segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

(RE)LIDO #68





















YO VI A NICK DRAKE
de Eduardo Jordá. Madrid: Rey Lear, 2014
Reunidos neste recente livro estão quatro contos publicados nos últimos anos pelo escritor maiorquino no "Diário de Sevilla" e outros jornais andaluzes na secção "Relatos de Verano". Uns sofreram alterações, outros somente correcções estilísticas, mas há um deles, o que dá o título à obra e abre a narração, que permanecia inédito. Em jeito de homenagem a Nick Drake, somos transportados para a mansão-mãe de Far Leys, cenário imaginado para um argumento ficcionado mas perfeitamente verossímil, tanto assim que Jordá, segundo confessado ao "ABC", teve que explicar a um amigo incrédulo que nunca lá esteve ou viu sequer Nick Drake! Efectivamente, o autor passou o verão de 1973 numa casa de um outro amigo inglês em Birmingham, muito perto de Far Leys, residência onde Drake gastou os últimos e depressivos dias de vida, mas apesar de ser dos poucos que na altura admirava as suas canções e tinha os discos todos, não fez nenhuma visita ao local. Pelos pormenores usados, nota-se que estudou afincadamente a biografia, as fotografias, as histórias que relacionam a casa, os seus jardins e divisões aos personagens principais da trama - o próprio Nick, que supostamente viu de relance e do exterior numa primeira e fugaz visita em 1973 juntamente com a empregada Birmanesa de nome Naw e a quem perguntou pelo cantor, e o pai, Rodney Drake, que numa segunda visita em 1980, depois da morte do filho, o recebe e encaminha para o interior da mansão. Aqui, para todos os aficionados como nós, o conto ganha uma dimensão peregrina e misteriosa com a descrição pormenorizada das salas e dos seus adereços, entre diálogos respeitantes à anterior tentativa de visita ou argumentos fundamentados sobre a condição física e mental de Nick na voz do pai, até que entram no "Musicroom", o local onde estava um gravador de fita e o quadro original da capa de "Pink Moon". Mostra-lhe então uma folha pautada com a palavra "Unknown" em maiúsculas e mais algumas palavras soltas como "visita", "verano", "recordar" ou "que queria de mí?" ao lado de algumas notas musicais que correspondem a alguns trechos de uma gravação de fita que ouviram momentos antes... Concluem então que o filho teria tentado escrever uma canção sobre aquele "desconhecido" que o procurou em 1973 e que ele, afinal, também viu! Tudo termina com uma demanda inglória junto da editora, do biógrafo Patrick Humphries e da própria irmã Gabrielle Drake, sobre o paradeiro da tal fita. De facto, uma história bem contada, um sonho inconcretizável de ver um herói venerado e amado, tal como cantou o ex-Soft Boys Robyn Hitchcock no álbum "A Star for Bram" de 2000: 

I saw Nick Drake
At the corner of time and motion
I caught his eye and he caught mine


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