A música que Steve Gunn compõe para a sua guitarra há quase vinte anos nunca nos passou ao lado. Contudo, talvez a eficácia dos temas e recursos que insiste em gravar e divulgar não tenha, ao vivo, acusado um merecido destaque, e a que se podem apontar razões diversas - em 2015, em Coura e rodeado por uma banda, talvez a grandeza do palco o tenha submergido numa indiferença pecaminosa; em 2022, a dar cordas a filmes obscuros em Vila do Conde, seria difícil fazer melhor; em 2024, ao lado de um pianista em Espinho, a parceria se bem que estranha, confirmou-se, ainda assim, reconfortante.
Culminando a recente presença por perto de uma sequência involuntária, mas imbatível, de grandes guitarristas (Sir Richard Bishop, Bill Orcutt, James Blackshaw), a há muito esgotada cave do Rivoli acabou com todas as nossas dúvidas - sozinho, na plenitude dos atributos e liberto de uma qualquer encomenda ou ajudante, a noite foi de viagem americana atracada a um songbook distinto na sua consistência e verossimilhança, mas em que a subtileza dos acordes e de alguns dos truques de repetição agravaram a contenda a um nível elevado.
Variada na origem e na datação, a sequência de oitenta minutos despertou na plateia, logo convidada a aproximar-se ao palco, um usufruto cada vez mais raro nestes tempos de distracções e impaciências, envolvendo Gunn de um reconhecimento e atenção merecidos, ou não fossem as suas canções autênticos monumentos de progressão prazerosa. Lá no meio, uma versão de "I'll Be Your Mirror" dos VU como que adornada à sua maneira, foi só mais um dos toques de classe de um já mestre inquieto...
Em 2005, a talentosa veia conversora de Seu Jorge em fazer das canções de outros uma maravilha tropical, teve nas míticas covers de David Bowie do álbum "The Life Aquatic Studio Sessions", que serviu de banda sonora ao filme com o mesmo nome, uma surpresa mundial. Fomos vê-lo, por esses tempos, à Casa da Música num concerto divertido e esgotado, mas, confessamos, nunca mais lhe procuramos o rasto. Até que ouvimos ontem a sua voz inconfundível a dar (mais) uma nova vida ao icónico "River Man" do bem amado Nick Drake ao lado de Beck! O que é isto?
Trata-se de um dos temas de um novo disco chamado "The Other Side", uma sofisticação orquestral gravada integralmente, e por fases, no estúdio MCJ, em Los Angeles, de Mario Caldato Júnior, desde 2009 até 2018. Numa aposta de travo clássico plena de delicadeza de boa onda bossa nova, a fotografia da capa foi, precisamente, obtida nessa cidade, em 2013, durante uma das sessões de registo e pertence a B+, ou seja, Brian Cross. A produção e engenharia sonora foi dividida por Jorge e o amigo Caldato.
O desiderato de onze faixas contou com a própria banda de Seu Jorge e colaborações, em dueto vocal, de Marisa Monte ("Quando Chego"), Maria Rita ("Vento de Maio"), Zap Mama ("Far from the Sea") e do já citado Beck ("River Man"). Os arranjos, brilhantes, são da autoria do mais que experimentado Miguel Atwood-Ferguson, transformando alguns originais de MPB e bossa nova em peças intemporais. Exemplos: a “Crença” de Milton Nascimento, “Caboclo” de Arthur Verocai ou "Vento de Maio" de Lô Borges e Elis Regina, enquanto "Beleza Bárbara", de Leo Tomasini e Joey Altruda é, isso mesmo, bárbaro...
Há outros originas esquecidos, como "Quando Chego", tema que Jorge escreveu com Arnaldo Antunes e Marisa Monte e “Far From The Sea” ao lado dos belgas Zap Mama. Curiosa é a cover em inglês de "Girl You Move Me" dos canadianos Cane and Able, tema já anteriormente reinterpretada (2010) por Seu Jorge no projeto coletivo Almaz.
Uma surpresa maravilhosa, bem difícil de ultrapassar em 2026!
