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segunda-feira, 29 de abril de 2019

(RE)LIDO #88


LIBERDADE É FRUTO
Discos Perdidos e Outras Canções de Abril
de João Pedro Almeida da Rocha. Coimbra; Secção Filatélica da A. A. Coimbra, 2017
Temos por dado adquirido que durante o período de ditadura um conjunto de cantores portugueses sofreram represálias e privações motivadas por questões ideológicas ou políticas e que muitos dos seus discos e canções foram simplesmente apreendidos ou banidas de emissões televisivas ou radiofónicas pela censura.

José Afonso, Sérgio Godinho, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Luís Cília ou Manuel Freire são só alguns dos artistas mais conhecidos sujeitos a essa perseguição com história mais que documentada e retratada e que escondem um cenário mais abrangente de incómodo criativo em quantidade inimaginável.

Ora, este livro tem o grande mérito de assinalar e destacar, para além destes, outros nomes de um panorama de cantautores no masculino (por exemplo, José Matildes, Eduardo Lemos, Francisco Naia ou Raimundo Jorge) e feminino (por exemplo, Natércia Aguiar, Ana Maria Teodósio, Maria Amélia Proença ou Teresa Paula Brito) que continuam esquecidos na penumbra apesar de terem sofrido do mesmo tratamento ignóbil. São-lhes traçadas as biografias, reproduzindo fotografias, notícias de imprensa da época e capas dos discos raros e entrevistando-os, quando possível, directamente, escolhendo cronologicamente uma das suas canções como exemplo comprovado dessa acção censória de grilheta e as histórias negras associadas.

Mesmo que por vezes a escrita não seja a mais cativante, o autor consegue reunir um conjunto de informações e dados inéditos por nós e por muitos ignorados que ajudam a compreender uma época vibrante da edição discográfica em Portugal, permitindo destapar algumas das estratégias e subterfúgios dos autores, das editoras, das distribuidoras ou dos realizadores de rádio ou televisão para tentar "contornar" a sujeição.

Coleccionador metódico de discos de música portuguesa, nota-se a sua paixão pela faceta dita de intervenção e o seu assinalável esforço em concretizar, no que sugere ser uma auto-edição, um projecto obviamente inacabado mas de interesse colectivo inquestionável. Deixamos aqui três exemplos de "histórias" aí incluídas que talvez despertem a vossa curiosidade e que vos levem a comprar e folhear o livro como é merecedor.





terça-feira, 23 de abril de 2019

(RE)LIDO #87





















NEM TODAS AS BALEIAS VOAM
de Afonso Cruz. Lisboa; Companhia das Letras, 2016

(…) A música é a pior coisa do mundo, altera o humor, distorce o juízo, as pessoas perdem a solenidade necessária para raciocinar friamente e com objectividade. Pior, sobe o efeito da música as pessoas apaixonam-se e depressa começam a fornicar e fabricar mais seres humanos, a partilhar os fluídos mais íntimos como se fosse Coca-Cola, numa voragem aberrante que culmina na mais perversa das criações naturais: a população. A música reduz o QI, a música, disse Santo Agostinho, devia ser proibida. Quem não concorda? E, mais assustadora do que tudo, a mais sinistra característica do mundo: faz as pessoas dançarem.” 

...chegados à página oitenta e seis eis que o autor saca de uma pitada de sarcasmo para acentuar que, se a música é na vida real a balança decisiva de algum bem-estar, a sua negação nas palavras de um tal Erik Gould é uma fantasia ilusória do mesmo nível do título do livro.

Esse personagem, pianista de jazz com jeito para tirar das teclas não só sons mas, principalmente, memórias e histórias saudosas, é o enrolador principal de um novelo tramado que envolve uma campanha inventada pela CIA com o objectivo de permitir aos E.U.A. em plena Guerra Fria reconquistarem o reconhecimento do mundo através da supremacia da música jazz.

Os seus solos de piano sugerem cartas de amor eterno a uma mulher, a única na sua vida, mas que sofre um revés irreversível com o seu misterioso desaparecimento. O fruto dessa paixão tem, no entanto, no filho Tristan a personagem arrebatadora do romance - misterioso, entranhante, sufocante é nele que a música tem o emissor e receptor centrifugado que, entre alegorias e metáforas brilhantes, nos amassa tristemente na sua procura estéril pela mãe através de um atlas impresso... Afinal, alguma felicidade vai encontrá-la numa caixa de sapatos, sim, uma caixa de sapatos!
   
Se em romances anteriores Afonso Cruz demora a nos convencer pela escrita, com este livro o estatuto pleno de romancista é atestado num estilo surpreendente onde a experiência de músico multi-instrumentista nos The Soaked Lamb assume uma faceta inspiradora, o que neste Dia Mundial do Livro só pode ser o melhor dos brindes!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

(RE)LIDO #86





















BORN TO RUN - Autobiografia
de Bruce Springsteen. Amadora; Elsinore, 2016
"Escrever sobre nós próprios é complicado... Mas, num projeto como este, o escritor fez uma promessa: revelar a sua mente a quem o lê. Nestas páginas, foi o que tentei fazer." 

Para quem como Bruce Springsteen tem uma vida artística já longa e intensa, a promessa com que nos brinda logo a abrir a sua história parece simplesmente um cliché literário. Mas se atendermos a que tal projecto foi meticulosamente documentado durante sete anos entre concertos e digressões, retiros e introspecções, percebemos que na enorme cruzada de altos e baixos o artista escolheu revelar o que quis, melhor, o que o protege e fortalece. Ficaram na penumbra, certamente, um conjunto ilimitado de factos sem que se possa, contudo, apontar falta de coragem ao The Boss, o patrão que tudo controla mas que tudo merece atendendo à dedicação e perseverança. 

