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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

(RE)LIDO #127





















BLITZ. PREGÕES E DECLARAÇÕES
 
Amor, Partilha e Ódio antes da vida online 
de José António Moura (comp., org. e intr.). Lisboa: Holuzam, 2025 
Boa parte de uma geração que se habituou a levantar-se às terças-feira para ir para o liceu, passou a ter um religião - comprar o Blitz logo de manhã! Se a aquisição fosse possível ser feita antes da entrada no autocarro ainda melhor, já que as páginas dos "Pregões e Declarações" eram logo lidas de fio a pavio a tempo de se mandar umas bocas antes da chegada dos profs, acicatando colegas metaleiros ou comentando sapatos de vela engraçadinhos/engraxadinhos... 

Tratava-se de um género de repositório social que nos fomos habituando a ler e absorver com as devidas distâncias, mas a actualização era fundamental para permitir perceber tendências, assumir integrações ou correntes, questionar amizades ou até começar a achar piada a miúdas de atitude atrevida. Um género de interacção sem rosto que cativava pelo fervilhar de polémicas e adorações, em tempos do despertar dos odiados/amados Wham!, vénias crescentes aos U2 e The Smiths, mas também acentuada e nova lábia quanto a sexo, curtições, libertinagem e utopismos. O eterno confronto de virilidade Porto/Lisboa era também assunto recorrente. 

Já na faculdade, o costume manteve-se activo (fizeram-nos, em 1990, uma caricatura de curso com o "Blitz" debaixo do braço), afirmativo, embora a degradação e qualidade da publicação semanal fosse mais que evidente e maçuda, mesmo que outras rubricas e participações se tivessem promovido - fotografias ou desenhos com direito a prémios (LP's) que alguns conhecidos chegaram a receber. Tal como o próprio jornal, toda aquela aura inicial de novidade, frescura e irreverência alternativa ganhava na secção "Pregões & Declarações" uma cada vez mais dispensável obrigação de leitura, passando, no nosso caso, a eleger a "Dona Rosa" como destino repetido de demandas esclarecedoras de assuntos musicais, ou seja, discos, concertos, canções, digressões, etc. que isto agora (interesse) era mais a sério. 

Pensar que alguém se deu ao trabalho de copiar, alinhar e evidenciar os recados publicados no primeiro ano (1985) da secção afigura-se, desde logo, uma surpresa. Percebe-se a jogada sociológica na confrontação com tempos actuais de facilitismo e excesso comunicacional e confessamos algum esforço na leitura desta recordação impressa em pouco mais de sessenta páginas. A introdução contextual, ouvindo ou recopilando testemunhos de alguns dos causadores (Manuel Falcão, Teresa Ruivo) e das facetas inspiradoras e dos acasos técnicos da coisa, acaba por ser o melhor de um pequeno livro em risografia hoje tão na moda vintage

Temos dúvidas que outras gerações, que não as que sabem o que isto é (era), tenham motivação para alguma vez aqui virem deitar os olhos. Temos, no entanto, a certeza que o produto das mensagens e apelos vai, algum dia, ser útil (se é que já não foi) em doutoramentos académicos sobre uma juventude a precisar de rebentar convenções e, ainda assim, demasiado solitária e obediente. 

A piada do lembrete é, contudo, bem-vinda e a nota da capa "Ano 1: 1985" assusta-nos, sugerindo que outros volumes se projectam e temos medo de vir a bater de frente com alguma das propostas indecentes/inocentes enviadas. Seja como for, este é o melhor dos pregões aqui republicados: 

"Caro António Sérgio: és baril, mas irritante. Deixa-nos gravar. Não fales tanto. - Lisboa" (p. 51). 

Só alguns, mesmo assim, muitos, percebem o seu fascínio... aqui vai malha!

sexta-feira, 25 de abril de 2025

(RE)LIDO #126





















7 POEMAS PARA CARLOS PAREDES
 
de Carlos Carranca. Lisboa: Edições Universitárias Lusófanas, 1996 
O centenário do nascimento de Carlos Paredes (1925-2004) que se comemora no corrente ano deveria ter já merecido outro destaque nesta casa. Afinal, Paredes é uma das nossas memórias mais longínquas no que a música diz respeito, nomeadamente, em cassete a rodar semanalmente lá por casa, onde o eco da guitarra se impregnou misteriosamente até aos nossos dias. Uma daquelas marcas que não há forma de limpar ou esquecer... ainda bem! 

Ao livro, de aparente grandeza e utilidade editado há meses, cruzamos esta singela publicação de 1996, uma terceira edição de uma homenagem de Carlos Carranca (1957-2019) ao mestre da guitarra em forma de poesia, aqui aumentada com um oitavo verso, mas mantendo os desenhos ilustrativos do escultor Rui Vasquez. 

Palavras simples, nostalgia imediata, levitações genuínas que evocam um país, uma cidade do Mondego, um dia inicial inteiro e limpo, um pai Artur, um filho Carlos e uma maravilhosa guitarra, ainda e sempre, com gente dentro...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

(RE)LIDO #125





















GRANT & I 
Inside and Outside The Go-Betweens 
de Robert Forster. Londres; Omnibus Press, 2017 
Os Go-Betweens foram a melhor banda dos anos oitenta e foram, por sinal, a mais desprezada. Quando em 1989 Robert Forster e Grant McLennan decidiram acabar com o projecto ao fim de seis álbuns de originais, restava entre os dois uma amizade inabalável que não impediu caminhos a solo. A separação implicou dores, desconfianças e receios, mas nunca rancores definitivos, não se estranhando que os dois tenham decidido reatar o grupo em 2000, gravando mais um excelente par de discos. A morte inesperada de McLennan em 2006 haveria, em definitivo, por fechar o pano dos Go-Betweens não sem que uma promessa fosse assumida por Forster - contar tudo do princípio ao fim, homenageando o amigo perdido e assumindo uma faceta de narrador de histórias ou crítico de música que a paixão superior pelo pop/rock sempre coartou. 

O resultado, datado de 2017, mas de validade eterna, é este livro de reluzente narrativa e frenética cadência, funcionando como uma memória do rock de inquestionável perspicácia e talento que, desde o início, parece destinado a selar e cristalizar uma amizade, como muitas, de profundidade crescente. Foram três décadas de irmandade cúmplice, ainda que a aproximação entre ambos se tenha afigurado difícil - a relutância de McLennan em assumir um instrumento para tocar seria superada por uma estratégia, quiçá, literária de Forster ao fazer das líricas das primeiras canções um chamariz irresistível. Nick Cave haveria de topar essas letras, apelidando-o como o mais verdadeiro e estranho poeta da sua geração. 

A clareza, a piada com que Forster nos aproxima a esses momentos de partilha, denotando uma rara franqueza e até uma desarmante ousadia, funciona como uma sequência cinematográfica sem intervalo que nos põe a reconstituir os cenários, os ambientes ou as expressões de dois personagens tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais e de que, por si só, a estadia primeira em Londres, vindos da Austrália, resultaria em argumento fílmico de imediata eficácia. A inconstância dos contratos com as editoras, a relutância em fazer alguns concertos e tournées, as parcerias e ajudas inesperadas, são assumidas como vitórias saborosas e não como pecadilhos profissionais de arrependimento, sinceridade que se espelha numa prosa de celebração contínua em que as canções são, e serão, o mais importante. 

A digressão com Lloyd Cole, de que fomos testemunhas, aporta a única referência a Portugal, concretamente a um campo de golfe lisboeta para uma disputa com o próprio Cole apostada num backstage. Pena que uma anterior e atribulada estadia que trouxe os Go-Betweens a Lisboa e ao Porto em 1989 não mereça maior destaque, quando do quarteto faziam parte duas raparigas, uma delas, Amanda Brown, aceleradora de corações a que McLennan não resistiu na paixão. Quando no Passos Manuel em 2019 lhe fizemos a desafio, entre conversas de pós-concerto, para recordar esses tempos, Forster remeteu-nos para o livro que ainda não lhe tínhamos pedido para assinar. Quando o fizemos, logo percebeu que, ou a leitura foi mal feita ou ainda não tinha ocorrido, pois a resposta foi um simples "You'll get it!". Percebido, amigo!

