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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

(RE)LIDO #94





















WILCOPEDIA
A Comprehensive Guide to the Music of America's Best Band
de Daniel Cook Johnson. London; Jawbone Press, 2019
Nos últimos vinte cinco anos os Wilco alcançaram um estatuto de melhor banda americana e, por isso, o subtítulo deste livro não sofre aqui na casa qualquer contestação... Antes desse desiderato, já uma semente da mesma cepa Jeff Tweedy chamada Uncle Tupelo fez algum furor em álbuns que o livro do próprio editado um pouco antes nos faz o favor de recordar. Este manual é, assim, um repositório cronológico da totalidade desses projectos de especialidade separados por entradas e saídas de músicos, discos, canções, videos, aparições televisivas ou versões que a banda de Chicago não tem parado maravilhosamente de editar e propagar sob vigilância atenta de fãs convictos ou contestatários mas sempre fiéis.

Sem exageros de forma, ou seja, sem informação massiva ou dita desnecessária, o repositório seleccionado funciona como uma estatística infinita sobre as canções e o seu grau de satisfação do ponto de vista do utilizador/ouvinte, não se perdendo muito tempo na análise das suas supostas inspirações ou motivações, focando o alvo nos dados confirmados e disponibilizados em entrevistas a jornais ou revistas mas multiplicados sem conta através da internet em podcasts, listas de concertos e os seus alinhamentos, videos de fãs ou reposições de programas de rádio. A façanha do seu autor é, por isso, uma notável, monumental e dura recolha de informações obviamente destinada a um público-alvo que se emaranha notoriamente pela vastidão americana mas também na diversidade europeia onde a banda continua a ter palco e adoração permanente e exigente.     

Não deixando para trás outros livros já existentes sobre os Wilco e a própria e referida biografia escrita por Tweedy, a enciclopédia confirma a extensão e abrangência da música por vezes inclassificável do sexteto, uma contínua roda de pop, rock, punk ou folk de evolução maturada no The Loft, casa-estúdio próprio que é a base de uma inclassificável tensão positiva transposta para cima de um palco, benção que já tivemos e vamos querer, sempre que possível, repetir vezes sem conta.

Mesmo que já precise de actualização - a obra só não cobre logicamente o último de originais editado em 2020 - aqui está um precioso documento de eterna consulta e de contínua aprendizagem surpresa e de que são exemplo efectivo que esse monumento-canção chamado "Impossible Germany" tem uma outra cantilena parceira e gémea ("Unlikely Japan") ou que, sim, os Wilco fizeram em 2013 uma versão do "Get Lucky"!




quinta-feira, 18 de junho de 2020

(RE)LIDO #93





















TOUCHING FROM A DISTANCE
Ian Curtis and Joy Division
de Deborah Curtis. London: Faber & Faber, 1995/2014
Na nossa "iniciação" ao mundo adulto da música, a lenda associada à figura de Ian Curtis e aos Joy Division esteve sempre distante de se transformar num mito. Da banda inglesa e do seu principal protagonista começamos a ouvir "histórias" e rumores muito antes de sequer ouvir a música à custa do colega do Liceu Rainha Santa Isabel a que nos habituamos a chamar Pedro Punk, figura alta e desengonçada de poupa no cabelo e mochila/livro pesado de madeira (!) às costas para guardar os cadernos e para servir de banco à espera do autocarro na Rua do Heroísmo! Estaríamos em 1982 ou 1983 e os discos do quarteto de Manchester seriam nessa altura uma raridade de circulação ínfima mas que se espalhava de forma invisível a partir de cassetes gravadas em casa de algum privilegiado. Era, então, das canções que aí se ouviam que o tal Pedro Punk não se cansava de falar e idolatrar pela poesia misteriosa ou a postura e raiva melancólica, uma aparente contradição com o "Punk's Not Dead" escrito nas costas do seu indispensável casaco-tropa do dia-a-dia. O jeito para contar outras histórias e lançar desafios inesperados aos professores, para risota geral, seriam já um sinal do irrequieto jornalista Pedro Sousa Pereira que vingaria profissionalmente com outros dotes artísticos. Quem diria!

Sobre essa época e da influência dos Joy Division na sociedade portuguesa há já estudos e conclusões óbvias, mas o nosso azimute haveria de centra-se na sequela que os New Order assumiriam ao longo da restante década e que, essa sim, sempre nos despertou muita atenção e prazer estendido a matineés e soirées dançantes e maxi-singles e álbuns ouvidos de fio a pavio. Para trás, escondidos e esquecidos, ficavam os pormenores das atribulações de uma banda, de uma vida e de um consequente suicídio.

Em 1995, quando o burbuinho surgido com a publicação deste livro por parte da viúva Deborah Curtis começou a fervilhar - revelações inéditas e, diziam, de afronta aos fãs pelas sugestões de racismo, nazismo ou maledicência do marido - ainda compramos a versão traduzida por Ana Cristina Ferrão editada logo no ano seguinte na mítica colecção "Rei Lagarto" da Assírio & Alvim mas a obra ficaria espalmada e incólume na estante ao lado de outros da mesma série. Seria o magnífico filme "Control" de 2007 realizado por Anton Corbjin que faria o obséquio de nos aproximar, definitivamente, a este personagem de estranheza sedutora a partir de uma abordagem cinematográfica sufocante sobre Ian Curtis baseada no relato e contributo especial da esposa, película que já revemos várias vezes. Ficava a faltar, pois, o documento original que, quarenta anos depois da morte (18 de Maio de 1980) e quase o mesmo tempo (18 de Julho de 1980) sobre a edição póstuma de "Closer" (há reedição de vinil transparente a caminho), mereceu leitura recatada e calma em tempos de isolamento.

Com um novo prefácio a cargo do baterista Stephan Morris, talvez o elemento mais discreto do quarteto mas o menos conflituoso, o livro dedicado à filha Natalie é, para sempre, um acto de amor. Inverte-se a percepção habitual de ver num filme as imagens produzidas pela leitura de um livro e podemos até ter dúvidas sobre alguns dos factos - por exemplo, o sonho abruptamente cortado pela falsa audição de "The End" dos Doors na véspera do suicídio - mas a tensão crescente da narrativa sem ser surpreendente é sedutora na coragem de descrever as vicissitudes da incerteza num amor recíproco, no adensar do adultério, do divórcio intermitente, da epilepsia e dependência médica desconhecida mas, acima de tudo, no eterno mistério em saber de facto quem era Ian Curtis.

Depois há os indispensáveis figurões que pairam e pressionam a banda do ponto de vista do "negócio". Robert Gretton ou Tony Wilson são, por aqui, personagens também eles quase cinematográficos como aconteceu, aliás, com este último em "24 Hour Party People", mas tal como no filme e à medida que as páginas avançam, a tensão começa a estremecer com o dealbar de uma tragédia anunciada e a quem ninguém pareceu evidente. E se..., claro, e se... mas os sinais largados por Curtis desde muito cedo para uma destinada e antecipada morte como que se haveriam de se juntar num epitáfio imagético mais que preparado para a capa do single "Love Will Tear Us Apart", uma sedução pela glória que ainda hoje nos toca profundamente. Como cantou um dos seus ídolos de juventude Fame, it's not your brain, it's just the flame...


sábado, 25 de abril de 2020

(RE)LIDO #92
















GRÂNDOLA VILA MORENA
A Canção da Liberdade
de Mercedes Guerreiro e Jean Lemaître. Lisboa; Edições Colibri, 2014
Poderemos sempre questionar se uma única canção pode motivar a edição de um livro, a realização de um documentário, de uma série televisiva ou até de um filme. E uma peça de teatro? Quando essa canção é "Grândola Vila Morena" o argumento para cada um deles obtêm esteio numa força e numa história de acentuada tenacidade mas também de muito romantismo e até de suspirada poesia tal como vai pairando ao longo da leitura deste ensaio. Descomprometido e sem enciclopedismos exagerados, pretende-se e consegue-se tornar a contar de forma ritmada as eventualidades e acasos de uma canção involuntária e revolucionária que José Afonso escreveu como homenagem à localidade alentejana onde, em 1964, foi recebido de braços abertos por uma comunidade corajosamente afável e acolhedora das suas canções. O destino estava traçado.

Ao relermos esta sequência de acontecimentos até ao dia e consequente noite em que a canção seria a escolhida como senha definitiva da revolução a ser emitida vinte minutos depois da meia-noite na Rádio Renascença, percorre-nos, de imediato, um conjunto de imagens e cenários que mereciam, mesmo, uma aposta cinematográfica baseada em factos verídicos: a inspiração chilena em escolher canções como senhas conspiradoras pelos militares em viagens a Espanha, as subtilezas das trocas de informações para confirmar as senhas, a censura a pairar em todo o lado, os telefonemas cuidadosos, as condicionantes, nervosismos, subterfúgios e percalços dos radialistas e técnicos para conseguir concretizar, sem falhas, a sua emissão, constituem, entre outros, um enredo tenso e perfeitamente sedutor para que alguém "pegue" na história, e que história, e realize um filme de época que está ainda por fazer. Se lhe juntarmos todo o processo prévio, por aqui descrito, relativo à gravação da canção para o disco "Cantigas do Maio" que decorreu em França em 1971, podemos então juntar mais uns bons cenários e sequências a um argumento infalível que teria no registo daqueles passos arrastados na gravilha de inspiração alentejana que ouvimos no começo do tema um momento de previsível ternura.

"Uma canção como chamariz. Uma flor como símbolo... Não é comum". Não, não foi um filme. A revolução fez-se com canções e esta chegaria a ser oferecida de forma tangível a muitos compradores em algumas lojas comerciais do nosso país como símbolo dos novos tempos. O mesmo formato chegou inclusive a ter edições internacionais em países como a antiga Alemanha Democrática e a sua apropriação internacional nunca mais parou. Se nos lembramos ainda do movimento contestatário da intervenção da chamada Troika em Portugal em 2013, foi a mesma canção que chegou a interromper um Primeiro Ministro no Parlamento e cuja reacção é dos momentos mais memoráveis da arguição política de tribuna. Quarenta e seis anos depois, num período de incertezas e de diária perplexidade, pede-se para que hoje a cantemos à janela de casa de forma distante mas estranhamente unida. Aqui a deixamos, a canção da liberdade eternamente inspiradora, aos vinte minutos do dia 25 de Abril de 2020... 



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

(RE)LIDO #91





















AUTOBIOGRAPHY
de Morrissey. Londres; Penguin Classics, 2013
A carreira a solo de Morrissey, que leva já mais de uma trintena de anos, é por si só uma jornada digna de registo. Contudo, a maioria dos eternos aficionados dos The Smiths parece que aos poucos lhe foi virando as costas a que não será alheio o seu inconstante e irritante feitio, uma montanha russa de imprevisíveis afrontas, amuos, ou provocações. Basta, para isso, estar atento à serie de episódios em catadupa ao longo do corrente ano para o comprovar. É só escolher!

Serve este desabafo de um fã antigo mas desiludido, para tentar expressar, mesmo assim, a validade da biografia que o próprio decidiu escrever, um testemunho ritmado e vigoroso desde os tempos de infância numa Manchester mal amada até ao refúgio em Los Angeles. Na sua aparente sinceridade, a narrativa torna-se aditiva e sôfrega, focada na amargura de uma infância solitária, na rejeição vivida durante o ensino colegial e no despertar obstinado para a música, os concertos e os heróis, uma primeira parte do livro onde os momentos de partilha são mais saborosos de ler e, sinceramente, os mais brilhantes.

Depois, como que preparado com minúcia, começam a acentuar-se as questiúnculas legais e ilegais, os rompimentos, as separações e os eternos problemas gerados pelo fenómeno The Smiths e uma nítida fixação, os topes e os números uns. A demora de cento e quarenta páginas até aparecer o nome de Johnny Marr é um sinal de uma estratégia de vitimização ou não fosse Morrissey sinónimo de miserável, "misery", "mozzery " e "Mozz", o cognome que sempre rejeitou mas de que tanto se orgulha! A descrição em cinquenta páginas do processo em tribunal por direitos de autor contra o baixista da banda Andy Rourke é, a esse nível, uma xaropada dispensável mas que, lá está, o próprio queria certamente contar à sua maneira numa visão muito particular do imbróglio atravessada na garganta.

Notamos, ainda assim, a falta de mais memórias relativas a desencontros ou afinidades com colegas de profissão, um mundo rock & roll que é o sal tonificante de qualquer biografia musical - um bom exemplo é a descrição da parceria de que já nem nos lembrávamos de 1994 com Siouxsie no registo de uma versão de "Interlude" de Timi Yuro, um encontro naturalmente promovido pelo próprio mas revelador da eterna intriga condenada a burocracias, adiamentos e contratempos e sem um decidido video programado mas nunca concluído.  

A mudança para Los Angeles e para a imensidão americana - "I’m alone, of course, but that is quite usual" - confirma a obstinação com uma solidão constante mesmo que o desfile de vedetas vizinhas a querer companhia e atenção seja relatado como ofensivo e antipático. Ou seja, o homem não gosta de ninguém e parece também não gostar que gostem dele apesar de ter escrito um belo de um livro onde a vida íntima é pormenor atendendo a que Morrissey só há um, é este incompreendido e mais nenhum!  


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

(RE)LIDO #90





















LIST OF THE LOST
de Morrissey. Londres, Penguin Books, 2015
Na tentativa de recuperar algum do tempo perdido não a ler os livros mas a escrever sobre eles, retomamos agora a apreciação de um punhado de escritos a que fomos deitando os olhos com esforço redobrado nos últimos anos atendendo a que a leitura ao perto está cada vez mais refeita e difícil.

Para que essa demanda fizesse sentido escolhemos Morrissey, um figurão mor autor da sua própria biografia mas também de um pequeno romance posterior cuja capa de fotografia com um atleta em pleno esforço nos aguçou a curiosidade na altura da sua disponibilidade nas prateleiras de uma qualquer FNAC. Assim, antes de ganhar coragem para as confissões em nome próprio, nada como testar as capacidades ficcionais de um dos mais brilhantes autores de líricas para canções que a pop inglesa conheceu...

Este entusiasmo inicial, contudo, cedo se converteu numa decepção acelerada, um azar que parece uma sina quanto a músicos que se dedicam aos romances, muito por culpa de um enredo zangado e de um niilismo aparentemente propositado que envolve uma jovem equipa de corridas de estafetas em modo libidinoso e sobranceiro, a morte de um demónio (!) e a consequente maldição!

Bastará uma consulta na diagonal ao que a wikipedia recolheu sobre este suposto romance para constatar as coincidências na frustração e a imediata recomendação na dispensa de um livro sem fluidez, desgarrado do seu contexto dos anos 70 e em que cada um dos quatro personagens sugere ser um alter-ego de personalidades do próprio autor - infância conturbada, rejeição e pouca força de viver. Houve até quem se desse ao trabalho de compilar os seus dez piores parágrafos, uma perseguição bizarra que certamente o próprio Morrissey agradeceu e anteviu naquele seu jeito de se comiserar que "ninguém gosta de mim". Uma perca de tempo e um verdadeiro last of the list que, mesmo assim, vale cinquenta euros como peça assinada!

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

(RE)LIDO #89





















ESTOCOLMO
de Sérgio Godinho. Lisboa: Quetzal, 2019
O impulso é antigo e perigoso: ler romances de músicos respeitados e corajosos que se aventuram na ficção. São, certamente, muitos os exemplos de boas novelas - basta lembra o nome de Chico Buarque - mas não temos tido sorte nas nossas escolhas que alcançam num ápice o estatuto de pura desilusão ou aceleram uma prematura desistência.

No caso de Sérgio Godinho, um primeiro escrito romanceado chamado "Vida Dupla" parecia ser uma estreia segura e prometedora a fazer sonhar com desafios de maior risco e sedução. No caso de "Estocolmo", o seu segundo romance editado este ano, ao fim de poucas páginas o desapontamento começa a instalar-se flutuante numa trivialidade dispensável.

Pode ser mania, mas nunca gostamos das capas onde o nome do autor é bem maior que o título do livro, uma opção comercial que quase sempre é fraco sinal. O argumento metafórico sobre o que é a liberdade e a sujeição com contornos de predação sexual envolvendo uma quarentona apresentadora de televisão e um jovem estudante à procura de quarto numa grande cidade até que parece uma boa ideia mas a narrativa acelera num género de "nove semanas e meia" de má memória que surpreende pela audácia mas que está longe de convencer. Lê-se numa tarde para logo se esquecer à noite...         

segunda-feira, 29 de abril de 2019

(RE)LIDO #88


LIBERDADE É FRUTO
Discos Perdidos e Outras Canções de Abril
de João Pedro Almeida da Rocha. Coimbra; Secção Filatélica da A. A. Coimbra, 2017
Temos por dado adquirido que durante o período de ditadura um conjunto de cantores portugueses sofreram represálias e privações motivadas por questões ideológicas ou políticas e que muitos dos seus discos e canções foram simplesmente apreendidos ou banidas de emissões televisivas ou radiofónicas pela censura.

José Afonso, Sérgio Godinho, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Luís Cília ou Manuel Freire são só alguns dos artistas mais conhecidos sujeitos a essa perseguição com história mais que documentada e retratada e que escondem um cenário mais abrangente de incómodo criativo em quantidade inimaginável.

Ora, este livro tem o grande mérito de assinalar e destacar, para além destes, outros nomes de um panorama de cantautores no masculino (por exemplo, José Matildes, Eduardo Lemos, Francisco Naia ou Raimundo Jorge) e feminino (por exemplo, Natércia Aguiar, Ana Maria Teodósio, Maria Amélia Proença ou Teresa Paula Brito) que continuam esquecidos na penumbra apesar de terem sofrido do mesmo tratamento ignóbil. São-lhes traçadas as biografias, reproduzindo fotografias, notícias de imprensa da época e capas dos discos raros e entrevistando-os, quando possível, directamente, escolhendo cronologicamente uma das suas canções como exemplo comprovado dessa acção censória de grilheta e as histórias negras associadas.

Mesmo que por vezes a escrita não seja a mais cativante, o autor consegue reunir um conjunto de informações e dados inéditos por nós e por muitos ignorados que ajudam a compreender uma época vibrante da edição discográfica em Portugal, permitindo destapar algumas das estratégias e subterfúgios dos autores, das editoras, das distribuidoras ou dos realizadores de rádio ou televisão para tentar "contornar" a sujeição.

Coleccionador metódico de discos de música portuguesa, nota-se a sua paixão pela faceta dita de intervenção e o seu assinalável esforço em concretizar, no que sugere ser uma auto-edição, um projecto obviamente inacabado mas de interesse colectivo inquestionável. Deixamos aqui três exemplos de "histórias" aí incluídas que talvez despertem a vossa curiosidade e que vos levem a comprar e folhear o livro como é merecedor.





terça-feira, 23 de abril de 2019

(RE)LIDO #87





















NEM TODAS AS BALEIAS VOAM
de Afonso Cruz. Lisboa; Companhia das Letras, 2016

(…) A música é a pior coisa do mundo, altera o humor, distorce o juízo, as pessoas perdem a solenidade necessária para raciocinar friamente e com objectividade. Pior, sobe o efeito da música as pessoas apaixonam-se e depressa começam a fornicar e fabricar mais seres humanos, a partilhar os fluídos mais íntimos como se fosse Coca-Cola, numa voragem aberrante que culmina na mais perversa das criações naturais: a população. A música reduz o QI, a música, disse Santo Agostinho, devia ser proibida. Quem não concorda? E, mais assustadora do que tudo, a mais sinistra característica do mundo: faz as pessoas dançarem.” 

...chegados à página oitenta e seis eis que o autor saca de uma pitada de sarcasmo para acentuar que, se a música é na vida real a balança decisiva de algum bem-estar, a sua negação nas palavras de um tal Erik Gould é uma fantasia ilusória do mesmo nível do título do livro.

Esse personagem, pianista de jazz com jeito para tirar das teclas não só sons mas, principalmente, memórias e histórias saudosas, é o enrolador principal de um novelo tramado que envolve uma campanha inventada pela CIA com o objectivo de permitir aos E.U.A. em plena Guerra Fria reconquistarem o reconhecimento do mundo através da supremacia da música jazz.

Os seus solos de piano sugerem cartas de amor eterno a uma mulher, a única na sua vida, mas que sofre um revés irreversível com o seu misterioso desaparecimento. O fruto dessa paixão tem, no entanto, no filho Tristan a personagem arrebatadora do romance - misterioso, entranhante, sufocante é nele que a música tem o emissor e receptor centrifugado que, entre alegorias e metáforas brilhantes, nos amassa tristemente na sua procura estéril pela mãe através de um atlas impresso... Afinal, alguma felicidade vai encontrá-la numa caixa de sapatos, sim, uma caixa de sapatos!
   
Se em romances anteriores Afonso Cruz demora a nos convencer pela escrita, com este livro o estatuto pleno de romancista é atestado num estilo surpreendente onde a experiência de músico multi-instrumentista nos The Soaked Lamb assume uma faceta inspiradora, o que neste Dia Mundial do Livro só pode ser o melhor dos brindes!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

(RE)LIDO #86





















BORN TO RUN - Autobiografia
de Bruce Springsteen. Amadora; Elsinore, 2016
"Escrever sobre nós próprios é complicado... Mas, num projeto como este, o escritor fez uma promessa: revelar a sua mente a quem o lê. Nestas páginas, foi o que tentei fazer." 

Para quem como Bruce Springsteen tem uma vida artística já longa e intensa, a promessa com que nos brinda logo a abrir a sua história parece simplesmente um cliché literário. Mas se atendermos a que tal projecto foi meticulosamente documentado durante sete anos entre concertos e digressões, retiros e introspecções, percebemos que na enorme cruzada de altos e baixos o artista escolheu revelar o que quis, melhor, o que o protege e fortalece. Ficaram na penumbra, certamente, um conjunto ilimitado de factos sem que se possa, contudo, apontar falta de coragem ao The Boss, o patrão que tudo controla mas que tudo merece atendendo à dedicação e perseverança. 

O esforço é particularmente saboroso e notório na recordação de uma infância agitada em New Jersey, na relação conturbada com o pai e no advento da música pela rádio, na pulsação da primeira guitarra ou a canção inicial, uma versão de "Twist & Shout" ainda hoje obrigatória no alinhamento final de qualquer concerto para irritação dos mais puristas. 

Sem destapar desenfreadamente todas as suas paixões ou receios, a morte, por exemplo, o medo dela, é particularmente tocante nos casos do pai e do brother Clarence Clemmons, ligações demasiado próximas de amizade e amor que o levam a disfarçar o indisfarçável perante tamanhas perdas - o facto de não ter hipótese de controlar e parar o inevitável, o destino. 

Aliás, o seu famoso temperamento egocêntrico tem em toda a narrativa um visível e entroncado esquema quanto à entrada ou saída de músicos para a E-Street Band ou para o registo dos discos, um controlo natural e que, incondicionalmente, traduz muito do que Springsteen sempre tentou alcançar - um difícil equilíbrio artístico e pessoal, tentando resistir a impulsos para não ferir paixões e amizades essenciais.

Em todos os momentos da leitura percebe-se a força de uma natureza sempre irrequieta que tem na música, na guitarra e no palco as doses obrigatórias de adrenalina para continuar a viagem e de que são exemplo as centenas de actuações a solo durante o último ano pela Broadway nova-iorquina, mais uma aventura assinalável e teimosa de quem acredita no que faz.

As seiscentas páginas do volume podem, assim, assustar os mais receosos mas depois de iniciada a “contenda” é com pena que vemos o livro chegar ao fim, uma corajosa edição simultânea de uma editora portuguesa do original inglês que vai já em segunda edição, o que nos leva a supor que, mesmo de mercado reduzido, há pelo nosso cantinho um enorme respeito e afeição a um dos maiores nomes da história da música popular nascido simplesmente para vencer.   

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

(RE)LIDO #85





















MACHINAS FALLANTES
A Música Gravada em Portugal no Início do Século XX
de Leonor Losa. Lisboa: Tinta da China, 2013
O interesse, melhor, a curiosidade que sempre tivemos pelos registos sonoros em forma de disco de vinil, essencialmente na vertente musical, tem antepassados longínquos que remetem para a eterna questão Como é que tudo isto começou?

A invenção do fonógrafo por Thomas Edison em 1877 como o primeiro aparelho para o registo de som acelerou a divulgação da música de forma imparável e Portugal não fugiu a esse impacto. Fazer a aferição desta história tem, desde 2013, um livro inédito e pioneiro no que estas questões diz respeito, um trabalho científico de raiz antropológica e etno-musical da autoria de Leonor Losa, investigadora com trabalho testado no campo da música dita popular nas suas dimensões sociais e políticas e no qual ganha importância a chegada dos tais fonógrafos e dos chamados gramofones. Perceber as novas técnicas de gravação associadas, a forma como foram recebidas, utilizadas e difundidas, leva-nos de forma romântica para tempos, ruas e praças de Lisboa ou Porto onde a novidade, apesar de alguma indiferença, criou pequenos negócios, aguçou interesses e parcerias com empresas já instaladas por França, Inglaterra ou Alemanha, um movimento onde transparece aquele amadorismo tão português mas tão genuíno. Dá para imaginar as viagens e estadias de técnicos estrangeiros de aparelhagem às costas para registar em solo nacional as cançonetas locais, fados ou canções populares numa qualquer cave de loja ou vão de escada e onde um estúdio de gravação era um requisito que, longe de existir, deu certamente azo ao tão famoso desenrascanço lusitano!

Através de inúmeros anúncios de imprensa daquela época ou da reprodução das etiquetas centrais dos discos de 78rpm, a obra tem um dimensão imagética considerável mas é pena que a medida inadequada, por defeito, das reproduções não permita uma leitura mais facilitada e pormenorizada, sendo o tamanho de letra das notas laterais e de algumas legendas um verdadeiro quebra cabeças a merecer lupa de aumento. A descoberta e a narrativa compensam, contudo, o esforço. É o caso de um tal Ricardo Lemos, casa de discos com o mesmo nome que já por aqui demos destaque e que, a partir de 1908, foi pioneiro no Porto na venda de gramofones com lojas na Rua do Bonjardim e Santa Catarina, artéria onde construiu o Grande Bazar do Porto para vender, entre outros, discos da inglesa His Master Voice, negócio que viria a estender com o mesmo nome à própria capital.

Quanto à selecção dos temas a registar, ela incidiu sobre as potencialidades populares e de algum suposto êxito, sem qualquer sinal de ecletismo ou exclusividade e que teve no teatro e na revista um contributo decisivo. Esse ambiente de conivência e complemento, que o livro aborda de forma exemplar, caracterizando o que era então a obrigação de um actor-cantor e que teve no "Fado do 31" um eterno exemplo, modifica-se com a chegada da rádio e, principalmente, da Emissora Nacional e do seu famoso estúdio. A ténue indústria fonográfica sofreria forte impulso com a fundação, em 1946, da célebre Rádio Triunfo do Porto por Rogério Leal, um homem da rádio e perfeitamente ciente de qual seria a melhor aposta - uma primeira fábrica de discos em Portugal mas que só a partir de 1957 conseguiria produzir as próprias matrizes a partir de fitas magnéticas. Este foi o tiro de partida mais sério para uma aventura comercial afirmativa e de que Valentim de Carvalho em Lisboa e a sua estratégica associação à EMI internacional acabaria por constituir o êxito mais duradoiro. Ficam por contar ainda os casos da Orfeu de Arnaldo Trindade e da Sasseti e, por isso, ficamos ansiosamente à espera de um novo volume de histórias saborosas como estas!

Nota: agarrado ao livro há, em anexo, um CD com a reprodução possível de uma vintena de canções, fados e outros registos das primeiras décadas do século XX e que noz fazem pensar na urgência de um arquivo sonoro nacional mesmo que alguns bons exemplos, mais recentes, permitam respirar um pouco mais de alívio sobre a necessidade permanente de protecção e divulgação deste tipo de património.






quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

RE(LIDO) #84





















LÍRICAS COME ON & ANAS
de Rui Reininho. Lisboa; Editora Palavra, 2006
Agora que os GNR perfazem a bonita idade de 35 anos já comemorados ao longo dos últimos meses com concertos seleccionados, agora que está prometida mais uma incursão apoteótica para o Coliseu do Porto marcada para Fevereiro, agora que até já regressamos em Março passado a um dos seus concertos de apresentação do mítico álbum "Psicopátria", agora que há já uma biografia oficial a que ainda não deitamos o olho, estava na hora de tirar da prateleira este livrinho! Comprado ao desbarato numa daquelas tendas livreiras instaladas junto ao metro ou comboio, a edição reúne as líricas que Rui Reininho foi inventando para as canções dos GNR desde o "Independança" de 1982 até "O Lado dos Cisnes" de 2002, uma colectânea notável de ironia, sarcasmo, humor e amor de um "poeta da canção" sem igual no que à pop portuguesa diz respeito. Impressas em papel couché que imita os antigos cadernos antigos de 30 linhas, foi ainda com surpresa e muito prazer que relemos as letras de muitas das canções que fomos durante largos anos trauteando em dezenas de espectáculos do grupo e que, instantaneamente, cantarolamos baixinho enquanto mudamos de página. Descobrimos, entretanto, muitas outras líricas de cançonetas mais recentes e que, por termos "desligado" dos discos desde "Valsa dos Detectives" em 1989, acabamos por só agora dar mais atenção - gostamos particularmente de um "Digital Gaia" em que quase nos reconhecemos... A veia poética e literária de Reininho é, por isso, uma torrente assinalável de modernidade e que, para o bem e para o mal, marcou uma certa "portugalidade" pop-rock que deixou marcas em várias gerações, principalmente aquela como a nossa que viu a banda passar dos pequenos palcos (o da noite na discoteca "Dacasca" ali para os lados de Esmoriz ficou-nos sempre na memória) para os estádios esgotados. Um percurso de proximidade, da Rua do Heroísmo até à Granja ou Leça, que esta obra ajuda a recordar de forma agradável e a que se junta uma segunda parte chamada "Retrato incompleto da vida do poeta enquanto estrela pop, a partir de recortes escolhidos mais ou menos ao acaso" em que se dá conta de uma série de fotografias, recortes de imprensa ou entrevistas de um artista ainda e sempre imprevisível e incontornável. Um verdadeiro camone...        





