quinta-feira, 29 de junho de 2023

(RE)LIDO #116





















NICK DRAKE'S RIVER MAN - A Very British Masterpiece 
de Jochen Markhorst. França, Amazon, 2023 
Em final de mês comemorativo das setenta e cinco primaveras de Nick Drake, acrescentam-se cada vez mais livros e recensões sobre a sua vida e as suas canções. Entre as novidades, esta é uma das boas surpresas surgidas, não tanto pela dimensão da abordagem mas sim pelo seu evidente, mesmo que ligeiro, academismo concentrada numa só canção, a tal obra prima chamada “River Man”, sistematização e método que o autor e professor holandês aplicou já mais de uma dezena de vezes a temas de Bob Dylan

Um detalhe da pintura “The Fringe of the River” de 1894 do paisagista John Clayton Adams (Inglaterra, 1840-1906) foi escolhida intencionalmente para a capa, a única imagem colorida de uma edição pobre, descuidada e, possivelmente, reduzida, atendendo a que o formato digital Kindle parece ser o preferencial para evitar sobrepor custos. É dela que emerge um Drake desfocado e, hellas, cabisbaixo, como que abandonando um cenário natural de luz, nuvens, árvores, folhas ou água, onde, desde sempre, embebeu perfumada inspiração para as suas canções. “River Man” é, claro, o perfeito exemplo desse idílico romantismo, dessa englishness já retratada noutras publicações, por sinal, também académicas, mas que esconde intrincados mistérios e enigmas requisitantes de contínua pesquisa, análise comparada e dedicação prazerosa. 

As cem páginas do seu conteúdo afiguram-se, pois, de uma preciosidade e validade imediatas. A composição musical, o seu formato e construção são motivo de um enfoque inicial nas comparações e influências que tanto nos remetem para Dave Brubeck e “Take Five” como para Harry Robinson e “Song of Summer”, ele que viria a ser o orquestrador inesperado de “River Man”, um acaso único que tem explicações (p. ex. Delius), factos e histórias saborosas e que alguém (Richard Thompson) definiu como sendo bem melhor que “Eleanor Rigby”, jóia quase sempre classificada como o tema cimeiro da orquestração pop. Talvez já tivéssemos deparado com alguma desta interessante informação em tantas das leituras que, viciosamente, vamos fazendo sobre Drake mas há por aqui uma síntese quase científica dos porquês e das razões do que se pode ouvir na canção, o que torna o momento numa paisagem sonora de dimensão, talvez, inigualável. 

Não admira que sejam já mais de oitenta as versões que o tema recebeu de artistas tão diversos como Paul Weller, Chrissie Hynde, Mathilde Santing ou do mágico Brad Mehldau, sobressaindo notas sobre muitas mais de preferência/estranheza assumida como a da brasileira Beatrice Mason ou da espanhola Susana Raya que, corajosa, traduziu inclusive a letra para castelhano, renomeando como Silvia a Betty original para acentuar o “Iberian melodrama” (sic). Talvez não conheça a que portuguesa Marta Hugon gravou em 2008.

É ela, a tal Betty, que dá início a uma lírica, por si só, de um dourado literário que brilha na melodia de forma misteriosa e sublime. Afinal, de quem se trata? Quem é o river man? O que têm a dizer um ao outro sobre o lilac time? No capítulo maior do livro está, então, um substancial manancial de conexões e aforismos que acentuam a formação literária e até filosófica de um Drake emaranhado em subtilezas, como sempre, de difícil explicação mas em que Markhorst se afunda, consistente e magistral, nas respostas - Rimbaud, Nina Simone, Hermann Hesse, Colin Blunstone, Dante, The Beatles ou Jacques Tati são só alguns dos nomes desalinhados mas, afinal, condutores em que o mergulho se fortifica, estrofe a estrofe, verso a verso, num esforço sem pretensões definitivas mas de hipóteses inteligentes onde tanto se pode, livremente, metaforizar sobre droga, amor ou morte. 

Como em qualquer obra prima, haverá sempre uma qualquer dúvida que lhe acrescenta magia, grandeza e perfeição. Ouçámo-la, por isso, vezes sem fim. São “só” quatro minutos e vinte e poucos segundos de eterno prazer… 

terça-feira, 27 de junho de 2023

JEFF TWEEDY, LIVRO TRÊS!





















Um, dois e três! Um terceiro livro de Jeff Tweedy tem publicação prometida para Novembro pela Dutton (Penguin) e terá na música, what else, o motivo das inéditas 240 páginas. Em "WORLD WITHIN A SONG: Music That Changed My Life and Life That Changed My Music" o assunto principal é o de sempre - mais de cinquenta canções e tudo à volta, isto é, as emoções, as memórias, as mudanças ou as experiências e aprendizagens que elas conduziram e proporcionaram. 

De canções do próprio e dos Wilco (tocam em Coura no dia 19 de Agosto) a muitas de outras bandas e artistas como The Replacements, Mavis Staples, The Velvet Underground, Joni Mitchell, Otis Redding, Dolly Parton ou Billie Eilis, o livro talvez ajude a perceber a sua utilidade, necessidade e eterna magia. Como estas duas de 2021 que nos tinham, afinal, passado despercebidas...


segunda-feira, 26 de junho de 2023

THE SAXOPHONES, PARTILHA NA NUVEM!






















Ao casal Alison Alderdice e Alexi Erenkov, que conhecemos por The Saxophones, une-os um amor e dedicação ferrenhas e um vício salutar - compor canções sem parar. Aquando da chegada da pandemia Covid 19 tinham passado poucos meses sobre a edição de um segundo álbum coarctada, por isso, pela impossibilidade de digressões e de muitas outras formas de o dar a conhecer como deve ser. Não desistindo, a solução era insistir nesse prazer na partilha e, por isso, um terceiro trabalho de originais está agora totalmente disponível para fruição colectiva. 

Gravado em Anacortes, Washington, num género de igreja católica transformada em estúdio (The Unknown Studio) durante duas dúzias de sessões, "To Be A Cloud" contou com a habitual ajuda de Richard Laws no baixo e nas teclas e de muitos familiares que não se importaram de ficar a tomar conta dos dois filhos enquanto decorria o processo de criação e registo. 

O resultado não foge de uma sonoridade de imediato reconhecimento pelo minimalismo pop aplicado a paisagens biográficas e a um gosto reconhecido pelo jazz clássico e a bossa nova que, ao vivo e como testemunhado em 2018, merece insistência. A oportunidade está marcada para 19 de Novembro no Auditório Francisco de Assis do Colégio Francês (Amial, Porto) quando a digressão alcançar o velho continente... 



UM NOVO SAM BURTON!





















Em Outubro passado, uma nova e extraordinária canção de Sam Burton dava-se a ouvir (ali abaixo) - "Leaving Here Still" era o sinal de regresso após a estreia maravilha com "I Can Go With You" e um reconhecimento mais alargado do seu talento anotado por primeiras partes de digressões para Weyes Blood ou José Gonzalez. Mas havia um outro patamar para subir com a mudança para a prestigiada Partisan Records... 

A produção de Jonathan Wilson do novo álbum "Dear Departed" a sair em Julho é, certamente, uma benesse feliz que teve lugar no Topanga Canyon de Los Angeles ao lado de uma trupe de músicos de estúdio de estirpe comprovada. A qualidade é mais que notória em três das dez canções de um "retro pastiche" meloso que escorrega ainda melhor em dias de sol e noites amenas e que, nas palavras do próprio, representam o adeus uma versão de si mesmo! Para confirmar em Setembro, a três dimensões, pela Europa em meia dúzia de cidades.




quinta-feira, 22 de junho de 2023

JONATHAN BREE NO CLUBE!





















Ao anúncio de Fevereiro último quanto a "Pre-Code Hollywood", mais um excelente álbum dos neozelandês Jonathan Bree, não estavam associadas datas para concertos portugueses. Três anos depois da estreia nos Maus Hábitos, certo está agora o regresso ao Porto para um concerto na sala mais pequena do Hard Club em pleno mês de Agosto - dia 25, sexta-feira, uma noite de veraneio retro que se quer, mesmo assim, fresquinha apesar das meias/máscaras...


segunda-feira, 19 de junho de 2023

MELANIE DE BIASIO, NOVA VIAGEM!

Um novo álbum da magnífica Melanie di Biasio chegará em Outubro pela Pias. Têm o nome de "Il Viaggio" (Biasio tem ascendência paterna italiana) e foi registado em Itália e na Bélgica numa tentativa, certamente bem conseguida, de se reinventar. A prova faz-se, desde já, com "Now is Narrow" e "We Never Kneel to Pray", dois lados da mesma moeda, ou seja, duas variações sobre o mesmo tema de tonalidades eléctrica e acústica.


NICK DRAKE 75!















Parabéns NICK!

quarta-feira, 14 de junho de 2023

YARD ACT + ISRAEL FERNÁNDEZ Y DIEGO DEL MORAO + SPARKS + JULIA HOLTER + YVES TUMOR + NEW ORDER + BLUR, Primavera Sound Porto, 10 de Junho de 2023

















Para os Yard Act, apesar do atraso na entrada em palco, o concerto de estreia estava ganho - sol, cerveja e boa disposição imposta pela presença do vocalista James Smith a que muitos, conhecedores das canções, responderam com proximidade e suporte. Sem tréguas, a oleada banda de Leeds aproveitou para arrebanhar novos aderentes à custa de temas de apelo à dança e movimento naquele jeito britânico de falar de coisas sérias - o Brexit ou a corrupção - num encadeado palavroso de humor e sarcasmo a lembrar o mestre Jarvis Cocker. Nada mau para o despertar do "dia inglês" que prometia folguedo e que, assim, começou da melhor maneira!  


Saltar de um concerto de post-punk indie para um de flamenco puro no mesmo espaço deve ser caso único! Para espanto de muitos, de todos, no palco maior do anfiteatro natural sentaram-se Israel Fernàndez e o guitarrista Diego del Morao acompanhados de um percussionista de cajon e ainda dois batedores de palmas. O género andaluz, na sua essência, deveria ser acompanhado pela dança mas essa ficou para muitos dos espanhóis presentes entre olés e vales a preceito, enquanto a voz de Israel se estendia, imponente, colina acima. Uma boa surpresa e que regressará a Portugal ainda este mês.         


Os Sparks dos manos Ron e Russell Mael há muito que já cá deveriam ter vindo. Ponto. Claro que mais vale tarde do que nunca, como se viu e ouviu na estreia feliz de sábado, provando que o pop recheado e sofisticado, que praticam há mais de meio século, envelhece fortificado e renascido. Juntaram-se muitas canções novas de "The Girl Is Crying in Her Latte", o mais recente de uma trintena de álbuns editados desde 1971 e que tem no tema título, com video imperdível de/com Cate Blanchett, mais uma grande canção que, afinal, se deveria chamar "The Girl Is Crying in Her Pingo", uma variação que o próprio Russell degustou com aprovação já na Invicta. Depois houve o figurão Ron no seu estilo ao piano, um misto de seriedade e desafio a provocar estranheza mas também muitos sorrisos aquando da introdução a "Shopping Mall of Love" ou o momento de dança uns momentos mais à frente... Concerto ritmado, alegre e de excelente sequência! 


Sete anos depois, Julia Holter voltou ao terreno arborizado e ao ar livre do Porto embora seja no recanto de uma sala de aconchego onde gostamos mais de a ouvir a encantar. Não faltaram, mesmo assim, alguns momentos de feitiço - "Feel You" ou "I Shall Love 2" - que deveriam ter sido dignificados com menos conversa tagarela do público e mais atenção e empenho. Malgrado os desrespeitos, um verdadeiro spa de tonificação e beleza!    


Não seria fácil bater aos pontos a anterior e única passagem de Yves Tumor pelo festival. Negra, arrebatadora, insultuosa ou libertadora, a noite de 2019 confirmou um diabo à solta de que se esperava nova investida mortífera. Se a negritude e um certo caos em palco se repetiram na intenção, o que vimos foi um Tumor mais recatado e fleumático mas, ainda assim, de nervo à flor da pele perante uma imensa plateia em nítido pousio de espera para chegar a outros palcos. A energia, contudo, esteve sempre ligada em trifásico apesar da estroinice dos caprichos e da exagerada comiseração.             


É certo que o curriculum ao vivo dos New Order nunca foi uma folha limpa. Também é certo que em Coura (2019) a banda não se tinha espalhado totalmente ao comprido, embora a transmissão radiofónica que ouvimos na altura do espectáculo nos tenha, mesmo assim, assustado no temor. Foi, por isso, de expectativas recatadas que vimos a banda entrar em palco para largar um "Regret" e um "Age of Conset" aceitáveis e até consistentes apesar das notórias e antigas fraquezas da voz de Bernard Summer. Tudo sugeria ser, assim, uma rodada máquina de luz, cor e som em crescendo mas quando se deixaram de ouvir os instrumentos a meio de "True Faith" para assobio geral, o concerto perdeu parte do enlevo ganho até essa momento para muito dificilmente se endireitar. Uma nova tentativa de retomar a canção teve o mesmo fim inesperado da amplificação o que irritou os dois lados da contenda de forma contundente e que nem mesmo o regresso com uns imediatos "Blue Monday", "Tempation" e "Love Will Tear Us Apart", de enfiada, evitou no dissabor. Até nova ordem, não haverá pois (desas)sossego!  


O que dizer mais dos Blur? Se a festarola de há dez já nos tinha parecido imbatível, a de final deste festival foi um pouco mais duradoira e, como convinha, celebratória. Jogando em alguma surpresa no alinhamento - "There's No Other Way" surgiu entremeado com o inicial e estranho "St. Charles Square" e "Popscene"- a partir de "Cofee & Tv" foi sempre "downhill" na expressão sarcástica de um Albarn monstruoso em cima de palco e fora dele. Um máquina compressora super-pop que provocou alienação e muita pândega mesmo que o cansaço de muitos, nós incluídos, pareça ter feito pausa para que este britpopular se instalasse, hit atrás de hit, até ao final apoteótico. Qual será o raio do rejuvenescente?  
   

segunda-feira, 12 de junho de 2023

MY MORNING JACKET + NxWORRIES + PET SHOP BOYS + ST. VINCENT + LE TIGRE, Primavera Sound Porto, 9 de Junho de 2023

















Considerada uma das últimas grandes bandas americanas, os The Morning Jacket estrearam-se em Portugal num agradável fim de tarde soalheiro perante uma resistente e larga família de aficionados. Mereceram todas as palmas e gritos de apoio que receberam pela prestação soberba onde desfiaram, sem exageros ou adornos, uma verdadeira preciosidade musical. Ouviu-se rock na sua essência e plenitude, uma ode que Jim James soube, como poucos, liderar numa magnificência rara e tensional. Sem dúvidas nenhumas, um dos melhores concertos do festival.    


Se levarmos à letra a dicção pretendida para NxWorries, ou seja, "no worries", talvez seja fácil descrever o concerto de Anderson Paak e do produtor/dj Knxwledge - uma hora e pico de diversão e boa disposição para uma imensa maioria. Paak assumiu a frente de palco, jogando na interacção e desafio, enquanto, mais acima, o amigo controlou os botões e sequências de temas gravados para um primeiro álbum de parceria em 2016 e que terá segunda insistência para breve. Acrescentou-lhe ainda memórias em imagem e som de variada estirpe, dos Oasis (sim, esses), a Whitney Hosuton ou Lenny Kravitz a despertar coros afinados só interrompidos pelas entradas e saídas de Paak. Numa das ocasiões, arrastou para o palco uma longa fila de beldades femininas receptivas a entrar no bailarico e na galhofa. Surreal e, lá está, tudo na descontra!     .       


Refreando expectativas, a estreia dos Pet Shop Boys no Porto assentava nessa premissa evidente para quem, como nós, sempre lhes deu pouca importância mas nunca os desrespeitou. Visualmente irrepreensível, o espectáculo foi somando êxitos atrás de êxitos mesmo qua algumas das opções do alinhamento, apesar de distantes no tempo, nos continuem a causar urticária eterna (por exemplo, "You Were Always on My Mind" ou "Domino Dancing"). Quarenta anos depois e sem grandes surpresas, ao duo londrino só podemos apontar, mesmo assim, competências e múltiplas virtudes que, longe de um anacronismo injusto, se manifestaram plenamente funcionais. Contrariando o refrão da última canção, eles não foram, longe disso, uma chatice.        


