cada sessão) e mediante marcação prévia. O arquivo estará também disponível online a partir daquela data e tenderá a aumentar já que o projecto em andamento contempla abertura a novas incorporações e ofertas. 

Na tarde do próximo sábado, entre as 14h00 e as 19h00, a visita ao novo espaço estará condicionada à lotação do recinto (10 pessoas) mas como som ambiente estarão a rodar discos escolhidos por Renato Cruz Santos e o amigo Xico Ferrão a partir de um trabalho de pesquisa e vasculhanço realizado neste imenso espólio da FMP. Uns sortudos!

FLEET FOXES DÃO À COSTA!






















Na semana passada uns misteriosos cartazes afixados em algumas paredes da cidade de Paris fizeram soar os alarmes - algo estaria para acontecer lá para os lados dos Fleet Foxes e com data marcada para o dia de hoje. Trata-se de "Shore", um quarto álbum de originais a coincidir com o equinócio outonal, que abaterá, certamente, algumas das saudades deixadas por "Crack-Up", disco já de 2017 e que pretende ser também um óbvio manifesto socio-politico já que hoje, quarta terça-feira do mês, se celebra pelos E.U.A. o National Vote Registration Day, jornada de reforço e lembrança da importância dos valores democráticos. 

O mentor de sempre, Robin Pecknold, reconhece a sua ansiedade e preocupação constantes vertidas na concepção, composição e registo das canções, na qualidade da sua voz, nas reacções ao novo projecto por parte de amigos, artistas e fãs e até na aparente sorte em fazer aquilo que gosta. Mas desde a chegada da pandemia em Março, estes supostos problemas como que desapareceram do seu dia a dia pela comparação com realidade de um país em derrapagem e uma sociedade em desegregação. A música, afinal, pode ser dispensável e os concertos adiados e sem data para recomeçarem mas, no seu caso, ela continua a ser essencial como uma roda gigante que vai rodando, nestes novos tempos, um pouca mais devagar e de forma mais subtil. 

Para acompanhar o álbum foi gravado um road-movie com o mesmo nome que estreou esta tarde e que pode ser, desde já, visualizado na sua totalidade (55 minutos). Realizado por Kersti Jan Werdal e produzido pelo próprio Pecknold, nele somos transportados para as paisagens do noroeste americano onde nos cruzamos com animais e pessoas que por lá vivem e habitam, uma colagem de imagens notável e pacificadora em formato de 16mm e onde rodam os quinze originais.  

No disco colaboram, entre outros, Hamilton Leithauser, Daniel Rossen (Grizzly Bear), Kevin Morby e até Tim Bernardes que canta em bom português no lindíssimo "Going-to-the-Sun Road" (a propósito, Pecknold reconhece João Gilberto como uma das grandes inspirações para os novos temas ao lado de Nina Simone, Arthur Russell e Sam Cooke). Há ainda um sample de Brian Wilson, uma outra influência, em “Cradling Mother, Cradling Woman”. O disco, em formato de vinil, só estará disponível em Fevereiro em bonita cor avermelhada...



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

UAUU #552

LAMBCHOP, MEIA DÚZIA DE VERSÕES!






















A estratégia comercial dos Lambchop a cargo do CEO Kurt Wagner pode não ser um caso de estudo mas é, com certeza, inventiva - no final de 2019, em vez de uma nova digressão economicamente pouco rentável, convocou a banda para o estúdio de Nasville com o objectivo traçado de registar um novo álbum sustentável e de igual ou superior suporte financeiro para as respectivas famílias, uma opção profética atendendo a todos os constrangimentos que se seguiriam causados pela pandemia.

De forma a aliviar o processo criativo, quase sempre assente nas suas ideias e opções, convidou cada um dos membros e músicos a eleger uma canção para realizar uma versão, nomeando-o como líder produtor e responsável pelo seu registo num período curto de tempo, uma liberdade motivadora envolvente para um grupo de amigos que já não tocava junto há algum tempo. A primeira desses momentos a ser conhecido, uma escolha do baterista Matthew McCaughan, é "Reservations", um tema de Jeff Tweedy de quase oito minutos que termina o álbum "Yankee Hotel Foxtrot" dos Wilco lançado em 2002 e aqui esticado a la Kurt Wagner até aos treze pela subtileza do piano de Tony Crow. 

As restantes eleitas são "Grass Won’t Grow" de Earl “Peanutt” Montgomery, "Shirley" dos Mirrors, "Golden Lady" de Stevie Wonder, "Love Is Here and Now You’re Gone" de Holland–Dozier–Holland popularizado pelas The Supremes e "Weather Blues" inédito obscuro escrito por James McNew, baixista dos Yo La Tengo. O disco a lançar pela City Slang em Novembro chama-se simplesmente "Trip", uma alusão a esta viagem artística com mais de vinte cinco anos. Uma trip...

sábado, 19 de setembro de 2020

NUBYA GARCIA DE SECRETÁRIA (CASA)!

ANGEL OLSEN, MS. LONELY!

E era uma vez um novo filme de Miranda July chamado "Kajillionaire" que precisava de uma boa versão de "Mr. Lonely" de Bobby Vinton (tema de 1962 escrito pelo próprio aquando do serviço militar pré-Vietnam) e o responsável pela banda sonora, um tal de Emile Mosseri, lembrou-se de Angel Olsen e o nome foi imediatamente aprovado pela realizadora que contactou a artista ainda em tempos pré-pandemia e esta disse que sim e o trio lá o gravou em Los Angeles à medida e cadência que as cenas requeriam e... e, pronto, fez-se magia!



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

SHARON JONES, ÁLBUM DE VERSÕES!

A eficácia de Sharon Jones e os seus Dap Kings em fazer de uma canção um agitador de ancas irresistível teve, ao longo da sua vida, um reconhecimento nem sempre imediato mas que, felizmente, se converteu num elogio unânime. Ao vivo ou em estúdio e nos anos na Daptone Records (2002-2016), foram muitas as versões ensaiadas e apresentadas de temas originais de outros artistas destinadas a série de televisão, filmes ou discos de tributo que agora se reúnem num álbum com treze destas rendições sob o título de "Just Dropped In (To See What Condition My Rendition Was In)", título de uma canção, também recriada, da autoria de Kenny Rogers and The First Edition. 

De Woody Guthrie ("This Land Is Your Land", já lançada como lado B de um 7" em 2004) a Janet Jackson ("What Have You Done for Me Lately", também lançado em duas partes num outro 7" em 2002 e incluído no álbum de estreia do mesmo ano "Dap-Dippin' With..."), passando por Gladys Night ("Giving Up"), acrescentam-se "Rescue Me" e "In the Bush", um par de outtakes destinadas à banda sonora de "O Lobo de Wall Street" (2103) que não seriam utilizados, ao contrário da versão de "Goldfinger" curiosamente não incluída nesta nova compilação. Aqui fica "Signed, Sealed, Delivered I'm Yours" de Stevie Wonder destinada a um abortado anúncio comercial de um banco...

WILLIAM TYLER, NOVA VANITAS!

Há uma tendência que se começa a acentuar naturalmente em matéria de discos novos - o inesperado isolamento e retiro imposto pela Covid 19 inspirou novos métodos e abordagens no que às canções ou composições diz respeito o que, para alguns, foi como começar do nada, do zero. É o caso de William Tyler que, confinado em Nashville desde Março, se lançou com calma num retorno explorador de antigas cassetes, fitas e outros registos saídos da guitarra ou guitarras e que mereciam finalmente a devida atenção e análise. 

O resultado pode ouvir-se em "New Vanitas", um EP escarnado de excessos instrumentais e de involuntário regresso a uma sonoridade rudimentar para a qual Tyler dispensou muitas noites de solidão a ouvir, propositadamente, estações de rádio de onda média/AM nas quais a qualidade dos sons musicais nunca alcança a alta fidelidade. Apesar de mono-etéreo, esse alto e baixo de frequência, ora longínqua ora de proximidade, funcionou como um alerta criptado para a inevitável e actual mudança de paradigma social, político e vivencial, um período que se espera efémero mas que deixará, sem dúvidas, profundas marcas no nosso dia-a-dia e consciência colectiva. Uma nova vanitas vanitatum...


