terça-feira, 19 de setembro de 2023

PAUL WELLER, Auditorio Mar de Vigo, 16 de Setembro de 2023

A separação dos The Style Council em 1989 embarcou Paul Weller numa carreira a solo consistente e fortalecida pelo inato dão de compor boas canções. São já quinze os álbuns em nome próprio que logo se iniciaram em 1992 mas que, até aos nossos dias, o afirmaram como um artista confinado a um maior reconhecimento em território inglês (ok, talvez se possa juntar o Japão). São muito raros os concertos pela restante Europa, sendo a actual digressão uma dádiva que se aproximou em demasia para não a aproveitar. Foram, por isso, umas boas dezenas os portugueses que comparecerem na expectativa de, finalmente e quase milagrosamente, puderem apreciar o old chap Weller a três dimensões. 

Claro que a maioria presente, de geração acentuada na veneração ao The Modfather, gostaría de ter visto o alinhamento mais bem preenchido de temas dos The Jam e, sobretudo, dos The Style Council, mas só seis entre as quase trinta escolhas o permitiria. Escusado referir que esses foram os momentos mais intensos de um concerto alongado em demasia, salpicado intencionalmente por hinos como "My Ever Changing Moods", "Headstart for Hapiness", "Shout to The Top!" (o pináculo do serão) e a surpresa maravilha "It's a Very Deep Sea" com que começa "Confessions of a Pop Group" (1988), talvez o melhor álbum dos TSCouncil mas o mais desprezado. 

Acompanhado de uma banda de seis músicos e onde se notou o uso de uma dupla bateria, a rodagem das canções foi exemplar embora o som de sala se tenha denotado sofrível na flutuação e dispersão para depois, aos poucos, se acertar sem deslumbre - no que parece ser um hábito estranho - sem espaço para nenhum "sozinho em palco", improvisação ou pedidos do público. Da máquina oleada, de profissionalismo vincado, não haverá como fazer reparos ou censuras atendendo ao enorme volume de escolhas possíveis para ensaio prévio, permitindo, contudo, perceber a qualidade de muitas das suas composições mais recentes e de que "On Sunset" ou "Village" foram eminentes. 

A apoteose adivinhava-se para um segundo encore - "Town Called Malice" dos The Jam, uma jóia com mais de quarenta anos, conseguiu no seus dois minutos e meio de soul beat fazer levantar das cadeiras uma plateia paciente e à espera do impulso que, por si só, valeria a comparência a um convívio há muito aguardado de uma família com formação afectiva. Com um pai desta estirpe, vai ser difícil a extinção...    

NOTA: ainda há dias por aqui alertamos para a aventura cada vez mais imprevista que é estar numa sala de concertos. Contamos, pelo menos, nove ou dez vezes, a dobrar, que tivemos que nos levantar para deixar passar aflitos para a casa de banho, reabastecimento de cerveja ou atendimento de telefonemas. Com regras mas com muitas excepções, o auditório galego foi um corrupio cruzado de entradas e saídas a meio de canções, discussões e conversas estridentes ou supostas proibições de bebidas a que se fecharam os olhos. Um recinto em pé tinha sido mais barato e, certamente, mais eficaz! 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

YUSSEF DAYES, CLASSE CLÁSSICA!

O disco "Black Classical Music" saiu apenas há uma semana mas é já um dos nossos vícios diários. A estreia a solo do baterista Yuseff Dayes é uma monumental e intemporal viagem pelo jazz e música negra tal como, aliás, o título não deixa enganar. 

Colaboram os habituais conpinchas Tom Misch, o monstruoso baixista Rocco Palladino e o teclista Charlie Stacey, duo parceiro de encher qualquer palco como testemunhado em Braga em 2021, mas há uma variedade de convidados para descobrir nas dezanove faixas que estão agora na totalidade disponíveis para completa fruição. Poderoso.

Em Outubro começa uma digressão internacional para apresentar o álbum e... dedos cruzados! 



SCHHHHHHHHHHHHHH... APOIADO!

























