sábado, 20 de julho de 2019

sexta-feira, 19 de julho de 2019

TUXEDO, TERCEIRO ANDAMENTO!

Agora que as janelas do carro, de casa ou até do escritório são para estar abertas de par em par - ok, tirando os safados dias de nortada - a banda sonora tem que ser apropriadamente descontraída mas sem resvalar... A terceira investida da parceria de Mayer Hawthorne com o produtor Jake One aka Tuxedo chega em boa hora para dar andamento e ritmo de sobra a qualquer tabuado ao ar livre numa receita escavadora de funk tardio dos setenta que de tão bem feita se torna impressiva e irresistivelmente groovy!     



UAUU #497

quinta-feira, 18 de julho de 2019

SAM EVIAN, ÁGUA REFRESCANTE!
















A colecção de canções do verão passado chamada "You Forever" a cargo de Sam Evian não têm passado de moda ou sequer murchado. Ao disco, sem prazo de validade, bastou ir refrescando as audições e para se manter vital e viçoso e de que sugerimos dois frutos maduros - "Next To You" com a ajuda de Kazu Makino (Blonde Redhead) e "Kathie's Rhodes", um aditivo nocturno que ajuda, ou não, a dormir... depende da companhia.

O jovem músico tem ao longo do corrente ano mantido uma actividade contínua, ora em digressões ao lado de Cass McCombs ora escrevendo novos temas ou versões. Em Março, a Saddle Creek publicou um sete polegadas de vinil com duas canções inéditas para acrescentar ao rol de maravilhas - "Cherry Tree" e "Roses" confirmam dotes encantatórios - e surge agora uma surpreendente versão para "Right Down the Line", uma canção de Gerry Rafferty que abalou o verão de 1978 e que nos últimos tempos tem atraído inúmeras vénias - de Ron Sexsmith a Vampire Weekend, passando pela princesa Aldous Harding como ouvimos no Parque da Cidade, não há quem resista... 






SHANNON LAY, MUITO AGOSTO!





















O mês de Agosto de 2017 foi para Shannon Lay o momento de assumir a música como forma de vida, arriscando o despedimento do emprego diário de maneira a concentrar a atenção na composição e registo das suas canções. Aperfeiçoando o estilo, seleccionando as partilhas e experiências com os amigos de ofício, o risco valeu o magnífico álbum "Living Water", um cartão de visita seguro e distinto com que se apresentou a solo em muitos palcos americanos e europeus como ficou provado na passagem pelos Maus Hábitos no inverno do ano passado ao lado da violinista Laena Geronimo.

Chegou, entretanto, a altura de continuar a insistir no talento. Ao longo da referida digressão Lay teve o tempo e a argúcia para compor novos temas que se agrupam no terceiro álbum de originais a sair em Agosto e que se chama... "August", uma homenagem propositada ao tal mês da libertação. O disco conta com a ajuda do amigo Ty Segall na cedência e manobra do seu estúdio pessoal e também de Mikal Cronin que, a propósito, tem um papel efectivo de saxofonista no tema e no novo video para "Death Up Close". Tudo muito a gosto!

Dica: não deixem de ouvir a versão surpresa que e menina fez de um tema de Karen Dalton para comemorar a sua entrada na editora Sub-Pop. Está aqui.




quarta-feira, 17 de julho de 2019

GRANDADDY, ÚLTIMOS MOMENTOS!

Temos pelos Grandaddy de Jason Little um profundo respeito e admiração, confiança com mais de vinte anos alicerçada em meia dúzia de álbuns de eleição. A sua anunciada vinda ao Primavera Sound portuense de 2017 parecia ser a oportunidade perfeita para, finalmente, beber dessa consistência até aí inédita em palcos portugueses (?) mas a morte inesperada, um mês antes, de Kevin Garcia, baixista e fundador da banda, motivou imediato cancelamento da digressão e da actividade.

Na altura, a substituição alinhada recaiu nos Arab Strap, uma acertada escolha que resultou num grande momento no Parque da Cidade, mas a pairar ficou, talvez para sempre, a inconsolável pena de não ver a banda em cima de um palco. Surge agora a oportunidade compensadora de perceber a qualidade e excelência do que acabamos por perder com a emissão pelo canal Arte de um espectáculo dos Grandaddy na Gaitê Lyrique de Paris em Abril de 2017, um dos últimos concertos com a presença de Garcia e que, talvez, por isso mesmo, só agora acabou em boa hora novamente disponibilizado. São sessenta minutos de canções que incidiram no álbum desse ano "Last Place" mas onde há lugar a outras memórias como "A.M. 180", " Summer Kids Here" ou o clássico "Now It's On". Até dia 21, continua ON... Não percam!

JOAN SHELLEY, CONFORTO NO DESCONHECIDO!





















A inquietude da belíssima Joan Shelley é, nos tempos que correm, uma dádiva impagável... Confessada a admiração pelo disco sueco de Lee Hazlewood ("Cowboy in Sweden", 1970), pelos mistérios do mar Atlântico ou até pela vontade de experimentar novas receitas etílicas (!), um anúncio de voos baratos para o Islândia conduziu-a, a medo, a esse país desconhecido de paisagens estranhas mas magníficas para registar um álbum de inéditos longe do conforto do lar.

Ao longo de cinco dias num estúdio de Reiquiavique reuniram-se esforços das habituais parceiras Maiden Radio, de Bonnie "Prince" Billy, do guitarrista Nathan Salsburg, das cordas das manas Jónsdóttir e do produtor James Elkington, que brotaram em doze canções de semente diversa, do conterrâneo country do Kentucky, passando pelo tradicional folk irlandês ou até a música africana.

O resultado, titulado de "Like the River Loves the Sea" a partir de um tema do mestre Si Kahn e que foi posteriormente retocado pro Daniel Martin Moore e Kavin Ratterman, pretende lembrar-nos que todos precisamos de um lugar de conforto e reflexão, seja ele físico ou não, estímulo que com esta banda sonora é obrigatoriamente mais compensador. Atendendo ao efeito da paisagem desenhada na capa, esperamos, em paz e em suspenso, uma visita tridimensional... sem muitas demoras!



terça-feira, 16 de julho de 2019

WILCO, HINOS DE ALEGRIA!

