quarta-feira, 14 de abril de 2021

FENDER, RE-CRIAÇÃO (IM)POSSÍVEL!

A mítica fabricante de guitarras Fender lançou o mês passado uma nova versão da American Acoustasonic Jazzmaster plena de novas versatilidades e truques que podem descobrir aqui. Neste âmbito, iniciou a promoção de uma série de episódios chamados Re-Creation para os quais desafiou alguns músicos guitarristas a interpretarem um tema da sua autoria usando o modelo em questão, estando para já disponíveis dois bons momentos. 

No primeiro, Lindsey Buckingham dos Fleetwood Mac lançou-se a "Never Going Back" do álbum "Rumours" de 1977 com resultados surpresa. No segundo, coube a vez a Jeff Tweedy dos Wilco que escolheu "Impossible Germany" do disco "Sky Blue Sky" de 2007, tema intocável no songbook da banda de Chicago muito a custo do obrigatório solo de guitarra de Nels Cline, e que nesta estranha recriação acaba, mesmo assim, por se entranhar...


ADRIAN CROWLEY, DEZ ESTRELAS!






















Do irlandês Adrian Crowley ficamos sem notícias desde o final da apresentação ao vivo de há três anos no Passos Manuel. Na altura, a visita serviu de teste presencial às canções do álbum "Dark Eyed Messenge" gravado com Thomas Bartlett (Doveman) em 2017 e permitiu um serão de partilha agradável e serena e o retomar do contacto com um artista a que quase tínhamos perdido o rasto... 

O trilho é agora retomado com o anúncio de um novo álbum a sair no final do mês e que, desta vez, tem em John Parish o prestigiado cúmplice produtor de temas inicialmente compostos numa simples guitarra de cordas de náilon, instrumento que serve quase sempre para uma iniciação pedagógica, e a que juntou um rudimentar mellotron eléctrico. O conjunto terá o nome de "The Watchful Eye of the Stars" e há já dois dos dez inéditos estelares para audição antecipada e demorada.   


terça-feira, 13 de abril de 2021

(RE)LIDO #98






















TOM WAITS BY MATT MAHURIN
 
de Matt Mahurin. New York: Abrahms, 2019 
Quando do alerta sobre a publicação deste livro a intenção era chegar a tempo de uma edição especial que incluía uma ilustração devidamente assinada pelo autor. Não o conseguimos e, por isso, restou-nos a opção pela encomenda dita normal que é, ainda assim, um monumental objecto artístico em papel couché que nos orgulhamos ter na estante e a que só agora demos a devida e prazeirenta atenção. 

No seu formato de álbum de 30x30 centímetros, a colecção de fotografias, ilustrações e algumas pinturas originais realizadas pelo artista Matt Mahurin ao lado de Tom Waits funciona como uma colaboração unívoca e sem disfarces de uma amizade cimentada ao longo de trinta anos. Em mais de cem filmes fotográficos guardados como tesouros estavam provas reveladoras dessa conivência e partilha ainda por descobrir onde o autor se emaranhou mais profundamente, escolhendo pérolas esquecidas e abordagens inesperadas de um mundo carregado quase sempre de negro em que Waits, ao jeito de musa inspiradora, se transforma em personagem teatral de cenografia surreal e poética. Misturam-se registos, poucos, de actuações ao vivo, não os mais óbvios nem nítidos mas alguns instantâneos propositadamente desfocados ou sobrepostos que melhor emparelham com o mundo onírico das canções de Waits. 

Tamanho peso tácito e alegórico, longe do tradicional e indesejável autoretrato, proporciona ao leitor uma visão inspiradora e cinematográfica de um universo que, apesar de imediatamente expresso em alguns videos que Mahurin realizou para temas do amigo Waits, se alarga a uma fantasia sufocada pela incredibilidade e rugosidade de uma vida artística definitivamente indecifrável na sua plenitude. A cada página levanta-se uma caótica poeira imagética carregada de simbolismos e acepções (alçapões?), um caleidoscópio de patina emulsionada pelo mistério e pelo talento de uma dupla intencionalmente interessada em, para lá do gozo, surpreender pelo arrojo. 

Cada quadrado de papel, cada fracção de cor ou sépia é como se fosse uma peça de um puzzle manual recortado com requinte de curador vs artista na definição cúmplice do discurso expositivo de uma imensa galeria onde podemos entrar e sair ou tornar a entrar ao jeito de uma canção que acaba e que, afinal, vamos ouvir outra vez com atenção e prazer mesmo sem lhe saber o nome. Brilhante criação!   