Sempre que pretenderem fazer de um funeral uma impossível boa memória, o concelho é para que marquem e o aprendam nas últimas páginas deste magnífico livro, uma especial e sentida sequência festiva de homenagem a um amigo que foi, por dentro e por fora, como um verdadeiro irmão. Acreditem, o "I am a Believer" que o Neil Diamond escreveu para os The Monkees em 1966 nunca deverá ter soado tão perfeito!  


terça-feira, 30 de abril de 2024

(RE)LIDO #124





















JOSÉ AFONSO - Eu Vou Pôr Lume e Ser de Vento 
Um Esboço Biográfico de Pedro Teixeira Lopes. 
Lisboa; SPA-Sociedade Portuguesa de Autores/{Glaciar}, 2023 
É assinalável a quantidade de livros e memórias sobre José Afonso editadas nos últimos anos. A juntar a algumas dessas novidades já por aqui destacadas, o fascínio pelo personagem remete para uma variedade de temáticas que contempla correspondência trocada, análise (necessária?) das palavras utilizadas nas letras das canções ou a abordagem a um suposto "triângulo mágico" em que girou a sua vida por Portugal, África e a Galiza. É só escolher. Foi o que fizemos. 

Para terminar o destaque iniciado no início deste mês comemorativo, nada como uma biografia leve e bem feita que se aconselha, desde já, a jovens à procura de uma introdução à vida de José Afonso. A publicação faz parte de um projecto editorial incluído no processo comemorativo do centenário da fundação da SPA-Sociedade Portuguesa de Autores (Maio de 1925), destacando o papel de alguns deles na afirmação da cultura portuguesa, do teatro (Vasco Santana) ao cinema (Manoel de Oliveira) passando pela música. A eleição de José Afonso é, claro, lógica, atendendo à criatividade e ao exemplo de liberdade que sempre pautou a sua conduta imperfeita mas única. O título do esboço, confessamos, apressou a selecção... 

Foi, pois, o "Eu Vou Pôr Lume e Ser de Vento" que, evocando, numa só frase, a luta e liberdade, nos despertou a atenção numa estante de livraria. Não a reconhecemos de imediato entre as letras originais de Afonso embora na canção "Qualquer Dia" do álbum "Contos Velhos Rumos Novos" (1969) parte do verso seja bem audível, sendo o restante inúmeras vezes usado em poesia ou narração. 

O metaforismo, que sugeria uma abordagem poética ou romanceada, é um ponto de partida curioso para se dar a conhecer, em onze partes, uma substancial panorâmica da vida de José Afonso em todas as suas fases e desenlaces, da infância ao adeus prematuro, tudo num desperto modo jornalístico que, no entanto, nas suas fontes e pesquisas, raramente contempla aspectos inéditos, contraditórios ou polémicos. Em noventa páginas de ritmada escrita, estamos, assim, perante uma compilação biográfica inteligente que, mesmo para todos os que já conhecem a história, mostra-se de eficácia instantânea e saborosa. 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

(RE)LIDO #123





















ZECA AFONSO - BALADA DO DESTERRO 
de Teresa Moure e Maria João Worm 
Santiago de Compostela; aCentral Folque/Tradisom, 2023 
As biografias desenhadas são, como notado, uma tendência que se avoluma em qualidade e diversidade. No caso de músicos portugueses, a que se dedicou a José Afonso é, sem dúvida, bastante pertinente e actual, o que resulta numa edição cartonada de verdadeira novidade e algum risco inerente a toda e qualquer ficção. 

Estamos, assim, perante uma narração visual da vida de Afonso a que se acrescentam suposições e situações imaginadas por Teresa Moure, professora de Linguística na Universidade de Santiago Compostela que se habituou a publicar romances, poesia ou teatro e que tem, como muitos galegos, uma ternura e admiração pela obra do músico português. Fê-lo já sabendo que os diálogos e as sentenças se destinavam a ser ilustrados por Maria João Worm, artista lisboeta com ligação sentimental à Galiza e onde já obteve vários prémios. A distinção está marcada desde o início do álbum e é, até ao fim, uma notável surpresa para o olhar em jeito de vário cenários como cinematografados por um desenho apurado e incisivo. 

O jogo ou teatro de sombras aplicado tem no preto e branco do episódio primeiro, que romanceia a partida de barco para Moçambique e o abandono a que esteve sujeito, uma marca de estética quase desfocada e sombria que, de propósito, como que nos afasta e dilui de uma memória distante. O colorido quente que, logo de seguida, percorre a infância africana do cantor, estimula o leitor a uma contrastante felicidade que tanta influência teve em muitas das canções e ritmos de que Afonso nunca se separou e sempre se orgulhou. 

A narrativa, apesar de cronológica, vagueia depois de África noutras latitudes mas com centro na Galiza, Espanha, e nos concertos e amizades que por lá foi fazendo e onde se convergem ficções cruzadas no feminino, com referências às filhas do cantor ou aos difíceis casamentos em desabafos inventados mas que não deixam de reportar a importância da figura da mulher tantas vezes expressa pelo canto (p. ex. "Teresa Torga" ou "As Sete Mulheres do Minho") de forma sensível e atordoada. 

O enredo, de nítida inspiração documental e consulta prévia, não esquece o José Afonso lutador e resistente à censura, resiliente na prisão mas libertador e inspirador com "Grândola, Vila Morena", hino que na Galiza foi e é motivador de acções e causas políticas. Nas conversas imaginadas com amigas jornalistas (Begónia Moa) emerge uma intimidade ternurenta que a sofreguidão dos dias foi apagando e que a autora da história faz valer como de importância legítima para a percepção de uma vida venerada, mas por vezes esquecida, de uma vida intensa, mas onde se esconderam tantas dificuldades, de uma vida desprendida, mas de fama involuntária. 

É essa melancolia que arrastou até à morte, é essa virtude de modéstia que este livro, assumidamente falso ("Balada do Desterro" e não "Canção do Desterro"), consegue elevar, pelo desenho, no respeito e reverência a uma figura maior da vida portuguesa e, já agora, da vida galega. Esse país (não) chamado Portugalícia tem neste trabalho visual um exemplo perfeito de uma irmandade sócio-cultural inevitável e de que José Afonso, mesmo desiludido, haveria de ser o principal entusiasta. Um terra grande da fraternidade... é sempre em frente!

sábado, 13 de abril de 2024

(RE)LIDO #122





















SANTA-BÁRBARA CAPISTA DE ZECA
 
de Abel Soares Rosa. Lisboa; Lusitanian, 2023 
O desenho de capas para discos é um assunto sério. Em Portugal, esta atenção implícita à concepção de um todo imagem-música, que há muito se entende como sinérgico, foi desprezada na importância e demorou a ser assumida como essência de um negócio. Mereceria, por isso, maior pesquisa científica que um atento design de comunicação académico deveria incentivar e que tem conhecido, ainda assim, algumas tentativas esparsas e ténues mas bem meritórias. Este livro de Abel Rosa é, por isso, um bom exemplo de como o tal assunto se pode revelar despertador na raridade, motivador na novidade e especialmente oportuno e seminal no caso escolhido. 

Entre o "capista" José Santa-Bárbara e o músico José Afonso existiu uma cumplicidade política que a amizade transformou numa relação artística duradoira. Ambos tiveram problemas sérios com a PIDE, processos que no caso do "capista" o autor Abel Rosa consultou na Torre do Tombo como forma de provar que a luta contra a ditadura abraçou, de forma solidária, esta parceria numa demanda imaginativa e irreverente - a concepção de nove capas para álbuns de José Afonso datadas entre 1971 e 1983. 

A inspiração, quando questionada pelo "capista" junto do cantor, obteve sempre a mesma resposta: "Lê os poemas!". Foi o que Santa-Bárbara fez de todas as vezes, o que não dispensou, também, a leitura dos textos escritos por Urbano José Rodrigues ou por Bernardo Santareno para contextualizar as canções. De todas as vezes foi a partir deles que as imagens e arranjos escolhidos acabaram aprovados pelo amigo Zeca na sua acepção metafórica e figurada quanto aos tempos que se viviam ou que se adivinhavam invertidos na utopia. 

Uma pomba da paz, uma toupeira, um comboio fumarento rumo ao futuro, umas mãos que trabalham, umas fotografias do amigo tipo passe ou um planador/voador em queda, são alguns dos motivos, adereços, bonecos, ilustrações que depois de trabalhadas se estendem em maquetas, colagens ou sobreposições de um mestre intuitivo na percepção principal da mensagem que a capa do disco assumiria como imagem primeira. Constatar e descobrir as suas fontes bibliográficas em dicionários, revistas ou outras publicações, revelam a perspicácia metódica que Santa-Bárbara manteve desperta e viva, recurso de aparente lógica e conselho mas que só uma imaginação fértil aprimorou a partir dos desafios sugeridos e das oportunidades criadas.  

Antes e depois da censura, antes e depois da liberdade, as revelações que por aqui se dão a conhecer confirmam que José Afonso estava bem ciente desse impacto junto dos compradores ouvintes, nada mais nada menos, que os destinatários de um esforço artístico por vezes exaustivo mas de ferrenha militância. Ao seu lado, Santa Bárbara, o tal "capista de Zeca" numa expressão do jornalista e poeta Fernando Assis Pacheco de 1972, não foi mais que o companheiro certo e completo para realizar e concretizar, mais que uma história bonita, um notável e icónico capítulo da história do design português ainda e sempre inspirador. 

Ver, também no livro, a terminar, a forma educada e eficaz como João Morais (o também músico O Gajo) criou capas recentes para uma série de singles-digitais de José Afonso a partir de todas estas capas de Santa-Bárbara, só confirma o que de mais simples e constante elas representam no fascínio - verdadeiras obras de arte, vejam bem!     



sábado, 6 de abril de 2024

(RE)LIDO #121





















ZECA SEMPRE
 
Vários autores. Porto; Memória/Arca das Letras, 2006 
Em mês comemorativo dos cinquenta anos da Revolução de Abril, tentaremos em quatro semanas falar sobre ela através de uma das suas figuras mais evidentes e descomprometidas - José Afonso! Têm sido muitos os livros saídos sobre o músico de Aveiro, mas não pretendemos ser exaustivos e apressados ao seu acesso e leitura, até porque há uma infindável colecção que ficou para trás na análise e injusto esquecimento, apesar de, por aqui, já termos trazido publicações a ele alusivas. Nunca serão, no entanto, demais. 

É o caso desta recolha de histórias e tributos já de 2006, pequeno volume que pretendia antecipar os vinte anos sobre a sua morte, convidando um pouco mais de vinte pessoas a dar o seu testemunho referente ao músico, ao cantor ou, simplesmente, ao amigo. Alguns nunca sequer lhe falaram, outros viajaram e conviveram com ele, muitos partilharam palcos e estúdios, poucos ou nenhuns acederam à sua intimidade. Destacam-se, mesmo assim, os textos ou poemas de Manuel Alegre, Francisco Fanhais, José Mário Branco ou Pedro Barroso e dos jornalistas nortenhos Francisco Duarte Mangas, César Príncipe, Jorge Ribeiro ou José Viale Moutinho. São destes dois últimos duas das mais sumarentas histórias que o livro aporta e que valem a pena recontar pela curiosidade e significado, mas que não disfarçam, no conjunto, um notório desnível de interesse e novidade de uma edição, ainda assim, meritória. 

Dois meses depois da sua morte, em 24 de Maio de 1987, a Galiza promoveu uma homenagem a José Afonso. O repórter Jorge Ribeiro, ao serviço de um diário da Invicta, insistiu na deslocação a Vigo, tentou que a agenda do jornal não o esquecesse, mas acabou, por iniciativa e viatura própria e sem repórter fotográfico, a viajar nesse sábado até lá sem certeza do tamanho do espaço disponível para o artigo ou sequer que ele seria publicado. O que viu e ouviu foi relatado somente quatro dias depois como "um exclusivo" da publicação, aqui reproduzido na totalidade, já que mais nenhum orgão de comunicação social luso esteve representado! A "coisa", afinal, foi em grande (transmissão televisiva, radiofónica, conferências, espectáculos de rua, etc.), sentida e participada e uma confirmação clara da importância e afecto que a região espanhola sempre dedicou a José Afonso, carinho que já devia ter merecido a edição de um ou mais bons livros de memórias e contextos e até a realização de documentários televisivos ou cinematográficos que recuperassem imagens, sons e demais inéditos sobre uma ligação "familiar" de raízes bem mais antigas - Galiza Homenageou Zeca "Como se fora seu filho" foi o título do artigo! 

Dez anos antes, José Afonso participou no VII Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro depois de ter recolhido quinze mil votos de leitores do "Diário de Lisboa"! Na comitiva portuguesa viajou o jornalista José Viale Moutinho que conta as peripécias de uma participação condicionada, "inclinada", onde se referem outros figurões como Moustaki, Demis Roussos ou Gilberto Gil. Coutinho conta como a DOPS (a PIDE brasileira da altura, já que o país ainda viveria em ditadura até 1985) se infiltrou no "controlo" e de como, numa mesa de piscina do Copacabana Palace, deu de caras com José Afonso em amena cavaqueira com um tal coronel Chadek da referida polícia, agente que se tinha apresentado de véspera ao jornalista mas que o músico desconhecia, naturalmente, por completo! Imaginar esta cena "tropical" é quase comédia negra a que se poderá acrescentar o que terá sido a apresentação efectiva da canção "A Morte Saiu à Rua" somente acompanhada por dois violões e uma leve percussão num Maracanãzinho cheio e propositadamente "barulhento" depois de muitos ensaios infernais e agitados num quarto de hotel... A transmissão televisiva desta participação foi realizada em directo e que bom seria ver essas imagens históricas. Onde é que elas estarão escondidas/esquecidas? 

O livro abre com a mais sentida das homenagens - o brasileiro Alípio de Freitas (1929-2017) era um preso político na Fortaleza de Santa Cruz de Niterói aquando do 25 de Abril, caso que em Portugal motivou forte empenho na tentativa de libertação. O próprio tinha enviado clandestinamente uma carta para o nosso país, relatando a sua condição mas também o seu empenho na luta anti-fascista, o que chegou ao conhecimento de José Afonso. Aquando de uma visita oficial do Cônsul do Rio de Janeiro à prisão foi-lhe entregue uma cassete que só pôs a tocar quando regressou à cela e, pela primeira vez, ouviu a voz do cantor e uma das canções com o seu nome - "Alípio Dias" (tema que encerra o disco "Com as Minhas Tamanquinhas" de 1976). Como recorda o próprio Alípio, as canções ecoaram, então, bem alto para que os restantes presos também as pudessem ouvir também pela primeira vez, momento que para José Afonso se afiguraria, certamente, reconfortante!     

