quinta-feira, 20 de novembro de 2025

EZRA COLLECTIVE, NATAL FOFINHO!















O colectivo londrino Ezra Collective decidiu que a proximidade do Natal merecia alguma ternura de sonoridade jazz que a envolvesse de alegria e fofura, escolhendo-se dois clássicos ingleses setecentistas ("Joy To the World" e "Hark! The Herald Angels Sing") para amaciar os excessos indesejados. 

A proposta imita um versão de "God Rest Ye Merry Gentlemen", tradicional de estação também britânico que a banda lançou o ano passado, naquilo que agora se começa a assumir como uma salutar tradição. Só falta a rodelinha de vinil...



terça-feira, 18 de novembro de 2025

RUFUS WAINWRIGHT, REINVENÇÃO WEILL!





















Em Março, a nossa RTP2 fez o favor de emitir o espectáulo de Rufus Wainwright com a Pacific Jazz Orchestra, momento ao vivo de homenagem e vénia a Kurt Weill repetido em Nova Iorque e Los Angeles. Faltava juntar um disco que o eternizasse na reinvenção. 

Pois bem, chama-se "I'm A Stranger Here Myself: Wainwright Does Weill - Rufus Wainwright with the Pacific Jazz Orchestra", e promete ser um tributo de um fã fervoroso e fascinado pela envolvência de um songbook intemporal que foi, ele próprio, uma das principais influências da composição que Wainwright imprimiu, desde muito novo, à sua carreira. Ainda por cima, tudo muito natalício! 


sábado, 15 de novembro de 2025

LAURIE ANDERSON & SEXMOB, Teatro Rivoli, Porto, 13 de Novembro de 2025

                         Fotografia: facebook do Teatro Municipal do Porto

















Deu muitas voltas o nosso mundo desde a última vez que Laurie Anderson se apresentou no Porto. Foram dois anos seguidos de perfomances a solo no velhinho Teatro de Sâo João (2005) e na, então, novinha Casa da Música (2006), lanças vanguardistas em torno da palavra e da comunicação. Sempre acutilantes, sempre tensionais, sempre, diríamos, necessárias. 

Vinte anos depois, e na companhia inédita da banda nova-iorquina SexMob, Anderson trouxe à cidade "X²", um (des)concerto que, não sendo só musical, também não foi só comunicacional. A hibridez aportada para a sala envolveu-se de imagens e luzes, de sons e crescendos jazzísticos em que o violino, o seu e mais dois, assumiram a centralina de alguma electrónica e demasiada, impertinente, percussão que chegou ao segundo balcão em modo quadrado, chapado, confirmando as deficiências acústicas de um teatro que não gosta nada de concertos rock ou outros... 

Foi pena, por isso, que pérolas como "Big Science" ou "Language is Virus", escolhidos logo na primeira meia-hora para reafirmar a actualidade da mensagem, não tenham despertado grande entusiasmo, como que encolhidas e despercebidas numa amálgama multimédia e instrumental excessivas. Valeram, como sempre, as vozes, as histórias, os acentos que Anderson escolheu para contar, narrativas de frisado ora político, em que o seu presidente foi o alvo-mor, ora biográfico, com destaque para Dylan e o seu Lou Reed. 

Surpreendente o capítulo dedicado ao pai, vida de um muito jovem emigrante da Suécia que a IA fez o favor de revolver e reinventar em imagens a preto e branco saborosas, engraçadas e despertadoras de alguma da maçada em que o serão, perigosamente, parecia ir patinar. Como que por magia, a noite ganhou novas asas para voar bem melhor até ao fim, um género de segunda-parte sem direito a intervalo em que a delicadeza, a cambiante visual e até o tai chi colectivo praticado sem constrangimento funcionaram, efectivamente, como um alívio compensador. 

Uma noite demasiado longa, a precisar de maior e mais pertinente restrição, confirmando, no nosso entender, que a magia única que Laurie Anderson emana se afigura ainda suficiente para brilhar sem necessidade de uma qualquer coadjuvação. A grande ciência faz-se sozinha...

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

MICAH P. HINSON, O HOMEM DO AMANHÃ!





















A connessione italiana de Micah P. Hinson, iniciada em 2022 com "I Lie to You", estende-se agora a "The Tomorrow Man", disco que conta, novamente, com a parceria de Alessandro Asso Stefana, produtor e também compositor de novas canções escritas entre o Texas e Espanha. Hinson assume que há muito as procurava e encontrou-as, pela primeira vez, no tempo presente e não no passado. 

