sábado, 28 de novembro de 2020

(RE)VISTO #81





















BRUCE SPRINGSTEEN - Western Stars 
de Bruce Springsteen e Thom Zimny 
E.U.A., Warner Bros. Enterteinment, 2019 
TVCine Edition, Portugal, 19 de Novembro de 2020 
Agora que o novo álbum de Bruce Springsteen anda em rodagem acelerada e se confirma um regresso ao velho som rock que só a E Street Band sabe fazer e onde reaparece a famosa harmónica do Boss, quis o nosso programador-mor televisivo fazer o obséquio de nos lembrar que do álbum "Western Stars" de 2019 havia um filme-concerto paralelo que merecia uma olhadela descomprometida e, mesmo assim, obrigatória para quem, como nós, gostou e gosta tanto desse disco.

Trata-se de um desfile das treze canções e uns pozinhos em versão ao vivo de reduzida lotação e intimidade acomodada num centenário celeiro propriedade do artista, local onde durante duas noites de Abril desse ano Springsteen interpretou as canções ao lado de uma verdadeira orquestra de cordas e metais e uma série de colaboradores e instrumentistas. Cada um dos temas tem um preâmbulo filmado no exterior em assumida forma de meditação, ora no Joshua Tree National Park ora num qualquer bar de New Jersey a que por vezes se juntam imagens antigas do próprio e da família, na companhia de cavalos ou da inseparável pick up vintage El Camino. Argumenta-se um a um com uma história, com um ensinamento ou sugestão sobre as agruras ou conquistas da vida, a amizade ou o amor e os irresolúveis dogmas da mentira e da solidão naquilo que parecem confissões biográficas mas que, sem certezas, encaixariam num qualquer papel fictício por ele inventado... 

Quanto a esta primeira experiência do Boss como realizador, embora em parceria, talvez seja de notar um excesso de clichés e câmaras-lentas sobre-produzidos nesses apartes introdutórios e onde o lustro e polimento do personagem acaba por, mesmo assim, nunca abafar o outro e o mesmo, esse sim, bem mais interessante - em cima do palco com uma panache maior ao lado da esposa e com algumas boas surpresas nos arranjos e instrumentos como o banjo, o acordeão ou o piano, fazendo realçar ainda mais a surpreendente qualidade dos temas e de como os cantar com uma classe inquebrável e de que "Sundown" será, para sempre, um cintilante modelo-canção.               


sexta-feira, 27 de novembro de 2020

M. WARD, UM NATAL A PENSAR NA PRIMAVERA!














Surgirá lá para meados de Dezembro uma surpresa de prazer imediato atendendo ao mês corrente - um disco de Natal de M. Ward que não têm canções de Natal mas tem quase o mesmo efeito! Como assim? O que Ward se propôs fazer e, pela amostra, com excelente resultado, foi uma desconstrução de um conjunto de canções do álbum "Lady In Satin" (1958) de Billie Holiday, ícone da canção norte-americana, que ouviu há duas décadas numa mega-loja em São Francisco e entre os quais está o tema-título "Think of Spring". 

Sem pormenores quanto à sua vida ou subtilezas da voz de Lady Day, reimaginou novas afinações e também distorções das orquestrações clássicas a partir de uma guitarra, mudando as chaves e acordes de forma a prestar homenagem ao disco que tanto o impressionou como música de fundo de um centro comercial. Este é, assim, o segundo álbum no mesmo ano, tendo o primeiro merecido visita ao vivo em Fevereiro passado, um dos últimos concertos a que assistimos antes da suspensão que parece nunca mais acabar... O melhor é mesmo pensar na próxima Primavera!


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

RHYE, FICA EM CASA!






















Quando chegam novidades do projecto Rhye de Mike Milosh só esperamos que não sejam nunca excessivas, isto é, que aquela gostosa onda pop ambiental de estímulos à dança, que é a sua imagem de marca, permaneça inalterável. Parece ser o que acontece com "Home", disco de que se foram conhecendo um punhado de singles desde Maio e aos quais, como é também um bom hábito, se associam produções videográficas cuidadas e de algum arrojo e um desenho de capa inconfundível. 

