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sábado, 25 de abril de 2026

SINGLES #60





















AMÁLIA RODRIGUES 
Meu Amor é Marinheiro / Seja Pedro ou Seja Paulo 
Portugal: Columbia/Valentim de Carvalho, 8E 006 40323, 1974
Dez anos depois, nada como um regresso a Amália Rodrigues em versão sete polegadas revolucionária. A rodela pequena, na sua capa radiante, fazia sempre furor quando andávamos pelo país a espalhar uma exposição de discos de vinil de antes e depois da 25 de Abril, dia que hoje faz 52 anos anos. A Amália cantou a revolução? era sempre a pergunta de muitos ao depararem-se com este single com o tema "Meu Amor é Marinheiro", de letra onde se podia ouvir "acende um cravo na boca" ou "abrir todas as cadeias"... 

A história é, porém, um pouco mais rebuscada. O álbum "Com que Voz", editado em 1970, é por muitos considerado a obra prima da fadista, onde o papel de Alain Oulman na composição e direcção alcançou, talvez, um pináculo incomparável - simplesmente voz, e que voz, guitarra e viola para doze temas com poemas clássicos de Camões e, a maioria, contemporâneos de O' Neill, Cecília Meireles, Pedro Homem de Melo, David Mourão Ferreira e Manuel Alegre. Arriscado, claro, e de imediato controlado por um regime que acabaria por proibir o fado que musicava partes de "Trova do Amor Lusíada", poema que Alegre escreveu em início receoso de carreira. Acabaria, por isso, fora do alinhamento permitido e passou, depois, a ser conhecido como "Meu Amor é Marinheiro". 

Amália, contudo, acabou-o a cantar por todo o lado, do Japão ao Brasil, como se prova ali abaixo e conta-se até a seguinte história bem portuguesa: 

"No dia 23 de Abril de 1974, Amália Rodrigues era convidada de honra do programa televisivo «25 Milhões de Portugueses», apresentado por Henrique Mendes e Glória de Matos. Nessa altura, Amália cantava por todo o lado «Meu amor é marinheiro», versos de Manuel Alegre, então exilado em Argel, com música de Alain Oulman, e embora lhe tenham dito que a cantiga estava proibida na televisão, como gostava muito dela, cantou, ficou gravado e pronto a ir para o ar. Pois veio a revolução e a primeira coisa que fizeram na RTP, nesse período do maior oportunismo, foi destruir tal programa, de que não ficou rasto." 

Com o irromper da revolução, seria pecaminoso deixar o tema nas bobines. Logo em Maio, usando uma extraordinária fotografia com poucas semanas de Augusto Cabrita (1923-1993), amigo e íntimo da artista, para quem fez o boneco para vinte oito capas de outros tantos discos, a editora atenta pôs cá fora o 45 rpm que tanto merecia difusão. Outras variações, takes e apuramentos acabaram a posteriori em colectâneas, edições melhoradas e reedições, uma tentação que Cristina Branco ou Carminho não resistiram em recriar. Um poema sublime, uma música ao mesmo nível, uma imagem icónica. Um single histórico! 


terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SINGLES #59





















JAMES BROWN 
Hey America / Go Power At Christmas Time 
France: Polydor, 2001 160, 1971 
Dos tempos em que a América, a dos Estados Unidos, era governada por um, agora, moderado Richard Nixon (1913-1994) e de importantes movimentos quanto aos direitos civis ou feministas, preocupações ambientais, escândalos como o Watergate e guerra a sério, a do Vietnam, recorda-se um fabuloso single do mestre James Brown chamado "Hey America". 

A canção abria o álbum com o mesmo nome, o trigésimo de uma carreira em roda livre, e foi escrita por Nat Jones (1939-2014), saxofonista e organista da sua banda, e Addie Wiiliams Jones, vocalista e também compositora da mesma entourage. A letra, em jeito de improvisação, aludia ao Natal, mas também a protestos pela paz ou brindes com vinhaça, tudo numa aparente incoerência, mas o resultado é mais um poderoso groove arrasador. 

No lado B, outra pedra - "Go Power At Christmas Time", também da mesma proveniência e creditada somente a Nat Jones, é só um reforço funk que permite hoje escolher qualquer um dos lados para agitar uma pista de dança. Permite ainda lembrar que é urgente um grito que a acorde de um pesadelo inacreditável. Hey America, don't you think it's about time!


sexta-feira, 25 de abril de 2025

SINGLES #58





















JOSÉ JORGE LETRIA 
Pare, Escute e Olhe / Arte Poética 
Portugal: Zip Zip, ZIP 3002 0/S, 1971 
As aventuras por França de um jovem José Jorge Letria assustado com o país em ditadura e na vertigem de uma guerra colonial, foram já relatados pelo próprio em forma de livro sincero. Fazer da música, daquela que interessava e incomodava nessa altura, só noutro lugar e, já agora, na companhia certa de José Mário Branco e de outros parceiros e cúmplices,     

No parisiense Strawberry Studios foi em 1971 registado "Até ao Pescoço", álbum de marcante estreia de um compositor inquieto e de vigorosa poesia, trabalho produzido por Manuel Jorge Veloso e arranjado por José Mário Branco. A intenção era romper com a sonoridade típica dos ditos "baladeiros", usando ambientes sonoros inovadores e timbres de risco assumido que o "prog-rock" ou a chamada "avantgarde" proporcionavam, para o que se contou com um bom naipe de músicos franceses e até de Francisco Fanhais. 

O disco haveria de sair no ano seguinte pela Zip Zip, etiqueta da Sassetti & Cª/Guilda da Música portuguesa e só teve reedição recente pela Tradisom, incluído que foi numa caixa com quatro das principais obras de Letria. O primeiro e marcante single foi este "Pare, Escute e Olhe" de intencional e anónima capa rubra, preta e branca onde se estiliza a prisão pelo arame farpado que era necessário cortar. Canta-se o desencanto, a revolta silenciosa que urgia promover e explica-se, na contra-capa, ao que se vêm - "É do Silêncio Que Vos Falo", assim, assumido, destemido, "(um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua alucinante facilidade de chegar onde mais ninguém chega." Corajoso até ao pescoço!
    
O tema sofreu duas aparentes orquestrações - uma de guitarras vincadas e perfeitamente rock que sugere ser a que foi incluída no álbum (a de abaixo) e, uma outra, a do single antecipador, onde os riffs foram amainados e substituídos pelas teclas de um orgão eléctrico (Moog?) e uma toada mais ligeira. No lado B surgia "Arte Poética", tema em jeito de hino escolhido para encerrar o disco grande e com poema incisivo da escritora Hélia Correia, autoria ausente da rodela pequena e do seu invólucro, o que causou alguns mal entendidos...      

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

SINGLES #57





















FRANCK LESTER 
Chritmas Rock (il est né le devin enfant) 
França: Barclay, 602016, 1974 
Da série, iniciada o ano passado, referente a "canções de Natal a quem ninguém liga nenhuma", ora aqui está mais um misterioso acaso. Sobre um desconhecido Franck Lester não há vestígios nem sinais detectáveis, embora esteja mais que confirmada a sua artística ascendência francesa - o tema de Natal que dá motivo à recreação é "Il Est Né le Devin Enfant", hino secular com origem no século XIX algures na Lorena e já com centenas de versões de gente tão diferente como Tino Rossi, Mireille Mathieu, Annie Lennox e até os Siouxie And The Banshees

O disquito com cinquenta anos faz, de início, uso dessa canção popular para depois se esticar numa correria rock FM que culmina em "We Wish You A Merry Christmas", outro clássico da época. A letra é do melhor, com pérolas do género "they gave him a name / and they call him Jesus / but if he born in the USA / with rock & roll / he will leave the way". Nada católica, a coisa soa, assim, tão má que é tão boa. A versão instrumental então... 

[aos prezados ouvintes, apresentam-se desculpas pela deficiente qualidade da captação video e audio]  

sábado, 27 de abril de 2024

SINGLES #56





















JOSÉ AFONSO 
Menina dos Olhos Tristes/Canta Camarada 
Porto: Orfeu SAT 803, 1969 
Uma notável fotografia, por nós desconhecida, ilustra um artigo evocativo dos cinquenta anos do 25 de Abril da edição digital do suplemento Babelia do jornal espanhol El País. Foi obtida pelo francês Gilles Peress da agência americana Magnum Photos e, apesar de não termos conseguido ler a peça na sua totalidade, só a imagem serve para nos encher a alma apoquentada - nela, sem data assumida mas que deverá referir-se à comemoração de 1º de Maio de 1974 em plena Lisboa e tendo como fundo um prédio alto de colchas nas varandas (Avenida Estados Unidos da América?), um grupo de pessoas de cravo ao peito e, na sua maioria, sorridentes, tem no seu centro uma jovem rapariga que eleva com vigor um V feito de cravos vermelhos. A sua expressão, de olhar fixo de alguma tristeza e o luto das suas vestes talvez significassem, na altura, uma homenagem a algum irmão ou primo a quem a guerra colonial, sem sentido, tirou a vida e a que a revolução, finalmente, poria então fim. 

Essa injustiça e crueldade há muito que tinham sido denunciadas em forma de canção - "Menina dos Olhos Tristes", que José Afonso escreveu no Algarve um ou dois anos depois da Guerra Colonial ter começado (1961), só seria editada em forma de single em 1969. A sua viagem e estadia para Moçambique em 1964 talvez tenha adiado a gravação, o que foi aproveitado por Adriano Correia de Oliveira para a lançar nesse mesmo ano. A canção foi de imediato proibida e conheceu posteriores versões de Luís Cília e Manuel Freire que podemos ouvir a contar a história no recente destacável digital que o jornal Público dedicou a algumas "canções que ajudaram Abril". 

É este o sete polegadas de José Afonso de que mais gostamos, talvez por ter sido o primeiro que ouvimos e que conhecemos, desde sempre, guardado no móvel do gira-discos cá de casa. Capa de imagem robusta com José Afonso soturno e pensativo numa fotografia do grande Fernando Aroso tirada, talvez, na mesma sessão das que fizeram capa das primeiras edições dos álbuns "Cantares do Andarilho" (1968) e "Contos Velhos, Rumos Novos" (1969), o tal onde Afonso, sentado à mesa de casa, tem a seu colo a filha Joana. 

