terça-feira, 7 de junho de 2016

PRAED+ALEX ZHANG HUNGTAI, DAVID MARANHA e GABRIEL FERRANDINI+CALIBRO 35+NORBERTO LOBO+ THE RITE OF TRIO, Serralves em Festa, Porto 5 de Junho de 2016













Ainda o sol estava bem alto e calorento quando os Praed subiram ao palco maior da festa - a uma mesa técnica e computorizada juntou-se um clássico clarinete a debitar acordes árabes que de imediato se viram envolvidos por uma camada agitadora de beats e loops. Se a pretensão era provocar a agitação e até a natural dança, foram poucos os que responderam ao desafio do duo nada convencional, aproveitando a maioria para continuar a banhos de sol enquanto alguns pais e filhos jogavam à bola ou se entretinham noutras brincadeiras. Como banda sonora para tão diverso ambiente, até que não foi mau mas como "música jazz rock experimental" (!) deixou muito a desejar...    



Sentia-se à distância que o momento em que Alex Zhang Huntal, David Maranha e Gabriel Ferrandini subissem ao palco do Ténis se tornaria espe(a)cial. O mentor dos Dirty Beaches e a dupla portuguesa havia respondido a um convite da Blue Note para recriar livremente  o "mundo" de Coltrane, o que foi espontaneamente desenvolvido e posteriormente apresentado ao vivo em Lisboa entre 2014 e 2015. Sem disco, mas com imagens ainda inéditas (?), a aventura recebeu o título de "Last Train To God Knows Where", sendo esta incursão a Norte a oportunidade de confirmar o "destino" efectivo de tão (já) afamada experiência. A dureza inicial da percussão foi-se acentuando vigorosamente, o que não assustou, pelo contrário, a plateia expectante, atenta e concentrada na interacção notável de um trio talentoso e aventureiro, dois ingredientes obrigatórios de qualquer tipo de jazz, antigo ou moderno, clássico ou experimental. Sendo assim e com a demonstração de tamanha qualidade, este foi sem muitas dúvidas o momento mais alto do festival.



Tomando por certa a máxima que o funk não tem nem idade nem berço, o colectivo Calibro 35 vindo de Itália aproveitou a oportunidade para confirmar que a revisitação do género é ainda hoje um filão interminável de modernidade. Jogando com a dose certa dos instrumentos - a bateria, o baixo redondo, a dupla de metais e a alternância de um teclado com a guitarra eléctrica - a banda acerta em cheio na "cinematografia" dos temas, sem vocalizações ou outros adornos distrativos, adquirindo o jogo instrumental um cunho muito próprio de fundo sonoro para um qualquer filme série B ou, como no caso, um agitado fim de festa pré-anunciado. Curto e grosso, sem contemplações nem artimanhas, o calibre destes Calibro é mesmo de pegar fogo!        



Em mais uma incursão de Norberto Lobo por Serralves, culminando certamente uma semana intensa de aprendizagem e cumplicidade com Joshua Abrams, o músico lisboeta continua a surpreender. Nem melhor nem pior que noutras oportunidades, Lobo reinventou sem receios os recursos e sons que a guitarra amiga, neste caso eléctrica, lhe permite obter. A sua figura tornou-se quase imperceptível na escuridão do palco ou entre a fumarada momentânea, acrescentando mistério e sensibilidade à sua música. Como sempre, enriquecedor e planante!            



O tópico principal deste ano "Juntar Mundos" é um apelo claro para que as fronteiras sócio-culturais se desvaneçam o que temos tido o prazer de confirmar ano após ano e em que muitas das boas surpresas da festa de Serralves estão sempre por perto. O caso dos The Rite of Trio é a prova de que o talento e a inquietação sonora está bem viva no Porto, uma criação musical onde o jazz se entranha com alguma fusão experimental, o que deixou os muitos "resistentes" perfeitamente rendidos. Na Clareira das Bétulas, logo perto da entrada e da saída do Museu, o que o jovem trio conseguiu apresentar foi mais que um concerto, foi mesmo uma dádiva. Para o ano há mais "ajuntamentos", dos bons!      

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