Uma viagem sonora conjunta entre Chantal Acda e Bruno Bavota iniciada em 2022 com o trabalho "A Closer Distance", expontâneo embalo de conforto à volta de um piano e voz, tem agora seguimento concretizado, presencialmente, em estúdio, normalidade que há quatro anos atrás a pandemia tinha condicionado de forma rigorosa.
Na nova paragem denominada "Safer Places" coube o afamado produtor inglês Phill Brown (Led Zeppelin, David Bowie, Cat Stevense ou os Talk Talk) e uma seleccionada e credenciada ajuda de outros músicos e vocalistas neerlandeses como Adam Wiltzie (A Winged Victory for the Sullen), Gerd Van Mulders, Beatrijs de Klerck e Niels Van Heertum. A atmosfera é, assim, de arquitectura sofisticada em que ganharam espessura, por exemplo, a delicadeza das cordas de violinos ou a subtileza de uma linha de contrabaixo.
Vincadas continuam, no entanto, as percussivas sequências de piano envoltas na voz de Acda, um registo de maior expansão e convicção que o desenvolvido no primeiro encontro à distância e que agora, numa sala e a três dimensões, ganhou profundidade e confiança.
O disco tem edição e distribuição da Challenge Records, casa ecléctica com base em Amersfoort, Países Baixos.
Como avisado e previsto, estamos agora oficialmente convocados para o encontro anual com o amigo Scott Matthews, por sinal, um fim de dia do trabalhador que se quer bem comemorado - 21h30, sexta-feira, 1 de Maio, Centro de Arte de Ovar. Mesmo ainda sem bilhetes para distribuir, confirmamos a presença. Night is young...
Depois de Brooklyn, Nova Iorque, no verão passado, a maior exposição individual dedicada a Daniel Johnston (1961-2019) está agora patente em Austin, Texas, cidade onde o artista viveu parte importante da sua formação.
A mostra tem curadoria de Lee Foster, co-proprietário do Electric Lady Studios e consultor do Daniel Johnston Trust, e revela a profundidade psicológica e a invenção formal dos desenhos de Johnston, inspirados em histórias de banda desenhada. Trata-se da segunda exposição na galeria LYDIA (Lydia Street Gallery) e segue-se a uma menor retrospectiva ocorrida na iniciativa Contemporary in Austin em 2022-23.
Denominada “Fly High, Fly Eye”, a programação e agendamento pretendeu aproximar a data de nascimento do artista - 22 de Janeiro - à abertura que ocorreu uma semana depois e se manterá disponível até final de Março. O dia natal foi já oficialmente designado "Hi, How are you? Day", reconhecida cortesia que Johnston não dispensava a todos os que acolhiam e acarinhavam, quer em concerto, quer em todos os processos artísticos ou terapêuticos requeridos pela sua doença mental.
O mundo muito próprio das personagens por ele criado compreendem um universo fascinante - Fly Eye, Eye Walker, God Eye, Dead Dog’s Eyeball, Fish Eye, SpEYEder e Double Fish Eye interagem de forma única, assumindo-se como comentadores sociais, espectadores, juízes, espiões e até parceiros. Flye Eyes, que representava a morte, era um desses olhares não lineares e corrosivo em que as frases emitidas, que parecem ter um significado, afinal significavam muitas vezes o oposto.
Em tempos conturbados pela América e não só, a esperança que ele manteve num mundo melhor, apesar do clima de pavor e injustiça, talvez seja hoje um mandamento involuntário de aprendizagem motivadora... Let's go. A luta continua!
[alguns dos desenhos originais e uma t-shirt alusiva/exclusiva encontram-se ainda à venda online]
Em tempos de sofisticação digital, de distanciamento social ou de sobrecarga de estímulos erráticos, o colectivo canadiano Broken Social Scene apressou o regresso aos discos de originais ao fim de quase uma década e a que chamou, atenção, "Remember the Humans". O lembrete, ao jeito de um post-it de colar no frigorífico, aumenta a atenção a dar à fragilidade da nossa condição de humanos, o que tende a ser preterido a partir de impulsos revanchistas e da proliferação cada vez mais perigosa de um "Nós vs Eles" que ameaça cegar a dita sociedade ocidental.
Centrado numa, ainda, pertinente promoção da realidade analógica, evidenciam-se linhas de baixo, guitarras e vozes sem que a melodia seja sequer posta em causa, confirmando que é a vontade e técnica manual que escolhe o controle a aplicar às canções. Ao leme está o mestre Kevin Drew, coadjuvado pelo resto da comandita onde se incluem Hannah Georgas, Lisa Lobsinger e a fiel Leslie Feist.
O primeiro single "Not Around Anymore", tema que também abre o álbum, mantém aquele nível de sedução nostálgica em que os de Toronto sempre se especializaram e que acentua um protagonismo indie de validade carimbada. Lá para Março, fica o aviso, a Rough Trade começa a enviar, só para alguns, uma versão em vinil de cortar a respiração.
A banda está, por isso, viva e bem viva, apesar da distância considerável das últimas notícias, talvez porque a proximidade geográfica ao imperador Trump tenha multiplicado anti-corpus de resistência que, quase sem querer, tinham já transparecido na canção antiga "Canada vs America", um atrevimento que Drew, como confessado ao El País, estava longe de imaginar como profético...
Serão poucos os discos que os These New Puritans editaram ao longo de uma carreira já vintenária. Contudo, essa mão cheia de trabalhos rodeou-se sempre de uma acutilância e exclusividade que só os irmãos Barnett parecem sinalizar como diferenciadora, assumindo as canções formatos arriscados de que se aprende a gostar por uma simples das razões - modernidade!
Ao vivo, como em anteriores passagens pelo Porto, quer na versão imberbe de 2008 quer na versão eloquente de 2013, foi com esse eficaz armamento experimental, permitido pelo rock, que a banda se estendeu em palco de forma densa e sublime, carregando uma negritude quase industrial e poderosa capaz de enervar os mais desprevenidos, mas conquistando a maioria daqueles para quem a subtileza não é inimiga da brutalidade.
O serão de sábado, de plateia sentada bastante ecléctica e diversa, foi só mais uma das viagens desafiantes em que os gémeos de Essex nos capturaram por magnetismo e rendição, ou não fosse "Crooked Wing", o disco do ano passado, mais uma lição talentosa de arte sonora de que "Bells", uma das nossas "canções do ano 2025", se assumiu inebriante - escolhendo-a, perfeita, para (a)largar o primeiro campo de visão da paisagem imersiva, o concerto como que ganhou, desde logo, um destino atmosférico cativante e ondeante e em que o quarteto se mostrou indefectível na cumplicidade.
Em algumas das paragens, deu-se entrada a Elisa Rodrigues, parceira portuguesa do projecto em 2013, quer em disco quer em palco, convidada a dar voz a uma selecção de peças de forma vincada e louvável e de que "Industrial Love Song", a primeira delas, resultou memorável. Poderoso, o alinhamento cruzou, por isso, temas antigos e recentes de forma sábia e mais que treinada, culminando num impressionante "Organ Eternal" de quinze minutos uma noite de regeneração auditiva que, sem reacções adversas, se confirmou terapêutica. Um abanão!
O chamado Midwest americano tem em Kevin Morby um lugar especial. Cabe nesse propalado deserto, toda a natureza vegetal, os animais, as estradas e as pessoas, entrelaçadas numa coexistência musical de vasta imensidão inspiradora que multiplica canções, líricas e ideias.
Em "Little Wide Open", um novo álbum registado ao longo do ano passado no Long Pond Studio de Aaron, perto de Nova Iorque, Morby tratou de fazer dessa beleza muito própria o seu "deserto" narrativo e libertador, aventura tecnicamente partilhada na produção com Aaron Dressner, o gémeo dos The National já muito experimentado na tarefa. Trata-se do aguardado seguidor do excelente "This Is A Photograph" já com data de 2022.
Entre o rol de colaborações e ajudas contam-se, entre outros, Justin Vernon, Katie Gavin, Lucinda Williams, Mat Davidson, Meg Duffy ou Amelia Meath aka Sylvan Esso/Mountain Man, dando vozes, neste caso, ao primeiro single "Javelin", um dos treze novos temas de um disco a sair em Maio pela Dead Oceans.
Lá para Julho, o músico chega a Europa para uma série de concertos de apresentação, uma volta que, mais tarde ou cedo, acabará por alcançar terra firme nacional.
O piano tem sido, desde 2010, o recurso instrumental da norte-americana Kelly Moran não só na sua clássica função percussiva, mas também numa multiplicidade de possibilidades e arrojos técnicos onde o indutor eléctrico assume a primazia. O disco "Don't Trust Mirrors", que a Warp Records editou em Outubro passado, é o exemplo último de um projecto artístico onde piano preparado e sintetizado servem no aprofundamento de uma experiência a roçar a catarse sonora.