Dá-se nota, no final da publicação, da intenção de organizar um volume de cinquenta testemunhos em prosa ou verso dos próprio leitores, depois de uma prévia seleccão por um júri, o que estava agendado para Fevereiro de 2007. Do interessante projecto não se conhecem quaisquer desenvolvimentos, o que é uma pena e... penoso.

sexta-feira, 29 de março de 2024

(RE)LIDO #120





















MÚSICA, SÓ MUSICA 
de Haruki Murakami e Seiji Osawa. Lisboa; Casa das Letras/Leya, 2022 
Um maestro e um escritor de diferentes gerações acordaram partilhar a sua paixão pela música dita clássica da melhor forma - conversando sobre ela ao longo de dois anos (Novembro de 2010 a Julho de 2011) em ambiente amistoso e informal. Haruki Murakami, afamado escritor japonês também conhecido pela sua infindável, e de qualidade, colecção de discos de vinil quer de jazz ou de pop-rock, acumula também preciosidades relativas a compositores clássicos como Beethoven, Mahler ou Brahms, dominando ainda os respectivos directores de orquestra, os solistas ou algumas circunstâncias da composição e gravação. Mas, colocando estes discos a rodar, escondem-se uma série de pormenores que a simples audição não permite distinguir a não ser um ouvido apurado, experiente e cirúrgico como o de Seiji Osawa... 

O premiado maestro, também japonês e falecido aos oitenta e oito anos no mês passado, é parte decisiva quanto ao imediato fascínio do livro. Mesmo para leigos como nós em música clássica, isto é, que não distinguimos correctamente autores, estilos, épocas ou andamentos, as seis conversas funcionam como um banquete de curiosidades e confissões vindas, principalmente, da experiência de vida de Osawa em rotação pelo comando de orquestras prestigiadas (Boston), de fintas e rodopios para agradar e corrigir os músicos, os cantores de ópera, as administrações ou mecenas e as amizades com lendas como Leonard Bernstein (1918-1990) ou solistas como o pianista Glenn Gould (1932-1982). Tudo em modo de mergulho no pormenor, na historieta ou na traquinice e que, a partir do diálogo estabelecido, resultam numa narrativa de plena e entusiástica melomania. 

O jovem maestro Martim Sousa Tavares, no prefácio da edição portuguesa, assinala duas características que, muito justamente, ajudam a perceber este indiscutível encanto: o dom da palavra (Murakami) e o dom da musicalidade (Osawa) ofuscam-se pela complementaridade na audição e na observação, uma excepção temporal de irrepetibilidade certa e que Tavares anota ainda no facto pertinente de termos, no caso, "o génio literário que ouve como um músico". 

O resultado, contagiante na leitura e multiplicador do amor pela música, acelera a vontade inaudita de também ouvir sobre o que se leu, para o que existe disponível uma lista de cento e cinquenta e cinco "músicas" curadas pelo próprio Murakami de forma desafiadora e, como não dizê-lo, impressionante. Música, só música!  
 

sexta-feira, 22 de março de 2024

(RE)LIDO #119





















PATTI SMITH 
She Has the Power 
de Ana Müshell. Lisboa; Iguana/Penguin Random House, 2022 
Não sabemos quando é que, concretamente, a moda começou mas isto de fazer biografias desenhadas de músicos terá de certeza um pretérito de décadas que não perdeu razão de ser. Nos últimos anos serão alguns os exemplos de sucesso quanto ao género, o que tem acelerado outros projectos (p. ex. Bowie, 2023), sugerindo que a insistência vai continuar. 

A ilustradora espanhola Ana Müshell, uma apaixonada pelo trajecto e firmeza de Patti Smith, agarra com mestria e pertinência uma vida num formato de "intrudução a...", apesar dos quase oitenta anos já detalhadamente descrita pela própria artista em vários livros, o que se afigura uma preciosa ajuda a quem pretender dar a conhecer da melhor maneira a mais novos, filhos ou afilhados, uma das personagens mais fascinantes da história da música popular. Essa aparente leveza está dividida em oito partes que se unem num todo artístico de poetisa, escritora, fotógrafa, compositora ou cantora, facetas que transformaram Patti Smith num caso único no feminino de imparável sucesso mas que tem na sua essência uma marca de resistência e... vida! 

Será sempre fascinante, como se denota desde as primeiras páginas deste livro, verificar essa força, essa virtude e resiliência na procura de uma plenitude emocional ou amorosa que a ligou e continua a ligar a tantos e variados compagnons de route sem ressentimentos ou friezas. Contudo e como qualquer um dos mortais, foram dolorosas as perdas, as agruras e incertezas desde a estadia boémia no Chelsea Hotel, passando pela assunção de estrela rock, até aos primeiros livros de poemas ou exposições de fotografias, que só uma personalidade vincada e abnegada multiplicou na experiência e, claro, nas liasons. 

Não há uma única página sem desenhos de amigos e parceiros, bandas e rockeiros (curiosamente, não há Beatles mas há Stones), capas de discos ou fachadas de restaurantes e hotéis marcantes, de poetas de outros tempos (falta por aqui o Pessoa) e de agora que, numa catadupa peculiar, Müshell ilustra de forma fantástica e surpreendente. Tudo com um traço tão moderno mas, ao mesmo tempo, tão vintage e clássico que não cansa e nos obriga a reparar nos pormenores ou na mancha sem distinção enquanto vamos lendo sobre a fuga para Nova Iorque, a obsessão pela escrita ou a amizade com Kurt Kobain. 

Não sendo um caso fácil, este álbum sobre Patti Smith é mesmo uma deliciosa edição que se lê e relê numa tarde e a que se regressa sem esforço no dia seguinte, sendo uma boa prova de oportunidade, talento, bom gosto e inteligência e também um reforço, mais um, para que a luta incansável que Patti Smith continua a assumir seja inspiradora de criação e inquietação duradoiras. 

Tamanho legado, expresso num verso de um poema, na imagem inconfundível de uma polaroid ou na letra de uma canção, não se poderá resumir simplesmente ao carinhoso epíteto de "madrinha do punk" mas a algo bem mais desconcertante que a aproxima de uma lenda viva, seja lá o que isso for, e que nos faz (bem) tremer. Como este arrepiante "Free Money" já com oito anos. Poderoso(a)! 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

(RE)LIDO #118





















O ANO DO MACACO / Year of the Monkey 
de Patti Smith. Lisboa; Quetzal Editores, 2020 
Na fotografia de capa de mais este delicioso volume de deambulações reflexivas, retrato tirado pelo amigo e guitarrista Oliver Ray, vemos Patti Smith sentada numa praia enevoada com o mar ao fundo em trajes habituais de jeans rasgados, casaco preto e barrete na cabeça. Não se vislumbra, a olho nu, a sua expressão de leve sorriso que uma ampliação interior permite confirmar, denotando, talvez, o desafio positivo em que a sua vida artística se tornou. 

Em ano de septuagésimo aniversário (2016, o tal ano do macaco), Smith decidiu, logo no primeiro dia, assumir um intervalo nos concertos e digressões para fazer o que já se tornou, de tempos a tempos, fundamental - viajar, escrever e recordar livremente objectos, vidas, amigos ou paisagens. A constância desta inquietação desafiadora já nos deu outros relatos ("M. Train" de 2015 ou "Devotion" de 2019) e a vantagem da insistência continua reveladora e até satírica. Talvez a eleição de Trump, que percorre acusatória estas memórias, se tenha infiltrado de forma viperina na assunção de uma realidade indesejada. 

De madrugada, em pleno motel californiano "Dream Inn", começa uma de muitas viagens caleidoscópicas que tornam sonhos em realidade ou realidade em sonhos, uma imaginação que aparenta ser semelhante à de todos nós. Não é. A amizade, a dor ou o envelhecimento tanto podem ser motivo de orgulho, mágoa ou preocupação mas Smith fá-lo, pela escrita, num jeito leve e encantado de irresistível espiritualidade em que o café, os cafés e as mesas de café funcionam como um único e inesgotável pavio narrativo. 

