sexta-feira, 24 de maio de 2019

ERIKA DE CASIER + TORO Y MOI, Hard Club, Porto, 23 de Maio de 2019

Coube à menina dinamarquesa Erika de Casier aquecer a plateia ainda em fase animada de enchimento e alto volume de conversa. Se captar a sua atenção já não era fácil, a pouca luz projectada em palco e o volume da voz no limite do sofrível só ajudaram a que a oportunidade de envolvimento fosse perdida e que, raio, se questionasse para que serva o esforço de aquecimento nestas condições. Enfim... Valeu, mesmo assim, a licitude das canções retiradas de um disco de estreia recente de embrulho no r&b moderno e em constante rejuvenescimento.



Não, não, caro Chaz, não passaram cinco ou seis anos sobre qualquer visita à Invicta. No nosso caso, a única e primeira vez que vimos ao vivo Toro y Moi foi em Vila do Conde em 2011 e, por isso, urgia uma inédita dose de chã da CUF dançante em recinto condizente e postura descontraída pronta para a destilaria.

Atendendo à ementa disco funk do último álbum, o bailarico podia começar de imediato mas só à terceira canção com "Ordinary Pleasure" a onda de choque começou a fazer efeito, um balanço curto tal como os temas originais que precisam de "passagem" sabida e que teve na eficácia do velhinho "Stll Sound" uma agradável surpresa. Aquando de ritmos mais lentos era ver o bar apinhar-se de sequiosos convivas sempre à espera de motivos de força maior para esvaziar o copo que não demoraram a soar - "Fading" ou "Baby Drive It Down" por exemplo - mas foi com a dose dupla de "Freelance" que os copos acabaram mesmo entornados. Improvável e nunca vista esta versão imediatamente memorável de uma canção tocada, cantada e dançada colectivamente em repeat como que a carregar para trás num botão do tempo que não existe mas que afinal é possível para festarola generalizada! Foi como andar nas nuvens, melhor, na água... 


quarta-feira, 22 de maio de 2019

UAUU #489

CHANTAL ACDA, É A VEZ DE BRAGA!















Passaram menos de quatro meses sobre os concertos de estreia de Chantal Acda por Portugal e já se anuncia o regresso! Assim, dia 19 de Julho, sexta-feira quase a passar para sábado, no pequeno auditório do Theatro Circo em Braga há uma nova oportunidade sortuda de ouvir a pérola abaixo e certamente muito mais...


terça-feira, 21 de maio de 2019

JESCA HOOP, SINCERA TERNURA!

Depois do excelente disco ao lado de Sam Beam (2016) e da consagração artística com "Memories are Now" (2017), a menina Jesca Hoop, nascida nos E.U.A. mas com residência habitual por Manchester, tem um trabalho inédito pronto a sair pela Memphis Industries já em Julho. Para o efeito, regressou uma boa temporada à Califórnia nativa, jogando com algumas incertezas e desafios fora da sua zona de conforto, arriscando ainda uma viagem a Bristol para se juntar ao mítico produtor John Parish na depuração das canções.

O resultado chama-se "Stonechild", espelha alguma tensão nessa colaboração de autoria e a consequente edição minimalista e têm ajudas das amigas Rozi Plan, Kate Stables (This Is the Kit) e de Lucius que surge no single de apresentação "Shoulder Charge". Há já em pré-encomenda uma versão em vinil pesado com direito a um single em flexidisc e uma gravura assinada pela artista, cortesia simpática de amor ao planeta em constante perigo de subversão e que, de forma sincera e ternurenta, é como que abraçado em todas as canções. Aqui fica um primeiro carinho...

segunda-feira, 20 de maio de 2019

WEYES BLOOD, REGRESSO AO MINHO!

É o regresso imperioso, necessário e inevitável de Natalie Mering aka Weyes Blood ao Minho - no GNRation de Braga há concerto marcado para dia 5 de Novembro, terça-feira, para apresentação de "Titanic Rising", disco que por essa altura estará na antecâmera de qualquer lista de álbuns do ano. Acreditem!

domingo, 19 de maio de 2019

CHARLES WATSON, Centro de Arte de Ovar,17 de Maio de 2019

Do duo inglês Slow Club e das suas canções perfeitas para playlists só temos saudades. As razões da separação ou pausa artística de Rebecca Taylor e Charles Watson em 2017 depois de uma intensa digressão e ao fim de cinco álbuns registados lado a lado motivaram até um documentário on the road que nunca vimos apesar de ainda não termos desistido da oportunidade... Aproveitando, lá está, a oportunidade demos um salto rápido a Ovar para a apresentação do disco que sabíamos existir e que Watson auto-produziu a solo e editou precisamente há um ano sob o título de "Now That I'm a River" mas a que não demos particular atenção. Fizemos mal.

Ao vivo, em modo quarteto completo, o serão deu direito a surpresas agradáveis na descoberta de uma sonoridade folk sonhadora de matriz sofisticada como facilmente se percebe ao ouvir canções como "Abandoned Buick" ou "Tapestry", toada que causou forte impressão e resposta firme do pouco público presente em cima do palco do espaço cultural que merecia outra envolvente, adesão e fruição. Contudo, para pelo menos vinte crentes o esforço valeu bem o risco e quase atrevimento...     

ARP FRIQUE, FUNKALHADA EM SERRALVES!





















A romaria habitual ao parque de Serralves tem no dia 1 de Junho, Sábado, motivo de festa maior - a estreia de Arp Frique na cidade do Porto serve de apresentação gratuita do álbum "The Colorful World of Arp Frique" lançado pelo holandês Niels Nieuborg o ano passado. Trata-se, obviamente, de um mundo colorido preenchido de sons africanos, caribenhos e até cabo-verdianos caldeados pelo funk e o disco de cepa e registo muito próprio. Vai ser freak Chic!

sábado, 18 de maio de 2019

FAZ HOJE (23) ANOS #02

















UNDERWORLD, Discoteca Rocks, Vila Nova de Gaia, 18 de Maio de 1996
. Público, por Rui Catalão, fotografia de Mário Marques, 20 de Maio de 1996, p.31



sexta-feira, 17 de maio de 2019

UAUU #488

PVC - PORTO VINIL CIRCUITO #24

































Para quem colecciona discos em vinil, principalmente os singles, este autocolante redondo e dourado com o desenho hippie de um jovem a tocar guitarra e o nome Telmira colado na parte traseira da capa é um sinal comum da proveniência original de compra. Trata-se de mais uma discoteca do grande Porto situada na maior artéria da cidade que tinha localização junto do jardim do Marquês e que, atendendo à quantidade de discos que nos surgem à frente com a tal referência, deverá ter tido muito sucesso comercial desde os anos setenta já que o número de telefone não apresenta indicativo, acrescento só oficializado no final dessa década.

Entre uma churrasqueira e uma loja de malas em liquidação, hoje no local está instalada uma ourivesaria e a loja foi já aparentemente modificada na fachada com um pórtico em granito que envolve um persiana metálica negra protectora do valioso recheio... Pelo hábito que vamos confirmando ao vasculhar discos antigos, o recheio de então não seria muito ecléctico mas apontando aos êxitos populares tal como é referido sem rodeios na embalagem - "os últimos sucessos em música ligeira e clássica". A nós calhou-nos este!

Nunca lá entramos ao contrário de, certamente, muitos clientes que chegavam e saiam do centro da cidade por essa rua em troleicarros vermelhos de dois andares, nomeadamente o 9 e o 29 que vinham de Ermesinde, Travagem ou Águas Santas, faltando saber se, numa das ruas com maior efervescência comercial da Invicta havia, ou não, mais alguma loja de discos...   

                          Discoteca Telmira, Rua Costa Cabral, 13, Porto


                               Telmira Discoteca, Rua Costa Cabral, Porto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

RICKIE LEE JONES, VERSÕES & PONTAPÉS!





















Culto antigo aqui da casa, a notável e nunca resignada Rickie Lee Jones está de regresso com mais um álbum de versões a que chamou "Kicks" e onde contorna, à sua inimitável maneira, alguns standards da pop, do rock e do jazz dos anos 50 até aos 70.

O disco sai no dia 7 de Junho na editora OSOD (Other Side of Desire), selo da própria artista que desta forma cumpre o desígnio de publicar este projecto só possível em sistema de crowfounding e que foi registado em New Orleans com músicos e instalações locais. A produção dividiu-se entre Jones e Mike Dillon, vibrafonista da sua banda, e contempla dez abordagens a temas de Elton John, Louis Armstrong, Steve Miller Band ou Skeeter Davis e até os incontornáveis America de que se dá a conhecer a versão de "Lonely People" e o respectivo video alusivo.

Habituada a interpretar temas alheios, já em trabalhos semelhantes Jones nos tinha surpreendido com escolhas arriscadas vindo-nos à memória o grande "Pop, Pop" de 1991, uma dúzia de versões de alto calibre ou a parceria memorável com os The Blue Nile no Channel 4 britânico um ano antes e que não resistimos recordar. Essa e outras histórias estão contadas pela própria na recente auto-biografia "Rickie Lee" que vamos, obviamente, querer ler e reler...



terça-feira, 14 de maio de 2019

TIM BERNARDES, E VÃO CINCO!













Bem sabemos que antes ainda há o concerto dos O Terno no Primavera Sound da Invicta, mas já se anunciam cinco datas a solo de Tim Bernardes para Setembro! Lisboa, Santarém, Aveiro, Porto (CDM, 23, Segunda-feira) e Braga (Theatro Circo, 25, Quarta-feira) são as cidades escolhidas.

Recorda-se que Bernardes passou por perto em Junho passado, nomeadamente por Espinho e Lisboa onde registou esta maravilha junto ao Tejo. 

domingo, 12 de maio de 2019

KAMASI WASHINGTON, Hard Club, Porto, 10 de Maio de 2019

A audição de qualquer um dos grandes discos de Kamasi Washington para além de compensadora é também um bilhete de ida sem volta a um mundo por descobrir que, a partir do jazz, nos transporta em simultâneo para a soul, o funk ou o afro-latino. Essa dimensão plural tem na agregação de subtilezas instrumentais um trilho venoso que cada músico vai bombando meticulosamente de forma a que o resultado brilhe sem aparente dificuldade mas onde a qualidade extrema é um fito obrigatório e cerebral.

A transposição lubrificada desta máquina para cima do palco de uma sala onde se junta uma massa humana na expectativa de a ouvir a operar de fio a pavio - a bombar, como a agora se diz na gíria - é um momento sublime que ainda agora estamos a digerir gostosamente. Podem os puristas vir com os habituais e bafientos argumentos de profanação das regras ou das pautas, mas o espectáculo a que tivemos a felicidade de presenciar foi, na verdade, uma comunhão colectiva de amor e partilha à música que se eleva sem freio a uma espessura sonora caldeada de emoção, destreza, perícia e harmonia.

Para alcançar tamanha proeza unificadora Kamasi tem a seu lado no saxofone os parceiros e amigos certos a quem dá em concerto a tal visibilidade que os discos escondem e que, caramba, são de uma aptidão avassaladora. Para memória futura, foram eles, Ryan Porter no trombone, Miles Mosley no baixo tchhhh acústico, o pai Rickey Washington na flauta, Brandman Coleman nas teclas, um extraterrestre wonderiano de chapéu apropriado da NASA na cabeça que, aparentemente, substituiu uma vocalista em falta e Robert Miller e Tony Austin nas duas baterias, sim, duas baterias que se questiona para que servem mas que só ouvindo e vendo ao vivo, como no despique praticado, se pode tentar explicar de forma ligeira.

Ou seja, uma noite de celebração magistral onde uma corrente libertadora deu continuamente a volta do palco até ao fundo do recinto num imenso carrossel controlado e que só parou algumas vezes para ganhar fôlego sempre que o mestre levantou o punho, um gesto de comando mas, acima de tudo, de resistência e fúria em que a música sempre foi exemplar. És grande, Kamasi... e companhia!   

sábado, 11 de maio de 2019

TRACY BONHAM + RACHAEL YAMAGATA, Drogaria Bar, Porto, 9 de Maio de 2019
















A estratégia de promoção de um festival galego de feições atraentes e a que se deve estar atento (Jonathan Wilson a tocar numa esplanada!) trouxe até ao Porto uma dose dupla de artistas no feminino de elevada estirpe. A oportunidade improvável de ver Tracy Bonham e Rachael Yamagata a tocar num cosy bar da baixa não acontece todos os dias e, apesar do horário incomum, o espaço estava cheio e de frequência internacional, melhor, intercontinental! A mudança de recinto à custa da chuva insistente não espantou americanos, asiáticos ou sul americanos que cedo ocuparam os poucos bancos fronteiros entre goladas em copos de vinho ou cerveja para reparar o calor do recanto e na expectativa quanto a tamanha dádiva.

