quarta-feira, 3 de junho de 2026

UAUU #757

CREMALHEIRA DO APOCALIPSE + RUMBLE + ROMPERAYO + ODD OKODDO & OGOYA NENGO, Serralves em Festa, Porto, 31 de Maio de 2026

No caminho apressado para mais um dos muitos concertos da festarola, um "viva Rio Tinto!" soou alto e bom som! O colectivo da freguesia Cremalheira do Apocalipse não será caso único na integração de jovens com diferentes incapacidades ou transtornos, mas o sururu à volta do projecto têm vindo a multiplicar-se depois da gravação de um álbum pela Favela Discos e de uma série de concertos nos últimos meses. Importa, pois, perceber porquê e não será difícil concluir que a máquina tem uma simples força motriz - a entreajuda! 

"Das entranhas de Rio Tinto, no triângulo sagrado entre o Centro Social de Soutelo, McDonalds, a pastelaria que tem bolos grandes demais, e o Parque Nascente, brotou a Cremalheira do Apocalipse, uma pedalada de baqueta nos dentes, e um estalo na rotina diária de quem os ouve de quem os vê e de quem os faz." 

Uns entram, outros saem para estágios ou primeiros empregos. Ficam os baldes, as cafeteiras, as baquetas, os bidons, que o prof. Artur vai rodando e sobrepondo a um género de canções manifesto de inspiração lírica dos próprios executantes, tantas delas desarmantes, de acutilância simples que nos deixa desencaixados, a morder o lábio enquanto nos mingámos na insignificância do nosso dia-dia normalizado... 

Caberá, pois, conhecê-los, dar-lhes asas largas e, com um nó na garganta, mandar-lhes um abraço do tamanho da antiga Mondex. E viva Rio Tinto!

 

Do Fundão, aterrou na coloraça o quarteto Rumble. Pareceu deslocada, por antecipação, a atmosfera de densidade pós-rock, se bem que de imaculada execução e até arrojo. A tarde de sol pedia, no entanto, outro tipo de animação festiva.,,

 

Chegados ao prado, já os Romperayo tinham incendiado a enorme maralha, de todas as idades, com uma ignição tropical, de origem colombiana, bombada a forte bateria e modernismos de ritmos electrónicos sacados de um baixo, um teclado e um acordeão folgazão. Há por ali e acolá, um suposto abuso do folclore de Bogotá, da tradição cumbia e puya que chega, literalmente, ao funk latino ou ao suposto pimba local, sem que ninguém estivesse muito interessado em saber qual a aferição dos condimentos rítmicos. 

Tudo a dançar, a curtir, mesmo que algumas da canções de teor político tivessem, às tantas e em dia de eleições no país, uma seriedade inesperada. Acelera, mas é!

 

O duo Odd Okodd, formado por Olith Ratego, vocalista e instrumentista, e Sven Kacirek, baterista e percussionista, junta de forma inusitada o Quénia e a Alemanha em já três álbuns editados e onde se vai vasculhando e serpenteando modernidades e ancestralidades tão ao gosto de uma certa e ecléctica world music. Se funciona? 

A fruição até que começou incisiva, acústica, numa crueza delicada que aguçou expectativas. A interacção com o público optimizou o momento, deu-lhe proximidade e até uma etnicidade aportada pela presença da octogenária Ogoya Nengo. O resultado, se bem que inatacável na exactidão, foi-se, no entanto, perdendo numa extensão perigosa e a precisar de um ou outro rasgo de batimento diferenciador. 

Esta sensação de déjà vu, será muito semelhante à própria festa de Serralves, de que será urgente uma reinvenção que a recupere de uma letargia cultural desnecessária.

terça-feira, 2 de junho de 2026

BELLE & SEBASTIAN, RUGIDO DE UM LEÃO!





















A tradição pelo Reino Unido não perdoa. A presença de uma selecção de futebol num Campeonato do Mundo é sinónimo de hino pop à maneira e os escoceses não se esqueceram de a cumprir. É certo que a Escócia, alinhada no grupo C com o Haiti, Marrocos e Brazil, parece ter hipóteses de seguir em frente, mas o sorteio não deixou de ser de um exotismo expressivo que Stuart Murdoch, capitão de equipa dos Belle & Sebastian, chamou um figo, melhor, um maná... 

Sobre o hino pop, com saída oficial no dia de hoje, afirma: “É uma canção pessoal sobre acompanhar as dificuldades da seleção escocesa nos últimos 50 anos e surgiu naturalmente no dia seguinte ao jogo contra a Dinamarca. A música tenta abarcar a experiência de todo o país ao lado da Escócia.” 

A Escócia já não disputava a prova desde 1998. A canção "It Only Takes one Lion", essa, não pode esperar e deve ser obrigatória, nas vitórias e nas derrotas, em qualquer playlist solarenga. Ficamos à espera, desde já, de um obrigatório 7" de vinil... azul escuro!

Os Belle & Sebastian tocam no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no próximo dia 21 de Julho no âmbito da digressão do 30º aniversário do álbum "If You Feeling Sinester". Dois dias depois do campeonato acabar, e seja lá o que a Escócia conseguir, festa não vai faltar.

sábado, 30 de maio de 2026

BIG THIEF, VISITA PRIMAVERIL!

Aproxima-se a visita primaveril dos Big Thief, marcada para o palco Estrella Damm (já não haverá SuperBock?), dia 11 de Junho, quinta-feira, às 20h45, no parque natural da cidade. Confessamos que este é, mesmo, o único concerto que temos ainda em duvidosa conta para gastar 75€... 

Entretanto, em jeito de introito, aqui fica uma sessão campestre da banda registada em Abril para a Radio 1 belga em plena natureza irlandesa.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

FAZ HOJE (28) ANOS #121


BECK, Coliseu de Lisboa, 28 de Maio de 1998 
. Público, por Carlos Mota, fotografia de Dulce Fernandes, 30 de Maio de 1998, p. 28 
. A Capital, por Jorge Pinho, fotografia de Paulo Cunha, 30 de Maio de 1998, p. 47
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim, fotografia de Ana Baião, p. 47


sábado, 23 de maio de 2026

ANGELO DE AUGUSTINE, DA FRAGILIDADE, FORÇA!





















Não se esperam surpresas de Angelo De Augustine. Basta que a cada novo álbum cintile aquele raiado de subtileza acústica, a que se junta uma voz inconfundível, para que não haja desilusões. O novo, "Angel in Plainclothes", é o perfeito exemplo dessas qualidades elevadas ao quadrado, ou não fosse ele resultado de um tempo longo de cura e recomposição. De Augustine produziu e tocou quase tudo, a não ser a magnífica "The Cure", tema co-produzido pelo mago Jonathan Wilson, acabando também atrás de uma bateria no já mítico FivesSarStudios de Topanga.  

Há na toada sonora uma sensação de fragilidade, daquela que ajuda a vitaminar novas aprendizagens ou forças desconhecidas que uma doença, mesmo que não diagnosticada, não conseguiu tolher na motivação. Uma segunda vida, nas palavras do próprio, enfrentada com espírito empreendedor centrado no seu estúdio A Secret Place situado na Califórnia. Foi lá que acolheu uma série inédita de colaborações amigas como a de Oliver Hill, arranjador de Kevin Morby ou Helado Negro, da harpista Leng Bian, Wendy Fraser ou de Thomas Bartlett. 

A acompanhar o álbum, foi lançado um pequeno filme de nome “Can I Come Back to Earth?", dirigido por Ramez Silyan, um testemunho assumido do sofrimento vivido, mas também uma prova de vida dimensionada que, na sua imaterialidade, resguarda alguma da privacidade e do cometimento.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

UAUU #756

GHOST FUNK ORCHESTRA, FANTASMA 3D!















Sobre os méritos dos Ghost Funk Orchestra, já em devido, mas tardio, tempo os elogiamos sem rodeios. Sugerimos, como se impunha, uma qualquer visita em formato concerto ao vivo, o que por território europeu só em 2025 teve a primeira digressão ao fim de sete anos de existência. Mesmo assim e confirmando um êxito surpreendente, o testemunho dessa vitória está, desde o passado RSD - Record Store Day de Abril, plasmado num álbum ao vivo que se afigura sedutor. 