O esforço é particularmente saboroso e notório na recordação de uma infância agitada em New Jersey, na relação conturbada com o pai e no advento da música pela rádio, na pulsação da primeira guitarra ou a canção inicial, uma versão de "Twist & Shout" ainda hoje obrigatória no alinhamento final de qualquer concerto para irritação dos mais puristas. 

Sem destapar desenfreadamente todas as suas paixões ou receios, a morte, por exemplo, o medo dela, é particularmente tocante nos casos do pai e do brother Clarence Clemmons, ligações demasiado próximas de amizade e amor que o levam a disfarçar o indisfarçável perante tamanhas perdas - o facto de não ter hipótese de controlar e parar o inevitável, o destino. 

Aliás, o seu famoso temperamento egocêntrico tem em toda a narrativa um visível e entroncado esquema quanto à entrada ou saída de músicos para a E-Street Band ou para o registo dos discos, um controlo natural e que, incondicionalmente, traduz muito do que Springsteen sempre tentou alcançar - um difícil equilíbrio artístico e pessoal, tentando resistir a impulsos para não ferir paixões e amizades essenciais.

Em todos os momentos da leitura percebe-se a força de uma natureza sempre irrequieta que tem na música, na guitarra e no palco as doses obrigatórias de adrenalina para continuar a viagem e de que são exemplo as centenas de actuações a solo durante o último ano pela Broadway nova-iorquina, mais uma aventura assinalável e teimosa de quem acredita no que faz.

As seiscentas páginas do volume podem, assim, assustar os mais receosos mas depois de iniciada a “contenda” é com pena que vemos o livro chegar ao fim, uma corajosa edição simultânea de uma editora portuguesa do original inglês que vai já em segunda edição, o que nos leva a supor que, mesmo de mercado reduzido, há pelo nosso cantinho um enorme respeito e afeição a um dos maiores nomes da história da música popular nascido simplesmente para vencer.   

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

(RE)LIDO #85





















MACHINAS FALLANTES
A Música Gravada em Portugal no Início do Século XX
de Leonor Losa. Lisboa: Tinta da China, 2013
O interesse, melhor, a curiosidade que sempre tivemos pelos registos sonoros em forma de disco de vinil, essencialmente na vertente musical, tem antepassados longínquos que remetem para a eterna questão Como é que tudo isto começou?
A invenção do fonógrafo por Thomas Edison em 1877 como o primeiro aparelho para o registo de som acelerou a divulgação da música de forma imparável e Portugal não fugiu a esse impacto. Fazer a aferição desta história tem, desde 2013, um livro inédito e pioneiro no que estas questões diz respeito, um trabalho científico de raiz antropológica e etno-musical da autoria de Leonor Losa, investigadora com trabalho testado no campo da música dita popular nas suas dimensões sociais e políticas e no qual ganha importância a chegada dos tais fonógrafos e dos chamados gramofones. Perceber as novas técnicas de gravação associadas, a forma como foram recebidas, utilizadas e difundidas, leva-nos de forma romântica para tempos, ruas e praças de Lisboa ou Porto onde a novidade, apesar de alguma indiferença, criou pequenos negócios, aguçou interesses e parcerias com empresas já instaladas por França, Inglaterra ou Alemanha, um movimento onde transparece aquele amadorismo tão português mas tão genuíno. Dá para imaginar as viagens e estadias de técnicos estrangeiros de aparelhagem às costas para registar em solo nacional as cançonetas locais, fados ou canções populares numa qualquer cave de loja ou vão de escada e onde um estúdio de gravação era um requisito que, longe de existir, deu certamente azo ao tão famoso desenrascanço lusitano! Através de inúmeros anúncios de imprensa daquela época ou da reprodução das etiquetas centrais dos discos de 78rpm, a obra tem um dimensão imagética considerável mas é pena que a medida inadequada, por defeito, das reproduções não permita uma leitura mais facilitada e pormenorizada, sendo o tamanho de letra das notas laterais e de algumas legendas um verdadeiro quebra cabeças a merecer lupa de aumento. A descoberta e a narrativa compensam, contudo, o esforço. É o caso de um tal Ricardo Lemos, casa de discos com o mesmo nome que já por aqui demos destaque e que, a partir de 1908, foi pioneiro no Porto na venda de gramofones com lojas na Rua do Bonjardim e Santa Catarina, artéria onde construiu o Grande Bazar do Porto para vender, entre outros, discos da inglesa His Master Voice, negócio que viria a estender com o mesmo nome à própria capital.
Quanto à selecção dos temas a registar, ela incidiu sobre as potencialidades populares e de algum suposto êxito, sem qualquer sinal de ecletismo ou exclusividade e que teve no teatro e na revista um contributo decisivo. Esse ambiente de conivência e complemento, que o livro aborda de forma exemplar, caracterizando o que era então a obrigação de um actor-cantor e que teve no "Fado do 31" um eterno exemplo, modifica-se com a chegada da rádio e, principalmente, da Emissora Nacional e do seu famoso estúdio. A ténue indústria fonográfica sofreria forte impulso com a fundação, em 1946, da célebre Rádio Triunfo do Porto por Rogério Leal, um homem da rádio e perfeitamente ciente de qual seria a melhor aposta - uma primeira fábrica de discos em Portugal mas que só a partir de 1957 conseguiria produzir as próprias matrizes a partir de fitas magnéticas. Este foi o tiro de partida mais sério para uma aventura comercial afirmativa e de que Valentim de Carvalho em Lisboa e a sua estratégica associação à EMI internacional acabaria por constituir o êxito mais duradoiro. Ficam por contar ainda os casos da Orfeu de Arnaldo Trindade e da Sasseti e, por isso, ficamos ansiosamente à espera de um novo volume de histórias saborosas como estas!

