segunda-feira, 29 de abril de 2019

(RE)LIDO #83


LIBERDADE É FRUTO
Discos Perdidos e Outras Canções de Abril
de João Pedro Almeida da Rocha. Coimbra; Secção Filatélica da A. A. Coimbra, 2017
Temos por dado adquirido que durante o período de ditadura um conjunto de cantores portugueses sofreram represálias e privações motivadas por questões ideológicas ou políticas e que muitos dos seus discos e canções foram simplesmente apreendidos ou banidas de emissões televisivas ou radiofónicas pela censura.

José Afonso, Sérgio Godinho, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Luís Cília ou Manuel Freire são só alguns dos artistas mais conhecidos sujeitos a essa perseguição com história mais que documentada e retratada e que escondem um cenário mais abrangente de incómodo criativo em quantidade inimaginável.

Ora, este livro tem o grande mérito de assinalar e destacar, para além destes, outros nomes de um panorama de cantautores no masculino (por exemplo, José Matildes, Eduardo Lemos, Francisco Naia ou Raimundo Jorge) e feminino (por exemplo, Natércia Aguiar, Ana Maria Teodósio, Maria Amélia Proença ou Teresa Paula Brito) que continuam esquecidos na penumbra apesar de terem sofrido do mesmo tratamento ignóbil. São-lhes traçadas as biografias, reproduzindo fotografias, notícias de imprensa da época e capas dos discos raros e entrevistando-os, quando possível, directamente, escolhendo cronologicamente uma das suas canções como exemplo comprovado dessa acção censória de grilheta e as histórias negras associadas.

Mesmo que por vezes a escrita não seja a mais cativante, o autor consegue reunir um conjunto de informações e dados inéditos por nós e por muitos ignorados que ajudam a compreender uma época vibrante da edição discográfica em Portugal, permitindo destapar algumas das estratégias e subterfúgios dos autores, das editoras, das distribuidoras ou dos realizadores de rádio ou televisão para tentar "contornar" a sujeição.

Coleccionador metódico de discos de música portuguesa, nota-se a sua paixão pela faceta dita de intervenção e o seu assinalável esforço em concretizar, no que sugere ser uma auto-edição, um projecto obviamente inacabado mas de interesse colectivo inquestionável. Deixamos aqui três exemplos de "histórias" aí incluídas que talvez despertem a vossa curiosidade e que vos levem a comprar e folhear o livro como é merecedor.





sexta-feira, 26 de abril de 2019

THE CHURCH, O REGRESSO A UMA IGREJA!


























Pertencemos há muito a um rebanho convertido aos discos dos australianos The Church, uma adesão de espírito iniciada em 1985 com a audição plena de "Heyday", o terceiro álbum onde estava "Disenchanted", tema sagrado nos alinhamentos de muitos momentos radiofónicos do "Som da Frente" do mestre António Sérgio.

Ao longo de mais de trinta anos a banda de Steve Kilbey manteve sempre um nível elevado e uma postura low-profile alicerçada numa camada de fãs heterogénea, atenta e confiante mesmo com o abandono do fundador Martin Wilson-Piper em 2013.

Depois de uma passagem pela capital em Janeiro de 1990, estão agora agendados dois concertos no Porto (10 de Setembro, Hard Club) e Lisboa (11 de Setembro, RCA) que marcam os trinta anos do disco "Starfish", talvez o trabalho mais conhecido do colectivo já que não havia, nem há, forma de resistir ao clássico "Under the Milky Way"... Ficamos, ansiosamente, à espera do baptismo e da benção! 



UAUU #485

quarta-feira, 24 de abril de 2019

LAU NAU, A MENINA DO MAR!





















Era uma vez um novo registo da finlandesa Lau Nau disponibilizado pela editora australiana Longform Editions que acentua o lado experimental desta verdadeira cientista do som com especialidades confirmadas em bandas sonoras de filmes, peças teatrais, workshops ou instalações artísticas. São vinte minutos baptizados de "Amphipodacaptados em 2018 durante uma curta residência no Elecktronmusikstudio EMS de Estocolmo destinada a estudar e a transformar em música as mudanças do mar Báltico, nomeadamente as variações na quantidade de plâncton mediante alterações do oxigénio, da temperatura da água ou de invasões salgadas do Mar do Norte...           

