segunda-feira, 8 de agosto de 2022
OLIVIA NEWTON-JOHN (1948-2022)
domingo, 7 de agosto de 2022
CAETANO 80!
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
terça-feira, 2 de agosto de 2022
MOLLY LEWIS, UMA BRISA QUE ASSOBIA!
Trata-se de um segundo pequeno disco chamado "Mirage" onde cabem quatro originais e uma versão de "Nature Boy" de Eden Ahbez, tema a que Coltrane, Nat King Cole ou David Bowie também não resistiram. O exotismo da coisa tem prova dos nove no single "Miracle Fruit", mas podem ir pondo os óculos escuros e calçando os chinelos enquanto ouvem pausadamente o primeiro Ep "The Forgotten Edge" (2021) de fio a pavio e sonham com palmeiras e daiquiris. Boas férias... sibilantes!
AS DOCINHAS, Festival Andaime de Maio, Viana do Castelo, 30 de Julho de 2022
No caminho de volta até ao carro que nos levou a Viana do Castelo e logo depois de uma barrigada de jazz, o fim de noite tropical tinha banda sonora de fundo a que fomos seguindo o rasto até dar com um palco rodeado de público jovem e activo. O bizarro colectivo de sete lá em cima não fazia a coisa por menos e emitia um corrupio de canções em trajes menores devido ao calor atmosférico e ao movimento eléctrico sem que soubéssemos quem eram, donde vinham e que raio de receita espalhavam de forma apelativa e irresistível. Muito tempo depois, já pós-concerto, identificaram-nos As Docinhas como as autoras vianenses de tamanha amálgama pegajosa que, sem ser bem ou mal tocada (who cares!), fez muitos dos mais velhos, os cotas como nós que vão a concertos de jazz, estacar perto do palco sem de lá arredar pé até ao fim. Quanto à receita, ainda ninguém sabe qual é mas também ninguém perguntou.
As imagens e sons abaixo serão, porventura, mais esclarecedoras quanto ao triturado de géneros cantadas em português, inglês ou francês, sem norma ou etiquetas de género mas a dar pontapés fortes nos blues, na kizomba, no grunge ou no funk que um esquisito mas, irresistivelmente, roufenho saxofone vai, de entremeio, corroendo. Cruzaram-se gemidos libidos, sexualidades ou sadomasoquismos fogueados (?) de acentuado sotaque do (des)norte que finos, cigarros e derivados chegados do público amigalhaço inflamaram a um fogo já ateado, certamente, desde o princípio não testemunhado.
A dupla minhota que comanda a trupe, já muito batida nestas lides da provocação e do toma lá, dá cá "queres quê?", tem corda e garganta para dar e vender que os discos já com três anos atestam nos segundos e primeiros propósitos. Depois há "bideos" despachados para o canal global de forma intencional, uma verdadeira esquizofrenia estética que o primeiro álbum "Xano", editado o ano passado, fez o obséquio de revalidar numa intoxicação ainda longe de se sumir. As Docinhas, um caso sério de DYS a que é preciso continuar atento antes que azede...
FAZ HOJE (20) ANOS #80
. Jornal de Notícias, por Cristiano Pereira, fotografias de César Santos, 4 de Agosto de 2002, p. 40
. Diário de Notícias, por Nuno Galopim e Maria José Margarido, fotografias de Pedro Simões, 4 de Agosto de 2002, p. 44
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
JOEY DeFRANCESCO, Festival Jazz na Praça da Erva, Teatro Municipal Sá de Miranda, Viana do Castelo, 30 de Julho de 2022
O já tradicional festival de jazz minhoto ao ar livre teve no sábado uma excepção compreensível atendendo ao prestígio de Joey DeFrancesco, motivando a ocupação do belíssimo teatro da cidade para um acolhimento em grande. Assim aconteceu, com o trio a rapidamente assumir uma capacidade inata de ondular um jazz soul marcado pelo orgão e teclas, faceta onde DeFrancesco se afamou pela acompanhamento a vultos como Miles Davis ou Ray Charles, mas surpreendeu ainda a destreza e perícia com que tocou saxofone e um trompete de origem e construção portuguesa ou a voz com que cantou num ou dois trechos. Ao seu lado, quer Lucas Brown no outro orgão e guitarra quer Vince Ector na bateria, funcionaram como uma extensão natural da habilidade de DeFrancesco em colorir as peças com os seus devaneios no teclado, ambos com direito a solos e exibições premiadas com forte aplauso.
Numa balançante hora e meia de concerto, aquilo que pareceu uma descontraída sessão de groove esconde, obviamente, uma enorme dedicação e talento que poucos alcançam com tanta facilidade e desiderato mas em que é fundamental insistir e resistir. Ao fim de trinta álbuns, ao ritmo de mais de um por ano desde 1989, para DeFrancesco o céu é o limite. A noite de sábado foi só mais um pequeno degrau antes de lá chegar...