sábado, 5 de novembro de 2016

(RE)LIDO #83





















IS TINY DANCER REALLY ELTON'S LITTLE JOHN?
Music's Most Enduring Mysteries, Myths, And Rumors Revelead
de Gavin Edwards. Nova Iorque; Three Rivers Press, 2006
O saudoso jornal "Blitz", que por sinal faria amanhã trinta e dois anos, para além da mítica secção "Pregões & Declarações", tinha na rubrica "Dona Rosa" uma das suas referências populares onde alguém respondia semanalmente a perguntas dos leitores sobre bandas, artistas, canções ou discos. Esse alguém era principalmente o jornalista Luís Pinheiro de Almeida e onde, sem certezas, o Jorge Mourinha fazia também uma perninha. A demanda exigia, certamente, pesquisa e troca de informações telefónicas intensas em tempos onde a Internet nem sequer era ainda um sonho...
O livro que agora aqui trazemos é como uma versão internacional da velhinha "Dona Rosa" da autoria de um tal Gavin Edwards que assegurou por largos anos na revista "Rolling Stone" uma coluna semelhante. Habituado a conviver de perto com inúmeras das vedetas e cromos da música, principalmente em entrevistas programadas e backstages anárquicos, a informação recolhida e a experiência adquirida permitiram-lhe, aparentemente, questionar directamente os envolvidos ou colocar-se em contacto com entourages dos visados na procura de respostas. Estamos então perante um livro infalível e rigoroso? Longe disso. O tom é bastante ligeiro e até exageradamente informal, tornando a obra num repositório de dados curiosos divididos nos habituais capítulos em que a música é pródiga - nomes de bandas, sexo, drogas & rock, nomes de canções, mortes míticas, etc., etc., catorze capítulos curtos sem ser incisivos. Há repetições, (re)descobertas e novidades que poucas vezes nos surpreenderam mas onde destacamos dois "assuntos" - a de que o "Dark Side Of The Moon" dos Pink Floyd foi escrito para uma suposta banda sonora do filme "Feiticeiro do Oz", experiência que qualquer dia vamos ter que realizar - isto é, por o disco a tocar durante a projecção dos primeiros quarenta e cinco minutos da película - e a revelação que o Joe Strummer correu não uma, nem duas, mas três maratonas sem efectuar qualquer treino, sempre no final da gravação de um dos álbuns dos The Clash! A história, mal contada, pode e deve ser lida por aqui. Uma inspiração para a corrida de amanhã onde a indecisão - "Should I Stay or Shoud I Go" - já está há muito ultrapassada. Quanto à pergunta que dá título à obra e atendendo à subtileza do desenho da capa, a resposta do livro é não...
               

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

SOU EU, O BRIAN WILSON!





















Em 1991 um livro maldito e, ao que parece, desautorizado de Brian Wilson chegou às bancas - "Wouldn't Be Nice: My Own Story" era uma autobiografia escrita a partir de uma série de entrevistas com o freelancer Todd Gold, mas o resultado acabaria numa catadupa de equívocos, tribunais e faltas graves de credibilidade. Repetindo a receita e, supostamente, limpando de vez a mancha deixada à 25 anos, uma nova e legitimada história do fundador dos Beach Boys estará disponível já em Outubro na Dacapo Press americana sob o título de "I Am Brian Wilson: A Memoir", uma parceria com o reputado jornalista Ben Greenman ("New York Times" ou "New Yorker"). Fala-se da infância, dos parceiros da banda, demónios e medos mas, acima de tudo, de música e canções. E sendo assim, vai ser nice lê-lo sem rodeios.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

(RE)LIDO #82





















M TRAIN
de Patti Smith. New York; Alfred A. Knoff, 2015
Tratada que foi a infância e o início da idade adulta no livro "Apenas Miúdos" e onde se destacava a relação decisiva com Robert Mapplethopre, Patti Smith traz-nos em "M Train" um outro conjunto de memórias quase intemporais mas onde a ferida pela morte do marido "Fred Sonic" Smith em 1994 funciona como catalizador de peripécias e intimidades. Tudo começa no café habitual, na mesa habitual, com a bebida habitual - café, muito - despoletando histórias verdadeiras de latitudes diversas e amplas, desde a Casa Azul de Frida Khalo no México a cemitérios e sepulturas de Jean Genet em França ou Sylvia Plath em Inglaterra, ou ainda conversas com Paul Bowles em Marrocos. Entre outras recordações, gostamos particularmente da confissão referente à descoberta dos livros de Murakami que a levou a uma leitura compulsiva das suas obras (sabemos bem o que isso é...) e a saborosa aventura na aquisição de um pequeno mas resistente bungalow junto à praia de Far Rockway, um esforço traduzido numa digressão pela Europa para juntar a verba necessária, refúgio que nem mesmo o furacão Sandy de 2012 teve força para destruir! Ao longo do livro vai sobressaindo uma calma e uma paz de espírito avassaladoras em que a mestria artística de Smith e a sua notável perspicácia - excelentes as Polaroids eleitas para ilustrar muitas destas memórias - nos conduzem irremediavelmente a uma dimensão de liberdade que, apesar de solitária, é como se fosse de todos nós. A Patti Smith dá-nos asas...




terça-feira, 24 de maio de 2016

(RE)LIDO #81





















TARÂNTULA
de Bob Dylan. Vila Nova de Famalicão; Quasi Edições, 2007
O senhor Robert Allen Zimmerman faz hoje 75 anos. Será ainda esse o nome que constará do seu bilhete de identidade embora o próprio tenha assumido que tal baptismo tinha algo de errado e não descansou enquanto não encontrou uma alternativa que soasse melhor. Bob Dylan foi então, antes de fazer 20 anos, o alter-ego assumido que rapidamente se tornaria sinónimo de talento. A partir de 1962, ano a ano, álbum atrás de álbum, Dylan confirmaria ao mundo o arrojo e a inquietude das suas canções logo eleitas como hinos de uma sociedade em efervescente mutação. Em 1966, num desses picos criativos, aquando da gravação de "Blonde On Blonde", lança-se na aventura inédita de escrever um livro ficcional rotulado de "maldito" e que só veria a luz do dia oficial em 1971 depois de muitos "bootlegs" sacados aos revisores tipográficos. De que é que trata então este "Tarântula"? À pergunta impressa numa das badanas desta edição portuguesa corresponde uma lapidar expressão - "Bob Dylan a exprimir o inexprimível" - que, mesmo assim, não pode chegar para resumir uma obra que mistura poesia e prosa de forma quase anárquica e caótica, uma imagem de marca da Beat Generation que Dylan bem apreciava. Lidas no silencio, muitas das supostas histórias sugerem divagações líricas muito ao jeito de uma época de protestos e acessos libertários que certamente resultaram para o próprio em pura diversão e gozo. A colecção de experiências atinge rapidamente um surrealismo sem qualquer roteiro ou enredo que entrelaça vivências diárias, vénias sarcásticas a artistas como Aretha Franklin ou Lead Belly, personagens e figurões, viagens ou paisagens sem que se determine a racionalidade ou até o humor de muitas das situações e citações. Imaginamos a árdua tarefa do tradutor Vasco Gato em concretizar e deslindar tamanha teia, mas atendendo a que não há forma de comparação, o resultado é, no mínimo, desconcertante e com muitos adeptos. Preferimos, claro, o primeiro volume das crónicas surpreendentes que Dylan fez sair em 2004 ao jeito de memórias e que infelizmente não tiveram, até hoje, continuação, esperando que pelo menos as suas canções como a maravilhosa "I Want You" continue a servir de inspiração a projectos educativos... e parabéns!                            