O registo, mais que profissional, deu privilégio a duas noites esgotadas por Varsóvia, na Polónia, e Amesterdão na Holanda, onde o poderoso colectivo de oito elementos em palco apresentou uma selecção de onze temas dos dois álbuns, então, precedentes e alguns de "A Trip To The Moon", disco em fase de lançamento e que é o último de originais. 

Torna-se, pois, urgente que Portugal seja contemplado com a presença da banda de Nova Iorque comandada pelo talentoso Seth Applebaum, mesmo que a tangente da mais recente tournée se tenha espalhada de Espanha até ao Reino Unido, passando por França, Áustria ou, novamente, pela Holanda. Sem fantasmas e a três dimensões... 

terça-feira, 12 de maio de 2026

STEVE GUNN, Understage, Teatro Rivoli, Porto, 8 de Maio de 2026

A música que Steve Gunn compõe para a sua guitarra há quase vinte anos nunca nos passou ao lado. Contudo, talvez a eficácia dos temas e recursos que insiste em gravar e divulgar não tenha, ao vivo, acusado um merecido destaque, e a que se podem apontar razões diversas - em 2015, em Coura e rodeado por uma banda, talvez a grandeza do palco o tenha submergido numa indiferença pecaminosa; em 2022, a dar cordas a filmes obscuros em Vila do Conde, seria difícil fazer melhor; em 2024, ao lado de um pianista em Espinho, a parceria se bem que estranha, confirmou-se, ainda assim, reconfortante.

Culminando a recente presença por perto de uma sequência involuntária, mas imbatível, de grandes guitarristas (Sir Richard Bishop, Bill Orcutt, James Blackshaw), a há muito esgotada cave do Rivoli acabou com todas as nossas dúvidas - sozinho, na plenitude dos atributos e liberto de uma qualquer encomenda ou ajudante, a noite foi de viagem americana atracada a um songbook distinto na sua consistência e verossimilhança, mas em que a subtileza dos acordes e de alguns dos truques de repetição agravaram a contenda a um nível elevado. 

Variada na origem e na datação, a sequência de oitenta minutos despertou na plateia, logo convidada a aproximar-se ao palco, um usufruto cada vez mais raro nestes tempos de distracções e impaciências, envolvendo Gunn de um reconhecimento e atenção merecidos, ou não fossem as suas canções autênticos monumentos de progressão prazerosa. Lá no meio, uma versão de "I'll Be Your Mirror" dos VU como que adornada à sua maneira, foi só mais um dos toques de classe de um já mestre inquieto...

SEU JORGE, QUE BOSSA AMBICIOSA!












Em 2005, a talentosa veia conversora de Seu Jorge em fazer das canções de outros uma maravilha tropical, teve nas míticas covers de David Bowie do álbum "The Life Aquatic Studio Sessions", que serviu de banda sonora ao filme com o mesmo nome, uma surpresa mundial. Fomos vê-lo, por esses tempos, à Casa da Música num concerto divertido e esgotado, mas, confessamos, nunca mais lhe procuramos o rasto. Até que ouvimos ontem a sua voz inconfundível a dar (mais) uma nova vida ao icónico "River Man" do bem amado Nick Drake ao lado de Beck! O que é isto? 

Trata-se de um dos temas de um novo disco chamado "The Other Side", uma sofisticação orquestral gravada integralmente, e por fases, no estúdio MCJ, em Los Angeles, de Mario Caldato Júnior, desde 2009 até 2018. Numa aposta de travo clássico plena de delicadeza de boa onda bossa nova, a fotografia da capa foi, precisamente, obtida nessa cidade, em 2013, durante uma das sessões de registo e pertence a B+, ou seja, Brian Cross. A produção e engenharia sonora foi dividida por Jorge e o amigo Caldato. 

