quinta-feira, 6 de maio de 2021

FAROL #140















Depois da edição de um EP surpresa com meia dúzia de canções buriladas em modo virtual, chegou a vez dos Real Estate registarem a primeira das já clássicas Lagniappe Sessions promovidas pelo site Aquarium Drunkard. Cada elemento do quinteto de Brooklyn escolheu um tema preferido para reinventar e o pecúlio final contempla pérolas de John Cale, My Bloody Valentine, Roger Miller, Parsley Sound ou Jawbone. Imperdível!

RODRIGO AMARANTE, BOM DRAMA!






















Passaram oito anos desde "Cavalo" mas Rodrigo Amarante atribui ao hiato pouca ou nenhuma importância desde que o grau de satisfação preencha os seus requisitos de qualidade e rigor. Sem drama. A composição a sério teve reinício em 2018 ao lado dos parceiros habituais de banda (“Lucky” Paul Taylor na bateria, Todd Dahlhoff no baixo e Andres Renteria nas congas) e estendeu-se calmamente ao longo desse ano e seguinte. São dessa leva a maior parte das onze canções que integram "Drama", três de título inglês e as restantes de sotaque brasileiro, o muito esperado álbum de regresso a sair pela Polivinyl em Julho e com uma especial tiragem colorida de vinil

Isolado em Los Angeles na primeira leva da pandemia em 2020, a mistura final fez-se com a conivência e mestria de Noah Georgeson, o amigo de sempre dos Vetiver e responsável pela produção do referido "Cavalo", um processo presencial mas individual e sem cruzamentos simultâneos, o que permitiu novos recursos, ideias e soluções arejadas. Para a respectiva promoção, Amarante realizou já dois videos de considerável cinematografia - o primeiro de cenário alpino (Chamonix?) para "Drama" e um segundo, gozando com os companheiros de banda em versão retro-futurista, para "Maré", tudo coberto com dose cintilante de talento! 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

LUMP, SEGUNDA EMERSÃO!
















O projecto LUMP de Laura Marling ao lado de Mike Lindsay dos Tunng surgiu em 2018 com um trabalho homónimo de qualidade garantida. Seguiram-se aventuras a solo ou com banda do mesmo calibre mas parece ter chegada a hora para uma nova emersão artística resultante de uma lógica de crescimento. Gravado no estúdio caseiro de Lindsay situado em Marle, o novo "Animal" terá distribuição pela Partisan Records no final de Julho e, pelas confissões dos envolvidos, o resultado transpira uma naturalidade que se afirma espontânea e instintivamente animal. Ouça-se!  

BEAUTIFY JUNKYARDS, MAIS COSMORAMAS!

O começo do ano trouxe "Cosmorama", um multi-elogiado quinto disco dos lisboetas Beautify Junkyards e ao qual se podem e devem juntar duas excelentes peças contidas num 7" de vinil a distribuir a partir de dia 14 de Maio na Ghost Box Records. No lado principal repousa uma versão de "Painting Box" da escocesa The Incredible String Band saída no mesmo formato em 1968 e que estava incluída no álbum do ano anterior "The 5000 Spirits or the Layers of the Onion". 

Na retoma deste clássico escrito por Mike Heron, os Junkyards receberam a ajuda cúmplice dos Belbury Poly, colectivo de estúdio da própria editora fundado pelo proprietário Jim Jupp. No outra lado da rodela figura "Ritual in Transfigured Time", tema inédito produzido por João Branco Kyron. O bonito desenho da capa pertence a Julien House, designer e músico co-fundador da mesma editora inglesa. Pré-encomendas disponíveis.


BEN WATT, LEVE TEMPESTADE!

A carreira a solo de Ben Watt, a metade criativa dos Everything But The Girl, ganhou novo alento e nítida motivação a partir de 2014 com o regresso saudado aos álbuns a solo. O do ano passado, o quarto em nome próprio, recebeu o título de "Storm Damage" e mostrou ser de uma conjectura premonitória, antecipando a chegada da pandemia Covid 19 através de uma série de canções profundas e catárticas. 

