quinta-feira, 30 de junho de 2022

RHYE, Hard Club, Porto, 28 de Junho de 2022

Quatro anos depois, o canadiano Mike Milosh aka Rhye voltou ao Porto para, em definitivo, confirmar as virtudes das suas canções. Não que a passagem pelo Parque da Cidade tenha deixado dúvidas quanto à qualidade do produto sonoro, mas a amplitude, a luminosidade do espaço ao ar livre e a distância exagerada retiraram ao aconchego da sua música parte de uma sedução que só a proximidade, e de que maneira, acelera numa certa intimidade. No espaço do clube, a luz foi, por isso, quase sempre ténue de forma a diluir as figuras do septeto em palco desde que os instrumentos se fundissem sem imperfeições e onde, desta vez, um violino e um violoncelo se juntaram ao clássico quarteto de baixo, guitarra, teclas e bateria que em muitas ocasiões foram esticados num surpreendente volume finalizador de muitos dos temas balançantes ("Last Dance" ou "Taste", por exemplo). 

"Down or Up?". À pergunta de Milosh, já perto do final, sobrepôs-se uma amálgama de respostas que, mesmo assim, sugeria que a opção feminina pela onda calma iria prevalecer mas foi "Hunger" o escolhido para adiar mais um pouco a bela da frouxidão que já momentos antes, aquando de "Open", tinha permitido apagar na totalidade a luz da sala! Foi também às escuras que se anunciou a última canção entre delírios gritados alto e bom som ("Mikel, make love to me" não é nome de nenhuma canção). O suspiro chamou-se "Song For You" e resultou num libido truque energético rematado a capella a todo o fôlego orgíaco ou não fosse o seu perfume canoro um acelerador de bons momentos presentes, passados ou futuros...  

COMPLETAMENTE JOAN SHELLEY!

Aquilo que parece ser mais uma obra prima de Joan Shelley - o álbum "The Spur" saído há dias - não tem final possível já que é irresistível pressionar a sua repetição completa. (Não) termina assim de forma admirável...

WILCO, Noches del Botánico, Madrid, 27 de Junho de 2022

A primeira das noites esgotadas dos Wilco em Madrid tinha enquadramento e local perfeitos. No centenário jardim botânico da capital espanhola espalharam-se tiendas de cerveja, vinho, bocadillos e afilhados entre mesas, espreguiçadeiras e cadeiras à sombra das árvores calmamente ocupadas por público adulto entradote, notoriamente aficionado, conhecedor e orgulhoso no gosto pela banda americana que uma variedade de t-shirts antigas assinalava sem disfarce. Foi ainda sentados a acabar a caña, que do palco se fizeram ouvir os primeiros sons a sério de La Tremendita e era a então a boa hora para, sem pressas, rumar o mais à frente possível no recinto para uma cerimónia repetida mas de que não há maneira de evitar a ansiedade. À nossa volta, mesmo sem apertos ou empurrões, percebia-se que ela, a tal ânsia, não era só uma "doença" nossa... 

Dois longos anos sem digressões, sem concertos, sem partilhas reais foram penosos para os Wilco. Entre muitas das suas virtudes sobressai a capacidade de, aparentemente, fazer o que uma banda deve fazer - tocar canções sem truques ou virtualidades e esse regresso ao primado do rock teve em "A Shot in the Arm" um iniciante sinal quanto ao gosto cúmplice de ali estarem a fazer o que melhor sabem e gostam. Em duas horas, esqueceram-se as saudades, as distâncias ou as desculpas e fez-se da oportunidade uma travessia de mão dada a que uma amizade tão antiga obriga na confiança e conforto de um alinhamento preparado para o abraço fraterno. Sem falhas, sem rodeios, sem excessos, o que veio do lá de lá, do palco, foi infinitamente aprimorado pela excelência dos instrumentos, pela subtileza das vozes, pela qualidade da acústica e da amplificação. Do lá de cá, da plateia, a resposta confundiu-se, sem protocolos, nessa matéria viva de sons de uma vida, de muitas vidas, entoados como se fossem preces purificadoras indispensáveis à respiração. Exageros? 

Se o amor por uma banda não têm, nem pode ter, normas ou tabelas de equiparação medidas pela amplitude da gritaria ou da agitação, há nesta relação algo de imbatível e sobrenatural que atinge o pináculo quando "Impossible Germany" se começa a adivinhar. Desta vez, um endiabrado e recentemente curado (Covid19) Nels Cline pregou-nos a todos à parede da incredibilidade pela dose superlativa de riffs e deformações de um solo de guitarra inclassificável e sufocante que o brado posterior transformou em vénia e devaneio colectivo. Ufa... tanto podem ser temas do novo disco - e houve uma boa meia dúzia deles - como antiguidades com trinta anos com que acabaram a noite, que uma dádiva como esta não tem preço nem idade mesmo que cada vez maior e rabugenta. Música para velhos? Que seja, mas que os deuses da música os guardem e protejam por muitos e bons anos. Viva Wilco! Viva!

quarta-feira, 29 de junho de 2022

FAROL #145















No reduto virtual de sempre, oferecem-se duas excelentes versões seventies a cargo do groove de Neal Francis. Refrescante!