O trabalho foi registado parcialmente no estúdio Revival at The Complex de Los Angeles e também em casa do próprio Milosh desde há um ano, o que talvez explique o título do disco e também o sítio adequado para, nos próximos meses e sem alternativas autorizadas, o fazer soar alto e bom. Há, contudo, uma digressão europeia já marcada a partir de Abril e com hipóteses de extensão... Quem dera!



 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

PHOEBE BRIDGERS, HÁ UMA ESTRELA A BRILHAR!

A carreira ascendente de Phoebe Bridgers teve hoje um reconhecimento merecido com quatro nomeações para os Grammy à custa do álbum "Punisher" - nova melhor artista, melhor perfomance rock e melhor canção rock com "Kyoto" ao lado, entre outros, dos Big Thief com a também notável "Not" e ainda melhor álbum alternativo. 

Tudo sugere, assim, um caminho seguro e intencionalmente calculado no sentido de um estrelato medido passo a passo e de que é exemplo a tradição em lançar, por esta época, uma versão de Natal, o que acontece há já quatro anos consecutivos e sempre com fins solidários - a escolha, desta vez, recaiu sobre "If We Make It Through December" de Merle Haggard, canção de 1974 que se adequa na perfeição à incerteza e volatilidade dos próximos tempos e cujas as receitas reverterão para o Downtown Women Center de Los Angeles. A cover juntar-se-á num EP às três outras dos anos anteriores numa edição ainda sem mais pormenores.




AJUDA@MÚSICA@AJUDAR #37














Um dos tesouros da canção americana chamado Lucinda Williams lançou um projecto solidário e temático que pretende ajudar à sobrevivência de algumas salas de concertos que correm o risco de encerramento à custa da pandemia provocada pela Covid19 - chama-se "Lu's Jukebox - A Studio Concert Series" e teve início em Outubro com uma primeira sessão somente com canções de Tom Petty em regime de streaming de pagamento prévio a reverter para os locais aderentes. Seguiram-se, já em Novembro, outras apresentações com versões de Bobbie Gentry, Ann Peebles ou Tony Joe ou a da passada quinta-feira onde se prestou homenagem a Bob Dylan, uma das influências assumidas na carreira de Williams. 

Para Dezembro está agendada uma dose tripla e inédita de concertos com dedicatória ao country, ao Natal e, para acabar o ano e em plena véspera de Ano Novo, aos The Rolling Stones. Adivinha-se que algum deles acabará vertido para disco mas não se esqueçam que Williams lançou em Abril último um grande álbum, mais um, chamado "Good Souls Better Angels" e que teve direito a uma recente versão acústica de um dos seus temas que podem e devem confirmar ali abaixo. 


terça-feira, 24 de novembro de 2020

KELLEY STOLTZ, AH POIS É!

O nosso "músico americano que parece inglês" preferido não desiste - Kelley Stoltz não larga a guitarra e outros instrumentos numa continua demanda por canções filtradas pelo psico-rock inglês ou pelo post-rock dos 80 sem que a qualidade pareça ser sequer  questionada. A última façanha, a décima-segunda, tem na expressão "Ah! (etc)" um título sarcástico que confirma, afinal, que a vida continua e o melhor é mesmo aproveitá-la! 

O disco foi crescendo desde 2019 em jeito de "one man band" caseiro, neste caso, com morada no Electric Duck Studio de São Francisco com ajudas ponteadas de alguns amigos como Will Sergeant dos Echo & the Bunnymen (sim, Stoltz fez parte da banda ao vivo), Karina Denike e Allyson Baker e sugere um retorno ao gosto pelo rock dos anos sessenta e oitenta depois de uma guinada recente pela pop através de "Hard Feeling", mais um disco posto cá fora em Setembro passado e de que só agora demos conta! Ah pois é...


