quarta-feira, 31 de agosto de 2022

UAUU #655

IRON & WINE, VERSÕES LORI!





















As canções de Lori McKena não disfarçam de imediato a sua raiz onde o country se encontra com a folk de forma sublime naquilo que vulgarmente se designa por Americana. A qualidade refinada da sua música valeu-lhe já nomeações para Grammy's e convites sucessivos para ilustrar o fundo sonoro de filmes, uma notoriedade que se têm espalhado aos poucos em sugestões do género "de amigo para amigo". O caso de Sam Beam aka Iron & Wine é exemplar - o retiro pandémico proporcionou o tempo necessário para explorar o catálogo e songbook confessional de McKena de forma conveniente, tal como lhe tinha aconselhado o tal amigo conhecedor, motivando a gravação de um EP com quatro dos seus temas favoritos. 

Em "LORI", a ser lançado para semana pela Black Cricket Recording Co, Beam aplica mais uma vez o talentoso dom de fazer suas as canções dos outros (basta lembramo-nos de Cindy Lauper), para o que conta com a ajuda avant-garde da banda Finom (OHMME), ou seja, Sima Cunningham a Macie Stewart e ainda do produtor Matt Ross-Spang, uma reinterpretação inédita registada no mítico estúdio Sam Phillips de Memphis no Tennessee. Provem lá a primeira experiência Lori...  

terça-feira, 30 de agosto de 2022

DUETOS IMPROVÁVEIS #264

ALICE BOMAN & PERFUME GENIUS 
Feels Like a Dream (Boman) 
Álbum "The Space Between", PIAS Records, Outubro de 2022

ARCTIC MONKEYS, IRRESISTÍVEL!





















A excelente cambalhota sonora que os Artic Monkeys ensaiaram em 2018 com "Tranquility Base Hotel + Casino" sugere ter continuação magnífica com o novo álbum a sair em Outubro pela Domino Records. Em "The Car" agrupam-se dez novas canções saídas da mestria de Alex Turner, uma irresistível sumptuosidade que o primeiro tema "There’d Better Be A Mirrorball" engrandece a cada audição (830 mil visualizações em pouco mais de meio dia!). Os Artic Monkeys tocam na sexta-feira, dia 2 de Setembro, em Lisboa no festival Kalorama.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

ALABASTER DePLUME, (DES)CONCERTO?















A polivalência artística de Alabaster DePlume, nome por si só de uma inusitada estranheza, estende-se desde a composição, à poesia, ao jazz e a uma militante actividade antifascista entre excentridades desarmantes. O personagem sabe, contudo, muito bem o que faz e de que é prova consistente o álbum "Gold" editado em Abril passado, fruto de um aturado trabalho de duas semanas no londrino Total Refreshment Centre no verão de 2020 e para onde convidou uma série de músicos e artistas de forma intencional e programada - a cada dia, reunia no estúdio alguns deles sem tempo para ensaios desde que estivessem prontos a responder aos sons uns dos outros... O resultado funde-se num género de spoken word espiritual de raiz jazzística cujo tema inicial recebeu até título em português ["A Gente Acaba (Vento em Rosa)"]!

Ao vivo não admira que a amálgama artística alcance uma faceta de perfomance e sessão de esclarecimento com direito a imagens e que teve estreia no país agendada para Braga em Julho de 2021 mas que uma série de limitações à circulação internacional trocou as voltas, levando ao cancelamento do espectáculo. A passagem pelo Festival Tremor nos Açores em Abril último deixou marcas de agitação profundas, experiência que tem este mês repetição no MusicBox lisboeta (23 de Setembro) e, supostamente, no dia seguinte no mesmo Theatro Circo, tal como consta do cartaz oficial. Só é pena que tal presença não esteja confirmada em nenhum parte da programação do recinto minhoto. Um desconcerto, certamente...




JOEY DeFRANCESCO (1971-2022)













No final de Julho, o começo de férias teve no concerto de Joey DeFrancesco em Viana do Castelo um excelente momento de descontracção e prazer que só o jazz alcança sem dificuldade. Bem disposto, DeFrancesco prometeu voltar para nova rodada mas quis o destino que esse fosse o seu penúltimo espectáculo ao vivo e o último na Europa. Ao fim de mais de trinta álbuns e uma infindável lista de colaborações e parcerias, o teclista genial faleceu na passada quinta-feira para tristeza e surpresa generalizada. Peace, Joey!

terça-feira, 16 de agosto de 2022

DOMi & JD BECK DE SECRETÁRIA!

BRUNO BAVOTA E CHANTAL ACDA, CURTA DISTÂNCIA!
















Num encontro informal do compositor italiano Bruno Bavota com a holandesa Chantal Acda ocorrido há já alguns anos aventou-se a hipótese de uma futura colaboração artística que só ficou à espera da melhor oportunidade. Com o confinamento e isolamento obrigatórios dos últimos dois anos, esse encontro acabou naturalmente por acontecer mas, mesmo assim, sem que os dois se tivessem sequer cruzado no mesmo estúdio. À distância, desenvolveu-se um esforço criativo a partir de casa onde aos arranjos de piano de Bavota se juntou a voz de Acda. O resultado, calmo e de leve intimidade, chama-se naturalmente "A Closer Distance".
 
Do álbum, com lançamento agendado para Outubro, mês onde terão lugar dez concertos no centro da Europa, são já conhecidos dois dos nove temas e os respectivos videos, um ambiente que remete para estações do ano de menos calor mas de igual, e sempre bem-vinda, tranquilidade. 


domingo, 14 de agosto de 2022

UAUU #654

FAZ HOJE (23) ANOS #82





















STEALING ORCHESTRA + THE GIFT + LAMB + SUEDE, Festival Paredes de Coura, 14 de Agosto de 1999
 
. Jornal de Notícias, por José Manuel Simões, fotografia de Artur Machado, 16 de Agosto de 1999, p. 50 
. Jornal de Notícias, por Cristiano Pereira, fotografia de Artur Machado, 16 de Agosto de 1999, p. 51 
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim, fotografia de Pedro Monteiro, 16 de Agosto de 1999, p. 41 
. O Comércio do Porto, por Cláudia Felgueiras, fotografia de António Fernandes, 16 de Agosto de 1999, p. 27




sexta-feira, 12 de agosto de 2022

ANDREW BIRD E IRON & WINE DE SECRETÁRIA!

DUETOS IMPROVÁVEIS #263

BEATRIZ AZEVEDO & MORENO VELOSO 
Rede (Azevedo) 
violoncelo de Jaques Morelenbaum 
Álbum "Clarice Clarão", Selo Sesc 
Brasil, Junho de 2022

FAZ HOJE (16) ANOS #81





















THE ROLLING STONES, Estádio do Dragão, Porto, 12 de Agosto de 2006
 
. Diário de Notícias, por Marcos Cruz e David Mandim, fotografias de Amin Chaar, 14 de Agosto de 2006, p. 26 e 27 
. Jornal de Notícias, por Sérgio Almeida, fotografia de Pedro Correia, 14 de Agosto de 2006, p. 45


quarta-feira, 10 de agosto de 2022

(RE)LIDO #107





















BEDSIT DISCO QUEEN 
How I Grew Up And Tried To Be a Popstar 
de Tracey Thorn. London; Virago, 2014 
A primeira vez que ouvimos os Everything But The Girl em casa do amigo de sempre em Campanhã ficamos inquietos. O disco de estreia "Eden" tinha saído meses antes e dele, lembramos bem, foi difícil escolher as duas melhores canções a incluir em cada um dos lados da cassete a gravar nessa tarde. Tudo soava novo, tudo soava antigo, tudo soava bem pela voz de Tracey Thorn e da guitarra de Ben Watt, duo que não mais largámos da mão até aos dias de hoje e de que temos por aqui dado conta frequentemente. A história que se esconde por trás dessa longevidade, a que uma eterna versão de "Night & Day" deu o pontapé de saída, contou-a a própria Tracey neste livro editado em 2013 e que resulta de quase uma década de lembretes e apontamentos propositados na intenção adiada de escrever um livro que se tornaria um verdadeiro clássico da literatura rock-roll. Não é difícil perceber porquê. 

Da infância em Hull até ao ano de 2005, quando se preparava para um retiro definitivo do mundo da música, a ascensão como estrela pop foi sempre contida, ponderada mas determinada na forma de encarar os desafios, um relato onde transparece muita honestidade e um bom senso quase ocasional e venturoso. As escolhas, as opções, os problemas, os desânimos e as oportunidades submergem, por isso, em muitas das letras que a própria escreveu para as canções que aprendeu a custo a compor, desde o projecto Marine Girls com que se iniciou ao lado das amigas nesse, então, mundo masculino dos concertos e dos discos do início dos anos 80, até à estreia a solo já na década passada. É com uma dessas líricas que termina cada um dos inexistentes capítulos, vincando no leitor a ideia precisa que talvez fosse bom ir ouvir essa mesma canção como complemento metódico. Foi o que fizemos invariavelmente e com satisfação... 

