A postura de Meshell Ndegeocello, que sempre se alargou a muitas e boas dimensões extra soul, mantem-se indiferente a modas e conivências - para a semana estará cá fora "Synonym", uma escolha de canções clássicas de muita gente e épocas com um denominador comum, ou seja, duetos e dos de peso.
A intenção é festejar, com alegria, a diversidade e a individualidade, hoje, bastante ameaçadas. Para isso, viva, aderiram de imediato, entre outros, Cat Power, Chaka Chan, Bill Callahan, Lianne La Havas, Moses Sumney, Nick Hakim, Laura Lee (Khruangbin) ou Lizz Wright, numa selecção que alcança monstruosidades como Sonny and Cher, The Human League, Roberta Flack, Bob Dylan, George Michael & Aretha Franklin, Nirvana, Prince ou The Carpenters. Ufa!
A Blue Note, perante o ambicioso projecto, o terceiro da artista na casa de Los Angeles, anda num rodopio perante a dimensão, ainda não plenamente avaliada, de um longo e óptimo disco que se vai destapando de forma surpreendente. Vejam e ouçam lá isto...
Há nas canções de Jorge Palma um efeito radiofónico que se estendeu ao longo dos anos. Foi mesmo só pela rádio que as ouvimos, mas confessamos que nunca fomos impelidos a ir vê-lo ao vivo ou a comprar um disco seu. Duas excepções, contudo: o primeiro single, hoje peça rara, que preços proibitivos sempre o distanciaram da nossa colecção, substituído pela reedição manhosa de 2022; "Voo Nocturno", álbum de 2007, só para matar a curiosidade e confirmar a inspiração de "Gaivota dos Alteirinhos", praia da Zambujeira que, por essa altura, era também parte do nosso poiso veraneante.
Admirávamo-lo naquele jeito Gainsbourg de levar a vida entre amigos, palcos e borga e de que o projecto Palma's Gang foi um expoente latente, mas lá está, de muita estroina arriscada. A carreira, de orografia montanhosa e de que cada disco era uma confessado diário de viagem, será, porventura, o maior exemplo de liberdade criativa de um compositor português em democracia. Não é pouco e deve ser mesmo imbatível. Paz!
De regresso a Braga, por onde apresentou, em 2023, o álbum anterior "We Fall In Turn" no Festival Semibreve, a trombonista Katia Vandever têm agora na manga "Mana", uma recente insistência na manipulação e reverberação de um inusitado trombone como semicondutor de uma brisa jazz empoeirada.
Parece, mesmo assim, uma exploração sonora desafiante para público interessado na escuta e em muita da aparente ocultação de melodias ou polifonias. Para outros, mais novos, novos demais, a façanha foi só sinónimo de tormento, atendendo ao tempo que um miúdo ao nosso lado, irrequieto na cadeira, foi tapando os ouvidos...
Esta relação criativa com o aerofone tem servido à jovem artista de caminho circular entre a mitologia havaiana dos seus ancestrais e um futurismo electrónico de loops e dubs duplicados, o que ganhou na referida novidade, em disco, um cada vez mais insistente emprego da voz, debitando lentas frases em jeito de lírica minimalista.
As duas peças com este receituário que escolheu para o alinhamento foram mesmo as mais bem recebidas e, notoriamente, conseguidas, trilho que se adivinha apalavrado para continuar a servir de experiência espiritual e, como não, ambiental. A fragrância, mesmo a carecer de algum refinamento ao vivo, tenderá a conduzir-nos na fruição dessa admirável e intrigante grandeza que é a música.
Há nas canções de Sam Burton um veio de encantamento que nos continua a estremecer. Ainda neste verão, colamos os ouvidos umas tantas vezes ao disco "Dear Departed", de 2023, sempre com o mesmo fascínio, quase anacrónico, que multiplica o prazer e uma veneração involuntária. Majestoso nas orquestrações que só Jonathan Wilson sabe, por estes dias, aplicar em modo vintage, lá fomos questionando quando é que outras pérolas estariam prontas para luzimento.
As deambulações e atritos da vida na estrada, que conduziram a um susto rodoviário, pós-pandémico, ao lado dos companheiros de palco, intimidaram e abortaram muitos dos projectos, muitas das parcerias e, claro, muitos dos sonhos. Nómada inquieto, nada como insistir nas virtudes e dotes de composição há muito validadas, mesmo que o desprezo com que muitos o olham, enquanto lhe batem a porta, seja só um fortificador. Outras se abrirão, como sempre!
