sexta-feira, 5 de março de 2021

PVC - PORTO VINIL CIRCUITO #25





















Dando seguimento à ronda de discotecas do Porto e arredores, falamos hoje da cadeia Twist com loja principal no Centro Comercial Parque Italia, na Rua Júlio Diniz no Porto. Teve ainda duas filiais, uma em Matosinhos no Centro Comercial Newark e uma outra na mesma morada do supermercado Pão de Açucar da Avenida da República de V. N. De Gaia. Hoje, no local com o número 1182 está um Pingo Doce que retomou algumas lojas da cadeia pioneira em Portugal no final da década de oitenta, coabitando com outras pequenas lojas como se pode constatar pelas fotografias mas, obviamente, sem qualquer discoteca por perto. 

Nessa altura, na Twist a venda de discos em CD deveria ser uma actividade em franco crescimento, extensível ao malogrado Laser Disc e incluía também um videoclube mas, certamente, o vinil seria ainda o formato principal do negócio. No caso, calhou-nos no interior do envelope da filial de Gaia os ingleses Bucks Fizz com "Making Your Mind Up", a canção vencedora do Festival da Eurovisão em 1981 e dos quais nunca mais ouvimos notícias...
Twist, Av. da República, 1182, V. N. de Gaia
Twist, Av. da República, 1182, V. N. de Gaia














KINGS OF LEON, O ROCK (AINDA) É MEMO BOM!





















A notícia está em todo o lado - os Kings of Leon vão fazer história no dia de hoje ao ser a primeira banda a lançar um álbum em formato NFT, um método cripotográfico infalível que permite vender e comprar arte e media digital e que envolve o tal de bitcoin. Não nos façam perguntas que não queremos mesmo saber mas fomos ouvir o disco como é de bom tom há quase vinte anos! 

Vamos ao que interessa. O oitavo trabalho "When You See Yourself" é um salutar momento de reconversão e gozo a que os KOL sempre nos habituaram mas que tinha vindo a deslizar, gordurosamente, nos últimos anos. Como uma das últimas bandas rock a que vamos resistindo sem desistir, há nele uma catadupa de grandes canções de travo americano a fazer-nos recuar à primeira década deste século, férias ao sol sudoeste, passeios de bicicleta e muita galhofa entre amigos. Que saudades... e muito rock do bom como o destes três grandes temas a que se pode acrescentar "Golden Restless Age" ainda sem audição disponível! 



quinta-feira, 4 de março de 2021

SHARON VAN ETTEN, SETE VERSÕES!

De Sharon Van Etten, como já por aqui demos conta, há que esperar boas notícias todas as semanas. Desta vez trata-se de uma comemoração alusiva aos dez anos do segundo álbum "Epic", saído em Setembro de 2010 e que terá reedição em vinil duplo já que num segundo disco estarão sete versões inéditas! Em Abril, aquando do lançamento, a evocação terá direito a duas noites de concertos (dias 16 e 17) com banda no Zebulon de Los Angeles em formato de streaming e onde será projectado um pequeno documentário sobre a gravação original do disco e se executarão na íntegra as sete canções originais e, possivelmente, algumas das novas covers.   

Depois de já ter reinterpretado, por exemplo, The Smiths, LCD Soundsystem, Nick Cave, Bruce Springsteen, Tom Petty, The Beach Boys ou Vic Chesnutt em sessões ao vivo, de rádio ou outras, as sete canções agora escolhidas para uma gravação oficial pertencem aos Idles ("Peace Signs"), Shamir ("DsharpG"), Courtney Barnett ("Don't Do It"), St. Panther ("One Day"), Fionna Apple ("Love More") e Big Red Machine ("A Crime"), a primeira a ser divulgada e que conta com a ajuda de Justin Vernon nas vozes.

UAUU #579

ÓLAFUR ARNALDS DE SECRETÁRIA (CASA)!

quarta-feira, 3 de março de 2021

NEAL FRANCIS, É TEMPO DE MUDANÇAS!






















O magnífico álbum "Changes" que marcou a estreia de Neal Francis pela inestimável Colemine em 2019 tinha vários temas retro agitadores de qualquer pista de dança. O preferido, o que dá nome ao disco, mereceu em boa hora um 7" de vinil que em breve terá um outro complemento - um 12" contendo quatro demos, incluindo essa, para distribuir a partir desta semana e que antecipa, de certeza, novo disco ainda este ano e uma digressão urgente, desde que autorizada...

terça-feira, 2 de março de 2021

DAMIEN JURADO, QUATRO EM QUATRO!

                               
















Dando continuidade a uma série imparável de discos, anuncia-se um novo álbum de Damien Jurado, o décimo sétimo da carreira e o quarto nos últimos quatro anos! Para isso, foi criada uma editora própria baptizada de Maraqopa Records, casa que fará o obséquio de fazer sair "The Monster Who Hated Pennsylvania" em Maio próximo com dez temas inéditos e outras tantas histórias de forte intensidade sobre pessoas que não cedem apesar das circunstâncias, e que circunstâncias! 

O álbum foi auto-produzido em ambiente caseiro e inspirado por antigos trabalhos de Paul McCartney ("Ram", 1971) ou Lou Reed ("The Bells", 1979), tendo recebido a contribuição decisiva do multi-instrumentista Josh Gordon, músico que o acompanhou na última digressão que o trouxe ao Theatro Circo de Braga em Outubro de 2018. Na capa plasma-se uma fotografia elucidativa obtida pelo amigo Tom Roelofs durante essa mesma tournée, um portefolio que contemplou alguns instantâneos memoráveis no Bom Jesus bracarense e, quem sabe, nalguma escada interior das redondezas. Ouça-se o primeiro single "Helena" já a rezar para que na agenda da digressão europeia a partir de Outubro, onde se incluem três visitas ao país vizinho, o nosso jardim seja abençoado...

(RE)LIDO #97






















LET'S GO (SO WE CAN GET BACK) 
A MEMOIR OF RECORDING AND DISCORDING WITH WILCO, ETC. 
de Jeff Tweedy. London: Faber & Faber, 2019 
Com a chegada dos cinquenta anos a vida merece, para alguns, um necessário balanço. No caso de Jeff Tweedy, a corajosa decisão por uma autobiografia demonstra, certamente, uma paz de espírito que não inibiu revelações, confissões e desabafos pessoais de elevada intimidade e sofrimento que desde cedo o apoquentaram. A doença em causa, enxaquecas contínuas e duradouras, tornou a música numa paixão única de insistente afecto e determinação mas também um problema de difícil superação que só uma boa dose de humor narrativo acaba por disfarçar e valorizar. Por vezes, essa capacidade de auto-crítica sarcástica e até venenosa poderá sugerir ao leitor mais desatento alguma arrogância mas sente-se pela abordagem a muitas das passagens do livro que a sinceridade utilizada não se compadece com "bicos-de-pés" irrelevantes de um papel de pop-star que não quer nunca vestir. Custosas, com certeza, as assumidas limitações, dependências e conflictos habituais quando se forma uma banda, quando se despede um companheiro de palco ou quando não se consegue escrever a canção perfeita embora essa seja matéria misteriosa de um livro da sua autoria de edição mais recente vocacionado para dar uma possível resposta. Mas e que tal chamar os bois pelos nomes?
 
Os problemas são, diremos, de dois tipos - profissionais e familiares, como sempre. Os primeiros, vertidos desde cedo numa relação tensa com Jay Ferrar com quem fundou os Uncle Tupelo ainda na década de oitenta e que levou em 1994, com sua saída, à formação dos Wilco. A hostilidade notória teve confrontos difíceis de compreender mesmo que no tom e modos utilizados por Tweedy transpareçam, em simultâneo, respeito mútuo, remorsos e, sobretudo, alívio. Com este episódio concluído, o livro ganha novo fôlego na forma como sinaliza o crescimento sustentado da banda, mesmo ensombrada pela morte de Jay Bennett, a composição das canções ou a liberdade de conceitos e abrangência criativa a aplicar aos sucessivos álbuns. São lacunares, contudo, referências mais específicas à relação e cumplicidade com os outros elementos dos Wilco e que só o aproximar do fim acelera tenuemente nalgumas revelações. Esse é também o momento para falar de outros músicos-heróis, no caso, episódios saborosos com Dylan, Cash e a amiga Mavis Staples para quem escreveu e gravou discos inteiros.

Mais transcendentes e cândidos afiguram-se os altos e baixos da vida em família, a juventude no Illinois e uma caixa de vinis de 7" herdada da irmã cheia de artistas e canções, a rudeza de uma relação pai-e-filho (é do pai a expressão que dá título ao livro) ou o amor pela mãe decisiva no impulso e apoio artístico. Há por aqui um despego estranho mas revelador na forma como se pode descrever a perca da virgindade aos 14 anos ou o primeiro encontro e beijo com a actual esposa em forma de banda-desenhada nas páginas centrais, local onde costumam estar, e não estão, fotografias de escola, do primeiro emprego ou do concerto iniciático. Quando Tweedy imagina diálogos com a mulher Sue sobre um grave problema de saúde ou com o filho Spencer de como tocar melhor bateria, a sua personalidade parece não respeitar a família de que tanto gosta e precisa, mas essa informalidade casuística é afinal a arma certa para espantar nuvens negras ou resolver dúvidas, creditando os leitores como testemunhas respeitados. No fundo, confessando que as suas limitações e depreciações são também fundamentais para continuar a fazer o que gosta - escrever canções, muitas - a olhar para trás, não pelo retrovisor da memória, mas a cantar as letras de muitas delas como, por exemplo, "On And On And On" sobre o pai falecido ou "Jesus. Etc" que, não sendo sobre o 11 de Setembro, é como se tivesse esse predestino. Um livro magnífico e que tem o condão, que julgávamos impossível, de ficarmos a gostar dos Wilco ainda e cada vez mais!


SQUID, QUE RICO RECHEIO!

















Se, por acaso, à clássica pergunta "qual vai ser o nome da banda?" surgir a resposta "lula", isso só pode ser levado na brincadeira. No caso dos Squid, cinco jovens ingleses de Brighton que apostaram no molusco marinho da classe cefalópode, os tais que têm os pés na cabeça, é bem capaz de ser um equívoco irreverente que talvez remeta para um calão mais rebuscado da mesma palavra em que se goza com um "aselha ao volante"... 

Isto porque as canções que fazem, desde o primeiro single "Perfect Teeth" de 2016, nada têm de aselhice e constituem um motivo de orgulho na reconversão muito em voga do pós-punk e do jazz-rock traduzida num segundo EP em 2019 com prolongamento no álbum de estreia já agendado para Maio pela reputada Warp Records. Desse "Bright Green Field" pode ouvir-se "Narrator" como saborosa amostra de consistência e recheio.

Para que o teste seja completo haverá (?) concerto em Paredes de Coura no dia 18 de Agosto ou, em caso de indisponibilidade, uma hipótese de saltada (30 de Outubro) a Vigo onde se adivinha casa cheia (Master Club) para um espectáculo em nome próprio mas ainda sem bilhetes à venda e onde o centro das atenções "nada punk", tal como os Black Midi (Primavera Sound Porto, 10 de Junho), será o inusitado baterista/vocalista! 



segunda-feira, 1 de março de 2021

DUETOS IMPROVÁVEIS #234

LE REN & BUCK MEEK 
"Early Morning Rain" (G. Lightfoot) 
Secretly Canadian, Fevereiro de 2021 
  

ALELA DIANE, UM TRIO DE ELEIÇÃO!














Parte da digressão de Alela Diane em 2018 teve o acompanhamento amigo do pequeno violoncelo de Heather Woods Broderick e o violino de Mirabai Peart, um trio que percorreu ao vivo e nesse formato mais de uma dúzia de cidades europeias para apresentar canções originais de Diane, principalmente as do álbum do mesmo ano "Cusp". Acabados os concertos, decidiram gravar parte desse reportório em ambiente de estúdio como se fosse em palco, sessão que em Abril terá a forma de disco de doze canções seleccionadas para registo no Map Room Studio de Portland, no Oregon americano. Sai em Abril em bonito vinil branco!


domingo, 28 de fevereiro de 2021

FAZ HOJE (18) ANOS #52






































































SIGUR RÓS, Coliseu do Porto, 28 de Fevereiro de 2003
 
. Diário de Notícias, por Ricardo Fonseca, 2 de Março de 2003, p. 36
. O Primeiro de Janeiro, por Andreia Marques Pereira, fotografia de Álvaro C. Pereira, 2 de Março de 2003, p. 24  
. Público, por Inês Nadais, fotografia de Nélson Garrido, 2 de Março de 2003, p. 36 
. Jornal de Notícias, 2 de Março de 2003, p. 41

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

BLAKE MILLS, VAI UMA VALSINHA?

O amigo de sempre fez o favor de nos lembrar que havia um disco do Blake Mills do ano passado que merecia uma audição prolongada. Vai daí, já não dispensamos, entre outras pérolas, esta flutuante "May Later". A menina dança?

REAL ESTATE, O MELHOR DE DOIS MUNDOS!






















Do excelente "The Main Thing" que os Real Estate lançaram o ano transacto sobraram meia dúzia de canções inacabadas que, com a chegada da pandemia e consequente confinamento, receberam tratamento diferenciado e inédito - um remoto acabamento virtual, metodologia desafiadora para quem está habituado à cumplicidade de um estúdio mas de potencialidades e contribuições inesperadas e infindáveis. O resultado concentra-se no EP "Half a Human" a sair no final de Março e do qual se pode ouvir o tema título pleno daquele reconhecível jogo de guitarras a que banda sempre nos habituou... 

KIWANUKA, NA TV ANTES DO PALÁCIO?














Continua, aparentemente, válido o concerto de Michael Kiwanuka (re)marcado para 21 de Maio próximo no Palácio de Cristal portuense mas a sua realização está ainda sujeita a um grau de incerteza comprometedor. Por isso, nada como antecipar o desfecho imprevisível através do pequeno ecrã da RTP2 no próximo Domingo pela noitinha com a emissão da passagem ao vivo de Kiwanuka pela cidade suiça de Basileia em Outubro de 2019 no âmbito do reputado Festival Baloise. O alinhamento, em jeito de best off, não deve ser muito diferente daquele que, eventualmente, apresentará na Invicta e que quase sempre acaba com esta maravilha...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

DAVID BOWIE, NOVO TRIBUTO!






















A editora inglesa BBE aproveitou o passado dia 8 de Janeiro, data do 74º aniversário de David Bowie, para anunciar um novo tributo com colaborações de projectos diversos mas de nítido traço soul, jazz e latino/tropical como Helado Negro, Khruangbin, We Are KING, Meshell Ndegeocello ou do brasileiro Sessa. O disco "Modern Love - A David Bowie Tribute Álbum", que estará cá fora no final de Maio, teve curadoria e produção de Drew McFadden e Peter Adarkwah, fundador da editora. Aqui ficam duas belas recriações...


 

PAUL MCCARTNEY, O ESCRITOR!
















Lá para Novembro, mesmo a tempo do Natal, será publicado um apelativo volume duplo (960 páginas!) contendo as letras escritas por Paul McCartney ao longo da carreira, qualquer coisa como 154 líricas que acabaram em tantas outras canções! Em "The Lyrics: 1956 to the Present" estarão ainda cartas, fotografias ou manuscritos inéditos do seu arquivo pessoal a que, na impossibilidade confessada de escrever uma autobiografia à custa de nunca ter tido o hábito de anotar diários ou lembranças, se acrescentam comentários paralelos e forçosamente biográficos editados pelo irlandês Paul Muldoon, autor da introdução e com quem McCartney manteve largos períodos de conversa ao longo de cinco anos. 

A edição prevista para E.U.A., a da imagem acima, encontra-se já indisponível e sem preço mas a versão inglesa aceita, desde já, encomendas ao preço de 66£ e com uma capa de desenho diferente. Quanto a preferências aqui da casa de maravilhas saídas da pena de Sir McCartney, não temos dúvidas quanto à primeira ("For No One"), à segunda ("She's Leaving Home") e à terceira ("Fool On the Hill"), três enormes canções!




quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

UAUU #577

WILL STRATTON, CANÇÕES-PROTESTO!






















Quando no passado recente notamos o sossego do norte-americano Will Stratton, percebia-se que a essa calmaria propositada se sobrepunha uma agenda bem calculada referente a um suspirado novo álbum. Com saída a 7 de Maio pela Bella Union, em "The Changing Wilderness" estarão dez inéditos fruto de uma mudança na forma de compor que apagou a introspecção e a preocupação masoquista com ele próprio e acendeu uma nova chama inteiramente conectada com a natureza alvejada ou o país e a sua tensa e extremada situação política e social. Mesmo pleno de interrogações sem resposta, o músico confessa que, longe de qualquer pretensão didáctica ou moralista, a intenção é mesmo protestar e chamar a atenção. Aqui fica um primeiro e suave clamor.    
 

ALICE PHOEBE LOU, ADIAMENTO ESPERADO!






















Data de Novembro passado o anúncio de dois concertos de Alice Phoebe Lou em Portugal no âmbito da apresentação do terceiro álbum "Glow" a sair em Março. As cidades de Lisboa (6 de Abril, Capitólio) e Porto (7 de Abril, Hard Club) foram as eleitas para os espectáculos mas surge agora um adiamento previsível e uma alteração forçada - na capital mantêm-se o palco do Capitólio para o dia 29 de Outubro, passando o concerto do Porto para o Centro Cultural Vila Flor em Guimarães no dia seguinte. Seja como for, mais vale manter as figas ao som deste "Dirty Mouth", um novo e fresquinho espanta espíritos com direito a blooper


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

(RE)LIDO #96






















OS BEATLES E A CENSURA EM PORTUGAL
 
de Abel Soares da Rosa. Lisboa: Âncora Editora, 2020
Vivemos tempos em que conceitos como liberdade de expressão, liberdade de imprensa ou opinião pública conduzem a inevitáveis discussões acaloradas onde a palavra "censura", qual maldição, serve levianamente ambos os lados da arguição. A vigência da censura, pura e dura, imposta em período de ditadura, foi em Portugal motivo de estudo ao longo das últimas décadas e, depois da abertura à consulta da totalidade dos arquivos da PIDE e de Salazar (1995), o manancial de informação conduziu necessariamente a uma maior especialização das abordagens e temáticas, embora o cinema, em particular, cedo tivesse motivado a curiosidade e demanda de alguns como Lauro António, autor largamente citado na corrente obra e para qual escreveu um texto introdutório, concretizado no incontornável "Cinema e Censura em Portugal" (1977). O assunto continua, mesmo assim, a ser um novelo sem fim de reconhecido interesse colectivo como se pode confirmar numa mais recente investigação académica (2013) coordenada por Ana Cabrera e que se estende também ao teatro ou neste livro dedicado aos filmes dos The Beatles

À pergunta se "os Beatles foram censurados em Portugal?" a resposta é "Sim!". Prova-o o conteúdo transcrito e largamente reproduzido por Abel Rosa de forma exaustiva quanto às películas estreadas em território português, como também o provam, certamente, muitos cortes a notícias e críticas aos mesmos filmes, aos seus discos, atitudes ou comportamentos como, aliás, já atestamos por aqui anteriormente e que sustentam a ideia que os Beatles metiam medo, sim, muito medo! 

O receio dos censores e, implicitamente, do regime quanto ao fenómeno, levou ao arrastamento da estreia da comédia "A Hard Day's Night" ou "As Quatro Cabeleiras do Após Calipso" em português, agendada para 1964 mas só concretizada no ano seguinte, anomalia noticiada em jornais de Liverpool que deram conta que a película tinha sido parcialmente censurada e destinada a maiores de 17 anos! Por incrível que pareça, o "problema" maior eram as expressões de êxtase e felicidade - "Atitudes descompostas e esgares" - que o(a)s jovens expressavam ao ouvir as canções da banda em cima do palco, uma suposta histeria que poderia conduzir a indesejadas manifestações da juventude portuguesa. A liminar proibição de exibição do filme pairou durante algum tempo pois seria bastante complicado - impossível! - realizar estes cortes em plena canção, passando depois a uma suspensão bastante comprometedora das aspiração da distribuidora Rank que via o lucro do negócio a fugir entre mãos alheias e que culminou, após bastantes insistências, numa tardia reclassificação etária (12 anos)... mas mantendo os cortes!  

Todo este folhetim, documentado ao pormenor com a reprodução de alguns dos documentos originais, constitui, por si só, uma incrível e rocambolesca história que carimba a insensatez e ridículo a que qualquer actividade de controle totalitário foi e é sujeita, traduzida noutras minudências risíveis como uma piada parva sobre adultério, um decote feminino, uma dança do ventre ou a autorização sem cortes do filme "Yellow Submarine" em 1969 sem qualquer tipo de restrições, uma daquelas pérolas que questionam toda a credibilidade do sistema atendendo a que, mesmo sendo em desenho animado, o argumento e uma boa parte dos diálogos feriam notoriamente (basta o exemplo de "Eleanor Rigby") os valores exemplares tão cegamente defendidos pelo regime instalado. 

Outros dois filmes - "Help! - Socorro!" de 1965 mas estreado em 1967 e "Let It Be - Improviso" de 1970 - são também motivo de análise documental pelo autor e que se alarga até a outras películas mais tardias e menos conhecidas onde participam músicos da banda. Em quase todos se percebe os contínuos empecilhos e subterfúgios que a Censura lançou sobre a promoção e difusão das imagens "perigosas" supostamente associadas aos The Beatles, adiando decisões ou inventando mal-entendidos para que "esses guedelhudos" se mantivessem à distância do cantinho sagrado desde que isolado. Houve quem quisesse contratá-los para um concerto em Lisboa em 1965 mas, sabe-se agora e confirma-se no livro, as sapientes autoridades portuguesas não permitiram tamanha afronta agitadora dos bons costumes e uma ameaça à dita "normalidade".

Orgulhosamente só mas, definitivamente, mais decadente e autocrático, o derrube do Estado Novo têm nestes exemplos de coação cinematográfica, que em boa hora foram reunidos neste simples mas prestimoso livro, um espelho da sua galopante e lastimável podridão, imagens proibidas que, quem sabe, acabem recuperadas ao jeito da sequência final do inesquecível "Cinema Paraíso"... 


SPRINGSTEEN E OBAMA, AMIGOS RENEGADOS!

Dois dos mais brilhantes americanos de gema há muito que se conhecem, partilham convicções sociopolíticas, sugerindo aproximações, apoios e sensibilidades quanto à importância da família, da comunidade ou da liberdade. Apesar de passados e infâncias totalmente opostas ou da diferença de idade, não estranha assim que Bruce Springsteen e Barack Obama se juntem para discutir calmamente, contar histórias de vida ou ouvir boa música ao jeito de programa de rádio em versão moderna - um podcast - através do agora incontornável Spotify. A série têm o nome de "Renegades: Born In the USA", tem já dois episódios disponíveis registados no segundo semestre do ano passado no estúdio de Springsteen de New Jersey e, apesar da nostalgia, o futuro passa por aqui. Imperdível!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

ELEPHANT9, MONUMENTAL!

















A chegada de um novo disco dos noruegueses Elephant9 é aqui na casa considerada uma bênção. Música instrumental deste calibre é cada vez mais uma paixão enraizada com a qual tomamos contacto ao vivo no prado de Serralves vai fazer três anos. Já nos tinham avisado para o perigo de adição quanto a esta receita fina de ingredientes seleccionados das mais recônditas "plantações" de jazz, prog-rock ou psicadelismo que um baixo, uma bateria e uma profusão de teclados conseguem misturar na perfeição entre paisagens de desalinho aparente mas de efeito sublime. 

Com "Arrival of the New Elders", onde mais uma vez temos uma capa geométrica recortada por um gosto artístico assinalável, a viagem tende a acalmar nas erupções e as teclas mágicas do mestre Ståle Storløkken ganham uma primazia contemplativa e, diríamos, necessária. Monumental e libertador!


DAFT PUNK, KAPUTT!















Chega ao fim a aventura dos Daft Punk! Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter decidiram pela implosão. Se for como a história dos LCD Soundsystem, não demora meia dúzia de anos para que regressem... à terra!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

FAZ HOJE (21) ANOS #51


























JOHN CALE, Auditório de Serralves, Porto, 19 de Fevereiro de 2000 
. O Comércio do Porto, por Miguel Soares, fotografia de Jorge Manuel Gonçalves, 21 de Fevereiro, p. 22 

DNTEL, LIGADO À CORRENTE!

O nome de Jimmy Tamborello ou James Figurine ganhou na primeira década deste século visibilidade sonante ao lado de Benn Gibbard no projecto The Postal Service de boa memória mas aqui na casa continuamos, mesmo com falhas, a segui-lo escondido como Dntel. É certo que não têm sido muitos os erros porque o hiato foi somente preenchido com trabalhos experimentais - o mais recente é de 2018 - uma vertente distinta da luxuosa electrónica instrumental a que em 2010 nos rendemos incondicionalmente. A espera terá em breve um termino reforçado. 

A berlinense Morr Music, casa dos indispensáveis Notwist, prepara-se para editar com a colaboração da francesa Les Albums Claus uma dose dupla de álbuns do mestre californiano ao longo do corrente ano e que começa em Março com "The Seas Trees See" já disponível para audição parcial. O primeiro e inteiro single "Fall In Love" é uma amostra da profundidade ambiental de voz em vocoder que desafia a elegância fascinante e sonhadora da electrónica relaxante. A bonita ilustração da capa pertence ao sueco Peter Gherman. Segue-se, lá mais para o final do verão, um outro disco já baptizado sob o título "Away" e onde se promete um regresso mais evidente à pop music que praticou exemplarmente nos referidos e saudosos The Postal Service, confirmando, assim, uma inata e misteriosa capacidade de metamorfose artística ao longo de vinte anos ligado à corrente.    

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

FIELD MUSIC, UMA LIÇÃO POP!






















Tal como notado há poucos dias, adivinhava-se um álbum de inéditos dos entes queridos Field Music. Ele chama-se "Flat White Moon", tem vários pacotes formosos em pré-encomenda, inclui o tema "Orion From The Streets" conhecido no final de Janeiro e também o novo single "No Pressure" que mereceu tutorial dos próprios vertida em video para ver e rever por todos os que querem e não sabem compor uma canção à maneira. Com o curriculum e tarimba destes "professores", ficamos ansiosamente à espera de outras lições exemplares e, de certeza, de mais um grande disco!


COURTNEY MARIE ANDREWS, POEMAS DE VIDA!






















A pausa forçada nas digressões e concertos permitiu a Courtney Marie Andrews repegar nalguns rabiscos de poemas inacabados e dar-lhe tratamento final na pele da personagem Old Monarch, uma alusão à borboleta laranja e preta muito comum pelo norte dos E.U.A e conhecida por realizar a mais longa migração realizada por um invertebrado numa única geração. A inspiração agarrou-a da própria vida dividida em três momentos de um livro biográfico onde a jornada começa com "Sonoran Milkweed", a infância como pano de fundo pelo Arizona, passa para "Longing In Flight", a saída de casa e o primeiro amor e termina em "Eucalyptus Tree (My Arrival to Rest)" com a chegada de Old Monarch ao jardim das dúvidas metafísicas e filosóficas. O site da editora Andrews McMeel tem já disponíveis alguns destes poemas para leitura prévia de um livro com publicação agendada para Abril.

Entretanto e na faceta de cantora de eleição, Andrews apresentou-se recentemente ao lado da amiga Madison Cunningham para a interpretação caseira do tema "If I Told" do último álbum "Old Flowers" a convite do programa televisivo de Stephan Colbert. Magnífico!