segunda-feira, 29 de maio de 2023

MARO + M. WARD, M.Ou.Co., Porto, 27 de Maio de 2023

Passou mais de uma dúzia de anos desde a estreia de M. Ward no Porto. Desprezamos, nessa altura, a oportunidade que só haveria de ter redenção parcial em 2020 com uma visita a Guimarães que teve tanto de amorfa como de estranha. Insistimos na tentativa de obter uma compensação satisfatória e plena e, assim e à última da hora, decidimos comparecer no M.Ou.Co. medianamente reticentes mas na esperança de um bom concerto. Foi o que aconteceu. 

Empenhado e em forma, Matthew Ward cedo vagueou pelo palco no seu jeito característico de empunhar a guitarra e, de olhos fechado, cantar em quase sussurro algumas das suas excelentes canções de ronda ao blues e ao folk americano nos quais vai continuamente insistindo desde 1999 em mais de dez álbuns de originais e muitas versões. Billy Holliday, Buddy Holly ou o incontornável "Let's Dance" de Bowie não foram, por isso, dispensados mas a surpresa completa foi mesmo, já no encore, "Late Night Talking" de Harry Styles ao lado da jovem Maro um pouco atrapalhada mas a dar conta do recado na meiguice da voz e na simpatia já ensaiadas, com êxito, na primeira parte do espectáculo. 

Ward terá álbum novo muito em breve e talvez se esperassem novos temas no alinhamento mas só "Supernatural Thing", o tema-título, foi escolhida de permeio a um bom conjunto de clássicos de autor reclamadas por aficionados conhecedores e de que "Shangri-La", "Vincent O'Brien" ou "Rollercoaster", já no segundo encore, foram exemplares na adoração de uma plateia bem composta e interessada na partilha e a que Ward, reconhecidamente, deu tradução performativa. 

 

Apesar do atraso na entrada na sala, ainda fomos a tempo de ser surpreendidos por uma inesperada combinação de sotaque brasileiro de alguns dos originais o que tem afinal uma expliçação dada pela própria - radicada no Brasil durante algum tempo em 2021, Maro não escapou à sedução de um tropicalismo tardio potencialmente eficaz mas ainda a requisitar acertos. 

Sozinha, sem as guitarras de um duo que a acompanha agora em digressão nacional, o enfrentamento com um público mais adulto (?) e desconhecido torneou-se amistosamente com boa disposição e respeito de um nome que todos reconhecemos ganhadora de um Festival da Canção, o que não sendo nenhum pecado é, invariavelmente, inconsequente. Neste caso, contudo, essa vitória sugere ter sido simplesmente o ponto de partida de uma carreira prometedora e inteligente.    

sexta-feira, 26 de maio de 2023

CALEXICO, FESTA GALEGA!





















O disco "Feast of Wire" que os Calexico editaram há vinte anos recebe hoje uma edição melhorada e aumentada onde cabem versões de "Alone Again Or" dos Love, que habitualmente tocam ao vivo, e de "Cowboy in Sweden" de Lee Hazlewood gravada, precisamente, num concerto em Estocolmo em 25 de Abril de 2003 e que se junta a outros nove temas bónus do mesmo espectáculo no China Theatre da cidade. 

O álbum marcou, na altura, uma opção mais pop de um som de ecletismo assumido e que teve rodagem ao vivo por perto a que assistimos de bom grado. Joey Burns e John Convertino, a dupla maravilha, têm sido visita descontínua ao nosso país - em 2013 passaram com sucesso por Coura e em 2016 estiveram no NOS Alive da capital - e não é surpresa que a próxima digressão comemorativa prevista para a Europa não alcance terrenos de extremo sulista. Mas há, felizmente, alternativa! 

Na segunda ronda pelo velho continente (a primeira começa já em Junho), as quatro datas previstas para Espanha têm tiro de partida na Galiza onde o Auditorio Mar de Vigo recebe a 11 de Outubro, quarta-feira, a festa de aniversário dos de Tucson, às tantas, regadas com umas Coronas fresquinhas. Já há bilhetes. Olé! 


quinta-feira, 25 de maio de 2023

BUCK MEEK, O SOM DA MONTANHA!





















