segunda-feira, 23 de maio de 2022

LAURA VEIRS, ENCONTRÃO DE LUZ!





















A carreira de Laura Veirs aproxima-se dos vinte cinco anos de discos e canções em nome próprio, façanha de altos baixos onde a resiliência ganhou sempre primazia sobre o desalento e de que é prova o difícil álbum "My Echo" de 2020. A distância que esse momento assinala, um divórcio de feridas ainda por sarar, traduz-se numa necessidade de continuar a escrever e compor sobre a sua vida, experimentando tendências e trilhos de tempos a tempos e insistindo na música como panaceia estimulante. 

O seu décimo segundo álbum é, por isso, como se fosse o primeiro no assumir da total independência artística, partilhando a produção com Shahzad Ismaily e editando o disco na Raven Marching Band Records, casa própria que em Julho vai editar "Found Light", título nada inocente sobre um período pós-divórcio mais iluminado que nem a pandemia escureceu. Haverá sempre uma luz que nunca se apaga... 


sexta-feira, 20 de maio de 2022

SHE & HIM, FÉRIAS ANTECIPADAS!





















Da dupla mais sexy da indie, isto é, Zooey Deschannel e M. Ward aka She & Him trazemos quase sempre notícias de tempos natalícios que envolvem versões de época de imediato aconchego. Desta vez, contudo, mudamos de estação do ano e as covers ganham dimensão refrescante para dias de calor que, afinal, já chegaram - são catorze temas dos Beach Boys traduzidas no álbum "Melt Away - A Tribute to Brian Wilson", mergulho corajoso no songbook extenso de um dos génios da música universal. 

Sem tiques rebuscados de conceptualismo, as canções escolhidas não assentam na sua popularidade ou importância mas na frescura que aportam ao dia a dia terreno desde que o sol e o mar se confundam com felicidade e prazer, uma reinvenção que o próprio Wilson aprovou de imediato e reconheceu como excepcional. Do disco, em variados conjuntos, destaca-se uma rodela cor de limão de invejável beleza. Aqui fica "Darlin’" escrita por Brian Wilson e Michael Love em 1967 para o álbum "Wild Honey". Nunca mais chegam as férias...

quinta-feira, 19 de maio de 2022

UAUU #644

EMMA RUTH RUNDLE, UMA ADIVINHAÇÃO!





















É já amanhã, sexta-feira, que acontece a inauguração de uma exposição surpresa de Emma Ruth Rundle numa galeria de Los Angeles que apresentará instalações, esculturas e sonoridades inéditas inspiradas em experiências, ditas, místicas vividas numa viagem ao País de Gales e na restante prática mitológica do Reino Unido. Para além das peças artísticas, o conceito deu origem a um álbum e um livro de nome "EG2: Dowsing Voice", estando este último já em segunda edição depois de esgotado na Sargent House

Recorda-se que Rundle tem dose tripla de concertos agendados para Portugal em Julho onde a violoncelista inglesa Jo Quail assegurará a primeira parte dos espectáculos. Adivinha-se encantamento...

quarta-feira, 18 de maio de 2022

ANNA CALVI, UMA OBSESSÃO!

Ainda não fomos contaminados pela série, ao que parece, sublime chamada "Peaky Blinders" mas apreciamos o habitual bom gosto da banda sonora e das colaborações musicais de eleição. Exemplos como o de Richard Hawley ou de Laura Marling têm agora sequência com Anna Calvi e um EP de quatro temas especialmente registado para a sexta dose do seriado da BBC com edição em vinil agendada pela Domino para Outubro

O disco "Tommy" alinha versões de "Red Right Hand" de Nick Cave, cujo original serve de introdução aos episódios e "All The Tired Horses" de Bob Dylan e ainda dois originais, "Burning Down" e "Ain’t No Grave", tema já estreado durante a temporada anterior. A artista confessou alguma obsessão pela atormentada personagem Tommy Shelby, fonte de inspiração para a composição realizada aquando do término da gravidez do seu primeiro filho em Novembro do ano passado e traduzida, nas suas palavras, na seguinte sentença - My guitar is his violence and my voice is his hope!


FAZ HOJE (17) ANOS #75

























SMOG, O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, Porto, 18 de Maio de 2005
 
. Público, por João Bonifácio, 21 de Maio de 2005, p. 46

segunda-feira, 16 de maio de 2022

THE NATVRAL, Mercado 48, Porto, 7 de Maio de 2022

Poooooooorto! O clamor repetido a partir da rua em sucessiva frequência e de vibração aguçada por buzinas frenéticas pareciam ser uma ameaça séria ao showcase de última hora de Kip Berman aka The Natvural na mais bonita loja da baixa. A alternativa ao concerto há muito marcado na cidade mas cancelado sem grandes explicações parecia, assim, sujeito a uma pressão inesperada mas Berman arriscou participar no jogo sem receios, prescindindo, desde logo, de qualquer amplificação da voz e da guitarra previamente instaladas. O resultado final foi uma vitória clara resultante de muita entrega, simpatia e solidez das canções. 

A táctica usada, mesmo que aplicada num recinto sem palco e plateia rígida, pôs em prática um permeio alastrado de originais, de versões (Billy Bragg ou Cohen), de canções novas e recordações dos tempos dos The Pains Of Being Pure of Heart, banda que capitaneou ao longo de uma dúzia de anos e que lhe marcou um estilo onde Young e Dylan se continuam a intrometer sem disfarce. Um espelho dessa herança chama-se "Alone in London", tema que termina o disco de estreia do projecto The Natvural e que serviu, também ali, para culminar um apreciável desempenho. À campeão...

quarta-feira, 11 de maio de 2022

CIRCUIT DES YEUX, CONTORNO OBRIGATÓRIO!





















Os predicados de Haley For aka Circuit Des Yeux são, nesta casa, motivo de imediata promoção e elogio, quer aquando de discos publicados quer em memoráveis apresentações ao vivo. Foi o caso do último álbum "-io", foi o caso da passagem ao vivo por Espinho em 2018, será certamente o caso da próxima oportunidade de teste agendada para o Auditório de Espinho para 21 de Outubro próximo mas com apresentações prévias por Braga (GNRation, dia 20) e Lisboa (Culturgest, dia 19). 

Para que não restem dúvidas quanto ao inusitado grau de estranheza bela da sua música, há agora um EP de quatro temas do referido álbum em modo ao vivo no Jamdek de Chicago ao lado dos músicos Whitney Johnson (Matchess), Andrew Scott Young e Ashley Guerrero que, previsivelmente, serão novamente os parceiros de palco lá para o Outono. Juntem-lhe uma nova canção já por aqui destacada em Fevereiro e o apelo e comparência afiguram-se de contorno obrigatório. 

sábado, 7 de maio de 2022

FAZ HOJE (17) ANOS #74





















NOUVELLE VAGUE + NICOLA CONTE + GABRIEL O PENSADOR + N.E.R.D, Festival 24 Horas TMN, Estádio do Dragão, Porto, 7 de Maio de 2005
 
. Jornal de Notícias, por Cláudia Luís e Cristiano Pereira, fotografias de Pedro Correia, 8 de Maio de 2005, p. 42/43 
. O Comércio do Porto, por Anastácio Neto, fotos de Luís Costa Carvalho, 8 de Maio de 2005, p. 44



sexta-feira, 6 de maio de 2022

THE NATVRAL: SIM, HÁ CONCERTO!





















Uma série de equívocos desconhecidos fizeram cancelar, sabe-se agora, o concerto de Kip Berman/The Natvral, dos extintos (?) The Pains Of Being Pure At Heart, no Porto agendado para sábado, 7 de Maio, no espaço M.Ou.Co. Alheio a este contratempo e de forma a aproveitar a deslocação à cidade, o próprio artista solicitou ajuda na procura de um local onde pudesse cumprir o desígnio mínimo, isto é, tocar algumas canções em ambiente descontraído e informal. 

Feitas as diligências, acertadas as condições e movidas as vontades, confirma-se a apresentação gratuita no espaço do Mercado 48 da Rua da Conceição com início marcado para as 21h00 do dia de amanhã. Eia! Passem a palavra, naturalmente.

JONATHAN JEREMIAH, VITAMINA J!





















A qualidade da soul-pop do inglês Jonathan Jeremiah há muito que flutua entre as nossas preferências embora o reconhecimento público da sua eficácia seja, no país, de nulidade absoluta, situação oposta há que se reconhece no centro da Europa. São já três os álbuns editados e aproxima-se um quarto de que se pode ouvir o excelente tema título "Horsepower For The Streets" a juntar a outros dez ao lado da Amsterdam Sinfonietta nos vistosos arranjos de cordas. O resultado final será conhecido em Setembro, mês de edição agendado pela Pias Records para destapar várias versões em vinil e dar o pontapé de saída numa digressão por França, Bélgica, Holanda e Alemanha. 

Agora que o calor primaveril começa a sentir-se, a receita afigura-se imprescindível para que a distância menor entre o sol e a terra tenha banda sonora hidratante e vitamínica, ajuda vital para o equilíbrio diário a que nos habituamos a recorrer com frequência. There's always the sun...     

RON CARTER DE SECRETÁRIA (CASA)!

quinta-feira, 5 de maio de 2022

(RE)LIDO #106





















UMA VONTADE DE MÚSICA - AS CANTIGAS DO ZECA
 
de Octávio Fonseca. Braga: Tradisom, 1ª edição, 2021 
A vida artística de José Afonso já mereceu múltiplas iniciativas editoriais, de teses académicas a estudos de caso, fotobiografias ou recopilações de entrevistas. O mérito de todas elas, mesmo de teor variável, emerge de um denominador comum que tem nas suas canções o emissor principal de peripécias, cumplicidades, vitórias e desalentos de uma vida atribulada mas de plenitude incontestável. 

Mesmo sem uma biografia oficial disponível, lacuna que seria do agrado do próprio e humilde artista, o que Octávio Fonseca empreendeu afigura-se essencial quer do ponto de vista documental quer na reposição justa de um panorama mais abrangente da importância das suas canções, influências ou intervenção sócio-politica. As Cantigas do Zeca, não retirando todo o seu peso na luta contra a ditadura e aspiração de liberdade, ganham aqui uma dimensão enciclopédica e artística onde o cantor e compositor é também um poeta mas, principalmente, um músico universal pronto a inovar e a partilhar criatividade sem esforço.