Em tempos de incerteza, cansaço e até resignação, os Wilco apostam em onze canções novas para um álbum, o décimo primeiro, chamado "Ode to Joy" a sair em Outubro em casa própria, a dBpm Records. Haverá, como sempre, digressão intensa pelos E.U.A. e Europa para promover a alegria e, já agora, a liberdade de a conseguir. Aqui fica o subliminar "Love is Everywhere (Beware)" para que comece a demanda...

FIONN REGAN, ALVÍSSARAS!





















Bastam uns poucos acordes do nova canção de Fionn Regan para fazer crescer água na boca e nos pôr a sonhar. Chama-se "Collar of Fur", tem aquele timbre acústico maravilhoso que parece ser timbre, lá está, do novo álbum "Cala" a sair no início de Agosto e que foi inteiramente registado na sua casa litoral perto de Dublin. Há, pois, muito cherinho a maresia salgada e refinada saudade... Alvíssaras!

ELZA SOARES + FERRO GAITA, FESTA, Parque Urbano de Ovar, 13 de Julho de 2019

A insistência de Elza Soares nas temáticas sócio-políticas que envolvem o racismo, o preconceito de género e, principalmente, a condição da mulher, ganha nos dias de hoje uma urgência fulcral. A realidade brasileira obriga a uma contundência ainda mais efectiva que o disco do ano passado "Deus é Mulher" tem escancarado de forma corajosa e cuja partilha ao vivo é essencial para se estranhar.

Assim, a resposta da comunidade brasileira à sua presença em Ovar foi visivelmente sentida e notada, com coros colectivos e saudações estridentes principalmente em "Banho", primeiro single do referido álbum que começou e terminou o espectáculo de forma amotinada e a que a restante plateia se viu obrigada a acompanhar espontaneamente. Agora, a ousadia não se resume a único género e percebeu-se que ao samba se juntam outros polvilhados de rock, electrónica e até frevo que um notável conjunto de músicos e cantores eleva, de fio a pavio, a uma fasquia libertadora.

Pede-se, então, que os muitos gritos pedidos e atendidos sirvam de homenagem festiva a todos que sofrem na pele as injustiças e afrontas de um mundo às avessas mas também de esperança em dias melhores que o endireitem à força de uma convicção inabalável - Eu quero é cantar eu vou cantar até ao fim...



A combinação dos dois instrumentos que dão nome à banda cabo-verdiana é enganadora. Ferro Gaita são, afinal, um pedaço de metal tocado com uma faca e um pequeno acordeão que há muito são usados tradicionalmente no arquipélago africano para tocar funaná, um género festivo proibido durante o período colonial e que se distancia da coladeira ou morna pelo seu irresistível balanço contínuo.

Equipado a rigor, o colectivo rapidamente atingiu esse desígnio, estendendo a dança e a festa pelo relvado do parque onde uma plateia de várias gerações se mostrou em plena forma e estilo na resposta, sem contemplação, a tamanha agitação. Percebeu-se que os mais de vinte anos do conjunto permitem uma facilidade no entrosamento instrumental que induz, por onde passa, alegria e boa-disposição em doses generosas e que uma boa maioria não queria que terminassem. Um regresso a Ovar de sucesso previsível mas de merecido e repetido forte aplauso.   

segunda-feira, 15 de julho de 2019

JOE ARMON-JONES, Matosinhos em Jazz, 13 de Julho de 2019

Na tradição e quase obrigação de qualquer comunidade jazzística que se preze, a partilha fraterna de experiências artísticas é meio caminho andado para o reconhecimento e o sucesso. Foi assim ao longo da história do jazz, é certamente assim que na cidade de Londres se enfrenta uma vaga talentosa de novos músicos que rodam ao vivo ou em estúdio sem preconceitos ou medos desde que a qualidade e a fruição vinguem sem truques.

Ao fresco parque matosinhense, com público desperto e receptivo à novidade, Joe Armon-Jones trouxe os tais parceiros certos para facilmente fazer exalar um eclestismo sonoro irresistível de dub, fusão ou soul que se espalhou sem contemplações do alto do coreto. A mestria do sexteto, onde se notou a presença de Nubya Garcia no saxofone vinda, certamente, de Braga onde actuou na véspera, teve a virtude de vincar que ao jazz dito moderno não faltam talentos, trilhos e ouvintes sem complexos ou espartilhos geracionais que, como convêm, só fazem sentido numa mesma onda de harmonia. Agradecidos!         

BILL RYDER-JONES, YAMN YAMN!





















Praticamente estreado em Portugal nos concertos divertidos de Junho passado, o disco "Yawny Yawn" será uma versão despida das canções editadas por Bill Ryder-Jones no álbum "Yawn" saído em final de 2018, isto é, voz e piano inspirados nos Beach Boys e na necessidade de esvaziar alguma da energia dos originais com banda. A aventura estará cá fora na próxima semana através da Domino Records, tem já um bonita tiragem em vinil assinada imediatamente esgotada e segue-se em Setembro uma digressão britânica a solo que se afigura imperdível... Yamn!



sábado, 13 de julho de 2019

FAZ HOJE (23) ANOS #08








































RYUICHI SAKAMOTO, Coliseu do Porto, 13 de Julho de 1996
. O Comércio do Porto, por Fátima Dias Iken, 15 de Julho de 1996, p. 32
. Jornal de Notícias, por José Manuel Simões, fotografia de J. Paulo Coutinho, 15 de Julho de 1996, p. ?



quinta-feira, 11 de julho de 2019

FRENCH VANILLA, UM PERIGO!

"French Vanilla! Grande moca de álbum!".
A recomendação chegou via mensagem escrita para o telemóvel, provinha de fonte segura e infalível e, por isso, foi só uma questão de procurar, ouvir, ouvir e ouvir... O jovem quarteto de Los Angeles acelera num ritmo a roçar o punk-arty onde pontua quase sempre um saxofone infectuoso e caótico que transforma as canções em pedacinhos de saudoso new-wave ou não fosse a voz da vocalista Sally Spitz um género de Kate Pierson reinventada. Fresco mas rude, despretensioso mas pegadiço, ora aqui está um "take it or leave it" progressivo e que causa maior dependência em dias de sol quente, de finos gelados ao pôr-do-sol ou de madrugadas dançantes e calorentas. Perigoso! 





terça-feira, 9 de julho de 2019

KEVIN MORBY, Auditório/Espaço Vita, Braga, 8 de Julho de 2019

fotografia do facebook do GNRation

fotografia do facebook do GNRation



























"Estas são versões despidas das minhas canções que vocês podem gostar ou não... é a vossa opinião!" A tirada de Kevin Morby, quase a meio da apresentação de ontem, foi reveladora quanto a algum desconforto até aí vivido na inédita sala bracarense, momentos distantes de uma vibração que, tal como é costume, se adivinhava imediata. De fato branco texano malhado de motivos vermelhos e amarelos e um "Oh My God!" escrito nas costas, Morby foi acompanhado na guitarra pelo trompete de Herman Mehari numa série inicial de canções do último álbum com mesmo nome mas cuja persuasão nos pareceu desleixada e até amorfa onde até o maravilhoso "Piss River" passou despercebido. 

Mas o clique despertador quanto ao formato desequilibrado que ameaçava aumentar alguma madorra não demorou a aparecer - "Congratulations" haveria de colocar tudo em sentido, público e artistas, agora sim, numa corrente contínua de partilha onde o tal trompete começou a fazer todo o efeito e que ganhou excedentes emotivos quando a menina Katie "Waxahatchee" Crutchfield se juntou em palco para momentos inesperados.

Brilharam, então, as duas versões de Jason Molina/Magnolia Electric Co. que o duo tinha oficialmente registado para efeitos solidários o ano passado num 7" de vinil agora raro, tremeu-se e muito com "Beatiful Strangers", o ponto alto do serão com Katie sentada junto ao teclado simplesmente pontuando o crescendo com um sopro de voz e, quase no fim, a rendição, melhor, a redenção haveria de chegar pacificadora com "I've Been to The Moutain" e com o hino oficial "Harlem River" a merecer ovação em pé, distribuição de rosas e apertos no coração. O regresso prometido ao país, à região e à cidade (Porto) é só uma questão de meses... OMG!



LLOYD COLE E OS NOVOS COMMOTIONS!





















Lá para o fim do mês sai um novo álbum de Lloyd Cole chamado "Guesswork" que assinala um reencontro ao fim de trinta anos - a presença de Neil Clarck e Blair Cowan, guitarrista e teclista dos Commotions com quem partilhou aventuras nos anos oitenta, a última das quais concretizada no disco "Mainstream" de 1987!

Mas não se pense que a parceria se traduzirá numa repetição da pop engalanada de então porque o que se anuncia é uma tendência electrónica que não receia efeitos secundários e que têm vindo a ser aprofundada nos últimos anos em projectos experimentais mais obscuros. O primeiro single "Violins" serve, para já, de rastilho e desafio para quem não tem nada a perder. O retrato da capa é da autoria do amigo Steven Linsay, artista escocês que comandou os The Big Dish, banda de que há alguns álbuns esquecidos lá para casa mas de que mantemos, pelo menos, um guilty pleasure...

Anunciada está, ainda, uma digressão britânica a partir de Outubro rotulada de "From Rattlesnakes to Guesswork" o que indicia concertos em jeito de retrospectiva e que seria bem-vinda numa noite por perto... só para matar saudades!

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO (1931-2019)
















Se o parentesco inicial da bossa-nova brasileira tem, ao que parece, várias ascendências, a paternidade tem um carimbo de autenticidade garantida - João Gilberto, que nos deixou hoje aos oitenta e oito anos. Não foram airosos os últimos anos de vida atormentados por uma série de penosos problemas e aflições que parecem incompreensíveis para quem criou clássicos eternos como "Desafinado", "Chega de Saudade" ou "O Barquinho"... Paz!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

UAUU #495

COURTNEY MARIE ANDREWS, RETIRO LISBOETA!















A jovem cantora Courtney Marie Andrews, uma das perdições aqui da casa, dicidiu passar uma semana em Lisboa num género de retiro inspirador para novas canções. O período escolhido coincidiu com as festas de Santo António do passado mês de Junho num bairro alfacinha que parece ser a Estrela, merecendo um conjunto de memórias fotográficas como a de cima onde não falta a bela da sardinha no pão!

Quanto ao efectivo resultado da residência artística/turística, pode ser que alguns dos aspirados novos temas surjam já na estreia a solo marcada para Portugal em Setembro (dia 15 no Auditório COOP no Porto e dia 17 no MusicBox em Lisboa) onde se adivinha um alinhamento acústico de muitas das canções do álbum do ano passado "May Your Kindness Remain" e que tiverem em Março uma selecção inédita registada num apetecível e bonito 12" de vinil na editora Fat Possum. O despojo, magnífico, soa assim... 



quinta-feira, 4 de julho de 2019

DUETOS IMPROVÁVEIS #216

JESCA HOOP & JUSTIS HOOP GARZA
Outside of Eden (Hoop)
Versão ao vivo no Elysian Park, Silverlake, Los Angeles, com o sobrinho
Original incluído no novo álbum "Stonechild"
Julho de 2019

MOLLY BURCH, Pérola Negra, Porto, 2 de Julho de 2019

De regresso a Portugal onde esteve em 2017 mas a estrear-se no Porto, a norte-americana Molly Burch apresentou-se desta vez suportada por um virtuoso quarteto instrumental, sugerindo que a guitarra que por vezes tocava ficou já e irremediavelmente (?) para trás. Agora assume-se em plenitude como cantora charmosa e jovial apesar da aparente timidez que se vai diluindo logo que os temas se iniciam e crescem numa torrente imaculada de pop adulta quase sempre vertendo sobre o amor e os seus infindáveis mistérios ou as consumições de uma vida a dois mas percebem-se, no entanto, outras alusões sobre o que é ser mulher ou simplesmente confiar nos amigos...

É essa sonoridade que empola uma boa nostalgia dos anos sessenta assente num clássico e rouco timbre de voz de indisfarçável semelhança com Angel Olsen, parceira artística assumidamente admirada ao lado de Natalie Prass, Weyes Blood ou até as irmãs Knowles e que no mítico ex-clube de striptease teve um antro kitsch moldado a preceito nas suas cores púrpuras e azuladas de espelhados cenários retro. Contudo, o espaço esteve longe de nos convencer quanto à sua eficácia logística marcada pela fraca visibilidade e uma notória limitação acústica que reduziram, em muito, a grandiosidade e perfeição de um alinhamento acertado e refinado.

Valeu o notável entrosamento do já referido quarteto onde brilhou a guitarra do parceiro Dailey Toliver, vibração particularmente vincada e aplaudida em "Only One", novo e contagiante pedacinho de veludo plasmado num sete polegadas de vinil, no enorme "First Flower" ou em "I Adore You", um dueto ao desafio deixado propositadamente para o único encore de forma a que não restassem dúvidas quanto ao calibre prateado e valioso desta composição. Precioso!   


quarta-feira, 3 de julho de 2019

JOE ARMON-JONES, TOCA A BANDA NO CORETO!















A segunda edição do Matosinhos em Jazz começa já este sábado, 6 de Julho, com acesso gratuito a todos os concertos no coreto do Jardim Basílio Teles, espaço fronteiro ao edifício da Câmara Municipal de Matosinhos. As escolhas são muitas e variadas e chamamos a atenção para a actuação de Joe Armon-Jones marcada para o próximo dia 13 (sábado,18h00), teclista inglês integrante da chamada London Jazz Scene ao lado de jovens talentos como os Sons of Kemet que ofuscaram o parque da cidade em Junho passado ou outros que andarão por aí nos próximos tempos: Nubya Garcia (12 de Julho, Braga e 24 de Julho, Sines), Kokoroko (25 de Julho, Sines) ou Kamaal Williams (17 de Agosto, Paredes de Coura).

A data serve para a apresentação do álbum "Starting Today" de 2018 que contou com inúmeras colaborações do Ezra Collective, uma espécie de task-force de fusão jazzística britânica que roda por vários projectos, e onde se destacam ainda as participações da referida Nubya Gracia e do trompetista Dylan Jones. É melhor ir limpando os Wayfarer...   




FIVE LEAVES LEFT, 50 ANOS!





















Neste dia 3 de Julho de 1969 foi editado oficialmente o eterno álbum de estreia "Five Leaves Left" de Nick Drake, santo protector desta casa e de muitas casas. São cinquenta anos, podiam ser dez ou até cinco, este é "o" disco sem idade onde não pousa pó ou sequer saudade porque é como se tivesse sido lançado hoje. Serás sempre o maior, Nick!





terça-feira, 2 de julho de 2019

FAZ HOJE (22) ANOS #07



























FESTIVAL IMPERIAL AO VIVO, Cais da Alfândega, Porto, 2, 3 e 4 de Julho de 1997
Jornal de Notícias, fotografia de Pereira de Sousa, Domingo, 3 de Julho de 1997, capa
. Jornal de Notícias, por José Manuel Simões, fotografia de Pereira de Sousa, Domingo, 3 de Julho de 1997, p. ?
. Público, por Jorge Marmelo, fotografia de Alfredo Cunha, 5 de Julho de 1997, p.46
. Público, por Amílcar Correia, fotografia de Paulo Pimenta, 5 de Julho de 1997, p.? 





segunda-feira, 1 de julho de 2019

BELLE AND SEBASTIAN, CANÇÕES DE VERÃO!





















O regresso dos Belle And Sebastian aos discos acontece já em Setembro com o lançamento de onze novos temas da banda sonora do filme "Days of the Bagnold Summer" que, contudo, só será estreado em 2020. Realizado por Simon Bird, a película é uma adaptação de um livro cómico de banda desenhada da autoria de Joff Winterhart de 2012, a estreia de um autor agora consagrado e que contava a história de um jovem metaleiro a preparar as férias de verão longe da mãe, um plano abortado por variadas razões...   

Mesmo confessando desconhecer a novela gráfica, Stuart Murdoch aceitou de imediato o desafio atraído pela atmosfera e estilo confirmados numa leitura rápida de fim-de-semana. Entre as canções, há novas versões de clássicos como "Get Me Away From Here I'm Dying" de 1996 e "I Know Where The Summer Goes" de 1998, a confirmação de um retorno a uma sonoridade mais antiga e que o tema "Sister Budha" hoje apresentado, com video do próprio Murdoch, é exemplar. A banda têm concerto agendado para a Aula Magna, em Lisboa, no dia 6 de Novembro.



sexta-feira, 28 de junho de 2019

MELANIE DE BIASIO NUM CASTELO DE SINES!

No caldeirão fantástico do Festival Música do Mundo de Sines há sempre uma imensidão de temperos e condimentos de chorar por mais. Este ano, entre outros, lá chegarão os Kokoroko, Nubya Gracia ou Keziah Jones mas há um concerto impiedoso da maravilhosa Melanie de Biasio no castelo de Sines no dia 24 de Julho, quarta-feira, que se afigura de atracção e encanto soberbos. Toca a tirar o pó à mochila...



UAUU #494

quinta-feira, 27 de junho de 2019

FAZ HOJE (16) ANOS #06

























CAT POWER, Festival do Porto, Bar Blá Blá, Matosinhos, 27 de Junho de 2003
. O Comércio do Porto, por Luísa Marinho, fotografia de Pedro Granadeiro, Domingo, 29 de Junho de 2003, p. 26

WILLIAM TYLER, AINDA NÃO É DESTA?

São já algumas as aproximações de William Tyler e da sua guitarra milagrosa ao nosso país quer em nome próprio (Lisboa, 2016), ao lado de Damien Jurado (Lisboa, 2013) ou até numa anunciada, falhada e nunca explicada colaboração ao vivo com os Lambchop (Vila do Conde, 2015). O regresso a solo para dois concertos em Novembro próximo em Portalegre (dia 9) e Lisboa (dia 10) deixa outra vez de lado um trilho nortenho que se afigurava propício no desfrutar do grande disco deste ano "Goes West". Será que ainda não é desta?

