sábado, 23 de junho de 2018

McCARTNEY VINTAGE!

Cinco anos depois, Paul McCartney regressa em plena forma ao que sempre soube fazer, ou seja, canções. São logo duas, qual delas a melhor, e que anunciam um álbum novo de nome "Egypt Station" a sair em Setembro. Puro vintage pop!




quarta-feira, 20 de junho de 2018

UAUU #438

THE SAXOPHONES, UM VÍCIO...





















A propósito dos setenta anos do malogrado Nick Drake, demos por aqui conta em Fevereiro passado de uma colectânea de versões projectada pela revista Mojo onde pela primeira vez batemos de frente com os The Saxophones. A cover para o clássico "Fruit Tree" de toada fresca e brisa pop que a banda então apresentava levou-nos a uma imediata busca sobre quem seriam os seus corajosos autores e o resultado da demanda é este primeiro e merecido destaque que agora lhes rendemos. Formados em Oakland, California, por Alexi Erenkov e Alison Alderdice, a sua esposa há já dez anos, o mesmo tempo que a banda leva de caminho artístico, o duo viveu parte desse tempo num barco atracado na baía de São Francisco, aproveitando os dias penosos de Inverno para compor canções influenciadas por algum exotismo havaiano ou jazz da West Coast e onde a tensão do relacionamento amoroso e a paixão serviram de guião para os temas. Como estudante de música jazz, onde chegou a praticar o saxofone, a flauta ou até o clarinete, Erenkov sempre sonhou com a aparente simplicidade de conseguir tocar guitarra e cantar mas a marca haveria de resistir ironicamente nos arranjos que projectou para as faixas de um primeiro EP em 2016 e de um disco maior há muito sonhado - solos de saxofone ou clarinete acabaram por fazer parte dos registos que finalmente saíram em forma de um álbum no início do mês na casa Full Time Hobby com o certeiro título "Songs of The Saxophones". Bom gosto e sedução não têm dono nem idade e, por isso, estes são tempos perfeitos para canções românticas mas não trôpegas com alto teor de dependência e sem qualquer tipo de restrições. Um vício... 






terça-feira, 19 de junho de 2018

NICK DRAKE, 70 PRIMAVERAS!




















Rangum, Birmânia, 19 de Junho de 1948, nascia o menino Nick Drake...
o maior entre os maiores! Parabéns, Nick ;-)

Fame is but a fruit tree
So very unsound
It can never flourish
‘til its stock is in the ground
So men of fame
Can never find a way
‘til time has flown
Far from their dying day


segunda-feira, 18 de junho de 2018

JULIE BYRNE, GNRation, Braga, 16 de Junho de 2018

A estreia esgotada de Julie Byrne em Braga, culminando uma mini-digressão de três datas pelo país, tinha um guião antecipadamente delicioso que repousa em "Not Even Hapiness", disco do ano transacto pleno de preciosidades sem idade a que chegou a hora certa para um ainda maior luzimento. Ali, na sala escura de dimensões adequadas para o seu lampejo sonoro, cedo se adivinhou que o momento ganharia uma aura de intimidade trémula logo com "Sleepwalker", um primeiro tremor onde Byrne, sozinha à guitarra e ainda com alguma luz, nos começou a abismar com a sua voz doce, as suas palavras calmas e a suplicar para que a já pouca claridade se extinguisse como por magia. Com a ajuda de um violino e de um sintetizador nas mãos de dois cúmplices discretos mas essenciais, o serão fluiu num ápice por entre temas de aconchego fácil e aveludado que incluiu uma notável versão de "These Days" de Jackson Brown que nos habituamos a venerar na voz de Nico ou St. Vincent e que culminou em "Natural Blue" e "I Live Now as a Singer", um celestial pedacinho de deleite para ouvir de olhos fechados que não foi preciso cerrar... O manto escuro tinha feito o favor de se instalar de forma propícia para só se tornar a elevar um pouco com "Holiday", um pedido da plateia já no encore a confirmar que o amor é sempre bondoso em forma de canção!       

sexta-feira, 15 de junho de 2018

DIRTY PROJECTORS, ILUMINAÇÃO DE VERÃO!





















Temos nos Dirty Projectors um caso paradigmático de inconformismo pop muito à custa da mente aberta de Dave Longstreth. O reconhecimento que damos à forma nada convencional de construir canções sem complexos de géneros ou etiquetas, alcança imediata atenção que já testamos ao vivo numa saudosa festa de Serralves em 2008 e que no álbum homónimo do ano passado se apresenta num elevado auge artístico. Para o engrandecer, contudo, Longstreth esqueceu os concertos ao vivo prometendo o regresso num futuro breve que agora se aproxima e que tem como motivo principal um outro álbum de originais intitulado "Lamp Lit Prose" a sair em Julho pela Domino Records. Colaboram, como sempre, variados amigos e compinchas como Robyn Pecknold dos Fleet Foxes, as Haim e músicos dos The Internet ou Vampire Weekend, decorrendo já uma enorme digressão que aporta à Europa em Julho e que merecia chegar ainda a tempo de uma data festivaleira nas redondezas. Aqui ficam dois dos novos e iluminados paradigmas para o verão que se adivinha. 



