terça-feira, 18 de junho de 2019

BILL CALLAHAN, UMA IMENSIDÃO!

Confirmando e extravasando todas as expectativas, o regresso prolongado e subtil de Bill Callahan é disco do ano e de todos os anos. Uma imensidão! 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

FAZ HOJE (20) ANOS #05























R.E.M., Pavilhão Atlântico, Lisboa, 17 de Junho de 1999
Jornal de Notícias, por Paula Lobo, fotografia de César Santos, 19 de Junho de 1999, p. 61
. Público, por Luís Maio, fotografia de Miguel Madeira, 19 de Junho de 1999, p.36



BRUCE SPRINGSTEEN, À PATRÃO!

Isto de fazer grandes discos aos setenta anos não está ao alcance de todos! Bruce Springsteen, ao jeito de Dylan ou McCartney, continua inflexível quanto à manutenção de uma fasquia de qualidade surpreendente que alia coragem a bom gosto num punhado de treze canções reunidas em "Western Stars", o 19º álbum de estúdio editado pela Columbia/Sony sexta-feira passada. 

Ao longo do disco, há como um jogo de subtilezas orquestrais onde brilham, por vezes, os metais a lembrar os mestres Roy Orbison ou Bacharach, o "novato" Richard Hawley ou até a pop dos Last Shadow Puppets e no qual aquela voz cada vez mais marcante e segura conta, encantada, histórias do velho Oeste de forma a nos hipnotizar e fixar na escuta. À patrão, como só ele sabe e podia fazer! 





domingo, 16 de junho de 2019

JOAN AS POLICE WOMAN, Auditório de Espinho, 14 de Junho de 2019

Na voracidade do tempo vamos desprezando uma série de artistas com obra feita e notável perseverança que são muitas vezes substituídos por outros de forma incompreensível e até injusta. O caso da americana Joan Wasser aka Joan As Police Woman é um desses exemplos em que a memória nos vai atraiçoando o reconhecimento e é preciso uma qualquer apresentação a solo para a avivar de forma clara.

Apesar de algumas dificuldades na voz suavizadas por constantes goles no chã (?) e notórias e indisfarçáveis contrariedades de espírito, a presença e classe com que Joan se apresentou em Espinho só veio confirmar o que já há muito tempo - onze anos! - tínhamos registado em Guimarães: uma composição muito própria que se adapta de forma perfeita ao piano ou à guitarra eléctrica e que recebeu pontualmente a ajuda da amiga drum machine vintage. Agora que a carreira está formalmente resumida numa colectânea tripla ("Joanthology"), o serão foi aproveitado para vincar que à quantidade e qualidade de álbuns (8) da discografia se junta uma diversidade de pérolas por descobrir e polir de forma urgente. São disso exemplo o inédito "What a World", a incontornável cover de "Kiss" e "Your Song", um lado B finalmente valorizado que serviu de suave pedra de toque final a uma noite de aparente leveza mas onde transpareceu sempre um assinalável requinte artístico.
    

sexta-feira, 14 de junho de 2019

BILL RYDER-JONES, Hard Club, Porto, 12 de Junho de 2019

Há dezasseis anos atrás, numa noite do mesmo mês, a menina Chan Marshall aka Cat Power subia ao estrado do bar Blá Blá em Matosinhos para um concerto memorável pelas más razões. Em mais de uma hora, que nos lembremos, tocou uma única canção a muito custo perdida entre devaneios, nonsense talk, bebida e mais bebida com o engrossar notório e ameaçador das reclamações, bocas e tensão, o que levou no final a uma montanha de pedidos de reembolso do preço do bilhete ao desgraçado do promotor. Não teve piada nenhuma!   

Quando Bill Ryder-Jones entrou, atrasado, em palco munido de água tónica para ir misturando com as garrafas de gin britânico Tanquerey que, tínhamos notado, já há muito que se encontravam à espera ao lado do teclado, tememos o pior. Confessado o gosto pela bebida logo que se levantou para tocar guitarra, o perigo de descontrolo como que se foi evaporando entre excelentes canções, histórias, piadas, provocações e um elevado nível de stan-up-comedy a que o público bondoso, cool, como reconhecido, foi respondendo, encaixando e apreciando.

Certamente que a set-list previamente definida não foi totalmente cumprida, mas, who cares, o serão cargo de Jones e do parceiro Liam mesmo não sendo num pub inglês acabou por resultar numa partilha tão próxima e informal que envolveu ofertas de bebidas nos dois sentidos, empréstimo de palhetas vindo do público, pedidos de canções - quem solicitou a versão de "Something Like You" de Mick Head que acabou mesmo por ser tocado merecia uma dose extra de bebida - e a fatal discussão inglesa sempre que a sineta toca na hora do fecho: para onde é que vamos a seguir? A sugestão foi para montar a "tenda" um pouco mais acima... Tudo com imensa piada!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

[SHELLAC] + O TERNO + HOP ALONG + LUCY DACUS + BIG THIEF + JORGE BEN JOR + TIRZAH + KATE TEMPEST + LOW + YVES TUMOR + ERIKAH BADU, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2019













Aos incontornáveis Shellac, que já experimentaram mais que uma vez os vários palcos do Parque da Cidade e que na véspera tinham cumprido mais uma aparição obrigatória, faltava ainda esta faceta no curriculum: servir como banda de boas-vindas na prematura entrada do recinto para surpresa e alegria de alguns sortudos, a repetição de uma perfomance semelhante feita Barcelona na semana passada. Valeu e até para o ano!



Em sábado latino, havia já uma galera considerável no recinto soalheiro à espera do trio paulista liderado por Tim Bernardes. O alinhamento que os O Terno escolherem rapidamente fez efeito festivo com as letras entoadas por uma maioria conhecedora e decidida a reinar pela alegria e partilha tão ao jeito contagiante dos canarinhos. Firmou-se ao vivo a qualidade da composição traduzida em canções de arranjos reciclados da tradição brasileira mas a que se junta um condão muito próprio que começa a ser facilmente reconhecível à primeira escuta. Atendendo à recepção e qualidade demonstrada, voos mais altos se adivinham.



Não eram muitos os que se reuniram no anfiteatro principal para ouvir os norte americanos Hop Along, uma aposta, ainda assim, premiada. Só pela voz de Frances Quinlan a ressuscitar a jovem Janis Joplin já valia a pena não dispersar e tomar em conta o conjunto de temas abrasivos e de pureza rock que o vento forte parecia querer espalhar bem longe até que alguém questionasse se o Bon Scott tinha reencarnado no feminino... Não, mas brincadeiras à parte, aos Hop Along há que continuar a prestar muita atenção!     



Sabíamos de antemão que isto iria acontecer - abandonar o concerto de Lucy Dacus ao fim de quinze e bons minutos teria uma custosa sensação a traição no que até aí sugeria ser uma actuação sem mácula e que prometia ainda maior recompensa atendendo ao suposto alinhamento que fomos antecipadamente confirmar. Jovial e segura, Dacus tem talento para dar e vender e só esperamos ter a sorte futura de o confirmar de forma tranquila. Agora havia que correr colina acima... 



Desde o primeiro disco temos os Big Thief como um caso sério de notável habilidade artística traduzida em grandes canções que um portefólio já considerável não permite facilmente seleccionar. Adrianne Lenker e companhia agarram qualquer um pela profundeza e classe de uma composição tradicional que só algum do melhor indie rock consegue absorver sem pecar e que ao vivo faz ainda mais efeito trepidante. Como último concerto da actual digressão notou-se uma alegria e cumplicidade ainda mais agregadora traduzida num final animado com a chamada ao palco da totalidade da equipa para uma despedida ao som de "Masterpiece" e a que só faltou um encore onde o mais que pedido "Mary" acabasse em definitivo com o deslumbramento.



Os quase sessenta anos de carreira de Jorge Ben Jor não cabem, obviamente, num só concerto mas a verdadeira patuscada que presenciamos na sua última parte pareciam um concentrado de êxitos populares que começou com mais "Mas Que Nada" ainda descíamos em zigue-zague a colina e só acabou trinta minutos depois sob ovação generalizada e tantos, mas tantos, sorrisos de satisfação. Se a intenção era comemorar o samba, a bossa nova, a MPB ou simplesmente a música brasileira ficou provado que, desculpem lá, estas canções já não tem dono, país, língua ou sequer idade comprovada a não ser uma classificação de maravilha cultural da humanidade!         



Numa primeira ronda desviante a um flamenco dito moderno, deparamos com duas propostas interessantes - a jovem inglesa Tirzah em registo de intimidade e negritude adornadas por Mica Levi a que uns tantos deram a devida aprovação; a não tão jovem Kate Tempest, artista, poeta, romancista e, no caso, performer de spoken word timbrada em alguma subversão e força das palavras logo agora que os dias britânicos e, consequentemente, europeus e do resto do mundo se afiguram de imprevisível compatibilidade e de sempre adiada e nada fácil harmonia.





Sem muitos rodeios diremos que os Low deram um grande concerto. Nem sempre a banda tem em disco merecido a nossa devida vénia mas confessamos que não largamos "Double Negative" desde que saiu em 2018. Negro quanto baste, a sua aura de mistério e minimalismo surgiu ao vivo como que plasmada num jogo de luzes monocromático que vai variando na cor e intensidade e que recorta a silhueta do trio num jogo de sombras em que os Jesus & Mary Chain fizeram escola. Depois, obrigado, houve tempo para "Lies", um sublime exemplar de magia que envolve uma das líricas mais fascinantes contidas numa canção e que termina com aquele "I should be sleeping by your lonely side instead of working on this song all night"....



O recinto nocturno situado entre árvores pode ser o mais pequeno mas ele é, certamente, o mais profícuo em concertos tardios inesperados e surpreendentes. Tem sido assim ao longo de quase todas as edições e este ano não fugiu à regra: Yves Tumor arrasou concorrências, multiplicou afrontas, lançou maus/bons olhados e arrebatou a plateia esbugalhada e a defender-se como pode de tanta intensidade ao longo de uma primeira investida ainda controlada e que deu direito até à oferta de posters da banda por alguns sortudos da primeira fila. Quando Tumor saltou para a frente do palco desafiando e brincando com os "melhores seguranças do mundo" enquanto a banda franzia a base instrumental das canções - aquele guitarrista em pose vintage a la Whitesnake já não é deste planeta - o jogo do gato e do rato parecia não ter um fim previsível, incerteza ainda maior com o rompimento das grades... Tumor foi, então, literalmente carregado no ar até sabe-se lá onde e o regresso ao palco para o arrasador "Lifetime" culminou da melhor forma um ciclone sonoro que até Solange Knowles (reparem bem no video abaixo ao minuto 26:17) não resistiu experimentar. Um vendaval passou por aqui!



Parece que o atraso no começo dos concertos de Eykha Badu é uma tradição infalível. À custa desses quarenta minutos de delay ainda acabamos por ter a sorte de testemunhar uma artista com o público na palma da mão, melhor, das duas mãos e perfeitamente embalado pela sua soul de modernidade acentuada. Não sabíamos e não reparamos que essa onda tinha uma tal imensidão de adeptos conhecedores e já, nesta altura, verdadeiramente hipnotizados pelo longo momento de partilha. És linda, gritou-se, foi lindo, confirmou-se!   

domingo, 9 de junho de 2019

ALDOUS HARDING + NILÜFER YANIA + NUBYA GARCIA + COURTNEY BARNETT + SONS OF KEMET XL + INTERPOL + JAMES BLAKE, Primavera Sound Porto, 7 de Junho de 2019
















Ainda agora a apresentação ao vivo de Aldous Harding no anfiteatro principal nos deixa apreensivos por más e boas razões. Começando pelas desagradáveis, restam uma série de perguntas à organização do festival que julgamos pertinentes - havia necessidade de programar para o palco cimeiro um concerto quase simultâneo e incompatível que se sabia barulhento de uma banda coreana só porque sim? Antes do agendamento alguém, por acaso, ouviu a música de Harding e a sua subtileza e, já agora, de uns tais Jambinai sem culpa nenhuma? Haverá ainda algum respeito pelos que compraram bilhete, e foram muitos, só para terem a possibilidade de ouvir a jovem artista convenientemente? As respostas, certamente negativas, afrontam um evento em fase de auto-sabotagem - este não foi o único caso - e em bicos de pé altivos em que a qualidade parece não ser muito importante mediante o peso dos números... enfim!       

A calma aparente e um engolir em seco constante perante a afronta não desmotivou Harding e companhia a, mesmo assim, alcançar um feito aplaudido e saudado de forma entusiástica o que nos leva a sugerir que a mesma organização a faça voltar lá para Novembro a um dourado teatro minhoto habituado a gente sentada para uma sagração que se exige urgente. Haja bom senso!



Para desanuviar alguma da raiva acabamos no palco ao lado onde a inglesa Nilüfer Yania e restantes jovens parceiras e parceiros tinham subido para três quartos de hora bem passados num registo seguro e de adorno maleável na pop e no soul-jazz. O disco de estreia "Miss Universe" editado este ano serviu de fonte principal das canções ensolaradas que não precisaram de qualquer protector especial mas sim da bela da cerveja e uns óculos escuros à maneira. O verão está quase aí... 



Ainda a tempo de uma pequena saltada ao estrado mais bonito do recinto para uns últimos momentos com a saxofonista Nubya Garcia, promessa do novo jazz britânico com créditos já firmados nas redondezas - esteve no "Milhões de Festa" em 2018 - e que irá regressar já em Julho a Braga e ao GNRation. Ficou o aperitivo, mesmo assim, saboroso e a vincada recomendação para não abandonar o local antes da chegada de uma irmandade baptizada de Kemet. Anotamos a sugestão mas a ementa era demasiado variada para exclusividades.     



Novamente atrasados para um concerto de Courtney Barnett no mesmo festival, denotamos a mesma energia, destreza e sapiência de um trio rock em perfeito funcionamento e oleado por canções de resistência assinalável e impulso frenético. A plateia agitada de final de tarde mostrou-se de braços abertos e pronta a acolher tamanha energia sentida em alguns coros colectivos e imediatas aclamações que prometiam um concerto em crescendo mas acabamos por não resistir ao chamamento da tal irmandade vinda do "santuário" mais acima...       



A versão XL dos Sons Of Kemet implica nada mais nada menos que quatro, sim quatro, baterias em palco em constante rotação e complemento embora esse pormenor funcional não seja facilmente perceptível. Ao contrário, a sua força e vitalidade como que invade a massa humana pelo nervo auditivo que, num instante, nos faz mexer os braços, as pernas e a cabeça numa energia distendida ainda por um saxofone e uma tuba em duelo frenético. Por vezes juntou-se um vocalista agitador e desafiador a que uma arrebatada assembleia em delírio foi dando resposta pronta desde que a festa e o efeito da poção mágica se prolongasse ao máximo. Definitivamente e para memória futura, um dos grandes concertos do festival.     