Entre as amizades perdidas, as de Sandy Pearlman (1943-2016) e Sam Sheppard (1943-2017) merecem sentidos e comoventes preitos mas é nas evocações dos lugares e dos escritores que lhe pertencem que Smith continua a ser de imbatível doçura e virtuosismo. No caso de Bolaño e Pessoa, a reverência transparece comovente e povoada de uma magia requintada, tendo Lisboa direito a um género de intervalo na prosa (p. 131) a merecer fotografia poética da Brasileira. 

Em 2015, mesmo antes de um concerto no Coliseu, a sua estadia pela capital levou-a, temerosa, até à Casa Fernando Pessoa onde leu, e gravou para o arquivo oral da instituição, "A Saudação a Walt Whitman" de Álvaro de Campos, contactando fascinada com as variadas obras que o autor foi comprando e lendo. O momento é no livro aproveitado para recordar o clássico "Lisboa Antigua" que o seu pai cantarolava mas também para prestar um homenagem à cidade que diz ser "a ideal para nos deixarmos levar pelo tempo. (...)". 

Já depois de um de dois epílogos, as páginas derradeiras conduzem-nos a uma outra urbe fantástica, a flamenga Gante na Bélgica e uma viagem até próximo de um retábulo dos irmãos Van Eyck, para uma misteriosa e surpreendente teia de enigmas e simbolismos. Tal como a autora, o relato na sua transcendência dá-nos vontade imediata de pegar na mala para até lá viajar, mesmo que só num sonho a preto e branco. Coisas da boa literatura.      

Patti Smith regressará a Portugal já no próximo mês ao lado do Soundwalk Collective para concertos em Braga (lá estaremos em veneração) e Lisboa e, no verão, para um espectáculo com a sua banda no Festival Jardins do Marquês em Oeiras.

sábado, 29 de julho de 2023

(RE)LIDO #117





















CENTO E ONZE DISCOS PORTUGUESES
A Música na Rádio Pública 
de Jorge Guerra Paz e Henrique Amaro (coord.).
Porto, Edições Afrontamento, 2017 
A Ant3na/RTP assinalou os oitenta anos da rádio pública (1935) e da emissão de música escolhendo e listando discos simbólicos de artistas e bandas portuguesas por épocas ou acontecimentos, desde “A Fundação da Rádio Pública 1935”, “O Vinil em Portugal 1954”, passando pela “A Revolução de Abril”, “A afirmação em FM 1979” e “Novo Século Digital 2000”. É uma de algumas das separações cronológicas possíveis, mas a lista de 111 discos seleccionada é, certamente, uma das muitas e diversas hipóteses a apresentar e que, na sua essência, tenta ser abrangente nos géneros, nas susceptibilidades e, como convêm, nos compromissos. 

Não há, por isso, por aqui muitas surpresas, rupturas ou novidades, embora seja estranho que os Taxi, os Já Fumega, os Trabalhadores do Comércio, os Repórter Estrábico, os Stealing Orchestra ou até António Pinho Vargas em versão anos oitenta (p. ex. “As Folhas Novas Mudam De Cor” de 1987 onde está “Tom Waits”, um dos instrumentais mais bonitos de toda a música portuguesa), tenham sido esquecidos, melhor, preteridos. Há uma coincidência geográfica nesta meia dúzia de nomes, mas é só coincidência... 

O livro é um notável repositório de gostos, predilecções e vivências de uma plêiade de jornalistas, músicos, radialistas, críticos, melómanos ou empresários de imbatível reunião, alguns deles, entretanto e infelizmente, desaparecidos: David Ferreira, Luís Pinheiro de Almeida, João David Nunes, Ruben de Carvalho, Júlio Isidro, Luís Filipe Barros, Adelino Gomes, José Duarte, Jaime Fernandes, a quem o livro é merecidamente dedicado, João Lopes, Ana Cristina Ferrão, João Gobern, Nuno Galopim, Zé Pedro, Álvaro Costa, Isilda Sanches, Pedro Castelo, Mário Lopes, Ricardo Saló, António Macedo ou Rui Miguel Abreu, que repetindo autoria de textos, mas não artistas e bandas, respeitando uma regra imposta, acrescentam à história da música em Portugal uns bons episódios desconhecidos perfumados de imaterialidades sobre concertos, emissões de rádio, parcerias ou bizarrices que se recolhem na primeira pessoa e, por isso, preciosas. 

Faltou, talvez, o convite a Adelino Gonçalves para discorrer sobre os Heróis do Mar versão pista de dança mas também sabe bem ler a história contada por Júlio Isidro sobre uma matinée no Nimas lisboeta, a das famosas saudações nazis. Sabe ainda melhor recordar o Zé Pedro a escrever sobre o amigo João Ribas dos Censurados, o Álvaro Costa a discorrer sobre o "crooner fadista" Tony de Matos e, acima de tudo, a recuperação do texto-descoberta que Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre a estreia dos Madredeus no "Blitz" em 1987, aqui reimpresso em versão editada mas ainda, e sempre, certeiro: "Não é uma música formalmente concebida para ser "eterna" - é uma música que trata da eternidade". Impressionou-nos, com razão, na altura e continua hoje, mais de trinta anos depois, a causar o mesmo efeito. 

Demoramos, por isso, alguns anos a folhear, para a frente e para trás, este volume essencial para qualquer balanço sério sobre o fenómeno musical português, um género de table book de consulta ocasional e que, não respeitando os capítulos ou separações, nos conduziu invariavelmente ao recurso mais "próximo" só para voltar a confirmar muitas das emoções, vibrações e memórias que as capas de página inteira reforçaram na saudade...


quinta-feira, 29 de junho de 2023

(RE)LIDO #116





















NICK DRAKE'S RIVER MAN - A Very British Masterpiece 
de Jochen Markhorst. França, Amazon, 2023 
Em final de mês comemorativo das setenta e cinco primaveras de Nick Drake, acrescentam-se cada vez mais livros e recensões sobre a sua vida e as suas canções. Entre as novidades, esta é uma das boas surpresas surgidas, não tanto pela dimensão da abordagem mas sim pelo seu evidente, mesmo que ligeiro, academismo concentrada numa só canção, a tal obra prima chamada “River Man”, sistematização e método que o autor e professor holandês aplicou já mais de uma dezena de vezes a temas de Bob Dylan

Um detalhe da pintura “The Fringe of the River” de 1894 do paisagista John Clayton Adams (Inglaterra, 1840-1906) foi escolhida intencionalmente para a capa, a única imagem colorida de uma edição pobre, descuidada e, possivelmente, reduzida, atendendo a que o formato digital Kindle parece ser o preferencial para evitar sobrepor custos. É dela que emerge um Drake desfocado e, hellas, cabisbaixo, como que abandonando um cenário natural de luz, nuvens, árvores, folhas ou água, onde, desde sempre, embebeu perfumada inspiração para as suas canções. “River Man” é, claro, o perfeito exemplo desse idílico romantismo, dessa englishness já retratada noutras publicações, por sinal, também académicas, mas que esconde intrincados mistérios e enigmas requisitantes de contínua pesquisa, análise comparada e dedicação prazerosa. 

As cem páginas do seu conteúdo afiguram-se, pois, de uma preciosidade e validade imediatas. A composição musical, o seu formato e construção são motivo de um enfoque inicial nas comparações e influências que tanto nos remetem para Dave Brubeck e “Take Five” como para Harry Robinson e “Song of Summer”, ele que viria a ser o orquestrador inesperado de “River Man”, um acaso único que tem explicações (p. ex. Delius), factos e histórias saborosas e que alguém (Richard Thompson) definiu como sendo bem melhor que “Eleanor Rigby”, jóia quase sempre classificada como o tema cimeiro da orquestração pop. Talvez já tivéssemos deparado com alguma desta interessante informação em tantas das leituras que, viciosamente, vamos fazendo sobre Drake mas há por aqui uma síntese quase científica dos porquês e das razões do que se pode ouvir na canção, o que torna o momento numa paisagem sonora de dimensão, talvez, inigualável. 

Não admira que sejam já mais de oitenta as versões que o tema recebeu de artistas tão diversos como Paul Weller, Chrissie Hynde, Mathilde Santing ou do mágico Brad Mehldau, sobressaindo notas sobre muitas mais de preferência/estranheza assumida como a da brasileira Beatrice Mason ou da espanhola Susana Raya que, corajosa, traduziu inclusive a letra para castelhano, renomeando como Silvia a Betty original para acentuar o “Iberian melodrama” (sic). Talvez não conheça a que portuguesa Marta Hugon gravou em 2008.

É ela, a tal Betty, que dá início a uma lírica, por si só, de um dourado literário que brilha na melodia de forma misteriosa e sublime. Afinal, de quem se trata? Quem é o river man? O que têm a dizer um ao outro sobre o lilac time? No capítulo maior do livro está, então, um substancial manancial de conexões e aforismos que acentuam a formação literária e até filosófica de um Drake emaranhado em subtilezas, como sempre, de difícil explicação mas em que Markhorst se afunda, consistente e magistral, nas respostas - Rimbaud, Nina Simone, Hermann Hesse, Colin Blunstone, Dante, The Beatles ou Jacques Tati são só alguns dos nomes desalinhados mas, afinal, condutores em que o mergulho se fortifica, estrofe a estrofe, verso a verso, num esforço sem pretensões definitivas mas de hipóteses inteligentes onde tanto se pode, livremente, metaforizar sobre droga, amor ou morte. 

Como em qualquer obra prima, haverá sempre uma qualquer dúvida que lhe acrescenta magia, grandeza e perfeição. Ouçámo-la, por isso, vezes sem fim. São “só” quatro minutos e vinte e poucos segundos de eterno prazer… 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

(RE)LIDO #115





















FERNANDO TORDO: 
Não Houve Geração Mais Rica do Que a Nossa 
Diálogo com José Jorge Letria 
de José Jorge Letria. Lisboa; o fio da memória-SPA/Guerra & Paz, 2019 
No âmbito da oportuna colecção "o fio da memória" promovida pela SPA-Sociedade Portuguesa de Autores, repositório informal da vida de personalidades da área da cultura e arte já com quase uma vintena de volumes publicados, coube a Fernando Tordo o privilégio de se sentar à conversa com José Jorge Letria num género de entrevista biográfica entre amigos. 

Os dois pertencem a uma geração marcante para a música portuguesa que viveu a transição da ditadura para a democracia de forma intensa e até militante mas em que o fascínio pelas canções começou cedo e se tornou o fermento cúmplice de crescimento. No caso, uma primeira e estranha guitarra vinda da Madeira foi o rastilho para uma aprendizagem mais metódica que levariam Tordo, entre tantas histórias contadas na primeira pessoa, a fazer parte dos adorados Sheiks em bolandas por Albufeira, "centro da Europa", entre figurões como Tom Jones, Cilla Black ou metade dos heróis Shadows. Uma "má vida" salutar!

O encontro com Ary dos Santos seria vital para o reconhecimento (inter)nacional, parceria que deu tantas canções a um imaginário lusitano sem idade e que teve em "Tourada", canção com cinquenta anos feitos em Fevereiro passado, um epicentro memorável. Não se perde muito tempo na descrição dessa mítica história de Festival da Canção mas já antes "Cavalo à Solta" se mostraria, na mesma em ambiente festivaleiro, o espelho cimeiro duma colaboração que se alongou até aos finais dos anos setenta para depois se romper de forma natural. Foi já sozinho que escreveu e musicou com José Calvário um dos seus maiores êxitos - "Adeus Tristeza" ainda é hoje a imagem de um artista em liberdade e completo. 

Polémicas à parte, há por aqui algumas revelações sobre dependência, conveniência e desilusões com amigos, colegas de profissão e, sobretudo, políticos que lhe mereceram, mesmo assim, elevado reconhecimento como ilustram as muitas das fotografias reproduzidas ao longo do livro e que teve recente condecoração de reforço ao lado do compagnon Paulo de Carvalho. 

Na troca de impressões relatadas transparece uma informalidade só possível pela distância temporal de muitos dos acontecimentos e factos embora o polémico e badalado abandono do país em 2014 mereça insistência nas razões políticas e sociais, uma zanga de notório azedume que multiplicou reacções de aprovação e ódio mas não desmotivou a criação e a constante inquietude. Musicar o poeta António Botto, intento ainda não concretizado, ou um disco de duetos com a colaboração e carinho de vários colegas e amigos, são só dois desses projectos de uma vida retomada num país respirável e que a Tordo deve gratidão e aplauso. O seu futuro há-de ser o que ele quiser...


quinta-feira, 13 de abril de 2023

(RE)LIDO #114





















NICK DRAKE - Il ragazzo sotto la quercia 
de Pipo Russo. Florença; Edizioni Clichy, 2021 
A figura de Nick Drake tem em território italiano uma expressão e culto surpreendentes. Pelo menos, é isso que transparece da inusitada quantidade de livros e recensões sobre a sua vida, canções e discos que nos últimos anos por lá florescem de surpresa mediante uma atenção ferrenha quanto à sua música. Temos por aqui feito nota dessa inquestionável perdição, centrando a visibilidade em diversas edições impressas que se sobrepõem nas informações e tratamentos das vicissitudes biográficas de uma lenda, ainda e sempre, misteriosas e sedutoras. Pena que as revelações sejam sempre inconsequentes... 

O caso deste pequeno livro de bolso é o perfeito exemplo desse repetido díssono. Bem feito e paginado, usando papel de qualidade e apostando num desenho sóbrio e cuidado, as suas noventa páginas percorrem-se, no entanto, num ápice decepcionante em partes de separação vulgar - uma pequena biografia em dez datas marcantes, um ensaio do autor que dá lhe título, uma compilação de traduções para italiano de algumas das líricas, intercaladas com uma vintena de fotografias icónicas, e a selecção de sentenças elogiosas de figuras como Robert Kirby, Joe Boyd, Robin Frederick ou Vashti Bunyan. Nada de novo, nada de significativo e inédito já que, por exemplo, a totalidade das letras de Drake mereceram já uma tradução total em italiano apesar da pobreza da publicação

Seria, pois, o referido ensaio de Pipo Russo a parte mais saborosa do esforço. Chamou-lhe "Il ragazzo sotto la quercia", ou seja e numa transcrição livre, "O rapaz debaixo do carvalho", o que poderia remeter para a série de fotografias de Keith Morris obtidas no Regents Park londrino em 1970, quatro delas usadas no interior para encerrar o livro sem qualquer anotação, tal como as restantes, quanto ao seu autor ou proveniência! A socapa talvez explique o porquê de não ter sido usada, como parecia óbvio, uma delas para a imagem de capa mas a referência é, afinal, uma alusão à tumba do próprio Drake no cemitério de Santa Maria Madalena de Tanworth-in-Arden, situada por baixo de um imponente carvalho. Mas o que esconde um título tão romântico? 

A tentativa literária começa com um "Olá Nick e obrigado pela melancolia". Estamos, assim, perante uma abordagem veneradora de feições poéticas de (in)disfarçado género epistolar pleno de perguntas e inquirições a um destinatário suspirado. Porquês sobre o "céu do norte", o "que disse o tempo" ou "um sítio para estar" que, invariavelmente, esbarram num acumular de futilidades à volta das letras, das suas eternas metáforas e significados. Nas trinta páginas de suposta conversa é como se o músico estivesse do outro lado de uma mesa ou sentado no sofá receptivo a confissões e dúvidas - "Cada um de nós teve sua própria maneira de conhecer a tua música, Nick." (pág. 28) -, uma viagem tristonha que resulta num monólogo de devoção compreensível ainda que de dimensão confusa e préstimo duvidoso, mesmo que o nosso parco italiano possa ter condicionado na exaltação. 