(RE)VISTO #80






















AMY - a rapariga por detrás do nome
de Asif Kapadia. Inglaterra: On The Corner Films /Universal, 2015 
TV Cine Edition, 20 de Novembro de 2020 
Partimos para a visualização deste premiado documentário (um Grammy pela música) com um travo amargo de tristeza... Saído há cinco anos, fomos adiando o sacrifício de conferir as imagens que, mesmo sem as conhecer, não queríamos ver. Aderimos à banda sonora que na altura pusemos a rodar no Ipod, essa sim, de bom grado e a fazer-nos recordar as excelentes canções que Amy Winehouse foi escrevendo e gravando ao longo da curta e trágica carreira, mesmo sabendo doutras tentativas prévias de retratar a desgraça como, por exemplo, a do Channel 5 inglês, a que fomos também resistindo. Contudo, a aparente seriedade e rigor com que este documento foi sendo continuamente classificado sempre nos ficou na memória e retina e, por isso, em fim de semana de confinamento acabamos por lhe dedicar a devida atenção. Valeu a pena? 

Não é fácil responder. A vida em zigue-zague de uma artista tão talentosa, uma "alma antiga num corpo jovem", com emulsão no jazz cantado de Tony Bennet ou Sarah Vaughn e de voz tão poderosa sempre nos causou distância imediata de tão vacinados que ficamos quando o amigo de sempre nos colocou o álbum "Frank" no iPod com a aquela recomendação sagrada "ouve isto". Percebiam-se as influências, as raízes mas flutuava, desde logo, uma originalidade e um "je ne sais quoi" tão evidentes que nunca nos pareceu estranho o êxito do álbum seguinte, o imparável "Back to Black" que o avisado Mark Ronson levou para temperar junto de uns The Dap Kings um pouco desconfiados e até na retranca. As boas sensações que as canções sempre nos transmitiram à custa de toques invariáveis de classe e primor não chegavam, mesmo assim e por muito que a música fosse sempre o mais importante, para tapar os ouvidos e os olhos ao constante ruído de uma imprensa predadora e pronta a abocanhar o troféu, o deslize, o risível e todo o resto... 

E o resto está cá todo, ou seja, o grau de fraqueza da condição humana a que nenhum poder monetário ou divino consegue pôr cobro, um limite de loucura passional descontrolado por uma alma gémea mortífera de nome Blake que, de tão doentia e, afinal, incurável, nos parece inverosímil e mesmo impossível. Fama, fortuna, vaidade, mentira, traição, cegueira ou ciúme... estão cá todas e todos nus e crus numa desgraçada dose letal que esbate uma qualquer capa da Time, da Rolling Stone e até da Blitz e que culminou num sábado à tarde de verão de 2011 com o esperado desenlace. Custou-nos, na altura, a desfazer o nó na garganta mas ele, sem querer, lá se atou outra vez ao fim de duas horas em frente à televisão e, por isso e ao contrário do prazer obtido com a audição dos discos, este é definitivamente um filme para ver penosamente uma só vez... e basta.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

SONDRE LERCHE, AINDA MAIS PACIÊNCIA!






















No regresso à Noruega natal, Sondre Lerche tem-se dedicado a reunir e a ensaiar com os amigos músicos e também em completar maratonas em menos de três horas, como a última na cidade de Jesshiem, ao som de uma playlist eclética e bem cronometrada para um pouco mais do que esse período... um verdadeiro pró

Entretanto, os tempos pandémicos adiaram concertos suportados por uma verdadeira banda mas permitiram uma pequena digressão a solo pelo país, estando prometido um regresso em grande com um streaming global marcado para o dia 16 de Dezembro com o nome de "Patience Extravaganza" onde, para além de canções do último e excelente "Patience" já por aqui elogiado, se farão ouvir velharias ao lado de velhos compinchas de grupo, convidados e algumas surpresas. 

A propósito, esse disco saído em Junho têm já uma edição melhorada, isto é, aumentada - "Patience Deluxe" disponível desde o mês passado inclui quatro novas canções e outras duas registadas ao vivo com a Norwegian Radio Orchestra, concerto a que podem aceder na totalidade aqui. Esses inéditos foram, ao longo de sete anos de composição do disco, postos de lado por diversas razões que agora se convertem numa validade aprovada pelo próprio Lerche tendo em conta a boa aceitação e paciente fruição do disco. 