Começou Tracy Bonham que, desde logo, impôs boa-disposição em canções de voz segura, clássica até, e onde não faltou o hit "Mother, Mother" em versão a cappella e coro colectivo. Na estreia nacional tardia mas bem-vinda, ressaltou o domínio do violino - o pizzicato é sempre maravilhoso - e do piano e ficou-nos na retina auditiva temas de excelência como "Reciprocal Feelings" a encerrar (aquela destreza e classe com que ultrapassou a falha de memória quanto à letra só está ao alcance de alguns), mas, acima de tudo, uma canção que não precisamos o título (Where's My Village?) de acutilância activa quanto aos tempos estranhos em que vivemos... Bastava este pedacinho para dar a noite como ganha! 



Salas, teatros ou auditórios continuamente esgotados pela Ásia e Europa (na próxima semana há duas datas lotadas em Londres!) são uma realidade a que Rachael Yamagata se acostumou nos últimos anos ao lado de uma banda de músicos tarimbados sem, contudo, qualquer paralelo por cá. Notou-se, mesmo assim, a presença de alguns fãs nacionais mas, principalmente, a vibração e intensidade da maioria estrangeira em imediatas ovações estridentes e no soletrar incessante das letras, de todas as letras das canções! Animada, Yamagata respondeu com um alinhamento diverso e já profícuo retirado dos variados discos e no qual o teor de balada amorosa foi o mais audível e que a fez vingar como fenómeno internacional. Gostamos mais da versão que a aproxima de Regina Spektor ou Ray Lamontagne o que não pode embaciar a sua faculdade e condão em aproximar e encolher corações um pouco por todo o lado nem que seja no fundo de um bar simpático.

Vai, pois, haver sempre um dia ou um momento em que vamos continuar a lembrar uma lenda fidedigna que confirma que Yamagata e Bonham tocaram pela velhinha Rua Santo Ildefonso... 
      

sexta-feira, 10 de maio de 2019

RHYE, O ESPÍRITO DO PIANO!





















A música subliminar do projecto Rhye a cargo do canadiano Mike Milosh há muito que se entranhou na nossa veia pop. Ao excelente disco "Blood" do ano passado, que teve direito a apresentação pelo Parque da Cidade, junta-se agora um aparente regresso às origens com o novo álbum "Spirit" onde o piano ganha a primazia da composição em oito peças de amor à vida e ao espírito positivo que a prática do instrumento permitiu recuperar. Colaboram amigos como Thomas Barlett aka Doveman, Dan Wilson e Ólafur Arnalds no tema "Patience". Há também, a partir de hoje, um video dirigido pelo próprio Milosh para "Needed", avanço insuspeito de qualidade e sedução.

3X20 MAIO
















quarta-feira, 8 de maio de 2019

TORO Y MOI DE SECRETÁRIA!

HEATHER WOODS BRODERICK ENTRE PASTAS!

Directamente dos arquivos e estúdios de Manhattan da Paste, uma antiga revista impressa convertida em versão digital, temos vinte minutos na companhia de Heather Woods Broderick com tempo para explicações ou desabafos sobre o último e grande disco "Invitation" e três canções ao vivo, sendo que a primeira, "A Stilling Wind", é desde já uma das pérolas do corrente ano...   

terça-feira, 7 de maio de 2019

FAZ HOJE (15) ANOS #01




































ELVIS COSTELLO, Coliseu do Porto, 7 de Maio de 2004
. Diário de Notícias, por Marcos Cruz, fotografia de Pedro Correia, 9 de Maio de 2004, p. 41
. Público, por Rui Baptista, 9 Maio de 2004, p. 42

Nota: da era pré-blog (2006) e depois dos respectivos bilhetes e (alguns) videos televisivos, iniciámos hoje uma escavação documental resultante dum achado recente: uma pasta repleta de recortes de imprensa com críticas e reportagens de concertos em que estivemos presentes e que tivemos a paciência de guardar para mais tarde recordar. Chegou a hora... e a que acrescentaremos, se possível, uma canção ou momento marcante dessa noite ou desse dia. Velharias!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

ANNA ST. LOUIS, TAGV, Coimbra, 4 de Maio de 2019

Sobre a estreia coimbrã de Anna St. Louis em pleno palco invertido do teatro académico, uma inédita e estranha opção cenográfica e logística, podíamos talvez reclamar do desconforto das cadeiras, do ruído exterior de fundo ou da reduzida plateia aderente em noite de fitados e (ainda pouco) queimados...

Contudo, o concerto não deu é direito a duvidar da perfumante emissão de subtileza e sensibilidade das canções que, mesmo poucas, soaram sempre perfeitas e muito ao jeito do amigo Kevin Morby com quem Louis partilha, certamente, influências e alguns esgares vocais e que o primeiro álbum oficial "If Only There Was a River" editado o ano transacto acelera na confirmação.   

A penumbra do local, que só poucas vezes foi tenuemente aclarada, só veio somar mais mistério a uma alquimia clássica de voz e guitarra em que a folk americana é imbatível e que pairou ofuscante em versões cirúrgicas de Van Zandt ou Dylan mas que na voz e timidez da figura de Anna St. Louis cresce primorosamente em sedução e beleza. Ficamos feridos de... vida! 

THE DIVINE COMEDY, O REGRESSO DO CHEFE!





















O anunciado e prometedor disco novo de Mr. Hannon com os The Divine Comedy a sair em Junho terá o devido prolongamento ao vivo nas redondezas com datas em Lisboa, Coimbra e Braga (9 de Novembro, Sábado, Theatro Circo), cidade onde encerrará a digressão europeia. Ok, chefe!


domingo, 5 de maio de 2019

RAMI KHALIFÉ + LONNIE HOLLEY, Festival Respira, Theatro Circo, Braga, 3 de Maio de 2019

Fotografia: facebook do Theatro Circo 














O segundo de três dias do festival Respira!, que coloca o piano como ponto de partida e chegada de diferentes viagens sonoras, teve no franco-libanês Rami Khalifé uma primeira etapa com alguns altos e baixos embora cedo se tenha percebido o excelente domínio das oitenta e oito teclas do instrumento e mais alguns dos seus prolongamentos de cordas, prática enraizada desde cedo numa família libanesa martirizada pela guerra civil e cujo refúgio europeu permitiu verter na música uma forma de vida

Foi nas peças instrumentais que Khalifé melhor conseguiu expressar a contemporaneidade e validade da sua composição, momentos sublimados por forte ovação da plateia que contrastaram com alguma sensibilidade mais fria expressa na quase totalidade das canções cantadas em libanês que, mesmo em menor número, nos sugeriram um pouco de sensabor e até banalidade. Valeram, por isso e sem vacilação, os crescendos e decrescendos de uma forte dinâmica de ritmado impacto onde até um inesperado sapateado-beat quase nos levantou da cadeira...
     