Se há virtude que podemos apontar a esta publicação, foi na filmografia final, de três menções, que a encontramos - chama-se "Nick Drake - Songs in a Conversation", é um documentário realizado por Giorgio Testi estreado na Festa del Cinema de Roma em 2019 e aparenta seriedade maturada no gosto e amor de Roberto Angelini e Rodrigo d’Erasmo por Nick Drake, convocando outros artistas italianos para uma série de confissões e versões de canções registadas por John Wood, o mítico produtor dos três álbuns que Drake gravou em vida. Ao filme soma-se a edição de um disco de edição recente mas já audível na sua totalidade. 

Se le canzoni fossero battute in una conversazione, la situazione andrebbe bene...


sábado, 1 de abril de 2023

(RE)LIDO #113





















OS BEATLES - Aventuras Pop Portuguesas
 
de Abel Soares da Rosa. Lisboa; Âncora Editora, 2022 
A façanha já com uma década continua a ser para o autor uma demanda obstinada - que raio se editou, publicou ou viu sobre os The Beatles e tudo à volta em Portugal? As respostas fazem já parte de, pelo menos, quatro livros a rondar os discos de vinil, as revistas, os jornais ou os filmes e as suas vicissitudes, um conjunto de imagens, documentos e textos que servem de fundo arquivístico revisitado de utilidade e prazer para aficionados, melómanos ou simples curiosos de uma temática eterna. O mais recente contributo é um género de best of das pesquisas anteriores às quais se juntam abordagens e averiguações inéditas que continuam a somar lanços saborosos às gavetas do arquivador. 

Neste particular, são deliciosos os pormenores contados por Hunter Davies, autor da única biografia autorizada sobre a banda, que de visita ao Algarve deu de caras com Paul e Linda (Eastman) McCartney e por ali se fixaria com a família em algumas temporadas até aos dias de hoje. A história e o convívio contados pelo próprio são uma preciosa panorâmica de um país em ditadura, mas também das suas incontornáveis virtudes climatéricas e gastronómicas ou da estranheza de alguns dos costumes. "Oh Happy Days...", no título do texto que Davies escreveu para o livro. 

É desta altura "Penina", canção nascida num bar de hotel que se fez plena pelos portugueses Jota Herre e que a receberam por oferta de um simpático Paul McCartney, conhecendo posterior edição oficial. O livro surpreende no número de edições e versões que o tema acabaria por receber ao longo dos anos um pouco por todo o mundo, uma compilação de referências rebuscada e inédita que confirma a teimosia salutar de Abel Rosa sobre uma das tais aventuras pop portuguesas, talvez a mais conhecida e inesperada. 

A monografia contempla a reprodução, já publicada, da totalidade dos discos/EP's de 45 rotações que os The Beatles editaram em Portugal, acrescentando-lhe edições das colónias e das carreiras a solo no mesmo formato, bem como a totalidade do selo Apple em território nacional. Mas há mais. São mais de oito dezenas as versões de canções dos de Liverpool ou em sua homenagem que artistas e bandas portuguesas registaram ao longo dos anos e elas cá estão - quinze páginas de capas de discos de uma variedade de estilos abrangente, do proto-pimba ao fado, do prog ao coro infantil, desde o Conjunto Mistério em 1963 ("I'll Get You"/"Sem ti Não Sei Viver") até José Cid em 2018 ("The Fab 4") de 2018. Uma verdadeira ode aos Beatles... sem data previsível de término. 

O relato inédito de César Faustino, jornalista do "Diário de Lisboa" que cobriu a passagem efervescente da banda por Estocolmo em 1964, onde já tinham estado no ano anterior, afigura-se uma leitura de aprazível novidade. Os pormenores da entrevista que então realizou, o convívio inesperado com o quarteto e os meandros da sua publicação no vespertino lisboeta, são um contributo flagrante para perceber o fenómeno ciclónico que, em turbilhão, varria a Europa e que atingia países frios sem contemplação, mas que não chegou a alcançar um jardim à beira-mar plantado, quase tropical, sem flores e próspero nos preconceitos, a criar bolor e a limitar ousadias como filmes com gente a gritar e a dançar à custa de música perigosa. Estas histórias e facetas cinematográficas o autor faz, outra vez e de passagem, questão de recordar. 

Ou seja, mais uma colectânea despretensiosa, mas oportuna que, para além de revelar o infindável esforço de um entusiasta, é um espelho das virtudes do coleccionismo e de uma paixão única - despertar admiração, motivar concorrência leal e ficar à espera de mais matéria "beatlesca". Nunca serão demais as "aventuras dos quatro"! 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

(RE)LIDO #112





















LOVE ME DO! A ASCENSÃO DOS BEATLES
 
de Michael Braun. Lisboa; Guerra e Paz, 2022 
A chamada Beatlemania teve documentos cinematográficos que, da melhor maneira, expressam a extravagância vivida com a explosão dos The Beatles no Reino Unido, uma contaminação que se espalhou de imediato a outros países europeus e, logo a seguir, aos Estados Unidos. Quem viu "A Hard Day's Night" de 1964, realizado por Robert Lester, não tirou o sorriso dos lábios pela pantomina do enredo da própria banda a fugir de fãs, da imprensa ou da polícia... Se lhe juntarmos o documento ao vivo "Eights Days A Week" sobre o mesmo período bizarro em que a banda subia a um qualquer palco, desde o Cavern ao Budokan, o fenómeno alcança, a esta distância, laivos de incompreensão e difícil esclarecimento. 

Certo é que logo em 1964 foi editado um livro sobre o assunto, por sinal, o primeiro sobre os The Beatles. O seu autor, Michael Braun, era um escritor americano destacado para Londres para passar três meses com os quatro rapazes e respectiva entourage, desde a digressão de seis semanas pela Inglaterra de 1963, passando pela estreia em Paris e a primeira viagem aos E.U.A. (Fevreiro de 1964). 

Aproveitando o embalo e o sortilégio, reuniu sem cerimónias algumas memórias vivas sobre a ascensão dos Beatles com "Love Me Do", o primeiro single de sucesso e, logo depois, com "Please, Please Me" que se instala no primeiro lugar do top. A compilação dos eventos, dos corropios ou desabafos e das muitas facetas de um sintoma a que ninguém ficou indiferente foi descrita como "o melhor livro dos Beatles de todos os tempos" que a frase de Lennon de 1970 "um livro verdadeiro. Ele descreveu-nos como éramos, uns safados." acabaria por corroborar e fortalecer. 

Quase sessenta anos depois, o relato mereceu edição portuguesa e, sim, foram essas as frases que se estamparam na capa a sobrepor uma fotografia da época dos tais quatro safados em pose de borga, certamente, perante uma multidão de máquinas fotográficas. Confirmamos, desde já, o que Lennon sentenciou de forma sincera, e será muito difícil existir um outro livro que se possa ler que o ultrapasse. Mantem-se fresco, apurado e incisivo na escolha dos factos e circunstâncias a que se junta uma selecção frenética de incidentes, piadas ou conversas privadas que se vão interpondo com cartas verdadeiras das fãs, relatos dos jornais, comentários de corredor ou anúncios de rádio. Tudo ritmado de forma eficaz e em que os ambientes são quase sempre de euforia e festa mas também de troça, humor negro e muita pândega vigiada por agentes, managers, forças policiais ou até embaixadores. 

