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domingo, 16 de agosto de 2026

A GAROTA NÃO + TOMODE + ALDOUS HARDING + KURT VILE & THE VIOLATORS + HERMANOS GUTIERREZ, Festival Paredes de Coura, 13 de Agosto de 2026

Do palco pequeno para o palco grande em três anos, A Garota Não voltou a Coura reforçada na sua condição de lutadora moderna. À custa de uma "escolha de caminhos", a canção é a sua arma explicita apontada ao grassar da guerra, do racismo, da corrupção, da misoginia, do direito à habitação ou à saúde. Um género de refrão do "Liberdade", que Sérgio Godinho escreveu em 1974, e que está cada vez mais difícil de cumprir em tempos de privatizações e desinformação que a banda projectou em tensão aumentada, mesmo que encurtada numa série de medley's. Um trio de cantoras deu-lhe volume, grandeza e um enorme coração de apelos em megafone - para além do próprio Godinho, José Mário Barnco, Rage Against the Machine, Elza Sares, Gilberto Gil foram os outros dos "caminhos escolhidos" para fazer do anfiteatro "um vale encantado" de união a uma canção colectiva sem final. Por isso, sim, PQOP a todos!

 

O título do único disco dos suecos Tomode é categórico - "Existential Disco". À pergunta se os muitos que enchiam o empedrado do palco pequeno estavam prontos para dançar, a resposta foi simplesmente continuar o hip-shake de embalo em muitos riffs e trejeitos funk e disco onde a banda, sem disfarces, se molha e toma banho. Houve até coreografia dos guitarristas e do baixista ao jeito vintage de banda soul, tudo em onda festiva arrasadora e sem contemplações que o fim de tarde de caloraça estava a pedir. Um geladinho "olá, é bom não foi?" descontraído, eficaz, refrescante...

 

Finalmente, depois de sete longas voltas ao sol, a incrível Aldous Harding apresentou-se num palco nortenho onde muitos a esperavam e acolhiam com carinho. Há "Train on the Island" para apresentar, um estímulo de refinação recente, e foi dele a maioria das escolhas de um alinhamento de grandeza madurada. Houve, pois, que dar-lhe espaço, tempo, aperto nos seus transtornos ou manias, uma repetida sensação de desconforto que o amigo e companheiro Huw Evans aka H. Hawkline foi supervisionando na condição ou afinação de um quarteto instrumental imaculado. O respeito e bondade que a plateia lhe dispensou, sem queixumes ou irritações, fizeram do concerto um momento assinalável de composição pop a três dimensões que só ali, no Alto Minho de fundo arborizado, se podia moldar como redentor.

 

Desde que Kurt Vile aterrou no Porto para uma sessão/experiência no escuro dos Maus Hábitos passaram dezassete anos! Desde aí, mesmo que os companheiros ainda não fossem os The Violators, a sua sentença musical manteve-se nivelada por alto naquilo que se chama música americana. Sempre coerente, fascinado, conectado à sua Filadélfia da infância, da juventude e da vida adulta que homenageou, outra vez, no último "Philadelphia’s been good to me", é também um prova de amor a Young, Springsteen ou Dylan que as canções vão esticando em histórias e confissões desarmantes. Ao vivo em Coura, como em 2014, tamanha dimensão lo-fi assentou, camada a camada, uma vibração torneada em solos e riffs de guitarra maquinados pelo suporte infalível dos restantes instrumentistas. Sem picos, sem exageros, mas com condimento suficiente, nada mais se pedia a um Vile, ainda e sempre, bem-vindo - deixar correr as canções, colina acima, sem levantar pó e engrossando uma curtição.

 

O que dizer da aparição dos Hermanos Gutierrez? Que foi tardia, mas sublime? Que foi contida, mas inebriante? Juntar-lhe mais alguns descritivos não adianta grande coisa para quem não teve ainda a oportunidade de uma fruição deste calibre. Fazer das guitarras, em slide ou eléctricas, uma ferramenta narrativa não será novidade e os nossos Dead Combo, aliás, recordados pela dupla de irmãos, também o faziam de forma muito própria. Por isso, ver na plateia, em calma espera, a dupla dos Miramar, dos Clã ou o próprio Noiserv, seria só mais um sinal do fascínio que o som da dupla suiça foi arrebanhando na curiosidade entre pares e que, como qualquer arte, não se mede em explicações, mas em sensações. Testemunhar um anfiteatro de Coura sem empurrões, gritaria, moshes ou crowdsurfing, escutando com atenção, e de olhos fechados, as histórias de teletransporte desta irmandade, ficará como um dos grandes momentos do festival. Alguns sortudos, lá para o final do mês, irão repetir a trajecto em pleno Sá da Bandeira... Sagrado!

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANA FRANGO ELÉTRICO, Morro Sonoro, Jardim do Morro, VNGaia, 31 de Julho de 2026

O nome de Ana Frango Elétrico têm nos últimos anos assumido protagonismo entre a nova música brasileira. Versátil, irrequieta, sempre a jogar na intervenção e no activismo, cedo largou lastro por terras lusas com o seu pop inteligente, onde o funk, a soul e a MPB se misturam de uma frescura vintage que seduz e acelera interesse intercontinental. Que o diga a Mr. Bongo, casa de discos inglesa sempre interessada na actualização retro do seu catálogo. 

Não foi por isso surpresa que a aparição gratuita no Jardim do Morro tivesse juntado jovens lusos a uma multidão de brasileiros e muitos outros estrangeiros, já de si aconselhados a ir ver o pôr do sol mais badalado da região, ali reforçado com banda sonora a condizer. Nada de exagerado, mas facilmente praticável numa onda descontraída, dançável, perfeitamente nivelada pelo caloraça bem-vinda de final de tarde a que muitos reduziram, ou multiplicaram, a temperatura aportando de casa diferentes beberagens ou outros estimulantes fumarentos. 

A receita, que tanto pode lembrar o clássico groove dos Chic como uma pérola de Rita Lee, teve nota artística muito saudada e participada, de maioria sabedora e repetente no replicar das letras de indefinição e acutilância arty qb. Para o fim, "Mulher homem bicho" e "Electric Fish" multiplicaram a jiga colectiva, mas foi o "larari larara" da incursão em "Não tem nada não / Gypsy Woman (She's Homeless)" que ganhou aos pontos. 

Para quem quiser a repetir a dose, e passar uma noite em cheio, sábado, dia 8 de Agosto, no festival EsteOeste do Parque da Ponte em Braga, há mais...

quinta-feira, 30 de julho de 2026

GEORDIE GREEP, APELO!





















Revelou-se tardia a informação quanto ao concerto de dia 14 de Novembro do irrequieto Geordie Greep no RCA-Radioclube Agramonte do Campo Alegre. Esgotado, como seria natural! 

Por isso, e no sentido de repetir em sala pequena a salutar festarola de Coura do ano passado, apela-se a quem consiga desenrascar, desviar ou fazer sobrar um qualquer bilhete legal para a correria e levitação sonora, o favor de contactar por quaisquer dos meios. Gratos, desde já! 

SONDRE LERCHE, OUTONO EM POP!














São já mais de vinte os anos sobre a passagem de Sondre Lerche pelo Festival Para Gente Sentada de Santa Maria da Feira em 2005, por sinal, a única vez que o vimos ao vivo. Em Novembro próximo, a raridade terá multiplicação tripla por palcos portugueses com concertos a solo em Lisboa (dia 12), Aveiro (dia 13) e Arcos de Valdevez (dia 14, sábado). 

Há já bilhetes para o Teatro Aveirense, mas a Casa das Artes de Valdevez só costuma disponibilizar entradas na semana anterior ao evento. Aceita, contudo, reservas

A intensa digressão europeia prevista refere-se à promoção de "Acrobats", o décimo primeiro disco de uma colecção de elevado teor pop que terá edição oficial em Agosto. Onze canções de romantismo indisfarçável que se segue a um aditivo EP datado de Janeiro. Lá estaremos, no Outono, para dar provas de apego!


 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

JOEP BEVING, Palco das Artes, Vila Nova de Cerveira, 25 de Julho de 2026

O ciclo anual quase vintenário "Cerveira ao Piano", recuperado e promovido pelo município de Vila Nova De Cerveira, tem nos últimos anos aportado algumas surpresas. Por lá passaram já Wim Mertens (2022) ou Micah P. Hinson (2025, sim, a tocar piano), e uma das duas noites do corrente ano foi dado privilégio ao holandês Joep Beving. Não é coisa pouca! 