Fotografia: facebook do Theatro Circo















O curriculum de Lonnie Holley há muito que impressiona pelas dificuldades de uma infância miserável contornada pela descoberta de uma expressão artística a três dimensões traduzida em formas escultóricas concebidas com restos de lixo urbano e que muitos museus norte-americanos acabaram por incorporar. Quando Holley encontrou um velho teclado Casio e o conseguiu pôr a funcionar, a música improvisada passou a ser mais um grito incontido e prolongado sobre a "situação" americana nas suas injustiças sociais ou atentados ambientais, um agitar consciente contra o status quo que artistas como Bill Callahan ou Bon Iver ou bandas como Animal Collective ou Deerhunter cedo ajudaram a trazer a públicos mais alargados.

O último álbum "MITH" editado em 2018 é já o resultado desse reconhecimento, um manifesto visionário produzido por Richard Swift e registado ao longo de cinco anos em várias cidades americanas como a natalícia Atlanta, Nova Iorque ou Cottage Grove mas também o Porto, sim, o Porto, onde esteve em 2016 como convidado do Fórum do Futuro no Rivoli e onde passou alguns tempos em estúdio na companhia do trombonista Dave Nelson e do baterista Marlon Patton - o duo de jazz Nelson Patton.

Foi tão brilhante parelha que o acompanhou na estreia bracarense onde Holley começou ao piano, como que cumprindo o desígnio do evento, mas rapidamente se instalou sentado num género de púlpito central onde se escondia o tal teclado inicial (?). Foi daí que, até ao fim, nos lançou uma impressionante poética de vivência pessoal e de efabulação mitológica contagiante expressa de forma vincada por uma voz quase rouca e trinada que lembra Armstrong, isso mesmo, forte e segura na urgência de mudar o mundo ou conter a destruição ambiental como cantou sofregamente em "I'm A Supect in America" logo a abrir no único momento ao piano de cauda.

Embora alguns dos presentes mostrassem sinais de enfado, a maioria como que se hipnotizou por esse homem-lenda de olhos esbugalhados a profetizar com energia sobre opressão, racismo ou consumismo de fundo instrumental notável, um retrato vivo e distendido da conturbada realidade de um país que nos habituamos a reduzir a um ecrã de televisão mas que ali, na sala magnífica do teatro centenário, se transformou num toque a rebate universal de urgência caducada. Uma perfomance memorável e, acima de tudo, necessária. Acordai!



quinta-feira, 2 de maio de 2019

BILL CALLAHAN, TU ÉS O NOSSO PASTOR!





















Apresentado de surpresa como um álbum duplo de vinte canções a sair já em Junho pela Drag City, o regresso de Bill Callhan aos originais ao fim de cinco ("Dream River" de 2013) tem capa alusiva devidamente misteriosa e metafórica relativa ao próprio título, "Shepherd In a Sheepskin Vest".

O pastor tem, assim, um imenso rebanho na expectativa quanto a uma intensa digressão norte-americana logo a seguir e que chegará à Europa a partir de Outubro. Só bons sinais mas ainda sem audições disponíveis a não ser o barulho das máquinas....

UAUU #486

MARVIN GAYE, UM ACHADO PERDIDO!

Em 1972 do génio de Marvin Gaye parecia que mais um grande álbum se aproximava logo a seguir a "What's Going On" (1971). Teria o nome de "You're The Man" mas a Tamla Motown sem razões conhecidas descartou o projecto. Já com algumas canções gravadas em Los Angeles com a colaboração dos The Funk Brothers, custa a creditar nesse aparente sacrilégio com Gaye a responder à altura, partindo contrariado para o magistral "Let's Get On" e remetendo o tal "You're The Man" para o baú do esquecimento.

Em Março passado a editora, via Universal, pôs finalmente cá fora uma edição póstuma mas oficial desse "You're The Man" que descobre alguns dos tesouros e dá brilho ainda mais intenso a outros. É o caso do tema "Where Are We Going?" já previamente lançado em 12" de vinil em 2014 com versões do mesmo tema de Donald Byrd no lado B e que foi lançado em single de 7" dois anos depois, peças que atingem agora preços proibitivos. A canção perdida de tão grande merecia, por todas as razões, nova prensagem em rodela... uma perdição !   

quarta-feira, 1 de maio de 2019

MARC RIBOT, Auditório de Espinho, 30 de Abril de 2019

Com as partituras numa mão e a guitarra na outra, Marc Ribot entrou em palco, pousou as folhas no apoio, sentou-se e elevou a perna esquerda em cima do pequeno suporte agarrando a parceira acústica como se fosse a primeira vez. Enroscando-se nela, de cabeça flectida na curva lateral da velha companheira chamada Gibson HG-00 e nascida em 1937, a dupla estava pronta para o ritual de encantamento que se adivinhava vigoroso.

Começou devagar, como que experimentando a vontade da amiga e a sua própria destreza nesta primeira noite de tournée a solo, para depois se estender em longos momentos de vanguardismo e ecletismo onde a aparente improvisação confirma dotes surpreendentes de talento reconhecido. Pode ser a decompor, pareceu-nos, o "Hino da Alegria", um outro qualquer standard ou um estudo de John Zorn, a postura e entrega afincada é sempre a mesma, levando-o nessa intensidade a quase sussurrar as notas que toca e que ali, na frente do palco, nos sugeriram leves lamentos de sofrimento...

Entre dois ou três goles na garrafa de água e um rápido olhar para o relógio, as tais partituras pareceram como que esquecidas, olhadas de soslaio e quase reduzidas a meros lembretes, para de imediato a dupla se fazer novamente elevar num tanger e partilha que ganhou forma indivisível moldada na mais perfeita fundição. Por respeito a tamanha amizade, fidelizada em longos anos de cordialidade, Ribot em momento algum largou a companhia, elevando-a no final em jeito de sagração merecida e para que dela nunca nos olvidemos. Certamente que não. Puro prazer.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

(RE)LIDO #88


LIBERDADE É FRUTO
Discos Perdidos e Outras Canções de Abril
de João Pedro Almeida da Rocha. Coimbra; Secção Filatélica da A. A. Coimbra, 2017
Temos por dado adquirido que durante o período de ditadura um conjunto de cantores portugueses sofreram represálias e privações motivadas por questões ideológicas ou políticas e que muitos dos seus discos e canções foram simplesmente apreendidos ou banidas de emissões televisivas ou radiofónicas pela censura.

José Afonso, Sérgio Godinho, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Luís Cília ou Manuel Freire são só alguns dos artistas mais conhecidos sujeitos a essa perseguição com história mais que documentada e retratada e que escondem um cenário mais abrangente de incómodo criativo em quantidade inimaginável.