Com data prevista de lançamento a 30 Outubro próximo, sabemos agora que “Fairweather Friend” é o nome de um álbum que a Captured Tracks acolheu no seu catálogo depois da estreia, única e, aparentemente, incompreendida, na Partisan Records. Habituado a bolandas, o crooner palestiniano-americano como que se transforma, outra vez, pela singeleza dos instrumentos e um minimalismo da produção que o aproxima, na rudeza acústica, a um formato de concerto a solo.
Ouçam-se, pois, duas das maravilhas que, confiante, Burton já pôs ao sol para voltar a brilhar com autoestima... e sem amigos da onça.
À custa de uma mala perdida em Paris que não chegou a tempo, o principal instrumentista moçambicano de Bongeziwe Mabandla viu-se sem aparelhos e maquinaria, nada que o desenrascanço português não deslinde. Feito o aviso e mal se largaram as primeiras canções, poucos se haveriam de lembrar do imprevisto entre uma fornada de temas do novo, fresquinho (Agosto), disco "Ndingubani", o que se traduzirá como um "quem sou eu" bem expresso na sua vulnerabilidade e intimidade.
Foi perante essa primeira meia hora de embalo que alguns olvidaram a maciez da manta para se juntarem na dança apropriada, e o momento sugeria um crescendo festivo que acabaria, estranhamente, por se diluir numa madorra baladeira dispensável. Só quando, mais à frente, se retomaram os acertos das batidas e alguma da distinta sonoridade africana, um toque que em estúdio de Maputo têm tido dedo de Tiago Correia-Paulo, o espectáculo como se aclamou de novo numa veia sedutora e de centralina vibrante.
Impregnado de algum magnetismo, a que a estranheza da língua aportou benéfico exotismo, a primeira aproximação do sul-africano ao norte do país, mesmo que atribulada e um pouco bamba, confirmou-se, assim, de ponderação e azimute auspiciosos. Ngiyabonga!
O projecto colaborativo de Gyan Riley, Devendra Banhart e Noah Georgeson baptizado de HUG vê no dia de hoje a luz do dia depois de algumas canções terem circulado desde há três meses. Dados como irmãos, quase família que se foi reunindo para se entreter nas canções, o resultado recebeu interesss da editora Luaka Bop e de que já foi disponibilizada escuta total.
Riley e Georgeson cresceram juntos no Nevada californiano e com uma paixão assolapada pela viola acústica a que se veio juntar, mais tarde, Banhart, todos com afinidades e referências numa dita "folk" mas também na experiência, na espiritualidade e outros desdobramentos quase sempre instrumentais. Três semanas no estúdio bastaram para depurar onze trechos que sugerem tradição e futurismo e que se devem ouvir e degustar na calma possível dos dias.
São só simples abraços, daqueles sentidos, para serem recebidos em próximos concertos agendados para os E.U.A. já em Outubro e que pode ser que cheguem, apertados, a outras paragens...
Depois de uma passagem pelos Açores, Braga, Lisboa e Leiria em 2025, a britânica Keeley Forsyth e o pianista Matthew Bourne apresentaram pela primeira vez no Porto o álbum "Hand to Mouth", uma última investida destilada e arrepiante de voz e piano onde à intuição auditiva é indispensável associar uma vertente performativa.
Uma feira do livro sugeria estranheza para servir de estreia na cidade, mas o jogo de sombras da palavra com o som não demorou a estimular a imaginação que se pode desfolhar numa qualquer narrativa romanceada, no caso, certamente de feições negras e sensações tumultuosas. O acento, a gravidade da voz de Forsyth, a lembrar Scott Walker ou Diamanda Galas, não deu azo a descontracção da pouca plateia presente, atenta ao dramatismo da perfomance corporal e teatral de obscuridade propositada e misteriosa.
Não foram só do referido disco as escolhas alinhadas - por exemplo, "Turning", que no registo original têm no saxofone de Colin Stetson um esquisito input, foi ali substituído pelo bater do grande piano, ou "Unravelling", que no seu frame "find a better place" motivou a deslocação da cadeira par um canto ainda mais escuro do palco. Tudo num fôlego dark de intensidade vibrante, que só num último tema alaranjou, de forma épica, uma penumbra ofegante. Mesmo quase às escuras, um concerto luminoso e, maravilhosamente, aprisionante!