Os Lambchop, do incontornável e agora barbudo Kurt Wagner, baptizaram o seu décimo sétimo álbum de "Punching the Clown", o que só pode ser propositado... Foi produzido por Ryan Olson (Poliça ou Gayngs) e gravado em três dias de Agosto de 2025 no April Base, estúdio em Fall Creek (Wisconsin) de Justin Vernon aka Bon Iver, que toca banjo no primeiro avanço "Weakened".
As composições pertencem na totalidade a Wagner e a Andrew Broder, contando com um coro de seis vozes em todas as doze faixas, uma onda acapella despojada de sofisticação orquestral. A versão digital da novidade está agendada para Agosto próximo pela Merge Records.
Entretanto e no âmbito da digressão a iniciar pela Europa em Novembro, está confirmada a passagem por Portugal para quatro concertos, sendo o Theatro Circo de Braga, dia 21, sábado, e o Auditório de Espinho, dia 22, Domingo, as salas mais próximas. Prometida está a repetição de um formato de sucesso que presenciamos em 2024 no Parque da Cidade - um piano, uma imensa voz, múltiplas histórias!
Já lá vão os tempos em que James Blackshaw metia no estojo uma guitarra acústica de doze cordas para o acompanhar em palco. Com esse raro instrumento gravou discos inebriantes, fez verdadeiros recitais pelas redondezas com direito a regressos quase madrugadores sempre cativantes. Cansado, talvez penalizado pela afinação de tamanho uníssono, o inglês decidiu parar, respirar fundo e tentar continuar uma vida sem acordes, dedilhados ou estúdios a partir de 2015. Até que um dia...
Em 2024, Blackshaw avançou para um regresso ao que melhor sabe fazer, mas cortou para metade as cordas da guitarra de que, afinal, não se consegue separar. Ainda bem. O, então, novo cartão de visita chamado "Unraveling In Your Hands", de três longos andamentos, confirmava o apuro das aptidões há muito demonstradas, elevando até a sofisticação de uma composição tentadora.
Ao vivo, numa aparição descontraída de final de tarde para todos as idades, a façanha resguarda-se ainda imaculada. Mesmo que o alinhamento das cordas seja agora mais rápido, como recordou, a adequada vulnerabilidade dos acordes, a sua aveludada magia ou algumas das sequências/repetições, prolongaram-se, por magnetismo, em três diferentes momentos - a abrir, no monumental "Unraveling In Your Hands", numa memória de "Cross", tema título do álbum de 2008 e, para culminar, em "Fractures On the Horizon", escolha centrada num recente projecto de auto-produção.
Afinal e longe de um qualquer virtuosismo implacável ou de uma concentração extrema, em pouco menos de uma hora comprovou-se que isto de tocar guitarra, e de fazer dessa aparente e simples vibração uma bênção purificadora, talvez tenha em Blackshaw uma rara e renascida estrela cujo brilho continuará, milagrosamente, cintilante!
Da série infindável de discos que Damien Jurado deita cá para fora, um género de catarse artística e emocional deveras assombrosa já por aqui assinalada, fixem mais este - "Did Something in Me Break?" com data da semana transacta.
Trata-se de um cantar ao desafio ao lado de Lilly Miller, cantautora do Iowa com residência em Seattle que, por diversas vezes, assegurou a primeira parte de concertos do agora parceiro de canções. Num total de vinte, onze são de Miller, de que se recordam alguns dos temas anteriormente gravados desde 2022, mas agora com nova sonoridade acústica e cintilante. De Jurado, no mesmo tom, somam-se nove originais refinados e a confirmar uma veia de composição inesgotável.
O tesourinho recebeu mistura e masterização de Lacey Brown, também ajudante de confiança, que partilhou a produção com Jurado e acrescentou alguma da instrumentação. Há vozes de fundo comuns da própria Lacey Brown, de Zack Alva, de Damien Jurado e também de Lilly Miller, com suaves cordas de violoncelo e violino de Jeremiah Moon e Kennedy Webb. Para descobrir com imenso prazer!