PRIMAVERA SOUND PORTO 2018: UM BALANÇO

















10 likes:

.  o regresso da distribuição dos horários dos concertos para pendurar ao pescoço. Devem ter sido tantas as reclamações em 2017 que imperou o bom senso;

. a resistência do recinto e, já agora, da organização, ao dia mais que chuvoso de sábado, sem atrasos, constrangimentos aparentes ou situações caóticas;

. a qualidade das casas de banho individuais mistas que permitiram maior fluidez e higiene;

. os Yellow Days, o sol e as canções de embalar;

. o doutorado honoris causa Nick Cave pelas suas boas acções na arte de comandar e hipnotizar com classe públicos rock & roll;

. as agradáveis surpresas causadas pelos Belako, Vagabon ou Ibeyi;

. a feliz ideia de isolar a electrónica tardia no palco Bits - nem lá pusemos os pés - e a nova tenda Radio Primavera com uma onda mais adulta e perfeitamente audível;

. o elevado padrão do giradisquismo do Jamie XX que merecia um saturday night fever e não uma madrugada de quinta-feira;

. a extinção da oferta da sacola/toalha e da consequente correria e mosh aos desgraçados dos jovens distribuidores, sendo substituída por uma bem mais útil tote bag

. a categoria extra-fina do nosso fornecedor de calorias preferido que dá pelo nome de Padaria Ribeiro!


10 dislikes

. o cuidado posto no alindamento do recinto (escadas em relva, fardos de cortiça, paliçadas de madeira a tapar wc's, etc.) que contrasta com as horríveis bancadas tipo "futebol de praia" nas laterais do novo palco "Seat" só para jogar com o "sentado" em inglês! Triste;

. o novo palco, que se tornou um problema e não uma solução e para onde saltaram bandas que mereciam mais respeito, atenção e nobreza. Todas as vantagens dos outros três palcos arborizados que fazem do evento um espaço único são ali, um descampado asfaltado, completamente subvertidos. A diferença é como da água para vinho;

. a insistência no chatérrimo post-rock de Mogway ou quejandos (Explosions in The Sky em edições anteriores) nos palcos grandes que espanta mesmo os mais resistentes;

. uma certa "juvenilização" do cartaz para chegar a mais públicos mas com sérios riscos de derrapagem sem controlo e de que a menina Lorde foi o exemplo perfeito;

. aquele "created in Barcelona" da fotografia acima, aparentemente destinado a assinalar a origem da marca automóvel que pairava numa das laterais do palco "espanhol" e que não nos pareceu nada inocente. Hmmm...;

. a quase sabotagem do excelente concerto de Kelsey Lu à custa da forte batida simultânea de um dos palcos principais mais próximos;

. o reggaeton fora de moda e sem nexo das Bad Gyal em pleno palco Pitchfork no final da noite de sábado e que só pode ter sido uma brincadeira de mau gosto ou uma provocação infeliz;

. a barulhenta brigada inglesa em exagerado estado etílico não respeitando sequer os artistas quanto mais os interessados festivaleiros militantes;

. a raridade do livro programa que não esteve disponível em nenhum lado - tal como o ano passado, parece que só alguns dos "pack FNAC" tem direito ao recuerdo. Custava muito colocá-lo à venda na tenda do mershandising?

. a incompreensível distribuição gratuita por parte do patrocinador de uns enormes guarda-chuvas pretos - não haveria pelo menos uns transparentes? - para levar para o recinto que os contemplados abriram sem respeito pela multidão já mais que molhada, tapando a já difícil visibilidade dos palcos. Provinciano!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