Pode e deve-se concordar ou discordar com Lucy May Walker, artista inglesa que teve a coragem de publicar um conjunto de regras em forma de cartaz de etiqueta para assistir a um concerto.

Temos notado, e muito, uma crescente e total falta de respeito pelos artistas e bandas mas, acima de tudo, pelos que, como nós, gostam de música ao vivo. Já não é só nos festivais, sempre mais propensos a cavaqueiras animadas, o mau comportamento alonga-se hoje com facilidade a salas de média ou pequena dimensão e que se agrava se houver um bar por perto. 

Por isso, recomenda-se uma tradução ou adaptação do cartaz para língua portuguesa a ser afixado ou projectado nos locais e momentos certos e, por favor, schhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... Bons concertos!

terça-feira, 12 de setembro de 2023

CAT POWER, JUDAS E JESUS!

















Para Chan Marshall aka Cat Power cantar as canções dos outros é um hábito antigo materializado em diversos discos de versões como o último "Covers" de 2021. A escolha não contemplou, dessa vez, qualquer canção do amado Bob Dylan mas a demora não foi muita e acaba em dose suculenta... 

No dia 5 Novembro de 2022, sábado, a norte-americana apresentou-se na sala do Royal Albert Hall de Londres com uma intenção determinada - recriar na perfeição possível o concerto de Dylan de 1966 no mesmo local (?), então, o culminar de uma digressão histórica que se tornaria mítica pela electrificação inédita de parte do seu reportório para incómodo e revolta da plateia aficionada mas, dita, traída. 

Esse espectáculo seria, ao longo dos anos, motivo de discussão e de pirataria subversiva e só em 1998 teria, finalmente e de forma oficial, edição pela Columbia Records no âmbito das The Bootleg Series, embora o que se pode ouvir seja referente a um outro concerto no Manchester Free Trade Hall dez dias antes. Confuso, não? 

O disco "Cat Power Sings Dylan: The Royal Albert Hall Concert" a sair na Europa pela Domino em Novembro próximo, é isso mesmo, ou seja, a reinvenção assumida desse evento marcante, respeitando a mesma sequência das quinze canções e até a mesma separação de tonalidades - uma primeira parte acústica a solo e uma outra eléctrica já com banda, a tal onde se ouve na gravação original de 1966 um "Judas!" antes do início de "Ballad of a Thin Man". Cinquenta e seis anos depois, e se estiveram atentos, até esse pormenor acabou proclamado e registado. "Jesus", respondeu de impulso Cat Power!


sábado, 9 de setembro de 2023

UAUU #697

PUBLIC SERVICE BROADCASTING ORQUESTRAL!





















As BBC Proms, que decorrem anualmente no Royal Albert Hall londrino durante o verão, são um ciclo clássico de concertos apetecíveis e de teor, muitas vezes, inesperado. Os Public Service Broadcasting, a jogar em casa, foram o ano passado convidados para apresentar uma nova composição chamada "This New Noise" ao lado da BBC Symphony Orchestra no âmbito dos Prom 58 que marcaram os 100 anos da eterna BBC.

A apresentação foi agora disponibilizada de forma apurada por J. Willgoose, Esq., guitarrista fundador da banda, através do youtube e também com a edição de um disco com as oito peças então interpretadas da autoria da banda. A excepção é "A Cello Sings In Daventry" também escrita por Seth Lakeman e que lhe juntou a sua voz num concerto que decorreu a 30 de Agosto de 2022 e que foi dedicado a Rebecca Teulet, jornalista da própria BBC então falecida. 

Esta foi a segunda vez que os PSB compareceram nos Proms já que em 2019 tinham tido a oportunidade de apresentar uma versão orquestral do álbum "The Race for Space" (2015) ao lado da solidária Multi-Story Orchestra de forma a comemorar os 50 anos da viagem da Apolo 11 americana, a primeira missão humana a pousar na lua.

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

THOMAS FEINER, O AUTÊNTICO!

O podcast "Podsongs" teve início durante a pandemia em Itália sob uma filosofia original - um músico entrevista uma pessoa inspiradora para a composição de uma nova canção. No episódio 139 coube ao nosso Thomas Feiner escolher e conversar sobre inteligência artificial com Dave McKean, ilustrador inglês que se alonga à prática da fotografia, da BD e também da música, como motivo para o tal tema inédito. 

Como prometido, a canção foi lançada hoje digitalmente com o nome de "The New Convention" e é mais uma monumental prova de inteligência... autêntica!

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

LULUC, DIAMANTES SÃO ETERNOS!





















Um quinto álbum da dupla maravilha Luluc terá publicação na próxima semana numa nova editora, a Community Music com sede em West Hollywood, Califórnia. Baptizado de "Diamonds", sobre ele não são conhecidos, como é habitual, muitos pormenores a não ser a autoria confirmada das canções por Zoë Randell e Steve Hassett que ao longo dos últimos quatro meses foram sendo, criteriosamente, largadas, assumindo também a sua total produção.

A última dessas benesses diz respeito a uma excelente versão de "As Tears Go By" dos The Rolling Stones, no que sugere ser o único não original entre os dez novos diamantes. A capa tem assinatura da artista e impressora australiana Fleur Rendell.




quarta-feira, 6 de setembro de 2023

O MELHOR DE RICHARD HAWLEY!





















Depois do disco ao vivo do ano passado, adivinhava-se o passo seguinte - um best of de Richard Hawley que cobre a sua carreira a solo iniciada em 2001 com um disco homónimo e se alongou, para já, até 2019 com "Further". Em Outubro próximo, vinte e duas canções da sua fina e apurada composição, numa escolha em parceria com o velho amigo Colin Elliot, agrupam-se em "Now Then: The Very Best", sortido ainda e sempre eterno na especialidade e beleza e onde também se alinha a versão de Bob Dylan que em 2019 fez parte da banda sonora da série "Peaky Blinders". 

O melhor é, contudo, uma nova gravação e orquestração do tema "The Only Road", incluído no disco "Lowedges" de 2003, mas agora chamada "Not The Only Road" e que, na versão limitada de duplo vinil, deu direito à inclusão de um exclusivo single devidamente assinado já em pré-encomenda no site oficial. O 7" terá, aparentemente, edição individual com o tema "Kelham Island" no lado B.

sábado, 2 de setembro de 2023

WILL SAMSON, DEIXEM-SE IR!

















O aparelho pousado sobre a mesa ao lado de Will Samson é um Uher 4200 Report Monitor, um género de gravador de fita muito usado nos anos oitenta para registo de entrevistas e conversas que, se colocado na velocidade mais lenta, permite uma textura sonora de magia evidente. É ele a peça central do novo álbum ambiental "Harp Swells" que terá edição digital na próxima sexta-feira, dia 8 de Setembro, pela 12k, casa de tendência experimental pertencente ao americano Taylor Deupree. 

A residir em Portugal desde Janeiro de 2022, Will Samson compôs o seu oitavo disco em Almada, onde partilha o estúdio com Casper Clausen dos Efterklang, de forma a ser ouvido de uma só vez como peça ambiental anti-algorítmo. Conta com as vozes de Michael Feuerstack da Bell Orchestre e da artista irlandesa Maia Nunes que podem ser escutadas em "And yet", a primeira das contemplações a ser conhecida. 

O disco terá direito a digressão europeia com início marcado para a semana e que chegará ao Passos Manuel portuense no dia 15 de Setembro, sexta-feira, experiência para nos fazer "deixar ir"... É ir. 

BEIRUT, MÚSICA INSULAR!





















Depois de um extensa colectânea de raridades e da disponibilização de sessões orquestrais à distância, teremos em Novembro um álbum de originais dos Beirut chamado "Hadsel". O disco recebeu o nome de uma ilha norueguesa onde Zach Condon se refugiou em 2019 depois de uma depressão mental que o obrigou a cancelar a digressão então agendada, estadia que provocou uma melhoria lenta da sua condição muito à custa da beleza da paisagem natural, das chamadas luzes do norte e dos extensos crepúsculos que, obviamente, se reflectiram nas composições de vulnerabilidade assumida. 