DUETOS IMPROVÁVEIS #237

JANE BIRKIN & ETIENNE DAHO 
Oh! Pardon tu dormais... (Birkin) 
Álbum "Oh! Pardon tu dormais…", Barclay, Dezembro de 2020

segunda-feira, 12 de abril de 2021

IRON & WINE, ARQUIVOS CASEIROS!

A quinta série dos arquivos de Sam Beam aka Iron & Wine será desempoeirada já no início de Maio pela Sub-Pop. São onze os documentos sonoros aprimorados para canções que receberem o epíteto de "Tallahassee", nome da cidade capital da Flórida, e remontam a tempos prévios de "The Creek Drank the Cradle", o álbum de estreia naquela editora em 2002. 

Dois ou três anos antes, Beam estudava no College of Motion Picture Arts da Florida State University com o fito na realização cinematográfica mas a música e as canções, apesar de não prioritárias, faziam já parte do seu dia-a-dia caseiro ao lado do amigo e também estudante EJ Holowicki. Desse passatempo inocente, foram registadas quase quarenta demos ou proto-canções num gravador de 4 pistas em plena sala de estar da casa comum e que estavam dadas como perdidas mas que afinal Holowicki preservou para o todo sempre. A história, bonita, do projecto Iron & Wine começou aqui. Estamos mais que prontos para a (re)descobrir!

sexta-feira, 9 de abril de 2021

DYLAN 80, AS PRIMEIRAS VELAS!














No âmbito dos oitenta anos de Bob Dylan que se aproximam (24 de Maio) começam a multiplicar-se as homenagens e os parabéns e de que destacamos três iniciativas. 

A primeira diz respeito a um concerto de Patti Smith e os parceiros Tony Shanahan e Jack Smith marcado para dois dias antes (22 de Maio) onde serão apresentadas versões do enorme songkbook de Dylan, poesia dita bem como alguns originais da própria. O evento terá lugar ao ar livre no âmbito do festival de primavera Kaatsbaan em Tivoli, Nova Iorque e terá acesso controlado e limitado. 

A segunda, a decorrer pela mesma altura em ambiente académico e com logótipo especial, o de cima, comporta três dias de conferências e estudos virtuais organizados pelo The TU Institute for Bob Dylan Studies da Universidade de Tulsa (E.U.A.) e envolve o lançamento prévio do livro "The World of Bob Dylan", uma revigorada panorâmica das múltiplas facetas do músico, artista, realizador e Nobel da Literatura. 

A terceira, da responsabilidade da revista inglesa Uncut, promete catorze versões inéditas e exclusivas a incluir no Cd "Dylan Revisited" da edição de Junho - nas lojas inglesas já a 15 de Abril - com privilegiado destaque a artistas e bandas "muito cá de casa" como Jason Little, Weyes Blood, Courtney Marie Andrews, The Weather Station, The Flaming Lips, Brigid Mae Power ou Joan Shelley ao lado de Nathan Salsburg. Conta ainda com o inédito "Too Late" em versão acústica a cargo do para sempre jovem Mr. Zimmerman!

THE DELINES, ROMANCE MUSICADO!






















Ao nome de Willy Vlautin associamos o projecto Richmond Fontaine, quarteto activo a partir de Portland ao longo doze anos (1994-2016) em inúmeros álbuns mas a que nunca demos particular atenção. Já aos The Delines, de que Vlautin faz parte desde 2012, mantemos uma atenção periférica especializada a que não é alheia a voz de Amy Boone especialmente sedutora em "The Imperial", o último e magnífico de originais de há dois anos mas ainda sem continuação.  

É, assim, com expectativa em alta que esperamos a edição da banda sonora que os The Delines gravaram em complemento do novo romance "The Night Always Comes" da autoria de Vlautin saído esta semana pelo continente americano e que será editado em breve na Europa pela Faber & Faber. Está prevista uma edição limitada que junta os dois suportes (livro + cd) em colaboração com a Rough Trade e que está já disponível para pré-encomenda. O mesmo conteúdo estará também à venda pela Decor Records, casa de discos europeia que representa a banda americana. 

Quanto ao romance, trata-se de mais uma história de cariz social de espectro problemático e conturbado que junta instinto de sobrevivência e mistério encorpados na personagem Lynette, tendo recebido elogiosas críticas tal como aconteceu a quase todos os seus anteriores livros mas sem que, infelizmente, haja qualquer tradução portuguesa. 