TORO Y MOI, VRUMM VRUMM!





















O álbum "Mahal" de Toro y Moi saído em Abril começa e acaba com barulhos de motores de carros enguiçados que demoram a pegar mas depois lá arrancam na perfeição. O efeito é quase o mesmo quanto às canções que é preciso testar muitas vezes até se entranharem num efeito soalheiro e descontraído com colaborações técnicas diversas de amigos como os Unknown Mortal Orchestra, Mattson 2 ou Salami Rose Joe Louis e uma aproximação visual colorida e kitch a um mundo exótico de veículos asiáticos... Os videos editados são, a esse nível, esclarecedores. 

Há agora, no entanto, uma curta-metragem que funciona como complemento imagético e humorístico do álbum chamada "Goes By So Fast". Dirigido por Harry Israelson, combina animação, ficção e imagens de actuações ao vivo onde Chazwick Bradley Bundick, Chaz Bear para os conhecidos, contracena ao lado do parceiro Eric André e a que vale a pena dar uma espreita. Vrumm, vrumm!



terça-feira, 21 de junho de 2022

DORA MORELENBAUM, Novo Ático, Porto, 19 de Junho de 2022

Para Dora Morelenbaum a linhagem familiar que remete para progenitores famosos - é fiha de Jaques e Paula Morelenbaum - é influência inevitável na carreira a solo que agora decidiu assumir e que a trouxe, em estreia nacional, a vários palcos do país. No Porto, onde terminou a digressão, as canções apresentadas não disfarçaram essa notória veia artística no refinado dedilhar do violão mas também num tom de voz que, não se distanciando de muitos outros, tem assinatura e marca suficiente para se distinguir e crescer. 

Mesmo que o renovado Novo Ático do Coliseu se afigure algo distante e asséptico no conforto, o espaço submerge pela qualidade e nitidez da acústica que fez elevar as canções de "Vento de Beirada", um primeiro EP editado em 2021 mas também de versões de Buarque ou popularizadas por Caetano Veloso que confirmaram, sem ser preciso, que a estirpe MPB está longe da extinção. A parceria com Tom Veloso, filho mais novo de outro clã, nos novos temas de um álbum prometido para breve e de que deu a ouvir "Dó a Dó", é só mais um natural cruzamento de ajudas amigas e generosas que têm no projecto Bala Desejo, de que foram apresentadas três canções, o exemplo perfeito de conexões antigas e cúmplices. Um orgulho para os pais ter assim tamanha Dora e os seus amigos...

SILVANA ESTRADA, Mercado 48, Porto, 18 de Junho 2022

O álbum "Marchita" da jovem cancionera mexicana Silvana Estrada parecer ser um daqueles fenómenos de consenso generalizado quanto ao seu efeito de sobressalto emotivo. Aprende-se, aos poucos, a entrar na intimidade das canções escritas de modo solitário em 2018 em casa dos pais e depois, timidamente, apresentadas aos amigos e familiares em ocasiões especiais como sugeriu ser a noite de sábado na loja cosy da Rua da Conceição. 

Só para alguns sortudos, a reunião funcionou como uma dessas primeiras descobertas e partilhas atendendo à proximidade quase caseira e informal do espaço e que teve o condão de reforçar a grandeza e fermento de um pulsar que transpira uma melancolia folk incandescente de tradição latino-americana. Pela imensidão da sua voz, cantou-se a saudade ou a tristeza, o amor ou o desamor, o carinho ou a repulsa como afagos agridoces que, disfarçados de delicadeza, estremeceram numa brandura colectiva a motivar fortes aplausos e muitos sorrisos de alegria e cumplicidade. Enquanto houver estrada para andar... 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

MATOSINHOS EM JAZZ INGLÊS!














Depois de dois anos forçados de interrupção, o Festival Matosinhos em Jazz regressa em Julho ao coreto do Jardim Basílio Teles, junto do edifício da Câmara Municipal, a partir de dia 9 e prolonga-se até dia 30, sempre aos sábados e domingos e com acesso gratuito. Do programa, destaque para a embaixada de músicos e intérpretes ingleses de eleição como o pianista Alfa Mist (dia 16, sábado), a saxofonista Camilla George (dia 17, domingo) e o jovem Ashley Henry (dia 24, domingo), uma tradição que parece manter-se a gosto

Paralelamente, logo no início do mês e no mesmo local, ficará disponível uma exposição de obras dos artista André Tentúgal, Clara Não, Joana Linda, João Fazenda e Vasco Gargalo que conceberam, a pedido da organização, uma releitura de capas famosas de discos de jazz de Chet Baker, Charles Mingus, Nina Simone, Ornette Coleman ou Sonny Rollins. Programa completo aqui.



