domingo, 16 de agosto de 2026

A GAROTA NÃO + TOMODE + ALDOUS HARDING + KURT VILE & THE VIOLATORS + HERMANOS GUTIERREZ, Festival Paredes de Coura, 13 de Agosto de 2026

Do palco pequeno para o palco grande em três anos, A Garota Não voltou a Coura reforçada na sua condição de lutadora moderna. À custa de uma "escolha de caminhos", a canção é a sua arma explicita apontada ao grassar da guerra, do racismo, da corrupção, da misoginia, do direito à habitação ou à saúde. Um género de refrão do "Liberdade", que Sérgio Godinho escreveu em 1974, e que está cada vez mais difícil de cumprir em tempos de privatizações e desinformação que a banda projectou em tensão aumentada, mesmo que encurtada numa série de medley's. Um trio de cantoras deu-lhe volume, grandeza e um enorme coração de apelos em megafone - para além do próprio Godinho, José Mário Barnco, Rage Against the Machine, Elza Sares, Gilberto Gil foram os outros dos "caminhos escolhidos" para fazer do anfiteatro "um vale encantado" de união a uma canção colectiva sem final. Por isso, sim, PQOP a todos!

 

O título do único disco dos suecos Tomode é categórico - "Existential Disco". À pergunta se os muitos que enchiam o empedrado do palco pequeno estavam prontos para dançar, a resposta foi simplesmente continuar o hip-shake de embalo em muitos riffs e trejeitos funk e disco onde a banda, sem disfarces, se molha e toma banho. Houve até coreografia dos guitarristas e do baixista ao jeito vintage de banda soul, tudo em onda festiva arrasadora e sem contemplações que o fim de tarde de caloraça estava a pedir. Um geladinho "olá, é bom não foi?" descontraído, eficaz, refrescante...

 

Finalmente, depois de sete longas voltas ao sol, a incrível Aldous Harding apresentou-se num palco nortenho onde muitos a esperavam e acolhiam com carinho. Há "Train on the Island" para apresentar, um estímulo de refinação recente, e foi dele a maioria das escolhas de um alinhamento de grandeza madurada. Houve, pois, que dar-lhe espaço, tempo, aperto nos seus transtornos ou manias, uma repetida sensação de desconforto que o amigo e companheiro Huw Evans aka H. Hawkline foi supervisionando na condição ou afinação de um quarteto instrumental imaculado. O respeito e bondade que a plateia lhe dispensou, sem queixumes ou irritações, fizeram do concerto um momento assinalável de composição pop a três dimensões que só ali, no Alto Minho de fundo arborizado, se podia moldar como redentor.

 

Desde que Kurt Vile aterrou no Porto para uma sessão/experiência no escuro dos Maus Hábitos passaram dezassete anos! Desde aí, mesmo que os companheiros ainda não fossem os The Violators, a sua sentença musical manteve-se nivelada por alto naquilo que se chama música americana. Sempre coerente, fascinado, conectado à sua Filadélfia da infância, da juventude e da vida adulta que homenageou, outra vez, no último "Philadelphia’s been good to me", é também um prova de amor a Young, Springsteen ou Dylan que as canções vão esticando em histórias e confissões desarmantes. Ao vivo em Coura, como em 2014, tamanha dimensão lo-fi assentou, camada a camada, uma vibração torneada em solos e riffs de guitarra maquinados pelo suporte infalível dos restantes instrumentistas. Sem picos, sem exageros, mas com condimento suficiente, nada mais se pedia a um Vile, ainda e sempre, bem-vindo - deixar correr as canções, colina acima, sem levantar pó e engrossando uma curtição.

 

O que dizer da aparição dos Hermanos Gutierrez? Que foi tardia, mas sublime? Que foi contida, mas inebriante? Juntar-lhe mais alguns descritivos não adianta grande coisa para quem não teve ainda a oportunidade de uma fruição deste calibre, uma espera que muitos aguardavam há muito. Fazer das guitarras, em slide ou eléctricas, uma ferramenta narrativa não será novidade e os nossos Dead Combo, aliás, recordados pela dupla de irmãos, também o faziam de forma muito própria. Por isso, ver na plateia, em calma espera, a dupla dos Miramar, dos Clã ou o próprio Noiserv, seria só mais um sinal do fascínio que o som da dupla suiça foi arrebanhando na curiosidade entre pares e que, como qualquer arte, não se mede em explicações, mas em sensações. Testemunhar um anfiteatro de Coura sem empurrões, gritaria, moshes ou crowdsurfing, escutando com atenção, e de olhos fechados, as histórias de teletransporte desta irmandade, ficará como um dos grandes momentos do festival. Alguns sortudos, lá para o final do mês, irão repetir a trajecto em pleno Sá da Bandeira... Sagrado!