Ao vivo e como avisado, a primeira parte do concerto serviria para a apresentação e execução dessas peças mais recentes a que se juntaram imagens em tela grande de cariz geometrizada, e bastante distractivas, que não impediram notar a acentuada teatralização da execução imprimida pela pianista, um jogo alternado de ondulação dos braços e da farta cabeleira loira. A plastificação, melhor, a excessiva perfeição do que se ouviu talvez tenha estreitado a fruição numa simples partilha auditiva que, em alguns casos, as imagens certas disfarçaram de forma convincente - "Butterfly Phase" e a sequência sublime da patinadora de gelo afigurou-se exemplar. O melhor, contudo, estaria por vir.
Desligado o projector, aumentando a penumbra colorida, Moran dedicou a parte final para reverter o piano à sua essência, apostando numa sequência de tributos a compositores predilectos. Soaram, então, maravilhas de Nico Muhly, de Philip Glass e do mestre Ryuichi Sakamoto, elegendo duas das suas melhores obras de arte - "Merry Christmas Mr. Lawrence" e "Andata" - para que a luz, mesmo de olhos fechados, polarizasse, em todos, que a esperança num mundo melhor, e sem ICEbergues, será sempre a última a esvair-se.
Depois da muito esgotada passagem pelos Maus Hábitos em 2022, pelo cancelamento da ida a Coura em 2024, os Hermanos Gutierrez têm, finalmente, data em nome próprio agendada para 25 de Agosto próximo para o Porto, no muito apropriado Teatro Sá da Bandeira. Bilhetes em breve (sexta-feira). O Leon Bridges não deve vir, mas...
A chegada da paternidade trouxe a um Sessa quase quarentão a abençoada fonte de inspiração para um terceiro disco de originais a que chamou apropriadamente "Pequena Vertigem de Amor". Há nele variação suficiente para embalar o rebento, Bem de seu nome, e para encantar plateias acompanhado de uma trilogia de peso da nova música brasileira: Biel Basile, o bielsinho dos ex-O Terno, na bateria; Marcelo Cabral, baixista, produtor e arranjador, no baixo e Letícia Veras, jovem multi-instrumentista e que no moog e vozes costuma fazer maravilhas.
Desde logo e sem entradas, passou-se ao prato principal, ou seja, algumas das excelentes canções da referida novidade, com destaque para o tema título, magistral para levantar o pano, "Dodói", "Bicho Lento" ou "Planta Santa", um caso sério de mesclagem rítmica e tão tropical que só no Brasil floresce vigorosa e autóctone. Juntar-lhe, logo de seguida, o jovem clássico "Vale a Pena" assumiu-se como um perfume inebriante onde o moog se mostrou, para além de certeiro, de deslumbre extasiado.
Pelo meio, já outras peças mais antigas (p. ex., "Ponta de Faca") se tinham intrometido num alinhamento que teve direito a encore - a pedido, insistente, Sessa aventurou-se sozinho em "Gata Mágica", recordando o poder do violão e da simplicidade de uma matriz que continua a ferir sem dor, reconfirmando a timidez fofinha de outras presenças por perto. Tudo culminaria com "Grandeza", indispensável agitador que noutras circunstâncias logísticas teria motivado, como merece, bailarico obrigatório. Em grande!
Na última passagem pelo nosso país, datada de Novembro de 2024, Scott Matthews alertava que estava em preparação a edição de um disco ao vivo, um tipo de registo já no catálogo da sua longa carreira, mas de que se espera, todavia, renovação e insistência. Aparentemente, não há por agora sinais dessa novidade, o que não impede digressões a solo de intimidade e boa disposição costumeiras.
Prevê-se, pois, que na data de 30 de Abril, quinta-feira, véspera de feriado, em Torres Vedras, se repita a oportunidade de um salutar e fraterno convívio anual, tudo comprometido por uma banda sonora tangível e soberba. O palco é do Bang Venue e já há bilhetes. Pode ser que outros momentos de camaradagem acabem por se multiplicar nos dias seguintes...
Os incontornáveis Pulp passaram ontem à noite pela Piano Room do estúdio de Maida Vale da BBC2 no oeste de Londres acompanhados pelo BBC Concert Orchestra.
Como seria esperado, fizeram memórias a triplicar - uma potente interpretação de "Hymn Of The North", uma recordação de "Something Changed" do álbum "Different Class" (1995) e uma versão de "Day Before You Came" dos Abba de 1982. Estava a pedi-las...