Foram já várias as passagens de Daniel Knox pela loja Mercado 48 (Rua da Conceição, Porto) para, sentado ao piano, apresentar muitas das canções de uma carreira já longa. Entre elas, algumas inéditas e prometidas para álbuns futuros inspirados e polidos na residência de longa duração que escolheu fazer no Porto.
Um desses projectos têm agora concretização assegurada e reporta duas madrugadas de gravação ao piano da mesma loja, apurada com engenharia sonora a cargo de Greg Norman. Depois, as canções foram tratadas devidamente no Jamdek Recording Studio de Chicago com a ajuda de vários músicos amigos e com a adição de vozes de João Freitas no Estúdio Cedofeita do Porto.
A cidade serviu, pois, como cenário e roteiro comprovados em "Alligator", o primeiro single de que o próprio conta as circunstâncias em tradução livre (The Line of Best Fit):
"Passei muito tempo num café chamado Asa de Mosca. Há por lá muita gente interessante. Um tipo entra e tenta vender-me coisas que roubou. Eu costumo comprar. Ele vendeu-me um pequeno elefante de madeira, um leque em formato de macaco e, uma vez, tentou vender-me o que chamou de computador, que na verdade era só uma espécie de ecrã sensível ao toque que ele claramente tinha arrancado da parede em algum sítio. O meu cabelo comprido e a minha barba atraem muitos olhares, mas gosto de vir a este café porque, em qualquer das noites, sou apenas a terceira pessoa mais estranha."
Acrescenta:
"Às vezes, fico aqui sentado a ler ou a trabalhar, mas a minha mente levanta-se e anda sem mim. Ela começa a andar a três ou quatro quarteirões de distância, senta-se sozinha noutro café, atravessa a rua e volta para me observar da janela. Depois de morar aqui por alguns anos, às vezes tenho esses momentos de perspectiva em que consigo ver-me fora de mim mesmo; como se eu fosse apenas aqui mais um desses personagens. Há aquela coisa que se enfrenta nessa idade em que ainda se quer ser o personagem de algum romance antigo, mas aí estou sentado no sofá a assistir aos novos discos 4K de "Alligator" e "Alligator II" e tens que conciliar isso com quem tu és e com queres vir a ser.".
O video de "Alligator", dirigido por Manuel Sá, foi, por isso, rodado em ruas e locais que bem conhecemos de Campanhã ou do Bonfim, mas a protagonista chama-se Flor, um milagre de ternura decana. "Mercado 48" sairá no início de Dezembro em casa própria em vários formatos já em pré-encomenda. Prometida está a apresentação ao vivo no sítio do costume e partilha...
Uma crítica com três anos a um disco novo de Michelle David & True-tones acabava com um chavão mais que verdadeiro - se você gosta do som de Sharon Jones, vai adorar este! De facto, não são só estas as semelhanças, já que David é também norte-americana e dona de um vozeirão que, desde criança, se envolveu no gospel e na soul de forma notável. Em palco, não será coincidência, a mesma aversão a sapatos que incomodam na perfomance.
Como manda a sapatilha, aquando da entrada em palco da cantora já o trio instrumental The True-tones tinha ligado a maquinaria groove, mantendo-a perfeitamente oleada até ao fim, escolhendo momentos a solo do baterista e, em particular, do guitarrista, para polir e acelerar a rotação. A energia haveria de fazer levantar a plateia das cadeiras, mas o convite para ocupação da frente ou laterais, ao contrário de um mítico concerto de Sharon Jones na Casa da Música, não obteve qualquer adesão.
O revivalismo soul fez-se, mesmo assim, na plenitude da sua saliência dançante, uma vibração sem data de validade desde que produzida com autêntica e divertida essência, o que, lá está, estes três true.tones e a uma mestra-cantora sabem fazer sem falhas.
Passaram quase cinco anos sobre uma suposta peregrinação a Santiago de Compostela para pagar uma promessa a São Lee Fields. Entretanto, um tal de Covid 19 começou a fazer das suas e lá tivemos que esperar até ao verão courense de 2023 para lhe fazer a devida vénia, apesar da brevidade da aparição.
Num género de repetição inverosímil, alinha-se para Janeiro uma intensa digressão do soulman norte-americano por Espanha e não é que há concerto marcada para Santiago de Compostela para dia 25, domingo? Bilhetes só na segunda feira. Grazas!