Este disco não contempla "Menina dos Olhos Tristes" nem o lado B, o tradicional português "Canta Camarada" de chama bem mais festiva e apelativa. Os dois haveriam de emparelhar com outros dois originais, esses sim, incluídos em "Contos Velhos, Rumos Novos" ("Deus te Salve, Rosa" e "Lá vai Jeremias"), num EP posterior datado de 1970 e onde José Afonso aparece na capa numa fotografia ao ar livre tirada em Victoria Park, Londres, durante o "Festival of Life". 

A canção é, sem disfarces, uma bomba anti-guerra. Bastam os primeiros versos da autoria Reinaldo Ferreira (Barcelona, 1922 — Lourenço Marques, 1959) para se perceber a intenção interventiva e acusatória, embora não se saiba como é que José Afonso teve conhecimento do poema, se através de um jornal ou do original manuscrito. Com rapidez, a censura impediu a sua emissão radiofónica mas a chegada da chamada "Primavera Marcelista" (1968-1970), uma pequena e aparente abertura reformista, permitiu o seu lançamento comercial e a sua efectiva disseminação e efeito. Percebe-se porquê.

O brilho da viola de Rui Pato, o único instrumento utilizado, ganha neste tema uma dimensão monumental que a voz clara de José Afonso, em plena potência, acentua num dramatismo activo e metafórico sobre um problema inexplicável e que haveria de ferir de morte o regime já em decadência. A tal madrugada esperada de um dia inicial inteiro e limpo haveria de o fazer tombar. Afinal, talvez os olhos da menina da fotografia não estivessem só tristes mas também cheios de esperança num futuro... livre.


sábado, 23 de dezembro de 2023

SINGLES #55





















POP CHRISTMAS 
Jingle Bells/Red River Pop 
Espanha: Belter 05-130, 1974 
De frequente avistamento em muitas investidas "vinilicas", este single há muito que consta do volumoso monte de pequenas rodelas alusivas ao Natal que vamos acumulando sem parar. Há nele uma curiosidade que o tornou de imediata recolha e a que se acrescentou uma capa colorida, lá está, muito pop e atractiva atendendo aos supostos autores. 

Dos Pop Christmas não reza qualquer história que a internet permita recuperar a não ser a disponibilidade para venda, barata, do 7" no site habitual mas sem outras referências para além das que constam da capa e da rodela - gravação da Belter espanhola editada em 1974 com dois temas ditos tradicionais, o que se afigura talvez abusivo. Se "Jingle Bells" é efectivamente um tradicional centenário escrito por James Lord Pierpont em 1850 numa taverna do Massachusetts, já "Red River Pop" parece ter sido composto pelo italiano Umberto Decimo aka Ezechiele em 1973, ano em que uns tais Nemo editaram em single a canção

O que por aqui se dá a ouvir são versões em que o sintetizador, então em voga instrumental, é rei, talvez com arranjos de um tal P. Thomas e Raoul Voli que constam citados na contra-capa, tendo o tema feito parte de uma compilação chamada apropriadamente "Synthesizer Hits" do mesmo ano. Estranham-se, por isso, as imagens escolhidas para o desenho da capa onde dois guitarristas, um baterista e um violinista não são devidamente acompanhados por um teclista electrónico! 

Quanto à curiosidade referida, ela diz respeito à tradução de "Red River Pop" que se efectiva num "Pop de Rio Tinto" à maneira... E agora tapem os ouvidos que, por não existir disponibilidade para audição da dupla de versões na rede, tivemos que as recolher em modo roufenho. O que vale é Natal e ninguém leva a mal!


terça-feira, 25 de abril de 2023

SINGLES #54





















EMÍLIO DOS SANTOS 
Grândola Vila Morena / É Preciso Dividir o Pão 
Moçambique: E.S.R. 008, 45 rpm, s/d 
Já há uns anos, num sábado de manhã pela Feira da Vandoma, a antiga, a das Fontainhas, uma imagem marcante e vistosa chamou-nos atenção numa montanha de singles de música popular portuguesa com incidência no fado. Rapidamente na mão, só quando viramos a capa deparamos com alguns dos pormenores estranhos - uma versão de "Grândola Vila Morena" de José Afonso a cargo de Emílio dos Santos com edição em Lourenço Marques, Moçambique! A editora, a ESR, era também um nome por nós desconhecido a que se juntava um "É Preciso Dividir o Pão" no lado B. Compra feita e já em casa, tratamos de ouvir o seu conteúdo com o propósito de lhe fazer a história possível mas, tal como tantos outros singles da colecção, a pretensão ficou para as calendas gregas. Chegou hoje o melhor dia, inicial e limpo, para lhe fazer justiça. 

A biografia de Emílio dos Santos foi, ao de leve, contada no blog Penafiel Terra Nossa em 2011 mas desde aí, na consulta exaustiva que fizemos, não se conhecem mais pormenores. Nascido em Vila Nova de Fôz Coa (1941), imigrou para Penafiel (1957) onde começou a dar nas vistas nas cantorias e rábulas e, rapidamente, se fixou no Porto nos anos sessenta. O "Foz Côa", como era apelidado, tornou-se profissional já depois de gravar um primeiro disco com o maestro Resende Dias. Seguiram-se, aparentemente, novas aventuras por Lisboa e África e o posterior regresso a Penafiel como empresário do som e da música. Na contracapa, que acima se reproduz, surge uma fotografia de uma sua actuação no que parece ser um casino ou festa de gala acompanhada por um conjunto de quatro músicos. 

A sigla ESR, que deverá ser um acrónimo de Emílio Santos Records, não teve muitos discos editados (este é o número 8) mas há pelo menos três singles e um álbum com sede Moçambique e, supostamente, em Lourenço Marques por volta de 1974. Deverá ter sido o selo que o cantor por lá fundou para se lançar no negócio de cariz popular onde se inclui um tema de homenagem à terra natal. Não existem no seu reportório outras versões de teor político ou de intervenção como as que fazem parte desta rodela pequena, sem referências, contudo, ao autor do desenho/design ou ao estúdio de gravação, apesar da nomeação do técnico de som (Ricardo Branco) e dos arranjos e direcção musical (Tony Viana), coautor com José Vigário S. Silva da canção "É Preciso Dividir o Pão". Da data correcta, propósitos e circunstâncias desta gravação, não são conhecidos mais pormenores, não existindo até hoje a reprodução dos seus dois temas em nenhum formato digital. Vamos lá, então, pôr o disco a rodar, mesmo que as suas condições de conservação e reprodução não sejam as ideais.

A versão de José Afonso, longe da sumptuosidade e cadência orquestral com que, por exemplo, Amália Rodrigues se aventurou pela mesma época, é uma boa surpresa muito à custa de um riff curioso de uma só guitarra e de um tambor seco para substituir aquele mítico e original arrastar dos pés na gravilha, transparecendo mais descomprometida e informal mas de captação rudimentar e de recursos, notoriamente, limitados. No lado B, a canção "É Preciso Dividir o Pão" junta-se a tantas outras que floresceram numa onda cantada pelos chamados "baladeiros da revolução" sobre a urgência de justiça e igualdade que, neste caso, nos parece de sincera acutilância e natural ingenuidade atendendo aos tempos de esperança que se deveriam, então, viver. Singulares, contudo, os já significativos "remoques" dirigidos aos políticos que a lírica comporta - por exemplo, "mandar não custa se a miséria impera" ou "é preciso avisar toda gente, é preciso estender a cultura"... Nem mais!


sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

SINGLES #53





















THE BLUE DIAMONDS 
with Choir and Orchestra Directed By Jack Bulterman 
Silent Night Holy Night/Mary's Boy Child
White Christmas/Winter Wonderland 
Holanda: Fontana 453 210 TE, 1960 
Na nossa caixa com singles de Natal em vinil, que está a rebentar pelas costuras, multiplicam-se versões de clássicos como os que os The Blue Diamonds editaram em 1960. Coros infantis, coros de catedral, instrumentais orquestrados, à guitarra ou com saxofone, ao longo de décadas o filão foi-se acentuando na diversidade e também nas latitudes mas há nas interpretações deste EP um travo de algum exotismo saboroso. 

A história dos The Blue Diamonds, apelidados de "Dutch – Indonesian Everly Brothers" como aprendemos na wikipedia, está no verso da capa que acima se reproduz e confirma o êxito obtido nessa época na Holanda e alguns outros países muito à custa de uma leve variação ao rock'n roll que então florescia na sua inocência e novidade. O lado B, onde está o tema de Irving Berlin que dá título ao disco e uma recreação de "Winter Wonderland", é mesmo a melhor parte dessa faceta simples de fazer as coisas que não perdeu, passados mais de sessenta anos, a frescura e eternidade que por estes dias ainda sabe bem ouvir e sentir... Diamantes!


segunda-feira, 25 de abril de 2022

SINGLES #52





















SARL - S.A.R.L. LDA 
De Como A Canção Social Tem Uma Função Capital... Quer Dizer.../
Funchal, 23 
Portugal: Movieplay SP 20.147, 45rpm, 1974 (?) 
Nestes tempos de incerteza e mágoa talvez um pouco de humor, mesmo que inofensivo, sirva de consolação. O deste pequeno disco é algo datado mas mantêm uma actualidade fresca atendendo à realidade política da Europa e fora dela, gozando com os chamados vira-casacas e com o canto de intervenção do pós-25 de Abril num jogo de leve anarquia e subversão. 

Sobre os SARL há pouca informação concreta, exceptuando as incluídas na Discogs onde o single se vende barato. Aí se diz: 

"O mistério só foi desvendado em 1999. 
O autor da canção [Funchal, 23] é José Niza que a compôs em casa de Daniel Proença de Carvalho ao ler no "Diário de Lisboa" a notícia da partida do Funchal para o Brasil no dia 23 de Maio (daí o título) de Moreira Baptista e Silva Cunha (ministros da ditadura deposta). 
José Niza limitou-se a musicar o texto da notícia. 
Dias depois, José Niza, Daniel Proença de Carvalho, Carlos Perez Álvaro, então director da Movieplay, Rui Ressurreição, Thilo Krasmann e José Manuel Pedrosa gravaram "Funchal, 23" e "De Como A Canção Social Tem Uma Função Capital... Quer Dizer..." no estúdio da Musicorde.

A sigla SARL significa Sociedade Artística e Recreativa Lusitana e teve continuidade, nomeadamente, com "Uma Canção Comercial" concorrente em 1979 ao Festival da Canção e onde se confirma, pelo video disponível, a presença do cantor Samuel, de Carlos Alberto Moniz e do futuro maestro Pedro Osório, autor dos temas de dois outros singles dos SARL já nos anos oitenta

Nota ainda para a contracapa da rodela que acima se reproduz onde as designações de lado A e lado B são substituídas por face Esquerda e face Direita e se alude ao "buraco" do centro de forma iminente e política. Talvez o agora reformado advogado Daniel Proença de Carvalho, que publicou por estes dias uma biografia em jeito de memórias, tenha tido tempo para aí tecer mais esclarecimentos e explicações... divertidas!


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

SINGLES #51





















FRANK SINATRA Chante Noël 
The Little Drummer Boy / An Old Fashioned Christmas 
Go Tell It On the Mountain / I Heard The Bells on Christmas Day 
França: Reprise/Vogue RVEP 60061, 1964 
A insistência num segundo EP da série "Frank Sinatra Chante Noël" passados meia dúzia de anos é propositada. Se o anterior incidiu num destaque ao tema "Whatever Happenned To Christmas?" pleno de nostalgia natalícia, neste exemplar mais antigo há entre as quatro canções uma outra que se aproxima, por oposição, dos tempos estranhos que vivemos e da urgência de um regresso à normalidade.

Para além do mais que clássico "The Little Drummer Boy", um dueto com Bing Crosby em "Go Tell It On The Mountain" e de "I Heard The Bells on Christmas Day" é "An Old Fashioned Christmas" o melhor dos momentos e onde a orquestra de Fred Waring & The Pennsylvanians envolve aquela voz irresistível de charme e conforto.  Fez parte do álbum "12 Songs of Christmas" editado precisamente em 1964 e foi escrito por Sammy Cahan e Jimmy Van Heusen, compositores americanos já na época prestigiados e galardoados. Cahan, por exemplo, foi também quem compôs "Let it Snow! Let it Snow! Let it Snow!" (1945).

A lírica remete para a tarde de hoje onde a nossa/vossa mãe não saía da cozinha enquanto aguardávamos em pulgas a chegada dos primos, tios e tias carregados de prendas, das brincadeiras que se seguiam e das risadas contínuas. Mesmo sem a neve que a imagem da capa do disco evoca, uma raridade tendo em conta que a figura de Sinatra está ausente, não havia frio ou chuva que arrefecesse abraços e beijos, um calor humano perfumado pelo cheiro a rabanadas e canela. Agora é o do antisséptico álcool gel...  


domingo, 25 de abril de 2021

SINGLES #50






















ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA 
NOTÍCIAS D'ABRIL
Se Vossa Excelência... / Em Trás-os-Montes à Tarde 
Portugal: Orfeu KSAT 633, 1978 
Há quarenta e sete anos, o dia de hoje significava para muitos portugueses uma esperança em melhores condições de trabalho, de segurança social ou assistência na saúde. O pleno destes direitos consignados está ainda hoje por alcançar como se confirmou (não era preciso) com a chegada da uma pandemia que pôs a nu precariedades antigas e injustiças eternas. Cedo se percebeu que a revolução não chegaria a todos da mesma maneira e este single curioso de Adriano Correia de Oliveira de 1978 é uma memória válida de uma época em que a desilusão estava já disseminada... 

A verdadeira história é reveladora: o presidente da República General Ramalho Eanes visitou nesse ano alguns concelhos do país para conhecer fábricas e indústrias, falar com operários e patrões e, no caso da fábrica de aglomerados de madeira Tabopan em Penafiel, teve à sua espera, ao almoço colectivo, um corajoso delegado sindical que o informou, de viva voz e em liberdade, das condições vigentes. Nas reivindicações, reproduzidas em notícias de jornais e também na própria capa do pequeno vinil, Amadeu Alves Ribeiro começava sempre por um "Se Vossa Excelência Senhor Presidente viesse cá almoçar mais vezes..." para relatar atrasos nos retroactivos, reclamar a integração de colegas afastados ou a inexistência de uma cantina, disfarçada naquele dia em mesas provisórias no interior do recinto. 

Ao lê-la, Adriano Correia de Oliveira partiu para a gravação de uma nova canção com letra de Alfredo Vieira de Sousa, habitual colaborador de outros músicos como Fernando Tordo ou Pedro Osório, onde, numa toada de intervenção directa em que a época era pródiga, mas de composição instrumental algo arriscada, são cantados os problemas então revelados pelo sindicalista. Juntou-lhe outro inédito, também resultante de uma notícia de jornal e com letra da mesma pena, sobre as virtudes do cooperativismo agrícola em Trás-os Montes e do caso de um pastor feliz pela descoberta do trabalho comunitário e das virtudes vantajosas da sua prática. 

Este seria o penúltimo trabalho de originais de Adriano Correia de Oliveira, ele próprio um incansável e dedicado activista no canto popular antes e depois do 25 de Abril, tendo participado em centenas de sessões em todo o país e no estrangeiro que lhe retiraram tempo para gravar mais canções novas. Em 1980 procederia ainda ao registo do último álbum "Cantigas Portuguesas" com a ajuda de Fausto e Pedro Caldeira Cabral mas acabaria por falecer pobre, dizem, em Avintes em 1982.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

SINGLES #49






















THE PARTRIDGE FAMILY 
Starring Shirley Jones &  Featuring David Cassidy ‎– White Christmas / Jingle Bells 
Alemanha: Bell Records - 2008 107, 45RPM, 1971
Ao que consta, a série de comédia americana "A Família Partridge" foi nos anos setenta um grande sucesso em Portugal através da RTP, mas tendo em conta que só começou a ser emitida a partir de 1973, será certo que ainda lhe deitamos os olhos em cima embora as memórias sejam poucas ou praticamente nulas. Ainda se fosse "os Pequenos Vagabundos"! Adiante. 