Nota: agarrado ao livro há, em anexo, um CD com a reprodução possível de uma vintena de canções, fados e outros registos das primeiras décadas do século XX e que noz fazem pensar na urgência de um arquivo sonoro nacional mesmo que alguns bons exemplos, mais recentes, permitam respirar um pouco mais de alívio sobre a necessidade permanente de protecção e divulgação deste tipo de património.






quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

RE(LIDO) #84





















LÍRICAS COME ON & ANAS
de Rui Reininho. Lisboa; Editora Palavra, 2006
Agora que os GNR perfazem a bonita idade de 35 anos já comemorados ao longo dos últimos meses com concertos seleccionados, agora que está prometida mais uma incursão apoteótica para o Coliseu do Porto marcada para Fevereiro, agora que até já regressamos em Março passado a um dos seus concertos de apresentação do mítico álbum "Psicopátria", agora que há já uma biografia oficial a que ainda não deitamos o olho, estava na hora de tirar da prateleira este livrinho! Comprado ao desbarato numa daquelas tendas livreiras instaladas junto ao metro ou comboio, a edição reúne as líricas que Rui Reininho foi inventando para as canções dos GNR desde o "Independança" de 1982 até "O Lado dos Cisnes" de 2002, uma colectânea notável de ironia, sarcasmo, humor e amor de um "poeta da canção" sem igual no que à pop portuguesa diz respeito. Impressas em papel couché que imita os antigos cadernos antigos de 30 linhas, foi ainda com surpresa e muito prazer que relemos as letras de muitas das canções que fomos durante largos anos trauteando em dezenas de espectáculos do grupo e que, instantaneamente, cantarolamos baixinho enquanto mudamos de página. Descobrimos, entretanto, muitas outras líricas de cançonetas mais recentes e que, por termos "desligado" dos discos desde "Valsa dos Detectives" em 1989, acabamos por só agora dar mais atenção - gostamos particularmente de um "Digital Gaia" em que quase nos reconhecemos... A veia poética e literária de Reininho é, por isso, uma torrente assinalável de modernidade e que, para o bem e para o mal, marcou uma certa "portugalidade" pop-rock que deixou marcas em várias gerações, principalmente aquela como a nossa que viu a banda passar dos pequenos palcos (o da noite na discoteca "Dacasca" ali para os lados de Esmoriz ficou-nos sempre na memória) para os estádios esgotados. Um percurso de proximidade, da Rua do Heroísmo até à Granja ou Leça, que esta obra ajuda a recordar de forma agradável e a que se junta uma segunda parte chamada "Retrato incompleto da vida do poeta enquanto estrela pop, a partir de recortes escolhidos mais ou menos ao acaso" em que se dá conta de uma série de fotografias, recortes de imprensa ou entrevistas de um artista ainda e sempre imprevisível e incontornável. Um verdadeiro camone...        





sábado, 5 de novembro de 2016

(RE)LIDO #83





















IS TINY DANCER REALLY ELTON'S LITTLE JOHN?
Music's Most Enduring Mysteries, Myths, And Rumors Revelead
de Gavin Edwards. Nova Iorque; Three Rivers Press, 2006
O saudoso jornal "Blitz", que por sinal faria amanhã trinta e dois anos, para além da mítica secção "Pregões & Declarações", tinha na rubrica "Dona Rosa" uma das suas referências populares onde alguém respondia semanalmente a perguntas dos leitores sobre bandas, artistas, canções ou discos. Esse alguém era principalmente o jornalista Luís Pinheiro de Almeida e onde, sem certezas, o Jorge Mourinha fazia também uma perninha. A demanda exigia, certamente, pesquisa e troca de informações telefónicas intensas em tempos onde a Internet nem sequer era ainda um sonho...
O livro que agora aqui trazemos é como uma versão internacional da velhinha "Dona Rosa" da autoria de um tal Gavin Edwards que assegurou por largos anos na revista "Rolling Stone" uma coluna semelhante. Habituado a conviver de perto com inúmeras das vedetas e cromos da música, principalmente em entrevistas programadas e backstages anárquicos, a informação recolhida e a experiência adquirida permitiram-lhe, aparentemente, questionar directamente os envolvidos ou colocar-se em contacto com entourages dos visados na procura de respostas. Estamos então perante um livro infalível e rigoroso? Longe disso. O tom é bastante ligeiro e até exageradamente informal, tornando a obra num repositório de dados curiosos divididos nos habituais capítulos em que a música é pródiga - nomes de bandas, sexo, drogas & rock, nomes de canções, mortes míticas, etc., etc., catorze capítulos curtos sem ser incisivos. Há repetições, (re)descobertas e novidades que poucas vezes nos surpreenderam mas onde destacamos dois "assuntos" - a de que o "Dark Side Of The Moon" dos Pink Floyd foi escrito para uma suposta banda sonora do filme "Feiticeiro do Oz", experiência que qualquer dia vamos ter que realizar - isto é, por o disco a tocar durante a projecção dos primeiros quarenta e cinco minutos da película - e a revelação que o Joe Strummer correu não uma, nem duas, mas três maratonas sem efectuar qualquer treino, sempre no final da gravação de um dos álbuns dos The Clash! A história, mal contada, pode e deve ser lida por aqui. Uma inspiração para a corrida de amanhã onde a indecisão - "Should I Stay or Shoud I Go" - já está há muito ultrapassada. Quanto à pergunta que dá título à obra e atendendo à subtileza do desenho da capa, a resposta do livro é não...
               

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

SOU EU, O BRIAN WILSON!





















Em 1991 um livro maldito e, ao que parece, desautorizado de Brian Wilson chegou às bancas - "Wouldn't Be Nice: My Own Story" era uma autobiografia escrita a partir de uma série de entrevistas com o freelancer Todd Gold, mas o resultado acabaria numa catadupa de equívocos, tribunais e faltas graves de credibilidade. Repetindo a receita e, supostamente, limpando de vez a mancha deixada à 25 anos, uma nova e legitimada história do fundador dos Beach Boys estará disponível já em Outubro na Dacapo Press americana sob o título de "I Am Brian Wilson: A Memoir", uma parceria com o reputado jornalista Ben Greenman ("New York Times" ou "New Yorker"). Fala-se da infância, dos parceiros da banda, demónios e medos mas, acima de tudo, de música e canções. E sendo assim, vai ser nice lê-lo sem rodeios.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

(RE)LIDO #82





















M TRAIN
de Patti Smith. New York; Alfred A. Knoff, 2015
Tratada que foi a infância e o início da idade adulta no livro "Apenas Miúdos" e onde se destacava a relação decisiva com Robert Mapplethopre, Patti Smith traz-nos em "M Train" um outro conjunto de memórias quase intemporais mas onde a ferida pela morte do marido "Fred Sonic" Smith em 1994 funciona como catalizador de peripécias e intimidades. Tudo começa no café habitual, na mesa habitual, com a bebida habitual - café, muito - despoletando histórias verdadeiras de latitudes diversas e amplas, desde a Casa Azul de Frida Khalo no México a cemitérios e sepulturas de Jean Genet em França ou Sylvia Plath em Inglaterra, ou ainda conversas com Paul Bowles em Marrocos. Entre outras recordações, gostamos particularmente da confissão referente à descoberta dos livros de Murakami que a levou a uma leitura compulsiva das suas obras (sabemos bem o que isso é...) e a saborosa aventura na aquisição de um pequeno mas resistente bungalow junto à praia de Far Rockway, um esforço traduzido numa digressão pela Europa para juntar a verba necessária, refúgio que nem mesmo o furacão Sandy de 2012 teve força para destruir! Ao longo do livro vai sobressaindo uma calma e uma paz de espírito avassaladoras em que a mestria artística de Smith e a sua notável perspicácia - excelentes as Polaroids eleitas para ilustrar muitas destas memórias - nos conduzem irremediavelmente a uma dimensão de liberdade que, apesar de solitária, é como se fosse de todos nós. A Patti Smith dá-nos asas...




terça-feira, 24 de maio de 2016

(RE)LIDO #81





















TARÂNTULA
de Bob Dylan. Vila Nova de Famalicão; Quasi Edições, 2007
O senhor Robert Allen Zimmerman faz hoje 75 anos. Será ainda esse o nome que constará do seu bilhete de identidade embora o próprio tenha assumido que tal baptismo tinha algo de errado e não descansou enquanto não encontrou uma alternativa que soasse melhor. Bob Dylan foi então, antes de fazer 20 anos, o alter-ego assumido que rapidamente se tornaria sinónimo de talento. A partir de 1962, ano a ano, álbum atrás de álbum, Dylan confirmaria ao mundo o arrojo e a inquietude das suas canções logo eleitas como hinos de uma sociedade em efervescente mutação. Em 1966, num desses picos criativos, aquando da gravação de "Blonde On Blonde", lança-se na aventura inédita de escrever um livro ficcional rotulado de "maldito" e que só veria a luz do dia oficial em 1971 depois de muitos "bootlegs" sacados aos revisores tipográficos. De que é que trata então este "Tarântula"? À pergunta impressa numa das badanas desta edição portuguesa corresponde uma lapidar expressão - "Bob Dylan a exprimir o inexprimível" - que, mesmo assim, não pode chegar para resumir uma obra que mistura poesia e prosa de forma quase anárquica e caótica, uma imagem de marca da Beat Generation que Dylan bem apreciava. Lidas no silencio, muitas das supostas histórias sugerem divagações líricas muito ao jeito de uma época de protestos e acessos libertários que certamente resultaram para o próprio em pura diversão e gozo. A colecção de experiências atinge rapidamente um surrealismo sem qualquer roteiro ou enredo que entrelaça vivências diárias, vénias sarcásticas a artistas como Aretha Franklin ou Lead Belly, personagens e figurões, viagens ou paisagens sem que se determine a racionalidade ou até o humor de muitas das situações e citações. Imaginamos a árdua tarefa do tradutor Vasco Gato em concretizar e deslindar tamanha teia, mas atendendo a que não há forma de comparação, o resultado é, no mínimo, desconcertante e com muitos adeptos. Preferimos, claro, o primeiro volume das crónicas surpreendentes que Dylan fez sair em 2004 ao jeito de memórias e que infelizmente não tiveram, até hoje, continuação, esperando que pelo menos as suas canções como a maravilhosa "I Want You" continue a servir de inspiração a projectos educativos... e parabéns!                            


sábado, 30 de abril de 2016

(RE)LIDO #80





















AS VOLTAS DE UM ANDARILHO
Fragmentos da vida e obra de José Afonso
de Viriato Teles: Lisboa, Assírio & Alvim, 2009
O ultimo dia de Abril serviu para revisitar um livro que algumas vezes folheamos em jeito de consulta mas que desta vez mereceu uma leitura completa e até compulsiva. Trata-se de um já clássico sobre José Afonso contado pelo amigo jornalista Viriato Teles que, não sendo uma biografia nem pretendendo sê-lo, é um acto de homenagem à obra sempre actual de um dos principais artistas do Portugal moderno, reconhecimento talvez tardio mas que não deve deixar dúvidas a ninguém. Através das muitas vezes que entrevistou o autor de "Grândola Vila Morena", são ricos os pormenores sobre o mundo muito característico de Zeca Afonso nas suas vertentes públicas e a relação quase inocente com muitos dos que o acompanharam no seu percurso. Para além da modéstia reconhecida e da aparente indiferença quanto ao mundo artístico que o rodeava, percebe-se a verdadeira dimensão de um homem despegado mas que, sabendo bem o que queria e, principalmente, o que não queria, alcançou uma dimensão internacional que, como é costume, só os portugueses não detectaram a tempo... A doença não impediu a paragem ou a desistência e esse exemplo de abnegação e coragem merecia de todos, onde nos incluímos, um maior respeito e reconhecimento que importa sempre vincar. A leitura deste livro deveria ser assim obrigatória para todos os que pretendam pegar numa simples guitarra e começar a sonhar... a sério!                  