SKULLCRUSHER, ÁLBUM DE ANSEIOS!
As catorze novas canções de "Quiet the Room" foram registadas no estúdio Chicken Shack de Nova Iorque no verão de 2021 e remetem, quase na totalidade, para os pequenos refúgios que na sua infância percorria em jeito de casa de bonecas, que aliás se apresenta em imagem na capa do álbum, e que tanto podem ser recordações de felicidade como de alguns sustos terríficos. Um mundo de ansiedade assumida que, sem esquecer essas contradições do passado, tem na música um apaziguador estimulante...
sexta-feira, 29 de julho de 2022
(RE)VISTO #98
de Alessandro Melazzini. Alemanha; RAIcom, Arte; BR Bayerischer Rundfunk, 2021. Canal Arte, 27 de Julho de 2022
O simples facto de um documentário sobre o fenómeno Italo Disco ter surgido o ano passado talvez não seja uma coincidência. Passados trinta anos, alguns dos anticorpos como que se diluíram na consciência de uma geração - a nossa - que sempre lhe virou costas e, principalmente, os ouvidos para passarmos a "achar piada" a, cruzes, esse "tipo" de música. Lixo ou inovação, como é bem lembrado no documento, o fenómeno criou a partir de Itália êxitos a cargo dos Rigueira, Ryan Paris, Gazebo ou La Bionda que rapidamente chegaram mais a norte, principalmente, à Alemanha e países nórdicos e, depois, ao resto do velho continente.
Um desses inovadores sempre teve o nosso respeito, se bem que o emigrante Giorgio Moroder nos pareça um talento bem mais elevado e prodigioso, mas seria quase pecado não inclui-lo neste retrato de uma época de inocência aparente mas, rapidamente, multiplicadora de negócios. Transparece, à maneira latina, um desenrascanço amador na exploração exagerada de sintetizadores e efeitos, talvez aquilo que agora acaba por ter a "tal" piada que, na altura, fazia crescer imediata urticária e que se aproveita para associar a adeptos contemporâneos como os Daft Punk ou os Chemical Brothers.
Surpreendem alguns nomes e artistas perfeitamente desconhecidos - The Flirts p.ex. - de biografia e carreira ocasional mas destapam-se caras e feições dos verdadeiros inventores, aqueles que nos estúdios ou com um sintetizador à frente imaginaram a receita invasora das pistas de dança, nem que para isso fosse necessário o playback falseado do cantor versus quem aparecia na televisão a cores ou na capa de uma revista.
Agora a tudo isto podemos chamar kitch, mas aquilo que sugeria ser de uma superficialidade desprezível, ganha nesta abordagem histórica uma dimensão revolucionária na maneira de fazer música e, acima de tudo, de a desfrutar pela dança que a icónica Sabrina, a verdadeira rainha do fenómeno, acelerou na libertação de dogmas, estigmas ou convenções. Mesmo mantendo ainda uma leve desconfiança, sempre que agora soar um "vamos a la playa oh, oh, oh, oh, oh" numa qualquer esplanada ou convívio nocturno vamos ter que gritar "pôe mais alto"... e não desliga!
No Canal Arte online até dia 11 de Setembro.
quinta-feira, 28 de julho de 2022
DUETOS IMPROVÁVEIS #262
DJAVAN & MILTON NASCIMENTO
Beleza Destruída (Djavan)
Luanda Records, Rio de Janeiro, Brasil
Julho de 2022
quarta-feira, 27 de julho de 2022
LITTLE WINGS, VENTO DE FEIÇÃO!
Temos assim um "Zephyr" oficialmente editado pela Sun Cru Music quatro anos depois de registado misteriosamente com simples voz e guitarra e de ter circulado na Austrália em formato cassete. O tema título foi também motivo de documento videográfico com imagens captadas, claro, pelo artista em pleno litoral californiano, sessão que deu origem à foto da capa e a uns tantos teasers divertidos...
BENJAMIN CLEMENTINE, REGRESSO ENCANTADO!
Há, agora, pelo menos duas a incluir no single "Copening Weakend" e que não farão parte do tão aguardado terceiro álbum já gravado e a editar para o ano. Nessa altura, está também projectada uma intensa digressão que, certamente, chegará perto mas este mês Clementine anda já por Itália a fazer o que melhor sabe... (en)cantar!
terça-feira, 26 de julho de 2022
ASHLEY HENRY, Matosinhos em Jazz, 24 de Julho de 2022
O cartão de visita que o inglês Ashley Henry trouxe até Matosinhos, apesar de editado em 2019, tem prazo de validade alargado. A estreia com o álbum "Beautiful Vinyl Hunter" mereceu reconhecimento generalizado muito à custa de uma amálgama de influências jazz onde colaboram outros jovens prodígios ou consagrados músicos como o baterista Makaya McCraven. Ao vivo, sem essa diversidade, o trio que subiu ao coreto matosinhense foi mais que suficiente para fazer esquecer qualquer instrumento de sopro que se ouve nesse disco e somar-lhe outros atributos.