FAZ HOJE (26) ANOS #58






















LUAR NA LUBRE + FOUR MAN & A THE DOG 
6º Festival Intercéltico, Cinema do Terço, Porto, 9 de Abril de 1995 
. Público, por Fernando Magalhães, fotografia de Paulo Pimenta, 11 de Abril de 1995, p. 28 
. Jornal de Notícias, por João Quaresma, 11 de Abril de 1995, p. ?


quinta-feira, 8 de abril de 2021

(RE)LIDO #97






















COMO FUNCIONA A MÚSICA 
A CIÊNCIA DOS BELOS SONS. De Beethoven aos Beatles e muito mais 
de John Powell. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2012 
O suposto funcionamento da música vertido para um ensaio primário de base científica parece uma boa ideia. A leitura não implica, no nosso caso, uma qualquer necessidade de resposta académica ou sequer um esclarecimento quanto à importância e o prazer que ela compreende, permite e engrandece. O subtítulo final, onde são nomeados génios da composição, ajudou a prestar-lhe maior atenção mesmo sem uma previsão mínima do que tínhamos pela frente. Ao reparar ainda melhor no complemento inglês do título original - "A listner's guide to harmony, keys, broken chords, perfect pitch and the secrets of a good tune" - avivou-nos uma leve memória de infância quanto às aulas de solfejo e orgão de madeira em que a paciência do nosso avô insistiu carinhosamente mas sem resultados aprovados de média ou longa duração. Uma pauta de música ou um teclado de um piano são hoje terrenos de ilegibilidade ou impraticabilidade há muito deixados ao abandono. 
 
Estarão a perguntar se uma prosa tão datada mantêm a actualidade e a pertinência. A resposta mais fácil é que a música não tem prazo de validade mas complica-se se lhe associarmos componentes e técnicas a que se terá que dar atenção redobrada já que continuamos a ser incapazes de ler ou identificar uma só nota musical. Apesar do tom informal e das contínuas tiradas cómicas ou satíricas, a ciência dos belos sons não se entende pela simples curiosidade e requer esforçado envolvimento prático nos truques que o autor, de boa vontade, sugere como simples na obtenção de respostas eficazes como aquela que diferencia um som de uma nota e que remete para o padrão de ondulação repetida desta última. Perceberam? Claro, mas o problema é que tudo isto se complica depois em desmultiplicações sobre ritmo, harmonia, escalas, instrumentos ou intensidades que do ponto de vista do não praticante acabam sem efeito elucidativo entre suspiros se o capítulo seguinte será mais interessante ou compensador.  

A receita de como fazer boa música, à partida, não se encontra em nenhum tratado ou livro milagroso e, nesse sentido, escusado será dizer que Powell não é o cozinheiro chefe cinco estrelas que detêm o segredo mesmo com revisão científica para português a cargo da professora Gabriela Cruz. Os desenhos e fotografias utilizados também não ajudam ao brilharete, demasiado rudimentares e desmotivadores para lhe prestarmos a atenção devida do ponto de vista do aficionado ouvinte de diferentes géneros musicais e sem vontade de aprender ou sair de casa para ir comprar um qualquer instrumento. Os sugestivos nomes de Beethoven e dos Beatles são, assim, uma armadilha enganadora a que devíamos, antecipadamente, estar mais atentos já que sobre eles muito pouco ou quase nada é referido de forma pertinente e inédita. Aprendemos com o erro e talvez seja esta a explicação para que um outro livro do autor saído em 2018 e de nome "Why We Love Music. From Mozart to Metallica - The Emotional Power of Beautiful Songs" continue sem tradução portuguesa.

Ou seja, como guia para um qualquer dedicado estudante envolvido com a Euterpe, o conteúdo exibido será certamente vantajoso e até inspirador. Como leitura de cabeceira para curiosos, o conselho é para que rapidamente e em força se avance para o capítulo final (12. "Ouvir Música"), um pouco mais de quinze páginas onde, de forma subtil mas eficaz, se explicam microfones, altifalantes, discos em vinil, cd's e até mp3, essa sim, música para ouvidos de leigos que afinal nunca quiseram realmente perceber como é que a coisa funciona. Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão...    



UAUU #589

quarta-feira, 7 de abril de 2021

ED HARCOURT, RODA NO AR!
















Dando continuidade a um ano de particular e necessária actividade que mereceu já uma celebração ao piano evocativa da derrota de Donald Trump, o britânico Ed Harcourt continua irrequieto e perfeitamente festivo apesar da imagem de cima. 

