sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

QUARTO DUPLO PARA COCKER & GONZALEZ




















A parceria que agora se anuncia entre Jarvis Cocker e Chilly Gonzalez parece, numa primeira impressão, estranha. Certo é que a dupla há muito que projecta a edição de um trabalho em conjunto, ideias certamente trocadas e assentes entre muitas gargalhadas e piadas ou não fossem os dois eminentemente sarcásticos. Publicamente e para além de algumas aparições em concertos ao vivo, pegaram na canção "I'm Still Here" de Stephen Sondheim e adaptaram-na em 2012 para a comédia musical "Follies", talvez o primeiro grande sinal de que algo de sério poderia acontecer. O próximo dia 29 de Maio marca, então, a concretização dessa aspiração - um álbum conceptual de nome "Room 29" com selo da clássica Deutch Gramaphon que reflecte a estadia de Cocker no quarto 29 do hotel Château Marmont de Sunset Boulevard em Los Angeles. Por ali passaram um conjunto diverso de personagens (supostamente e por exemplo, Clara, filha de Mark Twain ou a actriz Jean Harlow) que serviram de inspiração para um conjunto de metáforas plenas de fantasia e assombração traduzidas em trechos clássicos, excertos de filmes e teatralidades inéditas ou de compositores como Gato Barbieri, Ryuichi Sakamoto ou Jason Beck. Para o efeito foi utilizado o mítico estúdio parisiense Ferber sob produção de Renaud Letang, colaborador assíduo de Gonzalez e onde participam a flautista Nathalie Hauptman, a cantora Maud Techa, o trompista Hasko Kroeger e o Kaiser Quartett de Hamburgo. Curiosa ainda a colaboração de David Thomson, icónico historiador de cinema que foi entrevistado por Cocker no próprio hotel em 2014 e cujos excertos da conversa são esporadicamente usados ao longo do disco, data que serviu também para o registo de um poético video para o lindíssimo tema título e que agora se disponibiliza. O projecto tem já diversas apresentações ao vivo em Março agendadas para a Alemanha e Reino Unido.






quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ANNA CALVI, UMA BELEZA!





















Semana da moda londrina que se preze tem no desfile da Burberry um dos eventos mais aguardados. Nos últimos anos a apresentação da colecção tem contado com música ao vivo de elevado calibre (Benjamin Clementine p.ex.) e na passada segunda feira em pleno Soho a primazia coube a Anna Calvi que juntamente com a Heritage Orchestra & Choir interpretou ao vivo cinco temas, dois deles inéditos - uma cover de "iT" da banda Christine and the Queens e a canção nova "Whip the Night" composta para a peça de teatro "The Sandman" dirigida por Robert Wilson. O alinhamento faz já parte de um EP editado via iTunes e que é o resultado imediato da transmissão ao vivo realizada na ocasião. O desfile/concerto está agora também disponível para visualização e encantamento. Beleza!

UAUU #371

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

I LOVE PORTUGAL!





















É certo que Mark Kozelek baptizou há muito a sua editora como Caldo Verde Records, escolheu uma foto da Invicta para capa do disco de versões do ano passado "Mark Kozelek Sings Favorites" (imagem acima) e sempre manifestou a sua admiração pelo nosso cantinho à beira-mar-plantado. Tal declaração de amor nunca tinha, contudo, atingido este patamar - uma canção inteirinha chamada "I Love Portugal" incluída no novo "Common As Light And Love Are Red Valleys of Blood" dos Sun Kill Moon a editar na próxima sexta-feira. Fala-se de "fado", "bacalao", e, claro, "caldo verde" mas também do Miguel, do Vasco, da Nádia, da Mónica ou do Bonfim e também da casa que vai comprar por cima do Rio Douro. Só não percebemos muito bem um tal de gazpacho! É melhor ouvir outra vez.

Yeah, we love Port(o)gal, 
"And it doesn't have a goddamned thing to do with football"! 

I BROKE UP IN AMARANTE!

O regresso dos galeses Los Campesinos! após quase três anos de retiro concretiza-se num álbum de inéditos chamado "Sick Scenes" prontinho a sair via Wichita Recordings e que foi inteiramente registado em Fridão no verão do ano passado. O engraçado single de avanço lançado há dois meses recebeu o curioso título de "I Broke Up In Amarante" e começa assim:

I found a home away from home
As I broke up in Amarante
In the Campo do Carvalhal
Centre circle every day

Atendendo ao denunciado pelo próprio líder Gareth Campesino, a canção tem a seguinte inspiração:

"The song's about battling with bad mental health, trying to confort and reason with youself over something you can't control. Specifically it's about how my main coping mechanism was to keep myself constantly drunk in the blistering heat of Amarante while failed by a largely terrible international football tournament".