A proliferação da doença levou, entretanto, ao adiamento do EP "Storm Shelter", um acompanhamento que só agora vê a luz do dia e onde Watt se senta ao piano para despir quatro dos temas do disco e apresentar oficialmente duas versões já estreadas online em 2020: "Comeback Kid" de Sharon Van Etten e uma surpreendente "That's the Way Love Is", êxito do trio Ten City com base em Chicago que o espalhou por todo o lado em 1989, rendição que teve direito a novo video a cargo do amigo Rahim Moledina, responsável por outros documentos de trabalhos anteriores. As vendas e ganhos desta edição revertem a favor da organização inglesa Shelter, um suporte importante para inúmeras pessoas sem-abrigo.



terça-feira, 4 de maio de 2021

(RE)LIDO #101






















FAR LEYS
 
de Miguel Ángel Oeste. Málaga; Zut Ediciones, 2014 
A chamada narrativa rock é uma variante literária atractiva mas algo traiçoeira. No caso da vida Nick Drake, recheada de encantos, secretismos e desgraça, ela serviu já de inspiração ou motivo para variadas prosas e tramas ficcionais. De cor, recordamos o caso dos ingleses Mark Radcliff ("Northern Sky"", 2006) e Phil Rickman ("The Wine of Angels", da série "A Merryl Watkins Mistery", 1999), do alemão Frank Goosen ("Pink Moon", 2005), de Courtney Seiberling ("Five Leaves Left", 2010) ou do amargo Marshall Pierce ("Nick Drake Diaries", 2011). Haverá, certamente, outros mas a tendência tem-se acentuado de forma inequívoca e curiosa pelo sul da Europa, nomeadamente por Itália, França e Espanha e que teve em 2014, no caso do maiorquino Eduardo Jordá ("Yo Vi a Nick Drake", 2014), o nosso baptismo agradável no género.

Do mesmo ano e das proximidades é este "Far Leys", romance do malaguenho Miguel Ángel Oeste que recebeu o nome do casarão vitoriano onde Drake cresceu e haveria de falecer em 1974, uma imaginada aventura de maior fôlego e erudito esforço. Com semelhante rótulo há até um disco tributo a cargo de uns tais Blend e um instrumental do próprio Drake originalmente nomeado por "Sketch 1" e que foi dado a conhecer no disco póstumo "Familly Tree" de 2007, passando depois a ser designado por "Far Leys" por ter sido, certamente, por lá composto ao lado de muitos outros. Atendendo ao título, poderíamos julgar que o centro das atenções do enredo estaria nessa habitação mítica e local de peregrinação, como acontece, aliás, no referido livro de Jordá. Não é o caso. Porquê, então, escolher esse nome - simultaneamente, um refúgio e uma prisão - juntando-lhe na capa a fotografia de uma árvore sem folhas quase submersa por uma neblina invernosa e nortenha? 

Uma suposta explicação remeterá para o facto de esse ser o local de um epílogo trágico que submerge desde o primeiro parágrafo envolto em trevas densas. O autor não o assume, confundindo ainda mais nas suas arguições, mas o mistério da vida melancólica e triste de Drake permite-lhe uma extensão nada fácil de tempos e conexões inverosímeis: há um actor e realizador de cinema, Richard, que passados trinta anos pretende fazer um filme sobre ele, iniciando uma obsessiva tarefa de tudo saber, reunindo contactos, promovendo encontros/entrevistas com todos aqueles personagens reais que percorreram a sua curta existência - por exemplo, o produtor Joe Boyd, o amigo e orquestrador Robert Kirby ou o fotógrafo Keith Morris - para o que conta com a ajuda de uma tal Janet, suposta amizade coeva do músico e também ela uma hesitante informadora apaixonada pelo malogrado Drake. Em diálogos numa primeira parte e em memórias individuais na parte seguinte, o novelo inventa situações e cenários onde uma misteriosa Sophia Ritter está no centro de uma teia bem urdida de tensões, mas é notória a inspiração directa em factos relatados nas biografias já editadas e, principalmente, no magnífico livro de memórias do mesmo ano. 

Há coincidências para todos os gostos: o tal Richard é um personagem inspirado no jovem actor Heath Leadger, conhecido pelo papel em "Brokeback Mountain", que se suicidou em 2008 e que assumiu a sua vontade de fazer o tal filme, projecto abandonado mas trágico; a tal Sophia Ritter é Sophia Ryde, uma das poucas (única?) paixões amorosas de Drake a quem o próprio escreveu uma carta confirmando o rompimento da relação (?) na tarde que antecipou a madrugada do suicídio e sobre a qual se especula há longo tempo (canções como "Free Ride" sugerem ser um tributo evidente ou o destino dos lamentos dos versos "Know that I love you/Know I don't care/Know that I see you/Know I'm not there" de "Know", canção incluída em "Pink Moon"), uma misteriosa identidade que se revelou frontalmente discordante com a história oficial narrada pelos pais de Drake; a tal Janet McDonalds será uma desconhecida confidente e suporte emocional (um amor perdido...) dos últimos tempos e de que há muito se fala mas que, certamente, futuras biografias (sim, o filão vai continuar) tornará mais evidente na identificação. 