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ROCKY RACOON #15

Do filão interminável da mina The Beatles, anunciaram-se ontem duas novas escavações de resultados, aparentemente, compensadores. 

O novo livro "Get Back", o primeiro desde 1995, ano da publicação da "The Beatles Anthology", será uma parceria entre a Apple Corps e a nova-iorquina Callaway Arts & Entertainment e as suas duzentas e quarenta páginas contarão visualmente a história do último álbum "Let It Be" lançado em Maio de 1970, um mês depois da separação da banda. Os textos resultam das conversas entre John, Paul, Ringo e George que as fitas originais registaram, numa versão editada por John Harris, jornalista do "The Guardian" obcecado pelos Fab Four. As centenas de imagens, maioritariomente inéditas, foram captadas pelo americano Ethan Allen Russel, autor dos retratos da capa original do disco, e também por Linda McCartney, na altura casada de fresco com Paul McCartney. O realizador neozelandês Peter Jackson/O Senhor dos Anéis é o autor do prefácio e Hanif Kureichi fará a introdução. A partir de 31 de Agosto de 2021 já o podem, eventualmente, comprar em loja mas já se aceitam pré-encomendas por quase cinquenta euros. 

O novo documentário, com o mesmo nome, aproveita as cerca de cento e vinte horas de película, muitas delas inéditas ou restauradas, que Michael Lindsay-Hogg gastou a filmar a banda em Twickenham e nos estúdios da Apple de Saville Road e que resultaria no filme-documento "Let It Be" produzido por Neil Aspinal. Será realizado pelo próprio Peter Jackson, desafio enorme e de óbvia curiosidade e responsabilidade tendo em conta a mítica rivalidade e amuo entre McCartney e Lennon durante este período criativo. Como confessado a Howard Stern em primeira mão por McCartney em Abril passado, o resultado final contraria essa ideia de malquerença ou ódio e será distribuído em sala pela Disney. A estreia está marcada para 27 de Agosto do próximo ano.



STILL CORNERS, SAÍDA PARA O DESERTO!



















Ao duo britânico Still Corners, formado em 2007 pela vocalista Tessa Murray e o produtor, compositor e multi-instrumentista Greg Hughes, associamos uma sonoridade sonhadora de laivos negros de pop sem lugar ou destino mas onde o mistério se adensa em composições irresistíveis. Aproxima-se agora o capítulo final de uma tripla jornada iniciada em 2013 com "The Trip", prolongada em 2018 com "The Message" e que terá o seu epílogo com "The Last Exit", disco a editar em Janeiro próximo.

Para culminar a trilogia "Road Trip", a saída escolhida aponta ao deserto americano, às dunas, areias e sombras enigmáticas que nos enganam pela vastidão crestada pelo sol e pelo assobiar do vento. O primeiro desses cenários tem no video para o tema-título um esforço narrativo dirigido pelo próprio Hughes rodado nas paisagens californianas de Joshua Tree e que sofreu inspiração directa no filme "Picnic at Hanging Rock", filme australiano de 1975 que conheceu um remake recente. Recorda-se que a banda esteve ao vivo na edição 2018 do SuperBock em Stock lisboeta, presença disponibilizada em video pela rede na sua íntegra.  

terça-feira, 15 de setembro de 2020

JEFF TWEEDY, É UMA FARTURINHA!


















Os bichinhos carpinteiros que afectam Jeff Tweedy começam a ganhar uma dimensão de infestação, mas das boas. Desde 2018 e em nome próprio, para além do álbum "Ode to Joy" com os Wilco saído o ano passado, conta-se já uma biografia publicada, um novo livro de aconselhamento em pré-publicação, dois discos a solo ("Warm" e "Warmer"), uma banda sonora recente para uma série de televisão com os filhos Spencer e Sammy ("Showbiz Kids") e agora, ao lado outra vez da prole, mais um álbum de onze canções chamado "Love Is The King". O motivo reside no lockdown recente já que ao escrever novos temas como forma de apaziguamento lhe trouxe maior conforto e relaxamento com os seus entes queridos e que, em alguns momentos nos últimos tempos, foram um pouco destapados pelas redes sociais. 

Entre os inéditos há uma parceria com o escritor Georges Saunders em "A Robin or a Wren", uma amizade e cumplicidade que podem ser confirmadas numa hora de conversa disponibilizada aquando do lançamento da biografia de Tweedy em 2018. O novo trabalho sai dia 23 de Outubro na incontornável dbPm-Records e tem na capa uma fotografia icónica de um soldado americano obtida em 1943 na batalha de El Guettar, Tunísia, por Robert Capa (1913-1954).


ARLO PARKS DE SECRETÁRIA (CASA)!

ANE BRUN, UM PAR DE DISCOS!






















Sem que fosse necessário ir à bruxa, adivinhava-se um novo trabalho de originais da norueguesa Ane Brun. Nos últimos meses foram vários os videos para canções desconhecidas, a maior parte de arranjo e desenho profissional cuidado mas afinal, e segundo anúncio oficial da semana passada, vão ser dois os álbuns a editar até ao fim do ano na sua editora Ballon Ranging Recordings! São dezoito as canções a distribuir por ambos os discos iniciadas na composição há cerca de um ano e depois registadas e produzidas simultaneamente pela própria com a ajuda habitual de Martin Hederos e Anton Sundell. Não querendo desperdiçar ou prescindir de nenhuma delas, a solução foi separará-las em duas experiências que lidam com conceitos em redor do ser humano e que, no últimos tempos, se tornaram ainda mais evidentes e urgentes como a solidão, a frustração, o (des)amor ou até sobre noites sem dormir...   

Assim, o primeiro álbum chamado "After the Great Storm", com data de saída para 30 de Outubro, sugere uma vertente mais arriscada e ultra-dimensional de electrónica sofisticada e até dark que é uma boa surpresa. Deixamos dois bons exemplos:   


 

Em "How Beauty Holds the Hand of Sorrow", agendado para 27 de Novembro, a tendência talvez seja mais introspectiva e calma, de que são exemplo estes dois pedacinhos, que nos habituamos a apreciar em discos mais antigos e que a trouxe no longínquo ano de 2008 até Famalicão. Já agora, na digressão europeia prevista para 2021 que começa em Março não há, como será de calcular atendendo às incertezas quanto ao regresso aos concertos ao vivo, nenhuma data em Portugal.. o que é pena!  


 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

FAZ HOJE (30) ANOS #41












DAVID BOWIE, Estádio de Alvalade, Lisboa, 14 de Setembro de 1990
. Público, por Fernanda Ribeiro, 16 de Setembro de 1990, p.?



PERFUME GENIUS, VERSÃO DE COHEN!






















Na rubrica In Residence incluído na tradicional Morning Becomes Eclectic da rádio pública KEXP com sede em Santa Mónica, Califórnia, já passaram artistas tão diversos como Laura Marling ou Jonathan Wilson, Aimee Mann ou Joana Molina. A última aparição exclusiva diz respeito a Mike Hadreas aka Perfume Genius que aproveitou para surpreender - ao lado dos habituais músicos e parceiros, onde se destaca a presença da guitarra de Meg Duffy aka Hand Habits, foram apresentados "On The Floor" e "Jason", dois temas do novo álbum que seriam culminados com uma versão de "Bird On The Wire" que Leonard Cohen escreveu em 1968. Sozinho e usando somente um orgão de tubos, a cover pode ser escutada religiosamente aqui abaixo a partir do minuto 8:54...

UAUU #551

sábado, 12 de setembro de 2020

TOOTS HIBBERT (1942-2020)



























Uma verdadeira lenda do ska e do reggae, Toots Hibbert fundou os The Maytals em 1962 na cidade de Kingston e, desde aí, não mais parou. Vinte quatro álbuns só em estúdio e muitos singles míticos como "Funky Kingston", "Pressure Drop" e, em 1968, o histórico "Do the Reggae", a primeira canção a usar a palavra reggae, estilo inconfundível de música jamaicana rapidamente absorvida em todos os continentes. Em 2008 passaram pela praça lateral da Casa da Música no Porto (fotografia) num serão animado de mestiçagem e festarola a fazer jus à sua já incontornável figura. Hibbert faleceu ontem vítima de Covid 19. Peace!