Para ouvir, então, os dois novos temas "Foreing Heart" e "I Could Not Love You Enough" a que se junta o video oficial para "I Can See Myself Without You", tema incluido no alinhamento original e que conta com a iluminada aparição da actriz Granger Green...



  

UAUU #560

sábado, 21 de novembro de 2020

OWEN PALLETT DE SECRETÁRIA (CASA)!

FAZ HOJE (29) ANOS #46






















ROBERT FORSTER & GRANT McLENNAN + LLOYD COLE, Coliseu do Porto, 21 de Novembro de 1991
 
Público, por Amílcar Correia, fotografia de Henrique Delgado, 23 de Novembro de 1991
 

THE DIVINE COMEDY, CARTA DE TRINTA ANOS!
















Em 1990 Neil Hannon dicidiu começar a registar e editar discos como The Divine Comedy, uma façanha infindável traduzida numa dúzia de marcantes álbuns de originais e centenas de canções de um dos mais brilhantes compositores da sua/nossa geração. A comemoração é assinalada com a reedição melhorada de nove desses discos em vinil e também uma caixinha que recebeu o baptismo de "Venus, Cupid, Folly and Time - Thirty Years of The Divine Comedy" onde cabem vinte e quatro CD's exaustivos espalhados por doze volumes. Destaca-se a compilação inédita "Juveneilia" com raridades dos tempos distantes de 1984, uma selecção aprumada pelo próprio e que não dispensa "Fanfarre For the Comic Muse", o disco "perdido" de 1990 e os cobiçados EP's "Timewatch" e "Europop" do ano seguinte. Acrescenta-se um livro com parte significativa das líricas escritas religiosamente por Hannon e a reprodução de algumas das originais folhas manuscritas. 

Apesar dos centro e quarenta euros de custo, o tesouro posto a descoberto desde Agosto rapidamente evaporou o stock mas surge agora nova fornada com um excelente e atractivo bónus de bom gosto - uma carta do artista ("Letter from the Artist") escrita e assinada por Hannon e impressa de forma limitada e numerada à moda antiga, isto é, usando tipos móveis e máquinas vintage ainda plenamente funcionais! A cortesia ficou a cargo da The Letterpress Collective de Bristol, uma das muitas oficinas reactivadas ou remontadas mundo fora que não deixam perder a memória dessa secular e sempre surpreendente técnica chamada tipografia que tanto adoramos. Para o efeito e em termos técnicos, foi usada uma Heidelberg de moinho de 1964, como se confirma na imagem superior, e também um conjunto de caracteres em chumbo Monotype Garamond desenhados nos anos 40 mas de rasto no século XVII. Esta impressão, para a eternidade, em papel reciclado e tinta apropriada de cabeçalho a vermelho e texto a negro, faz com que cada folha seja um pedacinho de história irrepetível e, isso mesmo, apetecível! 

Quanto a exemplares expressos do talento de Neil Hannon há, certamente, múltipla e difícil escolha para evocar esta caminhada, de pérolas escondidas como "Lost Property" ou clássicos épicos como "Our Mutual Friend". É só escolher...



sexta-feira, 20 de novembro de 2020

PAUL McCARTNEY, POM POM POM... PAIIIÁ!






















Não somos dos que fogem a sete pés quando ouvem Paul McCartney a cantar com um coro de sapos. É certo que serão centenas as vezes que ouvimos na altura o tema "We All Stand Together" na rádio e vimos o video na RTP sem mudar de emissora ou desligar o aparelho mas compreendemos que muitos de vós percam a paciência num instante... Temos o respectivo single lá para casa, o original da Parlaphone/Valentim de Carvalho de 1984 e até que gostávamos de lhe juntar um género de upgrade saído recentemente.

O ursinho Rupert fez cem anos (8 de Novembro de 1920) desde que apareceu nas páginas do inglês "Daily Express" numa criação da artista Mary Tourtel e, aproveitando a comemoração, foi relançada uma versão em picture disc recortado um pouquinho maior com a icónica imagem da dupla onde cabem as duas versões originais do tema produzida por Sir George Martin mais uns bónus, mas o goodie está já esgotado em território europeu, o que só confirma que não estamos sós neste guilty pleasure

Aproveitando o embalo, o referido video oficial foi remasterizado em resolução 4K, o trecho mais famoso da curta-metragem "Rupert and the Frog" dirigida por Geoff Dunbar para a qual McCartney compôs a célebre "canção do sapo" e que teve também direito ainda a uma inédita apresentação pelo coro juvenil LIPA4-19 no exterior do Auditório Paul McCartney do Liverpool Institute For Performing Arts. 
Pom, pom, pom... estamos juntos!



QUE TRIO, QUE VERSÃO, QUE CANÇÃO!














O por aqui anunciado álbum de Natal de Chilly Gonzales contempla uma versão de "Snow Is Falling in Manhattan" que despertava uma enorme curiosidade - cantam Jarvis Cocker e Feist e o resultado é simplesmente sublime, numa homenagem ao músico e poeta David Barman dos Purle Mountains, falecido um mês depois (Agosto de 2019) da edição do homónimo disco onde repousava a canção, por si só, enorme. Um clássico, desde já, eterno e para ouvir todo o ano!


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

INDIGO SPARKE, A PROTEGIDA!




















Ainda a ouvir ali abaixo quase em loop as canções que Adrianne Lenker gravou numa auto-caravana no parque californiano de Joshua Tree para a NPR, ora aqui está uma jovem cantora australiana que, imediatamente, se presta a comparações evidentes - Indigo Sparke terá o seu álbum de estreia "Echo" a sair em Janeiro co-produzido precisamente por Lenker e Andrew Sarlo, o habitual produtor dos Big Thief. Lenker ajuda ainda nas vozes do primeiro single "Baby" onde surge também James Krivchenia, o baterista dessa magnífica banda, que lhe junta um atmosférico sintetizador, num disco que ambiciona ser, em tradução livre, "uma ode profunda e íntima à morte, à decadência e ao sentimento inquieto de querer pertencer a algo maior". 

Aproveitamos para recordar a passagem em estreia de Sparke pelos escritórios da NPR em Fevereiro passado para uma terno de temas que foram todos excluídos do alinhamento do novo trabalho e onde, adivinhem, Lenker dá uma mãozinha protectora numa canção então sem nome mas depois baptizada de "Burn". Coincidência, ou não, um dos dois longos instrumentais do seu último e redentor álbum a solo "songs" chama-se... "music for indigo"!


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

ADRIANNE LENKER DE SECRETÁRIA (CASA)!

BONNY LIGHT HORSEMAN, MAIS QUALIDADE!

O álbum homónimo do trio Bonny Light Horseman, publicado em boa hora no início deste malogrado ano, anda a ser continuamente esticado aqui pela casa na forma e no conteúdo à espera de mais canções. No verão saiu um single com dois extras que acabaram preteridos do alinhamento, uma dupla que Anais Mitchell, a cantora principal, classificou como um par inseparável e que merecia casamento - nada melhor que um pequena rodela de vinil para plasmar "Green Rocky Road" e "Greenland Fishery" com desenho atractivo esverdeado mas a que ainda não conseguimos deitar a mão... Vamos continuar a tentar.     

De surpresa, contudo e logo de seguida, aparecia uma versão de "Buzzin' Fly" de Tim Buckley como testemunho das capacidades da banda em recriar-se nessa maravilhosa canção de 1969 e que sinaliza a sua eternidade e transcendência sobre o amor e a natureza que faziam rodar o mundo melancólico e muito próprio de Buckley traduzida até no nome do disco, o terceiro da sua carreira, "Happy Sad". 

Quase de forma conceptual, há agora uma outra cover para desfrutar - no âmbito da comemoração e reedição expandida do álbum homónimo de Elliott Smith de 1995, a organização americana Kill Rock Stars convidou uma série de artistas para realizarem versões de temas desse disco, cabendo aos Bonny Light Horseman uma recreação de "Clementine", um registo feito à distância e em separado pelo trio mas cujo grau de intimidade, como sinalizado, lhes deu o conforto de parecer que estavam na mesma sala numa noite de chuva!


