segunda-feira, 19 de outubro de 2026

LAURA MISCH, Misty Fest, M.Ou.Co., Porto, 16 de Outubro de 2026

Acontece, não poucas vezes, uma série de imprevistos causar dano a um espectáculo ao vivo de forma maçadora. O de Laura Misch, a estrear-se em nome próprio em território nacional, poderá ser exemplar quanto ao desleixo aplicado - microfones, no plural, sem teste prévio a abortarem, de forma ridícula, toda uma cenografia e teatralização inicial (a checklist técnica deve ter sido esquecida no balcão da cerveja); reverberamento chapeado vindo do tecto em canções de mais forte potência; sheiks ruidosos de um barman próximo a tresmalharem parte substancial da filigrana de uma das composições; charlas crescentes, e sem refreio, de quem só consegue ver um concerto de copo cheio na mão. 

Resumindo, esta é uma sala onde o inesperado, daquele que só faz mossa, continua a ser, incompreensivelmente, tratado com desdém. A este acumular de sinistros, Misch lá foi respondendo com risos de nervoso miudinho que sugeriram à plateia uma boa disposição, certamente, sincera e atenuante de um longo, mas ainda assim, coerente alinhamento.  

O disco "Lithic" do verão passado foi o recurso principal, onde ao saxofone alto se juntou uma variedade analógica de instrumentos e sons da própria natureza que capta e explora de forma metódica, documentando e inovando a sua (de)formação de maneira sintetizada no nome das peças - "Echoes", "Siren", "Spiral" ou "Shell" são, pois, forças primárias de elevada subtileza onde a voz lhes aplicou carapaça protectora. Ainda assim, foi o inebriante instrumental "Fo(r)est", desempenhado junto do público, que nos ficou na retina memorizável.     

A lembrar alguma da sofisticação da conterrânea Jasmine Myra, o serão, mesmo com imperfeições, resultou numa experiência sensorial amistosa que merecia um outro, e superior, palco e um maior cuidado encorajador. Talvez no CCB de Lisboa, no próximo mês...   

Sem comentários: