Do trio Gilsons reparamos, já lá vão três anos, que faziam parte de uma noite ao lado de Josh Rouse no Festival Para Gente Sentada bracarense (já agora, o FPGS acabou?). Como não comparecemos ao evento, do trio brasileiro fomos perdendo o rasto e, logo, uma aferição das canções, discos e outros concertos depois várias vezes agendados em Portugal. Ficou a certeza que o projecto juntava José Gil, Francisco Gil e João Gil, filho e netos de Gilberto Gil. Ponto.
O convite amigo para o concerto no Coliseu foi, por isso, aceite na bondade inocente de uma descoberta artística, embora não fosse difícil prever o que aí vinha - samba e pop de feições MPB onde as influências ascendentes e de proximidade se denunciariam a cada passo. Bingo!
Desde o primeiro momento, com a sala bem composta e longe de qualquer lotação, o espectáculo seguiu o seu caminho seguro, um pouco sonolento, na apresentação das canções do disco "Eu Vejo Luz em Maior Proporção do Que Eu Vejo a Escuridão", lançado em Março passado.
Plateia desperta, mesmo assim, soletrando muitas das líricas e mais que pronta para outras euforias que o alinhamento foi requerendo em palmas e coros colectivos. Momentos altos: as versões de Novos Baianos, Caetano Veloso e, várias, do projecto Olodum. Balanço: um bom ba(i)lanço.
Em 2022, quis o prolongamento da covid-19 que a anterior digressão de Joe Jackson pela Península Ibérica acabasse cancelada por falta de sustentabilidade lucrativa. Remarcada, a dose dupla de concertos em Lisboa e no Porto acabou agora esgotada, o que só demonstra a saudade de uma geração às suas canções. Alguns, no demolido Pavilhão Infante de Sagres em 1980, devem ter boas recordações!
Sem tirar nem pôr, no nosso caso e desde a juventude, mantivemos o apego a uma série de singles fatais e de verdadeira mestria pop rock que se esperavam, exigiam, alinhados na escolha performativa. Não demorou a que eles se fizessem ouvir - primeiro, a solo, com "Is She Really Going Out With Him? e, logo de imediato, com o incontornável "It's Different for Girls", na companhia do fiel baixista Graham Maby. A noite ficou, logo ali, mais que ganha, como que sinalizando o sumário de uma lição de um mestre encartado e, perfeitamente, vigorizado.
Juntando temas de um álbum recente, "Hope and Fury, a mais alguns clássicos como "Look Sharp" ou "Sunday Papers", a máquina do quinteto foi rolando sem falhas numa velocidade controlada e que, mesmo assim, alcançou forte desenfreio em "Target" ou no indispensável "Steppin Out" com que se finou o espectáculo antes do encore.
Ausente de palcos nacionais há mais de vinte anos, está, pois, desculpado um Joe Jackson de madureza rejuvenescida e rodeado de músicos de calibre intocável - a versão de "Scary Monsters (and Super Creeps)" de David Bowie e um enorme "You Can't Get What You Want (Till You Know What You Want)", guardados para o regresso ao palco, foram só um culminar brilhante de uma noite iluminada de sinceridade e memória. A ode "Home Town" a Portsmouth com que, outra vez sozinho, se despediu da plateia foi só a medida certa e nivelada de uma rendição encantada!
Ainda a tempo de uma última, e vibrante, canção ("Lampadaires") a cargo dos Knobil, trio suiço de travo jazz vanguardista, arriscamos um final de noite na sala de cima da Casa da Música para, finalmente, apreciar os Jazzanova. Exceptuando vários dj sets em redutos nocturnos da Invicta no auge da electrónica de há vinte anos, falhamos o upgrade que a banda de Berlin fez para cima dos palcos, mas a espera afigurou-se gratificante.
Com a sala vermelha dividida em plateia sentada e de pé, uma opção que a geração presente já reivindica e aprova, a onda alinhada, que reinventou em grande parte o disco de estreia "In Between" (2002), talvez fosse merecedora de uma turba dançante do princípio ao fim, o que só a muito custo aconteceu com o auge final. A dar voz a alguns dos clássicos esteve Wayne Snow, que lá foi cumprindo, sem deslumbre, a recriação, mas o fabuloso desiderato instrumental do colectivo sobrepôs-se, com classe e virtuosismo, em géneros superiores e complementares.