Se nalguns casos se alteram os nomes (Ritter seria Ryde), noutros mantêm-se os baptismos originais, a maior parte ainda vivos e que se vêm envolvidos em algumas situações ficcionais comprometedoras de traição, sexo, confiança e abuso o que, não sendo proibido, se afigura deselegante e até inconveniente mesmo que a época seja a de inícios dos anos setenta, plena de exageros, imoralidades e vícios. Alteram-se ainda percepções biográficas sobre Nick Drake assumidas pela história, envolvendo-o num feitio traiçoeiro, arrogante e promotor de querelas e mentiras. Ficções! 

A perseguição de um fantasma aporta um outro, o do próprio Richard em desgaste psicológico e físico acelerado pela degradação de uma relação tempestuosa com a parceira Erika, a instigadora da paixão comum pelas canções de Drake que se vê abandonada em detrimento de uma ideia fixa do amante, o impossível filme biográfico, em plena gravidez de risco. Um romance dentro do próprio romance que acaba por ser a melhor surpresa de uma novela tormentosa subjugada a uma iminência exagerada da morte mas, ainda assim, de uma habilidade agridoce. Como Drake...         

segunda-feira, 3 de maio de 2021

LAMBCHOP, CANÇÕES A NEGRO!






















Sempre que os Lambchop fazem um novo disco esperam-se bons momentos de um mundo sonoro a que Kurt Wagner não coloca limites ou barreiras. A postura activa tem por base um profunda inquietação exploratória que se tem vindo a acentuar nos últimos anos e que desta vez adquiriu um método de trabalho inédito - cada nova faixa resulta de uma base obtida numa guitarra posteriormente convertida através de um piano-midi, um daqueles teclados conectados a um computador ou ligados à ficha da electricidade. A ajudar no produto final esteve Ryan Olson (Poliça, Gayngs), James McNew (Yo La Tengo) e Jeremy Ferguson, produtor e engenheiro de som que repete a colaboração dos dois últimos álbuns. 

Temos, assim, um colectivo de músicos fixos a que se vão juntando outros ao jeito de porta-giratória como são o caso de CJ Camerieri, trompista e arranjador ou DJ Twit One, alemão mais dado às electrónicas e beats, fazendo dos Lambchop uma equipa polivalente de entreajuda. Catalogado como "Showtunes", o disco poderá ser destapado na Merge Records no dia 21 de Maio e, pelas duas amostras das canções, dos respectivos videos e até da imagem de capa, o papel de embrulho é decerto de cor negra...  


MOLLY BURCH, PODEROSA!






















O sinal intermitente foi dado quando "Emotion", um novo tema de Molly Burch ao lado de Jack Tatum dos Wild Nothing, surgiu repentino em Janeiro passado. Fixa-se agora para Julho o regresso confirmado aos discos grandes na Captured Tracks com "Romantic Images", trabalho que se diz inspirado na chegada dos trinta anos, período onde habitualmente se inicia um processo natural de balanço e revisão da juventude e o pesar da primeira idade adulta, o que no caso de Burch ganhou contornos de assumida liderança quando, em 2018, deixou de tocar guitarra nos concertos para se concentrar na voz, na frente de palco e no controlo artístico. 

A digressão do ano passado com os Tennis, interrompida pela chegada da pandemia, trouxe um virtude - o convite a Alaina Moore e Pat Riley para produzir as novas canções, um processo que decorreu em plena casa-estúdio da dupla de Denver ao longo de duas semanas em modo "bolha" devido à quarentena. Às limitações sanitárias justapôs-se uma maior liberdade criativa e companheirismo prevendo-se um resultado mais feminino, mais pop, mais livre e, garantidamente, mais pessoal. Poderosa!

sábado, 1 de maio de 2021

UAUU #595

SUSPIRO #17

PETER BRODERICK & ADRIAN CROWLEY 
A Live Concert Film, Set Theatre 
Kilkenny, Irlanda, 8 de Janeiro de 2021

Nota: espera-se que este seja o último suspiro. Que regressem os concertos a sério! 

FAZ HOJE (24) ANOS #59


















PINHEAD SOCIETY + NADA SURF + BODY COUNT + MORPHINE, Festi.mail, Coliseu de Lisboa, 1 de Maio de 1997
 
. Jornal de Notícias, por José Simões, 3 de Maio de 1997, p. 48




sexta-feira, 30 de abril de 2021

DJANGO DJANGO, (DES)PREOCUPAÇÕES!