O guitarrista e compositor Buck Meek, parte essencial dos grandes Big Thief, tem assumido vida própria e contínua insatisfação artística. Irrequieto, registou já dois álbuns a solo e um terceiro numa nova editora, a britânica 4AD, que também é a casa dos referidos Big Thief e de Adrianne Lenker, está já a caminho. O trabalho chega, em força, a 25 de Agosto próximo numa toada de assumida electricidade hi-fi que contrasta com o anterior "Two Saviors", de onda mais calma e lo-fi. O novo volume ressalta, vibrante, do tema título eleito como primeiro single. 

Em "Haunted Mountain" agrupam-se canções escritas ao lado de Jolie Holland, amiga e heroína de eleição, e que se apresentam com uma característica comum - o alto de várias montanhas foi o local inspirador da composição, desde as Franklin Mountains na natalícia Wimberly no Texas, passando pelo Valle Onsernone nos Alpes Suiços, onde se obteve a fotografia da capa que acima se reproduz, até à portuguesa Serra da Estrela, o que talvez explique "Lágrimas", título de um dos novos temas que foi já apresentado a solo e ao vivo na sessão do mês passado na loja Third Man Records do Soho londrino. 


quarta-feira, 24 de maio de 2023

TINA TURNER (1939-2023)













Entre o estatuto de rainha do rock dos anos oitenta ou o furacão funk dos anos setenta, somos dos que preferimos sempre uma Tina Turner nesta última versão arrebatadora embora sabendo dos problemas com o parceiro e marido Ike Turner, transformando a sua vida num inferno de mazelas que o relato biográfico e o posterior filme ilustraram de forma inequívoca.

Compreende-se, por isso, que da estreia portuguesa em Alvalade em 1990 não tivessem sido eleitos muitos dos hinos empolgantes de pistas de dança do passado, do presente e do futuro como estes dois irresistíveis aqui abaixo. Simplesmente, a maior. Peace!    


DUETOS IMPROVÁVEIS #274

JOHN PARISH & ALDOUS HARDING 
Three Hours (Nick Drake) 
Àlbum tributo "The Endless Coloured Ways: The Songs Of Nick Drake" 
Chrysalis Records, Inglaterra, Julho de 2023

sexta-feira, 19 de maio de 2023

PAUL SIMON, RETEMPERANTE!














Crescemos com Simon & Garfunkel a tocar no gira-discos lá de casa e nunca deixamos de acompanhar o trilho de Paul Simon feito, de surpresa em surpresa, ao lado de músicos africanos ou jamaicanos numa ponderada carreira de quinze discos a solo. Em 2018 com o álbum "In The Blue Light", Simon sugeria estar resignado, regravando temas da sua autoria que pareciam esquecidos e cujo ressurgimento funcionava como um epílogo artístico. Nada de mais errado. 

Aos oitenta e um anos, Paul Simon fez sair hoje, e como anunciado, um trabalho inédito - chama-se "Seven Psalms", o mesmo nome de um disco de spoken word de Nick Cave editado o ano passado, e deve ouvir-se de enfiada ao longo de trinta e três minutos num género de suite com sete canções interligadas que começam em "Lord" e acabam com "Wait". A experiência é, simplesmente, retemperadora! 

A composição instrumental e as líricas são totalmente da sua autoria, tendo recebido ajudas do grupo vocal VOCES8 e da esposa, a cantora Eddie Brickell, dividindo a produção com Kyle Crushman. Prometido está ainda o documentário "In Restless Dreams" dirigido pelo experiente e premiado realizador Alex Gibney que contará a história e as vicissitudes do projecto mas sem data de lançamento anunciada. Há, no entanto, um pequeno trailer para destapar a curiosidade.


ANDY ROURKE (1964-2023)














Ser baixista dos The Smiths, banda crucial senão cimeira dos anos oitenta, não deve ter sido tarefa fácil. A discrição de Andy Rourke sempre contrastou com as irreverências e arrufos de Morrissey com quem partilhou palcos antes e depois da separação mas também cadeiras opostas de tribunal na disputa de direitos de autor que Mozz fez questão de contar ao pormenor em formato novela... 

As contas, difíceis de fazer e compreender, são para aficionados disparates inconsequentes atendendo à qualidade eterna das canções e para as quais as linhas de baixo de um homem charmoso foram sempre um fortificante. Rourke faleceu hoje com 59 anos. Peace!

quinta-feira, 18 de maio de 2023

AMARO FREITAS EM MATOSINHOS!













O brasileiro Amaro Freitas têm sido visita frequente ao nosso país, mas as comparências nunca são demais. Em 2022 esteve, pelo menos, em Espinho, Loulé e São João da Madeira em formato trio, apresentações que agora se vão repetir em Loulé (MedFest) e na estreia em Matosinhos (Teatro Constantino Nery, 30 de Junho, sexta-feira). Ao seu lado estarão, desta vez, Aniel Someillan no baixo acústico e François Morin na bateria. 

No alinhamento não deverá faltar esta brutal e antiga peça a solo chamada "Dança dos Martelos" e que recebeu video oficial no mês passado. Quem puder, não deve faltar. Bilhetes!

KAMAAL WILLIAMS NO CORETO!





















O milagroso Festival Matosinhos em Jazz, que têm trazido ao Parque Basílio Teles uma verdadeira constelação de estrelas do novo jazz inglês, anunciou o primeiro nome para a sua quarta edição em 2023 que decorrerá de 1 a 31 de Julho - o britânico Kamaal Williams toca no coreto a 16 de Julho, Domingo, e o acesso continuará a ser gratuito! Outros nomes terão anúncio em breve. 

Williams regressa, assim, ao Norte do país depois da última passagem pelo Festival Para Gente Sentada bracarense em 2019, servindo de oportunidade para apresentar, entre outros devaneios funk, o excelente álbum "Whu Hen" de 2020.


quarta-feira, 17 de maio de 2023

LAMBCHOP NO MISTY FEST!





















Ao já recheado cartaz da próxima edição do Misty Fest deve agora somar-se mais um condimento especial - os Lambchop começam a digressão europeia no Porto, dia 21 de Novembro, onde se vão juntar na mesma noite ao saxofonista Matthew Halsall na Casa da Música. No dia a seguir tocam no CCB de Lisboa no mesmo âmbito. 

Os concertos serão em formato intimista, ao contrário da última passagem em formato banda por Espinho em 2017, com Kurt Wagner a ser acompanhado por Andrew Broder, pianista e produtor que participou nos álbuns "Showtunes" (2021) e "The Bible" (2022). É de lá este magnífico "That's Music".

NICO PAULO, PERFUME LUSO DO CANADÁ!





















O porto da cidade de São João, capital da província canadiana da Terra Nova e Labrador, foi durante muito tempo local de abrigo e reabastecimento de muitos navios portugueses durante as campanhas de pesca do bacalhau, embora a criação de fortes relações com as comunidades locais remontem já ao século XVI. A amizade secular está até protocolada com Ílhavo, cidade do distrito de Aveiro, e devidamente documentada no seu excelente museu marítimo

Com estas raízes e assumindo a sua ascendência, a jovem Nicole Maria Morgado Paulo aka Nico Paulo editou um álbum de estreia homónimo em Abril passado com travo e cheiro de indisfarçável lusitanidade embora as canções cantadas em inglês, numa voz a lembrar Feist ou Legrand, nos remetam para o sempre cheio de nuances dream-pop. O registo e composição iniciais foram obtidas num propositado refúgio numa cabana situada junto de um lago na região da Nova Escócia e posteriormente afinadas e tratadas no estúdio Dream Date por Joshua Van Tassel. 

Na ilustração em movimento de algumas das novas canções, é a própria Paulo a tratar da realização, cenários e paisagens em locais eleitos nas belíssimas proximidades da São João, embora no video mais recente para "The Master" haja a referência, sem nomeação, a uma praia portuguesa onde foram captadas algumas das imagens. Notado também o pormenor de um outro video para "Now or Never" ter sido rodado "under the pink moon of march 2022 in Newfoundland & Labrador — Isthmus, Cape St. Francis and Flat Rock."... 

Destaca-se ainda a canção "Amor Amor Amor", excelente tema que começa em português perfeito para depois se ondular na lírica francesa e inglesa, regressando, sublime, à língua inicial. Como prova das suas capacidades e influências, Paulo tinha já registado em 2021 uma versão de "O Cavaleiro e o Anjo" que José Afonso gravou em 1968 para o álbum "Cantares do Andarilho". Fica ainda a dúvida se a capa do álbum terá fotografia mais antiga obtida no litoral português em dia de nortada...  




terça-feira, 16 de maio de 2023

SCOTT MATTHEWS, Casa das Artes de Arcos de Valdevez, 13 de Maio de 2023

Começa a ser um hábito sadio que a cada disco novo de Scott Matthews se proceda a uma apresentação ao vivo nas redondezas. Demorou tempo, demasiado tempo, para que o inglês tivesse em Portugal um reduto adulto no reconhecimento do seu talento e que só despertou, efectivamente, a partir de 2016. Desde aí, Matthews passou a ter um núcleo de aficionados que se espalhou pelo país de forma subtil e que comparece sempre que a oportunidade surge num pequeno teatro ou recinto acolhedor, espaços ideais para uma partilha próxima de magia acentuada e evidente recompensa. Sem máscaras, a do passado sábado não fugiu à regra. 

O motivo era, desta vez, o recente "Restless Lullabies", disco de parafinado fio acústico que retoma temas do anterior "New Skin" e outros mais antigos mas o alinhamento não dispensou um bom conjunto de clássicos de um songbook já notável de que "Sunlight", "Drifter", em toada ritmada pelo público, e "Eyes Wider Than Before" foram só os primeiros eleitos. Habitualmente testado só nos encores, "Home And Dry" serviu, a meão e por antecipação, para a habitual descida à plateia para uma versão a cappela que funcionou na perfeição no cimentar de cumplicidades e para tirar qualquer dúvida de estreantes quanto à virtude de ter Matthews a tocar e cantar, seguro e confortável, como se estivesse em casa de amigos. Nice and simple... 

Como sempre e para além de todas estas aptidões, no serão minhoto submergiu ainda uma inconfundível boa disposição na introdução das canções que tanto se alongou a um non sense muito british sobre o nome das suas guitarras, a desafios de adivinhação sobre o conteúdo da bebida trazida para o palco ou imitações cáusticas de cantores country e Tom Waits! Como frisado, é por isso insubstituível a tridimensionalidade radiante destes momentos categóricos a que nos fomos afeiçoando invariavelmente e já na expectativa de decifrar quando será a próxima visita do amigo. Somos uns sortudos, Scott! 

VERSÕES LUMINOSAS!

A nova série biográfica "A Small Light" estreada no canal National Geographic no início do mês e que conta a história de Miep Gies, a rapariga que escondeu e ajudou Anne Frank e a família durante o Holocausto nazi, tem uma banda sonora apetecível de versões supervisionadas por Zachary Dawes e Este Haim, uma das irmãs Haim. Para o disco "A Small Light: Songs From the Limited Series", que terá edição na próxima semana, foram convocados, entre outros, Sharon Van Etten, Angel Olsen, Kamasi Washington, Moses Sumney ou Weyes Blood. 

A escolha livre recaiu em temas e peças favoritas dos próprios artistas - Van Etten dedicou-se a "I Don’t Want to Set the World on Fire” (1938), tema popularizado pelos The Ink Spots e que conta com a dicção de um verso pelo actor Michael Imperioli (The Sopranos), Angel Olsen escolheu "My Reverie" (1938) de Larry Clinton, Weyes Blood preferiu "When You're Smiling" (1928), canção popular reinterpretada centenas de vezes e Kamasi Washington torneou "Cheryl" (1947), peça clássica de Charlie Parker. Tudo luminoso, como não poderia deixar de ser!




sexta-feira, 12 de maio de 2023

CHILLY GONZALES, BEIJO DE LÍNGUA!





















Do génio da lâmpada Chilly Gonzalez há que esperar tudo. De versões de Natal a livros sobre Enya ou documentários auto-críticos, Gonzalez passeia talento ao piano e não só que conduzem, quase sempre, a surpresas artísticas como o que agora se dá a conhecer - um primeiro álbum cantado em francês em jeito de ode à cultura de um país que adoptou como residência e que mistura música clássica, hip hop ou electro pop em metamorfoses excêntricas. 

Chamou-lhe "French Kiss", estará disponível em Setembro e deu-lhe uma capa hilariante ao lado da companheira baguette! Tratou de convidar o amigo Jonathan Barré para o video do tema título onde se desfilam truncagens deepfake de personagens francesas contemporâneas ou históricas enquanto nos diverte pelo discurso irreverente de batida slam. Os comentários para o filme estão, pois não, desactivados. Françamente, maestro!

AROOJ AFTAB, VIJAY IYER, SHAHZAD ISMAILY DE SECRETÁRIA!