Actualização 23h00: 8 de Novembro, concerto marcado para Espinho. Eia!


quarta-feira, 26 de junho de 2019

JONATHAN BREE, Maus Hábitos, Porto, 25 de Junho de 2019

No suadouro portuense, retirando a criminosa concentração de fumo ("quem fuma manda"), a desadequada elevação do palco por diminuta ("viesses mais cedo") ou a notória sobrelotação do espaço ("usa os bicos dos pés"), a noite, diria monsieur La Palice, teve perdas e ganhos. Vamos às contas.

Perdeu-se e muito na percepção completa de um jogo cenográfico que alia projecções de fundo a movimentos estudados e ensaiados por um trio onde Jonathan Bree se viu sempre rodeado de duas parteners de trajes brancos e touca vitoriana. Havia um baixista e um baterista a que não pusemos os olhos em cima mas também ainda agora não conseguimos perceber se os instrumentos eram efectivamente tocados. Mantemos também algumas dúvidas sobre se aquela voz por baixo da máscara têxtil era cantada ao vivo ou... Como é óbvio, não deu para confirmar olhos nos olhos.           

Ganhou-se, no entanto, numa proximidade ideal para a fruição de uma sonoridade segura que emite canções pop quase vintage e de impacto misterioso envoltas numa vibrante nostalgia de sombras cinemáticas a preto-e-branco e de que "Say You Love Me Too", quase a começar e o hit "You're So Cool", quase a acabar, foram exemplares perfeitos de um serão algo longe de entusiasmos desmedidos mas muito perto de uma magia incontornável e sedutora.   


terça-feira, 25 de junho de 2019

DAMIEN JURADO E UMA LENTE!

Fotografia de Tom Roelofs
Fotografia de Tom Roelofs
Fotografia de Tom Roelofs


Aproveitando a oportunidade e enquanto aguardamos com expectativa o momento de anunciar o regresso de Damien Jurado aos concertos por perto, aqui fica uma triologia fotográfica de um aparente dia bracarense da responsabilidade do famoso artista belga Tom Roelofs. As imagens fazem parte de um cintilante portfolio obtido na digressão europeia desse outono passado. Para descobrir e distribuir...

FAROL #132











Do memorável serão de Damien Jurado por Braga em Outubro último transpareceu de forma nítida o gosto por séries de televisão, mania que, pelo menos, numa das canções do disco do ano passado é vincada de forma sublime em "Marvin Kaplan", nome de actor famoso do sitcom "Alice". Temos agora mais uma evidência dessa fixação - são sete as versões de genéricos de séries dos anos setenta e oitenta disponíveis para descarga gratuita, de "Gimme a Break" a "Welcome Back, Kotter" ou "WKRP In Cincinatti" que nunca passaram por cá (?) até "Diff'rent Strokes" ou "Family Ties", as "nossas" e saudosas "O Príncipe de Bel Air" e "Quem Sai aos Seus"! Explicações e ofertas aqui.

BEDOUINE, CANÇÕES DE PASSARINHO!

Na senda do excelente primeiro disco homónimo de 2017, prova-se agora que Azniv Korkeijan aka Bedouine não é um ocaso inspirativo mas sim uma notável fazedora de canções que servem de banda sonora a uma qualquer estação do ano, seja ele qual for.

Saído na Spacebomb de Mathew E. White na passada semana, "Bird Songs of a Killjoy" recebeu a produção de Gus Seyffert, uma parceria intocável que visou aprimorar doze temas de imediata irradiação criativa e certeira sedução e que tem em "Bird Gone Wild" um auto-biográfico exemplar de talento intemporal.

Quanto a uma suspirada estreia em palcos portugueses, depois de uma passagem lúdica pela capital portuguesa, não há aparentemente boas-novas apesar de Setembro próximo contemplar uma aproximação a Barcelona... 



segunda-feira, 17 de junho de 2019

FAZ HOJE (20) ANOS #05























R.E.M., Pavilhão Atlântico, Lisboa, 17 de Junho de 1999
Jornal de Notícias, por Paula Lobo, fotografia de César Santos, 19 de Junho de 1999, p. 61
. Público, por Luís Maio, fotografia de Miguel Madeira, 19 de Junho de 1999, p.36



BRUCE SPRINGSTEEN, À PATRÃO!

Isto de fazer grandes discos aos setenta anos não está ao alcance de todos! Bruce Springsteen, ao jeito de Dylan ou McCartney, continua inflexível quanto à manutenção de uma fasquia de qualidade surpreendente que alia coragem a bom gosto num punhado de treze canções reunidas em "Western Stars", o 19º álbum de estúdio editado pela Columbia/Sony sexta-feira passada. 

Ao longo do disco, há como um jogo de subtilezas orquestrais onde brilham, por vezes, os metais a lembrar os mestres Roy Orbison ou Bacharach, o "novato" Richard Hawley ou até a pop dos Last Shadow Puppets e no qual aquela voz cada vez mais marcante e segura conta, encantada, histórias do  Oeste americano de forma a nos hipnotizar e fixar na escuta. À patrão, como só ele sabe e podia fazer! 





domingo, 16 de junho de 2019

JOAN AS POLICE WOMAN, Auditório de Espinho, 14 de Junho de 2019

Na voracidade do tempo vamos desprezando uma série de artistas com obra feita e notável perseverança que são muitas vezes substituídos por outros de forma incompreensível e até injusta. O caso da americana Joan Wasser aka Joan As Police Woman é um desses exemplos em que a memória nos vai atraiçoando o reconhecimento e é preciso uma qualquer apresentação a solo para a avivar de forma clara.