Para o efeito, Laura Naukkarinen, de seu verdadeiro nome, utilizou um aparelho vintage denominado Buchla 200, sintetizador histórico verdadeiramente imponente na sofisticação de infindáveis comandos analógicos que despertaram rapidamente a veia exploratória duma artista sem receios na imersão, às escuras, em tamanho desafio mas de resultado espe(a)cial.

Recordamos com saudade a sua notável passagem pela Culturgest da Invicta em 2009, noite que haveria de repetir em 2015 no já extinto bar Canhoto, ambas de guitarra em punho, instrumento que a aproxima um pouco mais ao folk cinemático que o disco "Poseidon" de 2017 veio de forma magnífica acentuar. Havia por Viseu um festival agora interrompido onde a sua presença seria uma dádiva genuína. Efemeridades... 




terça-feira, 23 de abril de 2019

(RE)LIDO #82





















NEM TODAS AS BALEIAS VOAM
de Afonso Cruz. Lisboa; Companhia das Letras, 2016

(…) A música é a pior coisa do mundo, altera o humor, distorce o juízo, as pessoas perdem a solenidade necessária para raciocinar friamente e com objectividade. Pior, sobe o efeito da música as pessoas apaixonam-se e depressa começam a fornicar e fabricar mais seres humanos, a partilhar os fluídos mais íntimos como se fosse Coca-Cola, numa voragem aberrante que culmina na mais perversa das criações naturais: a população. A música reduz o QI, a música, disse Santo Agostinho, devia ser proibida. Quem não concorda? E, mais assustadora do que tudo, a mais sinistra característica do mundo: faz as pessoas dançarem.” 

...chegados à página oitenta e seis eis que o autor saca de uma pitada de sarcasmo para acentuar que, se a música é na vida real a balança decisiva de algum bem-estar, a sua negação nas palavras de um tal Erik Gould é uma fantasia ilusória do mesmo nível do título do livro.

Esse personagem, pianista de jazz com jeito para tirar das teclas não só sons mas, principalmente, memórias e histórias saudosas, é o enrolador principal de um novelo tramado que envolve uma campanha inventada pela CIA com o objectivo de permitir aos E.U.A. em plena Guerra Fria reconquistarem o reconhecimento do mundo através da supremacia da música jazz.

Os seus solos de piano sugerem cartas de amor eterno a uma mulher, a única na sua vida, mas que sofre um revés irreversível com o seu misterioso desaparecimento. O fruto dessa paixão tem, no entanto, no filho Tristan a personagem arrebatadora do romance - misterioso, entranhante, sufocante é nele que a música tem o emissor e receptor centrifugado que, entre alegorias e metáforas brilhantes, nos amassa tristemente na sua procura estéril pela mãe através de um atlas impresso... Afinal, alguma felicidade vai encontrá-la numa caixa de sapatos, sim, uma caixa de sapatos!
   
Se em romances anteriores Afonso Cruz demora a nos convencer pela escrita, com este livro o estatuto pleno de romancista é atestado num estilo surpreendente onde a experiência de músico multi-instrumentista nos The Soaked Lamb assume uma faceta inspiradora, o que neste Dia Mundial do Livro só pode ser o melhor dos brindes!


segunda-feira, 22 de abril de 2019

THE CHEMICAL BROTHERS, UM MUNDO CÃO?

Há mais de um mês atrás um video para o novo tema "We Got To Try" dos The Chemical Brothers começou a fervilhar na rede. As imagens de um cão a conduzir um Fórmula 1 ou a pilotar uma nave espacial serviram, supostamente, de isco atraente a todos os amantes das famosas corridas e dos animais de quatro patas para a nova época da modalidade automóvel em franco declínio e a precisar de reinvenção urgente.

Junta-se agora um making off do tal video realizado por Ninian Doff que mostra o programa intensivo a que o animal esteve sujeito, neste caso uma cadela de nome "Girl" com jeito e panache para o papel pretendido. O desempenho motiva-nos algumas dúvidas quanto ao porquê e para quê deste sacrifício animal mas quanto ao mundo cão da Fórmula 1 ficamos conversados... 

Os The Chemical Brothers estarão a carregar no play no fim de noite do dia 13 de Julho do festival NOS Alive. 



PREFAB SPROUT ACÚSTICO!





















O nosso prognóstico dourado quanto ao corrente ano para os Prefab Sprout tem agora ainda mais um lustre - a edição da versão acústica de oito das canções do disco "Steve McQueen" no passado Record Store Day rapidamente se tornou numa peça de colecção cobiçada! Os mil exemplares de vinil pesado disponibilizados desaparecerem de circulação em todas as lojas e nas plataformas online havendo já petições para uma nova reimpressão enquanto os preços de revenda começam a chegar num ápice aos três dígitos.

A audição destas versões estava somente disponível como segundo disco em formato CD da edição "Legacy" datada de 2007, uma colecção à guitarra e pouco mais que o próprio Paddy McAloon registou propositadamente no verão de 2006 com a ajuda do produtor Calum Malcom e com o nada inocente propósito de destapar e reinventar os originais produzidos por Thomas Dolby em 1985.

Na capa é por isso ele que aparece sozinho sentado na mesma Triumph que serviu de adereço à imagem colectiva do disco original obtida por John Warwick, uma homenagem ao próprio Steve McQueen e à sua paixão por motorizadas dessa marca inglesa eternizada no filme "The Great Escape" de 1963. A utilização do nome do famoso actor despertou na altura alguma confusão legal com a família, levando a que o álbum nos E.U.A. acabasse por receber o título de "Two Wheels Good ", referência sarcástica ao livro "1984" de George Orwell. À fotografia a preto e branco, certamente obtida na mesma sessão, foram agora acrescentadas algumas cores, repetindo-se desta forma um procedimento artístico manual usado em 1987. Trata-se de um dos poucos aperfeiçoamentos promocionais utilizados já que às canções acústicas não foram dados quaisquer retoques.

Há, como seria de esperar, dislates e desilusões ("When Loves Break Down") e também boas surpresas e preciosidades e que são, no nosso caso e desde que as ouvimos pela primeira vez, as que abaixo elegemos sem contemplações...






sábado, 20 de abril de 2019

(RE)VISTO #74





















GOOD VIBRATIONS
de Lisa Barros D'Sa e Glenn Lyburn, UK, DVD, 2013
Agora que o aparente clima de paz irlandesa está seriamente ameaçado pelos acontecimentos dos últimos dias, resolvemos, finalmente, ver este filme em dvd importado referente a uma promessa que envolve a memória que aqui trouxemos e que diz respeito a um encontro imediato numa loja de discos em Belfast em 1998...

Para um qualquer melómano que tem no disco de vinil o objecto de desejo contínuo e nos concertos ao vivo quase um modo de vida, ora aqui está um argumento cinematográfico onde os factos verídicos nos enredam de imediato, ou seja, desde que Terry Hooley decidiu montar uma loja de discos em Belfast chamada "Good Vibrations" como forma de ganhar, melhor, levar a vida acinzentada em plenos anos setenta entre conflictos sócio-políticas e eternas tensões religiosas.

No papel principal está o actor Richard Dormer que, ao que parece, é agora famoso pela participação na série "Guerra dos Tronos", uma encarnação arrebatadora de um herói local que semeou com esse simples avanço um rastro de irreverência juvenil traduzida no lançamento de singles de bandas locais de feição pré-punk e das quais se destacariam os The Undertones e o incontornável e simbólico "Teenage Kicks", o tema preferido de John Peel e que o próprio estreou e rodou duas vezes seguidas no mesmo programa!

Está cá tudo - as roupas, os ambientes, os cabelos, os sotaques, as canções - mas vem à tona em todos os momentos uma saborosa nostalgia de tempos onde a partilha e a amizade se faziam de rádio ligado e na insistência abnegada no "do it yourself", assim mesmo, por extenso. Envolvente, apesar de algum exagero ficcional, há também para comprovar uma interpretação graciosa de Jodie Whiteaker no papel da esposa amada, paixão que o próprio Hooley em roda viva vai involuntariamente armadilhando. Um filme de época sem idade e uma reconstituição que inspira, expira e respira aquilo que o mundo da música tem de melhor - a paixão e as consequentes boas vibrações...     


quinta-feira, 18 de abril de 2019

O TERNO EM VOLTA E MEIA!

