segunda-feira, 31 de maio de 2021

(RE)VISTO #87






















ZÉ PEDRO ROCK'N' ROLL 
de Diogo Varela Silva. Portugal: Hot Chilli Films, 2019 
TVCine Edition, 28 de Maio de 2021 
O desfecho trágico e antecipado da vida de Zé Pedro, guitarrista fundador dos Xutos & Pontapés, ocorrido em 2017 veio, por si só, atestar o óbvio - a necessidade de um filme que contasse de forma simples o quão invisível mas transversal foi o papel que ele desempenhou na afirmação e diversidade do chamado rock português. O desiderato não se compadeceu com vedetismo ou arrogância mas houve desde jovem uma dose de obstinação que determinou escolhas, aprendizagens e também excessos de um mundo da música que se rodeia de perigos, traições e tentações. Zé Pedro caiu em algumas delas mas, mesmo envolto nessa teia escorregadia, acabou sempre por levar o barco para em frente cerrando os dentes, apertando amizades ou duplicando a teimosia ambiciosa. 

É nessa apego às canções, às guitarras e aos músicos/cúmplices que o documentário se agarra para fazer sobressair um personagem reconhecidamente bondoso, "porreiraço", sempre interessado numa contínua prática como forma de adaptação a correntes sonoras ou a projectos desafiantes. Desde novo, a necessidade de escrever sobre música, de a conhecer a três dimensões e em directo vinda de um palco de estádio ou de um estrado de clube fumarento, levou-o numa procura contínua pela novidade traduzida nos primeiros concertos punk por França que, de imediato, quis transpor para o nosso recanto. Fê-lo sem virtuosismos instrumentais ou malabarismos, arrebanhando parceiros a quem convenceu das virtudes do proto-projecto de banda que queria formar e da única porta para o êxito - não desistir! "Ainda vamos fazer a primeira parte dos Rolling Stones" - alguns torceram o nariz e classificaram-no de "maluco" mas a previsão haveria de confirmar-se trinta anos depois em Coimbra (2009) ao jeito de sonho que comanda a vida e sempre que um homem sonha... 

Como figura do rock 'n' roll nacional, Zé Pedro juntou três facetas complementares mas de risco distinto - como radialista convidado na Radar lisboeta a contar histórias ou a confessar influências, como dj ao lado de Miguel Quintão com o nome de Zig Zag Warriors por muitos clubes do país e que recordamos com saudade nalgumas noites imparáveis do Triplex da Invicta e como co-proprietário de um clube de rock, o mítico Johnny Guitar por onde passaram inúmeras bandas e projectos em estreia pública sem olhar a géneros ou rótulos mas de gestão difícil e, notoriamente, não vocacional atendendo à presença de uma infindável fauna nocturna de "amigos da casa". Uma loucura salutar mas, como muitas vezes durante a sua vida, a roçar o limite do bom senso e tino que o guião esquece de aflorar mais profundamente, não expondo feridas ou outras nódoas negras que comprometessem o retrato afectuoso que se determinou previamente. 

Este será, assim, um filme de amigos que serve para prestar homenagem e tributo a uma incontornável figura do rock em que o título acerta em cheio mas a que faltou um pouco mais de coragem numa abordagem de eficácia incontestável. Respira-se, no entanto, muita e eterna saudade!


sábado, 29 de maio de 2021

UAUU #599

POND, A PROVA DOS NOVES!






















Enquanto os Tame Impala não dão mais notícias e que se espera a confirmação da sua estreia primaveril no Porto em 2022, os compinchas Pond apressam-se na edição de um novo álbum, o nono, em Outubro próximo pela Spinning Top Records australiana. Tem por isso o título/número "9" e nele cabem, lógico, nove canções rápidas saídas da mestria de Nicholas Allbrook que, desta vez, pôs de lado a pop polida que nos habituamos a saborear para passar a arranhar em definitivo as camadas do funk psicadélico e do dance-punk que os dois primeiros singles confirmam na prova... dos noves. 

O disco foi auto-produzido pela banda, deixando para trás a habitual colaboração de Kevin Parker, o Mr. Impala que produziu todos os trabalhos anteriores. Sendo costume, ao vivo, os Pond estarem onde os Impala também estão, talvez regressem ao Parque da Cidade onde já compareceram em 2014 e 2017. Está na hora de nova prova!


sexta-feira, 28 de maio de 2021

PEARL CHARLES DE VISITA!















Agora que a retoma de concertos dá sinais de progresso, anuncia-se a visita da menina Pearl Charles para cinco concertos na península em Fevereiro do próximo ano que servirão de apresentação do disco "Magic Mirror". Um dos nossos actuais guilty pleasures estará pela Galiza e também por Portugal a 25 e 26 desse mês sem locais acertados mas, certamente, preparados para festarola. É melhor começar a lantejoular (sim, o verbo existe...)!

ACID HOUSE KINGS, O REGRESSO!

Se os reis da pop da Noruega da dinastia Kings of Convenience demoraram doze anos a regressar ao castelo, os familiares e também monarcas da vizinha Suécia da dinastia Acid House Kings demoraram um pouco menos, só dez anos. Toca a dançar!

quinta-feira, 27 de maio de 2021

DUETOS IMPROVÁVEIS #240

TODD RUNDGREN & SPARKS 
Your Fandango (Ron Mael, Russell Mael & Rundgren) 
Cleopatra Records, Abril de 2021

(RE)VISTO #86


























FRANÇOISE HARDY - La Discrète 
de Matthieu Jaubert e Emilie Valentin. França; Arte France, 2016 
Canal Arte online, Abril de 2021 
A disponibilização deste documentário à distância de um play permitiu, finalmente, a sua visualização definitiva que tínhamos falhado aquando da emissão televisiva. A nossa curiosidade maior centava-se numa óbvia procura de (mais) elementos esclarecedores quanto à mítica relação profissional (?) de Françoise Hardy com Nick Drake mas, como prevíamos, este é um episódio sem importância que continua à espera de versões credíveis e, apostamos, inéditas. A esse propósito, já alguém resumiu e bem os meandros conhecidos da suposta colaboração... 

Seja como for, estamos perante um filme de excelência que nos permite descobrir uma artista enorme que desde a juventude, nos anos sessenta, fez bater mais rápido muitos corações masculinos. Ainda nos dias de hoje não resistimos a comprar qualquer single dessa época só pelas impressivas fotografias de uma rapariga lindíssima e misteriosa a que Mick Jagger, Paco Rabanne ou um apaixonado Bob Dylan rondaram na corte, tendo este último chegado a dedicar-lhe um poema impresso na parte traseira da capa do seu álbum "Another Side" de 1964. 

