quinta-feira, 13 de abril de 2023

(RE)LIDO #114





















NICK DRAKE - Il ragazzo sotto la quercia 
de Pipo Russo. Florença; Edizioni Clichy, 2021 
A figura de Nick Drake tem em território italiano uma expressão e culto surpreendentes. Pelo menos, é isso que transparece da inusitada quantidade de livros e recensões sobre a sua vida, canções e discos que nos últimos anos por lá florescem de surpresa mediante uma atenção ferrenha quanto à sua música. Temos por aqui feito nota dessa inquestionável perdição, centrando a visibilidade em diversas edições impressas que se sobrepõem nas informações e tratamentos das vicissitudes biográficas de uma lenda, ainda e sempre, misteriosas e sedutoras. Pena que as revelações sejam sempre inconsequentes... 

O caso deste pequeno livro de bolso é o perfeito exemplo desse repetido díssono. Bem feito e paginado, usando papel de qualidade e apostando num desenho sóbrio e cuidado, as suas noventa páginas percorrem-se, no entanto, num ápice decepcionante em partes de separação vulgar - uma pequena biografia em dez datas marcantes, um ensaio do autor que dá lhe título, uma compilação de traduções para italiano de algumas das líricas, intercaladas com uma vintena de fotografias icónicas, e a selecção de sentenças elogiosas de figuras como Robert Kirby, Joe Boyd, Robin Frederick ou Vashti Bunyan. Nada de novo, nada de significativo e inédito já que, por exemplo, a totalidade das letras de Drake mereceram já uma tradução total em italiano apesar da pobreza da publicação

Seria, pois, o referido ensaio de Pipo Russo a parte mais saborosa do esforço. Chamou-lhe "Il ragazzo sotto la quercia", ou seja e numa transcrição livre, "O rapaz debaixo do carvalho", o que poderia remeter para a série de fotografias de Keith Morris obtidas no Regents Park londrino em 1970, quatro delas usadas no interior para encerrar o livro sem qualquer anotação, tal como as restantes, quanto ao seu autor ou proveniência! A socapa talvez explique o porquê de não ter sido usada, como parecia óbvio, uma delas para a imagem de capa mas a referência é, afinal, uma alusão à tumba do próprio Drake no cemitério de Santa Maria Madalena de Tanworth-in-Arden, situada por baixo de um imponente carvalho. Mas o que esconde um título tão romântico? 

A tentativa literária começa com um "Olá Nick e obrigado pela melancolia". Estamos, assim, perante uma abordagem veneradora de feições poéticas de (in)disfarçado género epistolar pleno de perguntas e inquirições a um destinatário suspirado. Porquês sobre o "céu do norte", o "que disse o tempo" ou "um sítio para estar" que, invariavelmente, esbarram num acumular de futilidades à volta das letras, das suas eternas metáforas e significados. Nas trinta páginas de suposta conversa é como se o músico estivesse do outro lado de uma mesa ou sentado no sofá receptivo a confissões e dúvidas - "Cada um de nós teve sua própria maneira de conhecer a tua música, Nick." (pág. 28) -, uma viagem tristonha que resulta num monólogo de devoção compreensível ainda que de dimensão confusa e préstimo duvidoso, mesmo que o nosso parco italiano possa ter condicionado na exaltação. 

Se há virtude que podemos apontar a esta publicação, foi na filmografia final, de três menções, que a encontramos - chama-se "Nick Drake - Songs in a Conversation", é um documentário realizado por Giorgio Testi estreado na Festa del Cinema de Roma em 2019 e aparenta seriedade maturada no gosto e amor de Roberto Angelini e Rodrigo d’Erasmo por Nick Drake, convocando outros artistas italianos para uma série de confissões e versões de canções registadas por John Wood, o mítico produtor dos três álbuns que Drake gravou em vida. Ao filme soma-se a edição de um disco de edição recente mas já audível na sua totalidade. 

Se le canzoni fossero battute in una conversazione, la situazione andrebbe bene...


Sem comentários: