A cerimónia teve como altar central uma coluna rectangular que sugeria que, a partir dela, algum chamamento ou clamor sairia. Foi mesmo daí que uns primeiros sopros de um saxofone alto se distorceram, ampliados, em jeito de aviso para que as portas da nave se iriam fechar e o voo estava prestes a descolar para noventa minutos de cruzeiro controlado e turbulência espacial imaculada.
Disposta em semi-circulo, a banda encetou, então, como que um recital vanguardista ora de orquestração lenta, ora de extremos sonoros arrebatadores e de que os dois discos até agora gravados são comprovativos mais que válidos e reconhecidos. São, contudo, os instrumentos, e o que eles permitem, que ganham ao vivo uma dimensão quase científica, testada tanto num simples pizzicato de um violino, num diálogo vectorial de violinos, num arranhão de uma guitarra ou o agudo de um trompete.
A variedade de recursos, que a repetição de acordes acentua na dose estupefaciente, não é novidade na história do rock e os Caroline nada têm a esconder - podem ser os Tortoise, algum emo americano, ou até muito da boa folk inglesa dos anos sessenta, e não se estranha que sejam eles os cabeças de cartaz do próximo Can Festival em plena China. A transcendência não têm idade, não terá também uma só explicação, e será por isso difícil de descrever dois dos melhores momentos: "Coldplay Cover" é, afinal, uma dupla canção em que a banda se dividiu em dois dos lados do palco para, quase a capella, as misturarem sem as misturar (oiçam ali abaixo... será melhor); "total euphoria" tanto pode soar perfeita para abrir o disco "caroline 2", como forçar a multiplicação apoteótica de um extase final antes da aterragem.
Não sabemos quantos anos os Caroline vão andar por aí, também não sabemos quantos discos vão ainda gravar. Sabemos, no entanto, que colisões sonoras de semelhante catarse e calibre terão, da nossa parte, um repetido entusiasmo que a noite bracarense só veio multiplicar. Sweet caroline...
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