terça-feira, 24 de março de 2026

KRONOS QUARTET DE SECRETÁRIA!

JAMES BLACKSHAW, HORIZONTE PRIMAVERIL!

                                               Fotografia: The Goat Review
















A inimitável guitarra de James Blackshaw, resgatada de um hiato longo em 2024, tem viagem marcada para Portugal no final de Abril e início de Maio para servir em concertos em Lisboa (Galeria ZDB, 30 de Abril, quinta), Braga (aniversário do GNRation, 2 de Maio, sexta) e Setúbal (Festival Guitarras ao Alto, 3 de Maio, sábado). 

A presença de Blackshaw tem por motivo principal o novo trabalho "Fractures on the Horizon", que inclui o tema título e ainda um segundo instrumental denominado "Three Interlopers". O registo, que teve edição no final de Fevereiro, é mais um projecto solitário de escrita, registo e auto-produção, sendo esperado um esforço para que se concretiza uma limitada edição em vinil. 

segunda-feira, 23 de março de 2026

SIR RICHARD BISHOP, Radioclube Agramonte, Porto, 20 de Março de 2026

No actual contexto de massificação, o espaço do Radioclube Agramonte afigura-se, para a cidade do Porto, como um milagre. Recatado, apesar da centralidade, descontraído, apesar das limitações, nas traseira do cemitério de Agramonte um antigo clube de squash é hoje uma preciosidade funcional onde, entre outras valências, a um bar jeitoso de bebida, a um jardim frondoso de mesas espalhadas, a um restaurante, ao que parece, irresistível e a uma loja de discos em vinil, se juntam espaços para concertos ao ar livre ou na sala/auditório do edifício. Não é pouco. É, certamente, muito e bom, um género de jóia viva que se deve proteger e acarinhar. 

Uma jóia viva é também Sir Richard Bishop, guitarrista dito experimental a quem já não púnhamos os ouvidos e olhos em cima há, praticamente, quinze anos e que continua, resiliente, a sombrear contornos feiticeiros a uma sonoridade da folk ou do raga, mas que se estende a trilhos dedilhados do norte de Àfrica ou Médio Oriente. À indução de sortilégio previsível responderam cerca de sessenta pecadores interessados na remissão acústica, uma notada maioria com saudades dos Sun City Girls ou dos Six Organs of Admittance e de espírito aberto a composições e/ou improvisações de (ex)tensão puxada em seis cordas de uma guitarra espiritual. Ninguém saiu desiludido. 

A benção, centrada no álbum do ano passado "Hillbilly Ragas", ora de curto ou longo recital, confirmou um Bishop em plena forma e a conduzir-nos, noite dentro, por entre montanhas nebulosas ou bosques de treva escura, mas que não metem medo a nenhuma alma interessada na perdição de uma luz e som de intensidade variável e termal. Ofuscante seria o momento de quinze minutos com que pretendia terminar a sessão, não fosse estar refém na logística do palco, acrescentando, depois das muitas palmas, uma pequena pérola bónus, de pouco mais de dois minutos, só para nos fazer limpar o trago da poção energética. Este Sir é mesmo um senhor cavaleiro da guitarra!  

ROBERT FORSTER, ESTRADA FORA DAS CANÇÕES!





















O mundo da literatura, dos romances ou novelas como que viajaram sempre em realidade paralela com Robert Forster. As incontornáveis letras que escreveu para os The Go-Betweens são provas evidentes dessa influência e necessidade, e há até uma primitiva homenagem assumida a uma bibliotecária de nome Karen onde se canta "Helps me find Hemingway / Helps me find Genet / Helps me find Brecht / Helps me find Chandler / Helps me find James Joyce". 

Forster enredou-se na escrita, mesmo quando fazia crítica musical ou reportagem jornalística em tempos de pousio dos palcos e digressões, como confessado no livro marcante que prometeu, e cumpriu, escrever sobre a amizade e tudo o resto com o irmão de armas Grant McLennan. Faltava, pois, uma primeira aventura na ficção. 

No início de Maio, a Penguin Books fará publicar, só na Oceania, "Songwriters On The Run", também nome de canção antiga (2017) e que marca a estreia oficial de Forster como contador de histórias: esta começa em Dublin, Irlanda, durante o Campeonato do Mundo de Futebol de 1990, quando a um jovem poeta de vinte e um anos é dado a ouvir a colectânea "The Go-Betweens: 1978–1990"... 

Será melhor não revelar mais nada. Trata-se de uma trip rock-and-roll estrada fora que, diz quem já leu, se revela mutipolvilhada de mistério, humor e sarcasmo a la Forster, ou seja, como tantas vezes nos hipnotizou a partir do palco. Escrito entre, e durante, os concertos e a gravação de discos ao longo dos últimos anos, espera-se que a novela encontre um editor certo pela Europa ou E.U.A. a tempo de lhe deitarmos, rapidamente, os olhos. 

Só mais um teaser de palavras:

"Basically, I wanted to free myself and write what I made up. Fiction. Imagination. Freedom to dream. I began to think of stories. I had a couple that didn't fly, and then I remembered 'Songwriters On The Run'. It flew." 


segunda-feira, 16 de março de 2026

JALEN NGONDA, DOUTRINA DO AMOR!

















Não seria difícil perceber que a ascensão artística do Jalen Ndonga se tornaria veloz. Com o primeiro longa duração ("Come Around And Love Me", 2023) acolhido pela Daptone Records em toda a sua envolvência retro-soul, seguiram-se digressões esgotadas que o confirmam ao vivo como brilhante performer, um assinalável êxito que o trouxe ao Kalorama em Agosto de 2024. Aos poucos, foi largando novos temas, como "Anyone in Love", sinalizando o interesse e a procura de aperfeiçoamento numa composição que sugere facilidade e conforto, mas que aporta constrangimentos estilísticos bem agudos. 

Nas palavras do próprio, o desafio é, pois, continuar a soar como se tivesse acordado em 1964 ao lado dos Funk Brothers, expressando o fascínio por uma época em que o amor e compaixão pelos outros ainda era o principal valor da humanidade. A elegância das novas canções, em jeito de doutrinação soul, estará bem audível em "Doctrine of Love", a seguidor natural do disco de estreia e que se afigura como um exercício de modernidade crua e envolvente, mas que ainda não experimentamos ao vivo. A digressão, já marcada, alcança Madrid em Julho (Mad Cool Festival), sem, no entanto, qualquer extensão prevista a poente... 



quarta-feira, 11 de março de 2026

THE DIVINE COMEDY, Casa da Música, Porto, 9 de Março de 2026

A repetida investida dos The Divine Comedy na Casa da Música espoletou plateia principal rapidamente esgotada por uma ou, vá lá, duas gerações que continuam a ter em Neil Hannon um herói insubstituível. Ao longo de trinta anos, o irlandês engrossou um songbook de assinalável dimensão pop que continua em crescendo de robustez - o mais recente álbum "Rainy Sunday Afternoon" está replecto desses fortificantes e o serão seria uma excelente oportunidade para proceder ao seu inédito teste ao vivo. 

Pena que a sala portuense continue a não responder, de forma adequada e obrigatória, à fineza da composição, das melodias ou das líricas que tanto elevam as canções da banda, tudo abafado numa acústica sofrível em que a voz se revelou indistinta, tornando o brilho dos iniciais "Achilles", "The Last Time I Saw the Old Man", "Rainy Sunday Afternoon" e, sacrilégio, "When the Lights Go Out All Over Europe", numa calandrada massa sonora que deveria motivar queixa na SPA. Os óculos escuros que Hannon não dispensou, escondendo um confessado cansaço, serviriam também para cobrir algum imperdoável desleixo em "Lady of Certain Age", logo uma das pérolas cimeiras, quando se esqueceu da letra e a seriedade tensional do tema acelerou numa risota dispensável.

Empurrado o carrinho de bebidas e cocktails para o palco em "Mar-a-Lago by the Sea", notável e impiedosa pantomina futurista sobre o imperador yankee, uma base pianada ondeou sozinha enquanto se distribuíam bebidas entre os instrumentistas. O concerto parece ter-se, então, libertado de algumas das amarras, crescendo em conexões como a que se viveu pela primeira fila em "Our Mutual Friend", enquanto a violinista esticava em palco, magistralmente, um dos melhores epílogos de uma canção pop. Contudo, o momento da noite, apesar da sua verdura recente, teve o paladar de um figo pingo-de-mel: "The Heart Is a Lonely Hunter" é, simplesmente, um clássico antes de o ser. 

Até ao fim e já com a frente de palco amotinada, rolaram os soft-hits esperados e foi bom que "To The Rescue", arredado dos alinhamentos anteriores, tenha sido escolhido para valorizar uma noite de êxtase sabido, de algum descuido e irremissibilidade ("Your Daddy's Car"), mas de premiado batimento de asas. O voo, todavia, já noutras viagens planou muito mais alto...      

terça-feira, 10 de março de 2026

3X20 MARÇO

















Em mês de celebração do piano (29 de Março), mas com o habitual Piano Day Off pelo Porto, é ele que conduz a ordenação desordenada...
 

quinta-feira, 5 de março de 2026

ÓLAFUR ARNALDS, LIÇÃO ISLANDESA!

A colaboração não é uma estratégia — é uma forma de ser. 

A máxima, em jeito de autoajuda, é motivo de um terno documentário promovido por Ólafur Arnalds e escrito por John Meyer e a que se deu o nome de "Like Gravity: A Conversation On Creative Collaboration".

Tendo esse território fascinante que é a Islândia como cenário principal, são apresentadas conversas com diversos artistas, filmadas em Reiquiavique, Mosfellsbær, Selfoss e, também, Berlim, à volta da colaboração criativa vs o isolamento. 

A importância de uma rede de amizades e de um ecossistema gerador, motivam óbvias fragilidades e contradições, mas também impulsos poderosos nas palavras de Dustin O’Halloran, JFDR, Lilja Birgisdóttir, Ólafur Arnalds, RAKEL, Sandrayati, Sofi Paez, Terence Goodchild e The Vernon Springse. 

Os testemunhos recolhidos, as suas envolvências e, caramba, as paisagens e cercanias, aguçam uma vontade de largar tudo e fazer de uma suposta solidão um fortalecido antónimo de infelicidade. Uma lição!

 

Entretanto e para para celebrar o solstício de Inverno (21 de Dezembro de 2025), Ólafur Arnalds reuniu na sua casa de Reiquiavique alguns amigos e familiares para mais uma notável sessão - Sunrise Session III - e onde se fazem notar as vozes de Sandrayati, RAKEL e Salóme Katrín. Quatro músicos de cordas acudiram ainda à perfomance, fazendo do momento uma deslumbrante memória.

terça-feira, 3 de março de 2026

ALDOUS HARDING, QUINTO ESTÍMULO!





















Quatro anos depois, a menina Aldous Harding regressa aos discos de originais com "Train on the Island", a quinta peça de um songbook bem recheado que a 4AD europeia fará sair dia 8 de Maio. A produção coube a John Parish, colaboração que se repete até no estúdio, o Rockfiled Studios situado em Monmouth no País de Gales, local onde foram registados os três discos precedentes. 

A diversa ajuda instrumental veio de Joe Harvey-Whyte, da harpista Mali Llywelyn, Thomas Poli ou do baterista Sebastian Rochford. O principal auxílio centrou-se, contudo, no parceiro Huw Evans (H. Hawkline) e que se estendeu desde o baixo, o órgão, as guitarras e as vozes. Um dos dez temas novos ("Venus in the Zinnia") adivinha-se até em formato dueto...  

Serão, provavelmente, estes os companheiros que ocuparão o palco ao lado da neozelandesa na próxima digressão europeia que chegará, finalmente, a 12 de Agosto, quarta-feira, a Paredes de Coura, no que sugere ser o primeiro dos dias, a sério, do festival. 

Para já, "One Stop" é um mais que recomendável estimulante!

DE LA SOUL DE SECRETÁRIA!

segunda-feira, 2 de março de 2026

DUETOS IMPROVÁVEIS #311

MATT BERNINGER & ROSANNE CASH 
Who Loves the Sun (Velvet Underground) 
Série "Sunny Nights", Austrália, Dezembro de 2025