quinta-feira, 28 de abril de 2016

(RE)LIDO #79





















CANTORES DE ABRIL
Entrevistas a Cantores e outros Protagonistas do 
"Canto de Intervenção"
de Eduardo M. Raposo: Lisboa; Edições Colibri, 2ª ed., 2014
Entre 1997 e 1998 o estudioso Eduardo M. Raposo fez publicar na secção "Retratos" da revista "Vilas e Cidades" um conjunto de vinte e uma entrevistas a alguns dos principais protagonistas do chamado canto de intervenção ou a ele indirectamente ligado, acompanhando a recolha com uma pesquisa nos Arquivos da PIDE que a Torre do Tombo passou a disponibilizar. O estudo permitiu ao autor aprofundar uma temática apaixonante para o próprio mas também para o grande público que se viria a traduzir numa tese de doutoramento posteriormente transformada no livro "Canto de Intervenção 1960-1974" (esgotado, reimpresso pelo jornal "Público" em 2005 em versão aumentada). Quanto a esta colectânea de testemunhos orais há, obviamente, um manancial de informação diverso e abrangente que se relaciona com o nível de participação que os próprios tiveram num movimento expontâneo de contestação social e política mas, sobretudo, medindo o nível de expressão desse contributo de forma quase sempre modesta. Começando em Adriano Correia de Oliveira e terminando em Zeca Afonso, um elogio merecido e não coevo que paira em todo o livro - "O Zeca Afonso é o meu herói" confessa sem contemplações Sérgio Godinho (pág. 234) - algumas das recolhas acabam por ser surpreendentes quer pelo valor e riqueza da sua acção (de que os casos de Luís Cília ou Manuel Alegre são paradigmáticos) quer pelo oportunismo em falar sobre o "assunto" de alguns personagens inusitados (p.ex. Fialho Gouveia, o jornalista Eugénio Alves ou Mário Vieira de Carvalho). A importância da música e das canções no despertar de uma nova e arriscada consciência política é assim um caso de estudo, académico ou não, que tem neste documento de consulta obrigatória um ponto de partida fundamental para entender um período decisivo de Portugal a que Manuel Alegre alude de forma lapidar no prefácio: "Contra a censura, contra a Pide, contra repressão, contra a guerra, não tínhamos outras armas: tínhamos a poesia, a canção, a guitarra. E foram elas que, de certo modo, na madrugada de 25 de Abril, floriram também nas armas libertadoras" (p.20)

Nota: o excelente documentário de Joaquim Vieira "A Cantiga Era Uma Arma" emitido pela RTP e já referido por aqui tem agora uma imperdível edição em DVD através do jornal "Público".                    

sexta-feira, 22 de abril de 2016

(RE)LIDO #78





















21 NIGHTS
PRINCE / RANDEE ST. NICHOLAS
New York: Atria Books, 2008

Sentados no sofá em frente à televisão em constante zapping era de Prince que se falava. Fartos da lenga-lenga (excepção a Rui Miguel Abreu, muito bem, na RTP3), decidimos vasculhar as prateleiras de casa à procura de um volume que, na altura da compra ao desbarato numa grande superfície, acabamos por esquecer até a uma melhor altura... Feita a descoberta, a hora infelizmente tinha chegado e, baixando o som televisivo, retiramos o Cd que o acompanha e lá ligamos o leitor para o fazer correr alto e bom som pela primeira vez. Incrível, mas este é mesmo o único livro editado pelo génio de Mineápolis, um projecto fotográfico do amigo Randee St. Nicholas que ilustra a passagem por Londres em 2007 onde esgotou o O2 Arena durante 21 noites, recorde que Michael Jackson pretendia bater não fosse a morte prematura. O luxo dos cenários do hotel Dorchester, o glamour dos fatos e trajes Westwood, Versace ou Burberry, as maquillhagens finas, o brilho das limousines e carros, tudo funciona como um cenário cinematográfico que parece retirado, como alguém fez notar, de um filme imaginário de Baz Luhrmann! Se pensarmos que o artista e respectiva banda actuaram também nessa altura na London Fashion Weekeend, dá para imaginar o que seria um fabuloso argumento para um tal documentário... Intercalam-se com as fotografias de alto a baixo as letras de canções principalmente do então novo disco "Planeth Earth", o trigésimo segundo álbum de Prince que saiu de forma gratuita no jornal inglês "The Mail on Sunday", e alguma poesia adequada à imagem em causa, tudo irrepreensível, tudo lustroso, tudo magnífico. Longe da luz do sol de que Prince sempre se resguardou, curiosas são duas páginas de fotografias exteriores em Praga, talvez um daqueles caprichos repentinos para conhecer a cidade seguido de um rápido regresso a Londres e ao conforto do hotel, tudo num estilo púrpura que o glam-rock nunca sequer imaginou ser possível. Depois há ainda o bónus das canções ao vivo incluídas no Cd nomeado "Indigo Nights", uma mistura de "perfomances after-show" que Prince praticava obrigatoriamente e onde se misturam longas jam's ou versões incríveis como a de "Whole Lotta Love" dos Led Zepplin. Puro génio, génio puro!  

quarta-feira, 13 de abril de 2016

(RE)LIDO #77
















E TUDO ERA POSSÍVEL
Retrato de juventude com Abril em fundo
de José Jorge Letria. Lisboa: Clube do Autor, 2013
O mês de Abril é no âmbito da nossa actividade profissional um período agitado por inúmeras iniciativas expositivas à volta da Revolução dos Cravos. Uma delas recai sobre as canções gravadas em discos de vinil antes e depois da ditadura e, a partir deles, surgem amiúde uma série de pormenores e significados que sempre nos despertaram uma imensa curiosidade. Nada melhor, então, que procurar as respostas adequadas em forma de livro, sendo este o primeiro que escolhemos para iniciar a demanda.

