terça-feira, 14 de junho de 2022

DRY CLEANING+HELADO NEGRO+KHRUANGBIN+JAWBOX+INTERPOL+SQUID+GORILLAZ, Primavera Sound Porto, 11 de Junho 2022

















Em plena revista e nervoso controlo de entrada, soaram os primeiros sons e acordes dos Dry Cleaning no recinto próximo. Como muitos, demos connosco a correr afogueados até conseguir furar a multidão, ainda espaçada, até o mais perto do palco. 

Agora sim, respirando fundo, já era possível começar a sorver o momento que se afigurava intenso atendendo a que, à nossa frente, estava a banda com o melhor disco do ano passado. Logo se percebeu que não estávamos sós no julgamento - ao fim de algumas canções, a longa ovação quase fazia corar de orgulho uma Florence Shaw emocionada na sua alvura e, talvez, surpreendida com a recepção calorosa ao concerto que contemplou, logo à frente, uma homenagem a Paula Rego com o tema "More Big Birds". Se pensarmos que os Cleaning tiveram dois anos para crescer na medida certa e no público certo até à estreia no Porto, uma boa parte pertencente a uma geração saudosa de alguma da rugosidade indie dos anos oitenta, não espanta o entusiasmo obtido. Para esse feito valeu o fulgor técnico do guitarrista Tom Dowse, endiabrado na postura e na interacção e, ele próprio, a encarnação de um projecto cuja pujança está ainda longe do limite. Os maiores!            


O equatoriano Roberto Carlos Lange aka Helado Negro é um figura peculiar. Pequeno em altura, farto na cabeleira mas grande nas canções que trouxe ao palco principal do parque para "chilar" o final de tarde em formato descontraído e sedutor. Logo a abrir, um "Gemini and Lio" fresquinho e dançável deu o mote para quarenta e cinco minutos de sunset efectivo, momento saboroso de celebração merecida, de partilha sincera e sem quaisquer corantes. É fruta ou chocolate! 
    

Culminando a melhor trilogia seguida de concertos em muitos anos de Primavera Sound, os Khruangbin rapidamente conquistaram a adesão do público a um exotismo texano que mistura soul, rock psicadélico e muito groove disco-funk à custa do baixo de Laura Lee. Claro que os impressionantes dotes do guitarrista Mark Speer constituem parte substancial da sedução de uma sonoridade que, de tão antiga e renovada, se torna irresistivelmente moderna e até humorística e bem disposta como a sucessão de solos de trechos famoso de filmes, de clássicos rock-fm ou de populares êxitos modernos. Só faltou mesmo um pouco de Mark Knopfler e dos seus Dire Straits... Haja alegria!


Apostamos nos Jawbox como distracção prévia a um desastre que se aproximava. Os norte-americanos, reunidos recentemente depois de anos de separação que custou o quase esquecimento e que levou à partida de alguns dos fundadores, apresentaram-se em forma embora o rock dito alternativo que praticam se assemelhe a muitos outros de maior calibre. Foi, por isso, muito pouca a vontade de os ouvir e, masoquistas, rumamos ao palco principal.


Os Interpol morreram mas não sabem. Quando em 2015 andamos à sua procura no mesmo sítio, fizemos notar a boa cepa da maioria das canções reunidas em discos de excelência que ao vivo se esfumam como um fósforo. Ali, sentados na relva a ouvir resquícios fúnebres dos seus temas, ainda lembramos a última passagem de 2019 onde, milagre, se augurava um leve renascimento em cima do palco mas que, afinal, foi só um suspiro. Não queremos saber de quem é a culpa, se o Paul Banks não sabe cantar e tocar guitarra ao mesmo tempo, se só tocar guitarra e até só cantar ou se a química de entrosamento resvalou para egocentrismos cegos. A autópsia, contudo, será melhor que permaneça inconclusiva. Ámen!        

Os Squid são mais um caso sério da música inglesa ao lado de uma irmandade onde se juntam, só para citar alguns, os Black Midi, os Dry Cleaning, os Caroline ou os Drahla. Na boa meia hora em que os acompanhamos, a força motriz assinalável que transmitiram tendia a aumentar em potência mas, seguindo o conselho do principal vocalista e baterista Olie Judge, o super-grupo de Damon Albarn merecia ser visto e ouvido...      


Foi ao som de "19-2000" que descemos a colina enquanto delineávamos uma estratégia para tentar furar a multidão compacta até ao final do plano inclinado, local perfeito para pairar sobre os Gorillaz. Até o conseguirmos, descendo na lateral direita, fomos constatando uma mistura de gerações surpreendente, uma alegria nos rostos e uma animação que já não presenciávamos desde a passagem dos Blur em 2013 pelo mesmo local. Seria coincidência? Nahh... quando lá conseguimos estacionar, a custo, entre uns pais com os filhos às cavalitas e um grupo de jovens camones simpáticos, o delírio começava a instalar-se aos primeiros acordes de cada canção-êxito, a cada entrada e saída dos convidados, maluqueira dançante particularmente efusiva em "Désolé" com Fatoumata Diwana e "Feel Good Inc," com Pos. dos De La Soul. Tamanha gritaria e balanço de felicidade, mesmo com aquele estranho apagão sonoro no final e com muito cansaço disfarçado, foi dos melhores momentos de um festival cada vez mais rarefeito de espontaneidade e alegria sincera. Até para o ano (sem certezas)!   
P         

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