Para lá das polémicas e opiniões, disco a disco e desde os primeiros com as chamadas baladas de Coimbra até aos últimos já condicionado pela doença, o livro aventura-se numa cronologia rigorosa onde se denota uma notável e substancial pesquisa bibliográfica, ela própria comentada, buscas em acervos inéditos e insistências na recolha de testemunhos coevos que servem para uma evidente e profunda submersão no universo multifacetado de um artista difícil na análise, polémico na síntese mas crucial na conclusão quanto à sua importância na história da música portuguesa. 

O parceiro essencial da guitarra Rui Pato, convidado a fazer o prefácio, refere que "talvez esteja aqui um José Afonso completo" o que, não muito longe da verdade, preferimos assumir como incorrecto na suposição que o fascínio pelas canções do Zeca continue a motivar e a despertar outras descobertas, histórias ou novidades. A necessidade de uma segunda edição revista e melhorada do livro é a prova que a vontade de música que se personifica em José Afonso continua a atrair reconhecimento e interesse. Sempre no mês do trigo se cantará...
   

ANDRÉ CARRILHO, ARTE PARA OS GORILLAZ!





















O acutilante cartoonista e caricaturista português André Carrilho têm espalhado talento por jornais e revistas nacionais e internacionais de forma consistente. O mundo da música, dos músicos e afins, tem também servido para confirmar o seu prestígio como, por exemplo, o desenho de Bob Dylan para a capa da revista "Word" em 2010 ou de Neil Young e Amy Winehouse para a "Arts & Books" do jornal The Independent On Sunday em 2013 e 2014. Chega agora a um ponto alto da sua carreira... 

A convite dos Gorillaz e do seu ilustrador oficial Jamie Hewlett, Carrilho é um dos mais de quarenta artistas eleitos para redesenhar as personagens 2D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs criadas por Hewlett e que nos habituamos a ver em inúmeros videos e projecções. Todas as reinterpretações estão reunidas no fabuloso "The Gorillaz Art Book", impressas em papel luxuoso ao longo de quase trezentas páginas e acondicionadas numa caixa exclusiva já em pré-venda por cerca de oitenta euros. 

O livro é uma felizarda ideia que pretende comemorar os mais de vinte anos do projecto virtual lançado por Damon Albarn e Jamie Hewlett em 1998. Os Gorillaz estarão no Porto a 11 de Junho, último dia do festival Primavera Sound 2022

quarta-feira, 4 de maio de 2022

MARLON WILLIAMS, UM BOM RAPAZ!





















O neo-zelandês Marlon Williams regressa aos originais com o single "My Boy", um género de canção de verão de sabor, segundo o próprio, maori disco bop com videoclip gingão realizado por Martin Sagadin e filmado em Lyttelton Trinity Hall e na casa do amigo Tom. O tema é dedicado a todos os irmãos mais velhos do mundo e arredores.

Prevê-se disco maior em breve e há digressão pela Europa com mesmo nome a começar em Outubro mas sem sinais de acerco a Portugal. 

MARY LATTIMORE, FASCÍNIO NO THEATRO!














A magia que a harpa de Mary Lattimore aporta a imensos discos de amigos músicos ou ao lado de outros em palco é, por si só, impagável. Mas há nos trabalhos em nome próprio uma carga experimental de teor magnífico onde os acordes se permeiam de efeitos electrónicos, fórmula que tem por hábito utilizar em apresentações ao vivo que ainda este mês teremos a felicidade de receber. 

Assim, a 28 de Maio, sábado, está marcada uma sessão de fim de tarde (18h00) no pequeno auditório do Theatro Circo de Braga, que se repete no dia seguinte na Zé dos Bois lisboeta. O alinhamento previsto rondará o álbum "Silver Ladders" de 2020 mas também, eventualmente, algumas peças compiladas no recente "Collected Pieces - 2015-2020", o inédito "Moon Over Deetjen's" de Março passado ou a versão sublime de "Love Is The Tune" de Bill Fay. Um fascínio a não perder!


terça-feira, 3 de maio de 2022

VIGO ENCANTA!

Agnes Obel

















O conhecido Ano Jacobeu é celebrado quando a festividade do Apóstolo Santiago do dia 25 de Julho coincide com um domingo, o que aconteceu em 2021 e que se estendeu, excepcionalmente, a 2022 devido à situação pandémica. Para a vizinha Galiza é motivo de orgulho, o que implica festa e comemoração que se estende a uma programação de concertos que se adivinha este ano apetitosa. 