Temos nos Miramar um acaso feliz da nova música portuguesa. Encorpando e incorporando uma certa tradicionalidade instrumental, é nas e pelas guitarras que se moldam sons para diferentes paisagens e terrenos bem lusitanos e tão atlânticos que será difícil colá-los a outro qualquer país. Será, até, questionável que esse efeito, muito nosso, de tornar erudito o que se afigura simples, seja compreendido por outros nativos e foi, por isso, bom ver muitos paraquedistas estrangeiros de visita ao palácio de Cristal a estacar nas traseiras da plateia, aprovando a beleza dos temas, batendo muitas das palmas e sacando do telemóvel para registar a novidade e a surpresa.
Peixe e Frankie Chavez, que não se limitam a emaranhar-se em águas nacionais, como o provam muitos temas onde a slide guitar e a guitarra eléctrica serpenteiam desertos americanos, são já donos de uma trilogia de discos complementares que foram fluindo desde 2019 de forma discreta, se bem que diferentes nas suas peculiaridades e colaborações. Para a Concha Acústica trouxeram a mais valia de um percussionista, António Serginho de seu nome, que alimentou ainda melhor um apetite diversificado pelo suspiro, pela saudade de lugares e vivências que as composições, de excelente acústica, multiplicaram entre o muito, mesmo muito, público que aderiu à travessia.
No nosso caso, e tal como em 2022, a experiência proporcionada continua a valer um carimbo certificado de prazer e ilusão, despertando memórias, quase sempre das boas, e de que se (re)quer reinício ou repetição obrigatória. Miramar, sinónimo de maravilha!
A ponderação sugere ser uma estratégia há muito assimilada por Agnes Obel. Sem pressas, sem excentricidades, o que será herança dinamarquesa/escandinava, fazer discos requer tempo e vontade que o nascimento do primeiro filho parece ter condicionado num adiamento que agora, seis anos depois, tem término programado.
É assim que o novo álbum "The Meaning of Flowers" teve produção e gravação inteiramente assumida no estúdio de Berlin, doze temas inspirados pela felicidade e ansiedade maternal, mas também por veias poéticas sumérias de Enheduanna ou ideias e ideais filosóficos de Hannah Arendt ou do italiano Emanuele Coccia. Pessoal e intransmissível, a experiência sonora implica muita atenção e disponibilidade e será, como sempre, o fermentar de um renovado fascínio.
Não têm sido muitas as oportunidades de testar ao vivo a densidade dos Osso Vaidoso, projecto antigo de Ana Deus e Alexandre Soares de que "Miopia" (2016) é o último disco oficialmente editado. Nele, e para além de letras originais, adaptavam-se poemas de Alberto Pimenta ou palavras de Sá de Miranda e Nicolau Tolentino para uma musicalidade de guitarra e voz dita ou cantada. Entretanto, o conceito recebeu, durante a pandemia, um convite extensível a autores de Trás-os-Montes e a Feira do Livro do Porto seria, pois, o momento indicado para a estreia adiada na cidade desta viagem e logo em palco de lindeza rara.
Perante uma boa plateia, sem enchente, cruzaram-se maravilhas, outrora entaipadas, de Miguel Torga (São Martinho de Anta, Vila Real), Sebastião Alba (Torre de Moncorvo), Domingos Monteiro (Barqueiros, Mesão Frio) e Maria Ondina Braga, canções de ninar em mirandês e até uma abordagem ao clássico brasileiro "Mãe Preta" como lembrança involuntária do sítio do Palácio de Cristal onde, em 1934, decorreu, aos nosso olhos, a vergonhosa Exposição Colonial Portuguesa.
Juntou-se a contribuição da harpa feiticeira de Eleonor Picas, tudo em modo de lição literária e instrumental de evidente inquietude ou não fosse o verso "A música vinha duma mansidão de consciência" de António Gancho (1940-2006) o nome feliz do ciclo programado para FLIP deste ano. Uma sorte que a cidade agradece e que a secular Concha Acústica, em jeito de gema protectora, tem por hábito dar estremecido aconchego...
