terça-feira, 23 de março de 2021

(RE)LIDO #95






















THE UNTHANKS 
Memory Book Vol I 
Inglaterra; Rabble Rouser Music, 2016
A folk inglesa, aquela mais enraizada numa tradição de secular percurso, sugere ser uma tendência certeira muito british de manter activo um património imaterial que não precisa de diploma ou atestado de autenticidade. As irmãs Becky e Rachel Unthank cresceram nesse lume de costumes e feições sem esconder sotaques nortenhos, danças populares e instrumentos locais que circundam variadas influências e consagrações, lançando-se no conturbado meandro da indústria musical sem trair nenhum desses legados. Quando finalmente assumiram em palco e em disco o nome de The Unthanks (2010) já meio mundo desse mundo tinha reconhecido e aplaudido a voz da mana mais velha através do projecto inicial (2005) Rachel Unthank & The Winterset, onde se escondia a jovem Becky, e o caminho para uma notoriedade mais abrangente não tardou a acontecer.

É desse ano dez, aliás, a digressão europeia que as trouxe em boa hora a Espinho, numa noite memorável mesmo para aqueles que, como nós, nunca as tinham ouvido e visto sem saber o quão essa imperdoável lacuna arrastava um lastro de pecado. Notou-se que o projecto assumia uma positiva e verdadeira raiz quadrada onde ao veio assinalável de genuinidade se juntava, sem receios, uma faceta experimental com ingredientes no jazz (Miles Davis), no minimalismo (Steve Reich) ou no rock de fusão (Robert Wyatt) e que devia ter merecido, mesmo à socapa, registo videográfico para a posteridade. Desde aí, estava prometido, não seria nunca mais permitido perder de vista os seus discos ou outras publicações paralelas. 

É o caso deste magnífico livro de memórias que as próprias organizaram e editaram como prova de carinho para com uma infindável legião de admiradores que ao longo destes anos foram acumulando sem favor, um repositório cronológico de fotografias, testemunhos, recortes de imprensa, memorabilia, críticas a discos, viagens, brincadeiras, testemunhos de fãs e músicos, discografia, influências de artistas, you name it, desde a infância de cada um dos membros da banda, e foram e são pelo menos meia dúzia, até ao consagrado disco "Mount The Air" (2015). O relato contempla, pelo menos, uma referência a uma noite portuguesa de tropelias aquando de um aniversário comemorado em digressão (p. 92). 

Paralelamente, mas à qual não chegamos a tempo, foi publicada uma caixa comemorativa - "Memory Box and Archive Tresures 2005-2015" - que contém registos em cd e vinil até aí inéditos e que serviram e servem de banda sonora, certamente, perfeita a toda esta história de vida de um projecto que ultrapassa, na amizade e amor, a família de sangue e se estende, pela cumplicidade e confiança, a uma linhagem alargada de amigos músicos, técnicos, produtores ou aficionados distantes na geografia mas orgulhosamente perto sempre que abrem este excelente livro/tesouro. Ficamos, ansiosos, à espera do segundo volume...    


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