(RE)VISTO #70
















A HISTÓRIA POR CONTAR DO EURODISCO,
de Oliver Monssens, Arte GEIF/Flair Production/Kaos Films, 2017
RTP2, 12 de Junho de 2018
Aquando dos anos oitenta e na crescente valorização a bandas icónicas dessa altura como os U2, os Smiths, os Waterboys, etc., etc., a sonoridade disco-sound era qualquer coisa assustadora que tinha passado ao de leve lá por casa em pequenos discos de vinil esquecidos em caixas bolorentas guardadas no sotão. Depois de assumirmos que muitas das direcções que a música tomou na década seguinte tinha inspiração variada, incluindo uma matriz disco e electrónica emergente nos anos setenta, acabamos por resgatar parte dessa herança familiar e começar a sério a sua valorização imparável que se mantêm até aos dias de hoje. As investidas no vinil passaram, então, a não deixar para trás nenhum single ou maxi-single de Giorgio Moroder, Donna Summer, Boney M, you name it, umas vezes recompensadoras outras completamente dispensáveis e cuja explosão teve origem na Europa. Para perceber esse legado a RTP2 passou ontem uma excelente introdução ao conhecimento merecido dessa vanguarda europeia num documentário que conta com a contribuição dos próprios produtores, músicos e cantores que em Paris, Munique ou Londres arriscaram um avanço tecnológico e estratégico onde um simples sintetizador acabou por ter papel fundamental na primazia do velho continente em relação à concorrência americana. Sem pretensão exaustiva (falta pelo menos isto!), são ainda ouvidos testemunhos de interessados e amantes deste fenómeno como Dimitri From Paris, François Kevorkian ou Tom Moulton que ainda hoje não dispensam os truques ou ensinamentos aplicados nessa época, um tempo onde os discos de plástico tinham efectivamente, como reafirmado no final, qualquer coisa "dentro", ou seja, verdadeiros sons ou batidas saídas de uma bateria, dos metais ou das cordas dos violinos... E isso é irrepetível e a razão principal para, continuamente insatisfeitos, continuar a acumular, para o bem e para o mal, uma imensidão destas canções em forma de sete ou doze polegadas. Para ver e rever durante os próximos sete dias. Aqui ficam dois must!



domingo, 10 de junho de 2018

BELAKO+VAGABON+KELELA+PUBLIC SERVICE BROADCASTING+KELSEY LU+NICK CAVE AND THE BAD SEEDS+NILS FRAHM+WAR ON DRUGS, Primavera Sound, Porto, 9 de Junho de 2018
















Todos tivemos aquele sonho juvenil de ter uma banda de amigos que um dia chegaria a um palco de um grande festival. Os jovens bascos Belako são a confirmação que o sonho comanda a vida e vê-los ali bem dispostos no anfiteatro principal do recinto a abrir a tarde chuvosa de forma tão brilhante e segura, debitando canções de excelência como quem ensaia na garagem de forma descontraída, foi uma dádiva inesperada e que prova que o rock está vivo e de guelra palpitante. Parabéns, Belako!   



Com níveis de humidade em nítida fase de ascensão, encontramos Laetitia Tamko a preparar-se calmamente para fazer história. Emigrada dos Camarões em Nova Iorque onde se apaixonou pelo indie-rock americano, lançou-se o ano passado com o nome de Vagabon para surpreender com um primeiro disco de temas notáveis onde a voz, e que voz, ecoa até doer. Curto, apelativo, sedutor, um concerto na hora certa mesmo que a tal voz tenha algumas vezes desentoado e a prova que, apesar de tudo, a globalização até na música acarreta algumas vantagens.



Na descida espreitamos a parte final da perfomance de Kelela no mesmo palco onde FKA Twigs tinha em 2015 surpreendido os mais incautos. Longe do brilhantismo da jovem inglesa, percebeu-se a leveza e simplicidade da apresentação condicionada pela chuva, mas levamos a sério a recomendação anunciada quanto ao concerto da amiga Kelsey Lu marcado para mais tarde...



Uma das estreias a gerar mais expectativas seria a dos ingleses Public Service Broadcasting. Em horário de reforço alimentar e, já agora, de protecção contra a chuva, só a meio do evento o recinto asfaltado começou a ficar preenchido como merecia já que o espectáculo apresentou argumentos mais que suficientes para agradar: imagens e temas em franca sintonia, execução primorosa onde se incluiu um trio de metais mas que durou muito pouco tempo. Talvez um regresso adequado a uma sala fechada permita desfrutar do conceito de forma mais satisfatória mas o que nos foi sugerido pela simpática difusão teve uma franca e digna aprovação.   



A presença sofisticada de Kelsey Lu entre adereços seleccionados e guarda-roupa vistoso teve uma condicionante quase mortífera - o barulho simultâneo dos beats do palco inferior, um excesso nada bem-vindo e a funcionar como incómodo irritante que levou até à interrupção da sequência luxuosa que se queria, desejava, serena e tranquila. As canções envoltas num jogo de brumas, sombras e barulhos da chuva cativaram os corajosos que marcaram presença para a ouvir e admirar em momentos de um hipnotismo e melancolia invulgares tal como as estrelícias que atirou com amor para o público rendido. Já estamos com saudades! 



A Nick Cave não resta inventar nada. Habilidade, perícia, experiência ou talento servem para controlar da melhor maneira uma plateia imensa e imersa em chuva forte que se assume mítica e, diríamos, adequada a tamanha vibração. Depois há uma banda que suporta, como nenhuma outra, as canções de um reportório de excelência que percorreu álbuns obrigatórios de uma carreira timbrada pela qualidade e contínua insatisfação. Pode ser simplesmente ao piano em "Into My Arms", em deambulações fronteiras aquando de "Stagger Lee" ou em mergulhos na multidão durante "The Wipping Song" ou na arrepiante "Jubilee Street", Cave, qual deão de cerimónia, confirmou o dão de nos hipnotizar pela rouquidão da voz ao contar as suas histórias como se fossem nossas, como se estivesse sempre à nossa beira, ao nosso lado, encostando-nos o ombro e nos lançasse uma mirada de desafio para logo depois nos piscar o olho ao esboçar um sorriso. Quando em "Pushing The Sky Way", a terminar, levou para o palco umas dezenas dos nossos, dos que lhe prestaram atenção e respeito - sim, porque infelizmente há ainda muitos que aproveitam o concerto para profanar o momento ao telefonar para a mãe em Inglaterra ou tecer loas em voz alta a um treinador de futebol - foi como se o recinto deixasse de ter desníveis para se aplanar num santuário sem altar onde, todos juntos, só temos que continuar a empurrar, a empurrar, a empurrar a cruz da nossa vida, de todas as vidas... and some people say it's just rock and roll! Quanto à chuva, qual chuva?



