quarta-feira, 3 de junho de 2026

CREMALHEIRA DO APOCALIPSE + RUMBLE + ROMPERAYO + ODD OKODDO & OGOYA NENGO, Serralves em Festa, Porto, 31 de Maio de 2026

No caminho apressado para mais um dos muitos concertos da festarola, um "viva Rio Tinto!" soou alto e bom som! O colectivo da freguesia Cremalheira do Apocalipse não será caso único na integração de jovens com diferentes incapacidades ou transtornos, mas o sururu à volta do projecto têm vindo a multiplicar-se depois da gravação de um álbum pela Favela Discos e de uma série de concertos nos últimos meses. Importa, pois, perceber porquê e não será difícil concluir que a máquina tem uma simples força motriz - a entreajuda! 

"Das entranhas de Rio Tinto, no triângulo sagrado entre o Centro Social de Soutelo, McDonalds, a pastelaria que tem bolos grandes demais, e o Parque Nascente, brotou a Cremalheira do Apocalipse, uma pedalada de baqueta nos dentes, e um estalo na rotina diária de quem os ouve de quem os vê e de quem os faz." 

Uns entram, outros saem para estágios ou primeiros empregos. Ficam os baldes, as cafeteiras, as baquetas, os bidons, que o prof. Artur vai rodando e sobrepondo a um género de canções manifesto de inspiração lírica dos próprios executantes, tantas delas desarmantes, de acutilância simples que nos deixa desencaixados, a morder o lábio enquanto nos mingámos na insignificância do nosso dia-dia normalizado... 

Caberá, pois, conhecê-los, dar-lhes asas largas e, com um nó na garganta, mandar-lhes um abraço do tamanho da antiga Mondex. E viva Rio Tinto!

 

Do Fundão, aterrou na coloraça o quarteto Rumble. Pareceu deslocada, por antecipação, a atmosfera de densidade pós-rock, se bem que de imaculada execução e até arrojo. A tarde de sol pedia, no entanto, outro tipo de animação festiva.,,

 

Chegados ao prado, já os Romperayo tinham incendiado a enorme maralha, de todas as idades, com uma ignição tropical, de origem colombiana, bombada a forte bateria e modernismos de ritmos electrónicos sacados de um baixo, um teclado e um acordeão folgazão. Há por ali e acolá, um suposto abuso do folclore de Bogotá, da tradição cumbia e puya que chega, literalmente, ao funk latino ou ao suposto pimba local, sem que ninguém estivesse muito interessado em saber qual a aferição dos condimentos rítmicos. 

Tudo a dançar, a curtir, mesmo que algumas da canções de teor político tivessem, às tantas e em dia de eleições no país, uma seriedade inesperada. Acelera, mas é!

 

O duo Odd Okodd, formado por Olith Ratego, vocalista e instrumentista, e Sven Kacirek, baterista e percussionista, junta de forma inusitada o Quénia e a Alemanha em já três álbuns editados e onde se vai vasculhando e serpenteando modernidades e ancestralidades tão ao gosto de uma certa e ecléctica world music. Se funciona? 

A fruição até que começou incisiva, acústica, numa crueza delicada que aguçou expectativas. A interacção com o público optimizou o momento, deu-lhe proximidade e até uma etnicidade aportada pela presença da octogenária Ogoya Nengo. O resultado, se bem que inatacável na exactidão, foi-se, no entanto, perdendo numa extensão perigosa e a precisar de um ou outro rasgo de batimento diferenciador. 

Esta sensação de déjà vu, será muito semelhante à própria festa de Serralves, de que será urgente uma reinvenção que a recupere de uma letargia cultural desnecessária.

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