Ao pequeno disco de ternura dedicada à filha saído o ano passado, Joan Shelley acrescenta agora, em pleno, um álbum de canções, o sétimo, gravado em Toronto com a ajuda do amigo Ben Whiteley (The Weather Station). Não admira, por isso, que entre os treze originais, para além do marido Nathan Salsburg, se note a presença de Tamara Lindenman ou Doug Paisley.
Em "Real Warmth", que a No Quarter editou na última semana, há pois novos ares, longe do Kentucky natal e de uma certa ruralidade country, mas, ouvindo o disco, a magia que Shelley aporta à composição soa como que se tivesse agitado numa nova poção perfumada de bom gosto. Há muito que lhe exaltamos o estilo, que a temos por indispensável, é tempo agora de a abraçar como um verdadeiro tesouro!
Os texanos Midlake, nestas andanças das canções há vinte cinco anos, registaram mais um álbum de boa cepa, como transparece da dupla de inéditos já em audição. O disco, apurado no estúdio de Denton, foi produzido pelo grande Sam Evian, que toca também saxofone tenor e acrescenta vozes ao lado de Hannah Cohen e Meg Lui. Entre os originais, conta-se um dueto de Eric Pulido com Madison Cunningham no tema "Guardians", e outras pérolas de harmonia folk-rock como "Days Gone By" são de sedução imediata.
O sexto álbum, de nome "A Bridge to Far", sairá a 7 de Novembro pela Bella Union e segue-se, quatro anos depois, a "For the Sake of Bethel Woods", contando com digressão inglesa e pela Europa continental já no final de Janeiro de 2026.
Entretanto, e a propósito da morte de Ozzy Ousbourne em Julho passado, a banda fez questão de recordar a versão "Am I Going Insane" dos Black Sabbath que integrou a compilação "Late Night Tales", sonoridade que influenciou, decisivamente, o embalo da obra prima "The Courage of Others" de 2011. Outra recente versão, inesperada e acústica, de "I Shall Be Released" de Bob Dylan dá sinais, que um dia qualquer, um disco de covers até que seria bem bom...
A terceira insistência de Sérgio Sayeg akaSessa, brasileiro com estadias prolongadas por Los Angeles, chega em Novembro pela Mexican Summer e vai valer a pena. Em "Pequena Vertigem de Amor", afina-se toda uma sonoridade retro que discos anterior pareciam afagar na nostalgia tropicalia e que agora recebeu transformação grandiloquente, expandindo orquestrações, arriscando novos instrumentos e assentando influências.
Entre Abril de 2024 e Março de 2025, o estúdio Cosmo de São Paulo recebeu cinco sessões onde Biel Basiel, baterista dos O Terno e Marcelo Cabral, baixista e compositor, assumiram a produção e ajudaram a dimensionar as possibilidades de progressão - à guitarra, como em discos anteriores, que comandava a composição e muitas das apresentações ao vivo, foram sobrepostas linhas de piano, sintetizador, guitarra wah-wah e até caixas de ritmos por contágio soul e jazz de gente como Shuggie Otis, Roy Ayers, Sly Stone, Tim Maia e até os amados Erasmo Carlos e Amado Maita.
São nove as peças da colecção e "Vale a Pena" é a percursora e, logo, irresistível novidade na qual Sessa larga a guitarra para se aventurar num piano Suette brasileiro...
A peregrinação anual a Coura está a ficar cada vez mais custosa. No preço, na vontade, na disponibilidade, mas muito no estreitar da paciência para lidar com multidões. Deve ser da idade, da nossa em contraponto à da maioria...
Mesmo sabendo que não era ali, nem à luz do sol, que a estreia de Cassandra Jenkins em solo nacional merecia ter acontecido, não disfarçamos que o esforço teve como impulso principal a jovem artista de Nova Iorque. Sem deslumbramentos, o concerto confirmou-se calmo, a planar a caloraça estranha do recinto mais pequeno, mas talvez a precisar de um melhor acerto da amplificação que ajudasse no cintilar das subtilezas magníficas das canções de "My Light, My Destroyer" e de pérolas mais antigas como "New Bikini" ou "Michelangelo". A partilha, ainda assim, afigurou-se compensadora e ternurenta, uma oscilação notada na mensagem que Jenkins leu visivelmente emocionada perante o forte aplauso de aprovação e agradecimento pelos cinquenta minutos de descontraída suspensão.