A tal família de seis elementos, liderada por uma mãe viúva (Shirley Jones), aposta numa carreira na música onde se destaca o filho mais velho (David Cassidy), um argumento vagamente inspirado numa história um pouquinho mais antiga da banda de Newport, os The Cowsills, que alcançaram mesmo algum êxito. Na vida real Cassidy era enteado de Jones por casamento com o actor Jack Cassidy, e o jovem acabou por vingar como ídolo pop daquela época e registar a voz nas principais canções dos discos então editados a que não podia faltar um álbum de Natal. Lançado em 1971, "A Partridge Family Christmas Card" vendeu milhares de cópias e dele foi retirado um single que teve também publicação nacional. Há ainda, no mesmo ano, um EP natalício único no mundo de quatro temas pela Stateside, um acaso muito português sem explicação mas a motivar estudo de caso.

O da nossa colecção é este, de prensagem alemã e com excelente som, onde à seriedade clássica de Irving Berlin e de um tradicional americano é sobreposta uma camada pop a la The Carperters e quase easy-listening que tanto podem resultar num átrio de um centro comercial como numa qualquer festarola descontraída entre tragos de um bom tinto acompanhados por um fatia fina de bolo-rei e queijo da serra... amanteigado!  


sábado, 25 de abril de 2020

SINGLES #48





















GRUPO CORAL DOS CEIFEIROS DA CASA DO POVO DE  CUBA - Grândola Vila Morena / Baleizão, Baleizão
Portugal: DECCA/EMI-VC SPN 172 G, 1974
Serão muitas e incontáveis as versões em disco ou ao vivo de "Grândola Vila Morena" por esse mundo fora agora documentadas ou até inesperadas como a que Bonnie Prince Billy fez ontem online para surpreender os fãs portugueses. Mas logo a seguir à revolução e ao lado da maravilhosa versão que Amália Rodrigues editou, esta é uma das primeiras a surgir. Da autoria do Grupo Coral dos Ceifeiros da Casa do Povo de Cuba, na contracapa do nosso single, ao lado do nome do seu proprietário original, está uma data anotada, Julho 74, o que confirma que três meses depois da revolução já a EMI-Valentim de Carvalho tinha no mercado diferentes propostas alusivas aos novos tempos de liberdade e esperança. 

O grupo coral em causa foi fundado em 1933 mas são inexistentes os pormenores quanto ao local e forma do registo destes cantes, contendo o lado B o tema "Baleizão, Baleizão", uma evocação de outra localidade alentejana. Ter o "Grândola" precisamente ao jeito desse género musical tão marcante para a tradição da região e do país, era um privilégio que, até há dias, só estaria ao alcance de quem detinha a rodela de vinil. Há agora, porém, a possibilidade de o espalhar virtualmente pois a editora disponibilizou digitalmente o seu fundo de catálogo com qualidade assinalável como podem confirmar na audição abaixo. Foi, pois, esta canção a escolhida para abrir o filme promocional da candidatura do "Cante Alentejano" a Património Cultural da Humanidade aprovado pelo UNESCO em 2014 e que tem também neste pedacinho intemporal um momento genuíno. Agora vamos ali abrir a janela...


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

SINGLES #47






















PAT BOONE - Merry Christmas
Inglaterra: London Records - RE-D.1128, EP 45RPM, 1958
Atrás de Elvis Presley, diz-se que Pat Boone foi o cantor mais popular de finais dos anos cinquenta naquele jeito cheio de estilo de encantar uma juventude ainda em fase de libertação. Vendeu milhões de discos, foi arrebanhado para os filmes mantendo ainda hoje activa uma carreira como comentador conservador de política... Não faltam, por isso, pequenos discos de Natal tão populares nessa época de explosão do rock & roll e são dele duas das versões gingonas e sexagenárias de clássicos como "Jingle Bells" e "Santa Claus is Comin' to Town" de que mais gostamos. Estão seguidas no lado B deste EP inglês de capa sugestiva e contra-capa onde se podia escrever o nome do sortudo a quem cabia receber a rodela no caso de uma oferta, tudo devidamente autografado de forma impressa pelo próprio artista para fintar uma proximidade por muitas suspirada! 
Rocking throuhg the snow... Merry Christmas!   