Os britânicos Django Django editaram em Fevereiro passado "Glowing in the Dark", mais um enorme disco cheio de canções ora ternas ora agitadoras a que fomos dando destaque, às tantas, não na dimensão que merecia. Colaboram Charlotte Gainsbourg ("Waking Up") e os brasileiros António de Freitas e Ife Tolentino com a cuíca, a pandeireta e a guitarra no magistral "Got Me Worried", uma peça brutal de ritmo e movimento que, esperamos, tenha um destes dias direito a single pequeno ou grande de vinil.  

Há até um verso cantado/arranhado traduzido para português por Sónia Bernardo (artista nacional em ascensão em Londres com o projecto Bernardo e já com um tema misturado pelos próprios Django Django) onde se expressa: 

Está partido, quebrado, o corpo a doer 
Os pés pesados vão andar еm vez de correr 
Em movimеnto, andamentos sem parar 
Será que... 

Será que o quê? Alguém ajuda a perceber o que raio é dito! 
É melhor ouvir outra vez... sem preocupações! 
  

ARTHUR RUSSELL, VERSÕES ÀS RODELAS!

Através da editora Unheard of Hope com sede em Coventry estarão disponíveis até Julho meia dúzia de singles em vinil com versões de canções de Arthur Russell sob o título "Small Wonder". O conjunto pode ser, desde já, reservado por cerca de sessenta libras e inclui as preferências, entre outros, de Laetitia Sadier (Stereolab), Mabe Fratti, Peter Zummo, colaborador do próprio Russell e também Peter Broderick, confessado admirador e quase curador do seu legado. 

No caso do primeiro split single, é dele a escolha emocionada de "All-Boy All-Girl", original incluído em "World Of Echo" de 1986, e na qual recebeu a contribuição da referida Mabe Fratti e do seu amigo Sebastian Rojas. No outro lado da rodela repousa uma outra rendição a cargo de Peter Zummo que preferiu "Tone Bone Kone" do mesmo disco, canção que era eleita para terminar, já no encore, os últimos concertos que fizeram juntos. 


KINGS OF CONVENIENCE, DISCO E CONCERTO!






















Paz ou amor! A escolha é clara e urgente - os Kings of Convenience terão um novo álbum já em Junho chamado "Peace or Love" mas o melhor é fomentar as duas opções e, se possível, ao vivo. Nada como comparecer aos concertos marcados para 2022 no Porto (16 de Maio, Coliseu) e Lisboa (18 de Maio, Coliseu) com bilhetes à venda já para a semana. 

A prometida estreia de uma nova canção, a tal "Rocky Trail", tem já video oficial a rolar e o efeito de veludo é o de sempre - FANTÁSTICO!

quinta-feira, 29 de abril de 2021

UAUU #594

FITAS DE UM TEMPO #01















Passaram quase vinte anos mas foi preciso um forçado recolhimento caseiro para encontrar o caminho para o tesouro! Escondida entre pilhas de cd's amontoados num armário esquecido lá estava a pequena caixa plástica com meia dúzia de cassetes video de fita MiniDV, uma tecnologia já digital mas, como tudo, sujeita a melhoria técnica e posterior substituição. Nessa época, calhou algumas vezes levarmos, por empréstimo, uma câmara da marca Sharp para alguns concertos na tentativa de captar o momento mas chegamos a ser intimados a sair do recinto pela ousadia (ficou-nos na retina a cara de poucos amigos do segurança da FNAC Norte Shopping que nos "convidou" a rapidamente guardar o aparelho depois de dois ou três minutos apontado ao piano e voz de Antony sem os seus Johnsons... 2005?). 

Poucos desses registos motivaram upgrade para DVD a cargo de colega entendido mas a maioria continua por revelar apesar de as termos, felizmente, etiquetado. Começa hoje, então, o desbobinar possível das poucas fitas de um tempo remoto de patina analógica a que não acrescentamos propositadamente (também não sabemos como o fazer) qualquer truque tecnológico de apuro sonoro ou de imagem. Rolling! 


Essa primeira década do corrente século teve em Josh Rouse uma confirmação segura da melhor pop americana, qualidade que se têm mantido até aos dias de hoje. A rádio e os palcos nacionais cedo lhe deram primazia e destaque que motivaram um florescimento rápido de aficionados duradoiros. Num desses regressos a solo a Portugal, possivelmente o terceiro, para um concerto no Edifício da Alfândega do Porto, evento já evocado na rúbrica adequada, Rouse passou na véspera (16 de Dezembro de 2004) pelo fórum FNAC do Gaia Shopping para uma apresentação gratuita em jeito de antecipação do espectáculo do dia seguinte. 