O autor, José Jorge Letria, hoje presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, viveu bem de perto esses tempos agitados. Cedo dedicado à poesia e às canções, foi no jornalismo que encontrou a profissão efervescente que lhe permitiu participar em momentos chave quer de preparação do golpe militar quer na intensa agitação política e social que se seguiu e em que a música ao vivo ocupou particular papel representada pelos seus principais cantores e artistas, de José Afonso e José Mário Branco a Carlos Paredes, entre muitos outros. Há nas pequenas histórias de meia dúzia de páginas uma aprazível memória que nos conduz a acontecimentos inesperados da história portuguesa, como o da noite em que a "Grândola Vila Morena" foi cantada em jeito de desafio em pleno Coliseu de Lisboa ou o mítico jogo de futebol de Chico Buarque e respectiva banda brasileira contra um grupo português de artistas amigos e que resultou no amuo de um Buarque que nem a feijões gosta de perder, história que inspirou aliás o filme documental "Meu Caro Amigo Chico". Nota-se uma intensa paixão e sensatez de Letria em muitos dos relatos que se propôs contar, particularmente saborosos na caracterização das velhinhas redacções de jornais como a da "República" ou do "Diário de Notícias", períodos de viragem vorazes vividos sem freio. Mas é na nostalgia de uma vida enegrecida pela censura que a viagem a Paris para a gravação do primeiro álbum adequadamente intitulado "Até Ao Pescoço" em 1972, na companhia de José Mário Branco, surge como o momento chave de uma vida que rapidamente haveria de se multiplicar em melindres e inquietações. E tudo era possível, suspirava o autor, mas um notório desalento com a política, o jornalismo e, principalmente, as canções, levaram Letria a afastar-se da vida artística para se dedicar essencialmente à escrita e à promoção cultural, actividades merecedoras de prémios e reconhecimentos diversos. Um livro simples e desassombrado que funciona como um eficaz introdução panorâmica a quase duas décadas da sociedade portuguesa, cumprindo assim da melhor forma a nossa escolha para tentar entender, sem esforço desmesurado, um momento único de esperança colectiva.

terça-feira, 5 de abril de 2016

(RE)LIDO #76





















NIRVANA
by Steve Gullick e Stephen Sweet (photographs)
London: Vision On Publishing Ltd., 2001
Passam hoje vinte e dois anos sobre a morte de Kurt Cobain. Vivemos esse dia com uma tristeza que disfarçava, sem escrúpulos e muito egoísmo, algum alívio. Os Nirvana caminhavam para uma massificação perigosa e Cobain, em rota previsível de colisão, agoniava-nos com uma infindável sequência de altos e baixos. Estivemos lá em Cascais uns dias antes (6 de Fevereiro) e, apesar de tudo, o concerto encheu-nos as medidas pelo vigor da massa sonora, pela rigidez adquirida ou não de um Cobain bem comportado e bem secundado. Depois do fatídico 5 de Abril de 1994 desligamos a corrente sobre uma história mexericada já demasiadas vezes contada e recontada e que quase sempre incluí uma série de sinónimos da maldita palavra arrogância. Há uns bons tempos, em plena Vandoma, demos de caras com este livro que desconhecíamos no meio de edições douradas do Eça e atlas do Circulo de Leitores e folheando as suas páginas a preto e branco com fotografias sorridentes e alegres acabamos por trazê-lo sem muito custo para casa. São imagens, algumas que se tornariam clássicas, que dois fotógrafos ingleses conseguiram no auge de uma banda em crescimento rápido, demasiado rápido, desde o London Astoria em 1989 até aos largos recintos da Pensilvânia já em 1993. A cumplicidade deste conjunto salta a olhos vistos, seja em ensaios caóticos, conferências de imprensa, backstages em modo de assalto e, acima de tudo, brilhantes panorâmicas de palcos e multidões em delírio, uma experiência marcante para, por exemplo, Steve Gullick que continua a desbravar o filão sem preconceitos. Um documento notável que prova a bondade de um mito da música moderna e que sempre vimos como um tipo sereno sentado num sofá a dedilhar uma guitarra como na capa escolhida ou, calmo, fumando um cigarro nos camarins do desaparecido pavilhão de Cascais... Come as you are!    
   