Artista referência do chamado neoclássico, movimento já documentado em filme, a presença no auditório minhoto motivou plateia luso-galega esgotada e, maioritariamente, a estrear-se na audição. Mesmo assim, alguns repetentes não perderam a oportunidade dourada para testar muitas das peças do novo álbum "Liminal" que a Deutsches Gramaphone editou em Março passado. 

A harmonia obtida, com fonte primordial na recente novidade discográfica, foi-se engrandecendo de forma calma, subtil, criando uma atmosfera planante, quase onírica, e que um simples e pequeno piano vertical tornou milagrosa. Ao seu comando instrumental, a enorme figura de Beving, a fazer lembrar o miúdo louro Schroeder de "Peanuts", e mesmo na descontracção de umas férias familiares pelo país, obteve forte ovação perante o liminal sonoro apresentado, jornada saborosa e, ainda assim, admirável. 

Lá para Janeiro, e já com concerto marcado no São Luís da capital (dia 6), pode ser que a viagem espiritual se volte a repetir...

segunda-feira, 27 de julho de 2026

TIGRAN HAMASYAN, FIME, Auditório de Espinho, 23 de Julho 2026

A segunda visita de Tigran Hamasyan em três meses (Casa da Música, 21 de Abril) não será um acaso. A composição da sua música atinge uma profundidade e ritmo contagiadores de diversas camadas de público, o que foi facilmente comprovável no rápido esgotar do concerto espinhense e pela presença de diferentes gerações na ante-câmara que dava entrada no auditório do festival. 

Do cruzamento e confluência de géneros, onde a vivência arménia se torna outra vez evidente, se faz o novo álbum "Manifeste", uma receita envolvente de dinamismo progressivo que, ao vivo, logo fez abanar algumas das cabeças dos que, orgulhosamente, vestiam t-shirts metaleiras. Mesmo que a acústica regulada não tenha ajudado na melhor das fruições, tornou-se evidente o poderio de um baixo extravagante de doze cordas e o peso sincopado da bateria para que a intensidade nunca se tenha perdido. Mas... 

Nos seus meandros, como que flutuantes, teclas virtuosas do piano de Hamasyan e uns sussurros de canto coral tradicional foram desregulando, melodiosamente, um concerto de alta vivacidade e de destino imprevisível, acentuando que o jazz não tem limites. Ainda bem, ainda bom!

sexta-feira, 24 de julho de 2026

MERCURY REV, UM SONHO INFINITO!





















Os Mercury Rev lançaram há vinte cinco anos o seu quinto álbum de originais. Chamaram-lhe "All Is Dream", contempla enormes canções e composições que se poderão recordar, a três dimensões, já no próximo dia 2 de Outubro, sexta-feira, no resistente Hard Club. O sonho parece não ter fim... bilhetes!

JOHN HOLLENBACK "GEORGE", Assembleia do Muzeu, Braga, 18 de Julho de 2026

O recentemente inaugurado Muzeu que reabilitou o antigo Palacete Vilhena Coutinho, edifício emblemático do centro histórico de Braga, contempla no seu último piso uma sala polivalente de excelente condição e harmonia onde pode caber uma variada programação cultural. Chama-se Assembleia, talvez por corresponder a instalações anteriormente afectas ao Tribunal Judicial e nela decorre, mensalmente, o ciclo Jazz no MUZEU, com curadoria do Hot Clube de Portugal. 

Se o lema é "MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea", fará todo o sentido cruzar-lhes modernas abordagens musicais como a do baterista norte-americano John Hollenbeck e o seu projecto "George". Formado durante a pandemia e já plasmado em dois discos de originais, o quarteto arrisca um conceito de vanguarda à volta de "George", homenageando diferentes baptismos de almas com esse nome, de George Clooney, George Saunders a George Michael, passando por George Clinton ou George Floyd. 

A alguns deles se dedicaram diferentes momentos jazzísticos de forte e veemente batimento, o que não deixou de fazer vincar algumas da subtilezas das vozes e muita da vibração de um saxofone e flauta das restantes instrumentistas. Original, surpreendente, não foi, mesmo assim, fácil arrancar aplausos convictos a uma plateia bem preenchida mas, talvez, atordoada com a estranheza da audição, o que perece ter demorado a entranhar-se na proporção ideal. 