Respirar fundo! O momento era de decisões - mesmo horário mas um palco melhor que o outro - e entre Nils Frahm e War on Drugs optamos descer até onde o alemão se preparava para o recital. Impressionante a quantidade analógica de teclados e aparelhos que por ali repousavam à espera de um comando, de um toque, de uma pressão quase improvável e simultânea mas que, iniciado o concerto, se conjugariam ao jeito de um orgão de tubos de uma grande catedral. Cativante, Frahm sabe jogar como ninguém com os meandros de um certo classicismo orquestral e uns aparentes loops vintage que são resultado de muita persistência e teimosia exploratória que vai muito além de uma simples escala de um piano, estacando desde logo uma plateia em fase de meditação e balanço, o que lhe rendeu fortes aplausos. Mágico. Sob pressão, contudo, não resistimos a subir ao palco concorrente para uma pequena audição ao grande Granduciel...         



E pronto, furando entre a multidão lá chegamos a tempo do inevitável "Under the Pressure", a peça das peças clássicas dos The War On Drugs com direito a arremesso literal de guitarra a culminar dez minutos de tensão. Já não foi mau. Até para o ano, espera-se, sem chuva, mordomos ou lordes. 

sábado, 9 de junho de 2018

IDLES+AMEN DUNES+YELLOW DAYS+GRIZZLY BEAR+IBEYI+SHELLAC+SUPERORGANISM+THUNDERCAT+FEVER RAY+UNKNOWN MORTAL ORCHESTRA, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2018
















Um abanão logo a abrir a tarde surpreendentemente soalheira até que podia ter algum efeito despertador. Só que o toque sonoro foi demasiado violento para a falta de horas de sono e, assim, os Idles chegaram demasiado cedo, demasiado convencidos e com demasiado cuspo... Há fibra, há chispa, faltou um pouco de humildade mas o punk nunca soube o que isso é. Os futuros concertos de Novembro pronunciam-se caóticos!   



Apesar do grande disco deste ano "Freedom" ser um caso de paixão instantânea, Amen Dunes tinha uma tarefa complicada em validá-lo perante uma audiência simplesmente curiosa e à espera da surpresa. Em final de digressão, as canções flutuaram sem pressas e na mediada certa e o regresso reafirmado para breve ao nosso país talvez o leve aos locais certeiros para uma fruição que se espera, dessa vez, plena e ideal. Seja como for, como primeira apresentação o momento superou as nossas melhores expectativas.   



Será demasiado fácil jogar com o regresso do sol ao parque verde e os Yellow Days, nome de banda que disfarça a aventura de George Van Den Broek, grande miúdo inglês com baptismo holandês que queria ser Mac DeMarco, King Krule ou Ray Charles mas só a a brincar. Pois bem, os pequenos discos, vulgo Ep's, que entretanto gravou confirmaram a veias simultâneas e sérias de classe blusy, charme e jeito crooner que se grudaram à primeira audição em ambiente quente e devidamente amarelado. Estava encontrado um dos grandes concertos do festival!



Os Grizzly Bear, que já tiveram direito a palco principal por estas bandas em 2013, voltaram para uma revisão de temas antigos mas há um excelente disco chamado "Painted Ruins" do ano passado que mereceria maior reconhecimento. Notou-se um pouco menos de fulgor e entusiasmo e decidimos, por isso, arriscar uma rápida e prometedora subida ao palco Pitchfork



A festa estava instalada! As gémeas franco-cubanas Ibeyi tinham a plateia em fervorosa animação, jogando com o incitamento à dança, com o enorme entendimento e conjugação de gestos e movimentos e com a óbvia resposta positiva às mais que reconhecidas canções. Pelas reacções de entusiasmo e felicidade do duo, estampados também por entre a plateia, não vai demorar a que voltem para repetir a façanha.   



Como sempre, tempo para picar o ponto num ou outro tema dos Shellac, desta vez a assumirem um merecido palco principal. Pena que, por coincidência, sejam quase sempre os mesmos - "Wingalker" p.ex. - mas a reclamação não faz sentido atendendo ao elevado prazer de cada momento. Uma banda assim é e sempre será a garantia eterna de dupla satisfação quer em cima quer em frente a qualquer palco!   



Os Superorganism são um daqueles fenómenos capaz de suscitar tantos repelentes quantos fascínios e em que a inocência pop das canções e a cenografia colorida são o fiel de uma balança difícil de equilibrar. Atendendo ao empolgamento da menina Orono que comanda a pandilha e ao forte aplauso, adivinha-se um amor recíproco repentino mas em fase de crescimento que tem na internet, no imediatismo e na colagem de géneros um infindável campo de experimentação e virose. Afinal, todos querem ser famosos, não?



O adjectivo virtuoso que se pode aplicar a Stephen Lee Bruner aka Thundercat é, neste caso como em muitos, redutor. Os muitos que o ovacionaram no melhor palco do evento sempre que terminava um dos longos momentos no seu baixo, percorrido ainda com maior rapidez que um estenógrafo no congresso americano, continuam a fazer a pergunta "como é possível?". A resposta para o caso não é importante já que o valor e preciosidade cósmica de um espectáculo deste calibre não tem preço nem idade. A apresentar canções de "Drunk", um melting-pot de colaborações e géneros, Bruner esticou-se literalmente ao lado de um super-baterista e um teclista para nos fazer sorrir de satisfação e, já agora, de rendição. Espectáculo memorável, brotherPeace, Bourdain! 



Ainda a tempo de espreitar a estreia de Fever Ray, projecto de Karin Dreijar que, deitando os The Knife para trás das costas, deu uns quantos passos à frente num vanguardismo electrónico sedutor e ecléctico. Visualmente imparável onde os trajes das seis "caricaturas" dão efectivamente nas vistas, os derradeiros momentos do espectáculo onde comparecemos foram recompensadores, tanto quanto este tipo de experimentalismo pode alcançar entre tamanha plateia. Incompreendido por muitos, atendendo ao muito desinteresse que testemunhamos, restou-nos um travo a pouco mas as preferências e sobreposições de horários a isso obrigaram.   



Não havia que enganar! No mesmo "local do crime" que Pond ou King Gizzard, projectos também vindos dos antípodas que por ali passaram em anos anteriores, o regresso dos Unknown Mortal Orchestra ao nosso país tinha a benção e cenário certos para a festa. O final da noite começou entre recordações com um irrequieto Ruben Nilsson a sair do palco relva fora até à cabine de som para uma qualquer comemoração que mais à frente haveria de valer a partilha de uns quantos shots em pleno palco, mas o alinhamento não dispensou "Hunnybee" ou o balançante "Everyone Acts Crazy", duas das novas e grandes canções. A encerrar, o inevitável "Can't Keep Checking My Phone" com direito a coro colectivo para um dos novos clássicos do nosso tempo. Impressivo!

sexta-feira, 8 de junho de 2018

FOREIGN POETRY+WAXAHATCHEE+THE TWILIGHT SAD+RHYE+FATHER JOHN MISTY+EZRA FURMAN+LORDE+TYLER THE CREATOR+JAMIE XX, Primavera Sound Porto, 7 de Junho de 2018
















A abertura de mais uma edição do principal festival da cidade teve ameaça forte de chuva mas, milagrosamente, o clima distraiu-se e ainda bem. Numa primeira ronda pelo recinto, notou-se a localização duvidosa do novo palco Seat, o relvado fofo e vigoroso e tudo ainda em fase de acabamentos para manter a tradição. Nestes preparos, coube aos Foreign Poetry abrir as hostilidades em toada calma, demasiado calma e sem sobressaltos onde o vocalista nos parecia português e, afinal, quase que era mesmo já que se trata de um projecto internacional de ligações lusas, austríacas e inglesas. A estreia em grandes palcos cumpriu sem deslumbramentos mas a tarefa não era fácil. Para ir descobrindo. 



As irmãs Crutchfield têm no projecto Waxahatchee a principal montra da sua cumplicidade e onde a mana Katie apresenta a cada disco fortes argumentos de qualidade. Foi assim aquando de "Ivy Tripp" de 2015 e que seria apresentado em Coura, é agora com "Out In The Strom" de 2017, oportunidade para uma subida de divisão, uma melhor perfomance e, acima de tudo, uma maior segurança ao vivo e na liderança. Concerto consistente, bem recebido mas, mesmo assim, ainda a precisar de um palco mais pequeno. 



Os Twilight Sad são o que se pode chamar uma substituição de luxo. Na falta dos Liminal, projecto paralelo aos Sigur Rós, os escoceses foram convocados para abrir o novo palco Seat e foram já muitos os que comparecerem na estreia nacional da sua formula de rock negro e emotivo. Na expectativa quanto à recepção, o vocalista James Graham mostrou-se particularmente agradecido quanto à abençoada oportunidade que o levou literalmente às lágrimas! Também não era preciso tanto...