A onda yé-yé de que era a jovem rainha (quem não se lembra do "Tous Les Garçons et Les Filles") haveria de esmorecer com o Maio de 1968, ano em que Hardy decidiu retirar-se dos palcos, depois de uma rara tournée britânica, por manifesta inaptidão em lidar com o público, com as câmaras de televisão ou com a imprensa. As imagens e sequências que o documento escolhe para ilustrar esta timidez e resguardo são, sem dúvida, de uma candura surpreendente que obtêm maior relevância pelas palavras da própria nesse reconhecimento sincero. 

Mas as canções não podiam, não deviam acabar. Com a cumplicidade do companheiro de sempre, Jacques Dutronc, ou ao lado de Gainsbourg, Hardy insiste na composição de forma metódica mas sempre discreta, um epíteto certeiro de como Jean Gabin a descrevia nessa época e que se manteve até ao presente. Receptiva, interessada e à vontade em pleno estúdio, gravou álbuns uns atrás dos outros como "La Question", o décimo primeiro longa-duração editado em 1971 com a ajuda decisiva do músico brasileiro Tuca, um tesouro de bossa-nova luxuosa e sensual que aconselhamos sem limitações e reservas. O disco é também um repositório confessional e lírico dos seus receios e medos resultantes da instabilidade emotiva da então relação com Dutronc e que teve num video da altura para a canção título, ao lado de uma dupla de marionetas, uma alegoria propositada. 

Absorvendo influências ou respondendo a desafios, Hardy regressaria a Inglaterra para registar no mesmo ano um disco no estúdio Sound Techniques, pertença do produtor Joe Boyd, onde compareceram uma série de músicos como Richard Thompson e para o qual estava agendado o auxílio de Nick Drake. Mesmo conhecendo a casa, os técnicos e muitos dos restantes músicos, Drake não deu nenhum passo em frente na interacção, não apresentando nenhuma canção que, supostamente, deveria ter composto para a jovem francesa apesar de se ter deslocado em silêncio ao local a muito custo. Sem nenhum original da sua lavra, o trabalho conhecido pelo título "If You Listen" viria a incluir originais de Beverly Martin, Randy Newman ou Neil Young. 

Já longe dos holofotes mediáticos, recusando convites publicitários ou no cinema, a artista manteve na música o único refúgio temperador, continuando a escolher colaborações e parcerias ao sabor da sua intuição nem sempre compreensível apesar da aura de ícone secreto e distante. Não demoraria a que fosse redescoberta por produtores, artistas ou cantores modernos em variados países como Anton Newcom dos Brian Jonestown Massacre, Bertrand Burgalat, Étienne Daho ou os Blur que a convidaram em 1995 para um dueto fantástico em francês/inglês para o tema "To The End (La Comedie)", original do álbum "Parklife" e no qual participava Laetitia Sadier dos Stereolab. A aparição serviria para confirmar que a sua influência não havia esmorecido e que a sua classe e charme se juntavam, eternamente, num estilo único de grande senhora. Um fascínio! 

(se perceberem alemão, o documentário está disponível aqui



quarta-feira, 26 de maio de 2021

(RE)LIDO #103






















LE FANTÔME DE NICK DRAKE 
de Vincent Helvéhem. França; EdiLivre, 2018 
A prosa inspirada nas vicissitudes trágicas de Nick Drake parece não ter fim. Multiplicam-se, estranhamente, as coincidências como a que situa em 2018 a saída simultânea em Espanha de um "El Fantasma de Nick Drake" já por aqui destapado e em França deste "Le Fantôme de Nick Drake"! Diferentes autores que, acertando no mesmo título, recorrem ao espectro macilento de um artista conturbado e confundido pelas agruras de um dia-a-dia cada vez mais cinzento para contar histórias bem diferentes. Se lhe juntarmos um "Espectral, de outro tempo mas tão cool: o "fantasma" de Nick Drake revelou-se há 50 anos" como cabeçalho de um artigo online do ano seguinte num site português, o melhor será pensar que a exaltação da imaginação é, afinal, demasiado traiçoeira... 

Desde a juventude, a ligação de Drake a França foi deixando rastos indeléveis. Foi como estudante em Aix-En-Provence que se iniciou uma libertação e aprendizagem artística decisiva, foi a Paris onde regressou várias vezes na tentativa de chegar à fala com Françoise Hardy ou onde esteve um bom período quase no final dos seus dias num barco de amigos em pleno Sena. Junta-se o (des)gosto pela poesia de Rimbaud e Baudelaire ou a oferta que fez a mãe do livro de Camus "Le Mythe de Sisyphe" que se diz estava pousado na mesa de cabeceira do quarto onde morreu. Não temos, é certo, boas recordações de livros franceses sobre o músico mas atendendo à importância que aquele país teve na sua curta vida, talvez esta ficção retomasse essas conexões de forma cativante para romancear situações ou acasos curiosos. 

A esse nível, a novela é bastante conservadora na simples eleição de vinte episódios biográficos iniciados com um excerto alusivo pertencente a uma letra de canção a que se acrescentam diálogos ou suposições mas que, mesmo assim, alcançam nalguns casos boas sequências narrativas. São exemplares os capítulos referentes a um simples jantar de família em que a irmã Gabrielle demora temerosa a chegar à casa natal já prevendo a precária situação do irmão, a uma caminhada sem fim de um Drake soturno e sem destino pelos campos e caminhos que bem conhece mas onde se perde e desorienta pela simples interpelação de alguém que passeia um cão ou os pensamentos suspirados da mãe Molly na cerimónia do funeral confundida pela presença de tanta gente que não conhece mas que assume como importantes para o filho desaparecido. 

Destacam-se, ainda, as leves abordagens ficcionais ao que poderiam ter sido as diferentes ajudas dos amigos músicos no regresso a um estúdio de gravação para mais canções que não as quatro finitas e que teve em "Black Eyed Dog" uma premonitória sentença. Com maior estaleca (este é o primeiro romance publicado) talvez o autor, nascido no ano em que o seu principal personagem faleceu, nos iludisse de forma mais sonhadora e nos fizesse sorrir. Não conseguiu. E pensar que Drake chegou a gravar um tradicional francês de 1784 chamado "Plaisir D'Amour"...

terça-feira, 25 de maio de 2021

NO MUNDO DE SKULLCRUSHER!















O percurso da jovem Helen Ballentine não é muito diferente do habitual em idade ainda escolar - a ida de Nova Iorque para Los Angeles para frequentar o curso de design gráfico da University of Southern Califórnia, trabalhando como babá ou assistente numa galeria de arte para ajudar nas despesas mas sem nunca esquecer o gosto pela prática do piano e da composição. Ao projecto artístico, mesmo que rudimentar, chamou-lhe Skullcrusher e é com ele que agora a Secretly Canadian assumiu um compromisso de promoção e edição de um novo Ep em Julho próximo chamado "Storm in Summer", o segundo em menos de ano. 