RYAN HEMSWORTH, NÃO HÁ CRISE!






















Ao nome de Ryan Hemsworth sempre associamos uma veia electrónica e de dança dos tempos em que não perdíamos uma qualquer remistura da Lorde ou dos Rhye, sabendo, contudo, que o jovem produtor canadiano vai já em quase uma dezena de discos em nome próprio ou em parceria (como a do ano passado como o japonês Yurufuwa Gang chamada Circus Circus) a que nunca demos particular atenção. Até agora! Num acerto de azimute, baptizou um novo projecto como Quarter-Life Crisis onde reuniu alguns amigos indie em colaborações pop arejadas tendo por base as cordas de uma guitarra tocadas na juventude ao ouvir os Cardigans (tchhh...), Sparklehorse ou os Bright Eyes e que resultaram num EP de seis canções a editar em breve pela Saddle Creek

Para esta saída da zona de conforto nada melhor que chamar Meg Duffy (Hand Habbits), Charlie Martin (Hovvdy), a misteriosa dupla Claud and Yohuna e também Frances Quinlan (Hop Along) para o ajudar a acomodar-se a novas tendências, o que é válido para para ambos os lados, quase sempre acertadas em estúdio de forma presencial ou remota com os convidados e sem crises de um quarto de idade, seja lá o que isso quer dizer... Confortável!



terça-feira, 17 de novembro de 2020

SÉBASTIEN TELLIER, SIMPLES E EFICAZ!






















Da imprevisibilidade do francês Sébastien Tellier já tomamos conhecimento por diversas ocasiões e sempre em diferentes formatos de canção ou de base sonora. O último, saída em Maio, de produção rigorosa e confiável chama-se "Domesticated" e parecia alongar-se numa fruição temperada pela electrónica futurista ainda em fase de assimilação mas eis que, cinco meses depois, um novo trabalho submerge de surpresa... 

Assumido como um renascimento da sua música de forma minimalista e limpa, Tellier decidiu registar em modo "ao vivo no estúdio" (o MoodoSudio parisiense) um conjunto de temas do referido disco deste ano a que juntou um punhado de antiguidades de uma longa carreira onde se destacam "Divine" ou "L' Amour et La Violence". A novidade chamada "Simple Mind" está à venda pela já adulta RecordMakers e teve até apresentação ao vivo e em directo na passada sexta-feira pelo canal Arte a partir da Gaîté Lyrique em Paris, onde ao longo de mais de uma hora se actualizaram eficazmente para o mundo as novas versões, incluindo uma do clássico "La Ritournelle". 


(RE)VISTO #79






















PJ HARVEY - A DOG CALLED MONEY
 
de Seamus Murphy. Irlanda/Reino Unido, Blinder Films/Pulser Films, 2019 
TVCine Edition, Portugal, 13 de Novembro de 2020 
Em 2016, aquando do lançamento e posterior desfrute de "The Hope Six Demolition Project", o nono e magnífico álbum de PJ Harvey, o travo das canções assumia uma vertente política incisiva e crítica de elevada pertinência perante o aumento das desigualdades e injustiças de um mundo global cada vez mais extremado, uma tendência que o disco anterior "Let England Shake" (2011) não disfarçava. Houve quem não gostasse, houve quem lamentasse mas o certo é que os temas então escritos, não o sabíamos, tiveram inspiração directa e presencial em cenários caóticos de guerra como a Bósnia, a Síria ou o Afeganistão ou outros territórios de desequilíbrios encapotados como Washington, a capital americana aparentemente pacífica mas onde a guetização e o racismo aguçam, sem fim à vista, a faca da revolta traduzida no próprio título do disco. 

