terça-feira, 11 de maio de 2021

(RE)LIDO #102


















EL FANTASMA DE NICK DRAKE Y OTROS RELATOS PÓSTUMOS
de Trigo Alcoholado. Tarifa: ImagenTa Editorial, 2018 
Na leitura apaixonada de relatos ou documentos sobre Nick Drake somos invariavelmente confrontados com a sua presença, imagina-se, solitária por terras espanholas em 1971, um retiro de duas semanas na villa de Algeciras pertencente a Chris Blackwell, sugestão patrocionada pelo próprio fundador e dono da Island Records, um protector e admirador do cantor, na tentativa de o retemperar e recuperar da depressão crescente. Confirmam-no as biografias, entre as mais importantes, de Patrick Humphries (paperback, 1997, pág. 168) ou Trevor Damn (hardcover, 2006, pág. 167-168).

Certo é que Drake conhecia a região por onde tinha estado uns anos antes (1967) na companhia de amigos em viagem de carro para Marrocos e com passagens certas por Granada, Málaga, Gibraltar e também Algeciras. A solarenga estadia, ocorrida algures no terceiro trimestre desse ano de 1971 (Agosto?) e que foi antecipada, diz-se, por uma ida a Paris na tentativa receosa e infrutífera de contactar Françoise Hardy, parecer ter resultado numa terapia positiva já que, regressado a Inglaterra, o músico decidiu registar (Outubro) um terceiro álbum somente com voz e guitarra em duas noites no estúdio Sound Techniques ao lado do amigo e produtor John Wood, pretensão revelada seis meses antes a Jerry Gilbert, jornalista da sua única entrevista em vida. Ao disco chamou-lhe "Pink Moon". 

Atendendo ao interesse que a música e a vida de Nick Drake suscitam no país vizinho nos dias de hoje, onde as biografias acima referidas foram traduzidas e publicadas em castelhano, o mesmo acontecendo para o livro de memórias, um caso único no mundo, o misterioso retiro do músico na Costa do Sol seria, mais tarde ou mais cedo, motivo de demanda. A busca realizou-a José María Pérez Garcia com afinco e perseverança quando leu a referência biográfica de Damn mas as boas respostas continuaram adormecidas nas calendas, uma estranha maldição que não permitiu obter nenhuma imagem confirmada e nenhum relato ou testemunho coevo! Em Algeciras, quedou um deteriorado mural de homenagem da autoria do artista Juan Luis Vargas Caro situado junto da foz do rio Pícaro que desagua na praia de Getares (três anos depois, não sabemos sequer se ele ainda existe), uma canção alusiva a cargo de uma banda da Cádiz e alguns artigos de jornal motivados pela publicação do livro que Garcia, mesmo assim, decidiu ficcionar e publicar com meritório esforço. 

Ao reproduzir o video de abaixo relativo à apresentação pública da obra em Junho de 2018, percebe-se a desilusão acumulada de Pérez García somente estimulada in extremis pelo contacto e interacção virtual com o produtor Joe Boyd que levou à confirmação, ao fim de inúmeras tentativas, de qual a rua na cidade onde Drake se teria refugiado - Calle Palmera da Colonia San Miguel, zona de vivendas com localização privilegiada e que começava então a aumentar. Na sua pesquisa, confirmou que naquela artéria, nesse ano de 1971, só existiam três casas, tendo uma delas sido, entretanto, destruída. Restavam uma de madeira e uma outra construída em 1972, por isso, não a moradia em questão, sobejando a habitação com o nº 2 quem sobe a rua, a tal de madeira (?), como única e melhor hipótese. Atestou ainda que os actuais proprietários não são os da época nem sabem quem foram os donos originais, mas dessa hipotética villa andaluza não são estranhamente reproduzidas imagens ou fotografias, respeitando, quem sabe, a privacidade dos actuais inquilinos ou moradores. O Street View da Google também não ajuda.

Sabemos que a imaginação não tem limites mas os riscos do seu alcance implicam ajustada ponderação e atino. Neste caso e na suposição de que naquela casa teria sido composta a base de "Pink Moon", o autor Trigo Alcoholado, um alter-ego imediatamente extinto atendendo ao título do livro, agarra-se a esse fantasma e desenvolve uma narrativa animada e arejada de confraternização humana em contraponto com o amargo período de um solitário Nick Drake em recolhimento e do qual não se conhece qualquer pormenor. 

A trama começa com a sua chegada a Algeciras em pleno verão travando, desde logo, conhecimento com um dos retratados no mural referido e que morava mesmo ao lado - centrado por uma lua e um céu rosado sobre a baía marítima, a parede tem nas suas extremidades as figuras de Nick Drake e do pintor alemão Helmut Siesser (1926-1995), personagens principais da narrativa imaginada e ícones da própria cidade, mesmo que essa proximidade não implique que se tenham efectivamente conhecido. Ele vai ser o anfitrião da jornada, incitando uma inverosímil azáfama de eventos, como idas ao cinema para ver "Once Upon a Time in the West" ou "For a Few Dollars", encontros imediatos com figuras da cultura ali nascidos, como Paco de Lucia (1947-2014) e Camáron de la Isla (1950-1992) a actuarem num pátio de bairro ou o poeta José Luis Cano (1911-1999), participante activo em tertúlias animadas e recheadas de remoques políticos, sociais, patrimoniais ou até ecológicos e ambientais e onde toma parte um jovem cinéfilo que não é senão o próprio autor do livro. 

Transparece a tudo isto uma camada de sátira e humor que cobre Nick Drake de normalidade, interacção e euforia capaz de o envolver na comunidade, de o fazer apreciar uma paelha entre copos de tinto de verano ou se de inspirar no reflexo da paisagem nocturna para compor a canção lunar e se declarar apaixonado a uma Françoise Hardy reencontrada no dia do regresso então adiado. Previsível mas ternurento! 

Quanto ao tema com o mesmo nome do livro da responsabilidade de uns tal de Sillín, basta ver as imagens editadas para perceber que o humor do guião videográfico lançado na mesma altura e a insistência num "lo peor de la música son los músicos" são só um complemento divertido com a mesma autoria que a própria narrativa. Coincidência a que podemos acrescentar uma outra - o pintor "amigo" Helmut Sissier, hoje nome de rua em Algeciras, pintou a óleo sobre madeira em 1974 um casario da cidade a que chamou "Casas Rosas / Houses in Pink"...   


Sem comentários: