sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

(RE)LIDO #91





















AUTOBIOGRAPHY
de Morrissey. Londres; Penguin Classics, 2013
A carreira a solo de Morrissey, que leva já mais de uma trintena de anos, é por si só uma jornada digna de registo. Contudo, a maioria dos eternos aficionados dos The Smiths parece que aos poucos lhe foi virando as costas a que não será alheio o seu inconstante e irritante feitio, uma montanha russa de imprevisíveis afrontas, amuos, ou provocações. Basta, para isso, estar atento à serie de episódios em catadupa ao longo do corrente ano para o comprovar. É só escolher!

Serve este desabafo de um fã antigo mas desiludido, para tentar expressar, mesmo assim, a validade da biografia que o próprio decidiu escrever, um testemunho ritmado e vigoroso desde os tempos de infância numa Manchester mal amada até ao refúgio em Los Angeles. Na sua aparente sinceridade, a narrativa torna-se aditiva e sôfrega, focada na amargura de uma infância solitária, na rejeição vivida durante o ensino colegial e no despertar obstinado para a música, os concertos e os heróis, uma primeira parte do livro onde os momentos de partilha são mais saborosos de ler e, sinceramente, os mais brilhantes.

Depois, como que preparado com minúcia, começam a acentuar-se as questiúnculas legais e ilegais, os rompimentos, as separações e os eternos problemas gerados pelo fenómeno The Smiths e uma nítida fixação, os topes e os números uns. A demora de cento e quarenta páginas até aparecer o nome de Johnny Marr é um sinal de uma estratégia de vitimização ou não fosse Morrissey sinónimo de miserável, "misery", "mozzery " e "Mozz", o cognome que sempre rejeitou mas de que tanto se orgulha! A descrição em cinquenta páginas do processo em tribunal por direitos de autor contra o baixista da banda Andy Rourke é, a esse nível, uma xaropada dispensável mas que, lá está, o próprio queria certamente contar à sua maneira numa visão muito particular do imbróglio atravessada na garganta.

Notamos, ainda assim, a falta de mais memórias relativas a desencontros ou afinidades com colegas de profissão, um mundo rock & roll que é o sal tonificante de qualquer biografia musical - um bom exemplo é a descrição da parceria de que já nem nos lembrávamos de 1994 com Siouxsie no registo de uma versão de "Interlude" de Timi Yuro, um encontro naturalmente promovido pelo próprio mas revelador da eterna intriga condenada a burocracias, adiamentos e contratempos e sem um decidido video programado mas nunca concluído.  

A mudança para Los Angeles e para a imensidão americana - "I’m alone, of course, but that is quite usual" - confirma a obstinação com uma solidão constante mesmo que o desfile de vedetas vizinhas a querer companhia e atenção seja relatado como ofensivo e antipático. Ou seja, o homem não gosta de ninguém e parece também não gostar que gostem dele apesar de ter escrito um belo de um livro onde a vida íntima é pormenor atendendo a que Morrissey só há um, é este incompreendido e mais nenhum!  


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