A espera desolada por espectáculos mais apetecíveis e a tentativa de ignorar o reggaetonero Balvin deixou muitos a ter saudades do exagero electrónico de palcos principais em horário nobre doutras edições... O que se ouvia do largo na fila do café sugeria, sem desprimor, uma qualquer festa de aldeia onde não faltou o pormenor da camisola CR7 ou até um bailarico de queimados estudantes, causando-nos um arrepio e sincera tristeza atendendo a que as alternativas - Liz Phair e Fucked Up - também assustaram uma maioria a vaguear entre tendas de alimentação ou resignação sentada.

Valeu que os Interpol parecem recauchutados com primor por comparação com a anterior passagem pelo recinto. Jogando com os trunfos certeiros de canções que os fizeram grandes - por exemplo "C'mere" logo a abrir as hostilidades sem esquecer "PDA" ou "Slow Hands" - a banda saiu favorecida pela aposta num palco menor e mais próximo de uma maré de aficionados que não deslarga dos nova-iorquinos por nada deste mundo, uma  chama acesa e viçosa que nem sempre se mantêm elevada atendendo a que nem tudo continua bem tocado e cantado ao vivo... Seja como for, contra a força e virtude deste rock não há argumentos.     

A música de James Blake já não é para ser tocada e desfrutada ao vivo. Ponto. Foram já várias as experiências e tentativas que fizemos para o contrariar embora a sua estreia no mesmo palco em 2013 tenha funcionado satisfatoriamente. Aguentamos o mais possível o desenrolar de temas quase sempre pouco aplaudidos e até ignorados até que chegou a vez de "I'll Come To" e "Limit to Your Love". O nosso limite, lá está, tinha chegado ao fim.

sábado, 8 de junho de 2019

MEN I TRUST + BUILT TO SPILL + JARVIS COCKER + STEREOLAB + SOLANGE, Primavera Sound Porto, 6 de Junho de 2019
















Num ano atípico quanto ao cartaz mas que seria previsível atendendo às tendências infiltradas das últimas edições, o primeiro dia do Primavera Sound Porto teve ainda a ajuda na desgraça de um tal Miguel depressivo que emite chuva e vento zangados nada primaveris mas que dá tréguas se lhe pedirmos muito!

Os simpáticos Men I Trust aproveitaram, desde logo, a primeira concessão soalheira e trouxeram a banda sonora adequada ao momento, uma pop calma e balançante que até soube bem nas primeiras canções mas que depois se foi repetindo na fórmula para desistência, sem retorno, de alguns na procura do primeiro refresco amarelo ou simplesmente para apanhar sol enquanto foi possível...



A fama longínqua dos Built To Spill tem a módica idade de vinte e sete anos traduzida em fãs fieis e discos embebidos do chamado indie rock mas a banda sempre foi aqui na casa sinónimo de uma simples canção incluída numa compilação da Red Hot Organization (Red Hot + Bothered, 1995).  O guitarrista Doug Martsch é também o vocalista dono de um timbre a la Wayne Coyne ou Jonathan Donahue que se estranha mas que não se entranhou o suficiente para agarrar a plateia a matar a curiosidade e já a pensar nas opções do jantar. Foi o que fizemos.



O nosso último contacto com os Pulp e Jarvis Cocker ao vivo tem mais de vinte anos (1998) e deu-se no chamado rockódromo das Antas num festival efémero ao lado de Nick Cave ou Ben Folds Five. Com o epílogo aos soluços da banda, o seu mentor tem mantido a solo uma variedade de colaborações e álbuns de originas de requintado teor suportado numa postura de irreverência e distância a um mainstream abusivo para enorme carinho e suporte dos aficionados. Cedo se percebeu esse conforto e partilha nos discursos e interacções satíricas, piadas sérias ou desafios nonsense que as canções lançam sobre o envelhecimento, a desumanização ou o raio da política sabuja num suporte visual e instrumental irrepreensível, seguro e de bom proveito - literalmente palpável em chocolates, badges ou goodies atirados para a plateia - mesmo que a chuvada momentânea tenha assustado os mais desprevenidos. Nada que a boa disposição e muita classe de um encartado mestre da pop não possa mandar parar...     



Algum dos temores quanto à actualidade, melhor, validade dos Stereolab tiveram uma volatilidade imediata logo à primeira canção. A reunião do colectivo vanguardista dos anos noventa apesar de criticável tornou-se inatacável pela eficiência de uma sonoridade que parecia datada em temas como "French Disko" ou "Ping Pong" mas que uma década de pousio não azedou. Muito longe disso, o concerto foi de uma sobriedade e inteligência notáveis, uma dezena de temas de seleccão perspicaz e execução perfeita culminada com o alucinado clássico "Lo Boob Oscilator", dez minutos de mistura de ingredientes e géneros de que só este laboratório tem a patente e o segredo!   



A estranheza do cenário onde uma escada conduzia a um piso superior no qual se embutia uma caixa para a bateria tinha o branco como única cor. A troupe de músicos, dançarinos e vocalistas de trajes negros e a respectiva ocupação dos lugares sugeria um ritual preparado a rigor para uma entrada endeusada e altiva de Solange. Errado. A noite haveria de ser bastante colorida e de fragrância subtil espalhada de imediato na imensa plateia pelo feitiço ondulante soprado na harmonia da voz, das vozes, da coreografia dançante e simétrica dos músicos e na muita simpatia e estofo artístico da mana Knowles. Mesmo a bátega de água repentina que quase no final decidiu atormentar o recinto acabou por se revelar abençoada, limpando e refrescando uma noite de coroação merecida e iluminada!

quinta-feira, 6 de junho de 2019

BENJAMIN CLEMENTINE, Teatro Aveirense, Aveiro, 5 de Junho de 2019

fotografia do facebook do Teatro Aveirense














Cumprindo o certeiro "não há duas sem três", voltamos a um concerto de Benjamin Clementine para tentar fechar a triologia começada em 2015 (a solo, Porto), em pausa até 2018 (com banda, Viana) e supostamente encerrada num teste derradeiro com este concerto acústico de teor clássico... Atendendo ao calibre da apresentação de ontem torna-se, no entanto, improvável não prolongar a série! A escolha do espaço aveirense há muito esgotado tinha óbvias vantagens - proximidade e até intimidade implícitas ao formato anunciado, público adulto, respeitador e dispensador de histerismos bacocos e, acima de tudo, uma acústica vibrante imediatamente perceptível no conjunto de instrumentos do quinteto de cordas e da voz cada vez mais segura do artista.

A noite começou quase em versão "best off" já que ao fim de pouco mais de meia hora a sequência de canções parecia cumprir uma qualquer e suspirada lista de pedidos - "Winston Churchill's Boy", "Condolence", "London", "Cornerstone", "Nemesis"... ufa - confirmando um songbook notável que os arranjos de cordas do colectivo francês ainda mais evidenciaram na sua pureza. Quanto a Clementine, longe vão os tempos da timidez e da gabardina mas que agora se solta em teatralidades, gestos e danças a preceito mesmo que os pés descalços não o ajudem na correria de regresso ao piano, o ponto de partida de muitas incursões nas traseiras (!) e frente de palco só para que se confirme, ainda e sempre, a sua elevada estatura, simpatia e elegância que uma negra gargantilha ao pescoço lhe confere eminente e distinto estilo noir et blanc.

Depois de "Adios", o encore fez-se do indispensável "I Won't Complain" mas a quase restante meia-hora surpreendeu pela sequência probatória de uma composição mais experimental e aventureira em temas como "Better Sorry Than Asafe", "Phantom of Allepoville" ou "Pharawell Sonata" a terminar, a confirmação das suas enormes capacidades de reinvenção, impertinência e imprevisibilidade salutar de quem não tem qualquer receio de apostar os melhores trunfos no início para colher mais à frente os louros em fortes aplausos e incentivos. Touché
   
Na primeira parte surgiu o jovem texano Beaven Waller, enorme pianista e compositor de fato apijamado e desconcertante bom humor para uma mão cheia de canções ao piano que importa descobrir num género a la Clementine, Randy Newman ou um vintage Wainwright. Por isso, atendendo a que na rede nada vão encontrar ainda sobre Waller (o canal de video não tem conteúdo, o site institucional segue o mesmo caminho e as redes sociais existem mas só para promover a actual digressão) o melhor é mesmo chegar a horas hoje à Guarda e depois a Braga, a Ponta Delgada ou ao Porto.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

FAZ HOJE (15) ANOS #04

























TELEVISION, Prado de Serralves, Porto, 5 de Junho de 2004
. Diário de Notícias, por Joana de Belém, fotografia de Pedro Granadeiro, 7 de Junho de 2004, p. 48

terça-feira, 4 de junho de 2019

WUME + DUR DUR BAND + [LA SPIRE], Serralves em Festa, 2 de Junho de 2019

Em quase uma década de actividade artística os norte-americanos Wume registaram apenas três álbuns de originais. sendo o último do ano passado. Certo é que a aparente míngua de discos é refutada por uma contínua carreira ao vivo que, finalmente, chegou ao sítio e hora certas - público interessado, som de eleição e um duo disposto a impressionar pela novidade e experiência instrumental de uma bateria e um sintetizador em desafio aprumado e improvisado. Nos variados e surpreendentes trajectos de ritmo usou-se uma energia renovável e limpa de resíduos permitindo uma vibrante e saudável viagem, como notado, entre arvoredo frondoso e refrescante... como a música! 



São muitos os exemplos vindos de África em que a afirmação artística colide com um qualquer regime político desinteressado em mudanças. Na Somália dos anos oitenta o burburinho causado pela Dur Dur Band levou à debandada arriscada dos seus elementos para territórios europeus, criando nostalgias e pesquisas sobre a sua música que a era digital acelerou num digging contínuo sobre o afro-funk ou o disco beats. Desde a entrada em palco, foi esse sabor retro dos arranjos e instrumentos que arrebanhou os resistentes para a dança e a interacção com a vocalista-mor ou restantes parceiros, um toma-lá-dá-cá de bonomia natural e desafiadora. Como baile de final de tarde e de festa. não se podia pedir melhor...



Apesar de não ser um concerto mas na qual a música e o ritmo tiveram um importante papel, deixamos algumas imagens da memorável perfomance acrobática "La Spire" entre azinheiras, barulhos de avião e muitos, mesmo muitos, suspenses e suspensões. Espantoso! 


segunda-feira, 3 de junho de 2019

THOMAS FEINER, IRRESISTÍVEL!

Na azáfama mirabolante de tentar não perder canções, tantas, álbuns, muitos, concertos, demasiados e ainda a explorar convenientemente o disco de estreia dos Exit North que hoje destacamos, não é que havia uma canção nova a solo de Thomas Feiner para ouvir desde Abril?

Trata-se de mais uma daquelas pérolas prontas a ir parar bem fundo numa arca de tesouro sonoro que Feiner vai aos poucos alargando para descarga e que parecem talhadas a juntar-se num álbum agregador de maravilhas. Esta chama-se "Casteo", tem voz, piano, produção, imagens e letra do próprio e não há como resistir...         


FILHO DA MÃE + ELEPHANT9 + ARP FRIQUE, Serralves em Festa, Porto, 1 de Junho de 2019

A guitarra de Filho da Mãe, ou seja, de Rui Carvalho, não é um simples instrumento para ser tocado entre os dedos. Ela serve como um catalisador processual de uma variedade de sons manipulados por pedais que nos fazem pairar num género de carrossel montanhoso de subidas e descidas instrumentais sem que seja perceptível qual a paisagem que se segue. Gostamos dessa incerteza na viagem e arriscamos dizer que, apesar de gratuita, só pecou por ser curta. 



"Estão a ensaiar"? A curiosa pergunta do miúdo ao pai (?) talvez fosse a que muitos cogitavam ao passar ou chegar ao prado demasiado soalheiro e quente apesar do cair da tarde. O que se ouvia não tem uma etiqueta fácil de definir como resposta mas a lição dada pelo trio norueguês Elephant9 foi demasiado vibrante para se esquecer. Aos poucos, a simples curiosidade sentada tornou-se numa agitada moldura de pé em frente ao palco, agradada com o poder de uma sonoridade simultaneamente antiga e moderna que o rock progressivo ou psicadélico há muito fez explodir e onde algum do jazz moderno se encostou sem vergonha. Uma bateria endiabrada, um baixo quase guitarra de outro mundo e aqueles vintages Rhodes e Cª em delírio fizeram do concerto um notável momento de comemoração e confirmaram um tal rótulo de "monstro musical" que não assusta mas, milagrosamente, revigora! 



Pode não ser nova ou pode não ser exclusiva mas a receita dançável dos Arp Frique é de uma eficácia imediata que não olha a idades, autores ou geografias desde que a festa e a alegria se cumpram sem grande esforço. Tudo bem feito, tudo sem grandes truques mas onde a competência se mede pela poeira levantada, pela diversidade de coreografias do público em puro divertimento e pelos sorrisos dos músicos em cima do palco. Joga-se numa plataforma giratória infalível que só o disco, o boggie e o afro-tropical permitem misturar num fluído energético ainda e sempre válido para delícia dos foliões portuenses ou de quaisquer outros com essa sorte. Um excelente freak out

UAUU #491

domingo, 2 de junho de 2019

CLARA! Y MAOUPA + HHY & THE MACUMBAS, Serralves em Festa, Porto, 31 de Maio de 2019

Num primeiro dia habitualmente mais calmo e talvez resultado da soma "Vasconcelos + calor", Serralves apresentava já uma multidão considerável no terreiro do ténis nitidamente pronta para a madrugada dançante. Pena que o ritmo encontrado para este aquecimento a cargo de Clara! Y Maoupa tenha recaído num tal de reggaeton que só se encara de duas formas - de frente, porque se gosta e é bom, se vira costas porque se abomina e é mau. Apesar do esforço em tentar o embalo da simpática reggaetonera galega de serviço, ainda não foi desta... Decididamente, fazemos parte dos turn around!   

Já no prado arejado a avalanche ritmada dos portuenses HHY & The Macumbas mereceu-nos outra adesão. A explosão de cadências de duas baterias supostamente complementares a que se juntam samplers e outras batidas teve no magistral duo de metais o condimento de indisfarçável refinamento sempre que o encadeado de sons se começou a avolumar sem freio. Tamanha macumbada implica um mago habitualmente de cara e costas virado para o público, um género de ritual ancião sinalizado por uma máscara vermelha na nuca. A cerimónia em que ele próprio foi carregando à distância (?) alguns comandos sonoros a juntar à porção musculada teve tanto de dureza como de negritude mas o efeito foi avassalador e, em boa hora, pegadiço!       

sábado, 1 de junho de 2019

KELSEY LU, BELEZA DESCONCERTANTE!

Era um final de tarde pelo Parque da Cidade, a muita chuva e a bruma toldavam a clareza do colorido das flores e dos trajes de Kelsey Lu no palco arborizado para onde se deslocaram uns quantos sem receio do excesso de humidade ou da aproximação galopante do horário da cerimónia maior do mestre Cave. Passou quase um ano, mas não esquecemos aquela voz e figura de fala calma e simpática antes de abordagem às cantigas de um disco que se anunciava ainda não gravado e que nos brindou e abençoou com vinho branco e nos atirou estrelicías frescas!

É de toda esta saborosa melancolia que nos lembramos sempre que pomos a rodar o disco de estreia nomeado "Blood" saído em Abril, um confessional e emocional testemunho de sobriedade e infusão pop bem nítido, por exemplo, nas suas duas primeiras canções que se semeiam abaixo. Sublime, surreal e surpreendente e um dos mais belos e admiráveis álbuns do ano.




sexta-feira, 31 de maio de 2019

BERNARDES, AFINAL HAVIA OUTRO!















Chama-se Chico Bernardes, é filho do compositor Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) e Lucília Bernardes, irmão mais novo de Tim Bernardes e também canta e faz canções. Aos dezanove anos prepara-se para editar um álbum de estreia na Selo Risco, a mesma casa de discos do mano e onde saiu há pouco tempo o trabalho de regresso de O Terno a ser apresentado para a semana no Parque da Cidade portuense.

Para já, revela-se a veia talentosa de sintonia semelhante à de Tim, uma voz e guitarra a preceito comprovada em "O Astronauta", adiantamento bondoso do referido disco. Avisamos que ainda sobra Manuela Pereira, irmã de ambos e parte do trio "Os Pereirinhas" que o pai artista decidiu convocar para o acompanhar ao vivo no lançamento do disco a solo do ano passado "Outono no Sudoeste"... Que família!



JENS LEKMAN,TEMOS CORRESPONDÊCIA !

A troca de correspondência artística em forma de canções ao desafio entre Jens Lekman e a amiga Anikka Norlin teve o ano passado uma intensa actividade. Sem avisos de recepção e como anunciado, a cada um cabia enviar mensalmente uma modinha exemplar em jeito de desabafo inspirador sobre o seu dia-a-dia, os seus medos ou receios ou simplesmente o seu estado de alma... Em Abril as doze missivas sonoras foram finalmente embaladas em cartão amarelo do tamanho de um disco com o carimbo "Correspondence" bem impresso e onde também devia ter sido colado o aviso "Cuidado Frágil"... Toca a desembrulhar!



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quinta-feira, 30 de maio de 2019

PRIMAVERA SOUND, UM AZAR DO C#R%L&O!

























Só hoje começamos a olhar devidamente para o cartaz do próximo Primavera Sound Porto e, confirmando a pobreza penosa, não é que o programador especializado na matéria colocou a menina Lucy Dacus (Palco Superbock, Sábado, dia 8, 18h50) a tocar quase ao mesmo tempo dos Big Thief (Palco Seat, Sábado, dia 8, 19h15)?

Atendendo a que são tão poucos os artistas e bandas da chamada indie-alternativa de apreço aqui na casa que caíram neste caldeirão de sabor imprevisível, que é preciso ter um azar... do c#r%l&o!




SUFJAN STEVENS, SEMPRE O AMOR!





















Sendo Junho o mês das habituais comemorações do orgulho LGBT um pouco por todo o mundo, Sufjan Stevens aproveita a oportunidade solidária para editar duas canções em formato 7" de vinil colorido mas com antecipação digital imediata: "With My Whole Heart" é um tema completamente novo e "Love Yourself" foi composto há já vinte anos e contempla uma pequena reprise instrumental a incluir na rodela ao lado ainda da versão demo da canção.   





UAUU #490

quarta-feira, 29 de maio de 2019

JULIA HOLTER, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 27 de Maio de 2019

A longa digressão europeia de Julia Holter teve em Guimarães um ponto de partida sereno e sem grandes surpresas. Sete anos passados desde a estreia no pequeno auditório ali ao lado e um pouco mais de um mês sobre a perfomance no Westway Lab, repetiu-se a parceria dessa última noite ao lado de Tashi Wada e Corey Fogel mas a que se juntou uma trompetista, uma violinista e um contrabaixista acústico. A tão ecléctico ensemble cabia uma tarefa difícil - reproduzir a maior parte de "Aviary", disco de notabilidade artística facilmente audível e perceptível mas onde paira um certo risco na composição e nos consequentes arranjos instrumentais.

Ao vivo, ali na fila da frente, tamanho feito sonoro cedo se percebeu estar ainda longe de um resultado pleno, talvez devido à excessiva dimensão da sala que não teve um "aquecimento" ambiental que se impunha, talvez devido ao emaranhado e rigor técnico das partituras ou talvez, o que é o mais certo, porque não ouvimos o disco com a atenção que se exigia... Mesmo em temas mais orelhudos como "I Shall Love 2" ou "Words I Heard"" as "pontas conceptuais" soaram demasiado soltas ou desligadas e que só mesmo em temas mais antigos se acabaram por juntar condignamente.

Três deles valerem, desde logo, o preço do bilhete - a imensidão de "Silhoutte" e "Feel You" e, pára tudo, a versão lynchiana de "Hello Stranger", original de Barbara Lewis de 1963 que Holter transformou em tremura reluzente elevada a pérola sonhadora e que, experimentada pela primeira vez a três dimensões, continua, como convêm, sem descrição possível e a merecer, notou-se, o aplauso mais forte de um serão ameno.

terça-feira, 28 de maio de 2019

KASSIN, Auditório de Espinho, 25 de Maio de 2019

A notabilidade profissional de Kassin como produtor de uma imensidão de músicos e bandas brasileiras não o tem impedido de arriscar no registo das suas próprios canções de forma descontraída tal como acontece no último "Relax" de 2018. Há por lá, como notado, uma envolvente combinação de géneros de absorção muito própria e onde os traços de disco-funk ou de tropicalismo se cruzam numa produção sem mácula e saborosa. Mas, sim, sim, há sempre uma qualquer conjunção coordenativa para chatear, nota-se a restrita capacidade vocal que o trabalho de estúdio acaba por acertar e a que alguns acrescentam ainda a aparente pobreza lírica, um mundo muito próprio de absurdez ou infantilidade que tem tanto de criticável como de irresistível.

Ao vivo, mesmo com um brilhante combo instrumental e um som de sala de calibre certeiro, foi fácil detectar essa óbvia lacuna da voz mas que, verdade seja dita, nunca se tentou disfarçar - "Mundo Natural" e "Lin Quer" foram, a esse nível, os exemplos (im)perfeitos dessa atitude - num alinhamento com escolhas alternadas de "Sonhando Devagar" (2011) e do já referido "Relax" e cujo tema-título culminou da melhor forma a saída de palco, antecipando um encore em cheio com "Água" e "Ponto-final", agitadores de corpo antigos que mereciam bailarico e ginga ritmada. Palmas, essas pelo menos não faltaram. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

FAZ HOJE (24) ANOS #03





















CARMEL, Theatro Circo, Braga, 27 de Maio de 1995
. Público, por Jorge Dias, fotografia de Miguel Silva, 28 de Maio de 1995, p. 44

domingo, 26 de maio de 2019

KING SALAMI AND THE CUMBERLAND THREE, Barracuda, Porto, 24 de Maio de 2019

Na tradição de um qualquer velho clube de rock de uma velha cidade há sempre uma hora tardia mas certeira para a agitação festiva. Com um quarteto internacional deste calibre instrumental sob o reinado de King Salami And The Cumberland Three bastou a subida ao palco para que o folguedo não mais parasse de rebentar em canções de emulsão vintage de rock & roll, punk ou rockabilly e muita cerveja.

A celebração tinha no sexto aniversário da Chaputa Records, casa de discos nortenha habituada a cumprir promessas no que ao rock sem idade diz respeito, o motivo de animação (des) programada e de sequência anárquica mas infalível onde ao ritmo obrigatoriamente energético e acelerado se juntou um bizarro concurso de "pulpo dance" no feminino, várias incursões do guitarrista pelo público ou prostrações genuflexas colectivas... Não faltou até um versão avassaladora de "Negro Gato" de Roberto Carlos já gravada na referida Chaputa Records para culminar uma noite de contagiante boa disposição e memorável convívio salutar que só o rock, o verdadeiro, consegue. Viva o rei!


sexta-feira, 24 de maio de 2019

ERIKA DE CASIER + TORO Y MOI, Hard Club, Porto, 23 de Maio de 2019

Coube à menina dinamarquesa Erika de Casier aquecer a plateia ainda em fase animada de enchimento e alto volume de conversa. Se captar a sua atenção já não era fácil, a pouca luz projectada em palco e o volume da voz no limite do sofrível só ajudaram a que a oportunidade de envolvimento fosse perdida e que, raio, se questionasse para que serva o esforço de aquecimento nestas condições. Enfim... Valeu, mesmo assim, a licitude das canções retiradas de um disco de estreia recente de embrulho no r&b moderno e em constante rejuvenescimento.



Não, não, caro Chaz, não passaram cinco ou seis anos sobre qualquer visita à Invicta. No nosso caso, a única e primeira vez que vimos ao vivo Toro y Moi foi em Vila do Conde em 2011 e, por isso, urgia uma inédita dose de chã da CUF dançante em recinto condizente e postura descontraída pronta para a destilaria.

Atendendo à ementa disco funk do último álbum, o bailarico podia começar de imediato mas só à terceira canção com "Ordinary Pleasure" a onda de choque começou a fazer efeito, um balanço curto tal como os temas originais que precisam de "passagem" sabida e que teve na eficácia do velhinho "Stll Sound" uma agradável surpresa. Aquando de ritmos mais lentos era ver o bar apinhar-se de sequiosos convivas sempre à espera de motivos de força maior para esvaziar o copo que não demoraram a soar - "Fading" ou "Baby Drive It Down" por exemplo - mas foi com a dose dupla de "Freelance" que os copos acabaram mesmo entornados. Improvável e nunca vista esta versão imediatamente memorável de uma canção tocada, cantada e dançada colectivamente em repeat como que a carregar para trás num botão do tempo que não existe mas que afinal é possível para festarola generalizada! Foi como andar nas nuvens, melhor, na água... 


quarta-feira, 22 de maio de 2019

UAUU #489

CHANTAL ACDA, É A VEZ DE BRAGA!















Passaram menos de quatro meses sobre os concertos de estreia de Chantal Acda por Portugal e já se anuncia o regresso! Assim, dia 19 de Julho, sexta-feira quase a passar para sábado, no pequeno auditório do Theatro Circo em Braga há uma nova oportunidade sortuda de ouvir a pérola abaixo e certamente muito mais...


terça-feira, 21 de maio de 2019

JESCA HOOP, SINCERA TERNURA!

Depois do excelente disco ao lado de Sam Beam (2016) e da consagração artística com "Memories are Now" (2017), a menina Jesca Hoop, nascida nos E.U.A. mas com residência habitual por Manchester, tem um trabalho inédito pronto a sair pela Memphis Industries já em Julho. Para o efeito, regressou uma boa temporada à Califórnia nativa, jogando com algumas incertezas e desafios fora da sua zona de conforto, arriscando ainda uma viagem a Bristol para se juntar ao mítico produtor John Parish na depuração das canções.

O resultado chama-se "Stonechild", espelha alguma tensão nessa colaboração de autoria e a consequente edição minimalista e têm ajudas das amigas Rozi Plan, Kate Stables (This Is the Kit) e de Lucius que surge no single de apresentação "Shoulder Charge". Há já em pré-encomenda uma versão em vinil pesado com direito a um single em flexidisc e uma gravura assinada pela artista, cortesia simpática de amor ao planeta em constante perigo de subversão e que, de forma sincera e ternurenta, é como que abraçado em todas as canções. Aqui fica um primeiro carinho...

segunda-feira, 20 de maio de 2019

WEYES BLOOD, REGRESSO AO MINHO!

É o regresso imperioso, necessário e inevitável de Natalie Mering aka Weyes Blood ao Minho - no GNRation de Braga há concerto marcado para dia 5 de Novembro, terça-feira, para apresentação de "Titanic Rising", disco que por essa altura estará na antecâmera de qualquer lista de álbuns do ano. Acreditem!

domingo, 19 de maio de 2019

CHARLES WATSON, Centro de Arte de Ovar,17 de Maio de 2019

Do duo inglês Slow Club e das suas canções perfeitas para playlists só temos saudades. As razões da separação ou pausa artística de Rebecca Taylor e Charles Watson em 2017 depois de uma intensa digressão e ao fim de cinco álbuns registados lado a lado motivaram até um documentário on the road que nunca vimos apesar de ainda não termos desistido da oportunidade... Aproveitando, lá está, a oportunidade demos um salto rápido a Ovar para a apresentação do disco que sabíamos existir e que Watson auto-produziu a solo e editou precisamente há um ano sob o título de "Now That I'm a River" mas a que não demos particular atenção. Fizemos mal.

Ao vivo, em modo quarteto completo, o serão deu direito a surpresas agradáveis na descoberta de uma sonoridade folk sonhadora de matriz sofisticada como facilmente se percebe ao ouvir canções como "Abandoned Buick" ou "Tapestry", toada que causou forte impressão e resposta firme do pouco público presente em cima do palco do espaço cultural que merecia outra envolvente, adesão e fruição. Contudo, para pelo menos vinte crentes o esforço valeu bem o risco e quase atrevimento...     

ARP FRIQUE, FUNKALHADA EM SERRALVES!





















A romaria habitual ao parque de Serralves tem no dia 1 de Junho, Sábado, motivo de festa maior - a estreia de Arp Frique na cidade do Porto serve de apresentação gratuita do álbum "The Colorful World of Arp Frique" lançado pelo holandês Niels Nieuborg o ano passado. Trata-se, obviamente, de um mundo colorido preenchido de sons africanos, caribenhos e até cabo-verdianos caldeados pelo funk e o disco de cepa e registo muito próprio. Vai ser freak Chic!

sábado, 18 de maio de 2019

FAZ HOJE (23) ANOS #02

















UNDERWORLD, Discoteca Rocks, Vila Nova de Gaia, 18 de Maio de 1996
. Público, por Rui Catalão, fotografia de Mário Marques, 20 de Maio de 1996, p.31



sexta-feira, 17 de maio de 2019

UAUU #488

PVC - PORTO VINIL CIRCUITO #24

































Para quem colecciona discos em vinil, principalmente os singles, este autocolante redondo e dourado com o desenho hippie de um jovem a tocar guitarra e o nome Telmira colado na parte traseira da capa é um sinal comum da proveniência original de compra. Trata-se de mais uma discoteca do grande Porto situada na maior artéria da cidade que tinha localização junto do jardim do Marquês e que, atendendo à quantidade de discos que nos surgem à frente com a tal referência, deverá ter tido muito sucesso comercial desde os anos setenta já que o número de telefone não apresenta indicativo, acrescento só oficializado no final dessa década.