Os Fab Four eram, já aí, geniais e mesmo imbatíveis no avolumar de um novelo que não sabiam quando iria parar mas que queriam continuar a enrolar com prazer e satisfação. Não há por aqui lugar a tristezas, desgraças ou traições. O rolo compressor do relato é, de certa maneira, asfixiante e propositado ou não fosse a pressão vivida uma incontrolável alienação colectiva que, mesmo sem querer, mudaria muitas mentalidades, hábitos e padrões. Estamos, assim, perante um verdadeiro clássico da literatura, do rock e até da sociologia da cultura.. e da loucura. Obrigatório!


sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

(RE)LIDO #111





















EU ESTIVE LÁ! 
Bilhetes de Concertos em Portugal 
coord. de Henrique Amaro. Lisboa; Tinta da China, 2022
Ir a um concerto de rock, jazz ou música popular e guardar o bilhete talvez seja hoje uma mania incompreendida por gerações digitais absortas no efémero e distraídas na memória. Desde os anos oitenta, não fomos os únicos a fazê-lo já que a esses pedaços de papel, onde se reproduzia a imagem da banda, do artista ou da capa de um álbum, se impregnavam deslumbres antigos de viagens, de amizades, de canções, de flirts ocasionais ou até de encontros inesperados. Muitos fizeram deles marcadores de livros, tesouros involuntários em gavetas de velharias ou um montinho em jeito de cromos agarrados por um elástico de borracha derretida. No nosso caso e ao fim de muitos anos de desprezo, demo-nos ao trabalho de os colar cronologicamente em quatro molduras tipo poster decorativo, passando depois a metê-los em álbuns de fotografias. Agora vendem-se arquivos preparados para o efeito com direito a espaço para verter memórias e tecer comentários imediatos!

Em boa hora, contudo, alguém se lembrou de fazer um inusitado livro com a reprodução desses bilhetes portugueses desde os anos sessenta do século passado até aos anos dois mil, uma tarefa coordenada por Henrique Amaro com a colaboração de cinco dezenas de "amontoadores" ocasionais mas preciosos. Cada década ou período foi separado por um texto a cargo de aficionados militantes onde se contam histórias, se recordam companhias, se revelam segredos ou se descrevem acidentes e obstáculos - Luís Pinheiro de Almeida (60/70), Ana Cristina Ferrão (80), Pedro Fradique (90) e Isilda Sanches (00) foram os escolhidos para o efeito mas todos fazem questão de enfatizar a inquietude prévia à aquisição do milagroso pedacinho de papel e a felicidade resultante da sua obtenção. Mesmo hoje, essa satisfação continua a fazer-nos sorrir nem que seja por uma simples confirmação de multibanco ou plataforma online. Difícil de explicar mas, certamente, comum a muitos dos que compraram e fizeram o livro, um repositório visual e documental tratado com simplicidade e bom gosto. Mesmo assim, temos alguma reclamações.

Se muitos dos bilhetes no seu desenho se aproximam da versão que conhecíamos e onde só muda o local portuense - há, obviamente, uma concentração de entradas para concertos de espaços e salas de Lisboa - reparamos na preocupação em não repetir em demasia artistas ou bandas, um critério que deveria ter sido alargado a outros talvez mais importantes como a estreia em salas portuguesas ou concertos que deram origem a discos ao vivo. Aqui fica uma lista de reparos/inexistências só para chatear:
. o Charles Aznavour no Monumental lisboeta em 1966;  
. o Rui Veloso no Coliseu do Porto em Junho de 1987 que deu origem ao álbum ao vivo de 1988;
. os Madredeus em estreia mundial a 20 de Novembro de 1987 no Carlos Alberto;
. o Philip Glass no Coliseu do Porto em Maio de 1992; 
. o Sir George Martin no mesmo local em 1995;
. a Bjork no Coliseu de Lisboa em Junho de 1995 e não em Junho de 2000;
. o Neil Young em Vilar de Mouros em 2007;
. os White Stripes no Oeiras Alive de 2007;
. os ZZ Top no Queimódromo do Porto em 2008;
. a Judy Collins em Famalicão em 2009 (afinal não foi a estreia como nos venderam já que a senhora já cá tinha estado em 1983).

Mais a sério, gostaríamos que à qualidade da edição tivessem sido acrescentados índices de locais, artistas, bandas ou autores/designers (na página 97, o desenho daqueles bonitos bilhetes do festival Artlantico na Costa da Caparica em 1987 é do Jorge Colombo?), uma lacuna que um estudo de âmbito mais científico ou monográfico reclama mas que também seria de manifesta utilidade num projecto informal e cronológico como este. Nada que retire mérito, lhaneza e validade ao notável conjunto duplicado, uma espécie de prova de vida, como notado num dos testemunhos de contexto, e que constitui um verdadeiro free pass carimbado para múltiplas e incontáveis viagens no tempo e espaço... Ficamos, por isso, à espera do segundo volume.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

(RE)LIDO #110





















DON'T MENTION THE NIGHT 
Nick Drake in 1974, Kevin Coyne in 1978, Gaffa in 2022. A memoir.
de David Belbin. Nottingham, UK; Five Leaves Publications, 2022 
A descoberta da música de Nick Drake é um momento marcante e, quase sempre, inesquecível. Bem o sabemos. Em 1974, o jovem estudante inglês David Belbin comprou um vinil barato e, aparentemente, promocional ("white label") com canções de Claire Hammil e dos Sunderland Brothers, nomes manuscritos num dos lados do rótulo central. Do outro, sem indicações ou sinais, só quando em casa o pôs a rodar pode ouvir dois temas de um desconhecido de voz suave e brilhante composição. Não mais descansou até conseguir identificar o autor das líricas enigmáticas e da magia das canções que só mais tarde confirmaria ("Pink Moon" e "Things Behind The Sun"). Sem ainda saber quem era, sabia que lhe seria eternamente devoto. 

A demanda coeva por Drake coincidiu com a sua morte nesse mesmo ano, facto de que só se apercebeu posteriormente pela leitura e pesquisa na imprensa da época. A música passou a fazer parte de seu dia a dia, escrevendo para revistas locais, fazendo entrevistas, críticas de concertos ou de discos e nesse frenesim foi dos primeiros a publicar um texto póstumo sobre o malogrado músico e o disco "Pink Moon", o último que Drake editou em vida em 1972, no fanzine Liquorice (Outono de 1975, nº 3) da cidade de Notthingham. O texto original seria incluído nas memórias organizadas pela irmã, Gabrielle Drake. O assunto "Drake" passou a fazer parte das suas cogitações futuras, uma curiosidade que levou até John Martin que, entrevistado por si nesses tempos, recusou dar explicações sobre o amigo falecido ou sobre "Solid Air", tema que escreveu e editou em sua homenagem no álbum homónimo de 1973.  

As primeiras trinta páginas destas memórias são, assim, uma prazerosa jornada pelos meandros de uma vida irrequieta e condutora a uma actividade de escritor que se foi acentuando até aos dias de hoje e que tem no papel de editor de uma publicação musical uma tarefa efervescente e empolgante contada na primeira pessoa. Mas há ainda neste pequeno livro muito mais sumo rock & roll...

 

A parte seguinte afigura-se mais intensa na descrição e na novidade. Com Kevin Coyne (1944-2004) o autor conviveu de perto na presença em concertos, nas conversas de backstage ou na ascensão, mesmo que tímida, da sua carreira e da sua sua onde blues rock de penetração underground. Já como jornalista estabelecido, o gosto e conhecimento sobre os discos, as canções ou as influências de um artista em constante inquietude são expressos de forma emocional e vibrante, críticas e confissões que são verdadeiras manifestações de entusiasmo com naturais altos e baixos, mas que ainda hoje não esfriaram. Basta ouvir este "The World is Full of Fools" para o compreender.

 

A terceira parte refere-se à banda local Gaffa, um projecto da cidade de Nottingham que apesar da separação em 1980 nunca, verdadeiramente, terminou na sua sonoridade early punk. A amizade e cumplicidade entre os seus membros e o próprio Belbin alcança momentos descritivos de saboroso deleite, percurso contado desde o início em 1977 até à recente reunião do grupo de Junho passado.

Misturando detalhes da sua própria vida, o autor consegue que a leitura das três memórias se afigure de inesperado agrado mesmo para nomes e bandas de que não conhecíamos as circunstâncias e percursos. Meritório, no mínimo.