Dois anos depois e já com os Black Midi em frangalhos, Geordie Greep voltou ao Minho para fazer das suas, isto é, sarrabulhada da boa. Com base em "The New Sound", disco a solo que se confirmou como um dos melhores de 2024, o concerto fez estourar ainda mais os desvarios que as canções originais já sugeriam, uma avalanche de instrumentos onde coube até um violoncelista e muita rodagem ao vivo. À potência da bateria de Morgan Simpson enleou-se um verdadeiro novelo de guitarradas e muita diversão, a que o figurão, no seu jeito chaplin, e alguns parceiros costuraram palhaçada e irrequietude. "Holy Holy" foi, a esse nível, notável: "tudo bem ", "obligado", "muito bom" e "cala a boca". Já agora, "f*** you to" Greep!
Depois do cancelamento do ano passado, os londrinos Bar Italia prometiam dar o litro. Espremida, a contenda até que passou as marcas pré-estabelecidas ou não fosse este indie rock de tensão revigorante e que tem na trilogia da voz em rodopio um essencial e raro atributo. Escusado destacar Nina Cristante que, no meio do palco e à custa de uma ventoinha e uma saia travessa, ainda mais fez aumentar a temperatura de um concerto certeiro e que dá esperanças seguras quanto ao valor do rock. Não deverá ser preciso esperar muitos anos para os ver no estrado principal do "couraíso".
Quem dignificou esse palco de maneira surpreendente foram os Black Country New Road. Temíamos que a pop barroca e de alguma experimentação se diluísse encosta acima, mas, pelo contrário, ela como que se foi ondulando na porção certa para embriagar a multidão receptiva à propagação mágica de elevada fineza e qualidade. Arriscada, a façanha mostrou-se crescente e de uma pedagogia instrumental sem falhas, que isto de ser jovem músico em Cambridge requer tarimba apurada e entrosamento consistente. Compreende-se, (re)imagina-se agora melhor a beleza de "Forever Howlong", disco deste ano na sequela do abandono amigável do fundador Isaac Wood, e que têm nas vozes da três meninas um academismo notável que transformou o anfiteatro num género de Epidauro da pop. Se aos Belle & Sebastian, há trinta anos, se atiravam bocas quanto aos desafinanços e defeitos instrumentais, apupos inconsequentes tendo em conta a frescura das canções, de nada disso se pode acusar estes BCNR, uns verdadeiros continuadores de uma pop inglesa acutilante, refrescante e, caramba, adulta. Como notado, o futuro está mais que assegurado. Salvé!
Não pode ser coincidência, mas há sempre nos concertos de King Krule um nevoeiro artificial, ora colorido ora pálido, que faz um efeito de bondade e de nostalgia interrogadas na origem, mas que se assume importante na emergência do timbre de voz, da poética muito própria das líricas e até na variação de velocidade de muitas das canções. Tudo a saber a um cocktail único de jazz com rock e umas pitadas de hip-hop e punk que os ouvidos agradecem pelo vanguardismo e afronta a convenções de composição. Em Coura, repetindo a presença de 2017, Krule foi como que uma variação crescida de uma certa inocência que vimos brotar em 2012 e que, logo ali, nos pareceu irresistível e de cariz marcante. Raramente lhe vimos a cara, raramente lhe vimos as expressões, raramente reparamos na cor do cabelo. Muitas vezes, pelo contrário, foram simplesmente as canções o bastante para que o concerto se agigantasse na noite, arrefecida no clima, mas calorosa na fruição. Viva o rei, siiiiiiiiiiiiiii!
Por falar em nevoeiro fumarento, de Mk.gee só ouvimos muitas vezes o disco de estreia "Two Star & the Dream Police" (2024), por sinal, um cartão de visita "estranhante" embebido de soft-rock e nostalgia FM. Quedamos sem o conhecer e sem o ver pelo exagero propositado de bruma em palco, negritude por vezes avermelhada de fim de noite a lembrar velhinhos videoclips dos Foreigner ou ZZ Top, o que não é mau sem ser bom. Resumindo, vamos continuar a ouvir o tal álbum sem qualquer preconceito ou travão, bem melhor opção que outra qualquer aparição a três dimensões de um tal Michael Todd Gordon... sem flash!
A zona ocidental da Porto é, também hoje, uma zona acidental, no sentido complementar da palavra. Pela Rua do Heroísmo fora, e até à estação de Campanhã, vão-se espalhando novas lojas, tendências, projectos e aventuras que acabam em boas surpresas. O concerto do brasileiro Nyron Higor e do amigo e parceiro Batata Boy num desses locais inusitados, num final de tarde de um domingo calorento, é a prova que a cidade, afinal, ainda vibra!
Higor é um jovem que repegou na onda eterna da bossa nova e deu-lhe uma compleição nordestina, carregando ao de leve em algumas correntes electrónicas quase sempre guiadas pelo violão acústico. Transparece um modo muito próprio e calmo de enfrentar as canções de auto-produção, caseira e didáctica, que o álbum de estreia "Fio de Lâmina" (2022) sinalizaria como artesanal, praticamente, instrumental e de ambientes diferenciados.
O tempero chamou a atenção da londrina Far Out Records que já este ano lançou o homónimo segundo disco que Higor andou a apresentar pela Europa com Batata Boy, produtor e multi-instrumentista certificado. Lado lado, num jeito informal de roda de amigos, os dois construíram uma sequência tranquila, quase crua, que cruzou instrumentais antigos e novas canções, tudo bastante suculento e, diríamos, milagroso. Autocarros, bicicletas, trotinetes, turistas distraídos ou cromos da zona, a tudo resistiu esta banda sonora para uma tela vidrada, a tudo se sobrepôs pela sua eficácia, beleza e, como não, fortuna. Que bata, pois, forte o sino da Senhora da Saúde...
(Novembro 2025: video removido a pedido do artista)
O festival vimaranense Manta faz vinte anos em Setembro e a festa já tem programa oficial - dia 12, sexta, sobem ao palco do jardim o duo Hot Air Balloon e o senhor Sérgio Godinho e os seus Assessores, e dia 13, sábado, é a vez de Bia Maria e do brasileiro Rodrigo Amarante, que, assim, regressa ao norte do país ao fim de quase um ano. Acesso gratuito, como sempre!
Mike Oldfield (1993), Metallica (1999), The Beach Boys (2001), Oasis (2002), Patti Smith (2010), Leonard Cohen (2012), Lauryn Hill (2019) ou Sting (2022). Pelo Auditorio de Castrelos de Vigo, situado num complexo ao ar livre de parque arborizado e monumentos, já passaram estes e muitos outros nomes internacionais, mas certo é que nunca lá fomos... A oportunidade que agora se criava com o agendamento, surpreendente, dos The Black Keys por parte do Concello de Vigo para as festas da cidade não deixava margem para dúvidas - a missão, em estreia, teria que ser cumprida, mesmo que à última da hora!
A procura de bilhetes para acesso restrito ao recinto, nesta e noutras ocasiões, têm motivado verdadeiras colasmadrugadoras e, apesar da inscrição online atempada, a sofreguidão informática pareceu-nos resultar em banhada e desilusão. Mas eis que, por milagre da Virgem do Carmo, se confirmou a compra de um, e só um, boleto. Preço: 15€!
O recinto, na hora da chegada, estava já bastante preenchido na bancada granítica que rodeia o palco, espaço de acesso livre, sem necessidade de bilhete ou controle, onde uma concentração assinalável de lancheiras e garrafame se fazia já notar. Perto do palco, os pagantes, onde orgulhosamente nos incluímos, haveriam de preencher sem pressas o terreiro, pouco relvado, até ao momento em que o alcaide local irrompeu palco dentro para reafirmar o orgulho na presença da banda, um verdadeiro achado rockero, dizemos nós, atendendo ao programa sofrível agendado para o verão. Mande sempre Sr. Caballero, e para o ano, já sabe, não se esqueça do Jack White!
Sem aquecimento, que assim ficou mais barato, os The Black Keys também não necessitaram de cortesias prévias. O carburante está há muito tempo (2001!) infiltrado na máquina, apesar de alguns emperros temporários da dupla, e não foi difícil prever a sua perfeita engrenagem - Dan Auerbach assumiu-se como o frontman guitarrista (aquele "Weight of Love"...) e principal vocalista de uma torrente de canções em catadupa, sem direito a mimos ou frescuras, que o rock quer-se sem gelo e de enfiada. Não se perdeu tempo, por isso, com muitas apresentações ou salamaleques aos restantes músicos (4) e nem Patrick Carney, o baterista e produtor parceiro, teve direito a solar como, às tantas, deveria ter acontecido/merecido.