Ora, este livro tem o grande mérito de assinalar e destacar, para além destes, outros nomes de um panorama de cantautores no masculino (por exemplo, José Matildes, Eduardo Lemos, Francisco Naia ou Raimundo Jorge) e feminino (por exemplo, Natércia Aguiar, Ana Maria Teodósio, Maria Amélia Proença ou Teresa Paula Brito) que continuam esquecidos na penumbra apesar de terem sofrido do mesmo tratamento ignóbil. São-lhes traçadas as biografias, reproduzindo fotografias, notícias de imprensa da época e capas dos discos raros e entrevistando-os, quando possível, directamente, escolhendo cronologicamente uma das suas canções como exemplo comprovado dessa acção censória de grilheta e as histórias negras associadas.

Mesmo que por vezes a escrita não seja a mais cativante, o autor consegue reunir um conjunto de informações e dados inéditos por nós e por muitos ignorados que ajudam a compreender uma época vibrante da edição discográfica em Portugal, permitindo destapar algumas das estratégias e subterfúgios dos autores, das editoras, das distribuidoras ou dos realizadores de rádio ou televisão para tentar "contornar" a sujeição.

Coleccionador metódico de discos de música portuguesa, nota-se a sua paixão pela faceta dita de intervenção e o seu assinalável esforço em concretizar, no que sugere ser uma auto-edição, um projecto obviamente inacabado mas de interesse colectivo inquestionável. Deixamos aqui três exemplos de "histórias" aí incluídas que talvez despertem a vossa curiosidade e que vos levem a comprar e folhear o livro como é merecedor.





sexta-feira, 26 de abril de 2019

THE CHURCH, O REGRESSO A UMA IGREJA!


























Pertencemos há muito a um rebanho convertido aos discos dos australianos The Church, uma adesão de espírito iniciada em 1985 com a audição plena de "Heyday", o terceiro álbum onde estava "Disenchanted", tema sagrado nos alinhamentos de muitos momentos radiofónicos do "Som da Frente" do mestre António Sérgio.

Ao longo de mais de trinta anos a banda de Steve Kilbey manteve sempre um nível elevado e uma postura low-profile alicerçada numa camada de fãs heterogénea, atenta e confiante mesmo com o abandono do fundador Martin Wilson-Piper em 2013.

Depois de uma passagem pela capital em Janeiro de 1990, estão agora agendados dois concertos no Porto (10 de Setembro, Hard Club) e Lisboa (11 de Setembro, RCA) que marcam os trinta anos do disco "Starfish", talvez o trabalho mais conhecido do colectivo já que não havia, nem há, forma de resistir ao clássico "Under the Milky Way"... Ficamos, ansiosamente, à espera do baptismo e da benção! 



UAUU #485

quarta-feira, 24 de abril de 2019

LAU NAU, A MENINA DO MAR!





















Era uma vez um novo registo da finlandesa Lau Nau disponibilizado pela editora australiana Longform Editions que acentua o lado experimental desta verdadeira cientista do som com especialidades confirmadas em bandas sonoras de filmes, peças teatrais, workshops ou instalações artísticas. São vinte minutos baptizados de "Amphipodacaptados em 2018 durante uma curta residência no Elecktronmusikstudio EMS de Estocolmo destinada a estudar e a transformar em música as mudanças do mar Báltico, nomeadamente as variações na quantidade de plâncton mediante alterações do oxigénio, da temperatura da água ou de invasões salgadas do Mar do Norte...           

Para o efeito, Laura Naukkarinen, de seu verdadeiro nome, utilizou um aparelho vintage denominado Buchla 200, sintetizador histórico verdadeiramente imponente na sofisticação de infindáveis comandos analógicos que despertaram rapidamente a veia exploratória duma artista sem receios na imersão, às escuras, em tamanho desafio mas de resultado espe(a)cial.

Recordamos com saudade a sua notável passagem pela Culturgest da Invicta em 2009, noite que haveria de repetir em 2015 no já extinto bar Canhoto, ambas de guitarra em punho, instrumento que a aproxima um pouco mais ao folk cinemático que o disco "Poseidon" de 2017 veio de forma magnífica acentuar. Havia por Viseu um festival agora interrompido onde a sua presença seria uma dádiva genuína. Efemeridades... 




terça-feira, 23 de abril de 2019

(RE)LIDO #87





















NEM TODAS AS BALEIAS VOAM
de Afonso Cruz. Lisboa; Companhia das Letras, 2016

(…) A música é a pior coisa do mundo, altera o humor, distorce o juízo, as pessoas perdem a solenidade necessária para raciocinar friamente e com objectividade. Pior, sobe o efeito da música as pessoas apaixonam-se e depressa começam a fornicar e fabricar mais seres humanos, a partilhar os fluídos mais íntimos como se fosse Coca-Cola, numa voragem aberrante que culmina na mais perversa das criações naturais: a população. A música reduz o QI, a música, disse Santo Agostinho, devia ser proibida. Quem não concorda? E, mais assustadora do que tudo, a mais sinistra característica do mundo: faz as pessoas dançarem.” 

...chegados à página oitenta e seis eis que o autor saca de uma pitada de sarcasmo para acentuar que, se a música é na vida real a balança decisiva de algum bem-estar, a sua negação nas palavras de um tal Erik Gould é uma fantasia ilusória do mesmo nível do título do livro.

Esse personagem, pianista de jazz com jeito para tirar das teclas não só sons mas, principalmente, memórias e histórias saudosas, é o enrolador principal de um novelo tramado que envolve uma campanha inventada pela CIA com o objectivo de permitir aos E.U.A. em plena Guerra Fria reconquistarem o reconhecimento do mundo através da supremacia da música jazz.

Os seus solos de piano sugerem cartas de amor eterno a uma mulher, a única na sua vida, mas que sofre um revés irreversível com o seu misterioso desaparecimento. O fruto dessa paixão tem, no entanto, no filho Tristan a personagem arrebatadora do romance - misterioso, entranhante, sufocante é nele que a música tem o emissor e receptor centrifugado que, entre alegorias e metáforas brilhantes, nos amassa tristemente na sua procura estéril pela mãe através de um atlas impresso... Afinal, alguma felicidade vai encontrá-la numa caixa de sapatos, sim, uma caixa de sapatos!
   
Se em romances anteriores Afonso Cruz demora a nos convencer pela escrita, com este livro o estatuto pleno de romancista é atestado num estilo surpreendente onde a experiência de músico multi-instrumentista nos The Soaked Lamb assume uma faceta inspiradora, o que neste Dia Mundial do Livro só pode ser o melhor dos brindes!


segunda-feira, 22 de abril de 2019

THE CHEMICAL BROTHERS, UM MUNDO CÃO?