Ora, é o que dá vir para a toca do inimigo esperançado que o país de Gales tinha alguma hipótese de ganhar a Portugal naquele dia 6 de Julho de 2016 no Stade de France... o que vale os galeses são os melhores adeptos do Mundo. Fica para a próxima e cá te esperamos para um outro festival, não de bola, mas de música! Um Mimo?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

MARK EITZEL, ERA UM EXPRESSO POR FAVOR!















Deambular sobre a tristeza emanada pela música de Mark Eitzel pode não ser novidade nem inédito. Aqui na casa gasta-se dessa melancolia há mais de vinte cinco anos e nem sempre foi bonito ver a sua música desprezada e esquecida por um mainstream titubeante e, na maior parte das vezes, injusto. Tanta incompreensão parece agora começar a levantar do nevoeiro e deparar com um artigo bem feito e quase exaustivo nas páginas do Expresso online sobre o novo disco "Hey, Mr. Ferryman" é talvez o sinal que as suas canções tesouro estão finalmente a chegar bom porto e a fazer "efeito". Aqui fica uma "sad version" de uma dessas pérolas.    


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

NADINE KHOURI, Maus Hábitos, 16 de Fevereiro de 2017

Na azáfama moderna em torno de novos artistas e os seus discos nem sempre tivemos a felicidade de ver concertos quase íntimos no momento certo. O nome de Jeff Buckley talvez seja paradigmático, com várias digressões europeias que passaram ao lado da Península Ibérica, mas há felizmente casos de que a Invicta se pode orgulhar como por exemplo os de Antony ou Beach House no Passos Manuel ou até Kurt Vile na mesma sala onde ontem Nadine Khouri se estreou em Portugal. Ao longo do serão, canção atrás de canção, as saudades, que muitas vezes só uns tempos depois acabam a moer a memória, surgiram quase instantaneamente e a fazer crescer a vontade de parar o tempo e, como se fosse possível, fazê-lo andar para trás! Sobre o sucesso do trio feminino em cima do palco e do enorme resultado sonoro que um violino uma guitarra e uma percussão minimalista conseguiram alcançar, a explicação talvez não seja fácil de definir mas teremos sempre a justificação, verdadeira, de que o disco "The Salted Air" que autora libanesa tem como cartão de visita é uma obra assinalável de composição mais que pronta a fazer mossa ao longo deste e de muitos outros anos. Se lhe juntarmos a simpatia do trio que se juntava em digressão pela primeira vez e até uma sedutora timidez que percorreu quase todo o concerto, está garantido que serão muitas as vezes que vamos acabar a carregar no play do registo quase negro de uma noite iluminada...        

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

HÁ VIDA EM LIV?












Atendendo ao silêncio entretanto instalado e por temos esperado demasiado tempo para fazer este post, pode ser que, finalmente, a sua publicação coincida com algum desenvolvimento à história até aqui destapada: Lykke Li juntou-se em 2016 aos parceiros Andrew Wyatt e Pontus Winnberg (a dupla Mike Snow), a Bjorn Yttling (dos Peter Bjorn & John) e ao produtor e marido Jeff Bhasker para um supergrupo chamado simplesmente Liv, o que em sueco quer dizer "vida". A estreia fez-se numa festa de arromba privada em Hollywood algures o ano passado (há relatos e um cheirinho da actuação ao vivo disponíveis) mas sobre um eventual disco do colectivo sueco que partilha a mesma editora - a Ingrd - o mistério continua denso atendendo ainda ao facto da própria Li ter classificado o projecto como um amor infantil por Abba e Fleetwood Mac! Deixamos os primeiros vestígios oficiais - "Wings of Love" com video "free" alusivo da sua autoria e o mais recente single "Dream Awake" saído um pouco antes do final do ano. 



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

AGNES OBEL, TÃO LONGE E TÃO PERTO!