sábado, 30 de abril de 2016

(RE)LIDO #80





















AS VOLTAS DE UM ANDARILHO
Fragmentos da vida e obra de José Afonso
de Viriato Teles: Lisboa, Assírio & Alvim, 2009
O ultimo dia de Abril serviu para revisitar um livro que algumas vezes folheamos em jeito de consulta mas que desta vez mereceu uma leitura completa e até compulsiva. Trata-se de um já clássico sobre José Afonso contado pelo amigo jornalista Viriato Teles que, não sendo uma biografia nem pretendendo sê-lo, é um acto de homenagem à obra sempre actual de um dos principais artistas do Portugal moderno, reconhecimento talvez tardio mas que não deve deixar dúvidas a ninguém. Através das muitas vezes que entrevistou o autor de "Grândola Vila Morena", são ricos os pormenores sobre o mundo muito característico de Zeca Afonso nas suas vertentes públicas e a relação quase inocente com muitos dos que o acompanharam no seu percurso. Para além da modéstia reconhecida e da aparente indiferença quanto ao mundo artístico que o rodeava, percebe-se a verdadeira dimensão de um homem despegado mas que, sabendo bem o que queria e, principalmente, o que não queria, alcançou uma dimensão internacional que, como é costume, só os portugueses não detectaram a tempo... A doença não impediu a paragem ou a desistência e esse exemplo de abnegação e coragem merecia de todos, onde nos incluímos, um maior respeito e reconhecimento que importa sempre vincar. A leitura deste livro deveria ser assim obrigatória para todos os que pretendam pegar numa simples guitarra e começar a sonhar... a sério!                  

quinta-feira, 28 de abril de 2016

(RE)LIDO #79





















CANTORES DE ABRIL
Entrevistas a Cantores e outros Protagonistas do 
"Canto de Intervenção"
de Eduardo M. Raposo: Lisboa; Edições Colibri, 2ª ed., 2014
Entre 1997 e 1998 o estudioso Eduardo M. Raposo fez publicar na secção "Retratos" da revista "Vilas e Cidades" um conjunto de vinte e uma entrevistas a alguns dos principais protagonistas do chamado canto de intervenção ou a ele indirectamente ligado, acompanhando a recolha com uma pesquisa nos Arquivos da PIDE que a Torre do Tombo passou a disponibilizar. O estudo permitiu ao autor aprofundar uma temática apaixonante para o próprio mas também para o grande público que se viria a traduzir numa tese de doutoramento posteriormente transformada no livro "Canto de Intervenção 1960-1974" (esgotado, reimpresso pelo jornal "Público" em 2005 em versão aumentada). Quanto a esta colectânea de testemunhos orais há, obviamente, um manancial de informação diverso e abrangente que se relaciona com o nível de participação que os próprios tiveram num movimento expontâneo de contestação social e política mas, sobretudo, medindo o nível de expressão desse contributo de forma quase sempre modesta. Começando em Adriano Correia de Oliveira e terminando em Zeca Afonso, um elogio merecido e não coevo que paira em todo o livro - "O Zeca Afonso é o meu herói" confessa sem contemplações Sérgio Godinho (pág. 234) - algumas das recolhas acabam por ser surpreendentes quer pelo valor e riqueza da sua acção (de que os casos de Luís Cília ou Manuel Alegre são paradigmáticos) quer pelo oportunismo em falar sobre o "assunto" de alguns personagens inusitados (p.ex. Fialho Gouveia, o jornalista Eugénio Alves ou Mário Vieira de Carvalho). A importância da música e das canções no despertar de uma nova e arriscada consciência política é assim um caso de estudo, académico ou não, que tem neste documento de consulta obrigatória um ponto de partida fundamental para entender um período decisivo de Portugal a que Manuel Alegre alude de forma lapidar no prefácio: "Contra a censura, contra a Pide, contra repressão, contra a guerra, não tínhamos outras armas: tínhamos a poesia, a canção, a guitarra. E foram elas que, de certo modo, na madrugada de 25 de Abril, floriram também nas armas libertadoras" (p.20)

Nota: o excelente documentário de Joaquim Vieira "A Cantiga Era Uma Arma" emitido pela RTP e já referido por aqui tem agora uma imperdível edição em DVD através do jornal "Público".                    

sexta-feira, 22 de abril de 2016

(RE)LIDO #78





















21 NIGHTS
PRINCE / RANDEE ST. NICHOLAS
New York: Atria Books, 2008

Sentados no sofá em frente à televisão em constante zapping era de Prince que se falava. Fartos da lenga-lenga (excepção a Rui Miguel Abreu, muito bem, na RTP3), decidimos vasculhar as prateleiras de casa à procura de um volume que, na altura da compra ao desbarato numa grande superfície, acabamos por esquecer até a uma melhor altura... Feita a descoberta, a hora infelizmente tinha chegado e, baixando o som televisivo, retiramos o Cd que o acompanha e lá ligamos o leitor para o fazer correr alto e bom som pela primeira vez. Incrível, mas este é mesmo o único livro editado pelo génio de Mineápolis, um projecto fotográfico do amigo Randee St. Nicholas que ilustra a passagem por Londres em 2007 onde esgotou o O2 Arena durante 21 noites, recorde que Michael Jackson pretendia bater não fosse a morte prematura. O luxo dos cenários do hotel Dorchester, o glamour dos fatos e trajes Westwood, Versace ou Burberry, as maquillhagens finas, o brilho das limousines e carros, tudo funciona como um cenário cinematográfico que parece retirado, como alguém fez notar, de um filme imaginário de Baz Luhrmann! Se pensarmos que o artista e respectiva banda actuaram também nessa altura na London Fashion Weekeend, dá para imaginar o que seria um fabuloso argumento para um tal documentário... Intercalam-se com as fotografias de alto a baixo as letras de canções principalmente do então novo disco "Planeth Earth", o trigésimo segundo álbum de Prince que saiu de forma gratuita no jornal inglês "The Mail on Sunday", e alguma poesia adequada à imagem em causa, tudo irrepreensível, tudo lustroso, tudo magnífico. Longe da luz do sol de que Prince sempre se resguardou, curiosas são duas páginas de fotografias exteriores em Praga, talvez um daqueles caprichos repentinos para conhecer a cidade seguido de um rápido regresso a Londres e ao conforto do hotel, tudo num estilo púrpura que o glam-rock nunca sequer imaginou ser possível. Depois há ainda o bónus das canções ao vivo incluídas no Cd nomeado "Indigo Nights", uma mistura de "perfomances after-show" que Prince praticava obrigatoriamente e onde se misturam longas jam's ou versões incríveis como a de "Whole Lotta Love" dos Led Zepplin. Puro génio, génio puro!  

quarta-feira, 13 de abril de 2016

(RE)LIDO #77
















E TUDO ERA POSSÍVEL
Retrato de juventude com Abril em fundo
de José Jorge Letria. Lisboa: Clube do Autor, 2013
O mês de Abril é no âmbito da nossa actividade profissional um período agitado por inúmeras iniciativas expositivas à volta da Revolução dos Cravos. Uma delas recai sobre as canções gravadas em discos de vinil antes e depois da ditadura e, a partir deles, surgem amiúde uma série de pormenores e significados que sempre nos despertaram uma imensa curiosidade. Nada melhor, então, que procurar as respostas adequadas em forma de livro, sendo este o primeiro que escolhemos para iniciar a demanda.

O autor, José Jorge Letria, hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, viveu bem de perto esses tempos agitados. Cedo dedicado à poesia e às canções, foi no jornalismo que encontrou a profissão efervescente que lhe permitiu participar em momentos chave quer de preparação do golpe militar quer na intensa agitação política e social que se seguiu e em que a música ao vivo ocupou particular papel representada pelos seus principais cantores e artistas, de José Afonso e José Mário Branco a Carlos Paredes, entre muitos outros. Há nas pequenas histórias de meia dúzia de páginas uma aprazível memória que nos conduz a acontecimentos inesperados da história portuguesa, como o da noite em que a "Grândola Vila Morena" foi cantada em jeito de desafio em pleno Coliseu de Lisboa ou o mítico jogo de futebol de Chico Buarque e respectiva banda brasileira contra um grupo português de artistas amigos e que resultou no amuo de um Buarque que nem a feijões gosta de perder, história que inspirou aliás o filme documental "Meu Caro Amigo Chico". Nota-se uma intensa paixão e sensatez de Letria em muitos dos relatos que se propôs contar, particularmente saborosos na caracterização das velhinhas redacções de jornais como a da "República" ou do "Diário de Notícias", períodos de viragem vorazes vividos sem freio. Mas é na nostalgia de uma vida enegrecida pela censura que a viagem a Paris para a gravação do primeiro álbum adequadamente intitulado "Até Ao Pescoço" em 1972, na companhia de José Mário Branco, surge como o momento chave de uma vida que rapidamente haveria de se multiplicar em melindres e inquietações. E tudo era possível, suspirava o autor, mas um notório desalento com a política, o jornalismo e, principalmente, as canções, levaram Letria a afastar-se da vida artística para se dedicar essencialmente à escrita e à promoção cultural, actividades merecedoras de prémios e reconhecimentos diversos. Um livro simples e desassombrado que funciona como um eficaz introdução panorâmica a quase duas décadas da sociedade portuguesa, cumprindo assim da melhor forma a nossa escolha para tentar entender, sem esforço desmesurado, um momento único de esperança colectiva.

terça-feira, 5 de abril de 2016

(RE)LIDO #76





















NIRVANA
by Steve Gullick e Stephen Sweet (photographs)
London: Vision On Publishing Ltd., 2001
Passam hoje vinte e dois anos sobre a morte de Kurt Cobain. Vivemos esse dia com uma tristeza que disfarçava, sem escrúpulos e muito egoísmo, algum alívio. Os Nirvana caminhavam para uma massificação perigosa e Cobain, em rota previsível de colisão, agoniava-nos com uma infindável sequência de altos e baixos. Estivemos lá em Cascais uns dias antes (6 de Fevereiro) e, apesar de tudo, o concerto encheu-nos as medidas pelo vigor da massa sonora, pela rigidez adquirida ou não de um Cobain bem comportado e bem secundado. Depois do fatídico 5 de Abril de 1994 desligamos a corrente sobre uma história mexericada já demasiadas vezes contada e recontada e que quase sempre incluí uma série de sinónimos da maldita palavra arrogância. Há uns bons tempos, em plena Vandoma, demos de caras com este livro que desconhecíamos no meio de edições douradas do Eça e atlas do Circulo de Leitores e folheando as suas páginas a preto e branco com fotografias sorridentes e alegres acabamos por trazê-lo sem muito custo para casa. São imagens, algumas que se tornariam clássicas, que dois fotógrafos ingleses conseguiram no auge de uma banda em crescimento rápido, demasiado rápido, desde o London Astoria em 1989 até aos largos recintos da Pensilvânia já em 1993. A cumplicidade deste conjunto salta a olhos vistos, seja em ensaios caóticos, conferências de imprensa, backstages em modo de assalto e, acima de tudo, brilhantes panorâmicas de palcos e multidões em delírio, uma experiência marcante para, por exemplo, Steve Gullick que continua a desbravar o filão sem preconceitos. Um documento notável que prova a bondade de um mito da música moderna e que sempre vimos como um tipo sereno sentado num sofá a dedilhar uma guitarra como na capa escolhida ou, calmo, fumando um cigarro nos camarins do desaparecido pavilhão de Cascais... Come as you are!