Em regime caseiro e agora que se aproxima o término do lockdown por terras inglesas (dia 12 de Abril), tivemos nos últimos dias a apresentação da nova canção "My Heart Can’t Keep Up With My Mind" a incluir possivelmente num álbum inédito, uma versão de "Sometimes It Snows In April" de Prince em dia frio e de neve e a corajosa recreação de "Occupational Hazard" do disco "Furnaces" editado em 2016. Está prometida a divulgação de uma canção por dia até ao remate do confinamento e que terá no Domingo sessão final em livestreaming a partir dos estúdio Wolf Cabin. Roda no ar!



terça-feira, 6 de abril de 2021

PORTICO QUARTET, TERRENO SEGURO






















Ao projecto sonoro dos londrinos Portico Quartet já lhe chamamos, convenientemente, arte moderna. A sua incisão estética mantêm-se actuante e ecléctica como a nova e longa suite "Terrain II", a primeira de três a ser conhecida a incluir no disco com o mesmo nome com data de saída a 29 de Maio pela Gondwana Records. Confirma-se a herança dos seis discos de originais arriscados e inquietos mas alonga-se a experiência a um minimalismo ambiental simplesmente sedutor burilado desde Maio do ano passado pela dupla Duncan Bellamy e Jack Wyllie no estúdio próprio do Este de Londres. Sem falhas!

sábado, 3 de abril de 2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

RICHARD SWIFT, O BRINCALHÃO!

Aquando do registo do EP "Walt Wolfman" de 2011 o bem humorado e descontraído Richard Swift divertiu-se a pregar partidas aos amigos a partir do seu estúdio National Freedom no Oregon ao gravar "joke songs" logo enviadas como incómodo alarme ou susto ao abrir o correio electrónico. Uma delas tem agora edição oficial e chama-se "KFC" a que se junta o inédito "A Man's Man", uma relíquia do tempo de "Richard Swift as Onasis" de 2008. Quanto à bonita ilustração da capa sem autor identificado (será um grafitti?) é mais uma das excelentes razões para encomendar o apetecível 7" de vinil a sair somente em Junho pela Secretly Canadian

A mesma editora, lembra-se, editou no mês passado o álbum ao vivo "Even Your Drums Will Die" referente a uma noite de 2011 em que Swift conquistou a totalidade da plateia presente no Galaxy Barn, isso mesmo, um celeiro encantado da Pendarvis Farm que faz parte dos cenários únicos do Festival Pickathon em Portland (Oregan) e onde já muitos, como Julia Holter, fizeram magia.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

LAURA VEIRS, CANÇÕES TESTE!

Surgiram hoje duas versões de uma canção inédita de Laura Veirs nomeada "The Panther" e que adapta um poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926). A intenção é retirar da sombra algumas demos caseiras, tal como esta gravada no GarageBand em 2016, que não encontraram ainda a sua definitiva versão, servindo a sua audição e confronto de teste público e artístico. O bonito desenho da pantera coube a Anisa Makhoul, amiga e vizinha de Portland, E.U.A.. 


UAUU #587

FAZ HOJE (33) ANOS #56






















FELT, Teatro Rivoli, Porto, 1 de Abril de 1988
 
. Jornal de Notícias, por Daniel Guerra, 4 de Abril de 1988, p.?

terça-feira, 30 de março de 2021

(RE)LIDO #96






















NÃO DÁ PARA FICAR PARADO 
Música afro-portuguesa. Celebração, conflito e esperança 
de Vítor Belanciano. Porto: Edições Afrontamento, 2020 
A raiz africana de muita da música moderna portuguesa não têm até hoje um estudo sociológico de referência que lhe trace uma teoria ou uma impossível explicação única. Acentuaram-se, é certo, os estudos académicos ou universitários com enfoque na última década já que é nela que reside uma maior visibilidade mediática com a massificação do chamado kuduro e, ultimamente, da kizomba. Notamos a transformação quando picamos, por exemplo, mais a sério a rádio pública Antena 3 ou quando, involuntariamente, a música ambiente de uma loja chinesa insiste na toada melosa e adoçada sem sabermos quem toca ou diz enquanto a funcionária lá vai cantarolando a letra sabida de cor. 

Somos do tempo, já adultos, das "Gravuras Não Sabem Nadar" dos Black Company e do pioneirismo do General D mas confessamos um alheamento assumido para com o chamado hip-hop nacional maioritariamente lisboeta ou com base nortenha, seja por defeito no enredo seja por falta de contexto, arrasto ou onda de proximidade. O género merece-nos o máximo de respeito, fomos ao Coliseu com agrado ver os De La Soul e o Sam The Kid (2003?) e até nos divertimos com a M.I.A. em Coura (2007) e os The Weekend (2012), o Kendrick Lamar (2014), os Run The Jewels (2017) ou o Tyler the Creator (2018) no parque da Cidade da Invicta mas dos restantes quejandos inferiores, e não foram poucos nas últimas edições do Primavera Sound, mantivemos imediata distância que se estendeu a hypes sul-americanos ou castelhanos insuflados por uma certa imprensa internacional. Pecado? Desprezo? 

Talvez a culpa tenha sido de um tal de Diplo numa massacrante e já longínqua (2007) madrugada por Serralves o que não matou, contudo, a nossa curiosidade sobre o fenómeno e todas as suas derivações locais a requerer compêndio de vocabulário e outros esclarecimentos para "velhos" cinquentões. As mais de sessenta entrevistas ou conversas que Vitor Belanciano manteve com muitos dos protagonistas da dita música afro-portuguesa nas primeiras duas décadas deste século, muitas delas impressas no jornal "Público", conferem a este livro uma certificação de origem carimbada e uma utilidade ao nível de um dicionário técnico consultável. Percebe-se o seu gosto, a amizade e até a intimidade com alguns desses projectos de matriz autodidacta, corajosa e reactiva centrada numa segunda e terceira geração de agitadores artísticos de nacionalidade portuguesa com raízes familiares em África e que absorveram, desde cedo, os sons tradicionais ao gosto das cassetes ou discos guardados pelos mais próximos.  

É esse o fermento rítmico de muitas das sobreposições digitais de fabrico caseiro que, sem regras, surpreendem pela sujidade cruzada de cadências a que o corpo de muitos não resiste. Não conhecemos os bairros, não identificamos nenhum do beats, nunca estivemos numa noitada africana pela capital mas serve o livro para lhe sentir os rastos, as vicissitudes e conivências entre, por exemplo, Sintra e Nova Iorque muito por culpa do fenómeno Buraka Som Sistema, projecto progenitor de uma imensidão de ideias, aventuras e sucessos dispersos pela grande Lisboa e que se tornou num imparável laboratório anárquico de infusões inesperadas e reconhecimento internacional que se apegou até, entre controvérsias fúteis, à madame Madonna.          

Para lá da hipocrisia e da ambiguidade pós-colonial, constrói-se a partir da música uma história excitante e ainda incompleta de mistura e irrequieta socialização e que continua a ter na injustiça da realidade uma combustão natural e conflituosa a qualquer género musical, um guião de diversidade que pode e deve ser visualmente complementado por uma série de documentários já produzidos e projectados e onde se confirma, tal como no livro, que não vai dar para ficar parado.   



segunda-feira, 29 de março de 2021

THOMAS FEINER E O PIANO HOFMANN!















Escusado será dizer que qualquer oportunidade é boa para trazer até aqui a música de Thomas Feiner. No dia de hoje, recordamos o instrumental lançado em Março do ano transacto que despia o tema "Guide for the Perplexed", saído uns dias antes, através das teclas do seu velhinho e por vezes teimoso piano Hofmann. Foi nele que o sueco compôs o esboço de muitas das canções do clássico álbum "The Opiates" (2008) - e de que "For Now" é só um exemplo subliminar - e é nele que, segundo o próprio, quer continuar a confiar apesar dos amuos. 

O referido "Guide for the Perplexed", que conta com a voz da filha Alina, mereceu desde logo video dirigido por Feiner e uma recente remistura pelo multi-artista inglês Peter Chilvers, famoso pela sua colaboração com Brian Eno no desenvolvimento de aplicações musicais para iPhone e outros. 



NILS FRAHM, PIANO DIA E NOITE!






















A comemoração do Piano Day que hoje se assinala tem da parte do seu mentor Nils Frahm um excelente contributo - trata-se de um disco inédito registado em 2009 na sala Mumuth da University of Music and Performing Arts de Graz (Aústria) e que serviu de prática relativa à tese Conversations for Piano and Room com curadoria e produção de Thomas Geiger. Mais tarde desenvolvido no, esse sim, álbum de estreia "Felt" em 2011 para a Erased Tapes e parcialmente apresentado em futuros concertos ao vivo, os segmentos agora disponibilizados foram captados num grande piano e são hoje impraticáveis na sua pureza e irrepetível beleza. 

Por cá, destaque para a radio SBSR, através da agência Pinuts, que promete para logo um serão atraente programado por Luís Bandeira onde poderemos ouvir, entre outros, Bruno Bavota, Quentin Sirjacq, Tiago Sousa, JP Coimbra e Simon Walker. É por aqui

Entretanto e tal como o ano passado, a prestigiada Deutsche Grammophon assinala a mesma data desde ontem e de forma contínua a partir de seu canal de youtube, contando com o contributo de dezassete pianistas entre os quais os nossos Maria João Pires e Rui Massena. É por ali

KACY & CLAYTON AND MARLON WILLIAMS DE SECRETÁRIA (CASA)!