O alinhamento, um pouco mais curto que o habitualmente escolhido na corrente digressão, não desiludiu ninguém, repleto que esteve de uma colecção de hits e preferências dos aficionados, alguns com direito a coro colectivo como, quase logo a abrir, em "Gold on the Ceiling", "Fever", "Tighten Up" ou "Howlin' for You", pedradas agitadoras, ainda hoje, certeiras. Pelo meio, uma dupla de canções novas ("Man on a Mission" e "No Rain, No Flowers" de um disco de originais a sair já em Agosto) e uma versão escorreita e a matar de "On the Road Again" dos Canned Heat, hipnótico com quase sessenta anos! O encore previa-se memorável.
A escolha de "Little Black Submarines", semi-balada acústica que é rematada já em plena electricidade, serviu para que o recinto fosse banhado por luzes móveis e preparou a respiração para o incontornável "Lonely Boy", hino intergeracional de irresistível riff e dança comunitária que um tele-disco icónico haveria de eternizar. Ohhhh, oh, oh, ohhhhhhh, que grande concerto!
No final dos dois primeiros instrumentais, a jovem Lana Gasparotti disse, alto e bom som, ao que vinha - uma viagem cruzada de jazz e electrónica com extensões ao hip-hop e drum'n bass, que um teclado vigoroso haveria de comandar. Autora e compositora com sede em Lagos, mas de ascendência curiosa em Leça da Palmeira e na Croácia, o balanço foi engrossando quer na aceleração, quer na complexidade das peças dançantes, algumas com acrescentos levemente cantados ou sussurrados.
Sentiu-se, pois, bastante segurança do trio, resultante da experiência recente no processo de gravação do disco de estreia "Dimensions" e do qual se seleccionaram as melhores canções. O género, confluente, lembrou, por vezes, os 4Hero de boa cepa e muitos outros irrequietos projectos como os BadBadNotGood, confirmando-se que o actual planeta jazz é mesmo ultra dimensional e surpreendente. Será preciso continuar a dar-lhe a atenção e a partilha merecidas. Gasparotti é só mais um perfeito exemplo desse envolvimento que interessa acarinhar e promover.
As nuances entre o jazz e a nova soul, ou neo-soul, afiguram-se hoje inconsequentes. A programação de um qualquer festival de jazz tem-se, há muito, espraiado a territórios não clássicos de raiz unicamente instrumental, o que sugere uma atenção redobrada na procura de públicos de diferentes gerações e gostos. O evento de Matosinhos não foge à regra, com todos os riscos que essa opção implica. O caso da australiana Allysha Joy é um perfeito exemplo que essas apostas nem sempre servem para valorizar o curriculum e prolongar memórias.
As canções do alinhamento retiraram-se, na maioria, de um álbum chamado "The Making of Silk" editado em 2024, colecção onde não se deslumbra um momento arrebatador ou diferenciador. Foi nessa onda limpa, bem feita, é certo, mas de madorra bordejante que o concerto planou, apesar do tom rouco e sedutor da voz no limite do irritante e dos sons, sempre fantásticos, do Fender Rhodes. Tal como aquando da passagem da amiga Ego Ella May o ano passado, um concerto dito de jazz ao ar livre de final de tarde pode ser até bem tocado e cantado, o que não deverá, e apesar do Joy no nome, é ser de gradação tristonha...
Seis meses depois, o disco "The Purple Bird" de Bonnie "Prince" Billy, que por aqui mereceu quase imediato elogio, continua em acentuada audição e muitas vezes suspiramos só a pensar o que seria ouvi-lo ao vivo!
Pois, sabe-se agora que Will Oldham têm concertos marcados para Portugal em Novembro, com passagens próximas por Penafiel (Ponto C, dia 8, sábado), Braga (GNRation, dia 9, domingo, previsivelmente, ao final da tarde) e descida até Lisboa (Festival Vale Perdido, dia 10, segunda).
Já lá vão dezassete anos desde o Mercedes... e há agora ainda mais pérolas, como as de abaixo, para partilhar. Já fazia falta!
Quando se pergunta qual será o futuro do jazz, talvez a apresentação surpreendente dos corto.alto no coreto matosinhense possa servir como resposta. À harmonia de um saxofone e do seu jogo com o trombone e a bateria, juntou-se muitas vezes um baixo eléctrico profundo, gingão e irresistível, num balanço coadjuvado por samplers e outras electrónicas subtis. Tudo bem feito, intenso e de frescura assinalável tendo em conta a juventude de um projecto que arrisca até reinvenções de canções de Kendrick Lamar!