Se, ao que parece, "Georgios" tem na sua origem etimológica grega significados associados a "agricultor" ou "trabalhador da terra" e derivativos que nos conduzem a "produtor", então, nada como recomendar a continuação do bom e empenhado trabalho executado! 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

GABI HARTMANN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 18 de Julho de 2026

Tal como em anteriores edições, o festival tem por hábito programar, pelo menos, um concerto onde a aproximação ao jazz é, assim dito, duvidosa. Pode ser o neo-soul, pode ser uma electrónica adocicada, poder ser até a chanson ou a delicadeza da bossa nova. A jovem parisiense Gabi Hartmann é, pois, o perfeito exemplo deste inocente e inofensivo sacrilégio, para os mais puristas, ou uma arejada dádiva, para os mais flexíveis e descontraídos. 

Foram destes muitas das palmas para um alinhamento diverso e multilingue, onde brilhou a guitarra de Abdoulaye Kouyate e uma voz envolvente para canções de semente tropical, africana ou, como não, francesa, que, no seu efeito leve e perfumado, se mostraram e ouviram de forma prazerosa e entretida. Sem ofensas e, até atendendo ao nome de um dos patrocinadores, um fim de tarde muito smooth... fm!

segunda-feira, 20 de julho de 2026

LAKECIA BENJAMIN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 12 de Julho de 2026

Já com visitas triunfantes a palcos portugueses (Espinho e Coimbra, 2023; Braga, 2024), faltava a Lakecia Benjamin uma consagração adequada. O final de tarde no jardim matosinhense mostrou-se, a esse nível, perfeito na descontracção e informalidade de uma fruição arrebatadora desde o primeiro momento - servindo-se do seu saxofone alto, pequeno no tamanho, enorme na vibração, logo o quarteto se ligou a ele como conector de uma energia em potência acentuada. 

Foi, pois, difícil baixá-lo na intensidade, o que nem mesmo aconteceu nas pausas para fazer brilhar os outros instrumentos, às mãos de um trio de teclado, bateria e baixo em perfeita rodagem e complemento. Ao conjunto, acelerado numa tradição clássica de forte jazz, não faltaram toques de r&b, hip-hop e o bom do funk, ressaltado nas duas últimas e incendiárias peças à custa de um baixo eléctrico bamboleante. 

O aplauso colectivo que brindou o final da passagem cometa pelo coreto só confirmou a grandeza de um concerto que se esperava vigoroso e que redundou numa fonte energética de rápida absorção e firmeza. Que salutar vitamina! 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

MY NEW BAND BELIEVE, ACREDITEM!
















Tal como seria previsível, dos estilhaços dos Black Midi não faltam renascimentos sonoros de alto calibre. Se Geordie Greep se apressou a estender o seu salutar desvario em forma desconstruída de canções com "The New Sound" (2024), palpitante exercício artístico com exame aprovado em Coura o ano transacto, não lhe fica atrás o outro vocalista, Cameron Picton, que foi assumindo o colectivo My New Band Believe de forma excitante. 

A estreia em Abril com o disco homónimo é de uma maturidade pop viciante e de progressão flutuante e misteriosa, confirmando, desde já, a presença em muitas das listas de melhores do ano a sair lá para o Natal. A "coisa", que só faz efeito ouvida de fio a pavio, terá avaliação presencial, agora confirmada, no irreverente festival Mucho Flow de/em Guimarães, no próximo dia 31 de Outubro, sábado pela noitinha. Ainda sem bilhetes diários, será pecaminoso faltar. Acreditem! 


NUBYA GARCIA, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 5 de Julho de 2026

Afixada a um firmamento cintilante do novo jazz, Nubya Garcia e o seu habitual trio regressaram a norte em toda a plenitude aurífica. Tal como na Casa da Música, no início do 2025, não há por aqui qualquer subterfúgio de circunstância ou esconderijo artístico - tudo emerge numa intangibilidade magnífica e elegante em que os instrumentos se auto complementam à conta de uma osmose clássica de sonoridades, mas que só sobredotados aplicam no primor da subtileza. 

Clareado, cheio, perfumado, o jardim como que se suspendeu de rumorejadas brisas ou ventanias para ajudar a plateia, sortuda, a captar e a revolver uma donativa união instrumental em que o saxofone que Garcia desempenha sem paralelo sugere, cada vez mais, uma condição fascinante de prodígio enleada a uma bateria, baixo e teclados talvez imbatíveis. Seja qual for o significado de núbia, esta é mesmo de ouro e bastante preciosa! 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

CAMERON WINTER, PARA (ATÉ) QUANDO?

Vem já de 2024 um grande, surpreendente, álbum de Cameron Winter, agora conhecido líder dos Geese, que só começamos a ouvir já em 2025. Viciante, intemporal, "Heavy Metal" tornou-se, desde logo, obrigatório imaginar como seria absorvê-lo numa qualquer sala às escuras. 

Pois bem, o homem já tocou em quase todo o lado, passou por Barcelona há poucas semanas, mas não se vislumbram sequer aproximações portuguesas, agora que faltam ainda conhecer alinhamentos de alguns eventos mais que apropriados para a estreia - o Manta vimaranense, o Respira bracarense ou até o MistyFest que sugere estar sempre incompleto.

Entretanto, tem uma semana a divulgação maravilha de uma vintena de minutos da passagem pela Opera House de Sydney em Fevereiro, exemplo perfeito do que andamos a perder. Masoquistas, juntamos dois inéditos, um oficial, outro à socapa...



quarta-feira, 10 de junho de 2026

HERMANOS GUTIÉRREZ, OLHOS ANDINOS!





















Na sua linhagem sul americana, os Hermanos Gutiérrez aportam para um novo álbum o secular universo sonoro dos Andes peruanos, deixando para atrás o oeste americano que preencheu toda a sedutora discografia precedente. Ao comando continua Dan Auerbach, metade dos The Black Keys, que na mesa de mistura do estúdio tratou de evidenciar tantas das exuberantes nuances instrumentais de "Los Ojos Del Condor", disco com saída prevista para Setembro. 

Antes, os irmãos Alejandro e Estevan estarão em dose dupla no nosso norte do país: a 13 de Agosto, quinta-feira, em Paredes de Coura, cumprindo o concerto cancelado em 2024 e, um pouco mais de um mês depois, no muito esgotado e apropriado Teatro Sá da Bandeira, a 25 de Agosto, terça-feira. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

CREMALHEIRA DO APOCALIPSE + RUMBLE + ROMPERAYO + ODD OKODDO & OGOYA NENGO, Serralves em Festa, Porto, 31 de Maio de 2026

No caminho apressado para mais um dos muitos concertos da festarola, um "viva Rio Tinto!" soou alto e bom som! O colectivo da freguesia Cremalheira do Apocalipse não será caso único na integração de jovens com diferentes incapacidades ou transtornos, mas o sururu à volta do projecto têm vindo a multiplicar-se depois da gravação de um álbum pela Favela Discos e de uma série de concertos nos últimos meses. Importa, pois, perceber porquê e não será difícil concluir que a máquina tem uma simples força motriz - a entreajuda! 

"Das entranhas de Rio Tinto, no triângulo sagrado entre o Centro Social de Soutelo, McDonalds, a pastelaria que tem bolos grandes demais, e o Parque Nascente, brotou a Cremalheira do Apocalipse, uma pedalada de baqueta nos dentes, e um estalo na rotina diária de quem os ouve de quem os vê e de quem os faz." 

Uns entram, outros saem para estágios ou primeiros empregos. Ficam os baldes, as cafeteiras, as baquetas, os bidons, que o prof. Artur vai rodando e sobrepondo a um género de canções manifesto de inspiração lírica dos próprios executantes, tantas delas desarmantes, de acutilância simples que nos deixa desencaixados, a morder o lábio enquanto nos mingámos na insignificância do nosso dia-dia normalizado... 

Caberá, pois, conhecê-los, dar-lhes asas largas e, com um nó na garganta, mandar-lhes um abraço do tamanho da antiga Mondex. E viva Rio Tinto!

 

Do Fundão, aterrou na coloraça o quarteto Rumble. Pareceu deslocada, por antecipação, a atmosfera de densidade pós-rock, se bem que de imaculada execução e até arrojo. A tarde de sol pedia, no entanto, outro tipo de animação festiva.,,

 

Chegados ao prado, já os Romperayo tinham incendiado a enorme maralha, de todas as idades, com uma ignição tropical, de origem colombiana, bombada a forte bateria e modernismos de ritmos electrónicos sacados de um baixo, um teclado e um acordeão folgazão. Há por ali e acolá, um suposto abuso do folclore de Bogotá, da tradição cumbia e puya que chega, literalmente, ao funk latino ou ao suposto pimba local, sem que ninguém estivesse muito interessado em saber qual a aferição dos condimentos rítmicos. 

Tudo a dançar, a curtir, mesmo que algumas da canções de teor político tivessem, às tantas e em dia de eleições no país, uma seriedade inesperada. Acelera, mas é!

 

O duo Odd Okodd, formado por Olith Ratego, vocalista e instrumentista, e Sven Kacirek, baterista e percussionista, junta de forma inusitada o Quénia e a Alemanha em já três álbuns editados e onde se vai vasculhando e serpenteando modernidades e ancestralidades tão ao gosto de uma certa e ecléctica world music. Se funciona? 

A fruição até que começou incisiva, acústica, numa crueza delicada que aguçou expectativas. A interacção com o público optimizou o momento, deu-lhe proximidade e até uma etnicidade aportada pela presença da octogenária Ogoya Nengo. O resultado, se bem que inatacável na exactidão, foi-se, no entanto, perdendo numa extensão perigosa e a precisar de um ou outro rasgo de batimento diferenciador. 

Esta sensação de déjà vu, será muito semelhante à própria festa de Serralves, de que será urgente uma reinvenção que a recupere de uma letargia cultural desnecessária.

terça-feira, 12 de maio de 2026

STEVE GUNN, Understage, Teatro Rivoli, Porto, 8 de Maio de 2026

A música que Steve Gunn compõe para a sua guitarra há quase vinte anos nunca nos passou ao lado. Contudo, talvez a eficácia dos temas e recursos que insiste em gravar e divulgar não tenha, ao vivo, acusado um merecido destaque, e a que se podem apontar razões diversas - em 2015, em Coura e rodeado por uma banda, talvez a grandeza do palco o tenha submergido numa indiferença pecaminosa; em 2022, a dar cordas a filmes obscuros em Vila do Conde, seria difícil fazer melhor; em 2024, ao lado de um pianista em Espinho, a parceria se bem que estranha, confirmou-se, ainda assim, reconfortante.

Culminando a recente presença por perto de uma sequência involuntária, mas imbatível, de grandes guitarristas (Sir Richard Bishop, Bill Orcutt, James Blackshaw), a há muito esgotada cave do Rivoli acabou com todas as nossas dúvidas - sozinho, na plenitude dos atributos e liberto de uma qualquer encomenda ou ajudante, a noite foi de viagem americana atracada a um songbook distinto na sua consistência e verossimilhança, mas em que a subtileza dos acordes e de alguns dos truques de repetição agravaram a contenda a um nível elevado. 

Variada na origem e na datação, a sequência de oitenta minutos despertou na plateia, logo convidada a aproximar-se ao palco, um usufruto cada vez mais raro nestes tempos de distracções e impaciências, envolvendo Gunn de um reconhecimento e atenção merecidos, ou não fossem as suas canções autênticos monumentos de progressão prazerosa. Lá no meio, uma versão de "I'll Be Your Mirror" dos VU como que adornada à sua maneira, foi só mais um dos toques de classe de um já mestre inquieto...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

LAMBCHOP É UM ÁLBUM E CONCERTOS!

















Os Lambchop, do incontornável e agora barbudo Kurt Wagner, baptizaram o seu décimo sétimo álbum de "Punching the Clown", o que só pode ser propositado... Foi produzido por Ryan Olson (Poliça ou Gayngs) e gravado em três dias de Agosto de 2025 no April Base, estúdio em Fall Creek (Wisconsin) de Justin Vernon aka Bon Iver, que toca banjo no primeiro avanço "Weakened". 