Entre uma churrasqueira e uma loja de malas em liquidação, hoje no local está instalada uma ourivesaria e a loja foi já aparentemente modificada na fachada com um pórtico em granito que envolve um persiana metálica negra protectora do valioso recheio... Pelo hábito que vamos confirmando ao vasculhar discos antigos, o recheio de então não seria muito ecléctico mas apontando aos êxitos populares tal como é referido sem rodeios na embalagem - "os últimos sucessos em música ligeira e clássica". A nós calhou-nos este!

Nunca lá entramos ao contrário de, certamente, muitos clientes que chegavam e saiam do centro da cidade por essa rua em troleicarros vermelhos de dois andares, nomeadamente o 9 e o 29 que vinham de Ermesinde, Travagem ou Águas Santas, faltando saber se, numa das ruas com maior efervescência comercial da Invicta havia, ou não, mais alguma loja de discos...   

                          Discoteca Telmira, Rua Costa Cabral, 13, Porto


                               Telmira Discoteca, Rua Costa Cabral, Porto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

RICKIE LEE JONES, VERSÕES & PONTAPÉS!





















Culto antigo aqui da casa, a notável e nunca resignada Rickie Lee Jones está de regresso com mais um álbum de versões a que chamou "Kicks" e onde contorna, à sua inimitável maneira, alguns standards da pop, do rock e do jazz dos anos 50 até aos 70.

O disco sai no dia 7 de Junho na editora OSOD (Other Side of Desire), selo da própria artista que desta forma cumpre o desígnio de publicar este projecto só possível em sistema de crowfounding e que foi registado em New Orleans com músicos e instalações locais. A produção dividiu-se entre Jones e Mike Dillon, vibrafonista da sua banda, e contempla dez abordagens a temas de Elton John, Louis Armstrong, Steve Miller Band ou Skeeter Davis e até os incontornáveis America de que se dá a conhecer a versão de "Lonely People" e o respectivo video alusivo.

Habituada a interpretar temas alheios, já em trabalhos semelhantes Jones nos tinha surpreendido com escolhas arriscadas vindo-nos à memória o grande "Pop, Pop" de 1991, uma dúzia de versões de alto calibre ou a parceria memorável com os The Blue Nile no Channel 4 britânico um ano antes e que não resistimos recordar. Essa e outras histórias estão contadas pela própria na recente auto-biografia "Rickie Lee" que vamos, obviamente, querer ler e reler...



terça-feira, 14 de maio de 2019

TIM BERNARDES, E VÃO CINCO!













Bem sabemos que antes ainda há o concerto dos O Terno no Primavera Sound da Invicta, mas já se anunciam cinco datas a solo de Tim Bernardes para Setembro! Lisboa, Santarém, Aveiro, Porto (CDM, 23, Segunda-feira) e Braga (Theatro Circo, 25, Quarta-feira) são as cidades escolhidas.

Recorda-se que Bernardes passou por perto em Junho passado, nomeadamente por Espinho e Lisboa onde registou esta maravilha junto ao Tejo. 

domingo, 12 de maio de 2019

KAMASI WASHINGTON, Hard Club, Porto, 10 de Maio de 2019

A audição de qualquer um dos grandes discos de Kamasi Washington para além de compensadora é também um bilhete de ida sem volta a um mundo por descobrir que, a partir do jazz, nos transporta em simultâneo para a soul, o funk ou o afro-latino. Essa dimensão plural tem na agregação de subtilezas instrumentais um trilho venoso que cada músico vai bombando meticulosamente de forma a que o resultado brilhe sem aparente dificuldade mas onde a qualidade extrema é um fito obrigatório e cerebral.

A transposição lubrificada desta máquina para cima do palco de uma sala onde se junta uma massa humana na expectativa de a ouvir a operar de fio a pavio - a bombar, como a agora se diz na gíria - é um momento sublime que ainda agora estamos a digerir gostosamente. Podem os puristas vir com os habituais e bafientos argumentos de profanação das regras ou das pautas, mas o espectáculo a que tivemos a felicidade de presenciar foi, na verdade, uma comunhão colectiva de amor e partilha à música que se eleva sem freio a uma espessura sonora caldeada de emoção, destreza, perícia e harmonia.

Para alcançar tamanha proeza unificadora Kamasi tem a seu lado no saxofone os parceiros e amigos certos a quem dá em concerto a tal visibilidade que os discos escondem e que, caramba, são de uma aptidão avassaladora. Para memória futura, foram eles, Ryan Porter no trombone, Miles Mosley no baixo tchhhh acústico, o pai Rickey Washington na flauta, Brandman Coleman nas teclas, um extraterrestre wonderiano de chapéu apropriado da NASA na cabeça que, aparentemente, substituiu uma vocalista em falta e Robert Miller e Tony Austin nas duas baterias, sim, duas baterias que se questiona para que servem mas que só ouvindo e vendo ao vivo, como no despique praticado, se pode tentar explicar de forma ligeira.

Ou seja, uma noite de celebração magistral onde uma corrente libertadora deu continuamente a volta do palco até ao fundo do recinto num imenso carrossel controlado e que só parou algumas vezes para ganhar fôlego sempre que o mestre levantou o punho, um gesto de comando mas, acima de tudo, de resistência e fúria em que a música sempre foi exemplar. És grande, Kamasi... e companhia!   

sábado, 11 de maio de 2019

TRACY BONHAM + RACHAEL YAMAGATA, Drogaria Bar, Porto, 9 de Maio de 2019
















A estratégia de promoção de um festival galego de feições atraentes e a que se deve estar atento (Jonathan Wilson a tocar numa esplanada!) trouxe até ao Porto uma dose dupla de artistas no feminino de elevada estirpe. A oportunidade improvável de ver Tracy Bonham e Rachael Yamagata a tocar num cosy bar da baixa não acontece todos os dias e, apesar do horário incomum, o espaço estava cheio e de frequência internacional, melhor, intercontinental! A mudança de recinto à custa da chuva insistente não espantou americanos, asiáticos ou sul americanos que cedo ocuparam os poucos bancos fronteiros entre goladas em copos de vinho ou cerveja para reparar o calor do recanto e na expectativa quanto a tamanha dádiva.

Começou Tracy Bonham que, desde logo, impôs boa-disposição em canções de voz segura, clássica até, e onde não faltou o hit "Mother, Mother" em versão a cappella e coro colectivo. Na estreia nacional tardia mas bem-vinda, ressaltou o domínio do violino - o pizzicato é sempre maravilhoso - e do piano e ficou-nos na retina auditiva temas de excelência como "Reciprocal Feelings" a encerrar (aquela destreza e classe com que ultrapassou a falha de memória quanto à letra só está ao alcance de alguns), mas, acima de tudo, uma canção que não precisamos o título (Where's My Village?) de acutilância activa quanto aos tempos estranhos em que vivemos... Bastava este pedacinho para dar a noite como ganha! 



Salas, teatros ou auditórios continuamente esgotados pela Ásia e Europa (na próxima semana há duas datas lotadas em Londres!) são uma realidade a que Rachael Yamagata se acostumou nos últimos anos ao lado de uma banda de músicos tarimbados sem, contudo, qualquer paralelo por cá. Notou-se, mesmo assim, a presença de alguns fãs nacionais mas, principalmente, a vibração e intensidade da maioria estrangeira em imediatas ovações estridentes e no soletrar incessante das letras, de todas as letras das canções! Animada, Yamagata respondeu com um alinhamento diverso e já profícuo retirado dos variados discos e no qual o teor de balada amorosa foi o mais audível e que a fez vingar como fenómeno internacional. Gostamos mais da versão que a aproxima de Regina Spektor ou Ray Lamontagne o que não pode embaciar a sua faculdade e condão em aproximar e encolher corações um pouco por todo o lado nem que seja no fundo de um bar simpático.