Ao longo de meia hora e com o recinto cheio, Rouse prendou-nos com uma requintada selecção de canções de um dos seus melhores trabalhos, o disco "1972" (2003), havendo ainda tempo para "It's the Night Time", outro clássico que só sairia uns meses depois (Fevereiro 2005) como fazendo parte do álbum "Nashville". Pena alguma pobreza da amplificação sonora e da aselhice do repórter ocasional como se comprova pelas imagens... mas acabamos por filmar involuntariamente um amigo cúmplice destas andanças (ali à volta do minuto nove) de máquina fotográfica em punho, logo aquele que nunca quer(ia) aparecer!

quarta-feira, 28 de abril de 2021

SON LUX DE SECRETÁRIA (CASA)!

KINGS OF CONVENIENCE, UM RASTO DE VIDA!






















Passam agora vinte anos sobre a saída do clássico "Quiet Is The New Loud" dos noruegueses Kings of Convenience e a comemoração parece ter despertado o duo de um acentuado e longo pousio criativo - anuncia-se para sexta-feira, dia 30 de Abril, a edição de "Rocky Trail", o primeiro inédito em doze anos que foi registado na Sicília, casa adoptada de Erland Oye nos últimos tempos. Para o mesmo dia está prometido um video oficial para o novo tema e o seu lançamento automático e instantâneo através do Spotify. O álbum, há muito encaminhado, não deverá tardar. Resta esperar e recordar as maravilhas...

terça-feira, 27 de abril de 2021

(RE)LIDO #100






















NICK DRAKE
 
Remembered For A While 
coordenado por Gabrielle Drake e Cally Calloman 
London: John Murray, 2014 
Este bonito volume de capa dura e considerável peso já fez viagens de férias para casas de praia vicentinas, nortenhas e até pousadas madeirenses. Não teve sorte e, apesar dos arejos, regressou sempre tristonho ao ponto de partida da estante onde pousou desde a sua compra em 2014, ano de publicação por uma reputada editora inglesa. Sempre olhamos para ele com enlevo e carinho, desfolhamos-lhe muitas vezes e de forma rápida as mais de quatrocentas páginas mas o conteúdo não merecia pressa ou qualquer sofreguidão na consulta da informação recolhida e reunida porquanto, depois de tantos livros devorados sobre o amigo Nick Drake, o momento certo devia funcionar como revisão e sedimento de homenagem à vida de um dos maiores. Confessamos, no entanto, que o aproximar do número 100 da rubrica (a)crítica de leituras sobre o mundo da música acelerou agora a escolha tantas vezes adiada a que se junta o anúncio de uma biografia oficial a sair na Hodder & Stoughton com dia e ano marcados. Tudo isto é, sem dúvida, verdade mas a razão principal da demora, por mais estranha que possa parecer, foi sempre só uma - não querer enfrentar o relato inédito e verdadeiro de uma tragédia que continua a enfurecer-nos na tristeza e no desalento.  

De impressão e desenho gráfico clássico e elegante, o conjunto de testemunhos e imagens reunidas pela irmã Gabrielle com a ajuda do documentalista e também músico Cally Calloman a partir do vasto arquivo de família é quase definitivo, dividido que está pelos capítulos The Seed/a semente, The Flower/a flor, The Fruit/o fruto, The Harvest/a colheita e The Stock/a herança de um percurso de vida perfeitamente segmentado. Para o iluminar e esclarecer, quer como músico, cantor, compositor, filho ou irmão, há variadas abordagens em forma de entrevista aos principais amigos (Paul Wheeler, Jeremy Harmer, Brian Wells ou a norte-americana Robin Frederick), de resumo de conversas informais, de fotografias inéditas, de reprodução de numerosos recortes de imprensa, de projectos de capas de discos rejeitadas, de letras manuscritas ou datilografadas e, principalmente, de cartas e outra correspondência trocada com os pais desde muito cedo. 

Aqui, nesta imensidão de informação directa e subliminar, tem o livro a fonte não contaminada de relatos e factos na primeira pessoa, onde vigora uma escrita inteligente e quase romanceada sobre as primeiras conquistas e obstáculos desportivos ou musicais na escola secundária em Marlborough, as férias libertadoras com os amigos em Aix-en-Provence, a viagem a Marrocos ou a saltada atribulada a St. Tropez que o intenso relato de Colin Betts, já previamente publicado, reforça na plenitude. Rapidamente nos pomos a imaginar Drake a tocar para os Stones numa esplanada de um restaurante de Marraquexe ou a recolher moedas numa praça da Provença depois de tocar algumas versões ou as primeiras canções originais entre baforadas em cigarros de erva, postura bem diferente daquela mítica timidez e recolhimento a que nos acostumamos de ler aquando de concertos futuros com palco e público expectante. Com a chegada a Cambridge acontece o envolvimento irreversível com a música, traduzido na felicidade de um contrato discográfico que as cartas para família, em menor número, não disfarçam num contentamento risonho quanto ao futuro, mas em que, desde logo, as escolhas e os custos se afigurem tortuosos e nada fáceis. 