Sobrepôs-se, por isso, o Rhodes de Henri em constante desafio com a bateria e o contrabaixo, também eles de elevada precisão e complemento a uma onda abençoada pelo sol e a brisa e que o público aprovou com palmas e clamores. Mas havia ainda uma surpresa - a voz que Henri acrescentou certeira, primeiro, a uma versão de "Mississippi Goddam" de Nina Simone e logo seguida ao seu original "Colours", uma combinação perfeitamente diluído no sabor e perfume. Mais um fim-de-tarde de entrosamento assinalável e boa disposição para todas as idades...
DRY CLEANING, NOVO ÁLBUM DE BORDADOS!
Logo após a já saudosa passagem pelo Primavera Sound Porto, os ingleses Dry Cleaning puseram cá fora "Don't Press Me", um primeiro single de um novo álbum que agora se sabe tem o título de "Stumpwork" e estará nas lojas, via 4AD, em Outubro. Para o efeito, repete-se a produção e colaboração de John Parish, a mesma equipa liderada pelo engenheiro de som Joe Jones e o mesmo estúdio em terras galesas onde todos se reuniram, sem pressas e com espírito aberto, no final de 2021.
A matriz surrealista dos bordados das letras, onde abordagens políticas, ecológicas ou sociais se mantêm corrosivas, estendem-se desta vez a outras temáticas mais pessoais como a perca de familiares próximos, a depressão ou a ausência da autoestima. Ao primeiro avanço, junta-se agora "Anna Calls From The Arctic", excelente pedacinho de inexplicável sensualidade a que Florence Shaw nos habituou e que recebeu loop-video a cargo dos próprios. Nele brilha Nick Buxtom, o baterista patinador!
segunda-feira, 25 de julho de 2022
LHAKA KHAN, Casa da Música, Porto, 22 de Julho de 2022
Classificado como uma lenda viva, Lhaka Khan é um mestre do sindi sarangi, instrumento de vinte e sete cordas de intrincadas variações friccionadas, a que junta a voz em vários idiomas do Rajastão, Índia. Essa espécia de cancioneiro ou folclore espiritual têm na sua família uma longínqua e secular tradição protectora que as digressões ao vivo multiplicam na divulgação e fruição. Pena o local ao ar livre da Casa da Música se ter mostrado o recinto errado para tamanha delicadeza...
De acesso livre, o que se saúda, e em noite agradável, a larga adesão trouxe evidentes incómodos a quem aí se deslocou com a única intenção de desfrutar de tão rara música - circulação anárquica, conversas em voz alta, reduzida plateia sentada, criançada em correria e brincadeira ou barulho agudo do trânsito circundante, não impediram, mesmo assim, bons momentos e aplausos sinceros.
O contágio por esta sufi music demorou, contudo, um pouco a submergir mesmo que algumas explicações em inglês, apresentadas entre temas e a cargo do tradutor e cicerone de serviço, tenham estimulado a curiosidade da plateia mais atenta e concentrada.
Ao lado do filho Dane, tocador de dholak (tambor de duas cabeças), Lhaka Khan acabou por confirmar todo o seu virtuosismo e entrega, preciosidades que nem uma esplanada barulhenta numa noite de verão e a baixa amplificação conseguiram encobrir ou justapor. Shukryiaa!
AROOJ AFTAB, MAGIA NA CASA!
WILCO, SIGA!
As histórias antigas e as perspectativas futuras - "Let's move foward" - são reunidas em entrevista a Jeff Tweedy e Nick Hasted, o teclista mais jovem, a que se junta "Crosseyed Strangers - An Alternatice Yankee Hotel Foxtrot", CD exclusivo da responsabilidade dos próprios Wilco com uma série de versões alternativas, demos, apresentações a solo de Tweedy e gravações ao vivo como "Reservations" com que se encerrou o espectáculo recente de Nova Iorque onde foi tocada a totalidade do disco. Siga!
sábado, 23 de julho de 2022
sexta-feira, 22 de julho de 2022
VETIVER, M.Ou.Co., Porto, 19 de Julho de 2022
Obrigado. Thank you guys... been so quiet and nice. A treat!
No final de "You May Be Blue", já perto do desfecho do concerto e da digressão europeia a solo, foi desta forma sincera que Andy Cabic, mentor e motor dos Vetiver, agradeceu aos presentes a recepção calorosa e exemplar às suas canções. Novas e velhas, mas de eternidade assegurada, a cidade já criou o hábito de as acolher com distinção e carinho, embora a última passagem pelo Hard Club, para abrir o concerto do amigo Devendra, tenha pecado por notório alheamento de uma maioria.