Dos mais que recomedados O Terno aqui fica uma volta e meia ao jeito de quinteto com a ajuda de Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto, dueto habituado a estas aventuras...

KEVIN MORBY, OMG É ROCK N ROLL!

Está agendada para a próxima semana a saída do quinto álbum de originais de Kevin Morby pela casa Dead Oceans. Em "Oh My God" o californiano afirma-se plenamente realizado e satisfeito com o resultado circular e pleno de muitos sacrifícios como o confessado tormento de passar noites inteiras dormitando no chão ao longo de sete anos como estratégia inspiradora para encontrar a passagem certeira para o seu próprio mundo artístico a que simplesmente chamamos música. Cada um tem o seu, certamente!

Com a ajuda na produção do habitual compincha Sam Cohen, as catorze canções são, por isso, o fruto de diversas vivências e experiências de trilho acurado e decisivo para que a perfeição não seja somente uma questão de teimosia e determinação. Há já três enormes exemplos dessa insistência para ouvir bem alto a que se junta a expectativa na audição de, por exemplo, "Piss River" na qual recebeu em estúdio a magnífica harpa da amiga Mary Lattimore ou "Seven Devils" onde há, ao que parece, um inebriante solo de guitarra a cargo da ex-parceira de banda Meg Duffy aka Hand Habbits.

Morby tem actuação marcada para os jardins do Museu D. Diogo de Sousa em Braga para o próximo dia 8 de Julho, segunda-feira, e, mesmo a solo e tal como nos discos sem excepção, espera-se rock n' roll do melhor...





quarta-feira, 17 de abril de 2019

LOU DOILLON, SOLILÓQUIO DE TALENTO!















A menina Lou Doillon podia ter-se deitado no distinto berço progenitor que tem em Jane Birkin e no realizador Jacques Doillon um casal afamado, mas esta meia-irmã mais nova de Charlotte Gainsbourg tem sangue na guelra suficiente para se afirmar desde muito jovem pelo seu indisfarçável talento, figura e irreverência que vai passeando nas passerelles da moda, do cinema, da televisão ou teatro e até na pintura!

Mas foi pela música que, desde o álbum de estreia em 2013, ficamos aficionados e onde ganham relevo inúmeras canções de eleição e os respectivos videos e a que falta experimentar uma apresentação ao vivo até agora inédita em Portugal. Em Fevereiro passado saiu um terceiro disco de nome "Soliloquy", um conjunto assinalável de temas que surpreende pela força e consistência da composição e dos arranjos que desta vez ficaram a cargo exclusivo da artista e da sua tenacidade, avançando sozinha para a produção que em álbuns anteriores teve colaborações vistosas de gente como Etienne Daho, Lay Low ou Taylor Kirk (Timber Timbre).

Entre o menu irresistível desse notado solilóquio de talento, aqui deixamos três enormes modas cantadas a que se pode acrescentar a magnífica balada "It's You" ao lado de outra poderosa chamada Cat Power, canção que já por aqui também merecidamente destacamos





segunda-feira, 15 de abril de 2019

TASHI WADA GROUP feat. JULIA HOLTER & COREY FOGEL + THE BLACK MAMBA, Westway Lab, C.C.V. Flor, Guimarães, 13 de Abril de 2019

Na senda do pai Yoshi, o filho Tashi Wada dedica-se a explorar afincadamente o minimalismo sonoro com a cumplicidade do progenitor e de uma alargada colaboração de amigos e quase família onde se incluem Julia Holter, o percursionista Corey Fogel, a performer e dançarina Simone Forti, a vocalista experimental Jessika Kenney ou a compositora Laura Steenberge. Foi nesta roda de influências e confluências que foi registado o ano passado o disco "Nue", título que joga num suposto e dual significado da palavra, ora "nu" na língua francesa ora a alusão a uma figura mitológica japonesa...

À programada apresentação ao vivo destas nuances conceptuais foi acrescentado o resultado prático de uma recente residência artística pela galeria ZBD onde Wada recebeu formalmente a ajuda de Julia Holter nas teclas e vozes e de Corey Fogel, improvisador que tem na bateria um leque alargado de recursos surpreendentes e inusitados, trio constituinte do tal grupo anunciado no cartaz e que ocupou subtilmente o palco fronteiro do espaço vimaranense.

Sem apresentações, cumprimentos ou introduções, a perfomance rapidamente se notou de séria vibração, um ambiente de tensidade friorenta onde uma plateia já reduzida se foi exaurindo na imensidão do espaço e na geometria sonora apresentada, uma múltipla graduação de improviso futurístico ora sonhador ora confrangedor, o que atendendo à sua dessintonia, para alguns, ou à sua singularidade, para outros, motivou reacções diversas de desistência, contemplação ou, como merecia, atenção. Estranho, mas, mesmo assim, de atrito multiplicador.         



Como que transportados para uma outra e inesperada dimensão em menos de quinze minutos, damos connosco no palco principal do recinto indoor de negro pintado para a apresentação dos The Black Mamba. Reduzindo os blues e a soul a um aparelho mainstream onde não falha nenhum dos trejeitos orquestrais ou sequer os famosos agitadores de plateias de fim de noite - bracinhos no ar, palminhas e interacções sugeridas - o colectivo nacional tem na máquina instrumental um forte trunfo para jogar onde tudo rola num sobe e desce infalível e oleado mas em que já nada surpreende ou nada se acrescenta e que serve pelo menos para passar um bom bocado.

Questionando o que é que uma banda já tão tarimbada que até esgota Coliseus estava ali a fazer - tínhamos o Westway Lab como um evento internacional para descobrir novos talentos e/ou novos projectos - ah, pois é, a montra viu o rapaz Tatanka fartar-se de falar inglês ao jeito de uma entrevista de emprego no estrangeiro. Como não nos pareceu haver mais candidatos do mesmo calibre e com tão comprovada experiência, talvez o telefone acabe por tocar com algum indicativo que não o +351...   


sexta-feira, 12 de abril de 2019

UM TERNO DE QUALIDADE!

O quarto álbum dos brasileiros O Terno chama-se «atrás/além» e tem lançamento em pré-venda já dia 24 de Abril pelo Selo O Risco. As primeiras duas canções disponibilizadas são imediatamente recomendáveis e nelas sobressaem os arranjos e letras de Tim Bernardes, um caso sério de talento que o disco a solo "Recomeçar" de 2017 só veio ajudar a reforçar e robustecer. Ao lado de Biel Basille na bateria e Guilherme d'Almeida no baixo, ora aqui está um trio de extrema competência que parece ter neste novo disco conceptual um definitivo e arrasador certificado de qualidade.

A banda teve recentemente o privilégio de fazer a primeira parte dos Arctic Monkeys no Rio de Janeiro e está anunciada uma parceria em cima do palco com os Capitão Fausto na próxima edição do Rock In Rio no Rio de Janeiro a 6 de Outubro, aventura que se repete em Abril de 2020 em Lisboa - os grupos encontraram-se em São Paulo em 2017 aquando dos primeiros esboços do último dos lisboetas "A invenção do dia claro", curiosamente também o quarto, recentemente lançado.

Recorda-se que os O Terno estão alinhados no cartaz do Primavera Sound do Porto e tocam dia 8 de Junho, sábado. Já agora, podia ser ao final da tarde com uma boa brisa, sem chuva e o sol a desfazer-se...




DANIEL KNOX EM SETE POLEGADAS!





















Ainda no âmbito do RSD, merece destaque pela sua raridade e novidade a edição de um single de 7" em vinil por parte de Daniel Knox. Registados logo após as sessões de gravação do último álbum "Chasescene" em 2017, os temas "Die Hard" e "Die Harder" que integram a pequena rodela foram os últimos em parceria e colaboração com o multi-instrumentista Ralph Carney, falecido em Dezembro desse ano e ainda, nas suas palavras, um particular momento de viragem quanto à composição diferenciada de canções. A excelente fotografia de capa pertence ao conceituado artista de Chicago Mr. King e envolve uma edição limitada em vinil branco de quinhentos exemplares...