As composições pertencem na totalidade a Wagner e a Andrew Broder, contando com um coro de seis vozes em todas as doze faixas, uma onda acapella despojada de sofisticação orquestral. A versão digital da novidade está agendada para Agosto próximo pela Merge Records

Entretanto e no âmbito da digressão a iniciar pela Europa em Novembro, está confirmada a passagem por Portugal para quatro concertos, sendo o Theatro Circo de Braga, dia 21, sábado, e o Auditório de Espinho, dia 22, Domingo, as salas mais próximas. Prometida está a repetição de um formato de sucesso que presenciamos em 2024 no Parque da Cidade - um piano, uma imensa voz, múltiplas histórias!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

JAMES BLACKSHAW, GNRation, Braga, 2 de Maio de 2026

Já lá vão os tempos em que James Blackshaw metia no estojo uma guitarra acústica de doze cordas para o acompanhar em palco. Com esse raro instrumento gravou discos inebriantes, fez verdadeiros recitais pelas redondezas com direito a regressos quase madrugadores sempre cativantes. Cansado, talvez penalizado pela afinação de tamanho uníssono, o inglês decidiu parar, respirar fundo e tentar continuar uma vida sem acordes, dedilhados ou estúdios a partir de 2015. Até que um dia... 

Em 2024, Blackshaw avançou para um regresso ao que melhor sabe fazer, mas cortou para metade as cordas da guitarra de que, afinal, não se consegue separar. Ainda bem. O, então, novo cartão de visita chamado "Unraveling In Your Hands", de três longos andamentos, confirmava o apuro das aptidões há muito demonstradas, elevando até a sofisticação de uma composição tentadora. 

Ao vivo, numa aparição descontraída de final de tarde para todos as idades, a façanha resguarda-se ainda imaculada. Mesmo que o alinhamento das cordas seja agora mais rápido, como recordou, a adequada vulnerabilidade dos acordes, a sua aveludada magia ou algumas das sequências/repetições, prolongaram-se, por magnetismo, em três diferentes momentos - a abrir, no monumental "Unraveling In Your Hands", numa memória de "Cross", tema título do álbum de 2008 e, para culminar, em "Fractures On the Horizon", escolha centrada num recente projecto de auto-produção. 

Afinal e longe de um qualquer virtuosismo implacável ou de uma concentração extrema, em pouco menos de uma hora comprovou-se que isto de tocar guitarra, e de fazer dessa aparente e simples vibração uma bênção purificadora, talvez tenha em Blackshaw uma rara e renascida estrela cujo brilho continuará, milagrosamente, cintilante!
          

terça-feira, 21 de abril de 2026

NUBYA NO CORETO!

É certo que já por lá passou em 2019, a ajudar o parceiro Joe Armon Jones, mas agora é a sério - Nubya Garcia estará no coreto do jardim Basílio Teles no dia 5 de Julho, Domingo, no âmbito da próxima edição do Matosinhos em Jazz! Outros artistas se anunciarão em breve, mas para já a aposta é grande e certeira!

segunda-feira, 13 de abril de 2026

BILL ORCUTT, GNRation, Braga, 11 de Abril de 2006

Foram já várias as oportunidades para testar o génio de Bill Orcutt ao vivo. Caprichos vários levaram a que a pretensão fosse sempre adiada, lembrando, por exemplo, o cancelamento dos concertos portugueses, incluindo o do Porto, à custa de uma nuvem de cinza vulcânica que fez parar muitos aviões (2010?), ou uma incursão despercebida pela Sonoscopia (2015?). Outras, certamente, já aconteceram sem comparência nossa injustificada e sublinhada com aquele encolher de ombros perigoso "fica para a próxima". A passagem por Braga enquadrava um momento e palco perfeitos para a estreia que acabaria, em definitivo, com o sacrilégio. 

É certo que os anos passam, mas os discos e concertos que continuam a sair e em agenda, confirmam que de Orcutt só se pode esperar inquietude da boa. A Fender Telecaster, de aparente modificação no encordoamento, é o condão instrumental de inseparável virtude a partir do qual se agita num estilo vanguardista, hipnótico, que preencheu a sala escura de Braga de uma tensão entontecida de electricidade instável. Fraccionada em quatro largos momentos de uma dúzia de minutos, à sequência juntou-se uma pequena descarga terminal para aliviar o empenho. 

Ao fim de uma hora de poderoso provento, não admira que a espontaneidade da ovação da plateia esgotada tivesse crismado, e bem, uma actuação de densidade rara, acentuando a tenacidade de um músico cuja aptidão instrumental não é somente uma técnica, mas também uma virtude - a de extasiar por vibração e contágio!