Notou-se esse grito de alerta aquando da passagem da artista e do seu fiel grupo de músicos pelo Primavera Sound no mesmo ano, uma efervescente perfomance de Polly Harvey que uma grande parte da legião de fãs não pareceu compreender na angústia de não ouvir os temas antigos - ali, na imensidão escura do parque portuense, temas como "Dollar, Dollar" ou "The Ministry of Social Affairs" ecoaram bem alto uma tensão libertadora que, afinal, não disfarçava a realidade nua e crua que a própria tinha visto bem de perto. Antes de iniciar todo o processo de gravação sofisticado e impoluto, visitou de caderno na mão, como referido, diversos locais e latitudes com o objectivo de conversar e ouvir pessoas e grupos e deixar que as histórias inspirassem as letras das suas canções na companhia de Seamus Murphy, fotógrafo e realizador que filmou tão brilhantemente esses momentos transpostos para este documentário. 

De regresso a Londres, as palavras converteram-se em poemas e os poemas em canções gravadas durante cinco semanas num alvo cenário/estúdio construído na cave da Sumerset House e onde alguns grupos de interessados, sem se verem mutuamente, puderam assistir através de vidros às sessões durante quarenta e cinco minutos. A este processo, chamado "Recording in Progress", traduzido num género de mural de papel com as anotações preenchidas pela artista com o pormenores dos arranjos ou outras subtilezas, o filme dá uma atenção informal e não extensiva onde emerge uma camaradagem e compromisso divertido apesar do peso eventual das temáticas abordadas pela canções em gravação. Nesse contraste, Harvey, de preto, sempre de preto, comanda um grupo de instrumentistas assinalável que é uma extensão flexível do seu talento e que continua a surpreender pela aparente simplicidade dos processos de composição e num treino de aprendizagem contínua e, percebe-se, motivador. 
 
São, contudo, as imagens no exterior deste estúdio, as tais captadas mundo fora, que acabam por envolver e sobrepor o documento com uma camada de realidade quase antropológica a que reagimos sem pestanejar pela sua dureza e beleza simultânea, traduzida num qualquer olhar desalentado, mas nada assustado, de um grupo de crianças afegãs (?) em frente a uma máquina de filmar ou os testemunhos em prosa rap de adolescentes americanos perdidos entre a droga e o crime e que, não sendo surpresa, nos ferem à distância. Quando uma das canções, a simbólica "The Community of Hope", é ensaiada a cappella numa igreja americana por um pequeno grupo coral e, potencialmente, transformada num hino de esperança, o filme já valeu a pena e todo o esforço e virtude de agitar o nosso íntimo e questionar-mos, sem resposta, de quanto tempo vai ser preciso para que tudo mude...  

Nota: circula no youtube uma versão do filme em regime, supostamente, ilegal mas com alguma qualidade. Aproveitem! 


sábado, 14 de novembro de 2020

MARIKA HACKMAN, VERSÕES DO ISOLAMENTO!





















O fenómeno terá, certamente, variados frutos nos próximos tempos mas o caso de Marika Hackman mereceu já a edição formal de um disco - a prática de canções de outros artistas e bandas durante o isolamento caseiro dos últimos meses como meio de explorar e testar as suas capacidades sem pressões de calendário. 

Sozinha e no papel de produtora, entre a sua casa e a dos pais em Hampshire, Londres, das dez escolhidas para mistura final a cargo de David Wrench destacam-se "Playground Love" dos Air, "Phanton Limb" dos The Shins, "Between the Bars" de Elliott Smith, "You Never Wash Up After Yourself" dos Radiohead, "Pink Light" dos Muna, "Realiti" dos Grimes e, caramba, "Jupiter 4" de Sharon Van Etten. O resultado foi já devidamente apresentado em streaming ao lado da sua banda no dia de ontem a partir de uma qualquer abandonada piscina vazia...





EL PERRO DEL MAR, A MULTI-ARTISTA!


















A sueca Sarah Assbring, auto-baptizada como El Perro Del Mar desde 2003, é uma daquelas artistas a que não se pode perder o rasto. Jogando sempre na inovação e na inquietação como postura fundamental de acção multidimensional, foi em Maio passado convidada a, sozinha, percorrer e absorver o Museu de Arte Moderna de Estcolmo, enquanto o espaço esteve encerrado ao público devido à pandemia, para compôr novos temas literalmente pela e para colecção de arte e que depois apresentou numa sessão à distância que podem confirmar no registo abaixo. 

