terça-feira, 23 de abril de 2019

(RE)LIDO #87





















NEM TODAS AS BALEIAS VOAM
de Afonso Cruz. Lisboa; Companhia das Letras, 2016

(…) A música é a pior coisa do mundo, altera o humor, distorce o juízo, as pessoas perdem a solenidade necessária para raciocinar friamente e com objectividade. Pior, sobe o efeito da música as pessoas apaixonam-se e depressa começam a fornicar e fabricar mais seres humanos, a partilhar os fluídos mais íntimos como se fosse Coca-Cola, numa voragem aberrante que culmina na mais perversa das criações naturais: a população. A música reduz o QI, a música, disse Santo Agostinho, devia ser proibida. Quem não concorda? E, mais assustadora do que tudo, a mais sinistra característica do mundo: faz as pessoas dançarem.” 

...chegados à página oitenta e seis eis que o autor saca de uma pitada de sarcasmo para acentuar que, se a música é na vida real a balança decisiva de algum bem-estar, a sua negação nas palavras de um tal Erik Gould é uma fantasia ilusória do mesmo nível do título do livro.

Esse personagem, pianista de jazz com jeito para tirar das teclas não só sons mas, principalmente, memórias e histórias saudosas, é o enrolador principal de um novelo tramado que envolve uma campanha inventada pela CIA com o objectivo de permitir aos E.U.A. em plena Guerra Fria reconquistarem o reconhecimento do mundo através da supremacia da música jazz.

Os seus solos de piano sugerem cartas de amor eterno a uma mulher, a única na sua vida, mas que sofre um revés irreversível com o seu misterioso desaparecimento. O fruto dessa paixão tem, no entanto, no filho Tristan a personagem arrebatadora do romance - misterioso, entranhante, sufocante é nele que a música tem o emissor e receptor centrifugado que, entre alegorias e metáforas brilhantes, nos amassa tristemente na sua procura estéril pela mãe através de um atlas impresso... Afinal, alguma felicidade vai encontrá-la numa caixa de sapatos, sim, uma caixa de sapatos!
   
Se em romances anteriores Afonso Cruz demora a nos convencer pela escrita, com este livro o estatuto pleno de romancista é atestado num estilo surpreendente onde a experiência de músico multi-instrumentista nos The Soaked Lamb assume uma faceta inspiradora, o que neste Dia Mundial do Livro só pode ser o melhor dos brindes!


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