Como o próprio recordou, foram já mais as vezes que tocou no Porto que em muitas cidades americanas - nomeou as presenças no Passos Manuel, na Casa da Música ou no Auditório de Espinho - e essa dádiva antiga manteve acesa uma comunidade de admiradores interessada em que o legado permaneça protegido e devidamente activo na sua imaterialidade. Foram, pois, esses que preencheram boa parte das cadeiras da plateia mas onde se sentaram mais alguns, arrastados pela oportunidade de o ouvir pela primeira vez.
Ninguém saiu, obviamente, desiludido. A acústica, o jogo de luz, a proximidade ou a simpatia do artista, sintonizaram-se com o primor das canções, da voz e da guitarra, naquilo que se poderá afirmar como o serão perfeito. Um deleite!
quinta-feira, 21 de julho de 2022
JULIA JACKLIN, PRAZER ANTECIPADO!
Gravado no Canadá, país agora adoptivo, as ajudam vieram de músicos locais com ligações aos The Weather Station ou Owen Pallet e que se estendem a actuações ao vivo como as que estão agendadas para a Europa a partir de Novembro. A tour tem término no dia 1 de Dezembro no LAV lisboeta e com primeira parte a cargo da maravilhosa Erin Rae. Exigimos uma extensão nortenha... já!
CAMILLA GEORGE, Matosinhos em Jazz, 17 de Julho de 2022
De Londres têm viajado para o Porto e arredores nos últimos anos uma série de embaixadores de uma onda jazzistica imparável e ainda florescente - Yussef Dayes, Kamaal Williams, Nubya Garcia, Sons of Kemet ou The Comet Is Coming pisaram já palcos diferenciados na dimensão e enquadramento mas começa a ser um must a subida ao coreto centenário (?) do jardim matosinhense, prolongando a tradição nocturna que o bar B-Flat de boa memória manteve e cultivou, durante largos anos, ali ao lado. Joe Armon-Jones (2019) e Alfa Mist, na véspera, já tiveram esse privilégio bem aplaudido e no Domingo passado chegou a hora de Camilla George mostrar o que valia. Sem contemplações, vale muito!
Jogando numa onda mais melodiosa e gingona, muito à custa do groove do baixo e do bailado do Rhodes, o magnífico saxofone alto de George deixou sempre respirar os seus companheiros de palco, confirmando a notável destreza dos seus executantes experimentados a que se acrescentou um baterista malabarista, tudo sem exageros despropositados desde que o resultado se infiltrasse de forma instantânea e natural. Sem a adesão massiva de Sábado, a recepção a tamanha vibração foi, na mesma, motivo de forte aprovação naquilo que parece um hábito salutar de fruição. O que vale Domingo há mais...
quarta-feira, 20 de julho de 2022
SEBASTIEN TELLIER, ALTA COSTURA!
Isto da moda pega-se e Tellier insiste por estes dias nesse mundo do requinte com um outro EP a que chamou "EXTATIC" já disponível para audição completa e que tem em "Mademoiselle" um single grandiloquente com video a roçar o kitch como é seu apanágio. Nele brilha a princesinha Charlotte Casiraghi, filha de Carolina do Mónaco como também se nota/confunde de imediato. Haute couture!
STEVE GUNN, Curtas de Vila do Conde/Stereo, 16 de Julho de 2022
Ao norte-americano Steve Gunn coube, no entanto, algo de inclassificável (narrativa visual meditativa?) da autoria de Stan Brakhage (1933-2003), um experimentador nato de formatos e técnicas que incluíam colagem de fitas, sobre-exposição do filme, repetições insistentes ou até pintura da película. Os seus quatro "Visions in Meditation" (1989-1990), que pairam sobre exteriores de paisagem colorida aumentada nos pormenores, nos significados ou sensibilidades, são, por isso, um terreno irresistível e instável para o alastrar de sonoridades também elas inauditas mas a merecer recorte e testagem prévias.
Notou-se, assim, um cuidado de Gunn em juntar aos acordes de guitarra eléctrica ou acústica uma base firme de loops para tentar manter o espectador fixado ao ecrã enquanto manobrava alguns dos botões e dedilhava, em doses mínimas, as cordas, mas o adiantado da hora e, diga-se, algum vazio sonífero das imagens, pôs-nos a maior parte do tempo de olhos fechados a fruir da cogitação ambiental do fundo sonoro, o que se mostrou, às escuras, uma experiência imersiva bem conseguida e retemperadora. Apeteceu concluir: imagens para quê?
terça-feira, 19 de julho de 2022
ALFA MIST, Matosinhos em Jazz, 16 de Julho de 2022
Depois de falhada a nossa presença no festival "Respira" do Theatro Circo onde Alfa Mist compareceu há cerca de três anos, ora aqui estava uma oportunidade para colmatar essa ausência imperdoável. O mesmo deve ter pensado uma imensidão de curiosos interessados que acorreu em peso ao parque de Matosinhos, ocupando cadeiras, canteiros, relvados e até o próprio alcatrão fronteiro ao coreto, refugiando-se do calor pela sombra das árvores e na expectativa de uma banda sonora à altura para esta verdadeira dádiva de verão.