O contexto de inspiração recebeu o nome de "Free Land" e prolongou-se a um estúdio profissional resultante num novo álbum/EP com o mesmo nome a editar em breve (20 de Novembro) e que aborda a (des)contrução, a persistência e a resistência ao mundo ultra-comercial em que vivemos pela liberdade criativa e de expressão. Um dos temas é uma cover de "Alone in Halls" dos Black Sabbath com a participação de Blood Orange, estando já disponível um primeiro avanço oficial, enorme, de nome "Dreamers Change the World!" cujo video recebeu comando de estilo e de realização da amiga Nicole Walker e onde, às paisagens deslumbrantes, se junta um guarda-roupa Balenciaga. Um exclusivo em vinil está disponível no seu Bandcamp

Na oportunidade, não podemos deixar de destacar duas outras grandes canções, entretanto, publicadas antes deste novo trabalho: "The Bells" do mês passado e destinado a, num grande ecrã, resultar numa canção de amor e "Please Stay", versão de Burt Bacharah já com mais de um ano, mas sem prazo de validade, e que nessa altura fez parte de uma perfomance de dança no Royal Dramatic Theatre de Estocolmo. Notável!




sexta-feira, 13 de novembro de 2020

MORRISSEY & BOWIE, EDIÇÃO OFICIAL!






















O encontro destes dois figurões da pop aconteceu em 6 de Fevereiro de 1991 no Inglewwod Forum de Los Angeles onde interpretaram a meias uma versão de "Cosmic Dancer" dos T-Rex, canção escrita por Marc Bolan em 1971 para o álbum "Electric Warrior". Há muito que circulavam gravações roufenhas de qualidade menor mas de que a Rhino Records assumiu oficialmente a masterização a incluir como lado A de um single de vinil à venda a partir de Fevereiro. As fotografias do inusitado meeting que aparecem na capa e contra-capa são da autoria da britânica Linder Sterling e foram obtidas em Nova Iorque sem indicação de data, artista que se pode ver em acção no local do concerto no final do video abaixo.

Na outra face da rodela repousará uma outra versão, inédita, de "That's Entertainment" dos The Jam de Paul Weller, uma variação ainda não disponível para audição da cover mais comum que Morrissey interpretava, por essa altura, nos seus concertos e que foi incluída na colectânea "The Best of Morrissey - Suedehead" editada pela Parlaphone também 1991. Tratem lá de ouvir e comparar...



THE NOTWIST, DIAS VERTIGINOSOS!






















Mesmo em modo limitado, a actividade dos The Notwist, o nosso colectivo alemão preferido, não tem parado. O EP/10" de três inéditos "Ship" saído em Julho passado confirmava a boa forma e sinalizava que talvez um projecto maior estivesse na calha, o que se confirma hoje com o anúncio de um novo álbum no início de 2021. 

Ao fim de sete anos sem discos de originais, "Vertigo Days" reúne catorze temas, como sempre, arriscados e exploratórios, três deles já incluídos no referido EP e onde colaboram, entre outros, o duo japonês Tenniscoats, o multi-instrumentista americano Ben LaMar Gay e a chilena Juliana Molina, uma estratégia do duo fundador (1989!) Markus e Micha Acher, a que se junta Cico Beck, em expandir o conceito de banda com novas vozes, ideias e até linguagens instrumentais e que aparenta um produto final quase cinematográfico para disfrutar com calma e em longa duração nestes dias de vertigem. O disco sairá a 29 de Janeiro de 2021 em variados formatos pela Morr Music.




quinta-feira, 12 de novembro de 2020

SHARON VAN ETTEN, O NATAL É JÁ ALI!

Embora confessando que o disco de Natal de Bob Dylan ("Christmas In the Heart" de 2009?) é, desde logo, imbatível, Sharon Van Etten não se sai nada mal na recriação de dois clássicos - "Silent Night" e "Blue Christmas" estão desde hoje disponíveis para confortar um pouco melhor os próximos tempos. Ficamos à espera de um mais que merecido single de vinil para juntar à colecção...