Para trás sugere ter ficado a longínqua onda folk-rock de veia trágica que, ao vivo, era (é?) pura diversão, sobreposta que foi agora por sedutoras orquestrações e alguma melancolia de novo crooner que lhe assenta muito bem. 

Ao álbum, saído no final de Outubro na casa Ponderosa Music Records de Milão, só faltará acrescentar o teste de um concerto para a prova definitiva. Talvez ao piano, como em Cerveira no verão de 2024...



quinta-feira, 13 de novembro de 2025

ONEOHTRIX POINT NEVER, Theatro Circo, Braga, 9 de Novembro de 2025

                                             Fotografia: facebook do Thetaro Circo
















Já lá vai um quarteirão de anos quando no já demolido Cinema Terço do Porto se assistiu à estreia dos Thievery Corporation na Invicta. Na nossa inocência, saímos da sala desanimados com a prestação, melhor, a atitude da dupla norte-americana: atrás de uma vistosa mesa de aparelhagens, Garza e Hilton, sorridentes, divertiram-se em conversas, ginga-gingas e umas passas em cigarros, deixando a música pré-gravada correr sem pejo enquanto uma cantora e outros figurões na frente de palco faziam um papelão dispensável. Ficamos vacinados. 

Comparecer, por isso, a um dito concerto de Daniel Lopatin aka Oneohtrix Point Never em sala grande, distinta e nobre como a de Braga será um eufemismo que os tempos performativos foram diluindo. O género de música sintetizada que o artista tem desenvolvido nos últimos quinze anos aproxima-o a um condão efectivo de bom gosto e transcendência que tem alimentado bandas-bonoras de acutilância e mistério, capacidades que outros inovadores como Anohni, David Byrne, James Blake ou o saudoso Ryuichi Sakamoto não dispensaram para fazer abrir novos caminnhos sonoros. 

O motivo da, dita assim, perfomance chama-se "Tranquilizer", um novo álbum a sair para semana na Warp Records, e o serão do Domingo serviu com uma refinada e antecipada listening party colectiva da totalidade das quinze peças, a que se juntou uma notável imersão visual da responsabilidade de Freeka Tet, entremeada por fumarolas e strobes que nos pareceram de exagero desnecessário, talvez porque já não estamos há muito habituados a isto das noitadas e das batidas... 

O disco e os videos, contudo, são de justa e, sem esforço, recomendada fruição.



 

PULP DE SECRETÁRIA!

terça-feira, 11 de novembro de 2025

BONNIE PRINCE BILLY, GNRation, Braga, 9 de Novembro de 2025

São muitas e boas as memórias de concertos de Will Oldham aka Bonnie Prince Billy. Serão imbatíveis, contudo, as que se aclaram saídas do granito do saudoso bar Mercedes da Ribeiro portuense em 2008, bem diferentes de uma anterior e mais atribudada passagem pelo Theatro Circo minhoto. Estava, pois, na hora certa para a insistência ao vivo num, há muito, mítico trovador americano que faz da música a única e virtuosa forma de vida - "I want to make music all the time / Not just in fits and skirmishes / I wanna be wholly consumed in rhyme / And bend my whole to her wishes", faria ele o favor de recordar em "Behold! Be Held!". 

O cancioneiro é, assim, de uma vastidão infindável, mas o motivo principal residia no novo, de meses, "The Purple Bird", mais um disco de consistência e validade assinalável que se arriscou passar para cima do palco de forma surpreendente - sem qualquer percussão, as canções como que se ondularam, eruditas, numa intimidade e simbiose de perfeição tocante ou não fosse Eamon O’Leary no bouzouki, Thomas Deakin na guitarra eléctrica e clarinete e o, literalmente, grande Jacob Duncan na flauta e saxofone, um trio de astuta e rara cumplicidade. Tamanha elevação, mesmo com alguns atropelos irrelevantes nos acordes, teve na caixa negra do último piso do antigo quartel bracarense um reduto de resguardo e conforto a uma audiência esgotado de devotos silenciosos, apreço de requisito bendito em tempos de banalização lesiva do ruído. 

No seu trejeito engraçado (aquele equilíbrio em pé de galo continua intratável), Oldham mostrou-se empenhado e certeiro na abordagem a um reportório de veia na americana de raiz folk, em que a liberdade e a camaradagem continuam a ser a seiva de uma composição peculiar e em contínuo batimento. Respirou-se, por isso, tanto em palco como na plateia, um amor verdadeiro pela boa música, daquela que há décadas o mestre Billy não se cansa, sem poluentes, de produzir milagrosamente. Uma lenda viva, viva a lenda! 

BILL CALLAHAN, TEMOS HOMEM!





















Uma reedição de uma sessão clássica, um disco ao vivo, uma digressão que circulou por perto, um álbum de originais. A sequência que Bill Callahan traçou não falha e para 27 de Fevereiro de 2026 está agendado o desfecho programado, dia em que "My Days of 58" se fará iluminar por exclusiva culpa. 

A contenda, a oitava em nome próprio, parece continuar um trilho experimental que "Reality" de 2022 desbravou, um género de registo sitiado numa sala de estúdio onde os erros e as surpresas continuam a acontecer. Um milagre é o que é, que só ele e os parceiros sabem fazer e que, neste caso, têm nome - Matt Kinsey, guitarrista, Dustin Laurenzi, saxofonista e Jim White, baterista. 

Depois de umas poucas amolgadelas e muitos cruzamentos instrumentais, o resultado afigura-se enérgico, de profundeza desconhecida como convêm, mas de uma espontaneidade bravia que crescerá naturalmente. Ouça-se "The Man I'm Supposed To Be"... temos homem!

terça-feira, 4 de novembro de 2025

FAZ HOJE (31) ANOS #112

 





















CHIEFTAINS & JÚLIO PEREIRA, Coliseu do Porto, 4 de Novembro de 1994
 
. Diário de Notícias, por Miguel Carvalho, fotografia de Orlando Teixeira, 6 de Novembro, p. ?
. Público, por Fernando Magalhães, fotografia de Paulo Pimenta, 6 de Novembro, p. 38

KEATON HENSON, O PONDERADO!





















Na sua habitual suavidade, a carreira artística de Keaton Henson sugere ser um percurso que se alimenta num temperamento de imprevisibilidade assumida. A calmaria dos últimos discos, a sua serenidade, tem agora abanão previsto com "Parade", álbum, como sempre, de embrulho e desenho do próprio em variadas edições e versões limitadas. 

As novas canções quase nos fazem regressar a tempos do grunge, uma marca que na sua juventude se impregnou sem direito a dissolvente de nódoas, que isto das raízes não permite cortes profundos. A vontade com que gravou o disco é só sinónimo de uma sinceridade aberta a memórias e facetas antigas que não se escondem, não se apagam e que, na sua impetuosidade, ajudam a moldar uma evidência - temos homem confiante. 

Curiosa a estratégia aplicada - a cada novo single têm-se seguido uma versão acústica caseira, talvez lembrando os fãs que a delicadeza continua activa, mesmo assim, validada por um desses novos temas de nome "Past It". Outras pérolas, como "Lazy Magician", tema que conta com a ajuda de Julia Steiner, são só mais contrapesos de um balanço ponderado. 





UAUU #749

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

JO ALICE + HAMILTON LEITHAUSER, M.Ou.Co., Porto, 31 de Outubro de 2025

A virtude da primeira parte de um qualquer concerto deverá ser a de descontrair e preparar a plateia, seja lá o que isso for. Por vezes, o momento torna-se dispensável e, por isso, desnecessário. Outras vezes, a pertinência e desafio dessa antecipação a um nome ou banda maior redunda numa chance envolvente. Que agradável surpresa!, alguém gritou pouco depois de Jo Alice tocar dois dos oito temas com que se deu a conhecer no Porto. Nem mais, a Angel Olsen que se cuide.

Do nada, a noite ganhou memória de densidão assinalável, muito à custa de um vozeirão enleado a uma guitarra com tanto de roufenho como de negra delicadeza e agarrada, nalguns casos, às batidas de Stephen Patterson, ele próprio baterista de Leithauser. Sabemos agora da sua cumplicidade na gravação e apuramento das primeiras canções de uma jovem artista de nacionalidade portuguesa e vivência algarvia, mas que se move entre a Irlanda, França ou o Texas americano. Escolheu, também por isso, algumas pérolas pertencente a outros para se dar a ouvir (identificamos os The Last Shadow Puppets ou o Jacques Brel), como essa monumental "Magnolia" que o grande JJ Cale escreveu em 1971 e que, ali, se confirmaria como um dos melhores momentos de um serão ainda madrugador. Grande Alice na cidade das maravilhas. 

 

Com excepção de um Primavera Sound com oito anos e um Paredes de Coura com onze, esta era a estreia a sério de Hamilton Leithauser no Porto e teve merecida casa esgotada por fãs de fidelidade antiga. Logo agora que o vocalista dos The Walkmen pôs cá fora, há uns meses, "This Side of the Island", um quarto disco de originais de nove canções certeiras e robustas, notou-se que o álbum está já mais que absorvido e aprovado, tendo sido ele o fio condutor de um alinhamento a apelar à compartilha e proximidade em que o tema-título e "What Do I Think?" bateram todos os outros por décimas. 