Assim, nas principais cidades da região há já uma série de espectáculos agendados dentro de um ciclo que recebeu o nome de Xacobeo Importa, iniciativa já com onze edições que para além de artistas e projectos mais populares (Texas, Steve Vai, Yann Tiersen ou Pat Metheny) alcança uma outra diversidade atractiva em Vigo a partir da primeira semana de Julho. Tomem nota: 

. Rufus Wainwright, dia 2, sábado, no Teatro García Barbón; 

. Fat Freddy’s Drop, dia 6, quarta, no Terraço do Auditorio Mar de Vigo; 

. Agnes Obel, dia 7, quinta, no auditório do Teatro Afundacion; 

. Leon Bridges, dia 10, domingo, no Auditório Mar de Vigo como previamente anunciado

A aproximação a uma cidade nortenha da maravilhosa Agnes Obel é uma dádiva pela qual suspiramos há algum tempo, sugerindo ser esta uma oportunidade imperdível e para a qual já se vendem bilhetes em conta. Vigo encanta!

UAUU #642

THE NATVRAL, ESTRANHAMENTE!





















Esta é a nossa terceira insistência na suposta vinda de Kip Berman (TPOBPH) e o seu projecto The Natvral ao Porto para um concerto. Depois de anunciada em 2021, a digressão recebeu até cartaz alusivo onde se refere 7 de Maio, o próximo sábado, e o M.Ou.Co como dia e local certo de término de seis datas pela Península Ibérica. 

Ainda ontem o mesmo cartaz, o de cima, foi afixado no facebook do artista entre referências jocosas a Espanha e o completo esquecimento de que na referida península há até um outro país onde, supostamente, ficou de comparecer. Atendendo a que a agenda oficial do M.Ou.Co. ignora o evento anunciado mas não desmarcado, estamos naturalmente perante um estranho e bizarro mistério!

segunda-feira, 2 de maio de 2022

AMARO FREITAS, Auditório de Espinho, 29 de Abril de 2022

Avisamos os mais desprevenidos para a passagem de Amaro Freitas por Espinho. Reforçamos, desde já e em voz alta, o conselho infalível para que se preparem para o seu regresso marcado para 4 de Novembro próximo em São João da Madeira. E porquê? Larguem tudo e compareçam sem fazer mais perguntas porque só ao vivo e na dimensão única da partilha será possível fruir da totalidade da experiência, sejam quais forem as razões ou justificações que passamos, então, a tentar descrever sem êxito óbvio. 

A prática teve nos primeiros trinta minutos um género de KO por antecipação - o trio com Freitas ao piano, Jean Elton no contrabaixo e Hugo Medeiros na bateria aplicou à plateia uma hipnose invertida que impossibilitou qualquer relaxamento ou descontracção já que o instrumental de alta velocidade e em espiral de conivência sugeria estarmos perto de um auge que antecipa um qualquer encore final. Longe disso! Faltava ainda muito de um reportório de três álbuns publicados em cinco anos onde se testaram cruzamentos jazz de sabor afro-brasileiro mas que cedo se embeberam de uma aura clássica. Basta pôr a rodar qualquer um deles para o comprovar. 

Talvez "Nascimento" seja uma dessas peças chave, que ali serviu para parafinar ainda mais ou ouvidos e respirar fundo, não muito, porque a "Encruzilhada" seguinte e, principalmente, a perfomance a solo à volta do piano não deu tempo para qualquer distracção. Foi então que Amaro como que mergulhou nele para esticar e distorcer cordas e batimentos enfeitados por uns "martelos" que, pousados, abafaram o timbre e as notas, mas que executados pareceram orixás misteriosos ao jeito do mestre Naná Vasconcelos e de uma cultura brasileira tradicional e popular que Amaro sabe, na perfeição, renovar e preservar. 

Quando em "Rasif" nos pôs a entoar em coro descontraído notas e tons, a intenção de incentivar a festa e a alegria foi só a confirmação deliciosa de uma matriz tropical de naturalidade e bondade. Bastaria a leveza de "Vida Bela" com que o serão se evaporou, para que esse travo de ancestralidade mas também de inquietação não tenham fim. Por isso, não esqueçam, em Novembro há mais... Massa!

quinta-feira, 28 de abril de 2022

WILCO, LAVOR E TRABALHO!





















Já não é para nós surpresa abrir a caixa de correio electrónico e deparar com uma mensagem de título New Wilco Album! Tem sido assim, de forma natural e inesperada, que na última década o sexteto de Chicago tem marcado e vincado a força do seu trabalho imediatamente validado por aficionados, ainda e sempre, sedentos de melodias. Hoje foi mais um desses dias. 

No final de Maio, então, lá chegará o décimo segundo disco de estúdio, o que neste caso é literalmente verdade já que o resultado contido em "Cruel Country" é fruto de esforço colectivo e presencial simultâneo no The Loft, um género de oficina própria de canções em revisão e afinação permanente que já não assistia a tamanha azáfama desde o registo de "The Whole Love" de 2011. 

Trata-se de um duplo álbum de vinte e um temas a ser estreados ao vivo no Festival Solid Sound que a banda tem por hábito organizar ao longo de três dias em North Adams, Massachusetts, a coincidir com a data de lançamento mas que, certamente, se estenderá à restante digressão com datas europeias logo em Junho. 

Como sugere a imagem de capa, um primeiro e cruel lavor bordado por Tweedy e rendilhado à maneira pela restante comunidade chama-se "Falling Apart (Right Now)" e não engana...