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SCOTT MATTHEWS, PÉROLAS VIVAS!





















Infelizmente, não podemos comparecer ao encontro anual com Scott Matthews marcado para Fevereiro em Ovar. Circunstâncias familiares impediram o retorno ao convívio sempre salutar e divertido com o amigo britânico, mas como prometido em diversas das outras ocasiões presenciais, um disco ao vivo que registasse algumas das canções na sua simplicidade ou rudeza estaria em preparação.

Pois bem, ele está disponível desde o início do mês para encomenda. Trata-se do primeiro volume de "Home & Dry Sessions", selecção de temas ao vivo esmerados no Abbey Road Studios o ano passado e que, por agora, conta só com formato em CD e hipótese de escolha da capa preferida - colorida ou a preto e branco (a primeira vai à frente nos pedidos). Entre a colecção, deverá estar esta pérola...

DOMI & JD BECK, UMA SIMPLES COMPLEXIDADE!





















Em 2002 dois miúdos chamados Domi Louna e Jd Beck, ela nos teclados, ele na bateria, lançaram "Not Tigh" como Domi & JD Beck pela Blue Note Records em parceira com a editora de Anderson. Paak, a APESHIT. Meio mundo, de boca aberta, bateu palmas ao desiderato de feição jazzística, bastante arriscado nas variáveis de drum & bass, pop orquestral ou samplers surpreendentes. O disco permitiu nomeações para Grammy's, comparências nos principais talk show's americanos e digressões vibrantes, como testemunhado em Paredes de Coura no verão de 2023. Se havia dúvidas, os jovens músicos tocavam mesmo os instrumentos em formato auto-suficente e sem quaisquer ajudas... 

Há agora uma nova experiência, desde 31 de Julho, maturada na eterna dificuldade de um segundo álbum, de título "Who Asked?" e com os mesmos selos, mas onde se dispensaram uma série colaboradores e convidados vocais, como o próprio Paak ou Thundercat, assumindo-se a totalidade da cantoria entre a dupla. Juntou-se, desta vez, uma pequena sinfonieta clássica que engrossa o caudal "chamber pop" do alinhamento, sem que a matriz original se tenha desmantelado e onde, parece-nos, a complexidade dos arranjos sugere ter sofrido uma maximização. 

Discute-se, por isso, nas redes se a novidade é melhor que o percursor, se o exagero light das vozes estraga o conjunto, se a frescura original perdeu a validade, se... Ainda em fase de assimilação, que isto de texturas sobrepostas requer insistência, promete-se uma versão totalmente orquestral do disco para breve, um formato de que se disponibilizaram pequenos excertos e que tem sido usado ao vivo, como no festivais de jazz de Toronto, de Otava e Montreal nos meses de Junho e Julho. Complexo! 

Para uma peça de música que tem uma epifania a começar e um epílogo a encerrar, nada como repetir a audição integral de tempos a tempos e esperar que a digressão mundial, que começa em Setembro próximo, acabe a rondar a Europa e, quem sabe, o nosso jardim. Simples!

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

JOSH ROUSE, TURISMO ACIDENTAL!

Durante várias e descontraídas sessões matinais de estúdio, no caso, o Alex The Great Studio de Nashsville, Josh Rouse foi puxando e aprimorando a inata e espontânea capacidade de escrever canções, algumas com reduto nocturno em Valência, a que se juntaram os amigos Brad Jones no baixo e Fred Eltringham na bateria. 

Resultado - mais um disco de originais de inspiração documental em múltiplas itinerâncias citadinas, onde não dispensa a máquina fotográfica e uma observação atenta e silenciosa de figurinhas, figuras e figurões de passagem ou em repouso sonhador. Um género de turismo acidental solitário e recorrente... 

