sábado, 8 de junho de 2019

MEN I TRUST + BUILT TO SPILL + JARVIS COCKER + STEREOLAB + SOLANGE, Primavera Sound Porto, 6 de Junho de 2019
















Num ano atípico quanto ao cartaz mas que seria previsível atendendo às tendências infiltradas das últimas edições, o primeiro dia do Primavera Sound Porto teve ainda a ajuda na desgraça de um tal Miguel depressivo que emite chuva e vento zangados nada primaveris mas que dá tréguas se lhe pedirmos muito!

Os simpáticos Men I Trust aproveitaram, desde logo, a primeira concessão soalheira e trouxeram a banda sonora adequada ao momento, uma pop calma e balançante que até soube bem nas primeiras canções mas que depois se foi repetindo na fórmula para desistência, sem retorno, de alguns na procura do primeiro refresco amarelo ou simplesmente para apanhar sol enquanto foi possível...



A fama longínqua dos Built To Spill tem a módica idade de vinte e sete anos traduzida em fãs fieis e discos embebidos do chamado indie rock mas a banda sempre foi aqui na casa sinónimo de uma simples canção incluída numa compilação da Red Hot Organization (Red Hot + Bothered, 1995).  O guitarrista Doug Martsch é também o vocalista dono de um timbre a la Wayne Coyne ou Jonathan Donahue que se estranha mas que não se entranhou o suficiente para agarrar a plateia a matar a curiosidade e já a pensar nas opções do jantar. Foi o que fizemos.



O nosso último contacto com os Pulp e Jarvis Cocker ao vivo tem mais de vinte anos (1998) e deu-se no chamado rockódromo das Antas num festival efémero ao lado de Nick Cave ou Ben Folds Five. Com o epílogo aos soluços da banda, o seu mentor tem mantido a solo uma variedade de colaborações e álbuns de originas de requintado teor suportado numa postura de irreverência e distância a um mainstream abusivo para enorme carinho e suporte dos aficionados. Cedo se percebeu esse conforto e partilha nos discursos e interacções satíricas, piadas sérias ou desafios nonsense que as canções lançam sobre o envelhecimento, a desumanização ou o raio da política sabuja num suporte visual e instrumental irrepreensível, seguro e de bom proveito - literalmente palpável em chocolates, badges ou goodies atirados para a plateia - mesmo que a chuvada momentânea tenha assustado os mais desprevenidos. Nada que a boa disposição e muita classe de um encartado mestre da pop não possa mandar parar...     



Algum dos temores quanto à actualidade, melhor, validade dos Stereolab tiveram uma volatilidade imediata logo à primeira canção. A reunião do colectivo vanguardista dos anos noventa apesar de criticável tornou-se inatacável pela eficiência de uma sonoridade que parecia datada em temas como "French Disko" ou "Ping Pong" mas que uma década de pousio não azedou. Muito longe disso, o concerto foi de uma sobriedade e inteligência notáveis, uma dezena de temas de seleccão perspicaz e execução perfeita culminada com o alucinado clássico "Lo Boob Oscilator", dez minutos de mistura de ingredientes e géneros de que só este laboratório tem a patente e o segredo!   



A estranheza do cenário onde uma escada conduzia a um piso superior no qual se embutia uma caixa para a bateria tinha o branco como única cor. A troupe de músicos, dançarinos e vocalistas de trajes negros e a respectiva ocupação dos lugares sugeria um ritual preparado a rigor para uma entrada endeusada e altiva de Solange. Errado. A noite haveria de ser bastante colorida e de fragrância subtil espalhada de imediato na imensa plateia pelo feitiço ondulante soprado na harmonia da voz, das vozes, da coreografia dançante e simétrica dos músicos e na muita simpatia e estofo artístico da mana Knowles. Mesmo a bátega de água repentina que quase no final decidiu atormentar o recinto acabou por se revelar abençoada, limpando e refrescando uma noite de coroação merecida e iluminada!

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