Longe do rapp e hip hop do início de carreira, Mist pratica agora um jazz quase clássico que o quinteto de imediato começou a debitar para gáudio de uma plateia diversificada e intergeracional que soube bater palmas, à moda antiga, aos solos de bateria, de saxofone ou guitarra que pontuaram quase noventa minutos de tarimba técnica elevada. Para o fazer, causou espanto a destreza e qualidade de músicos tão jovens, alguns deles com carreiras a solo paralelas como é o caso assinalável do guitarrista Jamie Leeming, com disco editado pela casa editora de Mist e que teve direito a uma excelente versão de um dos seus novos temas recebida com ovação. Um surpreendente fim de tarde de partilha calorosa e de afetos penetrantes que o jazz, sendo bom e bem feito, alcança sem dificuldades. Jazz alfa!
segunda-feira, 18 de julho de 2022
WILL SAMSON, Maus Hábitos, Porto, 15 de Julho de 2022
O prometido novo álbum "Active Imagination", que saiu no final de Maio, foi o motivo para a estreia na cidade do Porto do inglês Will Samson, embora as visitas de proximidade (Espinho ou Galiza) tenham já acontecido no passado. O concerto teve palco escurecido e horário apropriado, mas a resposta de público pecou por escassa, reunindo apenas uma vintena de aderentes em formato roda de amigos a que só faltaram uns sofás ou puffs de amparo.
Na companhia de um violinista português, uma parceria ao vivo que a residência no nosso país veio facilitar e ainda em fase de recuperação quanto à prática dos concertos depois de dois anos de inactividade, Samson mostrou-se, mesmo assim, em plena forma na conjugação do falsetto da voz com diversos recursos, da viola ao sintetizador, passando por um prato de bateria e um jogo de efeitos de pés.
Misturando temas novos com algumas maravilhas do disco anterior "Paralanguage", que quase não rodou ao vivo, o serão foi, assim, um género de "dois em um" onde se recordaram as qualidades de "Ochre Alps", "Flowerbed" ou "Calescent" e se deram a conhecer, por exemplo, "Always Meant", "Hostage" ou "A Certain Surprise", recentes provas de uma inquestionável delicadeza sonora que uma inquieta vida de nómada tem inspirado na composição e escrita. Viajar sem sair do lugar é mesmo possível e Samson, guia simpático e ocasional com dez anos de experiência, consegue-o de forma infalível...
FAZ HOJE (18) ANOS #79
. Diário de Notícias, por Marcos Cruz, fotografia de Hernâni Pereira, 20 de Julho de 2004, p. 42
. Público, por Nuno Passos e Inês Nadais, fotografia de Paulo Pimenta, 20 de Julho de 2004, p. 38
. Público, por Nuno Passos e Inês Nadais, fotografia de Paulo Pimenta, 20 de Julho de 2004, p. 39
sábado, 16 de julho de 2022
AGNES OBEL, Theatro Circo, Braga, 12 de Julho de 2022
![]() |
fotografia: facebook da artista |
A conjunção adversativa poderá parecer um capricho destoado mas, lá está, se há falhas a apontar a tamanha perfeição é, precisamente, a falta que fez alguma rudeza e sujidade que, às tantas, nunca transpareceu nas canções que Obel foi compondo há mais de uma década e a que nunca deixamos de deitar atenção agradável. Demasiada nivelada, demasiado metronómica, a música do ensemble resultou num serão exemplar de irrepreensível capacidade técnica, praticada e tocada todas as noites, sem desvios, nos últimos meses e a que corresponde, certamente, um esforço de ensaio e concentração notáveis.
Quando, já no encore, Obel interpretou sozinha "It's Happening Again" sentado ao piano grande com o restante trio na ajuda a capella, o concerto ganhou uma abertura, um feixe de luz, um contraste de brilho ainda maior que não precisava de imagens de fundo para se fazer diferenciar e notar. Quer pela melancolia espalhada, quer pela desconformidade saborosa que pairou nesse momento, esse estorvo e desalinho fez-nos suspirar por uma próxima visita deste verdadeiro anjo dinamarquês... mas sem companhia, a não ser a da sua voz e piano!
sexta-feira, 15 de julho de 2022
INDIGO SPARKE, SURPREENDENTE!