Para título do conjunto de dez temas, Rouse lembrou-se de "Museums and Women" de inspiração no livro adorado "Museums and Women and Other Stories" que John Updike (1932-2009) escreveu em 1972, escolha certeira atendendo à short fiction que cada um deles encerra. Poético e romântico, como sempre, refina-se, mesmo assim, a habitual ironia que sempre lhe assentou perfeitamente padronizada e necessária. 

Depois de uma incursão, também ela informal, nas versões, lá para Outubro a novidade sugere provar que o fascínio pop que Rouse cedo evidenciou está para durar. O primeiro avanço, "January Sky", é contundente.

 

Aproveitando a passagem pelo referido estúdio do Tennessee, gravaram-se duas memórias em jeito acústico só para reforçar a grandeza de um songbook notável!


6X20 AGOSTO

















Com o milagroso aumento da temperatura da água do mar, aumentam também as canções... fresquinhas!
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PREFAB SPROUT TROCADO POR MIÚDOS!





















Numa qualquer estante de livros respeitante ao mundo da música pop inglesa, certamente, uma núcleo de biblioteca especializada de dimensões assinaláveis, devem ser poucos os centímetros ocupados por literatura relativa aos amados Prefab Sprout. A escassez afigura-se estranha atendendo ao volume de vendas e êxitos que a banda alcançou nos anos oitenta, e também noventa, do século passado, e a explicação talvez seja só uma - o recato que o seu mentor e líder Paddy McAloon sempre impôs à sua vida pública e privada, coartando explorações abusivas e, involuntariamente, multiplicando rumores, boatos ou mistérios. Há quem, por isso, não lhe largue o rasto... 

Nige Tassell, jornalista dito cultural e confesso fã da banda, é um desses que, discreto, foi acumulando informações e cruzamentos biográficos para tentar iluminar e aclarar as fontes do talento e das manias de McAloon, mesmo que sejam já mais de treze os anos passados sobre o último disco de originais. Mantendo a distância, sem sequer chegar à fala presencial, o resultado é "Truly Gifted Kids: a book about a band called Prefab Sprout" que a New Modern Books/Simon & Shuster edita a partir do dia hoje no Reino Unido e facilmente acessível online

Se uma anterior tentativa, com reduto castelhano, nos motivou um leve encolher de ombros de desilusão, a novidade agora publicada sugere uma profundidade de pesquisa assinalável e também uma liberdade criativa promissora advinda quer da experiência do autor como roadie eventual do kid e mano Martin McAloon nos recentes concertos a solo, quer como um investigador infiltrado na procura da mota mais famosa da música pop. Trocado por miúdos, tudo parece, pois, apetitoso!

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANA FRANGO ELÉTRICO, Morro Sonoro, Jardim do Morro, VNGaia, 31 de Julho de 2026

O nome de Ana Frango Elétrico têm nos últimos anos assumido protagonismo entre a nova música brasileira. Versátil, irrequieta, sempre a jogar na intervenção e no activismo, cedo largou lastro por terras lusas com o seu pop inteligente, onde o funk, a soul e a MPB se misturam de uma frescura vintage que seduz e acelera interesse intercontinental. Que o diga a Mr. Bongo, casa de discos inglesa sempre interessada na actualização retro do seu catálogo. 

Não foi por isso surpresa que a aparição gratuita no Jardim do Morro tivesse juntado jovens lusos a uma multidão de brasileiros e muitos outros estrangeiros, já de si aconselhados a ir ver o pôr do sol mais badalado da região, ali reforçado com banda sonora a condizer. Nada de exagerado, mas facilmente praticável numa onda descontraída, dançável, perfeitamente nivelada pelo caloraça bem-vinda de final de tarde a que muitos reduziram, ou multiplicaram, a temperatura aportando de casa diferentes beberagens ou outros estimulantes fumarentos. 

A receita, que tanto pode lembrar o clássico groove dos Chic como uma pérola de Rita Lee, teve nota artística muito saudada e participada, de maioria sabedora e repetente no replicar das letras de indefinição e acutilância arty qb. Para o fim, "Mulher homem bicho" e "Electric Fish" multiplicaram a jiga colectiva, mas foi o "larari larara" da incursão em "Não tem nada não / Gypsy Woman (She's Homeless)" que ganhou aos pontos. 

Para quem quiser a repetir a dose, e passar uma noite em cheio, sábado, dia 8 de Agosto, no festival EsteOeste do Parque da Ponte em Braga, há mais...