O desiderato de onze faixas contou com a própria banda de Seu Jorge e colaborações, em dueto vocal, de Marisa Monte ("Quando Chego"), Maria Rita ("Vento de Maio"), Zap Mama ("Far from the Sea") e do já citado Beck ("River Man"). Os arranjos, brilhantes, são da autoria do mais que experimentado Miguel Atwood-Ferguson, transformando alguns originais de MPB e bossa nova em peças intemporais. Exemplos: a “Crença” de Milton Nascimento, “Caboclo” de Arthur Verocai ou "Vento de Maio" de Lô Borges e Elis Regina, enquanto "Beleza Bárbara", de Leo Tomasini e Joey Altruda é, isso mesmo, bárbaro... 

Há outros originas esquecidos, como "Quando Chego", tema que Jorge escreveu com Arnaldo Antunes e Marisa Monte e “Far From The Sea” ao lado dos belgas Zap Mama. Curiosa é a cover em inglês de "Girl You Move Me" dos canadianos Cane and Able, tema já anteriormente reinterpretada (2010) por Seu Jorge no projeto coletivo Almaz. 

Uma surpresa maravilhosa, bem difícil de ultrapassar em 2026! 



quarta-feira, 6 de maio de 2026

LAMBCHOP É UM ÁLBUM E CONCERTOS!

















Os Lambchop, do incontornável e agora barbudo Kurt Wagner, baptizaram o seu décimo sétimo álbum de "Punching the Clown", o que só pode ser propositado... Foi produzido por Ryan Olson (Poliça ou Gayngs) e gravado em três dias de Agosto de 2025 no April Base, estúdio em Fall Creek (Wisconsin) de Justin Vernon aka Bon Iver, que toca banjo no primeiro avanço "Weakened". 

As composições pertencem na totalidade a Wagner e a Andrew Broder, contando com um coro de seis vozes em todas as doze faixas, uma onda acapella despojada de sofisticação orquestral. A versão digital da novidade está agendada para Agosto próximo pela Merge Records

Entretanto e no âmbito da digressão a iniciar pela Europa em Novembro, está confirmada a passagem por Portugal para quatro concertos, sendo o Theatro Circo de Braga, dia 21, sábado, e o Auditório de Espinho, dia 22, Domingo, as salas mais próximas. Prometida está a repetição de um formato de sucesso que presenciamos em 2024 no Parque da Cidade - um piano, uma imensa voz, múltiplas histórias!

segunda-feira, 4 de maio de 2026

JAMES BLACKSHAW, GNRation, Braga, 2 de Maio de 2026

Já lá vão os tempos em que James Blackshaw metia no estojo uma guitarra acústica de doze cordas para o acompanhar em palco. Com esse raro instrumento gravou discos inebriantes, fez verdadeiros recitais pelas redondezas com direito a regressos quase madrugadores sempre cativantes. Cansado, talvez penalizado pela afinação de tamanho uníssono, o inglês decidiu parar, respirar fundo e tentar continuar uma vida sem acordes, dedilhados ou estúdios a partir de 2015. Até que um dia... 

Em 2024, Blackshaw avançou para um regresso ao que melhor sabe fazer, mas cortou para metade as cordas da guitarra de que, afinal, não se consegue separar. Ainda bem. O, então, novo cartão de visita chamado "Unraveling In Your Hands", de três longos andamentos, confirmava o apuro das aptidões há muito demonstradas, elevando até a sofisticação de uma composição tentadora. 

Ao vivo, numa aparição descontraída de final de tarde para todos as idades, a façanha resguarda-se ainda imaculada. Mesmo que o alinhamento das cordas seja agora mais rápido, como recordou, a adequada vulnerabilidade dos acordes, a sua aveludada magia ou algumas das sequências/repetições, prolongaram-se, por magnetismo, em três diferentes momentos - a abrir, no monumental "Unraveling In Your Hands", numa memória de "Cross", tema título do álbum de 2008 e, para culminar, em "Fractures On the Horizon", escolha centrada num recente projecto de auto-produção. 

