Imaginado como uma sequela do anterior "Something in the Room She Moves" de 2024, o novo "Materia" de Julia Holter chega no final de Agosto como mais uma demonstração de sabedoria pop(ular) - lustroso, sofisticado, transcendente, nele cabem somente sete temas, mas devem ser suficientes para impressionar!
Do tema título, reforçando um risco instrumental e mecânico, isto é, electrónico, há três versões, mas só a segunda e a terceira estão contidas no alinhamento. Aquela que lhes deu origem sugere andar disfarçada entre as variações ou terá escuta priveligiada destinada aos palcos que, por agora, ainda não foram reservados.
Um caso sério de inquietude e talento, Holter terá sempre porta aberta aqui da casa para continuar a texturar, espiritualmente e em harmonia, os nossos dias, qualquer um deles!
Revelou-se tardia a informação quanto ao concerto de dia 14 de Novembro do irrequieto Geordie Greep no RCA-Radioclube Agramonte do Campo Alegre. Esgotado, como seria natural!
Por isso, e no sentido de repetir em sala pequena a salutar festarola de Coura do ano passado, apela-se a quem consiga desenrascar, desviar ou fazer sobrar um qualquer bilhete legal para a correria e levitação sonora, o favor de contactar por quaisquer dos meios. Gratos, desde já!
São já mais de vinte os anos sobre a passagem de Sondre Lerche pelo Festival Para Gente Sentada de Santa Maria da Feira em 2005, por sinal, a única vez que o vimos ao vivo. Em Novembro próximo, a raridade terá multiplicação tripla por palcos portugueses com concertos a solo em Lisboa (dia 12), Aveiro (dia 13) e Arcos de Valdevez (dia 14, sábado).
Há já bilhetes para o Teatro Aveirense, mas a Casa das Artes de Valdevez só costuma disponibilizar entradas na semana anterior ao evento. Aceita, contudo, reservas.
A intensa digressão europeia prevista refere-se à promoção de "Acrobats", o décimo primeiro disco de uma colecção de elevado teor pop que terá edição oficial em Agosto. Onze canções de romantismo indisfarçável que se segue a um aditivo EP datado de Janeiro. Lá estaremos, no Outono, para dar provas de apego!
O ciclo anual quase vintenário "Cerveira ao Piano", recuperado e promovido pelo município de Vila Nova De Cerveira, tem nos últimos anos aportado algumas surpresas. Por lá passaram já Wim Mertens (2022) ou Micah P. Hinson (2025, sim, a tocar piano), e uma das duas noites do corrente ano foi dado privilégio ao holandês Joep Beving. Não é coisa pouca!
Artista referência do chamado neoclássico, movimento já documentado em filme, a presença no auditório minhoto motivou plateia luso-galega esgotada e, maioritariamente, a estrear-se na audição. Mesmo assim, alguns repetentes não perderam a oportunidade dourada para testar muitas das peças do novo álbum "Liminal" que a Deutsches Gramaphone editou em Março passado.
A harmonia obtida, com fonte primordial na recente novidade discográfica, foi-se engrandecendo de forma calma, subtil, criando uma atmosfera planante, quase onírica, e que um simples e pequeno piano vertical tornou milagrosa. Ao seu comando instrumental, a enorme figura de Beving, a fazer lembrar o miúdo louro Schroeder de "Peanuts", e mesmo na descontracção de umas férias familiares pelo país, obteve forte ovação perante o liminal sonoro apresentado, jornada saborosa e, ainda assim, admirável.
Lá para Janeiro, e já com concerto marcado no São Luís da capital (dia 6), pode ser que a viagem espiritual se volte a repetir...
A segunda visita de Tigran Hamasyan em três meses (Casa da Música, 21 de Abril) não será um acaso. A composição da sua música atinge uma profundidade e ritmo contagiadores de diversas camadas de público, o que foi facilmente comprovável no rápido esgotar do concerto espinhense e pela presença de diferentes gerações na ante-câmara que dava entrada no auditório do festival.
Do cruzamento e confluência de géneros, onde a vivência arménia se torna outra vez evidente, se faz o novo álbum "Manifeste", uma receita envolvente de dinamismo progressivo que, ao vivo, logo fez abanar algumas das cabeças dos que, orgulhosamente, vestiam t-shirts metaleiras. Mesmo que a acústica regulada não tenha ajudado na melhor das fruições, tornou-se evidente o poderio de um baixo extravagante de doze cordas e o peso sincopado da bateria para que a intensidade nunca se tenha perdido. Mas...
Nos seus meandros, como que flutuantes, teclas virtuosas do piano de Hamasyan e uns sussurros de canto coral tradicional foram desregulando, melodiosamente, um concerto de alta vivacidade e de destino imprevisível, acentuando que o jazz não tem limites. Ainda bem, ainda bom!
Os Mercury Rev lançaram há vinte cinco anos o seu quinto álbum de originais. Chamaram-lhe "All Is Dream", contempla enormes canções e composições que se poderão recordar, a três dimensões, já no próximo dia 2 de Outubro, sexta-feira, no resistente Hard Club. O sonho parece não ter fim... bilhetes!
O recentemente inaugurado Muzeu que reabilitou o antigo Palacete Vilhena Coutinho, edifício emblemático do centro histórico de Braga, contempla no seu último piso uma sala polivalente de excelente condição e harmonia onde pode caber uma variada programação cultural. Chama-se Assembleia, talvez por corresponder a instalações anteriormente afectas ao Tribunal Judicial e nela decorre, mensalmente, o ciclo Jazz no MUZEU, com curadoria do Hot Clube de Portugal.
Se o lema é "MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea", fará todo o sentido cruzar-lhes modernas abordagens musicais como a do baterista norte-americano John Hollenbeck e o seu projecto "George". Formado durante a pandemia e já plasmado em dois discos de originais, o quarteto arrisca um conceito de vanguarda à volta de "George", homenageando diferentes baptismos de almas com esse nome, de George Clooney, George Saunders a George Michael, passando por George Clinton ou George Floyd.
A alguns deles se dedicaram diferentes momentos jazzísticos de forte e veemente batimento, o que não deixou de fazer vincar algumas da subtilezas das vozes e muita da vibração de um saxofone e flauta das restantes instrumentistas. Original, surpreendente, não foi, mesmo assim, fácil arrancar aplausos convictos a uma plateia bem preenchida mas, talvez, atordoada com a estranheza da audição, o que perece ter demorado a entranhar-se na proporção ideal.
Se, ao que parece, "Georgios" tem na sua origem etimológica grega significados associados a "agricultor" ou "trabalhador da terra" e derivativos que nos conduzem a "produtor", então, nada como recomendar a continuação do bom e empenhado trabalho executado!
Tal como em anteriores edições, o festival tem por hábito programar, pelo menos, um concerto onde a aproximação ao jazz é, assim dito, duvidosa. Pode ser o neo-soul, pode ser uma electrónica adocicada, poder ser até a chanson ou a delicadeza da bossa nova. A jovem parisiense Gabi Hartmann é, pois, o perfeito exemplo deste inocente e inofensivo sacrilégio, para os mais puristas, ou uma arejada dádiva, para os mais flexíveis e descontraídos.
Foram destes muitas das palmas para um alinhamento diverso e multilingue, onde brilhou a guitarra de Abdoulaye Kouyate e uma voz envolvente para canções de semente tropical, africana ou, como não, francesa, que, no seu efeito leve e perfumado, se mostraram e ouviram de forma prazerosa e entretida. Sem ofensas e, até atendendo ao nome de um dos patrocinadores, um fim de tarde muito smooth... fm!
Já com visitas triunfantes a palcos portugueses (Espinho e Coimbra, 2023; Braga, 2024), faltava a Lakecia Benjamin uma consagração adequada. O final de tarde no jardim matosinhense mostrou-se, a esse nível, perfeito na descontracção e informalidade de uma fruição arrebatadora desde o primeiro momento - servindo-se do seu saxofone alto, pequeno no tamanho, enorme na vibração, logo o quarteto se ligou a ele como conector de uma energia em potência acentuada.
Foi, pois, difícil baixá-lo na intensidade, o que nem mesmo aconteceu nas pausas para fazer brilhar os outros instrumentos, às mãos de um trio de teclado, bateria e baixo em perfeita rodagem e complemento. Ao conjunto, acelerado numa tradição clássica de forte jazz, não faltaram toques de r&b, hip-hop e o bom do funk, ressaltado nas duas últimas e incendiárias peças à custa de um baixo eléctrico bamboleante.
O aplauso colectivo que brindou o final da passagem cometa pelo coreto só confirmou a grandeza de um concerto que se esperava vigoroso e que redundou numa fonte energética de rápida absorção e firmeza. Que salutar vitamina!
Tal como seria previsível, dos estilhaços dos Black Midi não faltam renascimentos sonoros de alto calibre. Se Geordie Greep se apressou a estender o seu salutar desvario em forma desconstruída de canções com "The New Sound" (2024), palpitante exercício artístico com exame aprovado em Coura o ano transacto, não lhe fica atrás o outro vocalista, Cameron Picton, que foi assumindo o colectivo My New Band Believe de forma excitante.
A estreia em Abril com o disco homónimo é de uma maturidade pop viciante e de progressão flutuante e misteriosa, confirmando, desde já, a presença em muitas das listas de melhores do ano a sair lá para o Natal. A "coisa", que só faz efeito ouvida de fio a pavio, terá avaliação presencial, agora confirmada, no irreverente festival Mucho Flow de/em Guimarães, no próximo dia 31 de Outubro, sábado pela noitinha. Ainda sem bilhetes diários, será pecaminoso faltar. Acreditem!
Afixada a um firmamento cintilante do novo jazz, Nubya Garcia e o seu habitual trio regressaram a norte em toda a plenitude aurífica. Tal como na Casa da Música, no início do 2025, não há por aqui qualquer subterfúgio de circunstância ou esconderijo artístico - tudo emerge numa intangibilidade magnífica e elegante em que os instrumentos se auto complementam à conta de uma osmose clássica de sonoridades, mas que só sobredotados aplicam no primor da subtileza.
Clareado, cheio, perfumado, o jardim como que se suspendeu de rumorejadas brisas ou ventanias para ajudar a plateia, sortuda, a captar e a revolver uma donativa união instrumental em que o saxofone que Garcia desempenha sem paralelo sugere, cada vez mais, uma condição fascinante de prodígio enleada a uma bateria, baixo e teclados talvez imbatíveis. Seja qual for o significado de núbia, esta é mesmo de ouro e bastante preciosa!