Do irresistível groove de "Days to Come", ao balanço funk de "Believer", passando pela espectacular cover/remix de "Flashback" dos Fat Freddy's Drop, a noite foi de nostalgia, daquela que não envergonha e só faz bem. Para saber como o fazer de forma competente e, perfeitamente, moderna, perguntem aos velhinhos. Long live Jazzanova!
Acontece, não poucas vezes, uma série de imprevistos mçadores causaren dano a um espectáculo ao vivo. O de Laura Misch, a estrear-se em nome próprio em território nacional, poderá ser exemplar quanto ao desleixo aplicado - microfones, no plural, sem teste prévio a abortarem, de forma ridícula, toda uma cenografia e teatralização inicial (a checklist técnica deve ter sido esquecida no balcão da cerveja); reverberamento chapeado vindo do tecto em canções de mais forte potência; sheiks ruidosos de um barman próximo a tresmalharem parte substancial da filigrana de uma das composições; charlas crescentes, e sem refreio, de quem só consegue ver um concerto de copo cheio na mão.
Resumindo, esta é uma sala onde o inesperado, daquele que só faz mossa, continua a ser, incompreensivelmente, tratado com desdém.
A este acumular de sinistros, Misch lá foi respondendo com risos de nervoso miudinho que sugeriram à plateia uma boa disposição, certamente, sincera e atenuante de um longo, mas ainda assim, coerente alinhamento.
O disco "Lithic" do verão passado foi o recurso principal, onde ao saxofone alto se juntou uma variedade analógica de instrumentos e sons da própria natureza que capta e explora de forma metódica, documentando e inovando a sua (de)formação de maneira sintetizada no nome das peças - "Echoes", "Siren", "Spiral" ou "Shell" são, pois, forças primárias de elevada subtileza onde a voz lhes aplicou carapaça protectora. Ainda assim, foi o inebriante instrumental "Fo(r)est", desempenhado junto do público, que nos ficou na retina memorizável.
A lembrar alguma da sofisticação da conterrânea Jasmine Myra, o serão, mesmo com imperfeições, resultou numa experiência sensorial amistosa que merecia um outro, e superior, palco e um maior cuidado encorajador. Talvez no CCB de Lisboa, no próximo mês...
Há, para os mais distraídos, um festival em Vila Nova de Famalicão chamado Soul de Inverno já com quatro edições. A próxima, a realizar na sala grande da Casa das Artes nos dias 20 e 21 de Novembro, apresenta, como sempre, uma programação mainstream e despretensiosa de feições soul e funk.
Se na primeiro noite, sexta, dia 20, tocam os Incognito, um colectivo britânico que preencheu muitas das nossas noites mal dançadas dos anos 90, programaram-se os fabulosos Kokoroko para fecharem o evento, precisamente, no dia seguinte, sábado!
É o regresso, sempre bem-vindo, ao norte do país depois da apresentação de final de tarde em Coura no verão de 2023 e uma oportunidade séria para testar "Tuff Times Never Last", assinalável disco de 2025 que deverá merecer adesão energética.
Pena que nesse mesmo dia, vários concertos atractivos estejam agendados, dificultando, e de que maneira, a escolha. Para quem esteja decidido, já há bilhetes.
A fazer jus ao calorzinho outonal ainda estável, andamos por estes dias bastante entretidos com o disco novo dos The Avalanches. Há qualquer coisa de fascinante a unir as trinta e uma peças de "No Bad Memories", uma quarta insistência de corte e cose, desta vez com aguçada nostalgia em imagens e jingles publicitários de infância - listam-se, por isso, fragmentos chamados "Xerox Altalink B8055", "Friends Forever" ou "Logoland".
Ao agora trio, com a adesão de Andy Szekeres ao lado de Robbie Chater e Tony Di Blasi, responderam ao convite uma infinidade de mais de vinte artistas, sendo os mais badalados os de Panda Bear, Janie XX, Mike Patton, Karen O ou até um autorizado sample com Carly Simon.
A revisitação imagética e sonora relativa a computadores, megabytes, jogos ou ecrãs saltitões, é só uma parte da narrativa, mas ela vai-se diluindo numa força de assumida onda pop, onde os beats, a house ou o soul flavour se intrometem constantemente com mestria. Nada de novo, mas como sempre, tudo bem feito!
Sete mil duzentos e tal posts depois, o blog Campainha Eléctrica faz hoje vinte anos!
Entre altos e muitos baixos, o fardo carrega-se de bom grado e assobiando, não para o lado, mas com um sorriso de espanto e sem lamentos!