Afinal e longe de um qualquer virtuosismo implacável ou de uma concentração extrema, em pouco menos de uma hora comprovou-se que isto de tocar guitarra, e de fazer dessa aparente e simples vibração uma bênção purificadora, talvez tenha em Blackshaw uma rara e renascida estrela cujo brilho continuará, milagrosamente, cintilante!
          

DAMIEN JURADO E LILLY MILLER, TESOURO!

Da série infindável de discos que Damien Jurado deita cá para fora, um género de catarse artística e emocional deveras assombrosa já por aqui assinalada, fixem mais este - "Did Something in Me Break?" com data da semana transacta. 

Trata-se de um cantar ao desafio ao lado de Lilly Miller, cantautora do Iowa com residência em Seattle que, por diversas vezes, assegurou a primeira parte de concertos do agora parceiro de canções. Num total de vinte, onze são de Miller, de que se recordam alguns dos temas anteriormente gravados desde 2022, mas agora com nova sonoridade acústica e cintilante. De Jurado, no mesmo tom, somam-se nove originais refinados e a confirmar uma veia de composição inesgotável. 

O tesourinho recebeu mistura e masterização de Lacey Brown, também ajudante de confiança, que partilhou a produção com Jurado e acrescentou alguma da instrumentação. Há vozes de fundo comuns da própria Lacey Brown, de Zack Alva, de Damien Jurado e também de Lilly Miller, com suaves cordas de violoncelo e violino de Jeremiah Moon e Kennedy Webb. Para descobrir com imenso prazer



sábado, 25 de abril de 2026

SINGLES #60





















AMÁLIA RODRIGUES 
Meu Amor é Marinheiro / Seja Pedro ou Seja Paulo 
Portugal: Columbia/Valentim de Carvalho, 8E 006 40323, 1974
Dez anos depois, nada como um regresso a Amália Rodrigues em versão sete polegadas revolucionária. A rodela pequena, na sua capa radiante, fazia sempre furor quando andávamos pelo país a espalhar uma exposição de discos de vinil de antes e depois da 25 de Abril, dia que hoje faz 52 anos anos. A Amália cantou a revolução? era sempre a pergunta de muitos ao depararem-se com este single com o tema "Meu Amor é Marinheiro", de letra onde se podia ouvir "acende um cravo na boca" ou "abrir todas as cadeias"... 

A história é, porém, um pouco mais rebuscada. O álbum "Com que Voz", editado em 1970, é por muitos considerado a obra prima da fadista, onde o papel de Alain Oulman na composição e direcção alcançou, talvez, um pináculo incomparável - simplesmente voz, e que voz, guitarra e viola para doze temas com poemas clássicos de Camões e, a maioria, contemporâneos de O' Neill, Cecília Meireles, Pedro Homem de Melo, David Mourão Ferreira e Manuel Alegre. Arriscado, claro, e de imediato controlado por um regime que acabaria por proibir o fado que musicava partes de "Trova do Amor Lusíada", poema que Alegre escreveu em início receoso de carreira. Acabaria, por isso, fora do alinhamento permitido e passou, depois, a ser conhecido como "Meu Amor é Marinheiro". 

Amália, contudo, acabou-o a cantar por todo o lado, do Japão ao Brasil, como se prova ali abaixo e conta-se até a seguinte história bem portuguesa: 

"No dia 23 de Abril de 1974, Amália Rodrigues era convidada de honra do programa televisivo «25 Milhões de Portugueses», apresentado por Henrique Mendes e Glória de Matos. Nessa altura, Amália cantava por todo o lado «Meu amor é marinheiro», versos de Manuel Alegre, então exilado em Argel, com música de Alain Oulman, e embora lhe tenham dito que a cantiga estava proibida na televisão, como gostava muito dela, cantou, ficou gravado e pronto a ir para o ar. Pois veio a revolução e a primeira coisa que fizeram na RTP, nesse período do maior oportunismo, foi destruir tal programa, de que não ficou rasto." 