Ao comando do trio escocês esteve Liam Shortall, o tal "corto alto" castelhano, multi-instrumentista que denota vigorosa e inteligente abordagem artística onde cabem batidas, brincadeiras house e algum experimentalismo. O álbum "Bad With Names" de 2023, que chegou a ser candidato a Mercury Prize no ano seguinte, previa-se ser o eleito para a selecção do alinhamento, mas as escolhas recaíram em algumas das 30 peças numeradas, mesmo que inacabadas e de um conjunto alargado de 108, guardadas na hard-drive durante muito tempo e que foram ultimamente disponibilizadas.
A um próximo disco, que será já editado pela Ninja Tune, editora sempre atenta a estes fenómenos futuristas, não faltará, assim, inspiração e material de calibre vigoroso. Como o do fim de tarde no jardim...
O senhor Wilco Jeff Tweedy gravou um álbum triplo de trinta canções a que deu o nome de "Twilight Override" e com edição prevista pela dBpm Records Inc. em Setembro. A trabalheira foi aprumada no habitual The Loft, estúdio do próprio em Chicago onde também assumiu a produção, mas a mistura final coube ao amigo Tom Schick.
Na aventura colaboram alguns cúmplices repetentes como Liam Kazar, Macie Stewart e os filhos Spencer e Sammy Tweedy, sendo a montanha de canções justificada pelo aproximar de um género de abismo que Jeff assume ter que ser dominado pela insistência no que melhor sabe fazer. No fundo, um alívio e uma claridade ampliada do dia-a-dia de uma vida/história que se quer co(a)ntada.
Há digressão marcada para 2026, com chegada à Europa em Fevereiro, e é Espanha (12 e 13) a primeira contemplada. Espanha é também, bem recordada, num dos quatro temas hoje dados a ouvir. Crepuscular!
Sim. Talvez a sala da Casa da Música seja demasiado grande. Talvez a acústica continue a desmerecer a beleza da arquitectura. Talvez o raio das cadeiras continuem, sem remédio, desconfortáveis. Talvez, para a maioria presente, a comparência seja só (mais) um momento de entretenimento e curiosidade. Talvez os que continuam a sair a meio, como em 2014, irão voltar da próxima vez. A aprendizagem implica erro.
Não. Ir a um concerto de Bill Callahan requer sacrifícios, intuição, calma e muito respeito. Ele até que, em demasia, se fez sentir no silêncio entre canções, no cuidado em não subverter, ui, as regras de captação de imagens, ou no resguardo cauteloso da plateia em não entrar em diálogos com o artista que ele não aprecia confianças (está por testar).
Sim. Do que ali se estava à espera era de ouvir canções. Das melhores que o indie americano se parece ter esquecido de valorizar, mesmo que sem ajudas de outros músicos, já que, na apresentação self-made, Callahan tratou de usar os pés para fazer soar um bombo e uns pratos, auxiliares subtis que, mesmo assim, arranharam qb a sofrível propagação sonora do espaço. "Coyote", "Say Valley Maker", "Natural Information" ou "Too Many Birds", logo a seguir a um dos poucos pedidos do público, deveriam motivar candidatura a património imaterial, o que obrigaria a um anexo especial só para "Let's Move to the Country", o único encore escolhido e a que faltaria juntar o monumental e esquecido "Dress Sexy At My Funeral".
Não. Desistir não nos assiste. Sozinho, acompanhado, na imensidão de um relvado, no conforto de uma boa sala, no jardim lá de casa (isso é que era...), será sempre um pecado ficar sentado no sofá logo que o homem, agora pai, nos faz a cortesia de uma visita de estado, de estado de alma. A de sexta-feira foi, uma vez mais, mater!
A dupla inabalável Karen e Don Peris, junta vai fazer quarenta anos sob o nome de The Innocence Mission e depois de ter anunciado o regresso aos concertos ao vivo em Setembro próximo, lançou a semana a passada um EP de sete temas, todos tocados e cantados a expensas próprias.
Trata-se de "The Raindrop Cars", anunciado como um parceiro valioso do álbum "Midwinter Swimmers" de 2024, juntando-lhe cinco novas canções e três variações de temas aí contidos provenientes de sessões radiofónicas e gravações demo. Mais umas gotinhas de ternura para acrescentar a tantas outras...
Depois da visita de 2023, o regresso de Amaro Freitas a Matosinhos foi triunfante. Sem contemplações, como parece ser hábito do artista, os primeiros vinte minutos quase que valeriam, por si só, para fazer levantar uma qualquer plateia sentada de auditório no seu contínuo e ritmado balanço, calibre de acento sambista e quase funk que obrigava à dança. A magistral torrente só teria fim com o maravilhoso "Baquaqua", já perante forte ovação.
Cumprindo a inspiração amazónica do último álbum "YY" que veio apresentar, passou-se, então, a uma fase de longo relaxamento, em que uma série de instrumentos ancestrais se cruzaram com o piano num jogo de serpenteado crescente que, aos poucos, se transformou numa suite vincada de sons e batidas. A subtileza do trio instrumentista evidenciou-se, então, na sua plenitude jazzística. Cintilante!
Antes do final, haveria tempo para partilha e conexão com o muito público presente a partir de "Gloriosa", tema que Freitas dedicou à mãe, ali transformado em celebração colectiva e de aconchego a um artista cada vez mais aclamado e da família. Percebeu-se, sem truques, porquê!
O muito cá de casa Jonathan Jeremiah prepara a sexta insistência em disco de uma pop inteligente e cuidada que só a Europa central parece acolher de braços abertos. Trata-se de "We Come Alive", com data de saída apontada para Novembro pela PIAS alemã, e segue-se a "Horsepower For The Streets" de 2022, mais uma enérgica maravilha a que ninguém ligou nenhuma!
O experiente compositor inglês assume alguma ousadia e renovada riqueza orquestral registadas em estúdio de Somerset, mas com acertos em Amesterdão, cidade que Jeremiah adoptou como a principal da sua actividade artística. A primeira prova - "Kolkata Bear" - não engana na potencialidade...
No já icónico coreto, coube a Mansur Brown abrir a edição deste ano do Matosinhos em Jazz, um género de reciclagem anual do novo jazz que tem tido neste festival ao ar livre uma referência de incomparável pertinência. A presença do jovem guitarrista londrino e dos parceiros foi só mais uma prova desse afortunado refinamento.
Tal como na versão nocturna do ano passado, a guitarrada serviu-se flutuante na variação eléctrica e semi-acústica que tanto provoca movimentos espontâneos de air guitar como trips imaginárias por cima das árvores. Do alinhamento não foram notados novos instrumentais, os que farão parte do novo álbum "Rhila" previsto para Agosto, mas foi proporcionada uma viagem seleccionada por uma sonoridade única no panorama do jazz moderno. Um exagero, dirão uns, muito datado, dirão outros. Pura diversão, dizemos nós!
Aquando da notícia sobre "Strawberries", o novo álbum de Robert Forster gravado, afinal, na Suécia com uma banda de apoio, ficamos a suspirar por mais que, na altura, o tema título disponível fazia adivinhar numa crescente adição. Ouvido e ouvido nas últimas semanas, o disco transparece numa ingenuidade e beleza que só Forster sabe fazer e que advêm de uma série de reviravoltas de uma vida intensa e invulgar.
Há no conjunto de oito temas um que talvez seja o perfeito exemplo dessa capacidade em continuar a estremecer a vulgaridade - chama-se "Such a Shame", imagina-se biográfico e absorve-se na sua perfeição pop sem que sejam precisas imagens ou filmes em movimento. Basta a letra, a história, a voz, a melodia, os instrumentos.
"No one I've meet has seen me yet at my best. No." atira-nos ele no fim.
Esta canção está lá tão perto... e não é pena nenhuma.
O misterioso trio Blonde Redhead, que nos visitou ao vivo há cerca de um ano, é uma caixinha de surpresas. A última, com poucos dias, é um disquinho chamado "The Shadow of the Guest" com quatro versões de canções clássicas do seu reportório - "Before”, “Via Savona", “Coda” e “Rest of Her Life” - ao lado do Brooklyn Youth Chorus de Nova Iorque! Um hábito, por isso, salutar e que não é coro...
Somam-se uma série de três reinterpretações ASMR (seja lá o que isso for) de temas originalmente compostos para a designer de moda parisiense Isabel Marant e ainda "Oda a Coda", que não é mais que "For The Damaged Coda" em versão mariachi, tema dos próprios Kazu Makino e gémeos Amedeo e Simone Pace imortalizada, em 2000, na série televisiva "Rick and Morty". Lá para Outubro está prometida a edição em vinil especial através da Record Store Day.
A expectativa quanto à estreia dos BadBadNotGood em Braga, confessamos, não era muito alta, já que o lugar de pouca visibilidade de uma das galerias inferiores que nos calhou retirava, à partida, algum do entusiasmo que a banda de Toronto desde sempre nos despertou. Não contávamos é que, mesmo noutro lugar sentado privilegiado, também seria pouca a percepção do sexteto em palco devido à inexistência de iluminação dirigida, substituída pelos simples reflexos de filmes de 10 mm projectados do fundo da sala!
As imagens, sedutoras e da responsabilidade do conterrâneo Sylvain Chaussee, também não eram a componente mais importante e, mesmo na escuridão, a validade instrumental desta máquina canadiana confirmou-se uma potência.
Talvez a onda tropical light do magnífico álbum "Mid Spiral" se adapte de imediato a qualquer que seja o recinto soalheiro ao ar livre, como, certamente, na véspera se viveu em Lisboa, mas o trio fundador comandado pelo baterista Alexander Sowinski agarrou-se a mais três parceiros para se ajustar às circunstâncias de uma plateia sentada pronta para responder a desafios. Foi assim, desde logo, na irresistível "Sétima Regra" devidamente "abanada" fora das cadeiras, estendida ao limite na sua perfeição agitadora (um sete polegadas de vinil deste tema torna-se urgente). Contudo, ainda estamos para perceber aqueles posteriores dez minutos de saxofone a solo com fundo de mar e do prévio exercício de respiração colectiva!
O serão serviu também para homenagens a mitos inspiradores recentemente falecidos com versões de "Family Affair" de Sly Stone e de, já no encore, "Everybody Loves de Sunshine" de Roy Ayers, demonstrando-se a capacidade da banda em reinventar o jazz num género múltiplo e viajante que não receia arriscar parcerias e colaborações - faltou, por isso, a pérola "Poeira Cósmica" onde se faz ouvir Tim Bernardes, mas teria sido bom que, pelo menos, o instrumental tivesse sido eleito (pronto, estão desculpados, já que a canção estava prensada em rodela pequena de vinil à venda no átrio... maravilha!).
Apesar da legitimidade da experiência e da sua efectiva recompensa, ficamos agora à espera de um regresso a um qualquer festival nortenho em dia de sol, o que nunca até hoje aconteceu, por exemplo, à cidade do Porto, uma estranha lacuna atendendo a que os BadBadNotGood já cá andam a fazer a festa há mais de quinze anos. Talvez, com sorte, numa próxima primavera...
Cass McCombs parece ter sido assaltado por um regresso ao passado como projecto moderno para um novo álbum: "Interior Live Oak", assim se chama, terá edição pela Domino Records, casa onde registou os cinco trabalhos antes da mudança para a americana Anti Records em 2016, e contempla a reunião com um grupo de colaboradores activos da editora inglesa como Matt Sweeney, Mike Bones, Chris Cohen e Jason Quever dos Papercuts, amigo com quem registou uma série de temas em 1999/2000 reunidos no disco arqueológico do ano passado "Seed Cake on Leap Year".
As novas canções sofreram inspiração e aperfeiçoamento na Bay Area de São Francisco, mas obtiveram versão final em estúdio nova-iorquino ao lado de alguns dos referidos parceiros, estando já permitido o teste a duas das dezasseis escolhas - "Peace" e a já aditiva "Priestess" apresentada na sessão Tiny Desk do mês de Março. Cass McCombs terá em Paredes de Coura, entre carvalhos, a primeira das poucas datas previstas ao vivo pela Europa (13 de Agosto)...
Eram dias da semana agarrados à rádio esses dos anos oitenta, especialmente à Rádio Comercial em modo contínuo - manhãs a cargo do Jorge Pego e a pop do "TNT - Todos no Top", pequena pausa para almoço e, logo depois, já o vozeirão de Adelino Gonçalves se fazia a ouvir obrigatoriamente na apresentação de bandas e artistas a justificar o nome, simples, do programa: "Discoteca".
A selecção musical, desprezada por muitos que tinham já na militância do "Som da Frente" da mesma rádio um pavilhão auditivo mono segmentado, sempre nos fascinou pela surpresa das sonoridades, nem todas, é certo, de irredutível qualidade, mas todas de pertinência activa em tempos em que a soul ou o funk anglo-saxónicos sugeriam estar perdidos. Ainda hoje não dispensamos os Ashford & Simpson, os Shalamar, os reinventados Kool & The Gang e Aretha Franklin ou os incontornáveis Imagination, uma verdadeira imagem de marca do programa. Todos nunca perfeitos, impossível, mas de que aprendemos a ouvir e a gostar. Obrigado por isso, Adelino Gonçalves. Paz!