Para manter a boa disposição, nada como três molhos de rodelas pequenas para tirar o pó na loja Woo Design (antiga retrosaria Chiadinho) na Praça dos Leões mais daqui a pouco. Um género de 3X20, especialmente, vintage, claro!
Não desprezando a oportunidade, a primeira depois de um adiamento prévio, não foram muitos, mas foram bons, os que compareceram à estreia na cidade de Grant-Lee Philips.
Pesava na opção o legado dos Grant-Lee Buffalo, banda norte-americana que há mais de trinta anos obteve assinalável reconhecimento e de que uma consequente carreira a solo não deixou esquecer a consistência das canções. Foram delas, e de uma mão cheia de originais mais recentes, que se fez o encontro tridimensional, um género de serão entre amigos e velhos/novos conhecidos.
O sábio alinhamento escolhido foi moldando, em crescendo, uma partilha polvilhada de elogios à urbe, histórias de non-sense e muito humor, tudo recheado daquele vozeirão facilmente reconhecível, e perfeitamente timbrado, que lhe deu fama - "Fuzzy", "Mockingbirds" ou "Honey Don't Think", por exemplo, continuam, pois, bem acesos na sua cintilante chama que a acústica da sala encavernou e acomodou religiosamente.
Ora aqui está um concerto abençoado na simplicidade, formato de que já tínhamos muitas saudades, e de que, facilmente, se recordará a vibração e perfeição. Talvez não por acaso, foi a monumental "Perfect Day" de Lou Reed a escolhida para abençoar a despedida... Damn, devia haver um coisa destas uma vez por mês!
O regresso ao Porto dos Mercury Rev tinha tudo para ser triunfal. Sala pequena de proximidade assinalável, plateia fiel de cem aficionados e músicos bem dispostos e interessados na partilha, mas um pormaior como que foi, no entanto, olvidado - o raio do SOM!
Foi confrangedor, desde que Jonathan Donahue assumiu o microfone, a imperceptibilidade da sua voz, pior, a sua indefinição entre uma massa instrumental demasiado alta e em qua bateria assumiu particular reverberamento mutilador.
Julgou-se, suspirou-se, para que o acerto fosse de imediato reposto por ser a falha demasiada notória. Apesar dos avisos de alguns espectadores fronteiros ao palco, sinalizando-a para o vocalista, ninguém, nem a banda, se interessou em perceber o defeito, não se vislumbrando alguma, qual quê, preocupação em melhorar.
Mesmo que um ligeiro, ténue, aperfeiçoamento do nível se tenha, a instantes, verificado, o concerto estava como que condenado à desilusão apesar do forte empenhamento posto num alinhamento comemorativo dos vinte cinco anos de "All is Dream", de onde soaram, potencializados, "Hercules" ou o terminal "The Dark Is Rissing".
Há, desde sempre, na atmosfera das canções, raízes de subtileza lírica e de instrumentalidade que fizeram dos Mercury Rev, quer em disco, quer em palco, uma instituição segura. Ao contrário e entre as muitas fumarolas, a noite desleixada de sexta-feira, mesmo que de psicadelismo exagerado, tornou-se quase ofensiva (a versão de "Holes" foi, a esse nível, exemplar) e de um estranho mercúrio adulterado...
Desde que a versão eremita de David Sylvian teve início há mais quinze anos, têm sido poucas e raras as novidades ou surpresas. Entre reedições e remisturas, e mesmo que algumas preciosidades tenham emergido, a questão principal ficava sempre sem resposta - e quanto a um novo álbum de originais?
Depois de "Manafon", de 2009, nada se afigura tão perentório como "The Distance Between the Killer and the Killing", o tal disco há muito esperado que esta semana se anunciou para sair na NANOQ Records,editora criada à medida da dimensão misteriosa com que Sylvian impregnou a sua carreira artística.
Nada se consegue escutar da novidade, uma única peça instrumental de quarenta e seis minutos que resulta de várias sessões de improvisação registadas entre 2012 e 2025 com ajuda e colaboração de, entre muitos, Otomo Yoshihide, Jamie Drouin, Biliana Voutchkova e do amigo Ryuichi Sakamoto.
Um pouco antes do final de Fevereiro do próximo ano, quando se farão já entregas físicas, a partir da Alemanha, das rodelas vistosas, talvez seja possível apreciar a beleza da nomeada distância mortífera. Para já é isto...