Há mais de um mês atrás um video para o novo tema "We Got To Try" dos The Chemical Brothers começou a fervilhar na rede. As imagens de um cão a conduzir um Fórmula 1 ou a pilotar uma nave espacial serviram, supostamente, de isco atraente a todos os amantes das famosas corridas e dos animais de quatro patas para a nova época da modalidade automóvel em franco declínio e a precisar de reinvenção urgente.

Junta-se agora um making off do tal video realizado por Ninian Doff que mostra o programa intensivo a que o animal esteve sujeito, neste caso uma cadela de nome "Girl" com jeito e panache para o papel pretendido. O desempenho motiva-nos algumas dúvidas quanto ao porquê e para quê deste sacrifício animal mas quanto ao mundo cão da Fórmula 1 ficamos conversados... 

Os The Chemical Brothers estarão a carregar no play no fim de noite do dia 13 de Julho do festival NOS Alive. 



PREFAB SPROUT ACÚSTICO!





















O nosso prognóstico dourado quanto ao corrente ano para os Prefab Sprout tem agora ainda mais um lustre - a edição da versão acústica de oito das canções do disco "Steve McQueen" no passado Record Store Day rapidamente se tornou numa peça de colecção cobiçada! Os mil exemplares de vinil pesado disponibilizados desaparecerem de circulação em todas as lojas e nas plataformas online havendo já petições para uma nova reimpressão enquanto os preços de revenda começam a chegar num ápice aos três dígitos.

A audição destas versões estava somente disponível como segundo disco em formato CD da edição "Legacy" datada de 2007, uma colecção à guitarra e pouco mais que o próprio Paddy McAloon registou propositadamente no verão de 2006 com a ajuda do produtor Calum Malcom e com o nada inocente propósito de destapar e reinventar os originais produzidos por Thomas Dolby em 1985.

Na capa é por isso ele que aparece sozinho sentado na mesma Triumph que serviu de adereço à imagem colectiva do disco original obtida por John Warwick, uma homenagem ao próprio Steve McQueen e à sua paixão por motorizadas dessa marca inglesa eternizada no filme "The Great Escape" de 1963. A utilização do nome do famoso actor despertou na altura alguma confusão legal com a família, levando a que o álbum nos E.U.A. acabasse por receber o título de "Two Wheels Good ", referência sarcástica ao livro "1984" de George Orwell. À fotografia a preto e branco, certamente obtida na mesma sessão, foram agora acrescentadas algumas cores, repetindo-se desta forma um procedimento artístico manual usado em 1987. Trata-se de um dos poucos aperfeiçoamentos promocionais utilizados já que às canções acústicas não foram dados quaisquer retoques.

Há, como seria de esperar, dislates e desilusões ("When Loves Break Down") e também boas surpresas e preciosidades e que são, no nosso caso e desde que as ouvimos pela primeira vez, as que abaixo elegemos sem contemplações...






sábado, 20 de abril de 2019

(RE)VISTO #74





















GOOD VIBRATIONS
de Lisa Barros D'Sa e Glenn Lyburn, UK, DVD, 2013
Agora que o aparente clima de paz irlandesa está seriamente ameaçado pelos acontecimentos dos últimos dias, resolvemos, finalmente, ver este filme em dvd importado referente a uma promessa que envolve a memória que aqui trouxemos e que diz respeito a um encontro imediato numa loja de discos em Belfast em 1998...

Para um qualquer melómano que tem no disco de vinil o objecto de desejo contínuo e nos concertos ao vivo quase um modo de vida, ora aqui está um argumento cinematográfico onde os factos verídicos nos enredam de imediato, ou seja, desde que Terry Hooley decidiu montar uma loja de discos em Belfast chamada "Good Vibrations" como forma de ganhar, melhor, levar a vida acinzentada em plenos anos setenta entre conflictos sócio-políticas e eternas tensões religiosas.

No papel principal está o actor Richard Dormer que, ao que parece, é agora famoso pela participação na série "Guerra dos Tronos", uma encarnação arrebatadora de um herói local que semeou com esse simples avanço um rastro de irreverência juvenil traduzida no lançamento de singles de bandas locais de feição pré-punk e das quais se destacariam os The Undertones e o incontornável e simbólico "Teenage Kicks", o tema preferido de John Peel e que o próprio estreou e rodou duas vezes seguidas no mesmo programa!

Está cá tudo - as roupas, os ambientes, os cabelos, os sotaques, as canções - mas vem à tona em todos os momentos uma saborosa nostalgia de tempos onde a partilha e a amizade se faziam de rádio ligado e na insistência abnegada no "do it yourself", assim mesmo, por extenso. Envolvente, mesmo com alguma exagero ficcional, há também para comprovar uma interpretação graciosa de Jodie Whiteaker no papel da esposa amada, paixão que o próprio Hooley em roda viva vai involuntariamente armadilhando. Um filme de época sem idade e uma reconstituição que inspira, expira e respira aquilo que o mundo da música tem de melhor - a paixão e as consequentes boas vibrações...     


quinta-feira, 18 de abril de 2019

O TERNO EM VOLTA E MEIA!

Dos mais que recomedados O Terno aqui fica uma volta e meia ao jeito de quinteto com a ajuda de Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto, dueto habituado a estas aventuras...

KEVIN MORBY, OMG É ROCK N ROLL!

Está agendada para a próxima semana a saída do quinto álbum de originais de Kevin Morby pela casa Dead Oceans. Em "Oh My God" o californiano afirma-se plenamente realizado e satisfeito com o resultado circular e pleno de muitos sacrifícios como o confessado tormento de passar noites inteiras dormitando no chão ao longo de sete anos como estratégia inspiradora para encontrar a passagem certeira para o seu próprio mundo artístico a que simplesmente chamamos música. Cada um tem o seu, certamente!

Com a ajuda na produção do habitual compincha Sam Cohen, as catorze canções são, por isso, o fruto de diversas vivências e experiências de trilho acurado e decisivo para que a perfeição não seja somente uma questão de teimosia e determinação. Há já três enormes exemplos dessa insistência para ouvir bem alto a que se junta a expectativa na audição de, por exemplo, "Piss River" na qual recebeu em estúdio a magnífica harpa da amiga Mary Lattimore ou "Seven Devils" onde há, ao que parece, um inebriante solo de guitarra a cargo da ex-parceira de banda Meg Duffy aka Hand Habbits.

Morby tem actuação marcada para os jardins do Museu D. Diogo de Sousa em Braga para o próximo dia 8 de Julho, segunda-feira, e, mesmo a solo e tal como nos discos sem excepção, espera-se rock n' roll do melhor...





quarta-feira, 17 de abril de 2019

LOU DOILLON, SOLILÓQUIO DE TALENTO!















A menina Lou Doillon podia ter-se deitado no distinto berço progenitor que tem em Jane Birkin e no realizador Jacques Doillon um casal afamado, mas esta meia-irmã mais nova de Charlotte Gainsbourg tem sangue na guelra suficiente para se afirmar desde muito jovem pelo seu indisfarçável talento, figura e irreverência que vai passeando nas passerelles da moda, do cinema, da televisão ou teatro e até na pintura!

Mas foi pela música que, desde o álbum de estreia em 2013, ficamos aficionados e onde ganham relevo inúmeras canções de eleição e os respectivos videos e a que falta experimentar uma apresentação ao vivo até agora inédita em Portugal. Em Fevereiro passado saiu um terceiro disco de nome "Soliloquy", um conjunto assinalável de temas que surpreende pela força e consistência da composição e dos arranjos que desta vez ficaram a cargo exclusivo da artista e da sua tenacidade, avançando sozinha para a produção que em álbuns anteriores teve colaborações vistosas de gente como Etienne Daho, Lay Low ou Taylor Kirk (Timber Timbre).

Entre o menu irresistível desse notado solilóquio de talento, aqui deixamos três enormes modas cantadas a que se pode acrescentar a magnífica balada "It's You" ao lado de outra poderosa chamada Cat Power, canção que já por aqui também merecidamente destacamos





segunda-feira, 15 de abril de 2019

TASHI WADA GROUP feat. JULIA HOLTER & COREY FOGEL + THE BLACK MAMBA, Westway Lab, C.C.V. Flor, Guimarães, 13 de Abril de 2019

Na senda do pai Yoshi, o filho Tashi Wada dedica-se a explorar afincadamente o minimalismo sonoro com a cumplicidade do progenitor e de uma alargada colaboração de amigos e quase família onde se incluem Julia Holter, o percursionista Corey Fogel, a performer e dançarina Simone Forti, a vocalista experimental Jessika Kenney ou a compositora Laura Steenberge. Foi nesta roda de influências e confluências que foi registado o ano passado o disco "Nue", título que joga num suposto e dual significado da palavra, ora "nu" na língua francesa ora a alusão a uma figura mitológica japonesa...

À programada apresentação ao vivo destas nuances conceptuais foi acrescentado o resultado prático de uma recente residência artística pela galeria ZBD onde Wada recebeu formalmente a ajuda de Julia Holter nas teclas e vozes e de Corey Fogel, improvisador que tem na bateria um leque alargado de recursos surpreendentes e inusitados, trio constituinte do tal grupo anunciado no cartaz e que ocupou subtilmente o palco fronteiro do espaço vimaranense.

Sem apresentações, cumprimentos ou introduções, a perfomance rapidamente se notou de séria vibração, um ambiente de tensidade friorenta onde uma plateia já reduzida se foi exaurindo na imensidão do espaço e na geometria sonora apresentada, uma múltipla graduação de improviso futurístico ora sonhador ora confrangedor, o que atendendo à sua dessintonia, para alguns, ou à sua singularidade, para outros, motivou reacções diversas de desistência, contemplação ou, como merecia, atenção. Estranho, mas, mesmo assim, de atrito multiplicador.         



Como que transportados para uma outra e inesperada dimensão em menos de quinze minutos, damos connosco no palco principal do recinto indoor de negro pintado para a apresentação dos The Black Mamba. Reduzindo os blues e a soul a um aparelho mainstream onde não falha nenhum dos trejeitos orquestrais ou sequer os famosos agitadores de plateias de fim de noite - bracinhos no ar, palminhas e interacções sugeridas - o colectivo nacional tem na máquina instrumental um forte trunfo para jogar onde tudo rola num sobe e desce infalível e oleado mas em que já nada surpreende ou nada se acrescenta e que serve pelo menos para passar um bom bocado.

Questionando o que é que uma banda já tão tarimbada que até esgota Coliseus estava ali a fazer - tínhamos o Westway Lab como um evento internacional para descobrir novos talentos e/ou novos projectos - ah, pois é, a montra viu o rapaz Tatanka fartar-se de falar inglês ao jeito de uma entrevista de emprego no estrangeiro. Como não nos pareceu haver mais candidatos do mesmo calibre e com tão comprovada experiência, talvez o telefone acabe por tocar com algum indicativo que não o +351...   


sexta-feira, 12 de abril de 2019

UM TERNO DE QUALIDADE!

O quarto álbum dos brasileiros O Terno chama-se «atrás/além» e tem lançamento em pré-venda já dia 24 de Abril pelo Selo O Risco. As primeiras duas canções disponibilizadas são imediatamente recomendáveis e nelas sobressaem os arranjos e letras de Tim Bernardes, um caso sério de talento que o disco a solo "Recomeçar" de 2017 só veio ajudar a reforçar e robustecer. Ao lado de Biel Basille na bateria e Guilherme d'Almeida no baixo, ora aqui está um trio de extrema competência que parece ter neste novo disco conceptual um definitivo e arrasador certificado de qualidade.

A banda teve recentemente o privilégio de fazer a primeira parte dos Arctic Monkeys no Rio de Janeiro e está anunciada uma parceria em cima do palco com os Capitão Fausto na próxima edição do Rock In Rio no Rio de Janeiro a 6 de Outubro, aventura que se repete em Abril de 2020 em Lisboa - os grupos encontraram-se em São Paulo em 2017 aquando dos primeiros esboços do último dos lisboetas "A invenção do dia claro", curiosamente também o quarto, recentemente lançado.

Recorda-se que os O Terno estão alinhados no cartaz do Primavera Sound do Porto e tocam dia 8 de Junho, sábado. Já agora, podia ser ao final da tarde com uma boa brisa, sem chuva e o sol a desfazer-se...




DANIEL KNOX EM SETE POLEGADAS!





















Ainda no âmbito do RSD, merece destaque pela sua raridade e novidade a edição de um single de 7" em vinil por parte de Daniel Knox. Registados logo após as sessões de gravação do último álbum "Chasescene" em 2017, os temas "Die Hard" e "Die Harder" que integram a pequena rodela foram os últimos em parceria e colaboração com o multi-instrumentista Ralph Carney, falecido em Dezembro desse ano e ainda, nas suas palavras, um particular momento de viragem quanto à composição diferenciada de canções. A excelente fotografia de capa pertence ao conceituado artista de Chicago Mr. King e envolve uma edição limitada em vinil branco de quinhentos exemplares...

UAUU #483

RECORD STORE PRAY 2019!

Enquanto em algumas cidades por esse mundo fora onde o fervor vinílico é acentuado se fazem filas de véspera para a abertura das lojas aderentes ao Record Store Day de amanhã, por cá o dia correria de feição e sem pressões se, por um qualquer acaso, esta dúzia de goodies retirada de uma imensa lista acabasse no nosso carrinho de compras. Pena não termos $$$ tempo $$$...



















quinta-feira, 11 de abril de 2019

THE DELINES, É DESTA?

























Depois da passagem inicial em 2015 aquando do primeiro álbum, os maravilhosos The Delines vão regressar a Espanha em Outubro para quatro concertos. Atendendo à qualidade extrema de "The Imperial", disco do ano passado, será de todo pecaminoso que os norte-americanos não cheguem também até ao nosso cantinho imperial...

UAUU #482

3X20 ABRIL
















terça-feira, 9 de abril de 2019

JEFF TWEEDY, AINDA MAIS QUENTINHO!





















Na semana que culmina com o tal dia dos discos essencialmente em vinil espalhados por lojas ditas independentes - 13 de Abril, Sábado, Record Store Day - começam a fervilhar pepitas de eleição à distância de uma carteira recheada e de uma equação difícil entre a oferta e a procura.

É o caso de Jeff Tweedy, o Mr. Wilco que nos surpreende com a edição de "Warmer", álbum exclusivamente em vinil que funciona como um companheiro adiado do disco "Warm" editado a solo no ano passado. Com a mesma origem, ou seja, as mesmas sessões de gravação, o registo recebeu um género de curadoria do próprio artista separando as canções que faziam sentido agrupar em dois álbuns diferentes mas inseparáveis pela quentura sugerida. Aqui fica o primeiro escaldão...


COLIN STETSON, GNRation, Braga, 7 de Abril de 2019

A fama de Colin Stetson assenta, dizem, na longínqua e diversa colaboração com o mundo do rock, de Bon Iver a Arcade Fire passando por David Byrne e, caramba, Tom Waits e num nada habitual recurso do saxofone-baixo e outros inusitados metais que aprendeu a soprar como ninguém. Estes cartões de visita até que podem ajudar ao curriculum mas Stetson vale muito mais por mérito próprio em mais de uma dezena de discos de originais, o último dos quais "All This I Do For Glory" foi o motivo para o concerto de final de tarde em Braga.

Sendo esse o primeiro trabalho auto-produzido numa já longa carreira mas donde foram excluídos loops ou overdubs, a apresentação em solitário sugeria ser a oportunidade perfeita para um teste a três dimensões à sua música densa e visceral. Alternando o tal enorme saxofone baixo com um clarinete contrabaixo e um outro saxofone, o alto, Stetson prendeu-nos a todos a um limiar sonoro de voltagem elevada e continua enquadrado pela perfeição da sala na sua dimensão, cor e moldura humana.
   
A proximidade do palco cedo permitiu perceber a exigente técnica de respiração que Stetson desenvolveu e aprimorou, um inalar e exalar de fazer literalmente revirar os olhos, os dele e os nossos, o que atendendo ao peso e destreza implícita ao manobrar e soar dos instrumentos eleva a perfomance a um nível atlético exigente e colossal só possível com uma dedicação e treino de alta intensidade! Sem dúvida, um dos melhores concertos de fim de tarde indoor a que tivemos a felicidade de assistir em muito tempo e, certamente, um dos mais supremos do ano.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

ROBERT FORSTER NO PASSOS EM NOVEMBRO!

Segundo a edição de hoje do Jornal de Notícias e no âmbito da digressão de final do ano, o australiano Robert Forster dará um concerto no Passos Manuel portuense a 22 de Novembro, sexta-feira, chegando a Lisboa no dia seguinte. O espectáculo servirá de apresentação do novo disco "Inferno" saído o mês passado e onde faz a apologia de dias quentes por Brisbane envoltas numa série de histórias dessa cidade natal que o ex-Go-Betweens sabe muito bem como contar. Espera-se, por isso, magia e só é pena que os The Goon Sax, a banda do filho Louis, não venha fazer a primeira parte...

WEYES BLOOD, UMA CANÇÃO PARA A MUNDOVISÃO!














Se já nos parecia pelos singles largados que o álbum "Titanic Rising" de Weyes Blood marcaria os meses que restam do corrente ano, agora que já o ouvimos dezenas de vezes insistimos e recomendamos logo a abrir uma daquelas "canção monumento" chamada "A Lot's Gonna Change" que parece saída milagrosamente de um encontro fortuito entre um Rufus Wainwright vintage e o génio clássico de Burt Bacharach mas com um anjo a (en)cantar! Há por aí muito dream pop mas deste calibre torna-se cada vez mais raro... até Lana Del Rey se deixou converter ao magnetismo. Um mundo!

domingo, 7 de abril de 2019

DAMIEN JURADO, ALERTA AMARELO!















Tal como previsto desde Fevereiro passado, está confirmada a partir da próxima semana a passagem e manutenção de uma tempestade sonora que acarretará riscos de dependência e elevada perigosidade - o álbum à guitarra "In The Shape Of a Strom" de Damien Jurado merecerá acompanhamento e vigilância contínuas por parte do nosso satélite amplificador, um sistema apurado que detectou uma nova tormenta chamada "Throw Me Now Your Arms". Aconselha-se, desde logo, moderação...

GARETH DICKSON, Avenida Café-Concerto, Aveiro, 3 de Abril de 2019

A digressão nacional dos escocês Gareth Dickson teve em Aveiro um inédito mas eficaz ponto de partida. Mesmo sem uma resposta numerosa de público, o momento gratuito teve o condão de motivar o artista para quase uma hora e meia de um contínuo e inimitável minimalismo acústico que nos sugere sempre uma crueldade - a quebra de uma intimidade exposta em forma de canções onde à fragilidade e subtileza da lírica quase sussurrada se sobrepõe um divino dedilhar das cordas da guitarra.

Da nossa parte, o resultado desta combinação acelera de imediato uma tensão gratificante na concentração necessária para desfrutar plenamente de um alinhamento parecido mas, ainda assim, mais generoso que o da última passagem por Gaia em 2017 mas onde não faltou a já clássica triologia "This Is The Kiss", "Atmosphere" (Joy Division) e "Two Trains".

Mesmo que, mais uma vez, as suspiradas versões de Nick Drake tenham ficado esquecidas, Dickson não conseguiu evitar entre a sua simpatia e humildade uma capacidade inata de nos provocar daqueles raros calafrios tonificantes, (re)confirmando um qualquer crédito ou dúvida que, eventualmente, estivessem a pairar na escuridão da sala quanto ao brilhantismo da sua música, da sua arte e da sua bondade. Volta sempre, mate!