Jogando, não por acaso, numa sonoridade a la Phoebe Bridges com quem, aliás, partilha o gosto pelas creepy things como esqueletos ou design gótico (já perguntaram porque é que Bridges aparece quase sempre vestida com um fato estampado com um esqueleto? Há uma resposta possível) mas as canções nada têm de agressivo ou ameaçador apesar do peso do nome. Pelo contrário, sobressai uma leveza adensada por muitas tardes, já desempregada, a ouvir Nick Drake ou electrónica ambiental, a ver filmes surrealistas como "Valerie and Her Week of Wonders" (1970) ou a ler novelas fantásticas, um mundo próprio e, por isso, idílico e misterioso a que a sonoridade de um banjo muito americano costuma emprestar maior delicadeza.  

Ao mestre inglês dedicou a canção "A Song for Nick Drake", o primeiro avanço saído em Fevereiro da referida edição de Julho mas o tema título também recebeu tratamento videográfico a preceito a que se juntou há dias uma cover de "Cloudy Shoes" do álbum "Saint Barlett" (2010) de Damien Jurado a pedido da editora e incluída na série SC25 Singles comemorativos e solidários dos vinte cinco anos da casa de discos de Indiana. A propósito, deixamos uma outra versão, mais antiga, referente a "Lift" dos Radiohead e incluída num single de Outubro de 2020.




MDOU MOCTAR DE SECRETÁRIA (CASA)!

segunda-feira, 24 de maio de 2021

(RE)VISTO #85














DAVID BOWIE - Os Últimos Cinco Anos 
de Francis Whately. Inglaterra; BBC Studios, 2017 
RTP2, Portugal, 22 de Maio de 2021 
O começo do ano de 2016 trouxe o desaparecimento inesperado de David Bowie. Sabíamos da sua doença, não da sua gravidade, mas a constante actividade artística, mesmo que subterrânea, desde o renascimento oficial em 2013, mantinha sobre ele uma névoa notável de atenção mediática. Várias hipóteses se afiguravam quanto à verdadeira intenção do acelerar de colaborações, experiências, ideias ou construções que só o cerco da morte, afinal, podia explicar na urgência mas à qual juntou talento e pertinência maturadas em silêncio e conluio a longo prazo. 

Com o selo de qualidade da BBC, o documentário estreado logo em 2017 e que passou sábado passado na RTP2, traça de forma séria e linear os últimos cinco anos de uma vida cheia, rica e mutável de personagens e papéis que uma última digressão (2003) parecia coroar de forma feliz e bondosa. Um susto cardíaco (?) em cima do palco num desses concertos, isolou Bowie ao longo de quase uma década perante interrogações de amigos músicos e fãs expectantes mas o Camaleão, mesmo hibernado, tinha ainda uma nova cor da pele protectora para vestir - um branco cru em sinal de claridade, paz e acutilância traduzida num álbum de originais surpreendente e estelar. Com "The Next Day" pontuavam-se as facetas, os rancores e vitórias de um artista pungente e interessado no que parecia ser uma derradeira reinvenção com os colaboradores de sempre - músicos e o produtor Tony Visconti - mas a que foi agregando novos habilitados nas experiências videográficos ou coreográficos para conceber as ligações modernas com as memórias e as múltiplas variantes da fama que sempre o rodeou. 

É nela, nessa aura de glória eterna, que o documento sustenta uma circular tensão plena de imagens de um passado engrossado rapidamente num esgotamento mediático que as adições disfarçaram até ao limite - o exílio certeiro em Berlim haveria de transformar, em definitivo, a agulha rectilínea num zigue-zague de caminhos, subidas e descidas nem sempre fáceis e que o video intencional de "Where Are We Now?" traduz de forma subliminar, a primeira canção do referido "The Next Day" a ser conhecida e que é, sem dúvida, uma das suas melhores criações. Passado + presente, presente + passado são equações inseparáveis que, neste período de cinco anos, não são mesuráveis pelo calendário mas pela escolha pessoal em quem podia ajudar a conceber e concretizar o desígnio da sua consciência multiplicadora de ideias para a capa de um disco (Jonathan Barnbrook, 2013), para um musical ("Lazarus", Ivo Van Hove, 2015) ou para abordar novas composições (Maria Schneider, 2015), denotando uma constante irreverência sem olhar a preconceitos

Com "Blackstar", registado sem medo com a banda de jazz de Donny McCaslin por sugestão de Schneider, o mundo assitiria em 2016 ao último fôlego de um Bowie profético e metódico numa codificacão simbólica traduzida numa morte como que preparada para o terceiro dia depois da edição desse último álbum. Nas suas próprias palavras: 

"I'm not a Dylan. And I'm not somebody who can sit down and stoically write a clear picture of what's happening, you know. But, I can leave a very strong impression of how I feel about it.

Tocante! 

(para rever na RTP Play até dia 29 de Maio)


BOB DYLAN 80!

Parabéns, Mr. Dylan!

sábado, 22 de maio de 2021

UAUU #598

ERIKA DE CASIER, SENSACIONAL!






















Perdida no palco do Hard Club quase submerso na escuridão, a miúda Erika de Casier bem que se esforçava com o contributo de um baterista... A plateia, na tagarelice mal educada, mantinha-se maioritariamente alheia e à espera de Chaz Bear aka Toro Y Moi como se confirma no que conseguimos registar em video na altura. Passaram dois anos mas ficou-nos na memória a qualidade quase inocente das canções que faziam parte do primeiro álbum "Essentials" que não conhecíamos mas fomos ouvir na tentativa de não lhe perder o rasto. Valeu a pena o lembrete! 

Surge agora em todo o esplendor a confirmação de uma jovem artista através de um disco emotivo chamado "Sensational" saído ontem na afamada 4AD, um misto de soul e r&b refinado onde tanto submerge a delicadeza de FKA Twigs ou a atitude de Janet Jackson num género de outside groove refrescante produzido pela própria com a ajuda de Natan Zeks. 

Casier, para que conste, nasceu em Portugal de mãe belga e pai cabo-verdiano em 1999 mas aos oito anos emigrou para Ribe no sul da Dinamarca onde desenvolveu sozinha a paixão pela música, pela composição e pela liberdade criativa, deitando para as urtigas estereótipos e preconceitos bafientos. Corajoso e sensacional!



(18/06/2021 - video removido a pedido da artista)

sexta-feira, 21 de maio de 2021

FITAS DE UM TEMPO #02

A presença de um bem disposto Mark Eitzel numa tarde de sábado num centro comercial teve lugar em Matosinhos já lá vão uns bons anos. Foi a primeira vez que tocou num shopping/mall e deve ter sido a última. A oportunidade surgiu aquando da passagem dos então refeitos American Music Club pela Casa da Música para apresentarem "Love Songs For Patriots" de forma sublime e que permitiu uma fugida agradável de véspera ao Fórum FNAC do Norte Shopping para algumas canções e conversa.

Apesar da informalidade, a sessão começou intensa com um Eitzel desleixado no casaco roto sentado à guitarra para quatro grandes temas - "Another Morning", "Only Love Can Set You Free", "Home" e o velhinho "Why Won't You Stay" - entre um irritante mas natural choro e palavreado de um bébé no limite do suportável. Passou-se depois à conversa com Álvaro Costa, momento de descontracção que no caso de Eitzel se afigura sempre imprevisível e perigosamente nonsense - falou-se de Mariah Carey, Dart Vader ou Cat Power, um pedido expresso da plateia muito bem composta, e brincou-se em pose para a fotografia (lá apanhamos o amigo de sempre em acção). 

Um pouco mais a sério, dimensionou-se a importância do amor e da música, da estupidez dos regimes totalitários ou da queda do ocidente entre profecias negativistas. Tempo no final do showcase para "My Pet Rat St. Michael", um até aí desconhecido tema que faria parte do erradamente subestimado álbum a solo "Candy Ass" lançado no mesmo ano, mais uma prova efectiva de resiliência duradoira. You gotta fight for it...

FAZ HOJE (16) ANOS #61






















MARK EITZEL, FNAC Norte Shopping, Matosinhos, 21 de Maio de 2005
Jornal de Notícias, por Cláudia Luís, fotografia de Artur Machado, 22 de Maio de 2005, p. 40

quinta-feira, 20 de maio de 2021

DUETOS IMPROVÁVEIS #239

SHARON VAN ETTEN & ANGEL OLSEN 
Liked I Used To (Etten & Olsen) 
Maio de 2021

R.E.M. LIBERTAM SINGLE!






















A primeira audição de "Radio Free Europe" foi o nosso baptismo dos R.E.M., unção a cargo do mestre António Sérgio no "Som da Frente" da Radio Comercial. Tratava-se do tema inicial do álbum de estreia "Murmur" editado em 1983 e que foi escolhido como single de apresentação numa versão, a que nos foi dada a ouvir, um pouco diferente do original. 

A canção já tinha saído dois anos antes numa rodela pequena que se transformou em raridade que a banda, finalmente, acertou em reeditar depois de ultrapassados alguns direitos autorais - quarenta anos depois, está já disponível a encomenda no formato conhecido por Hib-Tone, nome da editora independente de Atlanta onde saíram cerca de mil 45" rpm em vinil rapidamente escoados. A fotografia da capa é uma cortesia de Michael Stipe incluída numa série de negativos desfocados do próprio e no lado B há "Sitting Still", um outro bom tema do primórdios da banda.  



LAURIE ANDERSON DE SECRETÁRIA (CASA)!

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SOS VINIL, 1000 CANÇÕES!














O programa diário (segunda a sexta) "SOS Vinil" que Miguel Esteves Cardoso começou em 2016 na Antena1 chegou hoje às 1000 edições! Trata-se de um viciante caldeirão de êxitos, canções e histórias sem idade que raramente ouvimos em directo na rádio (passa a meio da tarde) mas no qual mergulhamos de cabeça através da RTP Play. Custa é sair de lá... 

Alguns dos vícios aqui da casa: "Our Mutual Friend" dos The Divine Comedy (14 de Março de 2019), "Saturday Sun" de Nick Drake, claro, (12 de Junho de 2020), "I Won't Grow Up" de Rickie Lee Jones (22 de Maio de 2020) ou "Where I'll Find You" de Joan Shelley (4 de Fevereiro de 2019). Do primeiro "Good Times" dos Chic (21 de Novembro de 2016), passando por "Crazy In Love" de Beyoncé e Jay-Z (21 de Março de 2019) até a "Loan Your Loneliness" de Gruff Rhys, a milésima escolha de hoje, isto é rádio de serviço público inteligente, necessária e com assinatura. Não falhem ao pedido de socorro que, afinal, é uma dádiva!

BIG THIEF AO VIVO E A CORES!






















Apesar do preto e branco da capa do novo álbum ao vivo registado no The Bunker Studio, os Big Thief estarão na estrada a três dimensões e a cores no final do ano pelos E.U.A. a que se deve somar, pouco depois, o regresso desejado à Europa. 

O suporte para o disco reside em seis momentos/canções captados em video pela jovem Marisa Gesualdi no referido estúdio de Brooklyn, Nova Iorque, em final de 2019 e que se encontram já disponíveis para total visionamento. São estes os dois primeiros.


SHANNON LAY, TEMPOS DE MUDANÇA!






















A vida artística, não deixando de ser uma corrente diária de expectativas, é um desafio montanhoso de dificuldades. A de Shannon Lay, como a de muitos de nós, sofreu nos últimos tempos alterações e obstáculos que só muita perseverança e amor proporcionaram na superação e confiança. Para a reforçar, compôs um novo tema chamado "Rare to Wake", a primeira canção a surgir depois do excelente álbum "August" lançado em 2019 na SubPop, e que é um simples mas tocante lembrete que melhores dias e momentos não devem tardar a regressar. Oxalá!

NICK DRAKE, INCURSÕES IBÉRICAS?

Mojo, Janeiro de 2000













Quando "Portugal" nos surgiu impresso como local de refúgio em 1971 de um Nick Drake já contaminado por uma cansada apatia, logo imaginamos, de boca aberta, que o nome do país estaria errado ou truncado mas a confusão acelerou-nos, de imediato, um brilhozinho nos olhos. O artigo em causa, uma longa prosa de quase quinze páginas chamada "Be Here Now" da autoria de Ian MacDonald (1948-2003), estava incluído na revista inglesa "Mojo" de Janeiro de 2000 e o documento faria depois parte da obra "The People's Music" (2003) com o título "Exiled From Heaven". Seria posteriormente reproduzido nas longas memórias "Remembered For a While" de 2014. A referência a Portugal manteve-se em ambos os livros sem qualquer correcção ou nota. Estranho. 

O jornalista Ian MacDonald foi um reputado profissional e músico britânico, também ele pairando numa depressão que o levou ao suicídio em 2003, tendo sido dos primeiros e mais persistentes promotores das canções do malogrado artista. Estudante de arqueologia e antropologia no King's College de Cambridge, esteve com mais alguns num quarto de uma residência universitária onde Nick Drake tocou algumas canções ainda inéditas numa tarde memorável de Primavera em 1969 e que, dois ou três meses depois, fariam parte do primeiro álbum "Five Leaves Left". Tal como Drake, desistiu do curso ao fim de um ano.