Com o irromper da revolução, seria pecaminoso deixar o tema nas bobines. Logo em Maio, usando uma extraordinária fotografia com poucas semanas de Augusto Cabrita (1923-1993), amigo e íntimo da artista, para quem fez o boneco para vinte oito capas de outros tantos discos, a editora atenta pôs cá fora o 45 rpm que tanto merecia difusão. Outras variações, takes e apuramentos acabaram a posteriori em colectâneas, edições melhoradas e reedições, uma tentação que Cristina Branco ou Carminho não resistiram em recriar. Um poema sublime, uma música ao mesmo nível, uma imagem icónica. Um single histórico! 


THE DIVINE COMEDY É (NO) ARTE!

Tem pouco mais de um mês (17 de Março) a passagem dos The Divine Comedy pelo palco do Cirque Royal de Bruxelas, uma semana depois da visita habitual à Casa da Música. Pode não ter sido a mais deslumbrante das noites pelo nosso norte do país, mas sabe muito bem recordá-la com pequenas variações. Como? 

Pois bem, o impagável serviço público europeu de televisão Arte cumpre e não falha. Arte, é o que é!

TAYLOR KIRK (1982-2026)

















Talvez, a partir destes dias, aos discos dos Timber Timbre se comecem a chamar clássicos obscuros. Não havia necessidade. Para Taylor Kirk seria indiferente qual a etiqueta que lhe colassem às canções incríveis que compôs com talento cinematográfico - gótico, dream ou bedroom pop, you name it - todas de uma brutalidade prodigiosa para ferir, milagrosamente, os ouvidos.

Taylor Kirk deixou-nos a semana passada, dia 14 de Abril, não a tempo de o vermos ao vivo, como teria sido obrigatório, mas a quem continuaremos a bater muitas palmas. Peace!


terça-feira, 21 de abril de 2026

NUBYA NO CORETO!

É certo que já por lá passou em 2019, a ajudar o parceiro Joe Armon Jones, mas agora é a sério - Nubya Garcia estará no coreto do jardim Basílio Teles no dia 5 de Julho, Domingo, no âmbito da próxima edição do Matosinhos em Jazz! Outros artistas se anunciarão em breve, mas para já a aposta é grande e certeira!

FIELD MUSIC, SESSÃO COMEMORATIVA!

Aquando da comemoração do vigésmo aniversário do lançamento do homónimo álbum de estreia, em Agosto de 2005, pela londrina Memphis Industries Records, os Field Music juntaram-se para uma rara sessão evocativa tocando "A House is Not a Home", single de 2007, e "Luck is a Fine Thing" e "Shorter Shorter" do referido primeiro disco. Uma rara bênção de uma banda única, intemporal!



terça-feira, 14 de abril de 2026

PVC - PORTO VINIL CIRCUITO #33





















De regresso a Espinho, e na artéria com o mesmo número 62, da Vic resta o envelope. Nada mais sabemos e imaginamos o nome a pertencer a alguma Victória ou até algum Victor. Ocupava, com o nº 73, o que hoje é uma clínica dentária situada no rés-do-chão de um prédio de três andares, uma localização previligiada e muito perto da frente de mar. 

A loja era mais um espaço multi-venda de produtos de fotografia, cinema e som, o que implicaria discos de vinil grandes e pequenos. A rodela que encontramos dentro do invólucro diz respeito à versão portuguesa da "Desiderata" na voz do actor decano Rui de Carvalho, disco editado em Portugal no ano de 1972. Segundo a Wikipedia, a "Desiderata é um poema em prosa de 1927 do escritor americano Max Ehrmann. O texto foi amplamente distribuído em forma de poster nas décadas de 1960 e 1970.".  
          
                Vic. foto-cine-som, Rua 62, nº 73, Espinho













                Vic. foto-cine-som, Rua 62, nº 73, Espinho

segunda-feira, 13 de abril de 2026

BILL ORCUTT, GNRation, Braga, 11 de Abril de 2006

Foram já várias as oportunidades para testar o génio de Bill Orcutt ao vivo. Caprichos vários levaram a que a pretensão fosse sempre adiada, lembrando, por exemplo, o cancelamento dos concertos portugueses, incluindo o do Porto, à custa de uma nuvem de cinza vulcânica que fez parar muitos aviões (2010?), ou uma incursão despercebida pela Sonoscopia (2015?). Outras, certamente, já aconteceram sem comparência nossa injustificada e sublinhada com aquele encolher de ombros perigoso "fica para a próxima". A passagem por Braga enquadrava um momento e palco perfeitos para a estreia que acabaria, em definitivo, com o sacrilégio. 