Finalmente tivemos os Rhye por perto e em plena orquestra, uma dádiva de final de tarde que, mesmo sem sol, teve brilho mais que suficiente quer em cima do palco quer na plateia conhecedora e cúmplice. Onda pop de sortido fino ideal para alguma levitação num alinhamento que não passou ao lado de temas mais antigos como "Open" ou "The Fall" mas onde se notou ainda mais que o disco deste ano "Blood" é mesmo uma grande pérola a que não é preciso acrescentar qualquer condimento. Por isso mesmo, saboroso! 



Mr. Tilmann arrasta multidões, particularmente as femininas que se derretem com os trejeitos e piruetas mas Father John Misty é muito mais que um suspiro, confirmando que as canções e as suas implicações biográficas ou satíricas são manifestos públicos de elevado teor. A sofisticação dos arranjos e da composição são ao vivo de uma inabalável consistência e rodagem e onde, claro, Tilmann assume um protagonismo hipnótico que confirmam o seu estatuto de gentelman da melhor pop do momento. Irresistível! 



A correr colina abaixo na expectativa que Ezra Furman tivesse ainda algumas canções na manga. Ouvimos as quatro últimas, magníficas, certamente um culminar de um concerto forte, intenso e que vamos querer experimentar na íntegra logo que a oportunidade se repita.     



O que é que estamos aqui a fazer? A pergunta certamente ocorreu a uma imensa maioria de simples curiosos que acabaram no palco principal a ver Lorde. Sem alternativas no mesmo horário, percebeu-se o histerismo jovem, demasiado jovem, da frente do palco enquanto o resto da plateia permanecia impávida a olhar os ecrãs e a tentar encontrar razões para semelhante traição de uma organização a pisar o risco sem necessidade. Mais uma pergunta: será que a Herdade da Casa Branca começou a ser transferida para o Parque da Cidade? Perigoso.



No seu estilo, Tyler de Creator parece ser aquele rapper que melhor ultrapassa gerações e efabulações da crítica e isso foi visível na recepção da multidão ao jovem norte-americano que já por cá anda há mais de dez anos. Irrequieto como convêm, Tyler esteve imperial na interacção e comunicação, sem agressividade e sobranceria desnecessárias, proporcionando uma hora e pico de puro diversão e agitação. 



Os cinco minutos do set de Jamie XX que aqui deixamos são só um pequeno trecho de um alinhamento de discos, sim, discos dos verdadeiros, de vinil, que começou atraente e de balanço crescente. Irrepreensível nas transições, o menino dos XX têm definitivamente queda para a função mas só foi pena estarmos numa quinta-feira e a mola ter que ser vergada no dia a seguir...


terça-feira, 5 de junho de 2018

CHICO BUARQUE, Coliseu do Porto, 2 de Junho de 2018

Fotografia O Observador















Doze anos depois, Chico Buarqe regressava ao Porto e a cidade de imediato percebeu a importância da oportunidade esgotando as duas datas destinadas a apresentar o grande disco "Caravanas" e não só. O álbum, que fomos ouvindo com prazer e até surpresa nos últimos tempos, era assim o momento certo para a nossa estreia num dos seus raros espectáculos o que, em boa hora e afortunadamente, acabou por acontecer da melhor forma desde que a cortina se abriu e a plateia o ovacionou de abraço. Começava então um recital em crescendo que alternou clássicos como "Iolanda", "Retrato em Branco e Preto" de Jobim ou o arrepiante "Todo o Sentimento" com canções recentes tão grandes como as nossas preferidas "Jogo de Bola", "Massarandupió", "As Caravanas" ou a lindíssima "Tua Cantiga". Com uma banda e músicos de calibre intocável, a noite planou entre fortes aplausos a um Chico bem disposto e em plena forma mas quando chegou um tal "Sabiá" ("sei que ainda vou voltar"...) e "Gota de Água" alguém atirou duas rosas para o palco que, esquecidas no solo, haveriam de ir parar às mãos do destinatário durante a ovação seguinte parecendo cravos do tempo do "Fado Tropical" do imenso Portugal... Quando nos encores chegou, entre outros, a vez de "Geni e o Zeplin", "Para Todos" ou "Futuros Amantes" faltava o cheirinho de alecrim do nosso "Tanto Mar" para que a noite bonita acabasse por florescer de alegria. Tanta primavera!

A MÚSICA TERMINOU, MAS A CANÇÃO...

Foi uma das nossas canções do ano passado, das principais, das inesquecíveis. A referência a Nick Drake, a história implicitamente biográfica ou a toada de balanço irresistível faz de "Canção Infinita" de Manuel Fúria um pequeno milagre de inspiração com direito a confissões, histórias e arrebatamentos mas que era difícil de encontrar na rede. Até hoje. Há agora um videoclip, melhor, um teledisco como se dizia na altura, há muito suspirado com imagens de patine analógica captadas em Santo Tirso e que só aumentam ainda mais o seu brilho. Só falta agora o maxi-single de 45 rpm em vinil que prolongue até ao infinito aquele final épico e tão new order... A música terminou mas a canção não acabou!


THOMAS ANKERSMIT AND KONRAD SPRENGER + GOAT [JP] + BANDA SINFÓNICA PORTUGUESA, Serralves em Festa, Porto, 3 de Junho de 2018

O último fôlego da edição deste ano do Serralves em Festa teve direito a chuva abençoada. Que o diga a dupla Thomas Ankersmit e Konrad Sprenger sentada calmamente em frente ao portátil e a um tal sintetizador analógico modular que, logo após o início da performance, viu as pingas começar a engrossar, levando à desistência de alguns. A imensa minoria, como nós, fez finca-pé entre a vegetação ou no resguardo da pequena tenda de controlo, assumindo o risco da experiência e onde se incluía uma estranha guitarra eléctrica em repouso vertical controlada digitalmente. A humidade ameaçadora da parafernália levou até a que o duo despisse os casacos para proteger melhor a sua integridade, um gesto que pareceu um movimento combinado integrante da apresentação enquanto o resultado da sobreposição de tons e sons se diluía de forma surpreendente com o barulho da chuva e dos pingos cada vez mais intensos. Inesperado e, já agora, premonitório!

(video removido a pedido dos artistas)


À custa da tal chuva abençoada, o pequeno atraso verificado na entrada dos japoneses Goat (JP) no espaço tenístico permitiu-nos não perder pitada do melhor concerto do festival. O quarteto reunido frente-a-frente no centro do palco e munido de uma pequena baqueta iniciou, então, um género de ritual compassado sobre os tambores (?) onde as batidas imaculadas e sem falhas prenderam de imediato a atenção de todos. Seguiu-se um novo e semelhante momento numa das partes laterais com o recurso, desta vez, a um conjunto de xilofones e/ou vibrafones, uma execução que pediu ainda mais concentração e o silêncio sepulcral e respeitador de uma plateia atenta e expectante. Foi aqui que ela, a chuva milagrosa, reapareceu como que convocada pela “cerimónia” mas quando num terceiro andamento os músicos se distribuíram pela bateria, baixo, saxofone a tambores para acelerar de forma dura o ritmo em dois ou três instrumentais de uma intensidade vibrante, as nuvens acabaram por dispersar empurradas por tamanha onda de impacto, uma força da natureza a que chamamos simplesmente rock. Desde logo, mítico!


Ainda a respirar fundo e a precisar de uma cerveja relaxadora, o caminho tinha agora um só sentido na direcção do prado onde a Banda Sinfónica Portuguesa apresentava o disco "Acid Brass" (1997) de Jeremy Deller. Descontraído, o colectivo jovem e bem disposto ganhou cedo a adesão dos ainda muitos resistentes quer pela inesperada combinação de uma matriz de house music com os metais e percussão tradicionais de uma orquestra quer pelo entusiasmo do maestro e tubista Sérgio Carolino, apostado em marcar o fim da festa de forma divertida. Atendendo às muitas palmas e aos pedidos de "mais uma", a contenda resultou em satisfação plena de ambas as partes. Até pró ano!          

segunda-feira, 4 de junho de 2018

BALLAKÉ SISSOKO ORCHESTRA + HAILU MERGIA + ORELHA NEGRA, Serralves em Festa, Porto, 2 de Junho de 2018

A carreira de Ballaké Sissoko ganhou na última década uma afamada dimensão internacional muito à custa do exotismo sonoro da kora, instrumento de difícil domínio mas onde as vinte e uma cordas, devidamente amansadas, permitem fazer magia. Juntar seis destes instrumentos ao jeito de orquestra com o seu nome amplia esta dimensão a um patamar de raridade sensorial que o conjunto de discípulos do mestre começou, desde logo, a emitir para uma plateia ansiosa pela oportunidade libertadora. A brilhar no início da tarde soalheira estiveram ainda as quatro vozes do Mali que na traseira ou frente do palco deram ainda mais cor e animação a um memorável concerto que, vincando a tradição e os costumes, permitiu um contínuo respirar de felicidade. Inspirador e expirador!



A vida de taxista de Hailu Mergia em Washington D. C. deu-lhe certamente muita paciência notória na calma com que assistia à afinação de instrumentos ou microfones, testes de som que retardaram o começo do concerto no Prado. Quando tudo parecia conforme, lá surgia novo desarranjo a precisar de acerto e Mergia, como quem espera clientes saídos de um avião, sacava pachorrentamente do telemóvel para mais uma espreitadela a alguma novidade ou contacto perdido. Quinze minutos depois do começo já atrasado e quando a festa parecia começar a animar, um falta de corrente eléctrica interrompeu uma outra corrente, a partilha animada que estava a começar a subir a olhos vistos e... Paciência, estava na hora de zarpar para finalmente ver dar à costa não as caravelas mas as caravanas de um tal Chico. Haveríamos de voltar, toldados!



