terça-feira, 3 de novembro de 2026

DANIEL KNOX, Bar Bar, Porto, 30 de Outubro de 2026

Um novo bar da cidade, ali na Praça Guilherme Gomes Fernandes, escolheu o nome de Bar Bar. A razão são dois espaços diferenciados, dois pisos que sofreram inspiração decorativa de homenagem, em cima, ao universo gótico e literário de Edward Gorey, e, em baixo, ao imaginário cinematográfico de David Lynch. O fundo cortinado de veludo encarnado, o ziguezague no chão a la Sala Vermelha de "Twins Peaks" são só parte desses lembretes. Faltava alguém certo para lhe dar banda sonora. Daniel Knox? Right! 

Mesmo sem um verdadeiro piano, uma falha imperdoável e, ao mesmo tempo, compreensível, tendo em conta a estreiteza das escadas ou outros empecilhos de mobiliário, o peso da sua pop, com toques de negritude e teatralidade sombria, encontrou, logo ali, poiso conveniente e acolhedor para canções nocturnas e a que a parca luz alargou no indispensável mistério. 

O repertório, variado no longo songbook knoxiano, teve em "Mercado 48" um leve fio motivador, disco mais recente registado ali perto, na loja do mesmo nome onde costuma sentar-se ao piano no final de tarde de uma qualquer quarta-feira, e de onde se replicou, salvo o erro, "Worst of All Words" e pouco mais. Faltou "Don't Fucking Move", peça chave e cimeira do conjunto... 

Jogando numa escolha cuidada de clássicos como "Blue Car", "Fool in the Heart" ou "Me and My Wife", da perfomance flutuou algum cansaço e desalento, um leve pessimismo notado em muitos dos comentários prévios à execução dos temas e que tanto motivou remoques à dureza das viagens, da perca dolorosa da mãe ou até a decadência das virtudes do Porto, cidade que adaptou para viver há já quatro anos. 

Faltava a vénia a Lynch, de quem é especialista e curador experimentado de filmes, e ela guardou-se para o fim com "Mysteries of Love" que Julee Cruise cantava em "Blue Velvet" e que Badalamenti compôs a pedido do cineasta. 

Mesmo que algo distante de outras euforias, a noite entre barulhinhos de copos e conversas de fundo, provou que há ainda muito para desfrutar, e aproveitar, de um artista cuja inquietude é um privilégio dimensional ter tão pe/orto.         

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