JENS LEKMAN, ESCAVAÇÕES SONORAS!





















A longevidade artística do sueco Jens Lekman alcançou já a vintena de anos e, por isso, há lá para trás no tempo canções que devem merecer expedição sonora em jeito de escavação metódica de forma a lembrar qualidades intactas ainda modernas que por aqui descobrimos num antanho longínquo. A programação aprovada contempla a reedição com títulos modificados dos dois primeiros álbuns com adição de inúmeras valias que assentam na reinterpretação da totalidade dos temas e novas melodias até agora inéditas. 

Temos, assim, "The Cherry Trees Are Still In Blossom" que retoma o disco "Oh You're So Silent" de 2005 e "The Linden Trees Are Still In Blossom" referente a "Night Falls Over Kortedala" de 2007, ambos com retoques no desenho de capa e edição física prevista para Junho pela Secretely Canadian. O conjunto atinge a quarentena de canções como, por exemplo, a magnífica "Maple Leaves" que recebeu video pleno de imagens captadas em 2003 pelo próprio e pela amiga e também cantora Lisa Nilsson. Do velho se faz novo...

quarta-feira, 27 de abril de 2022

(RE)VISTO #96





















BILLIE 
de James Erskine. Reino Unido; 2019 
TV Cine Edition, Portugal, (arquivo)
Há quase sempre na aura de músicos e cantores lendários uma pequena abertura por onde, mais cedo ou mais tarde, sairá um vapor escuro pronto a surpreender a opinião pública. No caso de Billie Holiday, unanimemente considerada uma das melhores vozes do século XX, a amargura foi desde cedo comentada e vasculhada sem, contudo, se entender e perceber a dimensão íntima dessa tragédia que uma vida curta (1915-1959) esconderia até ao limite.       

Durante os anos setenta a jornalista americana Linda Lipnack Kuehl procedeu à gravação de mais de duzentas horas de entrevistas com pessoas que tinham convivido com Holiday, desde músicos, amigos, familiares ou até amantes com o objectivo de escrever e publicar uma biografia que, tragicamente, nunca chegaria a terminar. O realizador James Erskine teve acesso a esse manancial audio de cassetes e fitas e juntou-lhe imagens de arquivo alusivas ou de circunstância em formato de documentário onde se revela uma nova e surpreendente dimensão da mulher e da artista de Filadélfia.

O destino da jovem Eleanora parecia condenado à desgraça imposta por uma América defeituosa na segregação e racismo, limitando acessos e direitos, o que cedo levou ao seu resvalo para a prostituição e o vício do haxixe que, apesar de legal, acelerou problemas e azedumes. Mas havia uma voz, única e inconfundível, que lhe permitiu seduzir homens e mulheres sem freio e que o mundo do jazz aprendeu a respeitar em ligações sucessivas a outras estrelas como Artie Shaw, Jimmy Rowles, Lester Young ou Count Basie que lhe chamou, para todo o sempre, Lady Day. O rodopio ao vivo onde se juntavam intérpretes brancos e negros irritava donos de hotéis, de bares ou de locais de concertos e confundia uma artista em ascensão, calada na sua revolta que aditivos mais duros e consequentes corroíam sem remédio. 

O icónico "Strange Fruit", escrito pela própria, serviria como grito explícito contra o racismo colado na sua pele, somando admiração e até veneração mas despertando cercos de vigilância policial e jurídica que o filme acentua de forma intencional, polémica que deu azo a película ficcional que o mesmo canal estreou em Fevereiro e que tem repetição, agora complementar, agendada para breve. A canção passou a ser obrigatória em qualquer espectáculo, mesmo que raros e com uma Lady Day cada vez mais magra e chagada por casamentos violentos a tocar o masoquismo, períodos solitários de prisão e dependência crescente e perigosa de drogas duras. 

O descontrole evidente entra olhos dentro num grau de tristeza e desgosto que nos fere sem dó e, como cantado, sem explicação para tal vida de sofrimento. A misteriosa morte de Linda Lipnack que o filme insinua, sem cumprir o seu desígnio obsessivo, só serve para agudizar dúvidas enterradas numa teia de silêncios que este excelente documento deve reclamar, com mérito, ter em definitivo começado a desfazer...


 

PATRICK WATSON, SOMBRA ILUMINADA!





















Apesar da pandemia, os últimos anos foram para a canadiano Patrick Watson uma roda viva de trabalho. Depois do álbum "Wave" de 2019, houve tempo para compor mais um punhado de temas, contando-se entre eles "A Mermaid in Lisbon" ao lado de Teresa Salgueiro, parcialmente registado na capital nos Estúdios Atlântico Blue, ou para espectáculos de gala com a BBC Orchestra no Barbican de Londres. Chega agora nova maravilha. 

No álbum "Better In The Shade" o agora quarentão acentua uma maturidade artística sedutora que teve inspirações literárias em Virginia Wolf, Denis Johnson e Samanta Schweblin, de onde foi retirando pensamentos transformados em letras para as sete novas canções agora polvilhadas de mais sonoridades electrónicas a lembrar tendências do passado inicial. Há um género de dueto com a amiga Ariel Engle aka La Force em "Height of the Feeling" mas foi com "Blue" que a sombra nos iluminou ainda mais...



terça-feira, 26 de abril de 2022

UAUU #641

DAMIEN JURADO, DISCO DEZOITO!