quinta-feira, 17 de março de 2016

(RE)LIDO #75





















UMA RAPARIGA ENDIABRADA
de Nick Hornby. Lisboa: Porto Editora, 2015
Temos por Nick Hornby uma assolapada paixão literária enraizada desde "Alta Fidelidade" (1995), obra notável que o cinema cedo se encarregou de escolher para uma adaptação brilhante e um John Cuzack a todos os níveis memorável. Tamanha atracção tem no mundo da música e em tudo o que o rodeia o principal condimento que Hornby usa, quase sempre com êxito, como aglutinador de enredos e novelas, um recurso que domina e preza de forma perfeita e pertinente. Quando partimos para este "Uma Rapariga Endiabrada" já sabíamos do contexto "anos sessenta em Inglaterra", televisão a preto e branco e uma sitcom "marido/ mulher" - "Barbara (and Jim)" - como fio condutor, o que pressupunha, julgávamos, muitas conexões, lá está, à explosão pop-rock desses tempos de que os The Beatles foram o principal fenómeno. Mas, e esta é logo a principal desilusão, sobre essa expectável (?) abordagem o livro passa completamente ao lado, centrando-se no fenómeno televisivo de forma exagerada e desmotivante, acabando por transformar a sua leitura num tormento sem explicação. Claro que Hornby continua, mesmo assim, a demonstrar todo o seu talento na recriação difícil de um programa de TV que nunca existiu na realidade e que, cedo o percebemos, requisitou uma assinalável pesquisa. O esforço pode funcionar como "o tributo de Nick Hornby à idade de ouro do entretenimento", como se imprime na capa em jeito de sub-título, mas que não chega para elevá-lo ao estatuto de "o mais ambicioso romance até à data..." o que é quase um insulto a muitos das suas obras anteriores. Engraçado ("Funny Girl" é o título orignal...) mas sem ser sequer divertido, a boa forma de Hornby sofre aqui, quanto a nós, uma "lesão" momentânea e que, esperemos, seja rapidamente ultrapassada.      



sábado, 23 de janeiro de 2016

(RE)LIDO #74



















SÓ DESISTO SE FOR ELEITO
de Manuel João Vieira. Lisboa: Artemágica, 2004
"Só desisto de beber se for eleito"
"Mais sério do que isto já não é política, já é vida real"
"Portugal está uma pia. Vieira promove utopia"
Em dia de reflexão para a eleição presidencial de amanhã, estes três slogans do candidato Vieira da campanha de 2001 continuam e, certamente, continuarão a fazer todo o sentido. Atendendo à qualidade da discussão entre os dez cidadãos candidatos em 2016, atendendo ao (não) estado do país, atendendo à nossa indecisão em quem votar, é pena que o candidato Vieira não tenha desta vez avançado seriamente para Belém apesar de não ter deixado de comparecer nas ondas hertezianas. Teria elevado em muito o dia-dia dos penosos últimos quinze dias. Como diria o próprio, "vou ser eleito porque é impossível ganhar", o que nos remete para a brilhante crónica de Ferreira Fernandes no "Diário de Notícias" de hoje, uma utopia sarcástica que responde a esta verdadeira pantomina em que se transformou a política e, acima de tudo, a classe dos políticos. O Pacheco Pereira disse que não sabia ainda em quem iria votar, o que é o estado de alma de uma imensidão de portugueses envergonhados com quem os poderá a vir a presidir. Talvez a leitura deste repositório de "ideias", as tais que os candidatos dizem sempre apresentar, permitisse melhorar a colorir o cinzentismo do debate. É que se for para nos dar música como a que foi "tocada" nos últimos oito anos, então que seja música de qualidade... sempre vamos, pelo menos, sorrindo!            





quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

(RE)LIDO #73





















VIDA DUPLA
de Sérgio Godinho. Lisboa; Quetzal, 2014
As histórias contadas por Sérgio Godinho em formato de canção são, no âmbito de uma suposta hierarquia da música popular portuguesa, do melhor que a lusofonia conheceu nas últimas décadas. Como ouvimos de viva voz em 2012, as influências ou estilos são certamente diversos mas a sua inquietude permanente confirma uma irreverência artística que nunca se confinou à música e cedo se espalhou ao guionismo para cinema, às peças de teatro, histórias infantis, poesia ou crónicas como as que se reuniram em "40 Caríssimas Canções". Faltava a estreia na ficção dita adulta que aconteceu o ano passado com "Vida Dupla", um conjunto solto de nove histórias na primeira pessoa e que teve como ponto de partida o conto "Notas Soltas da Corda e do Carrasco", um encomenda da já extinta Biblioteca Digital do "Diário de Notícias" iniciada em 2012. Como sempre, é a vida quotidiana e as suas perturbações (in)comuns o principal campo de manobra ficcional do multifacetado autor sem que, contudo, alguns dos personagens não pareçam pertencer a este mundo terreno de que é exemplo a cavaleira de "O Circo de Três Pistas", um fabuloso conto que dá vontade que não acabe. Esse é mesmo um dos "problemas" do livro - quando já estamos envolvidos e absortos a história termina ao jeito, lá está, de uma canção sem tempo nem lugar. Com setenta anos de vida completados este ano e uma longa vida artística, de Sérgio Godinho só podemos esperar que estes pequenos enredos se transformem algum dia em grandes canções destinadas a encantar. Como esta pré-história...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

(RE)LIDO #72





















BOB DYLAN
Forever Young
New York; Life Books, 2012
Agora que se aproximam os 75 anos de Bob Dylan, convertendo 2016 num ano especialmente apetecível para uma intensa digressão (para já só o Japão está confirmado) que, quem sabe, chegará até cá (allô Primavera Sound Porto... we've got a feeling! ) e, certamente, intermináveis comemorações disco e videográficas, nada como começar pelo princípio. Este livro saído do arquivo da mítica revista Life é o perfeito exemplo do que deverá ser uma excelente introdução ao mundo longínquo de Dylan para o grande público, um desígnio que sempre acompanhou a famosa publicação americana, mas que sem dificuldade se estende a aficionados na demanda de pormenores ou, principalmente, imagens raras e desconhecidas. Impresso em papel couché de brilho fácil revelando todo o fascínio das fotografias a preto-e-branco, a quase centena de páginas demonstra o habitual bom gosto da paginação numa forma clássica de intercalar as imagens com uma escrita escorreita e altamente credenciada e documentada sobre o eternamente jovem Dylan, desde a chegada a Nova Iorque em 1962 até fases mais recentes, dos Travelling Wilburys, doutroramentos Honoris Causa ou idas à Casa Branca de Barack Obama. A faceta intitulada "Dylan at the Movies", o que nos sugere a homenagem de um certo colectivo escocês, relembra-nos que o homem até um Óscar já ganhou com uma grande canção, num curriculum na sétima arte simplesmente intocável, continuando a sua vida pessoal a ser ainda hoje um incontornável mistério. Por pouco menos de 20€, este é sem dúvida um verdadeiro achado para a compreensão ou o adensar das incógnitas e surpresas - veja-se o fabuloso álbum de versões de Sinatra saído este ano - sobre uma das últimas lendas vivas da história da música popular.