Nove anos depois, Anne Clark aka St. Vincent regressou ao parque da cidade por onde já passeou muita classe. Aumentou, naturalmente, a audiência e a variedade das canções de seis álbuns de originais, mas foi "Daddy's Home" (2021) o fio condutor de uma sequência em crescendo que teve em "New York", cantada entre fãs da primeira fila, uma pedra de toque luminosa. Na rodagem desses novos temas, implicou-se uma teatralidade insistente, mas talvez um pouco exagerada, que despertou atenção irregular apesar do elevado rigor instrumental só ao alcance de um grupo notável de cúmplices, com destaque para a guitarra de Jason Falkner e a voz de Stevvi Alexander. Ficamos, mesmo assim, na expectativa de uma melhor oportunidade, em reduto idealmente mais pequeno, para uma plenitude do usufruto vicentino.    
       

O trio nova-iorquino Le Tigre não brinca em serviço. São já vinte cinco anos de activismo intermitente usando a música como sirene contra a descriminação sexual, a corrupção ou o racismo, numa atitude de aparente descontracção e que ao vivo sugere uma aposta multimédia algo arriscada. À projecção das líricas na sua totalidade e detalhe, num género de karaoke encimando imagens e jogos de cores em flash, juntam-se as canções pop rápidas no feminino de camada arty comandadas por Kathleen Hanna e que tiveram tanto de fresco como de irritante. Ainda assim, um concerto incomum que confirma que nem sempre uma festa é divertida...

sábado, 10 de junho de 2023

THE BETHS + THE MURDER CAPITAL + SHELLAC + ARLO PARKS + GAZ COOMBES + JAPANESE BREAKFAST + THE MARS VOLTA + GILLA BAND + BAD RELIGION, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2023

















O sol radioso sugeria bons velhos tempos de outras edições do festival, um género de reconforto preparatório de pop descomprometida e na qual os neozelandeses The Beths são especialistas. Canções, por isso, de absorção rápida e instinto reagente, úteis para os primeiros refrescos líquidos e muita boa disposição. No cenário, de beleza enganadora, não se vislumbraram quaisquer nuvens. Proveitoso!


Óculos escuros, sapatos de bico, a pose do vocalista dos The Murder Capital sugeria que estes irlandeses são mesmo distintos e boníssimos. Certo é que o post-punk enegrecido que praticam faz parte de uma montanha de clichés e trejeitos a que só alguns conseguem dar sentido e firmeza para chegar ao cume. No caso, o disederato está ainda muito longe de acontecer e nem como cópia dos Fontaines D.C.... Desistimos em quinze minutos. 


Aos incontornáveis Shellac, que já percorreram quase toda a diversidade de palcos no Parque da Cidade, faltava esta consagração merecida - ocupar o antigo estrado maior do espaço natural sem o risco de sobre dimensão. A experiência do trio mítico de Chicago permite-lhe, a qualquer hora e local, jogar de forma certeira num limbo sonoro de ruído vigoroso e desafiante onde a mestria deixa sempre marcas. Notou-se. Repete para o ano.


Como uma das principais promessas da música britância, Arlo Parks não têm desiludido. Apesar das depressões e medos, na curta carreira, reconhece-se talento pop de sobra que permeia resistência e vigor extensível à poesia ou aos filmes, e que em cima do palco é de evidente eficácia. Encantou pela simpatia, pela dedicação é só foi pena que uma bátega grossa tenha chegado, forte, para interromper a perfeição. Sugeriu uma dança da chuva com "Eugene" para espantar as nuvens. Milagrosamente, conseguiu um majestoso arco-íris! 


Para a estreia nacional, Gaz Combees acompanhou-se de uma verdadeira banda rock. Longe vão os tempo de britpop com os Supergrass de quem foi vocalista e guitarrista principal, para se dedicar a um género de rock classificado de intoxicante e de que o último álbum "Turn the Car Around" é exemplar. Na envolvência, na sumptuosidade, o colectivo, quase anacrónico nestes tempos digitais, constituiu-se como a primeira de poucas surpresas do dia. Um luxo!


A primeira das sobreposições de horários entre a nossa lista de eleitos, levou-nos até junto dos Japanese Breakfast. O indie-pop a cargo de Michelle Zauner têm já uma mole de aficionados que permitiu preencher, literalmente, o espaço numa intensa gritaria sempre que terminava uma canção ou que Zauner elogiava o país e a dedicação. Pena que o acerto da voz, longe de inaudível, se tenha mantido num desequilíbrio constante o que acelerou o passo para uma outra volta.


A aparição dos The Mars Volta em Paredes de Coura no longínquo ano de 2008 é, ainda hoje, motivo de discussão. Somos dos que saímos de barriga cheia com a prestação endiabrada comandada pela voz de Cedric Bixler-Zavala e a guitarra Omar Rodriguez-Lopez para desistência de muitos. Em meia -hora, aquela que conseguimos presenciar, não pode haver incerteza quanto às capacidades de êxtase progressivo de um rock-fenómeno que se mantêm brilhante apesar do verdadeiro dilúvio chuvoso que se abateu sobre o palco principal. Eles estão de volta e com muitas ganas de continuar a experimentar limites e a derrubar barreiras/barritas energéticas!        


No mesmo avião dos The Murder Capital devem ter vindo, em atacado, os também dubliners Gilla Band. Ainda bem. Bem melhores na atitude de modéstia, bem melhores na abordagem inclassificável ao noise rock, bem melhores na experiência de efeito perturbante e extremo. Aquele "All My Money on Shit Clothes, Shit Clothes" do tema "Eight Fivers" com que terminaram a implacável aparição foi por muitos cantado em coro durante vários minutos depois da saída de palco... Um tormento apreciável! 
 
 

E que tal uma boa dose de punk-rock? Os Bad Religion tinham à sua espera uma entusiasmada trupe que não os troca por nenhuns outros desde há quarenta anos e a quem nem mesmo a melodiosa "The Wreck of the Edmund Fitzgerald" de Gordon Lightfoot, escolhida para a entrada em palco, acalmou nos impulsos. Um, dois, três e, zás, saia de lá uma catadupa de quase vinte canções em menos de uma hora a meias entre a plateia e o professor doutor em biologia Gregory Graffin que se mantêm no cargo de vocalista desde o início. Eficaz, alienador e sem molhas.    

3X20 JUNHO

sexta-feira, 9 de junho de 2023

GEORGIA + ALISON GOLDFRAPP + BABY KEEM + THE COMET IS COMING + KENDRICK LAMAR, Primavera Sound Porto, 7 de Junho de 2023

















O festival principal da cidade aproximou-se perigosamente da Circunvalação como comprova a imagem de cima. Onde habitualmente haveria arvoredo e céu como pano de fundo, temos agora também janelas e varandas cimentadas. Aproximou-se, ainda, de uma indefinição estratégica quanto aos seus conteúdos, aposta propositada de forma a alargar-se a todas as gerações, tendências ou géneros mas, acima de tudo, de públicos. Vale tudo, como se fez já notar desde há meia dúzia de edições atrás com todas vantagens e desvantagens implícitas. Vamos lá então mergulhar na incerteza.

A Georgia Barnes saiu-lhe a sorte grande. Abrir o (antigo) palco maior perante uma fresquinha massa humana já considerável é, certamente, desafiante e motivador e não admira a energia aplicada na percussão de uma invejável bateria eighties, nos rodopios ou nos incentivos. Pena que a pastilha elástica musical perca o sabor de forma tão rápida e pegajosa e que nem uma boa versão de "Running Up That Hill" escolhida para o final conseguiu disfarçar. Mesmo assim, o "let's party" prometido foi para alguns, poucos, indesmentível.

 

Grande coincidência! Alison Goldfrapp esteve no Coliseu do Porto no dia 7 de Junho mas de 2003 e, vinte anos depois, o regresso confirmou a tendência que nessa altura se tornava aparente - uma opção eléctrica de estética invertida ao disco etéreo de estreia chamado "Felt Mountain" (2000) e a que não mais voltou na subtileza. Foi, por isso, com alguns dos hits de uma carreira carregada de electrónica ao lado de Will Gregory, parceria que rompeu na estreia a solo em 2023 com "The Love Invention", que o concerto se fez de uma tensão charmosa de evidente competência que as lantejoulas azuis do traje reflectiram em pompa e muita classe.

 

A noite rapper tinha aquecimento agendado. Coube a Baby Keem ligar a máquina gímnica engajadora de fraseados a preceito e na qual bitch, mother fu++++ ou nigga se multiplicaram em catadupas de incontornável adesão e discursos/canções de curta duração. A resposta foi imediata e colectiva. O instrutor principal Lamar, com horário madrugador assegurado, ficou de certeza orgulhoso do pupilo. Para nós, a aula apesar de facultativa, de pouco serviu e o esforço não precisava de banho mas o chuveiro, vindo do céu, abriu-se e não mais parou...

 

Três anos depois, o cometa voltou a passar pelo Porto depois de uma aparição mais a norte (Coura) no verão passado. Os The Comet Is Coming em todas estas investidas não deixaram terra por queimar na sua intensidade desmedida obtida da inusitada mistura de um saxofone superlativo a que se juntam camadas de percussão e samples voadores. Desta vez, contudo, a viagem contou com fustigante chuvada contínua que não afastou uma considerável multidão nada preocupada com a molha desde que ela fosse energética e frenética. Inesquecível e abençoado!

 

Em 2014, Kendrick Lamar passou pelo Parque da Cidade para uma legião, já então, ferrenha. Prometeu voltar. Promessa cumprida, o empenho e adesão do público multiplicaram-se na dimensão e na partilha que nem a chuva impediu de ondular, cantar e vibrar a dobrar. A partir do palco, sozinho ou na companhia de alguns personagens/dançarinos para coreografias a lembrar as que Solange trouxe ao mesmo festival, o resultado foi o mesmo - festa e muita vibe. Um artista fino!

quarta-feira, 7 de junho de 2023

HELENA DELAND, SOM DA PRIMAVERA!

A jovem canadiana Helena Deland merece desta casa fieldade absoluta. Desde a edição do álbum de estreia "Someone New" em 2020 que lhe seguimos o aromatizado perfume pop de temas que vai largando amiúde como o que chegou agora de nome "Spring Bug", canção que é já habitual na setlist de concertos que a junta a Andy Shauf, Weather Station ou Soccer Mommy e que se pretende refrescante e, acima de tudo, espanta espíritos de temporadas recentes de confinamento. 

Tudo indica, por isso, que aos poucos se vai moldando um novo trabalho onde deverá constar "Swimmer", canção já destacada por aqui e que funciona como sentida mas airosa homenagem à mãe falecida em Agosto de 2021 e, talvez, o recente dueto com Claire Rousay. Apesar das nuvens, tudo agradavelmente primaveril!  

terça-feira, 6 de junho de 2023

UAUU #690

ASTRUD GILBERTO (1940-2023)














A cantora brasileira Astrud Gilberto ficou famosa por dar voz à versão inglesa de "Garota de Ipanema", tema lançado em 1963 como single do disco "Getz/Gilberto", resultado de encontro entre Stan Getz e João Gilberto com quem era, na altura, casada e de quem se viria a separar poucos anos depois. Foi a primeira mulher brasileira a conquistar um Grammy, precisamente com a referida versão da canção e que vendeu mais de cinco milhões de cópias! 

A sua carreira a solo traduziu-se em dezanove álbuns, o último dos quais do ano passado ("Jungle"), mas na nossa memória Gilberto é sinónimo de uma pequena rodela de vinil espanhola com redenções de "If Not For You" de Bob Dylan no lado A e "Brazilian Tapestry" de Emir Deodato no lado B, tema que integrou o excelente disco "Gilberto With Turrentine" lançado em 1971 em parceria com o saxofonista Stanley Turrentine (1934-2000). Trata-se de uma adaptação do tradicional brasileiro "Mulher Rendeira" que continua a soar magnífico. Astrud faleceu ontem, segunda-feira, nos Estados Unidos. Peace! 


segunda-feira, 5 de junho de 2023

ROSE CITY BAND, FESTA NO JARDIM!





















