Meu Amor é Marinheiro / Seja Pedro ou Seja Paulo
Portugal: Columbia/Valentim de Carvalho, 8E 006 40323, 1974
Dez anos depois, nada como um regresso a Amália Rodrigues em versão sete polegadas revolucionária. A rodela pequena, na sua capa radiante, fazia sempre furor quando andávamos pelo país a espalhar uma exposição de discos de vinil de antes e depois da 25 de Abril, dia que hoje faz 52 anos anos. A Amália cantou a revolução? era sempre a pergunta de muitos ao depararem-se com este single com o tema "Meu Amor é Marinheiro", de letra onde se podia ouvir "acende um cravo na boca" ou "abrir todas as cadeias"...
A história é, porém, um pouco mais rebuscada. O álbum "Com que Voz", editado em 1970, é por muitos considerado a obra prima da fadista, onde o papel de Alain Oulman na composição e direcção alcançou, talvez, um pináculo incomparável - simplesmente voz, e que voz, guitarra e viola para doze temas com poemas clássicos de Camões e, a maioria, contemporâneos de O' Neill, Cecília Meireles, Pedro Homem de Melo, David Mourão Ferreira e Manuel Alegre. Arriscado, claro, e de imediato controlado por um regime que acabaria por proibir o fado que musicava partes de "Trova do Amor Lusíada", poema que Alegre escreveu em início receoso de carreira. Acabaria, por isso, fora do alinhamento permitido e passou, depois, a ser conhecido como "Meu Amor é Marinheiro".
Amália, contudo, acabou-o a cantar por todo o lado, do Japão ao Brasil, como se prova ali abaixo e conta-se até a seguinte história bem portuguesa:
"No dia 23 de Abril de 1974, Amália Rodrigues era convidada de honra do programa televisivo «25 Milhões de Portugueses», apresentado por Henrique Mendes e Glória de Matos. Nessa altura, Amália cantava por todo o lado «Meu amor é marinheiro», versos de Manuel Alegre, então exilado em Argel, com música de Alain Oulman, e embora lhe tenham dito que a cantiga estava proibida na televisão, como gostava muito dela, cantou, ficou gravado e pronto a ir para o ar. Pois veio a revolução e a primeira coisa que fizeram na RTP, nesse período do maior oportunismo, foi destruir tal programa, de que não ficou rasto."
Com o irromper da revolução, seria pecaminoso deixar o tema nas bobines. Logo em Maio, usando uma extraordinária fotografia com poucas semanas de Augusto Cabrita (1923-1993), amigo e íntimo da artista, para quem fez o boneco para vinte oito capas de outros tantos discos, a editora atenta pôs cá fora o 45 rpm que tanto merecia difusão. Outras variações, takes e apuramentos acabaram a posteriori em colectâneas, edições melhoradas e reedições, uma tentação que Cristina Branco ou Carminho não resistiram em recriar. Um poema sublime, uma música ao mesmo nível, uma imagem icónica. Um single histórico!

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