É certo que os anos passam, mas os discos e concertos que continuam a sair e em agenda, confirmam que de Orcutt só se pode esperar inquietude da boa. A Fender Telecaster, de aparente modificação no encordoamento, é o condão instrumental de inseparável virtude a partir do qual se agita num estilo vanguardista, hipnótico, que preencheu a sala escura de Braga de uma tensão entontecida de electricidade instável. Fraccionada em quatro largos momentos de uma dúzia de minutos, à sequência juntou-se uma pequena descarga terminal para aliviar o empenho. 

Ao fim de uma hora de poderoso provento, não admira que a espontaneidade da ovação da plateia esgotada tivesse crismado, e bem, uma actuação de densidade rara, acentuando a tenacidade de um músico cuja aptidão instrumental não é somente uma técnica, mas também uma virtude - a de extasiar por vibração e contágio!   

quinta-feira, 9 de abril de 2026

POND, VIBRAÇÃO TERRESTRE!





















Agora que a euforia Tame Impala acalmou, será de dar atenção aos irrequietos parceiros Pond e ao décimo primeiro disco de originais a sair a 19 de Junho, trabalho que se segue ao duplo e magistral "Stung!" de 2024 e à compilação "The Early Years 200-2010", um dos exclusivos do Record Store Day do ano transacto.

De título "Terrestrials", adivinha-se um ciclone de rock n' roll, com algumas e habituais acalmias melancólicas a pairar sobre planícies australianas calorentas ou a dar banda sonora a bares decadentes, ainda assim, irresistíveis. Uma vibração cruzada e, devidamente, PONDerada.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

DAMIEN JURADO REDUX!


















É avassaladora a catadupa de discos e canções que Damien Jurado vai fazendo sair todos os meses, todas as semanas... A tendência, acentuada desde 2023 à custa de alguma instabilidade mental, já permitiu destapar demos e raridades, captações de catedral ao vivo, e uma multiplicação de inéditos como os que integram "Keith Is Plane Crazy", mais um saboroso EP do mês passado. Em todas estas variações há um denominador comum - a presença de Lacey Brown (foto), artista em nome próprio que tem sido parte da banda que o acompanha e que tem assumido substancial responsabilidade instrumental, vocal e até na produção partilhada com o próprio Jurado. 

É o que acontece com "All Are Welcome In: A Return to Maraqopa", um disco novo que apresenta versões redimensionadas de temas originalmente incluídos na trilogia “Maraqopa” ["Maraqopa" (2012), "Brothers and Sisters of the Eternal Sun" (2014) e "Visions of Us on the Land" (2016)], uma série de álbuns conceituais produzidos em colaboração com o saudoso Richard Swift. 

O novo projeto concretiza uma visão que ele e Swift discutiram há muitos anos e que consistia em revisitar e reformular as músicas dos três discos após a sua conclusão. Muitas das faixas presentes neste lançamento já foram apresentadas ao vivo neste novo formato durante a digressão "All Are Welcome In" ocorrida no Outono de 2025.



segunda-feira, 6 de abril de 2026

FAZ HOJE (28) ANOS #120















FAITH NO MORE, Coliseu do Porto, 6 de Abril de 1998
 
. Público, por Amílcar Correia, fotografia de Paulo Pimenta, 8 de Abril de 1998, p. 27 
. O Comércio do Porto, por Rui Azevedo, 8 de Abril de 198, p. ?

domingo, 5 de abril de 2026

FAZ HOJE (25) ANOS #119




















MADREDEUS, Parque da Cidade (tenda), Porto, 5 de Abril de 2001
 
. Público, por Fernando de Magalhães, fotografia de Mário Marques, 7 de Abril de 2001, p. 40 
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim, fotografia de Hernâni Pimenta, 7 de Abril de 2001, p. 38