Os sinais emitidos o mês passado faziam prever um novo disco de Damien Jurado que agora se anuncia para 24 de Junho próximo. Trata-se do décimo oitavo trabalho em nome próprio e nele estão incluídos doze novos temas de elevado calibre cinemático e cuja auto-produção, com a ajuda de Josh Gordon em diversos instrumentos, se evidencia contagiante sob o título de "Reggae Film Star". 

Deixamos "Taped In Front Of A Live Studio Audience" como teste definitivo que se junta aos anteriores "Roger" e "What Happened To The Class Of '65?". Ficámos à espera de nova experiência presencial e a cores... 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

SINGLES #52





















SARL - S.A.R.L. LDA 
De Como A Canção Social Tem Uma Função Capital... Quer Dizer.../
Funchal, 23 
Portugal: Movieplay SP 20.147, 45rpm, 1974 (?) 
Nestes tempos de incerteza e mágoa talvez um pouco de humor, mesmo que inofensivo, sirva de consolação. O deste pequeno disco é algo datado mas mantêm uma actualidade fresca atendendo à realidade política da Europa e fora dela, gozando com os chamados vira-casacas e com o canto de intervenção do pós-25 de Abril num jogo de leve anarquia e subversão. 

Sobre os SARL há pouca informação concreta, exceptuando as incluídas na Discogs onde o single se vende barato. Aí se diz: 

"O mistério só foi desvendado em 1999. 
O autor da canção [Funchal, 23] é José Niza que a compôs em casa de Daniel Proença de Carvalho ao ler no "Diário de Lisboa" a notícia da partida do Funchal para o Brasil no dia 23 de Maio (daí o título) de Moreira Baptista e Silva Cunha (ministros da ditadura deposta). 
José Niza limitou-se a musicar o texto da notícia. 
Dias depois, José Niza, Daniel Proença de Carvalho, Carlos Perez Álvaro, então director da Movieplay, Rui Ressurreição, Thilo Krasmann e José Manuel Pedrosa gravaram "Funchal, 23" e "De Como A Canção Social Tem Uma Função Capital... Quer Dizer..." no estúdio da Musicorde.

A sigla SARL significa Sociedade Artística e Recreativa Lusitana e teve continuidade, nomeadamente, com "Uma Canção Comercial" concorrente em 1979 ao Festival da Canção e onde se confirma, pelo video disponível, a presença do cantor Samuel, de Carlos Alberto Moniz e do futuro maestro Pedro Osório, autor dos temas de dois outros singles dos SARL já nos anos oitenta

Nota ainda para a contracapa da rodela que acima se reproduz onde as designações de lado A e lado B são substituídas por face Esquerda e face Direita e se alude ao "buraco" do centro de forma iminente e política. Talvez o agora reformado advogado Daniel Proença de Carvalho, que publicou por estes dias uma biografia em jeito de memórias, tenha tido tempo para aí tecer mais esclarecimentos e explicações... divertidas!


domingo, 24 de abril de 2022

FAZ HOJE (17) ANOS #73





















JOAN AS POLICE WOMAN + RUFUS WAINWRIGHT, Coliseu dos Recreios, Lisboa, 24 de Abril de 2005; Coliseu do Porto, 25 de Abril de 2005
. A Capital, por Ana Garcia Martis, fotografia de Pedro Lopes, 26 de Abril de 2005, p. 39 
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim, fotografia de Pedro Saraiva, 26 de Abril de 2005, p.39  
. O Comércio do Porto, por Rodrigo Affreixo, fotografia de Pedro Granadeiro, 27 de Abril de 2005, p. 46 


sábado, 23 de abril de 2022

RECORD STORE PRAY 2022!

Hoje já será possível visitar e vascuhar presencialmente e sem máscara em lojas de discos aderentes ao habitual Record Store Day! Da lista, sempre massiva mas, ainda assim, decepcionante, vamos esperar que a azáfama e nervosismo assentem para tentar acertar na mouche nestes most wanted...

sexta-feira, 22 de abril de 2022

PAUL BUCHANAN, TESOURO COM DEZ ANOS!

 




















O estreia a solo de Paul Buchanan, o senhor Blue Nile, com o disco "Mid Air" fará em Maio uma década e o tesouro terá em breve um excelente aumento. A britânica Newsroom Records, casa editora fundada pelo próprio, lançará em Julho uma versão em duplo vinil que contempla, pela primeira vez, a disponibilização de uma série de bónus saídos somente em CD a que se acrescentará um livro de vinte páginas com as letras originais. 

Se forem rápidos na encomenda, poderão receber uma prova oficial da imagem de capa devidamente assinada e datada mas, se não tiverem sorte, a simples posse de tamanho disco com doze grandes canções, melhoradas na pureza por Calum Malcom no início do ano, bastará para que o vosso grau de satisfação seja exponencial!

WILCO, TESOURO COM VINTE ANOS!





















O clássico álbum "Yankee Hotel Foxtrot" dos amados Wilco faz este mês de Abril vinte anos! Foram, por isso, marcados quatro datas em Nova Iorque e duas na natalícia Chicago para réplica fiel em cima do palco de tamanha obra prima, momentos já mais que partilhados pelos fãs à vontade do freguês

Mas a comemoração ultrapassa a simples apresentação ao vivo já que a reedição projectada contempla oito edições diferentes que na opção super-luxuosa ganha contornos de verdadeira baú-tesouro de onze rodelas de vinil ao alcance por mais de duzentos e trinta euros (mesmo assim, parte já está esgotada)! Lá pelo meio há oitenta e duas canções ou instrumentais completamente inéditos para além das habituais fotografias, entrevistas e memorabilia em doses generosas, tudo com novo design e revestimento para sair em Setembro. 

A banda apresentou-se há dias no programa "Late Show with Stephen Colbert" da CBS americana onde teve como convidado o Aizuri Quartet na interpretação de "Poor Places", uma das canções-pérola retirada do tesouro inicial. Maravilha!

DUETOS IMPROVÁVEIS #258

BATTS & SHARON VAN ETTEN 
Blue (Batt) 
I Feel Fine Records, Austrália, Abril de 2022

quinta-feira, 21 de abril de 2022

S. CAREY DE SECRETÁRIA (CASA)!

RODRIGO AMARANTE, Casa da Música, Porto, 18 de Abril de 2022

          Foto de Vera Marmelo/Ritmos e Batidas (Lisboa, 19 Abril 2022)














O regresso de Rodrigo Amarante ao Porto, cidade onde tem por hábito espalhar felicidade e poesia de tempos em tempos, apanhou a sala da Casa da Música estranhamente sossegada, um rigor que levou o músico brasileiro a tentar quebrar a camada fina de gelo com risadinhas entre canções que tiveram como resposta outras risadinhas do público... 

O nervosismo, reconhecido mas gratificante ao confirmar a plenitude esgotada da plateia, haveria de evaporar-se entre a bruma de fumo desnecessário a cada canção apresentada, selecção feita de forma natural entre as que gravou para o álbum "Drama" e de que "I Can't Wait", "Maré", "Tao", "Tango" e, principalmente, "Tara", foram exemplares perfeitos de um jeito muito próprio de nos encolher o coração pela delicadeza de tamanha beleza tropical. Claro que não faltaram já clássicos como "Irene" ou "O Cometa" e o indispensável, já no encore, "Tardei" que devia ter motivado coro colectivo mais audível e intenso. 

Antes, e aproveitando a presença de um piano de cauda no palco, Amarante pousou a viola e, ao jeito de um pianista que levanta a labita formal e entrelaça os dedos, sentou-se para o melhor momento da noite e que talvez devesse ter merecido mais insistência - dois temas imensos que bateram mais alto que todos os outros e que teve em "The End", com que termina o novo disco e que serviu para uma primeira despedida, a maior ovação de uma sala, ainda assim, insatisfeita. 

No regresso quase imediato juntou ao pedido de "Tardei" um rebuscado mas saboroso "Pode Ser" que escreveu para a big-band de gafieira Orquestra Imperial, mas ao contrário da noite seguinte em Lisboa, onde teve companhia de Moreno Veloso para um dueto inesperado, o concerto haveria de ficar por ali... sem drama!

quarta-feira, 20 de abril de 2022

ANDREW BIRD, NOVO ÁLBUM!















Em Março a nova canção "Atomized" de Andrew Bird sugeria que novo trabalho de longa duração estava na forja, o que agora se confirma com o álbum "Inside Problems" a editar em Junho. O resultado é o apuramento de um registo ao vivo ao lado do seu quarteto habitual cavado de algum pessimismo e desilusão com o actual estado do mundo, a sua desagregação social ou a decadência do ser. Há já três videos de cromatismo cinzento que, apesar de tudo e longe de um derrotismo, repetem a evidência da vibração da música de imediata sedução. Um problema dos bons!



terça-feira, 19 de abril de 2022

UAUU #640

AROOJ AFTAB, MAGIA EM BRAGA!





















A digressão europeia de Arooj Aftab, uma das maiores perdições aqui da casa, chega a Portugal em Junho com concertos em Lisboa (dia 25, Rock In Rio), Sintra (dia 26, Festival Muscarium) e Braga (dia 28, talvez no Theatro Circo). A menina, agora premiada com o Grammy de Melhor Performance de Música Internacional, apronta-se para fazer magia como esta...

segunda-feira, 18 de abril de 2022

CANDE Y PAULO, Auditório de Espinho, 16 de Abril de 2022

O duo argentino Cande y Paulo, Cande Buasso no contrabaixo e voz e Paulo Carrizo no piano, estrearam em 2021 um álbum homónimo produzido nos E.U.A. por Larry Klein com uma dúzia de versões de clássicos do jazz e do pop-rock, uma viagem sonora onde se misturam décadas e géneros de forma surpreendente e que vai de Cohen a Gershwin, passando por Feist, Neil Young ou Rodrigo Amarante! A passagem única por Portugal teve no Auditório de Espinho o local apropriado e certeiro para o culminar de um périplo europeu atrasado pela pandemia mas que beneficiou de uma projecção pública mais ampla e de sucesso já com direito a concerto de secretária entre multi-elogiadas críticas. 