WILL SAMSON AO VIVO!





















O excelente álbum "Active Imagination" de Will Samson, preciosidade já por aqui recomendada, terá a devida apresentação ao vivo já no próximo mês de Julho em Vila Real, Porto (Maus Hábitos, dia 15) e Lisboa. A não perder!

sábado, 18 de junho de 2022

EU ESTIVE LÁ! NÓS TAMBÉM!





















A mania de guardar bilhetes de concertos mantêm-se activa nos nossos hábitos, agora extensiva a cartões e pulseiras plásticas ou de tecido de acesso a recintos e palcos, o que leva a evitar bilhetes digitais de leitura ótica no telemóvel. Claro que o interesse deixou de ser gráfico e artístico devido à uniformização da bilhética, o que retira todo o encanto a esses pedaços de história que decidimos, há muito, transformar em quatro posters decorativos que ainda estão pendurados numa parede de Mindelo e que dizem respeito a um período compreendido entre 1986 e 1999 (1 - 2 - 3 - 4). 

É com satisfação, mas também como boa surpresa, que deparamos agora com a notícia da publicação de um livro exclusivamente dedicado a bilhetes de concertos em Portugal nos últimos sessenta anos, uma tarefa coordenada e dirigida por Henrique Amaro com o título de "Eu Estive Lá!" (Tinta da China). Inserem-se textos de Luís Pinheiro de Almeida, Pedro Fradique, Isilda Sanches e Ana Cristina Ferrão, um para cada década, de 1960/70 a 2010/20, de forma a valorizar uma mania espalhada por "juntadores" um pouco por todo o país. 

A selecção incidiu num conjunto de 700 exemplares de variados universos musicais e tipologias (festivais, bandas e artistas em nome próprio), de momentos marcantes, como o primeiro concerto dos Sonic Youth em Portugal (Campo Pequeno, Lisboa, 1993), ou até de espectáculos que não chegaram a acontecer (Lou Reed, Porto, 1980). E podem ser tantas as histórias e memórias à volta de concertos... waiting in line to see Suede play!

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

COURTNEY MARIE ANDREWS, CONFIANÇA NO FUTURO!





















Para a nómada Courtney Marie Andrews o ano passado junto ao mar na Nova Inglaterra, apesar das nuvens negras, permitiu um genuíno pousio emocional a que ela própria chamou "the summer of self-love". Como memória simbólica, imaginou e pintou a capa de cima pertencente a um novo disco, uma versatilidade artística que já tinha florescido num livro de poemas biográfico e uma exposição inteira com os seus quadros. 

Neste "Loose Future", assim se chama a novidade a sair pela Fat Possum no início de Outubro, colaboram, entre outros, Josh Kaufman dos Bonny Lighthorseman, Chris Bear dos Grizzly Bear e Sam Owens aka Sam Evian que dividiu a produção do álbum nos Flying Cloud Studios de Nova Iorque. Apesar de tudo, confiança no futuro!

FAROL #144















Com um novo e excelente álbum "Inside Problem" na manga, Andrew Bird repete a dádiva no âmbito da clássica The Lagniappe Session com duas versões impressivas - "Call It Dreaming" de Iron & Wine e "This Must Be The Place" dos Talking Heads. Justificações e bombons aqui...

quarta-feira, 15 de junho de 2022

DESTROYER NO THEATRO!














Depois de cancelados os concertos dos Destroyer previstos para 2020, foi com alguma estranheza que reparamos, já no mês passado, na programação trimestral do MusicBox lisboeta que incluía um espectáculo, precisamente, dos Destroyer agendado para o próximo dia 5 de Julho sem qualquer referência na agenda do artista Dan Bejar. Hoje ficou a saber-se que também haverá concerto em Braga na véspera, 4 de Julho, segunda-feira, na sala principal do Theatro Circo (bilhetes à venda). 

Continua ser estranho, na mesma, a ausência de qualquer menção a esta parelha de espectáculos nacionais nas redes sociais ou outras plataformas da banda, restando a dúvida se a apresentação é a solo ou com banda. A oportunidade servirá para apresentar o mais recente álbum "Labyrinthithis", saído em Maio, onde está esta pedrada...

DRY CLEANING, NOVO SINGLE!





















Os britânicos Dry Cleaning, os reis do Primavera Sound Porto, têm novo single - "Don't Press Me" terá, previsivelmente, edição em 7" de vinil pela 4AD mas conta já com video realizado pelo especialista Peter Millard.