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

SINGLES #46





















MAHALIA JACKSON - Songs For Christmas
Holanda: CBS - 1.118, 45RPM, 1973

Sempre que percorremos a caixa onde se acumulam centenas de singles de vinil de Natal lá aparece a capa que acima se reproduz e que sempre nos intrigou. Não há nela um único sinal de época, pinheiros, bolinhas ou luzinhas a brilhar mas simplesmente o perfil sério e tenuemente sorridente de Mahalia Jackson, a rainha do gospel e uma das lendas da música americana já com direito a selo postal entre muitas outras honrarias e prémios. Em ambos os lados repousam canções eternas sem grandes ornamentos ou orquestrações - "White Christmas" retirado certamente de "Christmas With Mahalia" álbum de 1968 e "Joy to the World" do primeiro disco referente ao Natal chamado "Silent Night - Songs For Christmas" saído em 1962 - mas onde a voz contralto de tonalidade vincadamente soul cumpre na perfeição o efeito pretendido. Talvez a CBS tenha pretendido homenagear com esta edição a sua figura falecida em 1972, juntando dois dos maiores clássicos num único disco e estampando na capa o seu semblante para todo o sempre, transformando a rodela numa peça de colecção obrigatória e intemporal.




quarta-feira, 25 de abril de 2018

SINGLES #45






















SÉRGIO GODINHO - Liberdade/O Grande Capital
Portugal: Sassetti, GM 2000/010/S, 1975
Uma das canções icónicas do pós-25 de Abril é esta "Liberdade" de Sérgio Godinho. O tema abria o disco "À Queima Roupa" de 1974, o primeiro registado pelo artista em Portugal para onde regressou vindo do Canadá logo após a notícia da revolução, sendo muito provavelmente aquele que mais insistentemente passava na altura pela rádio nacional e um dos que mais vezes foi cantado em coro pelo país fora em dezenas de festas-concertos colectivas de âmbito popular. Lembramos bem o refrão "a paz, o pão, habitação, saúde, educação" entoado nas correrias pelo recreio da escola, uma ladaínha ritmada de agrado de miúdos inocentes muito distante de qualquer significado político ou aspirações como o utópico "quando pertencer ao povo o que o povo produzir" que finda a lírica... O aparente êxito da canção levou a casa Sassetti a "cortar" um single saído no ano seguinte através da sua etiqueta Guilda da Música mas a sua actual raridade e valor leva-nos a supor que as vendas não foram famosas ou, o mais provável, a edição foi em número reduzido o que choca com a inegável popularidade da canção, um hino à liberdade que se comemora no dia de hoje.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

SINGLES #44









































PULLOVER - Holiday/Last Christmas 
Inglaterra: Fierce Panda, NING20A, 45RPM, 1996
As versões de clássicos de Natal são, por esta altura, obrigatórias! Na fila do hipermercado, no rádio do carro ao lado em plena fila de trânsito, a registar o totoloto ou simplesmente a atravessar uma passadeira, só mesmo tapando os ouvidos ou pondo os auscultadores é que as habituais melodias a falar de neve branca e muitos "santas" nos podem passar ao lado. Há, contudo, dois originais de época que, sem razão aparente, não resultam em massacre - no nosso caso, o "All I Want For Christmas Is You" da Mariah Carey e o "Last Christmas" dos Wham fazem-nos sempre cantarolar a letra mais que sabida e esboçar um sorriso, talvez porque sabemos bem que só os ouviremos em catadupa no próximo ano e porque são, sem dúvida, grandes canções pop muito difíceis de bater. Quando em 1996 os Pullover, uma banda de Manchester, colocaram no lado B do seu terceiro e último single "Holiday" uma versão do tal "Last Christmas" em toada eighties com muita piada, o futuro parecia risonho mas a realidade acabou por ser bastante traiçoeira. Já com dois grandes singles no ano anterior pela Fierce Panda inglesa, grandes capas e design e brilhantes actuações ao vivo, o grupo liderado por Carol Isherwood arriscou uma nova versão desse "Holiday" sem o clássico dos Wham para assinar por uma nova editora - a Starfish Records - com o contrato melhorado e a gravação de um álbum há muito esperado. As promessas, goradas, haveriam de desfazer todas as esperanças e dos Pullover não reza a história (não confundir com bandas brasileiras, polacas ou norte-americanas com o mesmo nome), tendo a sua líder aprendido bem a lição encetando, então, uma carreira de advogada de sucesso especializada em fazer respeitar os direitos autorais e aspirações dos músicos e artistas. Now, I Know what a fool I've been...




terça-feira, 25 de abril de 2017

SINGLES #43





















RAUL SOLNADO - (Ludgero Clodoaldo) Canta Badaladas
Portugal: Zip Zip, 10.002/E Movieplay, 45RPM, 1970
Nas viagens de infância de fim de semana em família ou mesmo depois em boleias para o liceu, um enorme Ford Cortina de um tio era sinónimo de diversão e, acima de tudo, a oportunidade de ver um leitor de cartuchos a funcionar! As histórias humorísticas de Raul Solnado eram obrigatórias como é o caso de "A História da Minha Vida" ou "A Guerra de 1908" e sabíamos de cor sketches registados ao vivo como "É do Inimigo" ou "Chamada para Washington". Nas investidas vinílicas dos últimos anos aproveitamos para recolher muitos destes registos em EP a que acrescentamos muitos outros editados aquando do programa "Zip, Zip", um êxito televisivo produzido pela RTP durante alguns meses de 1969, um marco da cultura portuguesa emitido em plena "Primavera Marcelista". Criado por Carlos Cruz, Fialho Gouveia e o próprio Solnado, por lá passaram pela primeira vez na televisão portuguesa muitos artistas e autores, sendo míticas as entrevistas a Almada Negreiros ou a Caetano Veloso e Gilberto Gil (Agosto de 1969) mas onde a principal atracção eram mesmo as rábulas do próprio Solnado (como é saboroso ainda vê-lo como adepto do FCP no "Homem do Emblema"). Muitas delas foram posteriormente editados em vinil pela editora Zip Zip então criada e destes pedaços de história destaca-se o EP que hoje aqui trazemos em Dia da Liberdade. Como Ludgero Clodoaldo, um baladeiro muito em voga na época e que nos é apresentado na contra-capa do disco de forma satírica, Solnado faz, nas barbas da PIDE, algumas críticas directas ao regime de então em pequenos temas como "A Linha Não Alinha", "O Mundo é Muito Mauzinho" e o frontal "Senhor Estou Farto" escrito pelo próprio. Todos receberam a composição do magistral Fernando Alvim, guitarrista e instrumentista português de prestigiada fama e constituem ainda hoje um grande momento de televisão e um exemplo notável de inquietação e resistência.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

SINGLES #42





















JOSÉ AFONSO - Natal dos Simples
Portugal: Orfeu, ATEP 6356, EP 45 RPM, 1969
A história desta canção de José Afonso foi já devidamente contada e recontada, um trilho que a revista Visão fez o favor de percorrer no primeiro mês de 2016, o tal onde se cantam as Janeiras. "Vamos Cantar As Janeiras"... este verso tantas vezes ensaiado em plena sala de aula da primária ficou-nos sempre na memória e a insistência na prática tinha um propósito: um coro colectivo de miúdos e miúdas de bata branca reunidos à volta de uma árvore de Natal no átrio frio da escola de soalho de madeira, muita timidez e, com sorte, um beijinho da professora e votos de "Bom Natal"! Longe do pensamento estavam preocupações sobre quem era o autor da canção, as suas conotações políticas ou outras subtilezas líricas já que, mesmo sem direito a qualquer presente ou sequer um docinho, o importante é que o período de férias estava à porta e as brincadeiras com os primos e amigos da rua já tardavam. O tema tornou-se um tradicional de época e logo em 1970 a própria Amália Rodrigues não resistiu a gravar uma versão mais ligeira e orquestrada que faria parte de um single e a que no lado B acrescentou "Balada do Sino", um outro original de Afonso incluído neste EP ao lado do tema título, de "O Cavaleiro e o Anjo" e "Saudadinha". Tirando este último, os temas estavam presentes no disco "Cantares de Andarilho" que marcou em 1968 a ligação a Arnaldo Trindade e à ORFEU e onde José Afonso, acompanhado simplesmente pela viola de Rui Pato, apostou na recuperação de formas mais tradicionais da música portuguesa. O single EP é hoje uma raridade ainda bem valorizada e é também conhecido como "José Afonso Óscar da Imprensa" já que na contracapa se faz alusão, bem impressa, a esse prémio que recebeu por parte da Casa da Imprensa em 1969 relativo ao melhor álbum com o referido "Cantares de Andarilho". A partir daqui o envolvimento político torna-se irreversível e à simplicidade de uma guitarra e voz passam a juntar-se outros instrumentos, outros cantores, uma maior sofisticação da composição e produção e uma cada vez mais fina malha de vigilância política. Para trás e para todo sempre a ecoar na nossa escola ficará o eterno
Pam-pararan-ri-ri
Pam-pararan-ri-ri
Pam, pam, pam, pam...

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

SINGLES #41





















PATTI SMITH - People Have the Power/Wild Leaves
Inglaterra; Arista Records, 109 877, 45 RPM, 1988
A tragicomédia aparente das eleições americanas fez-nos resgatar, numa das muitas caixas de rodelas pequenas, uma canção ainda e sempre poderosa. Em Junho de 1988, Patti Smith regressava com este single ao fim de nove anos de silêncio, tema surgido de uma colaboração com o seu marido Fred "Sonic" Smith e, nessa altura, consentiu pela primeira vez que um video alusivo fosse então produzido, cabendo a responsabilidade da direcção a Meiret Avis, um irlandês a dar os passos iniciais no mundo dos chamados telediscos. Chamou ainda o amigo Robert Mapplethorpe para a fotografar, séria, de tranças e blusão de couro onde prendeu um simples pin com as iniciais "PHTP". Mas foi, acima de tudo, a lírica que transformou o tema numa arma intemporal de protesto e coragem quando canta, entre outros, "People have the power to dream, to rule" a que acrescenta quase sempre em versões ao vivo - como comprovamos duplamente e de braços no ar no Primavera Sound da Invicta em 2015 - "to vote, to occupy, to strike... Don't forget it: use your voice!". Ao ver ontem as lágrimas de alguns dos apoiantes democráticos recordamos o oposto, as lágrimas de alegria de há oito anos atrás aquando da primeira eleição de Obama, sinais de esperança numa América mais solidária e unida. Mas, para o bem e para mal, os regimes democráticos são o que são e o voto do povo é que conta - a realidade americana que parece que conhecemos através das redes sociais, dos talkshows e programas de humor é bem diferente e nitidamente mais profunda nos seus ódios penetrantes e silenciosos. Sendo assim, talvez esteja na altura certa de começar a fazer cumprir a quase "profecia" que Patti Smith cantou bem alto há vinte e oito anos atrás:  

And the people have the power

To redeem the work of fools

From the meek the graces shower

It's decreed the people rule