Para a (in)consciente ou (des)cuidada confusão entre Portugal vs Espanha não temos nenhuma explicação. Qualquer uma das biografias mais creditadas, mesmo que não oficiais e até anteriores à data do referido artigo, anotam a cidade de Algeciras como o destino certo dessa jornada de objectivo revigorante mas o equívoco conduziu a naturais imprecisões como a de Pedro Adão e Silva no excelente "Nick Drake - Um Desconhecido Entre Nós" (Expresso, 21 de Novembro de 2014). 

A interrogação no título deste post serve, pois, como uma dúvida de reconforto a uma proximidade idolatrada, mesmo que a resposta seja hoje de aparente e fácil alcance... ou não! 

Mural de Juan Luis Vargas Caro em Algeciras, Espanha (fotografia EuropaSur)














As incursões de Nick Drake (sim, no plural) dos anos setenta pelo sul de Espanha sem quaisquer troca de cartas ou fotografias conhecidas, miudezas que nessa altura seriam o que menos apoquentava uma mente confusa, sempre nos suscitaram diversas curiosidades e conjecturas, nada de novo atendendo ao cinzentismo nebuloso de um período artístico que o músico então experimentava de forma (in)voluntária, isolada e desgarrada. 

O autor de "Pink Moon" conhecia Algeciras, local onde tomou o ferry para Tânger ao lado dos amigos em 1967, segundo carta enviada aos pais em Abril desse ano (Remembered for a While, pág. 67). A habitual história contada em vários artigos de imprensa e na maior parte das biografias adianta que, quatro anos mais tarde, Chris Blackwell, o dono da Island Records, lhe deu a escolher uma das muitas casas de que dispunha como forte investidor imobiliário e estando a sua villa de Algeciras livre, não deverá ter demorado muito tempo para que Drake a tenha eleito para retiro temperador nesse verão de 1971 atendendo ao prévio conhecimento da cidade, do clima e da cercania de Marrocos, país que lhe marcou um fascínio. Era também, supostamente, um território de acesso facilitado a cannabis de que era impulsivo consumidor.

Em carta biográfica dirigida ao médico Leon Redler em Maio de 1973 na tentativa desesperada de obter ajuda terapêutica, uma sugestão do velho amigo Brian Wells, Drake escreve: "After completing them [os três álbuns], I went to Spain for a while and then came home here [Far Leyes] to my parents' place, where I have been for about the last year and a half (...)" (Remembered For A While, pág. 344). Sem certezas, subentende-se que viajou para Espanha só depois de gravar "Pink Moon" (Outubro de 1971) a que se acrescenta uma posterior anotação do pai Rodney no seu diário (28 de Outubro de 1973, pág. 347) referente a outra deslocação ao mesmo país nesse mesmo mês através da descoberta, pela mãe Molly, de uns canhotos de bilhetes (comboio, avião?) para Málaga, daqui para Paris e, daí, um outro bilhete para Inglaterra (avião, barco?). 

A cidade de Málaga, que dista cerca de 140 quilómetros de Algeciras, seria o polo intermodal para chegar à casa de Blackwell onde, supostamente, esteve alojado por diversas vezes mesmo que sem companhia conhecida e sem, alegadamente, uma única guitarra. O pai, a propósito, acrescenta na mesma nota: "It was after that expedition that he brought back his new guitar. All very mysterious!".
Sem dúvida.

 
Calle Palmera, Colonia San Miguel, Algeciras (Fotografia Algeciras Al Minuto)













Sobre estas estadias enigmáticas podem levantar-se uma série de especulações que, esclarecidas, trariam mais luz a compulsivos drakeanos onde nos incluímos sem reservas: 

- como aguentou Nick Drake, sozinho e já em desconsolo, sete, quinze ou mais distantes dias sem apoio algum? 
- não terá tido ele uma qualquer companhia familiar ou outra nesses períodos como sugere o artigo do The Times
- sem falar espanhol e sem muito dinheiro, as estadas traduziram-se num solitário e contemplativo retiro soalheiro? 
- será que Blackwell teria, na altura, outras residências na Andaluzia? 

Se atentarmos às dificuldades com que Pérez García se deparou na localização correcta da suposta villa veraneante na tal Calle Palmera da Colonia San Miguel em Algeciras e que, por exemplo, Pistolini se refere a um apartamento no sul de Espanha (Le Provenienze dell' Amore, 1998, p. 129), um tipo de construção mais comum nessa altura a uma cidade maior como Málaga, de imediato se compreende que as pontas soltas deste emaranhado de dúvidas dificilmente serão algum dia apanhadas ou sequer agarradas. 

Mas e se agora viesse a público que, afinal, Chris Blackwell nunca teve nenhuma propriedade em Espanha e que nunca patrocinou qualquer deslocação de férias ou outra ao protegido Nick Drake nesses anos setenta! A revelação inédita feita pelo próprio ao autor de uma novo biografia em preparação, deita por terra uma série de dados adquiridos, confunde ainda mais a história e lança uma série de outras questões:

- a estadia prévia ao registo de "Pink Moon" (verão de 1971) que se diz ter decorrido em Algeciras é um mito biográfico que nunca aconteceu?
- as estadias posteriores (de recordar a referida carta de Drake a um médico onde afirma ter estado em Espanha só depois de gravar os três discos e as notas do diário recolhidas pelo pai, 1973) sucederam em que cidades ou países? Málaga? Portugal (just kidding...)?  

Tal como em qualquer outro pátria europeia, a música de Nick Drake demoraria a ser ouvida e amada em Espanha mas o que não faltam agora são livros, publicações ou homenagens que tentam apressar um reconhecimento falhado aquando das passagens incógnitas e despercebidas. Os seus discos não tiveram por lá edição imediata, exceptuando "Pink Moon" que a Island fez sair logo em 1972 e que é hoje uma rara peça de colecção merecedor de destaque tímido em imprensa atenta dessa época como, por exemplo, o do jornal catalão La Vanguardia que a ele se refere como “una novedad que puede interesar a ciertos núcleos de público a los que les guste la canción intimista, dulce y susurrada”. 

Um pouco antes, em 1971, a mesma editora publicava no país uma compilação denominada "El Pea" com uma selecção de artistas e bandas e onde Drake estava representado ao lado de gente como Sandy Denny, Traffic, Free ou Cat Stevens através da canção "Northern Sky" mas erradamente impressa "One of These Things First". Ao duplo álbum, conhecido como "disco da ervilha" e que teve edição noutros países europeus, quase ninguém ligou nenhuma atenção. A Nick Drake também não... I'm a poor boy / And I'm a rover!

terça-feira, 11 de maio de 2021

(RE)LIDO #102


















EL FANTASMA DE NICK DRAKE Y OTROS RELATOS PÓSTUMOS
de Trigo Alcoholado. Tarifa: ImagenTa Editorial, 2018 
Na leitura apaixonada de relatos ou documentos sobre Nick Drake somos invariavelmente confrontados com a sua presença, imagina-se, solitária por terras espanholas em 1971, um retiro de duas semanas na villa de Algeciras pertencente a Chris Blackwell, sugestão patrocionada pelo próprio fundador e dono da Island Records, um protector e admirador do cantor, na tentativa de o retemperar e recuperar da depressão crescente. Confirmam-no as biografias, entre as mais importantes, de Patrick Humphries (paperback, 1997, pág. 168) ou Trevor Damn (hardcover, 2006, pág. 167-168).

Certo é que Drake conhecia a região por onde tinha estado uns anos antes (1967) na companhia de amigos em viagem de carro para Marrocos e com passagens certas por Granada, Málaga, Gibraltar e também Algeciras. A solarenga estadia, ocorrida algures no terceiro trimestre desse ano de 1971 (Agosto?) e que foi antecipada, diz-se, por uma ida a Paris na tentativa receosa e infrutífera de contactar Françoise Hardy, parecer ter resultado numa terapia positiva já que, regressado a Inglaterra, o músico decidiu registar (Outubro) um terceiro álbum somente com voz e guitarra em duas noites no estúdio Sound Techniques ao lado do amigo e produtor John Wood, pretensão revelada seis meses antes a Jerry Gilbert, jornalista da sua única entrevista em vida. Ao disco chamou-lhe "Pink Moon". 

Atendendo ao interesse que a música e a vida de Nick Drake suscitam no país vizinho nos dias de hoje, onde as biografias acima referidas foram traduzidas e publicadas em castelhano, o mesmo acontecendo para o livro de memórias, um caso único no mundo, o misterioso retiro do músico na Costa do Sol seria, mais tarde ou mais cedo, motivo de demanda. A busca realizou-a José María Pérez Garcia com afinco e perseverança quando leu a referência biográfica de Damn mas as boas respostas continuaram adormecidas nas calendas, uma estranha maldição que não permitiu obter nenhuma imagem confirmada e nenhum relato ou testemunho coevo! Em Algeciras, quedou um deteriorado mural de homenagem da autoria do artista Juan Luis Vargas Caro situado junto da foz do rio Pícaro que desagua na praia de Getares (três anos depois, não sabemos sequer se ele ainda existe), uma canção alusiva a cargo de uma banda da Cádiz e alguns artigos de jornal motivados pela publicação do livro que Garcia, mesmo assim, decidiu ficcionar e publicar com meritório esforço. 

Ao reproduzir o video de abaixo relativo à apresentação pública da obra em Junho de 2018, percebe-se a desilusão acumulada de Pérez García somente estimulada in extremis pelo contacto e interacção virtual com o produtor Joe Boyd que levou à confirmação, ao fim de inúmeras tentativas, de qual a rua na cidade onde Drake se teria refugiado - Calle Palmera da Colonia San Miguel, zona de vivendas com localização privilegiada e que começava então a aumentar. Na sua pesquisa, confirmou que naquela artéria, nesse ano de 1971, só existiam três casas, tendo uma delas sido, entretanto, destruída. Restavam uma de madeira e uma outra construída em 1972, por isso, não a moradia em questão, sobejando a habitação com o nº 2 quem sobe a rua, a tal de madeira (?), como única e melhor hipótese. Atestou ainda que os actuais proprietários não são os da época nem sabem quem foram os donos originais, mas dessa hipotética villa andaluza não são estranhamente reproduzidas imagens ou fotografias, respeitando, quem sabe, a privacidade dos actuais inquilinos ou moradores. O Street View da Google também não ajuda.

Sabemos que a imaginação não tem limites mas os riscos do seu alcance implicam ajustada ponderação e atino. Neste caso e na suposição de que naquela casa teria sido composta a base de "Pink Moon", o autor Trigo Alcoholado, um alter-ego imediatamente extinto atendendo ao título do livro, agarra-se a esse fantasma e desenvolve uma narrativa animada e arejada de confraternização humana em contraponto com o amargo período de um solitário Nick Drake em recolhimento e do qual não se conhece qualquer pormenor. 

A trama começa com a sua chegada a Algeciras em pleno verão travando, desde logo, conhecimento com um dos retratados no mural referido e que morava mesmo ao lado - centrado por uma lua e um céu rosado sobre a baía marítima, a parede tem nas suas extremidades as figuras de Nick Drake e do pintor alemão Helmut Siesser (1926-1995), personagens principais da narrativa imaginada e ícones da própria cidade, mesmo que essa proximidade não implique que se tenham efectivamente conhecido. Ele vai ser o anfitrião da jornada, incitando uma inverosímil azáfama de eventos, como idas ao cinema para ver "Once Upon a Time in the West" ou "For a Few Dollars", encontros imediatos com figuras da cultura ali nascidos, como Paco de Lucia (1947-2014) e Camáron de la Isla (1950-1992) a actuarem num pátio de bairro ou o poeta José Luis Cano (1911-1999), participante activo em tertúlias animadas e recheadas de remoques políticos, sociais, patrimoniais ou até ecológicos e ambientais e onde participa um jovem cinéfilo que não é senão o próprio autor. 

Transparece a tudo isto uma camada de sátira e humor que cobre Nick Drake de normalidade, interacção e euforia capaz de o envolver na comunidade, de o fazer apreciar uma paelha entre copos de tinto de verano ou se de inspirar no reflexo da paisagem nocturna para compor a canção lunar e se declarar apaixonado a uma Françoise Hardy reencontrada no dia do regresso então adiado. Previsível mas ternurento! 

Quanto ao tema com o mesmo nome do livro da responsabilidade de uns tal de Sillín, basta ver as imagens editadas para perceber que o humor do guião videográfico lançado na mesma altura e a insistência num "lo peor de la música son los músicos" são só um complemento divertido com a mesma autoria que a própria narrativa. Coincidência a que podemos acrescentar uma outra - o pintor "amigo" Helmut Sissier, hoje nome de rua em Algeciras, pintou a óleo sobre madeira em 1974 um casario da cidade a que chamou "Casas Rosas / Houses in Pink"...   


sábado, 8 de maio de 2021

FAZ HOJE (29) ANOS #60

















SITIADOS + MOTHER HEARTH + A CERTAIN RATIO, Pavilhão Rosa Mota, Porto, 8 de Maio de 1992
 
. Público, por Amílcar Correia, fotografia de Paulo Duarte, 10 de Maio de 1992, p. 46


MARISSA NADLER, FECHEM OS OLHOS!






















A tendência para as versões, já por aqui assinalada, em tempos de confinamento continua a dar frutos de excelência. A Marissa Nadler valeu-lhe um álbum (quase) inteiro de reconfortante prazer e serenidade onde as canções preferidas ganham significado impressivo como tristeza, saudade, perca, solidão ou inaptidão. 

Dos America ("Lonely People") aos Metallica ("Nothing Else Matters"), de Dylan ("I Was Young When I Left Home") aos Bee Gees ("I Started a Joke"), Renee Olstead ("Sleep Walk") ou Simon & Garfunkel ("Old Friends/Bookends"), há em "Instead of Dreaming" hoje editado uma acentuada penumbra calmante aprimorada por Milky Burgess, multi-instrumentista que mais não faz que deixar a voz de Nadler flutuar pelo sopro certo dos acordes. É só fechar os olhos. 


quinta-feira, 6 de maio de 2021

FAROL #140















Depois da edição de um EP surpresa com meia dúzia de canções buriladas em modo virtual, chegou a vez dos Real Estate registarem a primeira das já clássicas Lagniappe Sessions promovidas pelo site Aquarium Drunkard. Cada elemento do quinteto de Brooklyn escolheu um tema preferido para reinventar e o pecúlio final contempla pérolas de John Cale, My Bloody Valentine, Roger Miller, Parsley Sound ou Jawbone. Imperdível!

RODRIGO AMARANTE, BOM DRAMA!






















Passaram oito anos desde "Cavalo" mas Rodrigo Amarante atribui ao hiato pouca ou nenhuma importância desde que o grau de satisfação preencha os seus requisitos de qualidade e rigor. Sem drama. A composição a sério teve reinício em 2018 ao lado dos parceiros habituais de banda (“Lucky” Paul Taylor na bateria, Todd Dahlhoff no baixo e Andres Renteria nas congas) e estendeu-se calmamente ao longo desse ano e seguinte. São dessa leva a maior parte das onze canções que integram "Drama", três de título inglês e as restantes de sotaque brasileiro, o muito esperado álbum de regresso a sair pela Polivinyl em Julho e com uma especial tiragem colorida de vinil

Isolado em Los Angeles na primeira leva da pandemia em 2020, a mistura final fez-se com a conivência e mestria de Noah Georgeson, o amigo de sempre dos Vetiver e responsável pela produção do referido "Cavalo", um processo presencial mas individual e sem cruzamentos simultâneos, o que permitiu novos recursos, ideias e soluções arejadas. Para a respectiva promoção, Amarante realizou já dois videos de considerável cinematografia - o primeiro de cenário alpino (Chamonix?) para "Drama" e um segundo, gozando com os companheiros de banda em versão retro-futurista, para "Maré", tudo coberto com dose cintilante de talento! 


quarta-feira, 5 de maio de 2021

LUMP, SEGUNDA EMERSÃO!
















O projecto LUMP de Laura Marling ao lado de Mike Lindsay dos Tunng surgiu em 2018 com um trabalho homónimo de qualidade garantida. Seguiram-se aventuras a solo ou com banda do mesmo calibre mas parece ter chegada a hora para uma nova emersão artística resultante de uma lógica de crescimento. Gravado no estúdio caseiro de Lindsay situado em Marle, o novo "Animal" terá distribuição pela Partisan Records no final de Julho e, pelas confissões dos envolvidos, o resultado transpira uma naturalidade que se afirma espontânea e instintivamente animal. Ouça-se!  

BEAUTIFY JUNKYARDS, MAIS COSMORAMAS!

O começo do ano trouxe "Cosmorama", um multi-elogiado quinto disco dos lisboetas Beautify Junkyards e ao qual se podem e devem juntar duas excelentes peças contidas num 7" de vinil a distribuir a partir de dia 14 de Maio na Ghost Box Records. No lado principal repousa uma versão de "Painting Box" da escocesa The Incredible String Band saída no mesmo formato em 1968 e que estava incluída no álbum do ano anterior "The 5000 Spirits or the Layers of the Onion". 

Na retoma deste clássico escrito por Mike Heron, os Junkyards receberam a ajuda cúmplice dos Belbury Poly, colectivo de estúdio da própria editora fundado pelo proprietário Jim Jupp em 2004. No outro lado da rodela figura "Ritual in Transfigured Time", tema inédito produzido por João Branco Kyron. O bonito desenho da capa pertence a Julien House, designer e músico co-fundador da mesma editora inglesa. Pré-encomendas disponíveis.


BEN WATT, LEVE TEMPESTADE!

A carreira a solo de Ben Watt, a metade criativa dos Everything But The Girl, ganhou novo alento e nítida motivação a partir de 2014 com o regresso saudado aos álbuns a solo. O do ano passado, o quarto em nome próprio, recebeu o título de "Storm Damage" e mostrou ser de uma conjectura premonitória, antecipando a chegada da pandemia Covid 19 através de uma série de canções profundas e catárticas. 

A proliferação da doença levou, entretanto, ao adiamento do EP "Storm Shelter", um acompanhamento que só agora vê a luz do dia e onde Watt se senta ao piano para despir quatro dos temas do disco e apresentar oficialmente duas versões já estreadas online em 2020: "Comeback Kid" de Sharon Van Etten e uma surpreendente "That's the Way Love Is", êxito do trio Ten City com base em Chicago que o espalhou por todo o lado em 1989, rendição que teve direito a novo video a cargo do amigo Rahim Moledina, responsável por outros documentos de trabalhos anteriores. As vendas e ganhos desta edição revertem a favor da organização inglesa Shelter, um suporte importante para inúmeras pessoas sem-abrigo.



terça-feira, 4 de maio de 2021

(RE)LIDO #101






















FAR LEYS
 
de Miguel Ángel Oeste. Málaga; Zut Ediciones, 2014 
A chamada narrativa rock é uma variante literária atractiva mas algo traiçoeira. No caso da vida Nick Drake, recheada de encantos, secretismos e desgraça, ela serviu já de inspiração ou motivo para variadas prosas e tramas ficcionais. De cor, recordamos o caso dos ingleses Mark Radcliff ("Northern Sky"", 2006) e Phil Rickman ("The Wine of Angels", da série "A Merryl Watkins Mistery", 1999), do alemão Frank Goosen ("Pink Moon", 2005), de Courtney Seiberling ("Five Leaves Left", 2010) ou do amargo Marshall Pierce ("Nick Drake Diaries", 2011). Haverá, certamente, outros mas a tendência tem-se acentuado de forma inequívoca e curiosa pelo sul da Europa, nomeadamente por Itália, França e Espanha e que teve em 2014, no caso do maiorquino Eduardo Jordá ("Yo Vi a Nick Drake", 2014), o nosso baptismo agradável no género.

