Por isso, e no sentido de repetir em sala pequena a salutar festarola de Coura do ano passado, apela-se a quem consiga desenrascar, desviar ou fazer sobrar um qualquer bilhete legal para a correria e levitação sonora, o favor de contactar por quaisquer dos meios. Gratos, desde já!
quinta-feira, 30 de julho de 2026
GEORDIE GREEP, APELO!
SONDRE LERCHE, OUTONO EM POP!
Há já bilhetes para o Teatro Aveirense, mas a Casa das Artes de Valdevez só costuma disponibilizar entradas na semana anterior ao evento. Aceita, contudo, reservas.
A intensa digressão europeia prevista refere-se à promoção de "Acrobats", o décimo primeiro disco de uma colecção de elevado teor pop que terá edição oficial em Agosto. Onze canções de romantismo indisfarçável que se segue a um aditivo EP datado de Janeiro. Lá estaremos, no Outono, para dar provas de apego!
quarta-feira, 29 de julho de 2026
JOEP BEVING, Palco das Artes, Vila Nova de Cerveira, 25 de Julho de 2026
O ciclo anual quase vintenário "Cerveira ao Piano", recuperado e promovido pelo município de Vila Nova De Cerveira, tem nos últimos anos aportado algumas surpresas. Por lá passaram já Wim Mertens (2022) ou Micah P. Hinson (2025, sim, a tocar piano), e uma das duas noites do corrente ano foi dado privilégio ao holandês Joep Beving. Não é coisa pouca!
Artista referência do chamado neoclássico, movimento já documentado em filme, a presença no auditório minhoto motivou plateia luso-galega esgotada e, maioritariamente, a estrear-se na audição. Mesmo assim, alguns repetentes não perderam a oportunidade dourada para testar muitas das peças do novo álbum "Liminal" que a Deutsches Gramaphone editou em Março passado.
A harmonia obtida, com fonte primordial na recente novidade discográfica, foi-se engrandecendo de forma calma, subtil, criando uma atmosfera planante, quase onírica, e que um simples e pequeno piano vertical tornou milagrosa. Ao seu comando instrumental, a enorme figura de Beving, a fazer lembrar o miúdo louro Schroeder de "Peanuts", e mesmo na descontracção de umas férias familiares pelo país, obteve forte ovação perante o liminal sonoro apresentado, jornada saborosa e, ainda assim, admirável.
Lá para Janeiro, e já com concerto marcado no São Luís da capital (dia 6), pode ser que a viagem espiritual se volte a repetir...
segunda-feira, 27 de julho de 2026
TIGRAN HAMASYAN, FIME, Auditório de Espinho, 23 de Julho 2026
A segunda visita de Tigran Hamasyan em três meses (Casa da Música, 21 de Abril) não será um acaso. A composição da sua música atinge uma profundidade e ritmo contagiadores de diversas camadas de público, o que foi facilmente comprovável no rápido esgotar do concerto espinhense e pela presença de diferentes gerações na ante-câmara que dava entrada no auditório do festival.
Do cruzamento e confluência de géneros, onde a vivência arménia se torna outra vez evidente, se faz o novo álbum "Manifeste", uma receita envolvente de dinamismo progressivo que, ao vivo, logo fez abanar algumas das cabeças dos que, orgulhosamente, vestiam t-shirts metaleiras. Mesmo que a acústica regulada não tenha ajudado na melhor das fruições, tornou-se evidente o poderio de um baixo extravagante de doze cordas e o peso sincopado da bateria para que a intensidade nunca se tenha perdido. Mas...
Nos seus meandros, como que flutuantes, teclas virtuosas do piano de Hamasyan e uns sussurros de canto coral tradicional foram desregulando, melodiosamente, um concerto de alta vivacidade e de destino imprevisível, acentuando que o jazz não tem limites. Ainda bem, ainda bom!
sexta-feira, 24 de julho de 2026
MERCURY REV, UM SONHO INFINITO!
JOHN HOLLENBACK "GEORGE", Assembleia do Muzeu, Braga, 18 de Julho de 2026
O recentemente inaugurado Muzeu que reabilitou o antigo Palacete Vilhena Coutinho, edifício emblemático do centro histórico de Braga, contempla no seu último piso uma sala polivalente de excelente condição e harmonia onde pode caber uma variada programação cultural. Chama-se Assembleia, talvez por corresponder a instalações anteriormente afectas ao Tribunal Judicial e nela decorre, mensalmente, o ciclo Jazz no MUZEU, com curadoria do Hot Clube de Portugal.
Se o lema é "MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea", fará todo o sentido cruzar-lhes modernas abordagens musicais como a do baterista norte-americano John Hollenbeck e o seu projecto "George". Formado durante a pandemia e já plasmado em dois discos de originais, o quarteto arrisca um conceito de vanguarda à volta de "George", homenageando diferentes baptismos de almas com esse nome, de George Clooney, George Saunders a George Michael, passando por George Clinton ou George Floyd.
A alguns deles se dedicaram diferentes momentos jazzísticos de forte e veemente batimento, o que não deixou de fazer vincar algumas da subtilezas das vozes e muita da vibração de um saxofone e flauta das restantes instrumentistas. Original, surpreendente, não foi, mesmo assim, fácil arrancar aplausos convictos a uma plateia bem preenchida mas, talvez, atordoada com a estranheza da audição, o que perece ter demorado a entranhar-se na proporção ideal.
Se, ao que parece, "Georgios" tem na sua origem etimológica grega significados associados a "agricultor" ou "trabalhador da terra" e derivativos que nos conduzem a "produtor", então, nada como recomendar a continuação do bom e empenhado trabalho executado!
quinta-feira, 23 de julho de 2026
GABI HARTMANN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 18 de Julho de 2026
Tal como em anteriores edições, o festival tem por hábito programar, pelo menos, um concerto onde a aproximação ao jazz é, assim dito, duvidosa. Pode ser o neo-soul, pode ser uma electrónica adocicada, poder ser até a chanson ou a delicadeza da bossa nova. A jovem parisiense Gabi Hartmann é, pois, o perfeito exemplo deste inocente e inofensivo sacrilégio, para os mais puristas, ou uma arejada dádiva, para os mais flexíveis e descontraídos.
Foram destes muitas das palmas para um alinhamento diverso e multilingue, onde brilhou a guitarra de Abdoulaye Kouyate e uma voz envolvente para canções de semente tropical, africana ou, como não, francesa, que, no seu efeito leve e perfumado, se mostraram e ouviram de forma prazerosa e entretida. Sem ofensas e, até atendendo ao nome de um dos patrocinadores, um fim de tarde muito smooth... fm!
segunda-feira, 20 de julho de 2026
LAKECIA BENJAMIN, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 12 de Julho de 2026
Já com visitas triunfantes a palcos portugueses (Espinho e Coimbra, 2023; Braga, 2024), faltava a Lakecia Benjamin uma consagração adequada. O final de tarde no jardim matosinhense mostrou-se, a esse nível, perfeito na descontracção e informalidade de uma fruição arrebatadora desde o primeiro momento - servindo-se do seu saxofone alto, pequeno no tamanho, enorme na vibração, logo o quarteto se ligou a ele como conector de uma energia em potência acentuada.
Foi, pois, difícil baixá-lo na intensidade, o que nem mesmo aconteceu nas pausas para fazer brilhar os outros instrumentos, às mãos de um trio de teclado, bateria e baixo em perfeita rodagem e complemento. Ao conjunto, acelerado numa tradição clássica de forte jazz, não faltaram toques de r&b, hip-hop e o bom do funk, ressaltado nas duas últimas e incendiárias peças à custa de um baixo eléctrico bamboleante.
O aplauso colectivo que brindou o final da passagem cometa pelo coreto só confirmou a grandeza de um concerto que se esperava vigoroso e que redundou numa fonte energética de rápida absorção e firmeza. Que salutar vitamina!
quinta-feira, 16 de julho de 2026
MY NEW BAND BELIEVE, ACREDITEM!
A estreia em Abril com o disco homónimo é de uma maturidade pop viciante e de progressão flutuante e misteriosa, confirmando, desde já, a presença em muitas das listas de melhores do ano a sair lá para o Natal. A "coisa", que só faz efeito ouvida de fio a pavio, terá avaliação presencial, agora confirmada, no irreverente festival Mucho Flow de/em Guimarães, no próximo dia 31 de Outubro, sábado pela noitinha. Ainda sem bilhetes diários, será pecaminoso faltar. Acreditem!
NUBYA GARCIA, Matosinhos em Jazz, Jardim Basílio Teles, 5 de Julho de 2026
Afixada a um firmamento cintilante do novo jazz, Nubya Garcia e o seu habitual trio regressaram a norte em toda a plenitude aurífica. Tal como na Casa da Música, no início do 2025, não há por aqui qualquer subterfúgio de circunstância ou esconderijo artístico - tudo emerge numa intangibilidade magnífica e elegante em que os instrumentos se auto complementam à conta de uma osmose clássica de sonoridades, mas que só sobredotados aplicam no primor da subtileza.
Clareado, cheio, perfumado, o jardim como que se suspendeu de rumorejadas brisas ou ventanias para ajudar a plateia, sortuda, a captar e a revolver uma donativa união instrumental em que o saxofone que Garcia desempenha sem paralelo sugere, cada vez mais, uma condição fascinante de prodígio enleada a uma bateria, baixo e teclados talvez imbatíveis. Seja qual for o significado de núbia, esta é mesmo de ouro e bastante preciosa!
quarta-feira, 17 de junho de 2026
FEINER & RASK, REINVENÇÃO VIKING!
O projecto colaborativo de Thomas Feiner com Johan Ludvig Rask, que se anunciou há mais de um ano, tem agora confirmação oficial e três temas completos para escuta.
Trata-se, como percebido, de variações em inglês de clássicos da folk sueca em assumido e enegrecido ambiente alternativo:
. "The Sun Fell Softly on the Ocean" do trovador sueco Evert Taube (1890-1971), traduzida na lírica pelo seu neto, Felix Taube;
. "Ida's Summer Song", original composto por Georg Riedel (1934-2024) e que recebeu lírica de Astrid Lindgren (1907-2002), autora de literatura infantil consagrada no país;
. "Midsummer Song", um tradicional de 1945, teve tradução e adaptação em inglês do próprio Feiner.
As imagens, de auto-curadoria arriscada, exploram ferramentas de animação artificial inteligentes.
CAMERON WINTER, PARA (ATÉ) QUANDO?
Vem já de 2024 um grande, surpreendente, álbum de Cameron Winter, agora conhecido líder dos Geese, que só começamos a ouvir já em 2025. Viciante, intemporal, "Heavy Metal" tornou-se, desde logo, obrigatório imaginar como seria absorvê-lo numa qualquer sala às escuras.
Pois bem, o homem já tocou em quase todo o lado, passou por Barcelona há poucas semanas, mas não se vislumbram sequer aproximações portuguesas, agora que faltam ainda conhecer alinhamentos de alguns eventos mais que apropriados para a estreia - o Manta vimaranense, o Respira bracarense ou até o MistyFest que sugere estar sempre incompleto.
Entretanto, tem uma semana a divulgação maravilha de uma vintena de minutos da passagem pela Opera House de Sydney em Fevereiro, exemplo perfeito do que andamos a perder. Masoquistas, juntamos dois inéditos, um oficial, outro à socapa...
quarta-feira, 10 de junho de 2026
HERMANOS GUTIÉRREZ, OLHOS ANDINOS!
Antes, os irmãos Alejandro e Estevan estarão em dose dupla no nosso norte do país: a 13 de Agosto, quinta-feira, em Paredes de Coura, cumprindo o concerto cancelado em 2024 e, um pouco mais de um mês depois, no muito esgotado e apropriado Teatro Sá da Bandeira, a 25 de Agosto, terça-feira.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
BEDOUINE, À FLOR DA PELE!
O processo foi, por isso, longo e revisitador de uma infância nebulosa, agora retomada pela escolha de sons semelhantes aos primeiros instrumentos que utilizou na escola, como um piano ou um trompete, somando aos arranjos um toque jazz, bossa-nova e um leve psicadelismo. Tudo foi tratado em estúdio com a ajuda de Gus Seyffert, Jonathan Rado e dos manos The Lemon Twigs, Michael e Brian D’Addario.
Emotivo, fresco, corajoso e com lucros de venda, parcialmente, destinadas a ajudar a população inocente do sul do Líbano.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
CREMALHEIRA DO APOCALIPSE + RUMBLE + ROMPERAYO + ODD OKODDO & OGOYA NENGO, Serralves em Festa, Porto, 31 de Maio de 2026
No caminho apressado para mais um dos muitos concertos da festarola, um "viva Rio Tinto!" soou alto e bom som!
O colectivo da freguesia Cremalheira do Apocalipse não será caso único na integração de jovens com diferentes incapacidades ou transtornos, mas o sururu à volta do projecto têm vindo a multiplicar-se depois da gravação de um álbum pela Favela Discos e de uma série de concertos nos últimos meses. Importa, pois, perceber porquê e não será difícil concluir que a máquina tem uma simples força motriz - a entreajuda!
"Das entranhas de Rio Tinto, no triângulo sagrado entre o Centro Social de Soutelo, McDonalds, a pastelaria que tem bolos grandes demais, e o Parque Nascente, brotou a Cremalheira do Apocalipse, uma pedalada de baqueta nos dentes, e um estalo na rotina diária de quem os ouve de quem os vê e de quem os faz."
Uns entram, outros saem para estágios ou primeiros empregos. Ficam os baldes, as cafeteiras, as baquetas, os bidons, que o prof. Artur vai rodando e sobrepondo a um género de canções manifesto de inspiração lírica dos próprios executantes, tantas delas desarmantes, de acutilância simples que nos deixa desencaixados, a morder o lábio enquanto nos mingámos na insignificância do nosso dia-dia normalizado...
Caberá, pois, conhecê-los, dar-lhes asas largas e, com um nó na garganta, mandar-lhes um abraço do tamanho da antiga Mondex. E viva Rio Tinto!
Do Fundão, aterrou na coloraça o quarteto Rumble. Pareceu deslocada, por antecipação, a atmosfera de densidade pós-rock, se bem que de imaculada execução e até arrojo. A tarde de sol pedia, no entanto, outro tipo de animação festiva.,,
Chegados ao prado, já os Romperayo tinham incendiado a enorme maralha, de todas as idades, com uma ignição tropical, de origem colombiana, bombada a forte bateria e modernismos de ritmos electrónicos sacados de um baixo, um teclado e um acordeão folgazão. Há por ali e acolá, um suposto abuso do folclore de Bogotá, da tradição cumbia e puya que chega, literalmente, ao funk latino ou ao suposto pimba local, sem que ninguém estivesse muito interessado em saber qual a aferição dos condimentos rítmicos.
Tudo a dançar, a curtir, mesmo que algumas da canções de teor político tivessem, às tantas e em dia de eleições no país, uma seriedade inesperada. Acelera, mas é!
O duo Odd Okodd, formado por Olith Ratego, vocalista e instrumentista, e Sven Kacirek, baterista e percussionista, junta de forma inusitada o Quénia e a Alemanha em já três álbuns editados e onde se vai vasculhando e serpenteando modernidades e ancestralidades tão ao gosto de uma certa e ecléctica world music. Se funciona?
A fruição até que começou incisiva, acústica, numa crueza delicada que aguçou expectativas. A interacção com o público optimizou o momento, deu-lhe proximidade e até uma etnicidade aportada pela presença da octogenária Ogoya Nengo. O resultado, se bem que inatacável na exactidão, foi-se, no entanto, perdendo numa extensão perigosa e a precisar de um ou outro rasgo de batimento diferenciador.
Esta sensação de déjà vu, será muito semelhante à própria festa de Serralves, de que será urgente uma reinvenção que a recupere de uma letargia cultural desnecessária.
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