Para trás parece ter ficado, assim, o minimalismo folk com que se deu a conhecer, jogando-se agora numa maior complexidade instrumental de ambiciosa expansão que um primeiro single evidencia - "Pressure In My Chest", que tem video intenso de Madeline Clayton, é surpreendente!
quinta-feira, 14 de julho de 2022
KIRBY + LEON BRIDGES, Auditorio Mar de Vigo, 10 de Julho de 2022
No curriculum de Kirby cabem referências elogiosas a colaborações com Kendrick Lamar ou à escrita de canções para Ariana Grande e Beyoncé. De cabeleira farta e trajando um provocador fato listado, foi, precisamente, da irmã mais velha Knowles que nos lembramos sempre que Kirby circulava na frente de palco em constante interacção com o público interessado e participativo, um género de descontração animada e inocente de resultado entretido como convinha. Pena o sofrível som de sala e ainda estamos para perceber o que fazia o raio de um baixista numa das laterais do palco...
Atendendo ao mais recente álbum "Gold-Diggers Sound", o concerto galego não se previa um corrupio de tradição soul onde uma obrigatória voz-off se faria ouvir já com muitas palmas e gritos: "And now, Mr. Leon Bridges, king of...". Bridges ainda não alcançou nenhum reinado artístico embora em alguns dos tiques e trejeitos em cima do palco tenha transparecido uma leve altivez que o alinhamento foi confirmando mas estreitando.
Calmo, demasiado calmo, o espectáculo entrou numa onda morna arrefecida pela pobreza no acerto da voz e da amplificação, o que não ajudou a que a classe das suas canções se fizesse notar. Esse género de rhytm and blues apurado pela subtileza das líricas perdeu-se ali, na imensidão do espaço, abafado pelos bombos da bateria ou até pelo acompanhamento vocal da dupla de serviço. Não estranha que "Motorbike" ou até "Bad Bad News", por exemplo, se tenham reduzido a uma estranha e distante amálgama comparadas com os originais, mesmo que os técnicos do som tenham, finalmente, começado a pôr em prática aquilo que, supostamente, aprenderam.
No alinhamento escolhido, Bridges não dispensou dois temas gravados com os Khruangbin, por sinal, os mais aclamados e aplaudidos, tendo "Texas Sun", já no encore, funcionado como culminar libertador de muita da energia que o público, finalmente de pé, foi acumulando entre canções que, inexplicavelmente ou não, pareciam demorar a arrancar. Sem reclamarmos de fulgores festivos e respeitando a postura e opção pela contenção, a apatia pareceu-nos propositada na intenção falhada de alcançar uma aclamação qualitativa pelo brilhantismo dos músicos que nem sequer apresentou e que nem "River", como dueto final, permitiu disfarçar. Definitivamente, a juba não faz o leão!
quarta-feira, 13 de julho de 2022
DUETOS IMPROVÁVEIS #261
CHILLY GONZALES & ARIELLE DOMBASLE
Wonderfoule (Gonzales)
Gentle Threat SARL., Julho de 2022
FAZ HOJE (16) ANOS #78
. O Primeiro de Janeiro, por Filinto Melo, fotografia de Cristina P. Pinto, 15 de Julho de 2006, p. 29
. Jornal de Notícias, por Andreia C. Faria, 15 de Julho de 2006, p. 54
terça-feira, 12 de julho de 2022
RYDER THE EAGLE + DEAN WAREHAM, M.Ou.Co., Porto, 9 de Julho de 2022
Sem aviso prévio, o rapazote Ryder The Eagle de fato mexicano, a que só faltava o chapéu de cowboy, entrou no palco, pegou no microfone, carregou no play e não mais parou. No cartaz ou no bilhete não constava o seu nome mas, soube-se logo ali, que era dele a primeira parte da digressão de Wareham pela Europa, repetindo a presença naquele palco onde ainda há dois meses assegurou o aquecimento para Adam Green.
Jogando na interacção, na surpresa, no nonsense, não demorou para esticar o fio até à plateia, vagueando entre os presentes na cantoria de um género de pastiche country-pop-kitch, ratejando-se aos pés de algumas, fitando outras, enquanto cantava sobre divórcio, erecções, namoradas, viagens sem retorno ou traições. O fato, esse, foi desaparecendo até que aterrou em tronco nu na parte superior da mesa de som do fundo da sala, um género de poiso desafiador com que encerrou o rastilho brincalhão a que ninguém ficou indiferente. Esse mérito ninguém lho pode tirar!
O regresso de Dean Wareham ao Porto ao fim de mais de uma década motivou peregrinação de uma geração que mantêm fé e devoção nos Galaxie 500 de boa memória. O motivo, desta vez, incidia na prometida revisitação ao álbum "On Fire" de 1989 o que, efectivamente, se veio a concretizar. Os seus dez temas foram, salvo o erro, escrupulosamente tocadas em notória harmonia com as expectativas dos muitos fãs aderentes mas o concerto teve, no seu início, duas canções do disco a solo do ano passado que provam que a veia da composição flamejante continua irradiante - "The Last Word" e "Robin & Richard" são portentosas na sua perfeição pop e devem merecer, tal como algumas outras de "I Have Nothing To Say To The Mayor Of L.A.”, uma vénia respeitosa.
A noite de reencontro permitiu, por isso, uma ratificação de uma partilha amistosa a que muitos acrescentaram a voz alta das líricas, a imitação dos solos de guitarra ou o shoegaze tardio mas inevitável. Do palco, sem falhas, emergiu a cumplicidade de um quarteto em forma activa, sem excessos de postura ou altivez, que sempre foram a imagem de marca de uma humilde banda multiplicadora de emoções e recordações. Palmas merecidas para eles e ela!
METTE RASMUSSEN TRIO NORTH, Jazz no Parque, Serralves, Porto, 9 de Julho de 2022
A paragem que o tempo pandémico impôs ao frenesim e aos hábitos de muitos artistas serviu, em muitos dos casos, para aquilo que podemos chamar uma actualização. Para Mette Rasmussen, jovem dinamarquesa a residir na Noruega, os dias de isolamento aceleraram um estudo intensivo da música neoclássica e as suas derivações para o novo jazz a merecer projecto novo a que chamou Trio North e que se segue ao anterior Trio Riot, onde vincados riffs rock se estreitavam pela improvisação do seu saxofone. Agora, ao lado dos lendários contrabaixista Ingebrigt Håker Flaten e baterista Olaf Olsen, não se esqueceram essas raizes free e até noise, mas aprimorou-se uma maior sistematização da composição de reivindicação e inspiração ecológica, donde ressalta menos risco mas se acentua uma notória subtileza.
No ténis de Serralves, que apesar da canícula, se compôs numa preenchida plateia, foi com essa renovada inovação que o trio se impôs aos poucos, conjugando uma percussão escondida, quase imperceptível, com uma majestosa incisão do contrabaixo em desafio constante com o saxofone alto. Nos temas escolhidos, na sua totalidade da autoria de Rasmussen, à invulgar estrutura da composição somou-se um género de vendaval expressivo bem distante do delicado e harmonioso groove do jazz clássico, linhas curvas replectas de detalhes e texturas inesperadas e rugosas a que foi preciso estar atento e desperto. Um matriz diferente e arriscada mas a que o público satisfeito, sem rodeios ou tiques de intolerância, aderiu de bom grado.
segunda-feira, 11 de julho de 2022
TIM BERNARDES, VISITA DE OUTONO!
A actual digressão de Tim Bernardes com os Fleet Foxes pelos E.U.A., que vai durar até ao final do mês, parece ter continuação confirmada fora do Brasil lá para o Outono. Para já conhece-se a data de 14 de Outubro, sexta-feira, na Casa da Cultura de Ílhavo, mas certamente outros concertos estarão agendados para mais locais e cidades portuguesas tal como aconteceu em 2019. Já fazia falta...
domingo, 10 de julho de 2022
sábado, 9 de julho de 2022
HOT CHIP, TOCA A DANÇAR!
As temáticas das canções não fogem a esses tempos de incerteza, separação e leve escuridão mas que a união e amizade sobrepôs de forma airosa e animada numa onda a que a banda sempre nos habituou, ou seja, toca a dançar! Os Hot Chip fazem a festa dia 15 de Julho, sexta-feira, no SBSR do Meco, Sesimbra.
sexta-feira, 8 de julho de 2022
DRUGDEALER, UNIDOSE DE REFRESCO!
Quanto a "Madison", o primeiro inédito escrito por Michell Collins aka Drugdealer desde o álbum "Raw Honey" de 2019, a intenção é testar uma nova forma de cantar a la Van Morrison ou Nick Lowe depois de alguma insegurança na colocação da voz mas que a ajuda da amiga Annette Peacock permitiu suplantar para um novo estilo. O respectivo video vintage também ajuda à festa...
quinta-feira, 7 de julho de 2022
EMMA RUTH RUNDLE, Casa da Música, Porto, 6 de Julho de 2022
![]() |
fotografia: facebook da Amplificasom |
No palco, um majestoso piano de cauda centrava uma luminância que, inalterável, dificultou a aproximação da artista ao banco do teclado e ao lado do qual colocou um guitarra acústica. Já sentada, confirmou ao que vinha - entre elogios à cidade, que mais à frente se haveriam de estender ao promotor português ou à beleza da sala mais pequena da CDM, o desígnio seria interpretar de princípio ao fim o referido disco, uma tarefa bem diferente da que apresentou em 2017 na cave do Rivoli de guitarra eléctrica em punho e com alguma rebeldia. Os tempos de incerteza requerem agora o regresso ao instrumento de aprendizagem ao qual se atou, desde logo, com "Return", esse safanão de crueza que nos atirou ao chão quando o passamos a conhecer, para só dele se desligar já no encore com "Pump Organ Song", outra tremura que, apesar de não estar incluída no álbum, é um seu prolongamento sentimental.
Mas o concerto não se quedou por esta camada de encantamento - sempre sentada e respeitando as opções evidenciadas no disco, Rundle foi alternando metodicamente a tal guitarra acústica, que afinou amiúde, para com ela desferir mais alguns golpes de redenção. A este nível, "Blooms of Oblivion" e um cortante "Razor's Edge" haveriam de fixar-nos um curativo emotivo que o silêncio respeitoso da sala adensou na purificação. Se lhe juntarmos a escolha de "Marked for Death" para iniciar o tal encore, mesmo sem sair do lugar por confessada dificuldade de visão (?), será difícil rogar por um melhor serão de dissonância que isto da música, como notado, é também doloroso mas eternamente fascinante...
JOAN SHELLEY, AMIGOS NO ALPENDRE!
O alpendre da casa de Joan Shelley no Ohio americano tem servido nos últimos tempos como local privilegiado para receber amigos músicos que responderam ao convite para realizarem versões de temas do seu último álbum "The Spur", convívio que contou algumas vezes com a ajuda do marido Nathan Salsburg.
Foi o caso de Bonnie "Prince" Billy que escolheu "Home, de Katie Peabody sentada ao teclado (FunMachine) para variar "When the Light is Dying" ou Tamara Lindeman aka The Weather Station que, mesmo já tarde na noite e depois de muita conversa, optou por "Fawn", retribuindo a cortesia da amiga Shelley de Abril passado. Por lá pousaram ainda Heather Summers e Nathan Bowles que podem confirmar por aqui.
terça-feira, 5 de julho de 2022
NICK DRAKE, PERFEITO!
ÓLAFUR ARNALDS POR HANIA RANI!
Em "Some Kind Of Peace - Piano Reworks", disco a sair pela Mercury KX em Outubro, joga-se, por isso, na diversidade das surpresas vindas do jazz, da electrónica ou música ambiental, sendo notórias as contribuições de Alfa Mist, JFDR ou Hania Rani. É da jovem polaca o primeiro avanço com "Woven Song" e com direito a video de 16mm registado no seu apartamento de Varsóvia, sozinha, frágil mas em perfeita serenidade.
O islândes têm regresso marcado ao Porto no dia 14 de Dezembro na Casa da Música, talvez com companhia...
segunda-feira, 4 de julho de 2022
FAROL #146
SUFJAN STEVENS, TRISTE MAS SUBLIME!
O dia de hoje, 4 de Julho, marca a comemoração da independência dos Estados Unidos da América de 1776 mas o país continua a ser uma montanha russa de avanços e retrocessos incompreensíveis quanto à vida ou a morte e os seus dogmas. Em 2015, Sufjan Stevens editou o magnífico álbum "Carrie & Lowell" onde regressou a uma instrumentação menos sofisticada, a lembrar o início de carreira, para expressar, à sua maneira, o lamento pela morte da mãe, ocorrida dois anos antes, e da sua relação com o padrasto Lowell Brams.
Numa das melhores canções desse registo, "Fouth of July", Stevens canta uma conversa com a mãe já na fase terminal e em pleno hospital, tendo sido a inspiração testada em várias versões do tema que experimentou na altura. Desde sexta-feira, dia do seu aniversário, Stevens disponibilizou duas dessas variações inéditas que receberam o nome do estúdio onde se completaram - a “April Base Version” foi gravada no estúdio de Justin Vernon, em Eau Claire, Wisconsin, enquanto a “Dumbo Version” diz respeito ao antigo estúdio do músico em Brooklyn, Nova Iorque. Prometida está a edição pela Asthmatic Kitty de um sete polegadas de vinil vermelho, lá para Dezembro, com imagem de capa alusiva à família evocativa dos dez anos sobre a referida e dolorosa separação....
sexta-feira, 1 de julho de 2022
NA ESFERA DE MIRAMAR!
Surge agora um conjunto de videoclips oficiais para a totalidade dos inéditos pela mão do próprio André Tentúgal e, como cada artista ficou responsável pela respectiva edição em vinil (7", 12" ?), as rodelas começam a estar à venda, o que acontece aos dois temas dos Miramar e JP Simões, já disponíveis na Tubitek e Louie Louie, lojas da baixa portuense. Peças de colecção!
Subscrever:
Mensagens (Atom)





