(RE)LIDO #71





















THE LOOK
Adventures in Rock & Pop Fashion
de Paul Gorman: London; Adelita, 2006
A ligação eterna entre a moda e a música ou vice-versa permitiria, certamente, organizar uma enciclopédia de uma vintena de volumes e ainda alguns anexos remissivos. O que Paul Gorman se propôs há quase dez anos tem, no entanto, um fio condutor bem definido e decisivo - Londres, cidade sempre na vanguarda destas duas expressões artísticas embora o início de tamanha aliança pecaminosa passe obrigatoriamente, nos anos cinquenta, pela americana Memphis de Elvis Presley, lenda em destaque merecido e infalível na capa e primeiras páginas deste magnífico álbum visual e histórico. Depois tudo se precipitou por terras de Sua Majestade numa avalanche de tendências e loucuras que a explosão da música pop incendiou, passando a ser muitos os figurões que entram porta dentro das novas lojas atraídos por amigos modistas de vanguarda, amizades que o livro documenta na perfeição ao longo de 31 capítulos. Esses "figurões" são quase sempre de elevado calibre, de Miles Davis, aos Stones, ao lado de Jimmy Hendrix, Bowie, Roxy Music, The Who, Sex Pistols ou os The Clash e as suas meias brancas, tocando, claro, nos The Beatles em fase psicadélica e o fiasco da Apple Boutique, três andares numa esquina londrina que durou oito meses e custou, na altura, 100.000 libras esterlinas! Curiosidades e extravagâncias são muitas mas não resistimos a destacar o pormenor daqueles estranhos sapatos que Nick Drake tem descalçados na capa do álbum "Bryter Later" (1971), afinal uma criação da influente loja Mr. Freedom de King's Road e a referência a uma tal "Plazza", marca portuguesa (!) para a qual o afamado Antony Price desenhou, por volta de 1975, as primeiras t-shirts de mangas ultra-curtas tão ao gosto de muitos rockers. Mais próximo da nossa geração, ou seja, os anos oitenta trouxeram personagens arrojados como Kevin Rowland em figuras tristes e os seus Dexy's Midnight Runners ou o visionário Malcolm Mclaren, mas a obra não deixa de destacar a "gaulteriana" Madonna, Andre 3000, as Spice Girls e o auto-didatismo de uma sempre brilhante Alison Goldfrapp. Ou seja, um livro que, sendo já uma peça de colecção a precisar de actualização, constitui ainda uma referência para o estudo da cultura contemporânea na sua expressão ocidental a que se acrescenta uma excelente selecção de canções que cabem num magnífico CD de bónus.






segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

(RE)LIDO #70





















OS BEATLES POPULARES
Os Beatles na Imprensa Portuguesa
1963-1970: Os Jornais
de Abel Soares Rosa. Lisboa: Blogue Beatles Forever, 2015
A saga de Abel Rosa tem neste final do ano um novo capítulo, talvez o último: mais uma compilação de notícias em jornais onde os The Beatles como banda ou a solo tiveram destaque, principalmente numa triologia de diários lisboetas constituída pelo "Diário de Lisboa", o "Diário de Notícias" e o "Diário Popular", tendo este último servido de inspiração para o cabeçalho da capa e título do livro. Pena que a diversidade não seja mais abrangente, talvez mesmo porque não existiu, mas atendendo a que só no Porto saíam neste período três jornais centenários que amiúde lá vão aparecendo reproduzidos (de "O Comércio do Porto" não há uma única referência!), significa que pela Invicta os Fab Four não seriam assim tão populares... ou então a linha editorial era de certeza mais conservadora. Tal como anteriormente, a primazia recai, obviamente, sobre o fait-divers, o superficial ou sensacional mas há excepções: por exemplo, a interessante entrevista de Joaquim Letria a Paul McCartney em Albufeira ("O Sansão era da Bíblia... a nossa força não reside nos cabelos" in "Diário de Lisboa", 30 de Maio de 1965) mas é bom constatar que a unanimidade da época sobre os ingleses era, mesmo entre os mais jovens, inexistente. Uma jovem loura portuguesa responde mesmo que os Beatles "não têm qualquer interesse. Não gosto deles. Não me satisfazem, nem como estilo de música nem como figuras. Prefiro, então, a Françoise Hardy ou a Sylvie Vartan" ("Diário de Lisboa", 31 de Maio de 1965). Ora toma! Um dos textos introdutórios da autoria de Afonso Cortez ("A popularidade dos Beatles Nunca Foi Grande Entre Nós", pág 2 e 3) ajuda talvez a perceber o fenómeno invertido, mas a conclusão a que já fomos aludindo aquando da leituras dos capítulos anteriores desta série é que, como fenómeno musical e social importantes, os The Beatles foram por cá simplesmente ignorados e desprezados, contrariando o vaticínio da época de Mahrashi Maresh, guru da meditação transcendental, sobre os seus pupilos: "Os Beatles são os maiores filósofos práticos deste século..." (in "Diário de Lisboa", 29 de Agosto de 1967). Helllo!