A partir daqui, serve e servirá o livro como enciclopédia artística obrigatória sobre os três discos e mais um punhado de canções originais editados e escritos entre 1969 e 1972, um trabalho de compilação informativa irrepreensível e quase científica sobre a sua gravação, os instrumentos, os acordes, os músicos, as opções de estúdio, as influências, os pormenores e acasos do percurso curto mas notável de um músico determinado e talentoso na sua busca incessante pela perfeição mas traído pela falta de reconhecimento público em contraste com os repetidos elogios de todos os envolvidos, da família aos amigos surpreendidos. Com "Pink Moon", disco quase maldito no adensar da tempestade negra, chega também o tal receio em perceber a história que conduziu à desgraça mortal.

A página inicial do tormento é a 327. Estende-se, então, uma surpreendente selecção de apontamentos diários feitos pelo pai Rodney Drake sobre a estadia do filho regressado à casa-mãe. Estamos em Tanworth-in-Arden, no countryside inglês, onde Nick se abriga e refugia depois de goradas as suas expectativas comerciais e profissionais e se multiplicam os problemas mentais e comportamentais de um jovem adulto enfraquecido, confuso, revoltado e indefeso. A partir de Março de 1972, Rodney inicia a dolorosa tarefa de documentar a montanha russa de atitudes, começos, solavancos, rupturas, mentiras ou oportunidades de cura, em tempos de tratamento incerto e arriscado duma malaise desconhecida e rebuscada no diagnóstico, na tentativa de aliviar a dor do ente querido. Dolorosa, como leitores, é a constatação de um sombrio emaranhado de menções penosas e duradoiras sobre um ser humano em desgaste acelerado de solidão e incapacidade física e psíquica para decidir ou estabilizar posturas conducentes à tão desejada ajuda na reabilitação (oh, so week in this need for you). Com alguns nós na garganta e uma pesada compaixão, a página final do sofrimento é a 364 e custou chegar até lá...

O alívio, contudo, submerge logo a seguir no capítulo The Harvest onde se agrupam testemunhos sentidos de amigos como Brian Wells ou Jeremy Harmer e, sobretudo, Robyn Frederick que com ele conviveu em tempos de felicidade por França. O texto "Nick Drake: Orpheus Visible" é uma tocante reflexão que encandeia pelo lirismo florido sobre o mais importante, ou seja, a eternidade da música e a sua terapêutica em jeito de mantra e que começa assim:  

"When I listen to the songs of Nick Drake - to Nick Drake singing his songs - something shifts. The world slips just a little bit sideways. An ancient, unfamiliar door opens and I can see something beyond my everyday life. Beyond that door is a world that has more depth, more truth. It's a feeling that only exists in the present moment, when i'm listening to Nick singing, then it slips away again below the surface. (...)".  

Bastará ouvir a última das canções para o entender na plenitude e, como se fosse sempre a primeira vez a cantá-la só para nós, fazer dessa energia limpa uma gratidão eterna!     

SUMMER OF LOVE, UMA REVOLUÇÃO!






















Foi uma das sensações da edição deste ano do Sundance Film Festival em Janeiro passado e poderá multiplicar os elogios quando estrear em sala e na plataforma Hulu já em Julho - "Summer of Love" é um filme documentário que resgata o Harlem Cultural Festival de 1969 que decorreu em Nova Iorque e que ficou conhecido como o "Woodstock Negro", uma celebração da cultura, moda e história da comunidade negra e não só que arrastou ao Mount Morris Park (hoje o Marcus Garvey Park) cerca de trezentas mil pessoas ao longo de um mês e meio. Em seis tardes de domingo, de 29 de Junho até final de Agosto desse verão, desfilaram em actuações vibrantes e entre outros, Stevie Wonder, B.B. King, Nina Simone, Sly & the Family Stone, Mavis Staples (The Staple Sisters), Mongo Santamaria ou Glady's Night & The Pips em condições de segurança sempre intermitentes atendendo a que a polícia nova-iorquina se recusou a prestar o seu serviço. 

