Mesmo sem um verdadeiro piano, uma falha imperdoável e, ao mesmo tempo, compreensível, tendo em conta a estreiteza das escadas ou outros empecilhos de mobiliário, o peso da sua pop, com toques de negritude e teatralidade sombria, encontrou, logo ali, poiso conveniente e acolhedor para canções nocturnas e a que a parca luz alargou no indispensável mistério.
O repertório, variado no longo songbook knoxiano, teve em "Mercado 48" um leve fio motivador, disco mais recente registado ali perto, na loja do mesmo nome onde costuma sentar-se ao piano no final de tarde de uma qualquer quarta-feira, e de onde se replicou, salvo o erro, "Worst of All Words" e pouco mais. Faltou "Don't Fucking Move", peça chave e cimeira do conjunto...
Jogando numa escolha cuidada de clássicos como "Blue Car", "Fool in the Heart" ou "Me and My Wife", da perfomance flutuou algum cansaço e desalento, um leve pessimismo notado em muitos dos comentários prévios à execução dos temas e que tanto motivou remoques à dureza das viagens, da perca dolorosa da mãe ou até a decadência das virtudes do Porto, cidade que adaptou para viver há já quatro anos.
Faltava a vénia a Lynch, de quem é especialista e curador experimentado de filmes, e ela guardou-se para o fim com "Mysteries of Love" que Julee Cruise cantava em "Blue Velvet" e que Badalamenti compôs a pedido do cineasta.
Mesmo que algo distante de outras euforias, a noite entre barulhinhos de copos e conversas de fundo, provou que há ainda muito para desfrutar, e aproveitar, de um artista cuja inquietude é um privilégio dimensional ter tão pe/orto.
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