sexta-feira, 3 de agosto de 2018

(RE)LIDO #80





















MACHINAS FALLANTES
A Música Gravada em Portugal no Início do Século XX
de Leonor Losa. Lisboa: Tinta da China, 2013
O interesse, melhor, a curiosidade que sempre tivemos pelos registos sonoros em forma de disco de vinil, essencialmente na vertente musical, tem antepassados longínquos que remetem para a eterna questão Como é que tudo isto começou?

A invenção do fonógrafo por Thomas Edison em 1877 como o primeiro aparelho para o registo de som acelerou a divulgação da música de forma imparável e Portugal não fugiu a esse impacto. Fazer a aferição desta história tem, desde 2013, um livro inédito e pioneiro no que estas questões diz respeito, um trabalho científico de raiz antropológica e etno-musical da autoria de Leonor Losa, investigadora com trabalho testado no campo da música dita popular nas suas dimensões sociais e políticas e no qual ganha importância a chegada dos tais fonógrafos e dos chamados gramofones. Perceber as novas técnicas de gravação associadas, a forma como foram recebidas, utilizadas e difundidas, leva-nos de forma romântica para tempos, ruas e praças de Lisboa ou Porto onde a novidade, apesar de alguma indiferença, criou pequenos negócios, aguçou interesses e parcerias com empresas já instaladas por França, Inglaterra ou Alemanha, um movimento onde transparece aquele amadorismo tão português mas tão genuíno. Dá para imaginar as viagens e estadias de técnicos estrangeiros de aparelhagem às costas para registar em solo nacional as cançonetas locais, fados ou canções populares numa qualquer cave de loja ou vão de escada e onde um estúdio de gravação era um requisito que, longe de existir, deu certamente azo ao tão famoso desenrascanço lusitano!

Através de inúmeros anúncios de imprensa daquela época ou da reprodução das etiquetas centrais dos discos de 78rpm, a obra tem um dimensão imagética considerável mas é pena que a medida inadequada, por defeito, das reproduções não permita uma leitura mais facilitada e pormenorizada, sendo o tamanho de letra das notas laterais e de algumas legendas um verdadeiro quebra cabeças a merecer lupa de aumento. A descoberta e a narrativa compensam, contudo, o esforço. É o caso de um tal Ricardo Lemos, casa de discos com o mesmo nome que já por aqui demos destaque e que, a partir de 1908, foi pioneiro no Porto na venda de gramofones com lojas na Rua do Bonjardim e Santa Catarina, artéria onde construiu o Grande Bazar do Porto para vender, entre outros, discos da inglesa His Master Voice, negócio que viria a estender com o mesmo nome à própria capital.

Quanto à selecção dos temas a registar, ela incidiu sobre as potencialidades populares e de algum suposto êxito, sem qualquer sinal de ecletismo ou exclusividade e que teve no teatro e na revista um contributo decisivo. Esse ambiente de conivência e complemento, que o livro aborda de forma exemplar, caracterizando o que era então a obrigação de um actor-cantor e que teve no "Fado do 31" um eterno exemplo, modifica-se com a chegada da rádio e, principalmente, da Emissora Nacional e do seu famoso estúdio. A ténue indústria fonográfica sofreria forte impulso com a fundação, em 1946, da célebre Rádio Triunfo do Porto por Rogério Leal, um homem da rádio e perfeitamente ciente de qual seria a melhor aposta - uma primeira fábrica de discos em Portugal mas que só a partir de 1957 conseguiria produzir as próprias matrizes a partir de fitas magnéticas. Este foi o tiro de partida mais sério para uma aventura comercial afirmativa e de que Valentim de Carvalho em Lisboa e a sua estratégica associação à EMI internacional acabaria por constituir o êxito mais duradoiro. Ficam por contar ainda os casos da Orfeu de Arnaldo Trindade e da Sasseti e, por isso, ficamos ansiosamente à espera de um novo volume de histórias saborosas como estas!

Nota: agarrado ao livro há, em anexo, um CD com a reprodução possível de uma vintena de canções, fados e outros registos das primeiras décadas do século XX e que noz fazem pensar na urgência de um arquivo sonoro nacional mesmo que alguns bons exemplos, mais recentes, permitam respirar um pouco mais de alívio sobre a necessidade permanente de protecção e divulgação deste tipo de património.






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