UAUU #483

RECORD STORE PRAY 2019!

Enquanto em algumas cidades por esse mundo fora onde o fervor vinílico é acentuado se fazem filas de véspera para a abertura das lojas aderentes ao Record Store Day de amanhã, por cá o dia correria de feição e sem pressões se, por um qualquer acaso, esta dúzia de goodies retirada de uma imensa lista acabasse no nosso carrinho de compras. Pena não termos $$$ tempo $$$...



















quinta-feira, 11 de abril de 2019

THE DELINES, É DESTA?

























Depois da passagem inicial em 2015 aquando do primeiro álbum, os maravilhosos The Delines vão regressar a Espanha em Outubro para quatro concertos. Atendendo à qualidade extrema de "The Imperial", disco do ano passado, será de todo pecaminoso que os norte-americanos não cheguem também até ao nosso cantinho imperial...

UAUU #482

3X20 ABRIL
















terça-feira, 9 de abril de 2019

JEFF TWEEDY, AINDA MAIS QUENTINHO!





















Na semana que culmina com o tal dia dos discos essencialmente em vinil espalhados por lojas ditas independentes - 13 de Abril, Sábado, Record Store Day - começam a fervilhar pepitas de eleição à distância de uma carteira recheada e de uma equação difícil entre a oferta e a procura.

É o caso de Jeff Tweedy, o Mr. Wilco que nos surpreende com a edição de "Warmer", álbum exclusivamente em vinil que funciona como um companheiro adiado do disco "Warm" editado a solo no ano passado. Com a mesma origem, ou seja, as mesmas sessões de gravação, o registo recebeu um género de curadoria do próprio artista separando as canções que faziam sentido agrupar em dois álbuns diferentes mas inseparáveis pela quentura sugerida. Aqui fica o primeiro escaldão...


COLIN STETSON, GNRation, Braga, 7 de Abril de 2019

A fama de Colin Stetson assenta, dizem, na longínqua e diversa colaboração com o mundo do rock, de Bon Iver a Arcade Fire passando por David Byrne e, caramba, Tom Waits e num nada habitual recurso do saxofone-baixo e outros inusitados metais que aprendeu a soprar como ninguém. Estes cartões de visita até que podem ajudar ao curriculum mas Stetson vale muito mais por mérito próprio em mais de uma dezena de discos de originais, o último dos quais "All This I Do For Glory" foi o motivo para o concerto de final de tarde em Braga.

Sendo esse o primeiro trabalho auto-produzido numa já longa carreira mas donde foram excluídos loops ou overdubs, a apresentação em solitário sugeria ser a oportunidade perfeita para um teste a três dimensões à sua música densa e visceral. Alternando o tal enorme saxofone baixo com um clarinete contrabaixo e um outro saxofone, o alto, Stetson prendeu-nos a todos a um limiar sonoro de voltagem elevada e continua enquadrado pela perfeição da sala na sua dimensão, cor e moldura humana.
   
A proximidade do palco cedo permitiu perceber a exigente técnica de respiração que Stetson desenvolveu e aprimorou, um inalar e exalar de fazer literalmente revirar os olhos, os dele e os nossos, o que atendendo ao peso e destreza implícita ao manobrar e soar dos instrumentos eleva a perfomance a um nível atlético exigente e colossal só possível com uma dedicação e treino de alta intensidade! Sem dúvida, um dos melhores concertos de fim de tarde indoor a que tivemos a felicidade de assistir em muito tempo e, certamente, um dos mais supremos do ano.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

ROBERT FORSTER NO PASSOS EM NOVEMBRO!

Segundo a edição de hoje do Jornal de Notícias e no âmbito da digressão de final do ano, o australiano Robert Forster dará um concerto no Passos Manuel portuense a 22 de Novembro, sexta-feira, chegando a Lisboa no dia seguinte. O espectáculo servirá de apresentação do novo disco "Inferno" saído o mês passado e onde faz a apologia de dias quentes por Brisbane envoltas numa série de histórias dessa cidade natal que o ex-Go-Betweens sabe muito bem como contar. Espera-se, por isso, magia e só é pena que os The Goon Sax, a banda do filho Louis, não venha fazer a primeira parte...

