sábado, 11 de fevereiro de 2023

(RE)VISTO #107





















JOHN & YOKO: ABOVE US ONLY SKY
de Michael Epstein. Reino Unido; Eagle Rock Film Productions, 2018
Tv Cine Edition, Portugal, 5 de Janeiro (arquivo)
Num resumo injusto, a história do álbum "Imagine" de 1971 seria um simples relato da colaboração criativa entre John Lennon e Yoko Ono. Escusado será dizer que tamanha obra prima esconde óbvias e encastráveis circunstâncias que se multiplicam em cumplicidades profissionais, artísticas e ocasionais que uma ou mais câmaras de filmar registaram intencionalmente para memória futura. Muitos desses colaboradores foram entrevistados para este documentário numa selecção de testemunhos, obviamente, controlados e supervisionados por Yoko Ono, ela própria com participação activa no filme. São, no entanto, essas imagens nunca vistas do processo de gravação e revelação dos disco que nos apelaram ao seu visionamento. Só elas devem merecer, por si só, a vossa atenção. 

Estamos em Inglaterra dita rural onde John, Yoko e o filho Julian se refugiam numa espectacular propriedade de quarenta e cinco hectares chamada Tittenhurst Park, fugindo aos dias de finados e agitados dos The Beatles, vida boa de alguma preguiça e leitura para, sem pressas, ir compondo temas para um novo disco. Num dos anexos, montou-se um estúdio sofisticado, convidou-se Phil Spector para comandar a produção e, a custo, foi-se dando a ouvir proto-canções a alguns amigos entusiasmados. Ao local chegou a nata instrumental da época para se juntar ao processo, de Alan White na bateria, a Klaus Voorman no baixo, passando pelo parceiro George Harrison, sim, esse, nas guitarras, e o resto é história. São notáveis as sequências interiores do colectivo a uma mesa entre chã e tostas, a ouvir pela primeira vez o "Imagine" ou "Oh My Love" ou a ler as respectivas líricas que Yoko escrevinhava sentada. 

Tudo parece um descontrolo controlado, assente numa onda de partilha assumida perante jornalistas deslocados para o local sem saber ao que iam e de quanto tempo tinham para a descoberta ou para obter respostas a tantas dúvidas. Arrufos não são notados, a não ser indirectas a Paul McCartney na letra de "How Do You Sleep?" mas há inesperados momentos como a presença à porta de um ex-combatente no Vietnam à procura de explicações do ídolo para letras de canções ou opções filosóficas. Nada que umas bolachas e um copo de leite não tivessem resolvido!

Floresce do documento uma intencional alteração do mito de "bruxa má" que Yoko Ono sempre aguentou, uma estrangeirada que "separou os nossos Beatles", aproveitando-se para traçar uma abordagem nada inocente à sua vida artística e pessoal de forma a melhor se perceber muitas das raízes que brotaram em "Imagine", a canção, mas também em parte substancial do álbum e que, contrariando a imagem de esposa sempre sentada e silenciosa em estúdio, se revelou parte colaborativa importante no crescimento e colheita de um disco notável. 

Os incontornáveis "The bed-ins", a Plastic Ono Band, a estranheza das perfomances mas também a sua infância traumatizada pela II Guerra Mundial e consequentes privações, ajudam a que no documentário se assuma como importante, fundamental, o papel de Ono mas também a sua ousadia conceptual e visionária que, de imediato, chamou atenção de Lennon - o seu livro "Grapefruit" (1964) continua a ser hoje, como testado propositadamente, um ensaio de entendimento ou percepção enigmática, nonsense, mas a difícil e metafórica imagem da capa do álbum só ela a conseguiu.  

O poder das canções, a sua consequente apropriação como arma política de reivindicação em tempos conturbados de guerra e agitação social, leva a dupla inseparável para as ruas de Londres e depois Nova Iorque, cidade adoptiva, vibrante e, afinal, o palco de manifesto e intervenção consciente - "power to the people" ou "war is over / happy christmas" - transformada em casa-mãe de um amor sufocante, ilimitado e agrilhoado a uma outra canção-prima. Nas palavras de Ono, "Jealous Guy" poderia ser o motivo único porque se conheceram e se amaram, mas ela é a prova cimeira de um ser superior e de uma respiração espiritual nunca perceptível em nenhum dos outro Beatles. Mais de cinquenta anos depois, ver esse talento a trabalhar é, a partir deste proveitoso documentário, um enorme privilégio de que o próprio Lennon se orgulharia no legado e poder. Imaginem...         



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