Aleluia! A muito aguardada estreia portuguesa da maravilhosa Agnes Obel tem finalmente data marcada para 25 de Junho próximo no Teatro Tivoli em Lisboa. Já há bilhetes. Pena não existir, pelo menos para já, um outro espectáculo mais a norte... Para compensar, aqui fica a rendição recente de "Hallelujah" na cerimónia dos prémios franceses "Les Victoires de La Musique 2017".  

O AMOR É TUDO... E ESTÁ NO AR!
















Se há boas razões para que no dia de hoje se espalhem vénias a São Valentim, uma delas poderá ser a hipótese de um bom serão em frente à televisão - a RTP2 exibe o documentário "Love Is All" da cineasta Kim Longinotto que trilha uma viagem em torno do namoro e do amor com imagens pertencentes a dois arquivos britânicos (o British Film Institute e o Yorkshire Film Archive). A banda sonora, como alertado na altura, esteve a cargo de Richard Hawley o que por si só constitui um atractivo açucarado certamente feito à medida da ocasião. Open up your door!




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

UAUU #369

AUTUMN CHORUS... O ADEUS!





















O ano de 2016, todos sabemos, foi terrífico para a música. A morte surpresa de vários artistas famosos e influentes escondeu e ofuscou silenciosamente a partida de outros também eles talentosos e mágicos. Está neste caso Robbie Lloyd-Wilson (1981-2016), líder dos ingleses Autumn Chorus, que não resistiu a uma luta contra o cancro e faleceu no passado dia 14 de Dezembro. Ao brilhante álbum de estreia "The Village to the Valley" estava destinada uma sequência já com um primeiro single adiantado mas que, infelizmente, ficou sem efeito... A banda era um grupo de amigos agora desfeito em que se incluía o sueco Thomas Feiner, colaborador assíduo nas canções que Wilson escreveu e até no desenho artístico do referido avanço chamado "Snake In The Grass". Numa homenagem sentida, Feiner não deu o trabalho por terminado e desenvolveu e dirigiu um notável video para o tema que agora se disponibiliza como prova da sua amizade e respeito, ajudando ainda na divulgação de uma campanha de solidariedade onde se pode e deve descarregar uma versão demo do inédito "Long Goodbye". Peace!


UNKLE, VINTE CINCO ANOS DE ENIGMAS!

















Em 1998 o álbum "Psyence Fiction" marcava a estreia dos UNKLE na editora Mo'Wax, casa mítica de uma sonoridade muito própria comandada por James Lavelle, artista multifacetado e atento. O disco, desfrutado na altura até à exaustão, tinha a parceria marcante de DJ Shadow e convidados de luxo como Ian Brown, Thom Yorke, Bradly Drawn Boy ou Richard Ashcroft e uma aura enigmática e sedutora que se realçava ainda mais no design das capas, das embalagens e dos videos. Seguiram-se várias reincarnações tendo a última, já de 2010, resultado no quinto disco de originais titulado "Where Did the Night Fall". Uma nova fase, notoriamente mais consistente, vai por estes dias acontecendo. Aproveitando a comemoração dos vinte cinco anos do colectivo, Lavelle reergueu a editora Mo'Wax, promovendo paralelamente uma exposição retrospectiva numa galeria londrina (com adereços e goodies com venda online) e preparando o regresso aos discos inéditos com "The Road". Há já bons sinais do caminho trilhado: o primeiro, "Cowboys or Indians", saído digitalmente em 2016, aproveita novas colaborações de parceiros da própria Mo'Wax e terá em breve o respectivo 12" de vinil através da Vinyl Factory; o segundo, "Sick Lullaby", já com video alusivo e formato físico na mesma casa, tem a ajuda de Keaton Henson, um envolvimento saboroso que se segue a um outro enigmático auxílio que recaiu numa versão do clássico "The First Time Ever I Saw Your Face" editado em 7" de vinil e hoje uma verdadeira peça de colecção. Precious!





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ED HARCOURT, MAIS QUE SIMPLES AMOR!

O álbum "Furnaces" de Ed Harcourt editado em 2016 esconde uma série de canções nem sempre imediatas mas onde a notabilidade da composição se vai apurando e brilhando a cada audição. Um exemplo dessa excelência é o tema "You Give More Than Love" que, em boa hora, recebeu a primazia de um video de Christian Stephan, amigo do próprio Harcourt, jornalista freelancer e realizador habituado a conflitos e perigos como os que enfrentou no norte do Iraque e que transformam os seus seis minutos de duração num documento que, nas suas palavras, pretende comunicar o incomunicável e, acrescentamos nós, o inexplicável...

