quarta-feira, 30 de setembro de 2026

(RE)VISTO #115





















MILES DAVIS - Reinventando o Som e o Silêncio
 
de Patrick Savey, Zycopolis Productions, França, 2026 
RTP2, 29 de Setembro de 2026 
Considerado um dos gigantes da música do século XX, Miles Davis fez da sua carreira uma montanha russa turbulenta de ousadia, resiliência e muita rebeldia. Extravagâncias à parte, dos arrojados trajes a paixões e divórcios em catadupa, o trompetista não se limitou a fazer do jazz uma criação unívoca, rodeando-se sempre de cúmplices em ascensão como Herbie Hancock, Wayne Shorter, Chick Corea, Carlos Santana, John McLaughlin, Sonny Rollins, Lee Konitz, Mike Stern, Bill Evans ou George Duke, ufa, também eles multifacetados e desejosos da ribalta pedagógica. 

São deles a maioria dos testemunhos, na primeira pessoa, deste documentário que a televisão pública tinha estreado em Maio e que agora se repete e mantêm disponível para visualização, diríamos, obrigatória. Nele são revisitados e esclarecidos os caminhos ocasionais ou programados de álbuns fundamentais como “Birth of the Cool” (1957), “Bitches Brew” (1969) e “Tutu” (1986), uma separação de trinta anos que é uma enciclopédia de mutação sonora inigualável. 

Da profanada electrónica, ao bebop ou à fusão, passando por muita improvisação, Miles foi medindo os saltos a dar na criação, implicando silêncios ou escolhendo o momentum para que a genialidade penetrasse, a cada concerto ou disco, de forma a notar-se quer na sua subtileza, quer no seu arrojo. Lacónico, sem amarras, a intenção foi sempre provocar a inquietude de quem era escolhido, uma partilha ofegante que se mostrou, e confirmou, como um auto requisito de uma respiração artística em  busca da transformação contínua. 

Miles, este é um retrato fiel, e sem rodeios, sobre inconformismo humano, daquele que muito poucos multiplicam em catarse futurista e que, até aos nossos dias, nunca foi superada ou sequer ultrapassada. Miles, que é nome de estrela no passeio da fama de Hollywood, devia ser, às tantas, o nome de uma cintilante constelação que surgisse no firmamento, melhor, de um qualquer jovem e deslumbrante planeta...        

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