Usando, perigosamente, o símbolo antigo de @como nome e a que será melhor chamar atband, a banda promete prolongar a veia folk vintage no segundo álbum "Autosmile" que a 4AD se prontificou a promover.
Lá para meio de Outubro, será possível ouvir de uma assentada os onze novos temas da dupla Victoria Rose e Stone Filipczak, multi-instrumentistas que trabalham a partir de casa, em Filadélfia, cada um na sua privacidade e intimidade e sem testemunhas, para só depois, quase sempre na sala de Filipczack, se terminarem os ajustes com a ajuda de um par de amigos. Horas ou minutos em qualquer estúdio profissional é, pois, simples desperdício.
A onda é, então, acústica e sem exageros delicodoces, a que alguma imprensa cola um rótulo de psicadelismo, permitindo uma fruição de ambiguidade sónica que, ao vivo, já se deu a ouvir em primeiras partes de concertos de Cameron Winter ou Black Country New Road. Mesmo tímidos, recatados, a presença em palco tem vindo a melhorar e deverá receber cada vez mais solicitações à medida que a beleza da sua música vai atingindo mais ouvintes. Uma boa e bem pesada arroba de folk!
Um estranho teaser do novo "Punching the Clown" dos Lambchop, saído aquando do anúncio do novo álbum em Maio, tem agora contexto brincalhão e explicação imperdível.
Trata-se de um short film dirigido pelo próprio Kurt Wagner, com prestações dos actores Henry Phillips e Steve Marsh e é uma paródia simultânea à radio, à música, ao país... Chama-se "joke country"!
O disco, enorme companhia por estes dias de verão e de férias, aguarda apresentação ao vivo marcada para Novembro e já com salas esgotadas. Não é piada.
Entre recentes e apelativos singles de vinil ao lado de Mary Chapin Carpenter, um primeiro e oficial disco ao vivo, para além do álbum de originais do ano passado, John Darnielle e os seus The Mountain Goats são uma roda viva de canções, azáfama que acaba por ser tão natural como respirar.
Este mês surgiu, assim, "Days", pr'a aí o vigésimo quinto em nome próprio com explicações que só Darnielle sabe dar em jeito "cromático" - que as canções começaram a fluir depois de uma piada feita nas redes sociais sobre uma demo chamada "Contemplating Pearl Jam in the Carolina Dawn", estendendo-se depois a diferentes temáticas das décadas de 70, 80 e 90.
Há, pois, novos temas sobre Annie Haslam, cantora, compositora e artista visual britânica, conhecida como vocalista da banda de rock progressivo Renaissance, sobre Eddie Nash (1929-2014), dono de uma boîte e de um restaurante de Los Angeles onde lavava dinheiro e controlava um negócio de drogas, ou Layne Staley (1967-2002), vocalista falecido dos Alice In Chains!
Mas há muito mais, como contemplações a Charlie Sheen ou uma canção chamada "Best Hard Rock Álbuns 2013". Tudo passageiro, rotineiro, prazenteiro e... soalheiro!
Reticente, mas animada, por um dos principais dilemas da sua vida, quem não - amar e ser amada sem perder a liberdade - a australiana Julia Jacklin gravou um quarto álbum de originais em Melbourne, cidade para onde foi viver em 2017. Lá ganhou poiso num pub cercano, fazendo amizades e conexões artísticas que serviram na ajuda ao registo das canções moldadas no recato caseiro e num quarto de hotel situado mesmo por cima do referido bar.
Na zona fica também o Rat Shack Studios do amigo Robert Muinos, amigo de Jacob Diamond, guitarrista, e amigo de Jess Elwood, baterista. A aventura do quarteto, em zona residencial de apertado controlo do ruído, durou um ano, entre constrangimentos logísticos e arreliadoras repetições, mas o grupo chegou a dar dois concertos na taberna só para experimentar os novos temas.
E assim temos "The Gem", nome agora celebrizado do pub em questão, disco a editar pela 4AD no final de Setembro, casa onde se estreia depois de terminado o contrato com a anterior editora. São já três, num total de dez, as composições divulgadas e o conjunto tem apresentação ao vivo pela Europa marcada para 2027.
Como é habitual, a digressão acaba em Portugal, com a data de 3 de Março, quarta-feira, já reservada para subida ao estrado do LAV da capital.
Do palco pequeno para o palco grande em três anos, A Garota Não voltou a Coura reforçada na sua condição de lutadora moderna. À custa de uma "escolha de caminhos", a canção é a sua arma explicita apontada ao grassar da guerra, do racismo, da corrupção, da misoginia, do direito à habitação ou à saúde. Um género de refrão do "Liberdade", que Sérgio Godinho escreveu em 1974, e que está cada vez mais difícil de cumprir em tempos de privatizações e desinformação que a banda projectou em tensão aumentada, mesmo que encurtada numa série de medley's. Um trio de cantoras deu-lhe volume, grandeza e um enorme coração de apelos em megafone - para além do próprio Godinho, José Mário Barnco, Rage Against the Machine, Elza Sares, Gilberto Gil foram os outros dos "caminhos escolhidos" para fazer do anfiteatro "um vale encantado" de união a uma canção colectiva sem final. Por isso, sim, PQOP a todos!
O título do único disco dos suecos Tomode é categórico - "Existential Disco". À pergunta se os muitos que enchiam o empedrado do palco pequeno estavam prontos para dançar, a resposta foi simplesmente continuar o hip-shake de embalo em muitos riffs e trejeitos funk e disco onde a banda, sem disfarces, se molha e toma banho. Houve até coreografia dos guitarristas e do baixista ao jeito vintage de grupo soul, tudo em onda festiva arrasadora e sem contemplações que o fim de tarde de caloraça estava a pedir. Um geladinho "olá, é bom não foi?" descontraído, eficaz, refrescante...
Finalmente, depois de sete longas voltas ao sol, a incrível Aldous Harding apresentou-se num palco nortenho onde muitos a esperavam e acolhiam com carinho. Há "Train on the Island" para apresentar, um estímulo de refinação recente, e foi dele a maioria das escolhas de um alinhamento de grandeza madurada. Houve, pois, que dar-lhe espaço, tempo, aperto nos seus transtornos ou manias, uma repetida sensação de desconforto que o amigo e companheiro Huw Evans aka H. Hawkline foi supervisionando na condição ou afinação de um quarteto instrumental imaculado. O respeito e bondade que a plateia lhe dispensou, sem queixumes ou irritações, fizeram do concerto um momento assinalável de composição pop a três dimensões que só ali, no Alto Minho de fundo arborizado, se podia moldar como redentor.
Desde que Kurt Vile aterrou no Porto para uma sessão/experiência no escuro dos Maus Hábitos passaram dezassete anos! Desde aí, mesmo que os companheiros ainda não fossem os The Violators, a sua sentença musical manteve-se nivelada por alto naquilo que se chama música americana. Sempre coerente, fascinado, conectado à sua Filadélfia da infância, da juventude e da vida adulta que homenageou, outra vez, no último "Philadelphia’s been good to me", é também um prova de amor a Young, Springsteen ou Dylan que as canções vão esticando em histórias e confissões desarmantes. Ao vivo em Coura, como em 2014, tamanha dimensão lo-fi assentou, camada a camada, uma vibração torneada em solos e riffs de guitarra maquinados pelo suporte infalível dos restantes instrumentistas. Sem picos, sem exageros, mas com condimento suficiente, nada mais se pedia a um Vile, ainda e sempre, bem-vindo - deixar correr as canções, colina acima, sem levantar pó e engrossando uma curtição.
O que dizer da aparição dos Hermanos Gutierrez? Que foi tardia, mas sublime? Que foi contida, mas inebriante? Juntar-lhe mais alguns descritivos não adianta grande coisa para quem não teve ainda a oportunidade de uma fruição deste calibre. Fazer das guitarras, em slide ou eléctricas, uma ferramenta narrativa não será novidade e os nossos Dead Combo, aliás, recordados pela dupla de irmãos, também o faziam de forma muito própria. Por isso, ver na plateia, em calma espera, a dupla dos Miramar, dos Clã ou o próprio Noiserv, seria só mais um sinal do fascínio que o som da dupla suiça foi arrebanhando na curiosidade entre pares e que, como qualquer arte, não se mede em explicações, mas em sensações. Testemunhar um anfiteatro de Coura sem empurrões, gritaria, moshes ou crowdsurfing, escutando com atenção, e de olhos fechados, as histórias de teletransporte desta irmandade, ficará como um dos grandes momentos do festival. Alguns sortudos, lá para o final do mês, irão repetir a trajecto em pleno Sá da Bandeira... Sagrado!
Infelizmente, não podemos comparecer ao encontro anual com Scott Matthews marcado para Fevereiro em Ovar. Circunstâncias familiares impediram o retorno ao convívio sempre salutar e divertido com o amigo britânico, mas como prometido em diversas das outras ocasiões presenciais, um disco ao vivo que registasse algumas das canções na sua simplicidade ou rudeza estaria em preparação.
Pois bem, ele está disponível desde o início do mês para encomenda. Trata-se do primeiro volume de "Home & Dry Sessions", selecção de temas ao vivo esmerados no Abbey Road Studios o ano passado e que, por agora, conta só com formato em CD e hipótese de escolha da capa preferida - colorida ou a preto e branco (a primeira vai à frente nos pedidos). Entre a colecção, deverá estar esta pérola...
Em 2002, dois miúdos chamados Domi Louna e Jd Beck, ela nos teclados, ele na bateria, lançaram "Not Tigh" como Domi & JD Beck pela Blue Note Records em parceira com a editora de Anderson. Paak, a APESHIT. Meio mundo, de boca aberta, bateu palmas ao desiderato de feição jazzística, bastante arriscado nas variáveis de drum & bass, pop orquestral ou samplers surpreendentes. O disco permitiu nomeações para Grammy's, comparências nos principais talk show's americanos e digressões vibrantes, como testemunhado em Paredes de Coura no verão de 2023. Se havia dúvidas, os jovens músicos tocavam mesmo os instrumentos em formato auto-suficente e sem quaisquer ajudas...
Há agora uma nova experiência, desde 31 de Julho, maturada na eterna dificuldade de um segundo álbum, de título "Who Asked?" e com os mesmos selos, mas onde se dispensaram uma série colaboradores e convidados vocais, como o próprio Paak ou Thundercat, assumindo-se a totalidade da cantoria entre a dupla. Juntou-se, desta vez, uma pequena sinfonieta clássica que engrossa o caudal "chamber pop" do alinhamento, sem que a matriz original se tenha desmantelado e onde, parece-nos, a complexidade dos arranjos sugere ter sofrido uma maximização.
Discute-se, por isso, nas redes se a novidade é melhor que o percursor, se o exagero light das vozes estraga o conjunto, se a frescura original perdeu a validade, se... Ainda em fase de assimilação, que isto de texturas sobrepostas requer insistência, promete-se uma versão totalmente orquestral do disco para breve, um formato de que se disponibilizaram pequenos excertos e que tem sido usado ao vivo, como no festivais de jazz de Toronto, de Otava e Montreal nos meses de Junho e Julho. Complexo!
Para uma peça de música que tem uma epifania a começar e um epílogo a encerrar, nada como repetir a audição integral de tempos a tempos e esperar que a digressão mundial, que começa em Setembro próximo, acabe a rondar a Europa e, quem sabe, o nosso jardim. Simples!
Durante várias e descontraídas sessões matinais de estúdio, no caso, o Alex The Great Studio de Nashsville, Josh Rouse foi puxando e aprimorando a inata e espontânea capacidade de escrever canções, algumas com reduto nocturno em Valência, a que se juntaram os amigos Brad Jones no baixo e Fred Eltringham na bateria.
Resultado - mais um disco de originais de inspiração documental em múltiplas itinerâncias citadinas, onde não dispensa a máquina fotográfica e uma observação atenta e silenciosa de figurinhas, figuras e figurões de passagem ou em repouso sonhador. Um género de turismo acidental solitário e recorrente...
Para título do conjunto de dez temas, Rouse lembrou-se de "Museums and Women" de inspiração no livro adorado "Museums and Women and Other Stories" que John Updike (1932-2009) escreveu em 1972, escolha certeira atendendo à short fiction que cada um deles encerra. Poético e romântico, como sempre, refina-se, mesmo assim, a habitual ironia que sempre lhe assentou perfeitamente padronizada e necessária.
Depois de uma incursão, também ela informal, nas versões, lá para Outubro a novidade sugere provar que o fascínio pop que Rouse cedo evidenciou está para durar. O primeiro avanço, "January Sky", é contundente.