Os atributos da banda, mesmo que nem sempre alinhados, estenderam-se a memórias mais antigas de validade confirmada e frescura renovada - "A 1000 Times", "In a Black Out" ou "Peaceful Morning" foram exemplos perfeitos dessa consistência a que se esperava a adição de um obrigatório "Alexandra" que, afinal, foi inexplicavelmente preterido. Em noite de bruxas e numa imaginária contenda entre doçuras e travessuras, os sustos perderam por larga margem para uma variedade de guloseimas coloridas de sabor duradoiro e de receita Leithauser há muito patenteada. A tradição não engana e, por isso, este continua um artista que interessa acarinhar e proteger de uma América ainda salutar e diversa. Longaevitas...

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

FAZ HOJE (25) ANOS #111





















PJ HARVEY, Teatro Rivoli, Porto, 30 de Outubro de 2000 
. O Comércio do Porto, por Miguel Soares, fotografia de Ricardo Meireles, 1 de Novembro de 2000, p. 25 
. Jornal de Notícias, por Sérgio Almeida, fotografia de Pedro Correia, 1 de Novembro de 2000, p. 42 
. O Primeiro de Janeiro, por Nuno N. Santos, fotografia de Tiago André, 1 de Novembro de 2000, p. 17

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

HANNAH FRANCES, MUCHO FLOP!





















O festival Mucho Flow, em Guimarães, que se realiza esta semana, tinha há muito no seu alinhamento o nome fantástico de Hannah Frances, uma repetida tendência na estreia de novos nomes da folk alternativa em que o evento têm, e bem, insistido. Fez-se o cartaz, o de cima, a cantora marcava para quinta-feira, dia 30, a aparição na cidade berço nas suas redes sociais e divulgação promocional, mas o muito esperado concerto... evaparou-se! 

Sem explicações ou avisos de ambas as partes, parece que vamos ter que aguardar uma outra oportunidade para a ouvir de bom grado, tendo em conta a qualidade do produto auditivo que têm no álbum "Nasted in Tangles", saído há poucos dias, uma experiência de verdadeiro prazer. 

Sem alterações aparentes, recomenda-se, ainda assim, a presença dos These New Puritans no sábado, dia 1 de Novembro, no palco do Centro Cultural Vila Flor. Sem flops, espera-se!


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

JESCA HOOP, MEMÓRIA ACÚSTICA!





















O quarto álbum "Memories Are Now" de Jesca Hoop, saído em 2017, conhece agora uma reinvenção acústica concretizada com a ajuda de Chloe Foy e de Rachel Rimmer na casa da artista em Manchester. Depois, o resultado foi devidamente misturado e produzido no 105 Studio da mesma cidade por Tom Piper com a ajuda da própria. 

Temos, assim, em "Selective Memory" nove pedacinhos de cumplicidade prolongada onde se mergulha nos videos disponíveis a preto e branco mate, mas de onde se sai em brilhante colorido...



quinta-feira, 16 de outubro de 2025

DUETOS IMPROVÁVEIS #308

JOAN SHELLEY & DOUG PAISLEY 
Heaven Knows (Shelley) 
Álbum "Real Warmth", No Quarter Records, 
E.U.A., Setembro de 2025

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

THE MAGNETIC FIELDS, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, 8 e 9 de Outubro de 2025

Em 2000 não haveria amigo da música que não falasse de "69 Love Songs" dos The Magnetic Fields. O disco era como se fosse o único da banda de Nova Iorque, apesar da meia dúzia de álbuns já então editados, mas o volume quadrado de caixa plástica onde cabiam três patelas magnéticas haveria de rodar entre mãos em versões pirateadas, pedidos de empréstimo perigosos e muito boa imprensa rendida aos méritos de Stephin Merritt. 

Havia razões lógicas para o fenómeno, logo listado numa catrefada de escolhas como "essencial", embora fossem poucos os que conseguiam estar perto de três horas seguidas a tentar perceber o conceptualismo da façanha amorosa, melhor, da odisseia sobre canções ditas amorosas. Também lhe rendemos, nessa época, variadas e prolongadas escutas, sempre no pressuposto que o mini-disc ou o leitor do primeiro carro, assim equipado, tinha a funcionar a tecla de avançar e recuar. Um género de repositório aleatório da canção pop para o qual nem sempre havia paciência ou paladar auditivo e que, como em tudo, tinha partes e sequências preferidas, desprezos assumidos e descobertas contínuas. Retomar, vinte cinco anos depois, os caminhos dessas primazias afigurava-se estranho se bem que de irresistibilidade imediata, apesar da incerteza quanto ao anacronismo da maratona proposta. 