Ao magnetismo da escrita junta-se um factor geracional que nos aproxima a vicissitudes e histórias que fomos lendo ou ouvindo na imprensa e na rádio, reconhecendo a quase totalidade das bandas e artistas por aqui referidos ou nomeados, dos Haircut 100 aos Undertones, transformando a narrativa numa espécie de panorâmica paralela onde cabem os The Smiths, os Jesus & Mary Chain ou os The Go-Betweens. Nesta visão desinteressada dos meandros da rádio ou da indústria musical e dos seus altos e baixos, os EBTG são tratados da mesma e sincera maneira e se querem eventuais explicações para o porquê de uma versão de Rod Stewart ("I Don't Want To Talk About It", 1988), de uma colaboração feliz com os Massive Attack ("Protection", 1995) ou do êxito de "Missing" (1995) que uma remix haveria de massificar, elas estão cá todas sem contemplações ou travões metafóricos. 

Quando, em Julho de 1992, os EBTG se preparavam para realizar uma primeira parte de um concerto de Elton John em Alvalade, tal como consta do bilhete oficial, começou o tormento de uma doença rara do companheiro Ben Watt, o que provocou cancelamentos, alarmes de ansiedade e um consequente esmorecer da chama artística de que fomos, aliás, testemunhas na (única) passagem infeliz pelo Coliseu do Porto em Outubro de 1994. Esse superado momento chave de uma vida a dois é, pois, o motivo compreensível de auto-protecção e reserva a que Thorn se agarra para, ao contrário dos videos onde nunca nos olha de frente, se afirmar decidida e resolvida em parar digressões, ser mãe, ou escrever livros ao jeito da tal pop star acidental com os pés bem assentes na terra e sempre, mas mesmo sempre, com a cabeça na música.


3X20 AGOSTO

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

OLIVIA NEWTON-JOHN (1948-2022)














Somos, orgulhosamente, de uma geração que foi ao cinema ver o "Grease" umas poucas de vezes. A menina Sandy era uma das boas razões para a insistência, uma radiante Olivia Newton-John num glorioso papel ao lado do John "Três-voltas", a que se seguiu um álbum que também acabamos, como muitos, por comprar - em "Physical" de 1981 destacou-se o tema título e o seu famoso teledisco mas há por lá outras pérolas como "A Little More Love", um guilty-pleasure de um amigo a que acabamos por aderir sem esforço. A menina Sandy deixou-nos hoje numa amena "Summer Night"... Peace!


domingo, 7 de agosto de 2022

CAETANO 80!















O cantor e artista Caetano Veloso nasceu neste dia na cidade brasileira de Santo Amaro, Salvador da Bahia, há oitenta anos. A comemoração passa por um programa especial ao vivo na plataforma Globoplay ao lado dos filhos Moreno, Zeca e Tom e da irmã Maria Bethânia. Parabéns, mestre!

terça-feira, 2 de agosto de 2022

MOLLY LEWIS, UMA BRISA QUE ASSOBIA!





















Apetece, desde já, afirmar que, só pela capa, o novo EP de Molly Lewis já mereceria destaque pela sua vertigem retro e veraneante. Mas o que ele tem lá dentro é também de uma aragem antiga que se julgava perdida e desprezada - canções assobiadas, sim assobiadas, com mestria e surpresa ao jeito de uma bossa nova ambiental a que a guitarra e percussão dos brasileiros Rogê, parceiro compositor de Seu Jorge, e Gibi dos Santos emprestam uma leveza nos arranjos a lembrar outros tempos e paragens. 

Trata-se de um segundo pequeno disco chamado "Mirage" onde cabem quatro originais e uma versão de "Nature Boy" de Eden Ahbez, tema a que Coltrane, Nat King Cole ou David Bowie também não resistiram. O exotismo da coisa tem prova dos nove no single "Miracle Fruit", mas podem ir pondo os óculos escuros e calçando os chinelos enquanto ouvem pausadamente o primeiro Ep "The Forgotten Edge" (2021) de fio a pavio e sonham com palmeiras e daiquiris. Boas férias... sibilantes!

AS DOCINHAS, Festival Andaime de Maio, Viana do Castelo, 30 de Julho de 2022

No caminho de volta até ao carro que nos levou a Viana do Castelo e logo depois de uma barrigada de jazz, o fim de noite tropical tinha banda sonora de fundo a que fomos seguindo o rasto até dar com um palco rodeado de público jovem e activo. O bizarro colectivo de sete lá em cima não fazia a coisa por menos e emitia um corrupio de canções em trajes menores devido ao calor atmosférico e ao movimento eléctrico sem que soubéssemos quem eram, donde vinham e que raio de receita espalhavam de forma apelativa e irresistível. Muito tempo depois, já pós-concerto, identificaram-nos As Docinhas como as autoras vianenses de tamanha amálgama pegajosa que, sem ser bem ou mal tocada (who cares!), fez muitos dos mais velhos, os cotas como nós que vão a concertos de jazz, estacar perto do palco sem de lá arredar pé até ao fim. Quanto à receita, ainda ninguém sabe qual é mas também ninguém perguntou. 

As imagens e sons abaixo serão, porventura, mais esclarecedoras quanto ao triturado de géneros cantadas em português, inglês ou francês, sem norma ou etiquetas de género mas a dar pontapés fortes nos blues, na kizomba, no grunge ou no funk que um esquisito mas, irresistivelmente, roufenho saxofone vai, de entremeio, corroendo. Cruzaram-se gemidos libidos, sexualidades ou sadomasoquismos fogueados (?) de acentuado sotaque do (des)norte que finos, cigarros e derivados chegados do público amigalhaço inflamaram a um fogo já ateado, certamente, desde o princípio não testemunhado. 

A dupla minhota que comanda a trupe, já muito batida nestas lides da provocação e do toma lá, dá cá "queres quê?", tem corda e garganta para dar e vender que os discos já com três anos atestam nos segundos e primeiros propósitos. Depois há "bideos" despachados para o canal global de forma intencional, uma verdadeira esquizofrenia estética que o primeiro álbum "Xano", editado o ano passado, fez o obséquio de revalidar numa intoxicação ainda longe de se sumir. As Docinhas, um caso sério de DYS a que é preciso continuar atento antes que azede...

FAZ HOJE (20) ANOS #80

 





















BLACK REBEL MOTORCYCLE CLUB + AIR + THE CHEMICAL BROTHERS, Festival Sudoeste, Zambujeira do Mar, 2 de Agosto de 2002 
. Jornal de Notícias, por Cristiano Pereira, fotografias de César Santos, 4 de Agosto de 2002, p. 40 
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim e Maria José Margarido, fotografias de Pedro Simões, 4 de Agosto de 2002, p. 44



segunda-feira, 1 de agosto de 2022

JOEY DeFRANCESCO, Festival Jazz na Praça da Erva, Teatro Municipal Sá de Miranda, Viana do Castelo, 30 de Julho de 2022

O já tradicional festival de jazz minhoto ao ar livre teve no sábado uma excepção compreensível atendendo ao prestígio de Joey DeFrancesco, motivando a ocupação do belíssimo teatro da cidade para um acolhimento em grande. Assim aconteceu, com o trio a rapidamente assumir uma capacidade inata de ondular um jazz soul marcado pelo orgão e teclas, faceta onde DeFrancesco se afamou pela acompanhamento a vultos como Miles Davis ou Ray Charles, mas surpreendeu ainda a destreza e perícia com que tocou saxofone e um trompete de origem e construção portuguesa ou a voz com que cantou num ou dois trechos. Ao seu lado, quer Lucas Brown no outro orgão e guitarra quer Vince Ector na bateria, funcionaram como uma extensão natural da habilidade de DeFrancesco em colorir as peças com os seus devaneios no teclado, ambos com direito a solos e exibições premiadas com forte aplauso. 

Numa balançante hora e meia de concerto, aquilo que pareceu uma descontraída sessão de groove esconde, obviamente, uma enorme dedicação e talento que poucos alcançam com tanta facilidade e desiderato mas em que é fundamental insistir e resistir. Ao fim de trinta álbuns, ao ritmo de mais de um por ano desde 1989, para DeFrancesco o céu é o limite. A noite de sábado foi só mais um pequeno degrau antes de lá chegar...

SKULLCRUSHER, ÁLBUM DE ANSEIOS!





















A estreia prometida num disco grande de Helen Ballentine aka Skullcrusher terá lugar em Outubro via Secretely Canadian, editora que lançou o ano passado os dois primeiros EP's que por aqui destacamos

As catorze novas canções de "Quiet the Room" foram registadas no estúdio Chicken Shack de Nova Iorque no verão de 2021 e remetem, quase na totalidade, para os pequenos refúgios que na sua infância percorria em jeito de casa de bonecas, que aliás se apresenta em imagem na capa do álbum, e que tanto podem ser recordações de felicidade como de alguns sustos terríficos. Um mundo de ansiedade assumida que, sem esquecer essas contradições do passado, tem na música um apaziguador estimulante... 

UAUU #653