Aproveitando a passagem pelo referido estúdio do Tennessee, gravaram-se duas memórias em jeito acústico só para reforçar a grandeza de um songbook notável!
Numa qualquer estante de livros respeitante ao mundo da música pop inglesa, certamente, uma núcleo de biblioteca especializada de dimensões assinaláveis, devem ser poucos os centímetros ocupados por literatura relativa aos amados Prefab Sprout. A escassez afigura-se estranha atendendo ao volume de vendas e êxitos que a banda alcançou nos anos oitenta, e também noventa, do século passado, e a explicação talvez seja só uma - o recato que o seu mentor e líder Paddy McAloon sempre impôs à sua vida pública e privada, coartando explorações abusivas e, involuntariamente, multiplicando rumores, boatos ou mistérios. Há quem, por isso, não lhe largue o rasto...
Nige Tassell, jornalista dito cultural e confesso fã da banda, é um desses que, discreto, foi acumulando informações e cruzamentos biográficos para tentar iluminar e aclarar as fontes do talento e das manias de McAloon, mesmo que sejam já mais de treze os anos passados sobre o último disco de originais. Mantendo a distância, sem sequer chegar à fala presencial, o resultado é "Truly Gifted Kids: a book about a band called Prefab Sprout" que a New Modern Books/Simon & Shuster edita a partir do dia hoje no Reino Unido e facilmente acessível online.
Se uma anterior tentativa, com reduto castelhano, nos motivou um leve encolher de ombros de desilusão, a novidade agora publicada sugere uma profundidade de pesquisa assinalável e também uma liberdade criativa promissora advinda quer da experiência do autor como roadie eventual do kid e manoMartin McAloon nos recentes concertos a solo, quer como um investigador infiltrado na procura da mota mais famosa da música pop. Trocado por miúdos, tudo parece, pois, apetitoso!
O nome de Ana Frango Elétrico têm nos últimos anos assumido protagonismo entre a nova música brasileira. Versátil, irrequieta, sempre a jogar na intervenção e no activismo, cedo largou lastro por terras lusas com o seu pop inteligente, onde o funk, a soul e a MPB se misturam de uma frescura vintage que seduz e acelera interesse intercontinental. Que o diga a Mr. Bongo, casa de discos inglesa sempre interessada na actualização retro do seu catálogo.
Não foi por isso surpresa que a aparição gratuita no Jardim do Morro tivesse juntado jovens lusos a uma multidão de brasileiros e muitos outros estrangeiros, já de si aconselhados a ir ver o pôr do sol mais badalado da região, ali reforçado com banda sonora a condizer. Nada de exagerado, mas facilmente praticável numa onda descontraída, dançável, perfeitamente nivelada pelo caloraça bem-vinda de final de tarde a que muitos reduziram, ou multiplicaram, a temperatura aportando de casa diferentes beberagens ou outros estimulantes fumarentos.
A receita, que tanto pode lembrar o clássico groove dos Chic como uma pérola de Rita Lee, teve nota artística muito saudada e participada, de maioria sabedora e repetente no replicar das letras de indefinição e acutilância arty qb. Para o fim, "Mulher homem bicho" e "Electric Fish" multiplicaram a jiga colectiva, mas foi o "larari larara" da incursão em "Não tem nada não / Gypsy Woman (She's Homeless)" que ganhou aos pontos.
Para quem quiser repetir a dose, e passar uma noite em cheio, sábado, dia 8 de Agosto, no festival EsteOeste do Parque da Ponte em Braga, há mais...
Imaginado como uma sequela do anterior "Something in the Room She Moves" de 2024, o novo "Materia" de Julia Holter chega no final de Agosto como mais uma demonstração de sabedoria pop(ular) - lustroso, sofisticado, transcendente, nele cabem somente sete temas, mas devem ser suficientes para impressionar!
Do tema título, reforçando um risco instrumental e mecânico, isto é, electrónico, há três versões, mas só a segunda e a terceira estão contidas no alinhamento. Aquela que lhes deu origem sugere andar disfarçada entre as variações ou terá escuta priveligiada destinada aos palcos que, por agora, ainda não foram reservados.
Um caso sério de inquietude e talento, Holter terá sempre porta aberta aqui da casa para continuar a texturar, espiritualmente e em harmonia, os nossos dias, qualquer um deles!