A realização pertence a Ahmir Khalin Thompson, ou seja, o Questlove baterista incontornável da banda The Roots e responsável pela produção musical da cerimónia dos Óscars do passado Domingo, onde se mostram imagens inéditas e nunca vistas da força da música com testamento intemporal e espiritual de uma época conturbada e que não pode ser esquecida. A revolução não passou na televisão, mas já havia muita gente a cantá-la!


segunda-feira, 26 de abril de 2021

LUA ROSA A CAMINHO!

O fenómeno é recorrente e serve para anunciar um regresso ao misterioso mundo de Nick Drake preparado por estas bandas e que se estenderá até Fevereiro do 2022, mês comemorativo dos cinquenta anos do álbum "Pink Moon". A próxima madrugada terá direita a lua rosa, das grandesPink moon is on its way... 


domingo, 25 de abril de 2021

SINGLES #50






















ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA 
NOTÍCIAS D'ABRIL
Se Vossa Excelência... / Em Trás-os-Montes à Tarde 
Portugal: Orfeu KSAT 633, 1978 
Há quarenta e sete anos, o dia de hoje significava para muitos portugueses uma esperança em melhores condições de trabalho, de segurança social ou assistência na saúde. O pleno destes direitos consignados está ainda hoje por alcançar como se confirmou (não era preciso) com a chegada da uma pandemia que pôs a nu precariedades antigas e injustiças eternas. Cedo se percebeu que a revolução não chegaria a todos da mesma maneira e este single curioso de Adriano Correia de Oliveira de 1978 é uma memória válida de uma época em que a desilusão estava já disseminada... 

A verdadeira história é reveladora: o presidente da República General Ramalho Eanes visitou nesse ano alguns concelhos do país para conhecer fábricas e indústrias, falar com operários e patrões e no caso da Tabopan, fábrica de aglomerados de madeira de Penafiel, teve à sua espera ao almoço colectivo um corajoso delegado sindical que o informou de viva voz e em liberdade das condições vigentes. Nas reivindicações, reproduzidas em notícias de jornais e também na própria capa do pequeno vinil, Amadeu Alves Ribeiro começava sempre por um "Se Vossa Excelência Senhor Presidente viesse cá almoçar mais vezes..." para relatar atrasos nos retroactivos, reclamar a integração de colegas afastados ou a inexistência de uma cantina, disfarçada naquele dia em mesas provisórias no interior do recinto. 

Ao lê-la, Adriano Correia de Oliveira partiu para a gravação de uma nova canção com letra de Alfredo Vieira de Sousa, habitual colaborador de outros músicos como Fernando Tordo ou Pedro Osório, onde são cantados os problemas então revelados pelo sindicalista numa toada de intervenção directa em que a época era pródiga mas de composição instrumental algo arriscada. Juntou-lhe outro inédito, também resultante de uma notícia de jornal e com letra da mesma pena, sobre as virtudes do cooperativismo agrícola em Trás-os Montes e do caso de um pastor feliz pela descoberta do trabalho comunitário e das virtudes vantajosas da sua prática. 

Este seria o penúltimo trabalho de originais de Adriano Correia de Oliveira, ele próprio um incansável e dedicado activista no canto popular antes e depois do 25 de Abril, tendo participado em centenas de sessões em todo o país e no estrangeiro que lhe retiraram tempo para gravar mais canções novas. Em 1980 procederia ainda ao registo do último álbum "Cantigas Portuguesas" com a ajuda de Fausto e Pedro Caldeira Cabral mas acabaria por falecer pobre, dizem, em Avintes em 1982.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

AU PAIR GIRLS, BANDA-SONORA!

Um filme-comédia inglês chamado "Au Pair Girls" de 1972 é hoje em dia um produto datado pelo efectivo mau gosto, exagero machista e acento sofrível na brejeirice e nudez mais que marota, mesmo assim, inofensivas. O filme tem à sua volta uma série de curiosidades com ligações ao mundo da música como ter sido filmado nos relvados e anexos da mansão de George Harrison em Londres e de ter como protagonistas, entre outros, Richard O' Sullivan (sim, irmão mais velho do cantor Gilbert O' Sullivan, o tal de "Clair" e "Alone Again") e Gabrielle Drake (sim, irmã mais velha de Nick Drake). Podem experimentar sem custos mas adiantamos, desde já, que o Benny Hill é bem melhor... 

Mas no mês passado foi finalmente editada a banda sonora até agora inédita da película composta expressamente por Richard Webb, pianista de jazz mas também compositor em franca ascensão nessa época, um resgate especializado a cabo da Trunk Records com direito a vinil obrigatório e capa retro onde brilha a bonita mana Gabrielle, Gaye para a família. A música é descontraída, gingona, sexy, groovy e, essa sim, sem prazo de validade!



PREFAB SPROUT, ¡VALE!






