Do mesmo ano e das proximidades é este "Far Leys", romance do malaguenho Miguel Ángel Oeste que recebeu o nome do casarão vitoriano onde Drake cresceu e haveria de falecer em 1974, uma imaginada aventura de maior fôlego e erudito esforço. Com semelhante rótulo há até um disco tributo a cargo de uns tais Blend e um instrumental do próprio Drake originalmente nomeado por "Sketch 1" e que foi dado a conhecer no disco póstumo "Familly Tree" de 2007, passando depois a ser designado por "Far Leys" por ter sido, certamente, por lá composto ao lado de muitos outros. Atendendo ao título, poderíamos julgar que o centro das atenções do enredo estaria nessa habitação mítica e local de peregrinação, como acontece, aliás, no referido livro de Jordá. Não é o caso. Porquê, então, escolher esse nome - simultaneamente, um refúgio e uma prisão - juntando-lhe na capa a fotografia de uma árvore sem folhas quase submersa por uma neblina invernosa e nortenha? 

Uma suposta explicação remeterá para o facto de esse ser o local de um epílogo trágico que submerge desde o primeiro parágrafo envolto em trevas densas. O autor não o assume, confundindo ainda mais nas suas arguições, mas o mistério da vida melancólica e triste de Drake permite-lhe uma extensão nada fácil de tempos e conexões inverosímeis: há um actor e realizador de cinema, Richard, que passados trinta anos desde a morte do artista, pretende fazer um filme sobre ele, iniciando uma obsessiva tarefa de tudo saber, reunindo contactos, promovendo encontros/entrevistas com todos aqueles personagens reais que percorreram a sua curta existência - por exemplo, o produtor Joe Boyd, o amigo e orquestrador Robert Kirby ou o fotógrafo Keith Morris - para o que conta com a ajuda de uma tal Janet, suposta amizade coeva do músico e também ela uma hesitante informadora apaixonada pelo malogrado Drake. Em diálogos numa primeira parte e em memórias individuais na parte seguinte, o novelo inventa situações e cenários onde uma misteriosa Sophia Ritter está no centro de uma teia bem urdida de tensões, mas é notória a inspiração directa em factos relatados nas biografias já editadas e, principalmente, no magnífico livro de memórias do mesmo ano. 

Há coincidências para todos os gostos: o tal Richard é um personagem inspirado no jovem actor Heath Leadger, conhecido pelo papel em "Brokeback Mountain", que se suicidou em 2008 e que assumiu a sua vontade de fazer o tal filme, projecto abandonado mas trágico; a tal Sophia Ritter é Sophia Ryde, uma das poucas (única?) paixões amorosas de Drake a quem o próprio escreveu uma carta confirmando o rompimento da relação (?) na tarde que antecipou a madrugada do suicídio/acidente e sobre a qual se especula há longo tempo (canções como "Free Ride" sugerem ser um tributo evidente ou o destino dos lamentos dos versos "Know that I love you/Know I don't care/Know that I see you/Know I'm not there" de "Know", canção incluída em "Pink Moon"), uma misteriosa identidade que se revelou frontalmente discordante com a história oficial narrada pelos pais de Drake; a tal Janet McDonalds será uma desconhecida confidente e suporte emocional (um amor perdido...) dos últimos tempos e de que há muito se fala mas que, certamente, futuras biografias (sim, o filão vai continuar) tornará mais evidente na identificação. 

Se nalguns casos se alteram os nomes (Ritter seria Ryde), noutros mantêm-se os baptismos originais, a maior parte ainda vivos e que se vêm envolvidos em algumas situações ficcionais comprometedoras de traição, sexo, confiança e abuso o que, não sendo proibido, se afigura deselegante e até inconveniente mesmo que a época seja a de inícios dos anos setenta, plena de exageros, imoralidades e vícios. Alteram-se ainda percepções biográficas sobre Nick Drake assumidas pela história, envolvendo-o num feitio traiçoeiro, arrogante e promotor de querelas e mentiras. Ficções! 

A perseguição de um fantasma aporta um outro, o do próprio Richard em desgaste psicológico e físico acelerado pela degradação de uma relação tempestuosa com a parceira Erika, a instigadora da paixão comum pelas canções de Drake que se vê abandonada em detrimento de uma ideia fixa do amante, o impossível filme biográfico, em plena gravidez de risco. Um romance dentro do próprio romance que acaba por ser a melhor surpresa de uma novela tormentosa subjugada a uma iminência exagerada da morte mas, ainda assim, de uma habilidade agridoce. Como Drake...         

segunda-feira, 3 de maio de 2021

LAMBCHOP, CANÇÕES A NEGRO!






















Sempre que os Lambchop fazem um novo disco esperam-se bons momentos de um mundo sonoro a que Kurt Wagner não coloca limites ou barreiras. A postura activa tem por base um profunda inquietação exploratória que se tem vindo a acentuar nos últimos anos e que desta vez adquiriu um método de trabalho inédito - cada nova faixa resulta de uma base obtida numa guitarra posteriormente convertida através de um piano-midi, um daqueles teclados conectados a um computador ou ligados à ficha da electricidade. A ajudar no produto final esteve Ryan Olson (Poliça, Gayngs), James McNew (Yo La Tengo) e Jeremy Ferguson, produtor e engenheiro de som que repete a colaboração dos dois últimos álbuns. 

Temos, assim, um colectivo de músicos fixos a que se vão juntando outros ao jeito de porta-giratória como são o caso de CJ Camerieri, trompista e arranjador ou DJ Twit One, alemão mais dado às electrónicas e beats, fazendo dos Lambchop uma equipa polivalente de entreajuda. Catalogado como "Showtunes", o disco poderá ser destapado na Merge Records no dia 21 de Maio e, pelas duas amostras das canções, dos respectivos videos e até da imagem de capa, o papel de embrulho é decerto de cor negra...  


MOLLY BURCH, PODEROSA!






















O sinal intermitente foi dado quando "Emotion", um novo tema de Molly Burch ao lado de Jack Tatum dos Wild Nothing, surgiu repentino em Janeiro passado. Fixa-se agora para Julho o regresso confirmado aos discos grandes na Captured Tracks com "Romantic Images", trabalho que se diz inspirado na chegada dos trinta anos, período onde habitualmente se inicia um processo natural de balanço e revisão da juventude e o pesar da primeira idade adulta, o que no caso de Burch ganhou contornos de assumida liderança quando, em 2018, deixou de tocar guitarra nos concertos para se concentrar na voz, na frente de palco e no controlo artístico. 

A digressão do ano passado com os Tennis, interrompida pela chegada da pandemia, trouxe um virtude - o convite a Alaina Moore e Pat Riley para produzir as novas canções, um processo que decorreu em plena casa-estúdio da dupla de Denver ao longo de duas semanas em modo "bolha" devido à quarentena. Às limitações sanitárias justapôs-se uma maior liberdade criativa e companheirismo prevendo-se um resultado mais feminino, mais pop, mais livre e, garantidamente, mais pessoal. Poderosa!