Fica desde já registado que o exercício correu bem. O marco artístico, então elogiado, mantêm-se sem prazo de validade conhecido ou qualquer risco de azedar, muito por culpa de uma competência instrumental e vocal sem equívocos, reparos ou ondulações, permitindo à plateia concentrar-se nas canções, nas suas nuances e, principalmente, no non-sense e sátira de muitas das letras envoltas de géneros e feitios sonoros contrastantes onde a subtileza é trave-mestra. O voz a la Cash de Merritt continua marcante, posicional e inimitável, mas será de elogiar ainda a clareza de Shirley Simms e do guitarrista (nome?), que lá de trás, se levantou para terminar da melhor maneira a primeira noite com um enorme "Promises of Eternity". 

Muita aplaudidas foram também "Papa Was a Rodeo", "Long-Forgotten Fairytale", "The Death of Ferdinand de Saussure", a derradeira "Zebra" ou essa estranha pérola chamada "Love Is Like Jazz" que, se no disco já é viciante e suspensiva, ao vivo avolumou-se num pedaço de refinado e inesquecível vaudeville. 

Sem piedade, confessada fica a nota que foi esta a primeira vez que ouvimos o disco completo sem descontinuidades, e nem mesmo uma interrupção de vinte e quatro horas nos fez ir buscar o volume ao armário dos cd's para avivar memórias e preparar os ouvidos. A setlist, a cumprir religiosamente, era só um pormenor de um grande e imprescindível concerto. Em 2050 esperamos retomar-lhe o gosto. Por essa altura, já uma tela virtual ou outra qualquer liquidez nos fará recordar "All In: A Broadway Comedy About Love", uma peça de teatro inspirada na trilogia de cantos, então cinquentenária, estreada em Dezembro último...

FAZ HOJE (36) ANOS #110

 



















10 000 MANIACS, Pavilhão Infante Sagres, Porto, 13 de Outubro de 1989
 
. O Primeiro de Janeiro, por Nuno Moura Brás, 15 de Outubro de 1989, p.?
. Jornal de Notícias, por Hélder Bastos, 18 de Outubro de 1989, p.?

terça-feira, 7 de outubro de 2025

DANIEL KNOX, MERCADO 48 É NOME DE DISCO!





















Foram já várias as passagens de Daniel Knox pela loja Mercado 48 (Rua da Conceição, Porto) para, sentado ao piano, apresentar muitas das canções de uma carreira já longa. Entre elas, algumas inéditas e prometidas para álbuns futuros inspirados e polidos na residência de longa duração que escolheu fazer no Porto. 

Um desses projectos têm agora concretização assegurada e reporta duas madrugadas de gravação ao piano da mesma loja, apurada com engenharia sonora a cargo de Greg Norman. Depois, as canções foram tratadas devidamente no Jamdek Recording Studio de Chicago com a ajuda de vários músicos amigos e com a adição de vozes de João Freitas no Estúdio Cedofeita do Porto. 

A cidade serviu, pois, como cenário e roteiro comprovados em "Alligator", o primeiro single de que o próprio conta as circunstâncias em tradução livre (The Line of Best Fit): 

"Passei muito tempo num café chamado Asa de Mosca. Há por lá muita gente interessante. Um tipo entra e tenta vender-me coisas que roubou. Eu costumo comprar. Ele vendeu-me um pequeno elefante de madeira, um leque em formato de macaco e, uma vez, tentou vender-me o que chamou de computador, que na verdade era só uma espécie de ecrã sensível ao toque que ele claramente tinha arrancado da parede em algum sítio. O meu cabelo comprido e a minha barba atraem muitos olhares, mas gosto de vir a este café porque, em qualquer das noites, sou apenas a terceira pessoa mais estranha." 

Acrescenta: 

"Às vezes, fico aqui sentado a ler ou a trabalhar, mas a minha mente levanta-se e anda sem mim. Ela começa a andar a três ou quatro quarteirões de distância, senta-se sozinha noutro café, atravessa a rua e volta para me observar da janela. Depois de morar aqui por alguns anos, às vezes tenho esses momentos de perspectiva em que consigo ver-me fora de mim mesmo; como se eu fosse apenas aqui mais um desses personagens. Há aquela coisa que se enfrenta nessa idade em que ainda se quer ser o personagem de algum romance antigo, mas aí estou sentado no sofá a assistir aos novos discos 4K de "Alligator" e "Alligator II" e tens que conciliar isso com quem tu és e com queres vir a ser.". 

O video de "Alligator", dirigido por Manuel Sá, foi, por isso, rodado em ruas e locais que bem conhecemos de Campanhã ou do Bonfim, mas a protagonista chama-se Flor, um milagre de ternura decana. "Mercado 48" sairá no início de Dezembro em casa própria em vários formatos já em pré-encomenda. Prometida está a apresentação ao vivo no sítio do costume e partilha...

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

MICHELLE DAVID & THE TRUE-TONES, Auditório de Espinho, 28 de Setembro de 2025

Uma crítica com três anos a um disco novo de Michelle David & True-tones acabava com um chavão mais que verdadeiro - se você gosta do som de Sharon Jones, vai adorar este! De facto, não são só estas as semelhanças, já que David é também norte-americana e dona de um vozeirão que, desde criança, se envolveu no gospel e na soul de forma notável. Em palco, não será coincidência, a mesma aversão a sapatos que incomodam na perfomance. 

Como manda a sapatilha, aquando da entrada em palco da cantora já o trio instrumental The True-tones tinha ligado a maquinaria groove, mantendo-a perfeitamente oleada até ao fim, escolhendo momentos a solo do baterista e, em particular, do guitarrista, para polir e acelerar a rotação. A energia haveria de fazer levantar a plateia das cadeiras, mas o convite para ocupação da frente ou laterais, ao contrário de um mítico concerto de Sharon Jones na Casa da Música, não obteve qualquer adesão. 

O revivalismo soul fez-se, mesmo assim, na plenitude da sua saliência dançante, uma vibração sem data de validade desde que produzida com autêntica e divertida essência, o que, lá está, estes três true.tones e a uma mestra-cantora sabem fazer sem falhas. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

LEE FIELDS A BOM CAMINHO!





















Passaram quase cinco anos sobre uma suposta peregrinação a Santiago de Compostela para pagar uma promessa a São Lee Fields. Entretanto, um tal de Covid 19 começou a fazer das suas e lá tivemos que esperar até ao verão courense de 2023 para lhe fazer a devida vénia, apesar da brevidade da aparição. 

Num género de repetição inverosímil, alinha-se para Janeiro uma intensa digressão do soulman norte-americano por Espanha e não é que há concerto marcada para Santiago de Compostela para dia 25, domingo? Bilhetes só na segunda feira. Grazas!   

FAZ HOJE (24) ANOS #109

 




















DAVID SYLVIAN, Coliseu do Porto, 25 de Setembro de 2001 
. Jornal de Notícias, por Miguel Graça, fotografia de José António Domingues, 26 de Setembro de 2001, p. 43 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

JOAN SHELLEY, VERDADEIRO TESOURO!





















Ao pequeno disco de ternura dedicada à filha saído o ano passado, Joan Shelley acrescenta agora, em pleno, um álbum de canções, o sétimo, gravado em Toronto com a ajuda do amigo Ben Whiteley (The Weather Station). Não admira, por isso, que entre os treze originais, para além do marido Nathan Salsburg, se note a presença de Tamara Lindenman ou Doug Paisley. 

Em "Real Warmth", que a No Quarter editou na última semana, há pois novos ares, longe do Kentucky natal e de uma certa ruralidade country, mas, ouvindo o disco, a magia que Shelley aporta à composição soa como que se tivesse agitado numa nova poção perfumada de bom gosto. Há muito que lhe exaltamos o estilo, que a temos por indispensável, é tempo agora de a abraçar como um verdadeiro tesouro! 



FAZ HOJE (27) ANOS #108



















LOU REED, Praça Sony, Expo 98, Lisboa, 23 de Setembro de 1998
 
. Público, por Fernando Magalhães, fotografia de Bruno Rascão, 25 de Setembro de 1998, p. 39

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

UAUU #748

MIDLAKE, PONTE DA HARMONIA!





















Os texanos Midlake, nestas andanças das canções há vinte cinco anos, registaram mais um álbum de boa cepa, como transparece da dupla de inéditos já em audição. O disco, apurado no estúdio de Denton, foi produzido pelo grande Sam Evian, que toca também saxofone tenor e acrescenta vozes ao lado de Hannah Cohen e Meg Lui. Entre os originais, conta-se um dueto de Eric Pulido com Madison Cunningham no tema "Guardians", e outras pérolas de harmonia folk-rock como "Days Gone By" são de sedução imediata. 

O sexto álbum, de nome "A Bridge to Far", sairá a 7 de Novembro pela Bella Union e segue-se, quatro anos depois, a "For the Sake of Bethel Woods", contando com digressão inglesa e pela Europa continental já no final de Janeiro de 2026.


 

Entretanto, e a propósito da morte de Ozzy Ousbourne em Julho passado, a banda fez questão de recordar a versão "Am I Going Insane" dos Black Sabbath que integrou a compilação "Late Night Tales", sonoridade que influenciou, decisivamente, o embalo da obra prima "The Courage of Others" de 2011. Outra recente versão, inesperada e acústica, de "I Shall Be Released" de Bob Dylan dá sinais, que um dia qualquer, um disco de covers até que seria bem bom...


quarta-feira, 10 de setembro de 2025

3x20 SETEMBRO

SESSA, VALE A PENA!





















A terceira insistência de Sérgio Sayeg aka Sessa, brasileiro com estadias prolongadas por Los Angeles, chega em Novembro pela Mexican Summer e vai valer a pena. Em "Pequena Vertigem de Amor", afina-se toda uma sonoridade retro que discos anterior pareciam afagar na nostalgia tropicalia e que agora recebeu transformação grandiloquente, expandindo orquestrações, arriscando novos instrumentos e assentando influências. 

Entre Abril de 2024 e Março de 2025, o estúdio Cosmo de São Paulo recebeu cinco sessões onde Biel Basiel, baterista dos O Terno e Marcelo Cabral, baixista e compositor, assumiram a produção e ajudaram a dimensionar as possibilidades de progressão - à guitarra, como em discos anteriores, que comandava a composição e muitas das apresentações ao vivo, foram sobrepostas linhas de piano, sintetizador, guitarra wah-wah e até caixas de ritmos por contágio soul e jazz de gente como Shuggie Otis, Roy Ayers, Sly Stone, Tim Maia e até os amados Erasmo Carlos e Amado Maita. 

São nove as peças da colecção e "Vale a Pena" é a percursora e, logo, irresistível novidade na qual Sessa larga a guitarra para se aventurar num piano Suette brasileiro...

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

DUETOS IMPROVÁVEIS #307

BRIGHT EYES & HURRAY FOR THE RIFF RAFF 
Dyslexic Palindrome (Oberst) 
EP "Kids Table", Dead Oceans Records, 
E.U.A., Setembro de 2025

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

CASSANDRA JENKINS+GEORDIE GREEP+BAR ITALIA+BLACK COUNTRY NEW ROAD+KING KRULE+MK.GEE, Festival Paredes de Coura, 15 de Agosto de 2025

A peregrinação anual a Coura está a ficar cada vez mais custosa. No preço, na vontade, na disponibilidade, mas muito no estreitar da paciência para lidar com multidões. Deve ser da idade, da nossa em contraponto à da maioria... 

Mesmo sabendo que não era ali, nem à luz do sol, que a estreia de Cassandra Jenkins em solo nacional merecia ter acontecido, não disfarçamos que o esforço teve como impulso principal a jovem artista de Nova Iorque. Sem deslumbramentos, o concerto confirmou-se calmo, a planar a caloraça estranha do recinto mais pequeno, mas talvez a precisar de um melhor acerto da amplificação que ajudasse no cintilar das subtilezas magníficas das canções de "My Light, My Destroyer" e de pérolas mais antigas como "New Bikini" ou "Michelangelo". A partilha, ainda assim, afigurou-se compensadora e ternurenta, uma oscilação notada na mensagem que Jenkins leu visivelmente emocionada perante o forte aplauso de aprovação e agradecimento pelos cinquenta minutos de descontraída suspensão.

 

Dois anos depois e já com os Black Midi em frangalhos, Geordie Greep voltou ao Minho para fazer das suas, isto é, sarrabulhada da boa. Com base em "The New Sound", disco a solo que se confirmou como um dos melhores de 2024, o concerto fez estourar ainda mais os desvarios que as canções originais já sugeriam, uma avalanche de instrumentos onde coube até um violoncelista e muita rodagem ao vivo. À potência da bateria de Morgan Simpson enleou-se um verdadeiro novelo de guitarradas e muita diversão, a que o figurão, no seu jeito chaplin, e alguns parceiros costuraram palhaçada e irrequietude. "Holy Holy" foi, a esse nível, notável: "tudo bem ", "obligado", "muito bom" e "cala a boca". Já agora, "f*** you to" Greep!

 

Depois do cancelamento do ano passado, os londrinos Bar Italia prometiam dar o litro. Espremida, a contenda até que passou as marcas pré-estabelecidas ou não fosse este indie rock de tensão revigorante e que tem na trilogia da voz em rodopio um essencial e raro atributo. Escusado destacar Nina Cristante que, no meio do palco e à custa de uma ventoinha e uma saia travessa, ainda mais fez aumentar a temperatura de um concerto certeiro e que dá esperanças seguras quanto ao valor do rock. Não deverá ser preciso esperar muitos anos para os ver no estrado principal do "couraíso".

 

Quem dignificou esse palco de maneira surpreendente foram os Black Country New Road. Temíamos que a pop barroca e de alguma experimentação se diluísse encosta acima, mas, pelo contrário, ela como que se foi ondulando na porção certa para embriagar a multidão receptiva à propagação mágica de elevada fineza e qualidade. Arriscada, a façanha mostrou-se crescente e de uma pedagogia instrumental sem falhas, que isto de ser jovem músico em Cambridge requer tarimba apurada e entrosamento consistente. Compreende-se, (re)imagina-se agora melhor a beleza de "Forever Howlong", disco deste ano na sequela do abandono amigável do fundador Isaac Wood, e que têm nas vozes da três meninas um academismo notável que transformou o anfiteatro num género de Epidauro da pop. Se aos Belle & Sebastian, há trinta anos, se atiravam bocas quanto aos desafinanços e defeitos instrumentais, apupos inconsequentes tendo em conta a frescura das canções, de nada disso se pode acusar estes BCNR, uns verdadeiros continuadores de uma pop inglesa acutilante, refrescante e, caramba, adulta. Como notado, o futuro está mais que assegurado. Salvé!

 

Não pode ser coincidência, mas há sempre nos concertos de King Krule um nevoeiro artificial, ora colorido ora pálido, que faz um efeito de bondade e de nostalgia interrogadas na origem, mas que se assume importante na emergência do timbre de voz, da poética muito própria das líricas e até na variação de velocidade de muitas das canções. Tudo a saber a um cocktail único de jazz com rock e umas pitadas de hip-hop e punk que os ouvidos agradecem pelo vanguardismo e afronta a convenções de composição. Em Coura, repetindo a presença de 2017, Krule foi como que uma variação crescida de uma certa inocência que vimos brotar em 2012 e que, logo ali, nos pareceu irresistível e de cariz marcante. Raramente lhe vimos a cara, raramente lhe vimos as expressões, raramente reparamos na cor do cabelo. Muitas vezes, pelo contrário, foram simplesmente as canções o bastante para que o concerto se agigantasse na noite, arrefecida no clima, mas calorosa na fruição. Viva o rei, siiiiiiiiiiiiiii!

 

Por falar em nevoeiro fumarento, de Mk.gee só ouvimos muitas vezes o disco de estreia "Two Star & the Dream Police" (2024), por sinal, um cartão de visita "estranhante" embebido de soft-rock e nostalgia FM. Quedamos sem o conhecer e sem o ver pelo exagero propositado de bruma em palco, negritude por vezes avermelhada de fim de noite a lembrar velhinhos videoclips dos Foreigner ou ZZ Top, o que não é mau sem ser bom. Resumindo, vamos continuar a ouvir o tal álbum sem qualquer preconceito ou travão, bem melhor opção que outra qualquer aparição a três dimensões de um tal Michael Todd Gordon... sem flash!

terça-feira, 19 de agosto de 2025

FAZ HOJE (21) ANOS #107





















MARK EITZEL + WRAYGUNN + MARK LANEGAN + THE KILLS + BLACK REBEL MOTORCYCLE CLUB, Festival Paredes de Coura, 19 de Agosto de 2004
 
. Diário de Notícias, por Ricardo Jorge Fonseca, fotografia de Amin Chaar, 21 de Agosto, 
. Público, por Pedro Rios e Nuno Passos, fotografia de Marco Maurício, 21 de Agosto, p. 39




sexta-feira, 15 de agosto de 2025

FAZ HOJE (32) ANOS #106





















VAYA CON DIOS + PRINCE, Estádio de Alvalade, Lisboa, 15 de Agosto de 1993 
. Sete, por Rui Miguel Abreu, fotografias de Pedro Santa Bárbara, 19 de Agosto de 1993, pp. 20-21 
. Público, por Jorge Dias, fotografias de Miguel Silva, 17 de Agosto de 1993, p. ?


domingo, 10 de agosto de 2025

6x20 AGOSTO

















Eram pr'aí sete e pico, oito e coisa nove e tal... de música!
 

FAZ HOJE (22) ANOS #105





















BECK + BETH GIBBONS + THE STEREOPHONICS + MOLOKO, Festival Sudoeste, Zambujeira do Mar, 10 de Agosto de 2003
 
. Público, por Vitor Belanciano, fotografias de Rui Gaudêncio, 12 de Agosto de 2003, p. 35