PHOEBE BRIDGERS DE SECRETÁRIA (CASA BRANCA)!

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

LOBO #21

 

No último número do suplemento DN Radical do "Diário de Notícias" saído a 27 de Dezembro de 1997, o mestre António Sérgio faz um apanhado de alegrias e tristezas referente ao ano que terminava. Nota-se alguma amargura com a situação precária da rádio no país, agravada pelo término da XFM em Julho (refere que foi o seu pior regresso de férias de sempre...) e da Energia/Radical. As rádios caíam, segundo ele, ao ritmo dos disparos tipo "tiro aos pratos", refugiando-se no falso regime das playlists... 

Mas havia sempre a música - destaque nacional para os Blid Zero, a surpreendente lista de preferências no campo da electrónica florescente como Apolo 440, Chemical Brothers ou Photek, o brilhosinho dos Verve e o disco fabuloso dos Lambchop. Aqui fica a memória e essa, segundo o próprio, tem mesmo horror ao vazio... nem mais!

PETER BRODERICK, DEIXA PRA LÁ?

Por muito meritório que seja, não vamos esperar por um video oficial que junte imagens a uma tão apurada perfeição em formato de canção para destacar esta beleza negra. Está no novo e já sugerido álbum "Blackberry" de Peter Broderick, chama-se "Let It Go" e abana-nos suavemente em sete curtos minutos sobre o que raio andamos todos os terrestres aqui a (não) fazer... e logo no dia de hoje!  

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

NOVA CARTA DO BOSS!

 

O patrão Bruce Springsteen decidiu convocar a equipa, leia-se a E-Street Band (Roy Bittan, Nils Lofgren, Patti Scialfa, Garry Tallent, Stevie Van Zandt, Max Weinberg, Charlie Giordano e Jake Clemons), para uma reunião de cinco dias no seu estúdio de New Jersey e rapidamente emergiu um novo produto de beleza sonora sem filtros, truques ou fermentos. Quase ao primeiro take gravaram-se doze temas, incluíndo três novas versões para canções antigas - "Song for Orphans" (composta em 1972 e incluída no álbum ao vivo "Max's Kansas City 1973" editado em 2015), "Janey Needs a Shooter" (um outtake de 1978 e um original de Warren Zevon) e "If I Was the Priest" (de 1972 e já tocada algumas vezes ao vivo). Prevemos que vamos ter muito com que nos entreter... Aqui fica o tema título, gostoso, do álbum que sairá a 23 de Outubro.

 

BEDOUINE, TRIO MARAVILHA!


Na senda imparável de versões que Azniv Korkeijan aka Bedouine têm editado, faltava o lançamento oficial para uma delas já habitualmente apresentada ao vivo desde 2018 - "Thirteen", gravada pelos Big Star em 1972, recebeu agora tratamento condigno com a ajuda de Katie Crutchfield aka Waxahatchee e Alynda Segarra aka Hurray For The Riff Raff, trio que que partilhou uma digressão americana e a que, na altura, faltava uma canção/motivo para se juntarem em palco. Numa dessas noites em Columbia, cidade onde os Big Star se voltaram a reunir em 1993, Azniv lembrou-se da coincidência e, feita a escolha, o tema passou a ser obrigatório, depois desse serão, nos seus concertos ao vivo.

Por insistência de Kevin Morby, atento ao encanto da versão, a oportunidade para um registo profissional teve lugar no Sargent Recorders de Los Angeles, onde à guitarra, piano e voz de Azniv e da presença de Katie se juntou, mesmo à distância, a parte vocal de Alynda. Uma pérola que têm desde ontem descarga oficial e que será pecado desperdiçar... Maravilha!

 

3X20 SETEMBRO













ARCADE FIRE, OS SUBÚRBIOS NO PÁTIO!

O álbum "The Suburbs" dos Arcade Fire, o terceiro depois dos aclamados e já clássicos "Funeral" (2004) e "Neon Bible" (2007), fez dez anos em Maio e não faltavam razões válidas para a comemoração merecida. De regresso aos concertos em Fevereiro passado em New Orleans, a maior banda canadiana parecia embalada para uma digressão que evocaria, certamente, as canções já decanas desse trabalho que muitos acusaram de "menor" e que os (e)levou a um estrelato global a roçar o mercantil entre uma avalanche de prémios, incluíndo o Grammy para melhor álbum do ano!

Aproveitando a webinar "Speaking Out, Making Change" que decorreu em Julho, Win Butler e Règine Chassagne registaram num pátio catita de New Orleans (coincidência?) uma trilogia de temas, dois dos quais desse álbum, que ficou perdida e esquecida no site do patrocinador entre conversa e argumentos de como as organizações podem levar à mudança contando histórias verdadeiras e inspiradoras.

Surgem agora, como merecem, no canal oficial, os videos em separado para de "The Suburbs", "Haiti" e "Sprawls (Mountains Beyond Mountains), confirmando que, mesmo em dueto caseiro e ao ar livre, os temas não perderam nenhuma da sua frescura e força e que o casal já quarentão está aí para as curvas... todas! 






sábado, 5 de setembro de 2020

CAETANO VELOSO, A LUZ DE HEY JUDE!















Tem estreia marcada para a próxima segunda-feira, dia 7 de Setembro, no Festival de Cinema de Veneza e na plataforma GloboPlay, o documentário "Narciso em Férias" que retrata e revive os tempos em que Caetano Veloso foi preso pela ditadura militar brasileira em Dezembro de 1968. Seguiram-se cinquenta e sete dias numa cela, período do qual são apresentados documentos e relatos na primeira pessoa e também uma versão inédita de "Hey Jude" dos The Beatles, canção lançada em single cinco meses antes.

Caetano conta que sempre que ouvia esse tema, através de um rádio de um sargento da prisão, "irradiava luz interior" e uma aura positiva, um sinal que a situação precária em que se encontrava iria ser ultrapassada e que os portões se iriam finalmente abrir, o que lhe permitiria depois um exílio forçado em Londres. A versão foi registada à guitarra em casa com a ajuda do teclista Lucas Nunes e os acordes tiveram tratamento especial e completo e que motivou, ainda, a aprendizagem da totalidade da letra de Paul McCartney dedicada a Julian Lennon então com cinco anos e a viver a separação dos pais. Na GloboPlay foi, entretanto, apresentada uma versão exclusiva do clássico. 



UAUU #550

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

ED HARCOURT, MONOCROMIAS COLORIDAS!





















Ao longo da carreira de dezassete anos Ed Harcourt têm experimentado, como todos, alguns altos e baixos artísticos que funcionam como aprendizagens mas, acima de tudo, como desafios. O falhanço do álbum "Furnaces" (2017) conduziu-o, nitidamente, a um isolamento introspectivo traduzido na prática no magnífico "Beyond the End" do ano seguinte, um regresso às origens clássicas das teclas singelas de um piano e que, já este mês, tem uma continuidade robustecida.

Na peugada de algumas bandas sonoras que compôs com prazer ("Like Sunday, Like Rain" ou a mais recente para "Supervised"), o novo álbum é propositadamente e inteiramente instrumental num género de pousio que se espera frutífero para futuras letras de canções cantadas. Tal como o anterior, "Monochrome to Colour" foi registado no inspirador Wolf Cabinet de Oxfordshire ao longo dos dez primeiros meses de 2019 e foi produzido pelo próprio com a ajuda instrumental de Clive Deamer, baterista dos Portishead e de Gita & Amy Langley que repetem a colaboração no violino e no violoncelo.

A capa segue propositadamente a mesma linha gráfica mas os videos já disponíveis para três dos doze temas são uma maravilhosa incursão cinematográfica que o título do disco tão bem sugere. O primeiro, para "Drowning in Dreams", foi filmado na Islândia ao lado do fotógrafo e amigo Steve Gullick, uma aventura bizarra e até perigosa na recuperação de uma cabeça de urso embalsamada que escorregou para um ribeiro gelado e quase inacessível... só visto! O último, que foi dado a conhecer no dia de ontem, para "Only the Drakness Smiles for You", tem direcção de outro amigo, Christian Stephan, e aproveita um conjunto de imagens vintage de teor medicinal (?) para nos encantar pela estranheza e, principalmente, pela beleza da composição. Uma verdadeira monocromia colorida!