quarta-feira, 10 de agosto de 2022

(RE)LIDO #107





















BEDSIT DISCO QUEEN 
How I Grew Up And Tried To Be a Popstar 
de Tracey Thorn. London; Virago, 2014 
A primeira vez que ouvimos os Everything But The Girl em casa do amigo de sempre em Campanhã ficamos inquietos. O disco de estreia "Eden" tinha saído meses antes e dele, lembramos bem, foi difícil escolher as duas melhores canções a incluir em cada um dos lados da cassete a gravar nessa tarde. Tudo soava novo, tudo soava antigo, tudo soava bem pela voz de Tracey Thorn e da guitarra de Ben Watt, duo que não mais largámos da mão até aos dias de hoje e de que temos por aqui dado conta frequentemente. A história que se esconde por trás dessa longevidade, a que uma eterna versão de "Night & Day" deu o pontapé de saída, contou-a a própria Tracey neste livro editado em 2013 e que resulta de quase uma década de lembretes e apontamentos propositados na intenção adiada de escrever um livro que se tornaria um verdadeiro clássico da literatura rock-roll. Não é difícil perceber porquê. 

Da infância em Hull até ao ano de 2005, quando se preparava para um retiro definitivo do mundo da música, a ascensão como estrela pop foi sempre contida, ponderada mas determinada na forma de encarar os desafios, um relato onde transparece muita honestidade e um bom senso quase ocasional e venturoso. As escolhas, as opções, os problemas, os desânimos e as oportunidades submergem, por isso, em muitas das letras que a própria escreveu para as canções que aprendeu a custo a compor, desde o projecto Marine Girls com que se iniciou ao lado das amigas nesse, então, mundo masculino dos concertos e dos discos do início dos anos 80, até à estreia a solo já na década passada. É com uma dessas líricas que termina cada um dos inexistentes capítulos, vincando no leitor a ideia precisa que talvez fosse bom ir ouvir essa mesma canção como complemento metódico. Foi o que fizemos invariavelmente e com satisfação... 

Ao magnetismo da escrita junta-se um factor geracional que nos aproxima a vicissitudes e histórias que fomos lendo ou ouvindo na imprensa e na rádio, reconhecendo a quase totalidade das bandas e artistas por aqui referidos ou nomeados, dos Haircut 100 aos Undertones, transformando a narrativa numa espécie de panorâmica paralela onde cabem os The Smiths, os Jesus & Mary Chain ou os The Go-Betweens. Nesta visão desinteressada dos meandros da rádio ou da indústria musical e dos seus altos e baixos, os EBTG são tratados da mesma e sincera maneira e se querem eventuais explicações para o porquê de uma versão de Rod Stewart ("I Don't Want To Talk About It", 1988), de uma colaboração feliz com os Massive Attack ("Protection", 1995) ou do êxito de "Missing" (1995) que uma remix haveria de massificar, elas estão cá todas sem contemplações ou travões metafóricos. 

Quando, em Julho de 1992, os EBTG se preparavam para realizar uma primeira parte de um concerto de Elton John em Alvalade, tal como consta do bilhete oficial, começou o tormento de uma doença rara do companheiro Ben Watt, o que provocou cancelamentos, alarmes de ansiedade e um consequente esmorecer da chama artística de que fomos, aliás, testemunhas na (única) passagem infeliz pelo Coliseu do Porto em Outubro de 1994. Esse superado momento chave de uma vida a dois é, pois, o motivo compreensível de auto-protecção e reserva a que Thorn se agarra para, ao contrário dos videos onde nunca nos olha de frente, se afirmar decidida e resolvida em parar digressões, ser mãe, ou escrever livros ao jeito da tal pop star acidental com os pés bem assentes na terra e sempre, mas mesmo sempre, com a cabeça na música.


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