Do disco, que a Rough Trade tem já em encomenda numa edição de cem exemplares coloridos com a inclusão de uma ilustração da autoria do próprio Condom e que marca a estreia nos originais da editora própria Pompeii, pode já ouvir-se este belo "So Many Plans".

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

FIONN REGAN NUM JARDIM DA BAIXA!





















O mês de Setembro trás um novo evento para o centro do Porto chamado Sunny Garden - Singers Songwriters Festival que vai ocupar os jardins da UPTEC Baixa (Praça Coronel Pacheco) no dias 9 e 10, Sábado e Domingo. Em ambos os dias, das 11h (!!) às 20h00, estão prometidos concertos de uma dúzia de cantautores nacionais e internacionais que se anunciam no cartaz de cima e com alinhamento já marcado ao longo do fim de semana mas ainda sem horário de actuação divulgado. Só é pena o exagero do preço do bilhete! 

Entre os nomes do cartaz, destaca-se o do já experiente e sublime Fionn Regan, uma das perdições antigas aqui da casa e que já passou pelo Porto aquando da curta mas inesquecível primeira parte que realizou para um concerto de Feist em 2012. Reservado, discreto, Regan é o autor de maravilhas eternas como as de abaixo... 



terça-feira, 29 de agosto de 2023

MANSUR BROWN, REGRESSO AO PORTO!















Entre a infindável emergência de jovens talentos do novo jazz inglês, o nome de Mansur Brown é só mais um que se junta a Nubya Garcia, Yusseff Dayes ou Kamaal Wlliams e a variadas participações e ajudas em discos e concertos de muitos deles. 

A sua digressão europeia, que se estende até Novembro, chegará a Portugal em duas datas (29 de Novembro, Music Box, Lisboa e 30 de Novembro, quinta, Auditório CCOP, Porto) depois da estreia oficial no Festival Iminente da capital no ano transacto. Ao que parece, Mansur já esteve no Porto há coisa de dez anos tendo até aqui dado um concerto ainda muito jovem... Já há bilhetes. 

EFTERKLANG, BELEZA NO FEMININO!

Por estes dias, há um ano atrás, os Efterklang reuniram-se mais uma vez ao South Denmark Girl's Choir para dois concertos, um encontro que se vem repetindo desde 2020 e que teve continuação no corrente ano com uma digressão conjunta pelo país em Março e um outro muito recente reencontro em Julho com direito transmissão online. Ao vivo, o trio recebeu a colaboração de Christian Balvig no piano. 

Para o registo em imagens do duplo evento de 2022 foi convidada a portuguesa Catarina Neves Ricci, sendo o resultado um belíssimo pequeno filme de quinze minutos que hoje se deu a conhecer e onde participam ainda Catarina Mendonça e Rita Faria, video editors do Porto, com agradecimentos a Cláudia Craveiro Lopes, jovem realizadora e à produtora Loudness Films de Lisboa.

domingo, 27 de agosto de 2023

TRÉ BURT + WILCO, EspazoFest, Nigrán, Pontevedra, 20 de Agosto de 2023

E se os Wilco viessem tocar a uma qualquer festa de aldeia em pleno verão? Pois bem, aos de Chicago coube animar as festas de Nigrán, Pontevedra, uma pequena povoação galega a uma hora e meia do Porto e, por isso, poderíamos lá nós perder a oportunidade, mesmo que um só dia depois da passagem curta por Coura. Pelo que fomos notando, o concerto atraiu forte presença de outros portugueses a um local aprazível e histórico com óptima oferta de comes e bebes locais e uma circulação a facilitar o encontro. 

Para abrir o convénio informal, subiu ao palco, ainda com lusco-fusco, o norte-americano Tré Burt para meia hora de folk que têm em John Prine ou Dylan influências indisfarçáveis e não estranhou a inclusão, ainda, de uma versão de Townes van Zandt entre a mão cheia de originais apresentados e bem recebidos. Em jeito de menu da festa, para entrada não esteve nada mal.

 

O prato principal era, contudo, outro e de maior sabor. A expectativa da maioria dos presentes, notoriamente uma geração de cinquentões de assumida fidelidade e repetente na degustação, cedo se confirmou validada pela aplaudida sequência das canções e que o mestre Jeff Tweedy foi agradecendo, cortês como sempre, tirando o chapéu. Não houve lugar a apresentações dos companheiros nem lérias banais ou conversas de circunstância, com excepção a uma merecida referência à conquista feminina do dia do futebol espanhol ou uma pronta, directa e eficaz interpelação a um aficionado mais bebido (?) que colocou em perigo as filas fronteiras durante "Box Full of Letters". 

A festa fez-se, pois, de uma comunhão pacífica em vinte e três canções, um alinhamento bem maior que o da véspera mas onde, curiosamente, "Spiders (Kismode)" não foi tocado. Repetiu-se o delírio com o obrigatório "Impossible Germany", onde Nels Cline fez figura de mágico possuído da guitarra, uma brutalidade, ainda e sempre, de eriçar os cabelos e confundir os ouvidos e se deixaram para o único encore algumas antiguidades surpreendentes como "Red-Eyed and Blue" e "I Got You (At the End of the Century)", peças a roçar os trinta anos de envelhecimento vintage. Um excelente encontro de amigos e de uma rara proximidade a que só faltou uma rodagem final dos músicos entre os convidados para um brinde efusivo e uma troca de abraços. O melhor é mesmo marcar a data do próximo convívio ibérico. Pode ser no mesmo sítio, vale?  

sábado, 26 de agosto de 2023

LEE FIELDS+YIN YIN+SLEAFORD MODS+CRACK CLOUD+LES SAVY FAV+WILCO+LORDE, Festival Paredes de Coura, 19 de Agosto de 2023

Abram alas para Lee Fields, um dos últimos descendentes de uma linhagem genuína de soul e funk que o eleva agora, depois dos saudosos e eternos Charles Bradley (que esteve em Coura em 2015) e Sharon Jones, ao cume do reinado. Bem disposto e em excelente forma, Fields teve nos The Expressions um quinteto de tradição clássica que, desde logo, não enganou ninguém no travo de subtileza e qualidade que a aquela voz vintage requisita e que a dupla de metais foi complementando com pinta. Depois houve o mestre de cerimónia Joe Crispiano, guitarrista dos The Dap-Kings e de muitos outros projectos similares, que acrescentou ao groove da linha de baixo um apreciável ritmo particularmente vibrante no final "Money Is King", uma arrasadora bofetada de ritmo até às entranhas. Are You Happy? YEAHHHH... mas isto de filmar e dançar com esta cadência já não é para nós!

 

Os Yin Yin juntaram-se na Holanda mas na sua origem estão músicos de França, Myanmar e outros países o que resulta numa enfusão curiosa de ritmos e batidas, desde o disco ou psicadelismo, tudo num jogo instrumental irresistivel que colocou em polvorosa a tenda do palco mais pequeno. A atmosfera dançável, mesmo em horário diurno, foi-se espalhando sem freio,e que um "Kill Bill" tarantinesco engrossou ainda mais na festança. Houve direito a coreografia colectiva e um abanão chamado "Dis kô dis kõ" a la Moroder ou Bee Gees que, deixado para o fim, transformou o recinto numa saudosa matinée de discoteca!

 

A presença dos Sleaford Mods no palco principal, perante uma já considerável moldura humana, não teve adesão efusiva. Pelo forte minimalismo do ritmo, pelo absurdo da dança apalhaçada de Andrew Fearn em deambulação traseiras, o spoken word abrasivo de Jason Williamson até terá piada e, certamente, pertinência mas não naquele horário de final de tarde onde não fez mossa e se revelou de reduzida eficácia. São precisos abanões, é certo, mas este não foi o que se impunha.

 

A estreia dos Crack Cloud conseguiu reunir uma expressiva camada de curiosos, onde nos incluímos, atraídos por um género de duro dance rock que não dispensou até um saxofone. Ao comando esteve o baterista Zack Choy, um verdadeiro timoneiro e também vocalista principal, responsável por acelerar ou frear a perfomance num jogo de ritmo endiabrado e surpreendente. Resultado: dentro do género, um excelente concerto!

 

Bem vindos à reunião síncrona dos Les Savy Fav. A atenção estava, por isso, no ecrã e no seu crescente número de aderentes apostados em participar a partir do telemóvel na comunhão colectiva de nonsense, figurinhas, bocas ou mascaradas digitais. Mas o zoom disctractivo não escondeu a potência das canções de bom amargo punk e que teve em Tim Harrington um mestre cromo-agitador, figura que se foi transfigurando, despindo a fatiota, até ficar em pelota num género de fato "veias do corpo humano". Em vários momentos, um extenso fio do microfone foi esticado pela plateia e arredores como um cabo de salvação anárquico que serviu para meter conversas, beberricar dos copos dos festivaleiros, roubar chapéus ou elogiar, brejeiro, a força dos seguranças. Numa das incursões, sentou-se no balcão do bar mais próximo do recinto e só faltou pedir uma cerveja que, caramba, já bem merecia! Estava, contudo, na hora de tomar/ganhar lugar na colina courense para receber a melhor banda americana... 

 

Como já muitas vezes por aqui confessado, ver os Wilco, ano após ano, é sempre como se fosse a primeira vez. A expectativa, talvez sem explicação, provoca um frenesim e um nervoso miudinho que começou em 2009 também no Minho (Braga, Theatro Circo) e que já se repetiu em meia dúzia de ocasiões. Ali, de frente privilegiada para o palco principal, o que vimos e sentimos foi, diríamos, como sempre, uma banda no seu apogeu artístico e instrumental, embora essa aferição seja, para aficionados antigos, sempre muito difícil de traduzir. Humildes, intensos, a jogar nas circunstâncias - escolher "Spiders (Kismode)" para largar o lastro só mesmo por saberem do pouco tempo que tinham para tocar - a banda não se fez rogada e despachou, no bom sentido, quase uma quinzena de temas de um reportório cuja dimensão terá de ser um dia classificada como património americano. A grandeza do feito, encimada por um som sem reparos e de uma clareza e sintonia surpreendentes e que o anfiteatro natural serviu como uma luva de liberdade, só está ao alcance de alguns predestinados. Os Wilco merecem essa e muitas outras glórias!

 

Mais novos à frente, mais velhos lá trás que a menina senhora Lorde vai cantar o fado. Mentira. Lorde vai cantar, sem acompanhamento instrumental, mas com cenário lustroso, uma bolada de canções sozinha em palco à uma da madrugada e, por isso, fomos lá para trás como é regra, muito lá para trás, para evitar a chinfrineira e os atropelos. Pronto, lá constatamos que a menina senhora lady Lorde encheu o palco grande com um savoir faire bem diferente do que aquele com que nos visitou em 2018 e, para o provar, decidimos encher o cartão de memória e o resto das baterias com os primeiro vinte minutos da aparição... ao longe!

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

KOKOROKO+EXPRESSO TRANSATLÂNTICO+DOMI & JD BECK+YUNG LEAN+MAQUINA+BLACK MIDI, Festival de Paredes de Coura, 18 de Agosto de 2023

O colectivo londrino Kokoroko teve estreia no norte do país abençoado pela chuva. Não (ainda) muita, é certo, e, por isso, o festão que se adivinhava acabou mesmo por acontecer para alegria evidente de uma plateia que se mostrou, desde o início, interessada num folguedo com banda sonora de categoria superior, ou não fosse este jazz dito de fusão uma imensidão de ritmos e influências tropicais ou africanas com extensões ao funk e ao groove. Com músicos desta tarimba e expressão, só foi pena que o banquete sonoro não se tenha prolongado por mais tempo para ver se um qualquer sol de final de tarde, como merecido, acabasse por iluminar tamanho cenário. Kokoroko, ou seja, be strong!

 

Outro colectivo, mas de raiz na capital, chamado Expresso Transatlântico rondam a música popular portuguesa sem contemplações e que uma irrequieta e nada convencional guitarra portuguesa comanda insistentemente. Esse exagero, que nos sugeriu propositado, recebeu muitos e fortes aplausos mas acabamos por desligar do concerto sem uma razão aparente... Talvez não tivesse sido a hora e o local para os ouvir com atenção como, às tantas, deveria ter acontecido. Perdemos o expresso!

 

De fininho, ora aqui está um dos melhores concertos de todo o festival. Os miúdos Domi & JD Beck se já no disco de estreia causaram forte surpresa pela inusitada receita de drum & bass, jazz e hip-hop, ao vivo a prova sofisticada acabou ainda mais saborosa muito por culpa de um elevado acerto e cumplicidade, sobrepondo géneros, boa disposição e um ecletismo de versões asinalável - Aphex Twin ou Weather Report foram os escolhidos para escalpe recreativo brilhante o que nos leva a interrogar até onde estarão os putos dispostos a elevar fasquia! Muitos, ao nosso lado, de peito feito no gozo inicial - "isto é do canal Disney?" - acabaram mudos, calados e perfeitamente rendidos à acrobacia musical que se acabava de ouvir. Notável!

 

Já de barriga cheia após reforço alimentar, sem alternativas e já que ainda não chovia em demasia, apontamos a mira a um só personagem chamado Yung Lean que ocupou o palco principal em horário nobre. Não temos muitos mais comentários a fazer. Não gostamos do dito concerto mas percebemos cada vez mais esta insistência dos programadores em rappers dispensáveis - é barato e a parafernália sonora cabe numa só pen-drive ou nuvem. Fica a prova de dez minutos.

 

No caminho para o palco mais pequeno para os muitos aconselhados The Last Dinner Party reparamos na tela de fundo que anunciava "Máquina". Afinal os ingleses falharam a comparência por suposta doença de um dos músicos, embora isto das desculpas em cima da hora tresandem sempre a joguinhos de bastidores de managers e agentes. Adiante. A Máquina, banda do Porto arrebanhada para a substituição, ligou-se e, caramba, demorou tempo demais até se desligar. Ufa!

 

Os Black Midi, que puseram o Porto a arder o ano passado, tinham uma perfeita e contínua chuvada à sua espera. O fogo, mesmo assim e também desta vez, não se apagou. Com uma das melhores entradas em palco de sempre ao som de "Suavemente" de Elvis Crespo, o azeite não os fez escorregar, longe disso, já que o frenesim em cima e fora do palco cedo começou a carborar, provocando mosh contínuo de um revoltoso grupo fronteiro. Há nesta progressiva dose de rock um gozo experimental que avança, tema após tema, para um género de dilúvio sonoro com cada vez mais adeptos e que, ao vivo, se torna num incontestável êxtase e de que o figurão Geordie Greep parece troçar no desafio. Um estouro, mais um!

terça-feira, 22 de agosto de 2023

A GAROTA NÃO+TIM BERNARDES+AVALON EMERSON & THE CHARM+SUDAN ARCHIVES+THE WALKMEN+DESIRE+LOYLE CARNER, Festival Paredes de Coura, 17 de Agosto de 2023

O alinhamento do concerto de A Garota Não para abrir o dia de quinta-feira resultou num dos momentos mais emotivos do festival. A mestria de Cátia Oliveira e das suas canções de intervenção moderna e necessária fizeram do palco mais pequeno um megafone de apelo colectivo para problemas que se adiam, sem solução, e onde a habitação ou a violência contra as mulheres ganharam notória primazia. Os nomes de algumas delas que fez questão de mostrar, silenciosa e sisuda, mereceu de todos um aplauso contínuo de forte agradecimento, reforçando a ideia que assuntos sérios também cabem num festival de verão. As canções, que se podem dançar e curtir sem tempo nem lugar são, ainda e sempre, uma forma de luta por excelência. Esta Garota Sim! Obrigado.

 

Um grande piano e duas guitarras bastaram a Tim Bernardes para segurar, com embalo, a plateia na sua maioria sentada e relaxada na relva. A destreza e habilidade da postura, a informalidade da interacção, a força das canções ou as letras por todos soletradas ou entoadas em coro, fizeram do concerto um encontro de amigos que se reinventa a cada frente a frente, olhos nos olhos, como se fosse o primeiro. Houve tempo para versões de Gilberto Gil ou dos O Terno e agora é só esperar pelo próximo convívio, ou melhor, recomeço (Coliseu/Porto/Lisboa/31 Janeiro/1 Fevereiro/2024). Realmente lindo!

 

O esclarecimento quanto aos autores do que afinal se dava a ouvir estava afixado na tela - Avalon Emerson & The Charm. Estacamos na lateral à espera de melhoras e surpresas, consultamos o site oficial numa tentativa ilusória de contexto, mas o registo sonoro não saiu de um desenxabido e inclassificável engano. Avisamos, desde já, para a perca de tempo da prova em video abaixo.

 

A presença de Brittney Parks aka Sudan Archives motivou forte ajuntamento e alvoroço. Dona de uma irrequieta presença em palco, o concerto ondulou numa anarquia saborosa que cresceu em delírio sempre que o violino eléctrico se deu a ouvir. Surpresa aquela incursão na tradição folk irlandesa, o que nos dias que correm, prova que a incompatibilidade de géneros e etiquetas foi atirado às malvas com o advento imparável da globalização digital. Foi a primeira vez que vimos jovens em reboliço e mosh ao som de um tradicional fiddle mas a noite, no mesmo palco, aportaria outras incredulidades.

 

Passaram vinte e três anos sobre o primeiro disco dos nova-iorquinos The Walkmen. A aventura traduziu-se num boa meia dúzia de discos de indie rock de excelência mas os cinco amigos decidiram em 2014 parar para retempero... O hiato, que só agora foi interrompido para uma digressão, chegou a Coura em boa hora. O medo, natural, que as canções soassem datadas ou amorfas e longe da consistência do que ouvimos no Parque da Cidade em 2012, cedo se esvaneceu perante a frescura, rigor e vigor de um alinhamento vintage e certeiro que teve em "Heaven", isso mesmo, um pedacinho de "couraíso" rock!

 

Super mini-saia e corpete negros, bamboleos libidinosos, garrafa de espumante emborcada amiúde e uma caveira como adorno de amizade colorida - a menina Desire sabe muito e bem como conduzir em polvorosa uma plateia cedo mergulhada numa rave italo-disco de assumida lata, nada que deslustre o desiderato obtido com a festa brava. Claro que os New Order e a Kylie Minogue não têm culpa nenhuma mas, who cares, só lhe faltou juntar a Sabrina e os Righeira para que linha de bingo ficasse completa. Marota!

 

A vantagem de Loyle Carner em relação a outros artistas hip-hop tem na banda instrumental que o acompanha um trunfo incontornável. Esse baloiço moderno de soul e r&b, que oscilou colina acima e abaixo de forma evidente, é mesmo um luxuoso protector que recebeu bênção de, entre outros, Tom Misch ou Jorga Smith que se fizeram ouvir em voz off de forma subtil. Transpareceu uma forma bem educada e calma de tratar o rap, sem aqueles exageros de jargão ou palavrões que tanto massacram e afastam gerações mais velhas como a nossa mas que Carner soube juntar, naturalmente, às mais novas. Uma excelente surpresa, premiada com um poema rap absorvido por todos num silêncio e atenção memoráveis. Yoh!