Apesar de algumas dificuldades na voz suavizadas por constantes goles no chã (?) e notórias e indisfarçáveis contrariedades de espírito, a presença e classe com que Joan se apresentou em Espinho só veio confirmar o que já há muito tempo - onze anos! - tínhamos registado em Guimarães: uma composição muito própria que se adapta de forma perfeita ao piano ou à guitarra eléctrica e que recebeu pontualmente a ajuda da amiga drum machine vintage. Agora que a carreira está formalmente resumida numa colectânea tripla ("Joanthology"), o serão foi aproveitado para vincar que à quantidade e qualidade de álbuns (8) da discografia se junta uma diversidade de pérolas por descobrir e polir de forma urgente. São disso exemplo o inédito "What a World", a incontornável cover de "Kiss" e "Your Song", um lado B finalmente valorizado que serviu de suave pedra de toque final a uma noite de aparente leveza mas onde transpareceu sempre um assinalável requinte artístico.
    

sexta-feira, 14 de junho de 2019

BILL RYDER-JONES, Hard Club, Porto, 12 de Junho de 2019

Há dezasseis anos atrás, numa noite do mesmo mês, a menina Chan Marshall aka Cat Power subia ao estrado do bar Blá Blá em Matosinhos para um concerto memorável pelas más razões. Em mais de uma hora, que nos lembremos, tocou uma única canção a muito custo perdida entre devaneios, nonsense talk, bebida e mais bebida com o engrossar notório e ameaçador das reclamações, bocas e tensão, o que levou no final a uma montanha de pedidos de reembolso do preço do bilhete ao desgraçado do promotor. Não teve piada nenhuma!   

Quando Bill Ryder-Jones entrou, atrasado, em palco munido de água tónica para ir misturando com as garrafas de gin britânico Tanquerey que, tínhamos notado, já há muito que se encontravam à espera ao lado do teclado, tememos o pior. Confessado o gosto pela bebida logo que se levantou para tocar guitarra, o perigo de descontrolo como que se foi evaporando entre excelentes canções, histórias, piadas, provocações e um elevado nível de stan-up-comedy a que o público bondoso, cool, como reconhecido, foi respondendo, encaixando e apreciando.

Certamente que a set-list previamente definida não foi totalmente cumprida, mas, who cares, o serão cargo de Jones e do parceiro Liam mesmo não sendo num pub inglês acabou por resultar numa partilha tão próxima e informal que envolveu ofertas de bebidas nos dois sentidos, empréstimo de palhetas vindo do público, pedidos de canções - quem solicitou a versão de "Something Like You" de Mick Head que acabou mesmo por ser tocado merecia uma dose extra de bebida - e a fatal discussão inglesa sempre que a sineta toca na hora do fecho: para onde é que vamos a seguir? A sugestão foi para montar a "tenda" um pouco mais acima... Tudo com imensa piada!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

[SHELLAC] + O TERNO + HOP ALONG + LUCY DACUS + BIG THIEF + JORGE BEN JOR + TIRZAH + KATE TEMPEST + LOW + YVES TUMOR + ERIKAH BADU, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2019













Aos incontornáveis Shellac, que já experimentaram mais que uma vez os vários palcos do Parque da Cidade e que na véspera tinham cumprido mais uma aparição obrigatória, faltava ainda esta faceta no curriculum: servir como banda de boas-vindas na prematura entrada do recinto para surpresa e alegria de alguns sortudos, a repetição de uma perfomance semelhante feita Barcelona na semana passada. Valeu e até para o ano!



Em sábado latino, havia já uma galera considerável no recinto soalheiro à espera do trio paulista liderado por Tim Bernardes. O alinhamento que os O Terno escolherem rapidamente fez efeito festivo com as letras entoadas por uma maioria conhecedora e decidida a reinar pela alegria e partilha tão ao jeito contagiante dos canarinhos. Firmou-se ao vivo a qualidade da composição traduzida em canções de arranjos reciclados da tradição brasileira mas a que se junta um condão muito próprio que começa a ser facilmente reconhecível à primeira escuta. Atendendo à recepção e qualidade demonstrada, voos mais altos se adivinham.



Não eram muitos os que se reuniram no anfiteatro principal para ouvir os norte americanos Hop Along, uma aposta, ainda assim, premiada. Só pela voz de Frances Quinlan a ressuscitar a jovem Janis Joplin já valia a pena não dispersar e tomar em conta o conjunto de temas abrasivos e de pureza rock que o vento forte parecia querer espalhar bem longe até que alguém questionasse se o Bon Scott tinha reencarnado no feminino... Não, mas brincadeiras à parte, aos Hop Along há que continuar a prestar muita atenção!     



Sabíamos de antemão que isto iria acontecer - abandonar o concerto de Lucy Dacus ao fim de quinze e bons minutos teria uma custosa sensação a traição no que até aí sugeria ser uma actuação sem mácula e que prometia ainda maior recompensa atendendo ao suposto alinhamento que fomos antecipadamente confirmar. Jovial e segura, Dacus tem talento para dar e vender e só esperamos ter a sorte futura de o confirmar de forma tranquila. Agora havia que correr colina acima... 



Desde o primeiro disco temos os Big Thief como um caso sério de notável habilidade artística traduzida em grandes canções que um portefólio já considerável não permite facilmente seleccionar. Adrianne Lenker e companhia agarram qualquer um pela profundeza e classe de uma composição tradicional que só algum do melhor indie rock consegue absorver sem pecar e que ao vivo faz ainda mais efeito trepidante. Como último concerto da actual digressão notou-se uma alegria e cumplicidade ainda mais agregadora traduzida num final animado com a chamada ao palco da totalidade da equipa para uma despedida ao som de "Masterpiece" e a que só faltou um encore onde o mais que pedido "Mary" acabasse em definitivo com o deslumbramento.



Os quase sessenta anos de carreira de Jorge Ben Jor não cabem, obviamente, num só concerto mas a verdadeira patuscada que presenciamos na sua última parte pareciam um concentrado de êxitos populares que começou com mais "Mas Que Nada" ainda descíamos em zigue-zague a colina e só acabou trinta minutos depois sob ovação generalizada e tantos, mas tantos, sorrisos de satisfação. Se a intenção era comemorar o samba, a bossa nova, a MPB ou simplesmente a música brasileira ficou provado que, desculpem lá, estas canções já não tem dono, país, língua ou sequer idade comprovada a não ser uma classificação de maravilha cultural da humanidade!         



Numa primeira ronda desviante a um flamenco dito moderno, deparamos com duas propostas interessantes - a jovem inglesa Tirzah em registo de intimidade e negritude adornadas por Mica Levi a que uns tantos deram a devida aprovação; a não tão jovem Kate Tempest, artista, poeta, romancista e, no caso, performer de spoken word timbrada em alguma subversão e força das palavras logo agora que os dias britânicos e, consequentemente, europeus e do resto do mundo se afiguram de imprevisível compatibilidade e de sempre adiada e nada fácil harmonia.





Sem muitos rodeios diremos que os Low deram um grande concerto. Nem sempre a banda tem em disco merecido a nossa devida vénia mas confessamos que não largamos "Double Negative" desde que saiu em 2018. Negro quanto baste, a sua aura de mistério e minimalismo surgiu ao vivo como que plasmada num jogo de luzes monocromático que vai variando na cor e intensidade e que recorta a silhueta do trio num jogo de sombras em que os Jesus & Mary Chain fizeram escola. Depois, obrigado, houve tempo para "Lies", um sublime exemplar de magia que envolve uma das líricas mais fascinantes contidas numa canção e que termina com aquele "I should be sleeping by your lonely side instead of working on this song all night"....



O recinto nocturno situado entre árvores pode ser o mais pequeno mas ele é, certamente, o mais profícuo em concertos tardios inesperados e surpreendentes. Tem sido assim ao longo de quase todas as edições e este ano não fugiu à regra: Yves Tumor arrasou concorrências, multiplicou afrontas, lançou maus/bons olhados e arrebatou a plateia esbugalhada e a defender-se como pode de tanta intensidade ao longo de uma primeira investida ainda controlada e que deu direito até à oferta de posters da banda por alguns sortudos da primeira fila. Quando Tumor saltou para a frente do palco desafiando e brincando com os "melhores seguranças do mundo" enquanto a banda franzia a base instrumental das canções - aquele guitarrista em pose vintage a la Whitesnake já não é deste planeta - o jogo do gato e do rato parecia não ter um fim previsível, incerteza ainda maior com o rompimento das grades... Tumor foi, então, literalmente carregado no ar até sabe-se lá onde e o regresso ao palco para o arrasador "Lifetime" culminou da melhor forma um ciclone sonoro que até Solange Knowles (reparem bem no video abaixo ao minuto 26:17) não resistiu experimentar. Um vendaval passou por aqui!



Parece que o atraso no começo dos concertos de Eykha Badu é uma tradição infalível. À custa desses quarenta minutos de delay ainda acabamos por ter a sorte de testemunhar uma artista com o público na palma da mão, melhor, das duas mãos e perfeitamente embalado pela sua soul de modernidade acentuada. Não sabíamos e não reparamos que essa onda tinha uma tal imensidão de adeptos conhecedores e já, nesta altura, verdadeiramente hipnotizados pelo longo momento de partilha. És linda, gritou-se, foi lindo, confirmou-se!   

domingo, 9 de junho de 2019

ALDOUS HARDING + NILÜFER YANIA + NUBYA GARCIA + COURTNEY BARNETT + SONS OF KEMET XL + INTERPOL + JAMES BLAKE, Primavera Sound Porto, 7 de Junho de 2019
















Ainda agora a apresentação ao vivo de Aldous Harding no anfiteatro principal nos deixa apreensivos por más e boas razões. Começando pelas desagradáveis, restam uma série de perguntas à organização do festival que julgamos pertinentes - havia necessidade de programar para o palco cimeiro um concerto quase simultâneo e incompatível que se sabia barulhento de uma banda coreana só porque sim? Antes do agendamento alguém, por acaso, ouviu a música de Harding e a sua subtileza e, já agora, de uns tais Jambinai sem culpa nenhuma? Haverá ainda algum respeito pelos que compraram bilhete, e foram muitos, só para terem a possibilidade de ouvir a jovem artista convenientemente? As respostas, certamente negativas, afrontam um evento em fase de auto-sabotagem - este não foi o único caso - e em bicos de pé altivos em que a qualidade parece não ser muito importante mediante o peso dos números... enfim!       

A calma aparente e um engolir em seco constante perante a afronta não desmotivou Harding e companhia a, mesmo assim, alcançar um feito aplaudido e saudado de forma entusiástica o que nos leva a sugerir que a mesma organização a faça voltar lá para Novembro a um dourado teatro minhoto habituado a gente sentada para uma sagração que se exige urgente. Haja bom senso!



Para desanuviar alguma da raiva acabamos no palco ao lado onde a inglesa Nilüfer Yania e restantes jovens parceiras e parceiros tinham subido para três quartos de hora bem passados num registo seguro e de adorno maleável na pop e no soul-jazz. O disco de estreia "Miss Universe" editado este ano serviu de fonte principal das canções ensolaradas que não precisaram de qualquer protector especial mas sim da bela da cerveja e uns óculos escuros à maneira. O verão está quase aí... 



Ainda a tempo de uma pequena saltada ao estrado mais bonito do recinto para uns últimos momentos com a saxofonista Nubya Garcia, promessa do novo jazz britânico com créditos já firmados nas redondezas - esteve no "Milhões de Festa" em 2018 - e que irá regressar já em Julho a Braga e ao GNRation. Ficou o aperitivo, mesmo assim, saboroso e a vincada recomendação para não abandonar o local antes da chegada de uma irmandade baptizada de Kemet. Anotamos a sugestão mas a ementa era demasiado variada para exclusividades.     



Novamente atrasados para um concerto de Courtney Barnett no mesmo festival, denotamos a mesma energia, destreza e sapiência de um trio rock em perfeito funcionamento e oleado por canções de resistência assinalável e impulso frenético. A plateia agitada de final de tarde mostrou-se de braços abertos e pronta a acolher tamanha energia sentida em alguns coros colectivos e imediatas aclamações que prometiam um concerto em crescendo mas acabamos por não resistir ao chamamento da tal irmandade vinda do "santuário" mais acima...       



A versão XL dos Sons Of Kemet implica nada mais nada menos que quatro, sim quatro, baterias em palco em constante rotação e complemento embora esse pormenor funcional não seja facilmente perceptível. Ao contrário, a sua força e vitalidade como que invade a massa humana pelo nervo auditivo que, num instante, nos faz mexer os braços, as pernas e a cabeça numa energia distendida ainda por um saxofone e uma tuba em duelo frenético. Por vezes juntou-se um vocalista agitador e desafiador a que uma arrebatada assembleia em delírio foi dando resposta pronta desde que a festa e o efeito da poção mágica se prolongasse ao máximo. Definitivamente e para memória futura, um dos grandes concertos do festival.     



A espera desolada por espectáculos mais apetecíveis e a tentativa de ignorar o reggaetonero Balvin deixou muitos a ter saudades do exagero electrónico de palcos principais em horário nobre doutras edições... O que se ouvia do largo na fila do café sugeria, sem desprimor, uma qualquer festa de aldeia onde não faltou o pormenor da camisola CR7 ou até um bailarico de queimados estudantes, causando-nos um arrepio e sincera tristeza atendendo a que as alternativas - Liz Phair e Fucked Up - também assustaram uma maioria a vaguear entre tendas de alimentação ou resignação sentada.

Valeu que os Interpol parecem recauchutados com primor por comparação com a anterior passagem pelo recinto. Jogando com os trunfos certeiros de canções que os fizeram grandes - por exemplo "C'mere" logo a abrir as hostilidades sem esquecer "PDA" ou "Slow Hands" - a banda saiu favorecida pela aposta num palco menor e mais próximo de uma maré de aficionados que não deslarga dos nova-iorquinos por nada deste mundo, uma  chama acesa e viçosa que nem sempre se mantêm elevada atendendo a que nem tudo continua bem tocado e cantado ao vivo... Seja como for, contra a força e virtude deste rock não há argumentos.     

A música de James Blake já não é para ser tocada e desfrutada ao vivo. Ponto. Foram já várias as experiências e tentativas que fizemos para o contrariar embora a sua estreia no mesmo palco em 2013 tenha funcionado satisfatoriamente. Aguentamos o mais possível o desenrolar de temas quase sempre pouco aplaudidos e até ignorados até que chegou a vez de "I'll Come To" e "Limit to Your Love". O nosso limite, lá está, tinha chegado ao fim.

sábado, 8 de junho de 2019

MEN I TRUST + BUILT TO SPILL + JARVIS COCKER + STEREOLAB + SOLANGE, Primavera Sound Porto, 6 de Junho de 2019
















Num ano atípico quanto ao cartaz mas que seria previsível atendendo às tendências infiltradas das últimas edições, o primeiro dia do Primavera Sound Porto teve ainda a ajuda na desgraça de um tal Miguel depressivo que emite chuva e vento zangados nada primaveris mas que dá tréguas se lhe pedirmos muito!

Os simpáticos Men I Trust aproveitaram, desde logo, a primeira concessão soalheira e trouxeram a banda sonora adequada ao momento, uma pop calma e balançante que até soube bem nas primeiras canções mas que depois se foi repetindo na fórmula para desistência, sem retorno, de alguns na procura do primeiro refresco amarelo ou simplesmente para apanhar sol enquanto foi possível...



A fama longínqua dos Built To Spill tem a módica idade de vinte e sete anos traduzida em fãs fieis e discos embebidos do chamado indie rock mas a banda sempre foi aqui na casa sinónimo de uma simples canção incluída numa compilação da Red Hot Organization (Red Hot + Bothered, 1995).  O guitarrista Doug Martsch é também o vocalista dono de um timbre a la Wayne Coyne ou Jonathan Donahue que se estranha mas que não se entranhou o suficiente para agarrar a plateia a matar a curiosidade e já a pensar nas opções do jantar. Foi o que fizemos.



O nosso último contacto com os Pulp e Jarvis Cocker ao vivo tem mais de vinte anos (1998) e deu-se no chamado rockódromo das Antas num festival efémero ao lado de Nick Cave ou Ben Folds Five. Com o epílogo aos soluços da banda, o seu mentor tem mantido a solo uma variedade de colaborações e álbuns de originas de requintado teor suportado numa postura de irreverência e distância a um mainstream abusivo para enorme carinho e suporte dos aficionados. Cedo se percebeu esse conforto e partilha nos discursos e interacções satíricas, piadas sérias ou desafios nonsense que as canções lançam sobre o envelhecimento, a desumanização ou o raio da política sabuja num suporte visual e instrumental irrepreensível, seguro e de bom proveito - literalmente palpável em chocolates, badges ou goodies atirados para a plateia - mesmo que a chuvada momentânea tenha assustado os mais desprevenidos. Nada que a boa disposição e muita classe de um encartado mestre da pop não possa mandar parar...     



Algum dos temores quanto à actualidade, melhor, validade dos Stereolab tiveram uma volatilidade imediata logo à primeira canção. A reunião do colectivo vanguardista dos anos noventa apesar de criticável tornou-se inatacável pela eficiência de uma sonoridade que parecia datada em temas como "French Disko" ou "Ping Pong" mas que uma década de pousio não azedou. Muito longe disso, o concerto foi de uma sobriedade e inteligência notáveis, uma dezena de temas de seleccão perspicaz e execução perfeita culminada com o alucinado clássico "Lo Boob Oscilator", dez minutos de mistura de ingredientes e géneros de que só este laboratório tem a patente e o segredo!   



A estranheza do cenário onde uma escada conduzia a um piso superior no qual se embutia uma caixa para a bateria tinha o branco como única cor. A troupe de músicos, dançarinos e vocalistas de trajes negros e a respectiva ocupação dos lugares sugeria um ritual preparado a rigor para uma entrada endeusada e altiva de Solange. Errado. A noite haveria de ser bastante colorida e de fragrância subtil espalhada de imediato na imensa plateia pelo feitiço ondulante soprado na harmonia da voz, das vozes, da coreografia dançante e simétrica dos músicos e na muita simpatia e estofo artístico da mana Knowles. Mesmo a bátega de água repentina que quase no final decidiu atormentar o recinto acabou por se revelar abençoada, limpando e refrescando uma noite de coroação merecida e iluminada!