quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

KELLY MORAN, GNRation, Braga, 8 de Fevereiro de 2026

O piano tem sido, desde 2010, o recurso instrumental da norte-americana Kelly Moran não só na sua clássica função percussiva, mas também numa multiplicidade de possibilidades e arrojos técnicos onde o indutor eléctrico assume a primazia. O disco "Don't Trust Mirrors", que a Warp Records editou em Outubro passado, é o exemplo último de um projecto artístico onde piano preparado e sintetizado servem no aprofundamento de uma experiência a roçar a catarse sonora. 

Ao vivo e como avisado, a primeira parte do concerto serviria para a apresentação e execução dessas peças mais recentes a que se juntaram imagens em tela grande de cariz geometrizada, e bastante distractivas, que não impediram notar a acentuada teatralização da execução imprimida pela pianista, um jogo alternado de ondulação dos braços e da farta cabeleira loira. A plastificação, melhor, a excessiva perfeição do que se ouviu talvez tenha estreitado a fruição numa simples partilha auditiva que, em alguns casos, as imagens certas disfarçaram de forma convincente - "Butterfly Phase" e a sequência sublime da patinadora de gelo afigurou-se exemplar. O melhor, contudo, estaria por vir. 

Desligado o projector, aumentando a penumbra, Moran dedicou a parte final para reverter o piano à sua essência, apostando numa sequência de tributos a compositores predilectos. Soaram, então, maravilhas de Nico Muhly, de Philip Glass e do mestre Ryuichi Sakamoto, elegendo duas das suas melhores obras de arte - "Merry Christmas Mr. Lawrence" e "Andata" - para que a luz, mesmo de olhos fechados, polarizasse, em todos, que a esperança num mundo melhor, e sem ICEbergues, será sempre a última a esvair-se.  

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