Os líquidos sonoros a misturar foram desenterrados em livros e lendas antigas irlandesas, em poesia mitológica ou épicos obscuros que induzem num resultado premeditado de folk ancestral e que o último disco "Ramscéla", de 2025, se confirma como aprovado para consumo e fruição. Chamam-lhe slacker trad., uma acumulação acertada de pesquisa em tradicionalidades ditas e cantadas por ela como fórmula arquivista de história ao vivo a partir de sobreposições de base. Confuso?
A reinvenção, dir-se-á, o arrojo, foi acolhido com respeito, muito silêncio e contínua atenção, como dando fundo sonoro a um filme invisível não projectado, mas que se imaginou obscurecido e deslavado pela iluminação colorida que o palco foi dando ao desiderato, permitindo reparar nos leitores portáteis de cassetes, na guitarra tocada com um arco de crina de cavalo ou como as estrias dos discos de vinil foram sempre ponto de partida para as variações e separações das partes. Tudo isto, numa assentada hipnótica, de significativa catarse, a que a plateia bateu muitas palmas. Aprovado? Carimbado!
Os lisboetas Heroína, arrebanhados para substituir uma falta no alinhamento, praticam, como agora se diz, um som visceral de hardcore e dissonância de riffs. Gravaram um álbum este ano com o mesmo nome - "temos merch" repetiu o vocalista - e são, para quem gosta, desafiadores e competentes. Vinte minutos durou o sobressalto no palco subterrâneo, vinte minutos em que também fomos postos à prova. Saímos vivos.
Quis a espera por um famoso prego vimaranense que, no regresso, já os thredd se estivessem quase a despedir do público. Do que ouvimos, como amigo atento reparou, talvez os The XX ainda estejam a rodar nos camarins, sem que a semelhança seja sequer um distintivo abonatório. É pop, algo suja, de balanço batido em electrónica sincopada que a vocalista convidou a registar para um suposto suporte em imagens de "Looking at Me". Tá bem. Aqui fica na nossa contribuição... audiovisual!
O verdadeiro motivo para a deslocação à cidade berço chamava-se My New Band Believe. O disco homónimo deste ano é uma pedra constante de pop-rock bem feita, apelativa na sua variação melodiosa de escolhas orquestrais, e instrumentais, de mestre, neste caso, baptizado de Cameron Picton, um dos que dava grandeza aos Black Midi.
Vê-los, no vigor viciante das canções e da fila da frente, comprovou todas as expectativas, mesmo que a plenitude da produção final que o disco emite tivesse sido reduzida a uma intensa prática instrumental que, suportada pela percussão de uma bateria e um contrabaixo, teve em duas guitarras acústicas um cruzamento impressionante.
Alinhados, os temas dinamizados foram todos do referido álbum, provando-se a enormidade de alguns deles e de que "In the Blink of an Eye" será o cúmulo superior. A excepção foi "Numeology", canção só depois incluída, como se fosse preciso, em edições melhoradas.
Se dúvidas houvesse sobre o futuro da música popular, daquela que é verdadeiramente ensaiada, tocada e libertada sem truques, será pois melhor convidar estes britânicos para uma qualquer masterclass presencial de quarenta e cinco minutos como a de sábado à noite.
Acreditem, se o nome da banda pode soar estranho, a competência, humildade e brilhantismo da sua essência é, realmente, de outro mundo. Um luxo!
Meia hora depois, no mesmo palco e perante uma massa compacta na expectativa, aos também ingleses Mandy, Indiana foi dado o privilégio de encerrar os concertos do Mucho Flow. Ao comando, a vocalista e letrista Valentine Caulfield cedo relembrou causas seculares activas como o machismo ou a violação sem consequências de mulheres, atiçando a agitação e a dança aproveitando um fundo instrumental duro e, helas, cansativo. Até para o ano.