Rareiam os livros sobre os Prefab Sprout ou Paddy McAlloon em língua inglesa e a sua aquisição e recolha está condicionada pela longevidade ou então por uma ambição editorial a que tentamos responder mas sem resultados práticos. 

A secura tem agora uma surpreendente fonte em espanhol escrita por Carlos Pérez de Ziriza, jornalista que contribui para o El País, o Mondosonoro e para a Efe Eme, revista e site de informação musical generalista em Espanha com vinte anos de actividade e que também é casa de livros. Nesta primeira biografia em castelhano que recebeu o nome de "La Vida Es Un Milagro", anuncia-se uma análise rigorosa e inédita do percurso e das canções de uma banda intemporal que se reforça, na expectativa, com uma entrevista exclusiva do autor a McAloon. Ficamos com apetite!

quinta-feira, 22 de abril de 2021

UAUU #592

(RE)LIDO #99






















NÃO SE ENGANA O CORAÇÃO
 
Retrato de uma vida e de Portugal com outra música 
de José Jorge Letria. Lisboa: Clube do Autor, 2016 
A actividade literária de José Jorge Letria evidencia nos últimos anos uma vontade frenética de não puxar o travão de mão. Como poeta, compositor, cantor, jornalista, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, antigo vereador de cultura ou simplesmente cidadão português preocupado com as injustiças e desigualdades, as obras contínuas que não pára de editar são, entre outras evidências, um reflexo activo do gosto pela memória histórica e documental que tem na amizade e companheirismo um novelo biográfico quase ilimitado. Se lhe juntarmos um esforço académico voluntário transposto para um doutoramento em ciências de comunicação ou o difícil desafio em que a promoção cultural mergulhou nos últimos tempos, percebemos que estará ainda muito por contar e fazer. 

Como autor de canções envolvido num movimento de intervenção agitado no período prévio e posterior ao 25 de Abril, há já um excelente testemunho (2013) ao qual demos particular atenção e que tem neste livro um complemento directo mas, mesmo assim, menos interessante. Dividido em três partes, na primeira delas intitulada "Portugal com outra Música" narram-se episódios onde os amigos Zeca Afonso, Ary dos Santos ou Carlos Paredes são protagonistas de alguns factos caricatos ou involuntários de intriga política e artística que remetem para os tempos sonhadores do pós-revolução e onde transparece alguma desilusão e incómodo com partidos e sistemas políticos que a queda do Muro de Berlim haveria de desmoronar sem rodeios. Atendendo ao subtítulo e até à fotografia de capa ao lado desses companheiros de palco, a escolha sabe a pouco. 

Percebe-se, então, que a outra música é afinal um desfilar de lembranças diversas com pano de fundo pintado nas traições políticas e jornalísticas onde desfilam nomes de ministros, dirigentes, escritores ou outros autores a que se associam motivações e êxitos alcançados fora dessa militância e que se alonga, na parte subjacente, a relatos de viagens pelo mundo na qualidade de autor e, principalmente, vereador de cultura na Câmara de Cascais, actividade reconhecidamente meritória e elogiosa. Resta, assim, uma última porção bem mais poética e pessoal alusiva à família, aos livros e aos sonhos de uma vida que, se nota, não terminaram nem podem terminar. Basta não enganar o coração...

quarta-feira, 21 de abril de 2021

JON HOPKINS, SERENIDADE!






















O produtor inglês Jon Hopkins, nomeado quase sempre como um protegido de Brian Eno, tem na música electrónica um alargado campo de experimentação em nome próprio com vista à dança ou destinado a um argumento cinematográfico previamente percebido. Há de ambas as facetas inúmeros bons exemplos como o último de originais "Singularity" lançado em 2018 ou a banda sonora premiada para o filme "Monsters" de 2010. 

Acrescenta-se ainda uma vertente inesperada mas sedutora que contempla somente o piano vertical através do projecto pioneiro "Asleep", um EP ambiental de 2014 concebido na fria Islândia onde despiu completamente alguns dos temas do disco "Immunity" do ano anterior para surpresa geral mas de conforto imediato como se comprova na recordação abaixo. 

Há agora uma insistência no modelo artístico com "Piano Versions", um género de disco irmão do referido "Asleep", onde embrulhou peças originais e preferidas de Roger & Brian Eno ("Wintergreen"), Thom Yorke ("Dawn Chorus"), Luke Abbott ("Modern Driveway") e James Yorkston ("Heron") com uma camada analógica e serena a lembrar Nils Frahm ou Peter Broderick. A versão digital está já disponível mas anuncia-se para Julho o EP em vinil azul de edição limitada.