UAUU #368

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

JULIA HOLTER, SAGRADO CELEIRO!

O Festival Pickathon em Portland, Oregon, orgulha-se na primazia dada à ecologia e respeito pela natureza, reunindo em Agosto uma série de artistas incríveis para três dias de amor pela música e bem estar. O alinhamento para este ano é, desde logo e mais uma vez, notável! Há lugar para concertos em locais inusitados como bosques e celeiros de quinta, aproveitando a organização para realizar por ali uma série de sessões denominadas Lucky Barn Series. Foi o caso em 2016 da menina Julia Holter que, na oportunidade, apresentou a eterna versão "Hello Stranger" de Barbara Lewis só para desfazer as dúvidas... e corações. Sortudos!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

HAND HABITS, SEDUÇÃO GARANTIDA!





















Quem esteve nos recentes concertos de Kevin Morby não ficou certamente indiferente à qualidade da guitarrista que o acompanhava, uma menina de postura recatada mas subtilmente imprescindível para que as canções soassem perfeitas e enormes. O nome de Meg Duffy esconde-se atrás de um baptismo registado como Hand Habits que se apressa para fazer sair "Wildly Idle (Humble Before the Void)", álbum que a casa Woodsist edita no final da semana e que se segue a, pelo menos, três anteriores experiências sonoras disponíveis via Bandcamp. Gravado entre uma sala de estar de Nova Iorque e a nova casa de Los Angeles sempre que foi possível parar as digressões com Morby ou Weyes Blood, a audição do disco para já disponível e que abaixo se encaminha, denota, desde logo, uma dose de crescimento e talento a que vai ser muito difícil resistir. Exemplo vincado de self made woman que executou e registou a totalidade das canções com a ajuda de gente dos Avi Buffalo ou dos Quilt, esperemos que regresse em breve em nome próprio para nos seduzir. Estamos prontos.

streaming via Hypem

domingo, 5 de fevereiro de 2017

THE DIVINE COMEDY, Theatro Circo, Braga, 3 de Fevereiro de 2017














O sinal estava dado há meses. A antecedência com que a sala bracarense esgotou a sua capacidade para receber os The Divine Comedy confirmava, por um lado, a notória fidelidade de um público amarrado definitivamente ao talento de Neil Hanonn e, por outro, a expectativa de ouvir um dos seus grandes discos, mais um, editado o ano passado de nome "Foreverland". Não foi preciso esperar muito para perceber que a noite iria ser memorável. Bastou um inesperado "Sweden", majestoso, logo a abrir o serão para que a viagem inebriante não parasse durante duas horas de canções novas e velhas, todas especiais, todas impecáveis na execução e no esplendor com que encheram um dos mais bonitos teatros portugueses. Todos temos uma canção preferida e seja qual for o Neil que esteve em palco - o Napoleão de grande chapeirão, o very british de fato, guarda chuva e chapéu de coco ou simplesmente aquele que toca guitarra - há sempre muita experiência na interacção com o público onde o humor e sátira são pedra de toque vital para a boa disposição, seja a tocar um teclado de brincar comprado umas horas antes, seja a distribuir bebidas pelos parceiros de palco ou invadindo a plateia para se sentar ao colo de um "mutual friend" na primeira fila (foto) para depois simular na mouche o "fell unconcious" e o "find the bathroom" de uma das suas mais brilhantes canções. A satisfação, essa é duplamente notada na forma como a banda se empenhou e embrenhou no concerto e, particularmente, na onda como vimos o público por perto a bater palmas mesmo antes dos temas terminarem e a soletrar de fio a pavio temas antigos ou recentes, postura que ganhou contornos de maior festa quando a ordem foi a dada para abandonar as cadeiras (precisamente os trinta minutos em que conseguimos filmar alguma coisa...). Já estivemos com os The Divine Comedy uma mão cheia de vezes, a solo ou em pleno instrumental e a experiência de sexta-feira foi, sem dúvida, a que nos "atingiu" em cheio sem contemplações e que aumentou a vontade de regressar depressa a uma noite deste calibre. Ah, quanto a canções preferidas entre as vinte cinco (?) desfiladas, aqui fica o nosso top três: "To The Rescue", "Your Daddy's Car" e "Our Mutual Friend". Chapeau, Mr. Hannon!