Vai, pois, haver sempre um dia ou um momento em que vamos continuar a lembrar uma lenda fidedigna que confirma que Yamagata e Bonham tocaram pela velhinha Rua Santo Ildefonso... 
      

sexta-feira, 10 de maio de 2019

RHYE, O ESPÍRITO DO PIANO!





















A música subliminar do projecto Rhye a cargo do canadiano Mike Milosh há muito que se entranhou na nossa veia pop. Ao excelente disco "Blood" do ano passado, que teve direito a apresentação pelo Parque da Cidade, junta-se agora um aparente regresso às origens com o novo álbum "Spirit" onde o piano ganha a primazia da composição em oito peças de amor à vida e ao espírito positivo que a prática do instrumento permitiu recuperar. Colaboram amigos como Thomas Barlett aka Doveman, Dan Wilson e Ólafur Arnalds no tema "Patience". Há também, a partir de hoje, um video dirigido pelo próprio Milosh para "Needed", avanço insuspeito de qualidade e sedução.

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

TORO Y MOI DE SECRETÁRIA!

HEATHER WOODS BRODERICK ENTRE PASTAS!

Directamente dos arquivos e estúdios de Manhattan da Paste, uma antiga revista impressa convertida em versão digital, temos vinte minutos na companhia de Heather Woods Broderick com tempo para explicações ou desabafos sobre o último e grande disco "Invitation" e três canções ao vivo, sendo que a primeira, "A Stilling Wind", é desde já uma das pérolas do corrente ano...   

terça-feira, 7 de maio de 2019

FAZ HOJE (15) ANOS #01




































ELVIS COSTELLO, Coliseu do Porto, 7 de Maio de 2004
. Diário de Notícias, por Marcos Cruz, fotografia de Pedro Correia, 9 de Maio de 2004, p. 41
. Público, por Rui Baptista, 9 Maio de 2004, p. 42

Nota: da era pré-blog (2006) e depois dos respectivos bilhetes e (alguns) videos televisivos, iniciámos hoje uma escavação documental resultante dum achado recente: uma pasta repleta de recortes de imprensa com críticas e reportagens de concertos em que estivemos presentes e que tivemos a paciência de guardar para mais tarde recordar. Chegou a hora... e a que acrescentaremos, se possível, uma canção ou momento marcante dessa noite ou desse dia. Velharias!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

ANNA ST. LOUIS, TAGV, Coimbra, 4 de Maio de 2019

Sobre a estreia coimbrã de Anna St. Louis em pleno palco invertido do teatro académico, uma inédita e estranha opção cenográfica e logística, podíamos talvez reclamar do desconforto das cadeiras, do ruído exterior de fundo ou da reduzida plateia aderente em noite de fitados e (ainda pouco) queimados...

Contudo, o concerto não deu é direito a duvidar da perfumante emissão de subtileza e sensibilidade das canções que, mesmo poucas, soaram sempre perfeitas e muito ao jeito do amigo Kevin Morby com quem Louis partilha, certamente, influências e alguns esgares vocais e que o primeiro álbum oficial "If Only There Was a River" editado o ano transacto acelera na confirmação.   

A penumbra do local, que só poucas vezes foi tenuemente aclarada, só veio somar mais mistério a uma alquimia clássica de voz e guitarra em que a folk americana é imbatível e que pairou ofuscante em versões cirúrgicas de Van Zandt ou Dylan mas que na voz e timidez da figura de Anna St. Louis cresce primorosamente em sedução e beleza. Ficamos feridos de... vida! 

THE DIVINE COMEDY, O REGRESSO DO CHEFE!





















O anunciado e prometedor disco novo de Mr. Hannon com os The Divine Comedy a sair em Junho terá o devido prolongamento ao vivo nas redondezas com datas em Lisboa, Coimbra e Braga (9 de Novembro, Sábado, Theatro Circo), cidade onde encerrará a digressão europeia. Ok, chefe!


domingo, 5 de maio de 2019

RAMI KHALIFÉ + LONNIE HOLLEY, Festival Respira, Theatro Circo, Braga, 3 de Maio de 2019

Fotografia: facebook do Theatro Circo 














O segundo de três dias do festival Respira!, que coloca o piano como ponto de partida e chegada de diferentes viagens sonoras, teve no franco-libanês Rami Khalifé uma primeira etapa com alguns altos e baixos embora cedo se tenha percebido o excelente domínio das oitenta e oito teclas do instrumento e mais alguns dos seus prolongamentos de cordas, prática enraizada desde cedo numa família libanesa martirizada pela guerra civil e cujo refúgio europeu permitiu verter na música uma forma de vida

Foi nas peças instrumentais que Khalifé melhor conseguiu expressar a contemporaneidade e validade da sua composição, momentos sublimados por forte ovação da plateia que contrastaram com alguma sensibilidade mais fria expressa na quase totalidade das canções cantadas em libanês que, mesmo em menor número, nos sugeriram um pouco de sensabor e até banalidade. Valeram, por isso e sem vacilação, os crescendos e decrescendos de uma forte dinâmica de ritmado impacto onde até um inesperado sapateado-beat quase nos levantou da cadeira...
     
Fotografia: facebook do Theatro Circo















O curriculum de Lonnie Holley há muito que impressiona pelas dificuldades de uma infância miserável contornada pela descoberta de uma expressão artística a três dimensões traduzida em formas escultóricas concebidas com restos de lixo urbano e que muitos museus norte-americanos acabaram por incorporar. Quando Holley encontrou um velho teclado Casio e o conseguiu pôr a funcionar, a música improvisada passou a ser mais um grito incontido e prolongado sobre a "situação" americana nas suas injustiças sociais ou atentados ambientais, um agitar consciente contra o status quo que artistas como Bill Callahan ou Bon Iver ou bandas como Animal Collective ou Deerhunter cedo ajudaram a trazer a públicos mais alargados.

O último álbum "MITH" editado em 2018 é já o resultado desse reconhecimento, um manifesto visionário produzido por Richard Swift e registado ao longo de cinco anos em várias cidades americanas como a natalícia Atlanta, Nova Iorque ou Cottage Grove mas também o Porto, sim, o Porto, onde esteve em 2016 como convidado do Fórum do Futuro no Rivoli e onde passou alguns tempos em estúdio na companhia do trombonista Dave Nelson e do baterista Marlon Patton - o duo de jazz Nelson Patton.

Foi tão brilhante parelha que o acompanhou na estreia bracarense onde Holley começou ao piano, como que cumprindo o desígnio do evento, mas rapidamente se instalou sentado num género de púlpito central onde se escondia o tal teclado inicial (?). Foi daí que, até ao fim, nos lançou uma impressionante poética de vivência pessoal e de efabulação mitológica contagiante expressa de forma vincada por uma voz quase rouca e trinada que lembra Armstrong, isso mesmo, forte e segura na urgência de mudar o mundo ou conter a destruição ambiental como cantou sofregamente em "I'm A Supect in America" logo a abrir no único momento ao piano de cauda.

Embora alguns dos presentes mostrassem sinais de enfado, a maioria como que se hipnotizou por esse homem-lenda de olhos esbugalhados a profetizar com energia sobre opressão, racismo ou consumismo de fundo instrumental notável, um retrato vivo e distendido da conturbada realidade de um país que nos habituamos a reduzir a um ecrã de televisão mas que ali, na sala magnífica do teatro centenário, se transformou num toque a rebate universal de urgência caducada. Uma perfomance memorável e, acima de tudo, necessária. Acordai!