Há em muita da música norte-americana uma capacidade de reinvenção surpreendente. A dos Rose City Band, de Portland, é só mais um bom exemplo dessa naturalidade, desse despojo em não esconder influências, gostos e tendências, no caso, uma aura country de psicadelismo rock sem afrontas vindo da teimosia de Ripley Johnson, o compositor e faz-tudo de uma banda que em Abril passado editou o quarto álbum chamado "Garden Party". 

Há por lá doses generosas de pedal steel, orgãos roufenhos e solos de guitarra prolongados num groove arejado e que se quer de audição livre de paredes e muros desde que a natureza faça o embalo certo a temas como "Porch Boogie", "Slow Burn" ou "Garden Song" e para as quais foram convidados os amigos John Jeffrey na bateria e Sanae Yamada nos sintetizadores dos Moon Duo, o mais conhecido projecto de Johnson a que se acrescentam, ainda, os Wooden Shjips. Na sua razão, as canções só depois de tocadas ao vivo e rodadas em estrada é que ganham a sua plenitude, o que acontece a partir de amanhã pela Europa em alguns "jardins" selecionados. 

Depois, há "Mariposa", um imenso prazer ininterrupto de quase oito minutos que se quer obtido num baloiço exterior de copo na mão, reparando no barulho do vento nas árvores, no rodado longínquo e ocasional de carros ou em voos de borboletas atarefadas. Uma energia festiva mas renovável a cada audição.



sexta-feira, 2 de junho de 2023

MARC RIBOT'S CERAMIC DOG, DE PARTIR A LOIÇA!













Um mês e pico depois da passagem por Ovar com o seu projecto The Jazz Bins, o guitarrista Marc Ribot têm já regresso agendado ao nosso país para dois concertos agora com(o) trio Ceramic Dog - Braga (GNRation, quinta, dia 6 de Julho) e Lisboa (Culturgest, sexta, dia 7 de Julho) serão os palcos bafejados por uma torrente de tensão pop-avantgarde, muito improviso e delírios free jazz e só é pena que a data minhota coincida com a visita de Kevin Morby ao Porto. 

A digressão, que começa já para a semana nos E.U.A. e se prolonga pela Europa até ao final do ano, servirá para a apresentação do novo álbum "Connection" e terá ao vivo os mesmos parceiros, isto é, Shahzad Ismaily no baixo e Ches Smith dos Secrets Chiefs 3 na bateria, trio que registou o disco no estúdio Figure 8 de Brooklyn com múltiplas ajudas, de Syd Straw nas vozes a Antony Coleman no Farfisa ou Greg Lewis no orgão Hammond B3. Fica por aqui o tema título e também uma recordação retirada do excelente "Songs Of Resistance 1942 - 2018" onde pousa o inenarrável "Rata de dos Patas"...


UNKNOWN MORTAL ORCHESTRA DE SECRETÁRIA!

quinta-feira, 1 de junho de 2023

THE CLIENTELE TÊM SEMPRE RAZÃO!





















Somos clientes antigos dos The Clientele, colectivo britânico com mais de trinta anos de actividade mas a que passamos a recorrer com frequência logo que lhes deitamos os ouvidos aquando da maravilha "A Strange Geometry" em 2005 e que chegaram a visitar a Invicta um par de vezes. O produto sonoro de elevado teor de acordes e melodias mantêm-se inalterado naquele indiscutível slogan "banda indie de guitarras" mas de acutilância constante tal como se confirmou em 2017 com a edição de "Music for The Age of Miracles". Em breve teremos mais uma dose de qualidade! 

No final de Julho a Merge Records terá o privilégio de editar "I Am Not There Anymore", álbum de dezanove canções de uma colheita trienal cuidada entre 2019 e 2022 e depois calibrada e adornada no estúdio londrino Bark, Snap and Klank. Ao trio instrumental de base - Alasdair MacLean nas vozes e guitarras, James Hornsey no baixo e piano e Mark Keen na percussão e bateria - juntou-se um quarteto de cordas e um duo de metais na recreação de uma receita de notória tentação que pode ser, desde já, testada em "Blue Over Blue" e, não de forma tão imediata, em "Dying In May", a primeira de uma carreira que não suporta guitarras e coros e que funciona como um acaso experimental. Na capa, como é hábito, uma impressiva pintura ("Long Life", 1823), desta vez, pertencente ao artista e literato japonês Kameda Bōsai.