WEYES BLOOD, UMA CANÇÃO PARA A MUNDOVISÃO!














Se já nos parecia pelos singles largados que o álbum "Titanic Rising" de Weyes Blood marcaria os meses que restam do corrente ano, agora que já o ouvimos dezenas de vezes insistimos e recomendamos logo a abrir uma daquelas "canção monumento" chamada "A Lot's Gonna Change" que parece saída milagrosamente de um encontro fortuito entre um Rufus Wainwright vintage e o génio clássico de Burt Bacharach mas com um anjo a (en)cantar! Há por aí muito dream pop mas deste calibre torna-se cada vez mais raro... até Lana Del Rey se deixou converter ao magnetismo. Um mundo!

domingo, 7 de abril de 2019

DAMIEN JURADO, ALERTA AMARELO!















Tal como previsto desde Fevereiro passado, está confirmada a partir da próxima semana a passagem e manutenção de uma tempestade sonora que acarretará riscos de dependência e elevada perigosidade - o álbum à guitarra "In The Shape Of a Strom" de Damien Jurado merecerá acompanhamento e vigilância contínuas por parte do nosso satélite amplificador, um sistema apurado que detectou uma nova tormenta chamada "Throw Me Now Your Arms". Aconselha-se, desde logo, moderação...

GARETH DICKSON, Avenida Café-Concerto, Aveiro, 3 de Abril de 2019

A digressão nacional dos escocês Gareth Dickson teve em Aveiro um inédito mas eficaz ponto de partida. Mesmo sem uma resposta numerosa de público, o momento gratuito teve o condão de motivar o artista para quase uma hora e meia de um contínuo e inimitável minimalismo acústico que nos sugere sempre uma crueldade - a quebra de uma intimidade exposta em forma de canções onde à fragilidade e subtileza da lírica quase sussurrada se sobrepõe um divino dedilhar das cordas da guitarra.

Da nossa parte, o resultado desta combinação acelera de imediato uma tensão gratificante na concentração necessária para desfrutar plenamente de um alinhamento parecido mas, ainda assim, mais generoso que o da última passagem por Gaia em 2017 mas onde não faltou a já clássica trilogia "This Is The Kiss", "Atmosphere" (Joy Division) e "Two Trains".

Mesmo que, mais uma vez, as suspiradas versões de Nick Drake tenham ficado esquecidas, Dickson não conseguiu evitar entre a sua simpatia e humildade uma capacidade inata de nos provocar daqueles raros calafrios tonificantes, (re)confirmando um qualquer crédito ou dúvida que, eventualmente, estivessem a pairar na escuridão da sala quanto ao brilhantismo da sua música, da sua arte e da sua bondade. Volta sempre, mate!


quinta-feira, 4 de abril de 2019

BELLE & SEBASTIAN, DE BARCO E EM FORÇA!

Ainda ontem numa roda de amigos e com a presença de um conterrâneo sabedor, se anuía totalmente sobre a validade dos Belle & Sebastian, uma instituição pop escocesa com quase vinte cinco anos de consistente e inteligente actividade artística em rodagem contínua por muitos palcos do mundo e que mantêm ainda num qualquer estúdio o altar mor sagrado para a cerimónia que melhor sabem fazer - canções, muitas e boas.

A nossa adesão a esse credo irresistível tem quase o mesmo hiato temporal e bem lembramos a pena e inveja de não poder comparecer a um então inovador festival que banda organizou em 1999 com o nome de Bowlie Weekender em Camber Sands no Sussex inglês. Com uma verdadeira parada de bandas e artistas da nossa eleição (Mercury Rev, The Flaming Lips, The Divine Comedy, Cornelius, Camera Obscura, etc., etc.) o evento celebra agora vinte anos mas os B&S não se esqueceram da data, avançando para uma inédita comemoração - um festival num barco de cruzeiro que sairá de Barcelona a 8 de Agosto e chegará à ilha da Sardenha quatro dias depois de muitos concertos, showcases, festas, jogataina e animação a cargo de outras tantas bandas e dos próprios B&S. O tal Boaty Weekender tem preços quase proibitivos e, assim, a tal inveja e pena ainda não é desta que acabarão por desvanecer...

Compensando danos, há sempre remédios auditivos eficazes como uma certa parelha de canções que está num disco antigo chamado "Girls in Peacetime Want To Dance" e que milagrosamente recebeu novos e vistosos videos!




quarta-feira, 3 de abril de 2019

THE DIVINE COMEDY, ESCRITÓRIO RENOVADO!





















O chefe Hannon emitiu hoje uma ordem de serviço para conhecimento obrigatório de todos os funcionários, fornecedores e clientes - os The Divine Comedy terão uma álbum novo em Junho e, como prometido há muito, será em versão dupla. O décimo segundo longa duração terá o nome de "Office Politics", contempla uma série habitual de desabafos amorosos e folgadas e animadas canções sobre tudo e sobre nada como, por exemplo, máquinas e maquinaria, da pesada à de escritório como uma simples mas (in)dispensável fotocopiadora... Essa abordagem inovadora é supostamente transcrita para o disco através de toda uma panóplia de sonoridades diferenciadas que tem nos sintetizadores a síntese, lá está, vectorial. Perceberam? Nós também não mas podem desde já escutar um primeiro e lustroso esclarecimento e até encomendar o novo produto!     

segunda-feira, 1 de abril de 2019

MIRAMAR, QUANTOS SÃO?

Ao nome Miramar quase sempre associamos mar, areia e brisa agradável. No nosso caso, é ainda sinónimo de local pacífico de retiro, descanso e, por vezes, festarola. Por isso, quando um qualquer projecto musical passa a ter o nome da localidade gaiense é impossível não lhe dar a devida atenção, o que nos dois exemplos que aqui apresentamos é inteiramente merecido e obrigatório.

O primeiro, de origem nacional, tem em Peixe (ex. Ornatos Violeta e Pluto) e Frankie Chavez um curioso exemplo da nobre virtude de se gostar simplesmente de tocar guitarra. Tocar, dedilhar, partilhar o amor pelo som de forma informal em soirées longas a que se juntou a ideia do registo de um disco. Chama-se "Miramar", obviamente, já teve apresentações ao vivo em diversas cidades como o Porto (Casa da Música) e há até um registo inteiro recentemente gravado em Íhavo disponível para visualização. Bonito seria, com toda certeza, um concerto dos Miramar em... Miramar. Isso é que era!





O segundo, de travo internacional, tem num colectivo radicado em Nova Iorque mas originário de Richmond, Virgínia, uma onda mais enérgica e dançante proveniente da América do Sul. Se num primeiro momento a fonte inspiradora teve em Porto Rico o epicentro da composição dos Miramar através de novas versões de boleros da mítica Sylvia Rexach, o que os levou até a digressões intensas e passagem pelos estúdios da NPR para o registo de um daqueles concertos a que chamamos de secretária, aproxima-se agora uma nova aragem. Desta vez é o bolero cubano que motiva a dança com a devida atenção da Daptone Records que se apressou a editar uma rodela pequena de vinil com dois dos novos temas e que são o sinal de que uma dose maior se aproxima para nos ajudar a mirar o mar... 




AINDA SOBRE A CADUCIDADE CULTURAL!

A propósito da suspensão da edição deste ano do festival Jardins Efémeros em Viseu, a opinião de Vitor Belanciano no jornal Público bate certo com a toda a nossa experiência presencial desinteressada em muitos das cidades e eventos aí referidos.

Custa perceber como é que a cultura é um direito intermitente ao sabor de mais ou menos orçamentos quando há gente motivada a "fazer acontecer", públicos atentos e funcionais e artistas a responder aos desafios de forma tão interessada e pertinente.

No que aos concertos diz respeito, algumas das chamadas segundas cidades no norte litoral como Espinho, Aveiro, Braga ou Guimarães são verdadeiros faróis que iluminam um Porto adormecido e caduco e sem um único festival de música auto-produzido de referência (excepção ao gigante Primavera Sound).

Entre o aumento exponencial do turismo, do raio da oferta gastronómica ou do suposto "aumento do gasto com a cultura" apetece gritar "acorda, Porto"!