O espectáculo dos Orelha Negra parecia não ser novidade para uma boa maioria da multidão que acorreu ao prado como manda a tradição, o que demonstra, desde logo, o sucesso do projecto lisboeta e a pertinência do agendamento. Visualmente envolvente e sedutor é, contudo, no tratamento dado à música que o colectivo ganha aos pontos um prémio de consistência e qualidade imbatível no género pelas nossas bandas e que tem no perito Samuel Mira aka Sam The Kid a nomeação cimeira. O corte e cose de samplers de fazer corar de inveja os Avalanches confirmam um trabalho de pesquisa e diggin assinalável que ao vivo alcança uma segurança murada por uma bateria a preceito, teclados e baixo vintage e um scratch tão certeiro quanto clássico. No ar, adivinha-se uma internacionalização do projecto que, mesmo no limiar do mainstream, se mantêm fresco e sedutor pelo muito traquejo adquirido. Quem sabe, sabe... 

domingo, 3 de junho de 2018

FIRE! + 23 SKIDOO, Serralves em Festa, Porto, 1 de Junho de 2018

A incontornável festa de Serralves conta já quinze anos, aproxima-se a maioridade, mas há muito que o evento "saiu de casa" sem consentimento. No que à música diz respeito, a aposta na subversão, no desconhecido e no inconvencional têm rendido momentos únicos e surpreendentes, o que logo nesta primeira noite aconteceu de novo com os nórdicos Fire!. Se é ou não jazz ou não, se é ou não rock, se é ou não noise, são etiquetas que não vale a pena procurar ou gastar cola, certamente uma preocupação que para o mentor Mats Gustafsson se torna irrelevante sempre que sopra, distorce ou abafa o seu saxofone barítono por cima ou por baixo do sons do baixo e da bateria num jogo sonoro experimental difícil de resistir. Isso mesmo, irresistível! 



Diferente balanço para os ingleses 23 Skidoo já em plena hora de ponta da festa no Prado. Com quase quarenta anos de percurso entre muitos altos, baixos e baixas, o concerto passeou ao de leve como uma banda sonora para começar a ir buscar cerveja, tirar a rolha às primeiras garrafas de vinho trazidas de casa ou procurar outros quaisquer estimulantes... Mesmo assim, entretido!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

THE MEN, Maus Hábitos, Porto, 31 de Maio de 2018

Ter os The Men no Porto após a actuação no Primavera de Barcelona parecia uma dádiva imperdível. Mesmo assim, não foram muitos os que responderam ao apelo de uma boa noite de música com raízes em Nova Iorque, um quarteto com provas mais que dadas no que ao rock duro e noise-rock diz respeito. Confessamos que, entre outros, fomos atraídos até aos Maus Hábitos muito por conta de um dos seus discos chamado "Tomorrow Hits" de 2014, um conjunto não tão rude de canções à prova de qualquer camada de rock clássico e também porque oportunidades desta natureza são, infelizmente, cada vez menos pelas redondezas. Caramba, já tínhamos saudades de um rasgar inicial como o que a banda aplicou de enfiada, mostrando ao que vinha e o que queria mas não foi difícil perceber, um pouco mais à frente, que algum cansaço dos músicos e o horário tardio levou o espectáculo para uma simples rodagem de canções exemplarmente executadas mas a que faltou uma pitadinha de raiva e energia. Embora do tal grande álbum de há quatro anos nem uma única canção tivesse sido alinhada, valeu na mesma... man

SON LUX, FERIDAS DE EXCELÊNCIA!





















Esperamos muito tempo por um disco assim. Demasiado. Dez anos. Desde 2008, sempre que Ryan Lott e os seus, mesmo seus, Son Lux lançaram um álbum de originais ou um dos muitos EP's fomos a correr ouvi-los, apreciando a experiência e a encruzilhada sonora mas a sensação restante foi sempre a de constatar a competência, a qualidade e a quase excelência. Até agora. Com o sexto trabalho "Brighter Wounds" lançado em Fevereiro passado, Lott apresenta-se, finalmente, num esplendor artístico irresistível onde a cinemática sonora e as texturas das melodias alcançam uma grandeza assinalável em dez canções que se vão magistralmente encadeando sem contemplações. A merecer, por isso, uma audição única e sem interrupções e que pode e deve ser começado sempre que acaba "No Shape" de Perfume Genius, este é um disco de uma eloquência versátil ora reluzente ora escura que nos agarra como um livro que não se quer parar de ler, onde os tempos arrastados de incompetência pela América, o nascimento do primeiro filho ou a morte de um amigo muito próximo conduzem Lott a uma série de interrogações e dúvidas em carne viva sobre a eternidade, a vida e, claro, a morte e que tem em "Ressurection" um epílogo épico. Atendendo a que já este mês a banda viaja Europa fora em formato trio, um upgrade verificado desde 2015 com o ingresso de Rafiq Bhatia na guitarra e Ian Chang na bateria, a apresentação ao vivo de um dos grandes trabalhos do corrente ano pelas nossas bandas afigura-se urgente e suspirada...