A recreação vagueou numa intimidade lenta onde vibrou a voz de Cande e os arranjos de teclas de aparente simplicidade e que facilmente se infiltrou num afiar cativante de melancolia e subtileza mas que está ainda longe de se esgotar nas suas potencialidades, virtudes e derivações. A sequência mereceu, desde logo, forte aplauso e aprovação para notória satisfação da dupla que nem mesmo alguma timidez de Cande disfarçou, talvez por cumprir na data mais um ano de vida. Para culminar o serão foi escolhida uma cover em japonês (!) de um original de Meiko Kaji, actriz e cantora que viu esse tema ("Shura no Hana") incluído na banda sonora de "Kill Bill" de Tarantino, surpresa maior de um espectáculo pascal de forte teor de açucar... cande!

sábado, 16 de abril de 2022

(RE)VISTO #95





















STARDUST - O NASCER DE UMA ESTRELA
 
de Gabriel Range. Canadá, Salon Pictures/Wildling Pictures, 2020 
TVCine Top, Portugal, 10 de Abril de 2022 
O universo mítico de David Bowie, que se cristalizou depois da sua morte em 2016, roda quase sempre na vertente iluminada do seu talento e deslumbre embora, como se sabe, tenha havido um lado oposto de negrura e alucinação fundamentais para a sua carreira artística. Ganhar coragem para realizar um filme fictício sobre parte importante e decisiva dessa faceta é, por si só, um acto arriscado e de cotejo imediato com legados familiares ou profissionais estabelecidos. 

As críticas conhecidas a esta biopic parcial são, por isso, maioritariamente de teor negativo e até de rejeição exacerbada. A narrativa construída assenta na rebuscada primeira digressão a solo do músico pelos Estados Unidos em 1971 depois de discos de insucesso e atitudes incómodas a uma indústria musical já aí colada ao negócio fácil e ao lucro imediato. Fama, esse fito do próprio alimentado por promessas e mentiras, é uma miragem que bordeja toda a película de forma a que o espectador, que sabe como tudo vai culminar, seja infiltrado de uma comiseração indigesta a que algumas das personagens ajudam na levedura de forma evidente. A de Angela Bowie e a do promotor americano são o perfeito exemplo desse mal-entendido e ambiguidade, embora a encarnação do próprio Bowie, longe da perfeição, não se afigure assim tão transviada. 

Sofrível é mesmo o recurso a um intervalar de passado e presente que aporta fantasmas da vida em Inglaterra e a esquizofrenia do irmão Terry, outra das personagens equívocas que deveria ter merecido mais cuidado e acutilância pela importância efectiva na forma como Bowie lidou com demónios e trilhou alter-egos como um extraterrestre Ziggy Stardust. De resto, para que o filme falhe, estão lá todos os condimentos nas doses erradas - as drogas, a importância da crítica e boa imprensa e até da fama suspirada que não dispensou sorrateiramente Andy Warhol ou Lou Reed. Anjo ou diabo, como ele próprio cantou, que venha neste caso o diabo para nos fazer esquecer tamanha sonsice...


sexta-feira, 15 de abril de 2022

SESSA, Maus Hábitos, Porto, 12 de Abril de 2022

A sessão ao vivo de Sessa, há muito prometida mas multi-adiada por razões conhecidas, teve casa cheia animada pela presença de muitos brasileiros radicados na cidade mas também de muitos da cidade e arredores radicados na oportunidade imperdível. O guião foi ainda o magnífico álbum "Grandeza" de 2019, com tempo de assimilação e crescimento sustentado, mas o momento serviu para um primeiro teste a algumas das canções do novo "Estrela Acesa" e de que, por exemplo, "Ponta de Faca" e "Irmão de Nuvem" nos parecerem sublimes. 

Para os temas eleitos de ambos os álbuns, Sessa aplicou uma toada de afro-samba muito próprio que a percussão incisiva do baterista e a gentileza da dupla de vozes femininas acentuaram numa onda airosa de tradição mas também de modernidade rítmica. Juntou-se, como se nota em qualquer prévia audição atenta, um jogo linguístico idiossincrático pleno de uma intimidade e uma sexualidade excitantes que muitos soletraram baixinho, deixando que a entoação cantada de Sessa alastrasse na sedução e na beleza do chocalhar esporádico dos colares de conchas agitados pelas parceiras.

No alinhamento couberam ainda duas versões perfeitas dos mestres Cartola ("Acontece", sozinho em palco) e João Donato ("Flor de Maracujá") com que se encerrou um serão calorento que talvez merecesse um espaço mais confortável mas que, mesmo assim, funcionou numa plenitude e partilha saborosas ou não fossem elas fecundadas numa secular e única conexão luso-brasileira. Com este Sessa, a estrela guia dessa amizade continuará bem acesa!